
J. K. Rowling

Harry Potter

e os Talisms

da Morte

Traduo de

Alice Rocha, Manuela Madureira, Maria Georgina Segurado e Maria do Carmo Figueira
(Digitalizado por Carlos Lopes e Maria Joo e corrigido por Jos Gameiro)


EDITORIAL PRESENA
FICHA TCNICA

Ttulo original Harry Potter and the Deathly Hallows

Autora J K Rowling

Copynght G 2007 J K Rowling

Harry Potter e todos os personagens e elementos relacionados so marcas registadas de

(c) Warner Bros Entertamment Inc , 2007

Traduo (c) Editorial Presena, Lisboa, 2007

Traduo Alice Rocha, Manuela Madureira, Maria Georgma Segurado e Maria do Carmo Figueira

Coordenao da traduo Servios de Reviso da Editorial Presena

Capa Ilustrao de Mary GrandPr (c) 2007 by Wamer Bros

Pr-impresso, impresso e acabamento Multitipo - Artes Grfica':, Lda

1 ' edio, Lisboa, Outubro, 2007

Depsito legal n  263 869/07

Reservados todos os direitos

para Portugal e pases africanos lusfonos 

EDITORIAL PRESENA

Estrada das Palmeiras, 59

Queluz de Baixo

2730-132 BARCARENA

Email mfo@presenca pt

Internet http //www presenca.pt

A dedicatria

deste livro tem

sete destinatrios: o Neil, ajessica, o David, a Kenzie, a Di, a Anne, e vocs, leitores,

caso tenham

permanecido fiis

ao Harry at ao fim.
 castigos ingnitos, sangrento e inominvel golpe do infortnio! Ai, lamentveis e terrveis lutos! Ai a dor irrefrevel!

 no interior do Palcio, e no fora dele, vindo no

de estranhos, mas de quem o habita, que est o blsamo para estas feridas, atravs de uma luta funesta e sangrenta.  para os deuses subterrneos, este Hino!

Ouvi ento esta splica,  abenoados deuses da terra, e de boa vontade enviai a estas crianas o auxlio que lhes garanta a vitria!

Esquilo, Os Portadores da Libao

A morte  apenas uma travessia do mundo, como os amigos atravessam os mares. Continuam a viver uns nos outros, pois no podem deixar de estar presentes, para que 
amem e vivam no que  omnipresente. Neste espelho divino, vem-se face a face e a sua conversa  livre, para alm de pura.  este o consolo dos amigos: embora sejam 
mortais, a sua amizade e companhia esto todavia, no melhor dos sentidos, sempre presentes, porque imortais.

William Penn, More Fruits of Solitude


A ASCENSO DO SENHOR DAS TREVAS

Os dois homens apareceram vindos do nada, a escassos metros de distncia na vereda estreita e iluminada pelo luar. Por breves instantes, deixaram-se ficar imveis, 
as varinhas apontadas ao peito um do outro; depois, quando se reconheceram, guardaram-nas por baixo dos respectivos mantos e encaminharam-se rapidamente na mesma 
direco.

- Trazes novidades? - perguntou o mais alto dos dois.

- Melhores no podiam ser - respondeu Severus Snape. A vereda era ladeada  esquerda por silvas rasteiras e,  direita,

por uma sebe alta e muito bem cuidada. Os mantos compridos dos homens flutuavam-lhes em volta dos tornozelos  medida que avanavam.

- Tive receio de chegar atrasado - disse Yaxley, as suas feies grosseiras aparecendo e desaparecendo  medida que os galhos sobranceiros das rvores escondiam 
o luar. - Foi um pouco mais difcil do que eu estava  espera, mas espero que ele fique satisfeito. Ests confiante de que vamos ser bem recebidos?

Snape assentiu com a cabea, mas no se alongou. Viraram  direita, para um amplo acesso que ia desembocar na vereda. A curva da sebe alta acompanhou-os, estendendo-se 
para l do imponente porto de ferro forjado, impedia a passagem dos homens. Nenhum deles interrompeu a marcha: em silncio, elevaram o brao esquerdo  laia de 
saudao, e atravessaram-no de imediato como se o metal negro no passasse de fumo.

As sebes de teixo abafavam o rudo dos passos dos homens. Ouviram restolhar algures  sua direita: Yaxley empunhou novamente a varinha, apontando-a por cima da cabea 
do companheiro; contudo, a origem do barulho revelou ser apenas um pavo de um branco imaculado, que se exibia majestosamente pelo alto da sebe.

- O Lucius sempre se tratou bem. Paves... - Yaxley tornou a guardar a varinha debaixo do manto com uma exclamao de desdm.

11

Uma bela casa senhorial surgiu da escurido no final do acesso em linha recta, as luzes reluzindo nas vidraas em forma de losango do rs-do-cho. Algures no jardim 
envolto na escurido por detrs da sebe, ouvia-se uma fonte a murmurar. A gravilha estalejava debaixo dos seus ps  medida que Snape e Yaxley se apressavam para 
a porta da frente, que se abriu completamente  sua aproximao, embora no se visse ningum que a pudesse ter aberto. O hall de entrada era amplo, mal iluminado 
e decorado com sumptuosidade, com um magnfico tapete que cobria grande parte do pavimento de pedra. Os olhos dos rostos plidos dos retratos pendurados nas paredes 
seguiram Snape e Yaxley  sua passagem. Ambos se detiveram perante uma pesada porta de madeira que conduzia  sala contgua, hesitaram por um breve instante, e ento 
Snape fez girar a maaneta de bronze.

A sala de estar estava repleta de gente silenciosa, sentada a uma mesa comprida e adtomada O mobilirio habitual da sala havia sido descuidadamente encostado s 
paredes. A iluminao provinha do lume vivo duma bela lareira de mrmore coroada por um espelho dourado. Snape e Yaxley deixaram-se ficar um momento  soleira.  
medida que os seus olhos se habituavam  penumbra, foram atrados para o alto, para o aspecto mais estranho do cenrio: um vulto humano, aparentemente inconsciente, 
pendurado de cabea para baixo por cima da mesa, girando lentamente como se estivesse suspenso de uma corda invisvel, e que se reflectia no espelho e na superfcie 
despida e polida da mesa. Nenhuma das pessoas sentadas por baixo desta estranha cena olhava para ele,  excepo de um jovem plido que se encontrava praticamente 
por baixo. De quando em vez, parecia no resistir a deitar uma olhadela para cima.

- Yaxley, Snape - alertou uma voz alta e lmpida  cabeceira da mesa - Por pouco no chegavam atrasados.

O interlocutor achava-se sentado mesmo de frente para a lareira, de modo que, a princpio, os recm-chegados apenas lhe conseguiram distinguir a silhueta. Quando 
se aproximaram, porm, o seu rosto iluminou-se na penumbra, calvo, semelhante a uma serpente, com fendas no lugar das narinas e olhos vermelhos refulgentes com pupilas 
verticais. Era to plido que dava a impresso de emitir uma aura perlada.

- Severus, chega aqui - ordenou Voldemort, indicando uma cadeira imediatamente  sua direita. - Yaxley... ao lado do Dolohov.

12

Os dois homens ocuparam os respectivos lugares. A maior parte dos olhares em redor da mesa concentraram-se em Snape, e foi a ele que Voldemort comeou por se dirigir

- E ento?

- Meu Senhor, a Ordem da Fnix pretende retirar o Harry Potter do seu presente esconderijo no prximo sbado, ao anoitecer.

O interesse em volta da mesa acicatou-se de forma palpvel, alguns retesaram-se, outros remexeram-se nos assentos, todos de olhos fixos em Snape e Voldemort.

- Sbado . ao anoitecer - reiterou Voldemort. Os seus olhos vermelhos cravaram-se nos olhos negros de Snape com uma intensidade tal que alguns dos presentes viraram 
a cabea, aparentemente receosos de que eles prprios fossem chamuscados pela ferocidade daquele olhar. Snape, porm, fitou calmamente o rosto de Voldemort e, ao 
fim de uns instantes, a boca desprovida de lbios de Voldemort curvou-se numa amostra de sorriso.

- ptimo. ptimo. E essa informao veio...

- Das fontes de que falmos - esclareceu Snape

- Meu Senhor.

Yaxley debruara-se para olhar para Voldemort e Snape, ao fundo da comprida mesa Todos os rostos se voltaram para ele.

- Meu Senhor, a mim chegou-me outra informao. Yaxley aguardou, mas Voldemort no disse nada e, assim, ele

prosseguiu: - O Dawlish, o Auror, deixou escapar que o Potter s vai ser transferido na noite do dia trinta, na vspera de completar dezassete anos. Snape sorria

- A minha fonte afianou-me que existem planos para lanar uma pista falsa; deve ser esse o caso. O Dawlish deve ter sido seguramente vtima de um Encantamento Confundus. 
No seria a primeira vez, ele tem fama de ser susceptvel.

- Garanto-lhe, meu Senhor, que o Dawlish se mostrou bastante convicto - insistiu Yaxley.

- Se foi Confundido, outra coisa no seria de esperar - retorquiu Snape - Garanto-te a ti, Yaxley, que o Departamento dos Aurors no desempenhar qualquer papel 
adicional na proteco do Harry Potter. A Ordem est convencida de que nos infiltrmos no Ministrio.

- Pelo menos nisso acertaram, no foi? - comentou um homem atarracado sentado a curta distncia de Yaxley, soltando

13

uma gargalhada ofegante que foi secundada aqui e ali ao longo da mesa

Voldemort no se riu. O seu olhar desviara-se para o alto, para o corpo que girava lentamente por cima da sua cabea, e parecia perdido em pensamentos.

- Meu Senhor - continuou Yaxley -, o Dawlish acredita que uma equipa inteira de Aurors vai ser utilizada na transferncia do rapaz...

Voldemort ergueu uma mo grande e lvida, e Yaxley calou-se de imediato, ficando a ver, melindrado, a ateno de Voldemort a concentrar-se novamente em Snape

- E onde  que eles vo esconder o rapaz depois?

- Em casa de um dos membros da Ordem - afirmou Snape - O local, de acordo com a fonte, foi protegido de todas as formas possveis ao alcance da Ordem e do Ministrio. 
Julgo que, depois de ele l estar, nos ser praticamente impossvel atingi-lo, meu Senhor, a menos que,  claro, o Ministrio caia at sbado, o que talvez nos desse 
oportunidade de desfazer encantamentos suficientes para conseguirmos ultrapassar os restantes.

- E ento, Yaxley? - Voldemort chamou-o da cabeceira da mesa, a luz da lareira cintilando estranhamente nos seus olhos vermelhos. - Ser que no prximo sbado o 
Ministrio j ter cado?

Mais uma vez, todas as cabeas se viraram. Yaxley endireitou os ombros.

- Meu Senhor, tenho boas notcias a esse respeito Eu... com dificuldade e grande esforo... consegui lanar a Maldio Imperius sobre o Pius Thicknesse.

Muitos dos que se achavam sentados em redor de Yaxley se mostraram impressionados; o seu vizinho, Dolohov, um homem com um rosto comprido e contorcido, assestou-lhe 
uma palmada nas costas.

- J  um comeo - reconheceu Voldemort. - Mas o Thicknesse  apenas um homem. Antes de eu agir, o Scrimgeour tem de estar rodeado de gente nossa. Um atentado frustrado 
contra a vida do Ministro obrigar-me-ia a um grande retrocesso.

- Sim... meu Senhor, isso  verdade... mas sabe, enquanto Chefe do Departamento de Execuo da Lei Mgica, o Thicknesse tem contactos regulares no apenas com o 
prprio Ministro, como tambm com os chefes de todos os outros departamentos do Ministrio. Estou convencido de que, agora que temos um

14

funcionrio de alta patente sob o nosso poder, nos ser fcil subjugarmos outros, e depois eles podem unir-se para derrubar o Scrimgeour.

- Desde que o nosso amigo Thicknesse no seja desmascarado antes de convertermos os restantes - acrescentou Voldemort. - Seja como for,  pouco provvel que o Ministrio 
seja meu antes do prximo sbado. Se no conseguirmos atingir o rapaz no seu destino, ento teremos de faz-lo durante o trajecto.

- A, estamos em vantagem, meu Senhor - disse Yaxley, que parecia determinado a receber aprovao, por pouca que fosse. - Neste momento, temos vrias pessoas colocadas 
no Departamento de Transporte Mgico. Se o Potter Aparecer ou usar a Rede de P de Floo, seremos de imediato informados.

- Ele no far nada disso - observou Snape. - A Ordem vai evitar qualquer forma de transporte que seja controlada ou regulada pelo Ministrio, eles desconfiam de 
tudo o que tenha que ver com esse stio.

- Tanto melhor - disse Voldemort - Ele vai ter de sair s claras. Ser de longe mais fcil de apanhar

Mais uma vez, Voldemort ergueu o olhar para o corpo que girava lentamente, enquanto prosseguia: - Eu encarregar-me-ei pessoalmente do rapaz. Tm ocorrido demasiados 
erros no que ao Harry Potter diz respeito. Alguns, tenho de reconhecer que foram cometidos por mim prprio. O facto de o Potter ainda estar vivo deve-se mais aos 
meus erros que s suas vitrias.

O grupo reunido  mesa observou Voldemort com expresses apreensivas, todos eles receosos de lhes poderem ser assacadas culpas pela existncia prolongada de Harry 
Potter. Voldemort, porm, parecia estar a falar mais para si prprio que com qualquer deles, continuando a dirigir-se ao corpo inconsciente pendurado acima dele.

- Dada a minha negligncia, tenho sido contrariado pela sorte e pela fortuna, que s no arruinam os planos mais bem concebidos. Mas agora sei mais do que sabia 
antes. Compreendo coisas que antes no compreendia. Cabe-me a mim matar o Harry Potter, e assim ser.

Perante estas palavras, aparentemente em sinal de resposta, ouviu-se um sbito lamento, um grito prolongado de angstia e sofrimento. Muitos dos que estavam  mesa 
baixaram os olhos, assustados, pois o gemido parecia provir de debaixo dos seus ps.

- Wormtail - disse Voldemort, sem a mais pequena alterao ao seu tom de voz calmo e pensativo e sem desviar os olhos

15

do corpo que girava pendurado do tecto -, no te avisei para manteres o nosso prisioneiro sossegado'

- Sim, m-meu Senhor - arquejou um homem de baixa estatura a meio comprimento da mesa, que estivera to enfiado na cadeira que,  primeira vista, esta parecia desocupada 
Agora,  levantava-se atabalhoadamente e saa disparado da sala, deixando atrs de si apenas um curioso brilho prateado

- Tal como eu estava a dizer - continuou Voldemort, deitando novo olhar s expresses tensas dos seus sequazes -, agora compreendo melhor. Por exemplo, antes de 
ir matar o Potter, vou precisar de pedir uma varinha emprestada a um de vocs.

Os rostos  sua volta limitaram-se a revelar choque, at parecia que ele anunciara que lhes queria pedir um brao emprestado.

- No h voluntrios' - inquiriu Voldemort. - Vejamos. . Lucius, no vejo motivo para que continues a ter varinha

Lucius Malfoy ergueu o olhar.  luz da lareira, a sua pele tinha um aspecto cerceo e amarelado, e os olhos achavam-se encovados e olheirentos. Quando falou, foi 
com voz rouca.

- Meu Senhor?

- A tua varinha, Lucius. Exijo-te que me entregues a tua varinha.

- Eu...

Malfoy deitou uma olhadela de vis  mulher. Esta olhava fixamente em frente, quase to plida como o marido, com o cabelo louro comprido a cair-lhe pelas costas, 
contudo, por baixo da mesa, os seus dedos esguios apertaram-lhe momentaneamente o pulso. Ao sentir o toque dela, Malfoy enfiou a mo dentro do manto, retirou a varinha 
e passou-a a Voldemort, que a empunhou diante dos seus olhos vermelhos e a examinou atentamente.

- De que madeira  feita?

- De ulmeiro, meu Senhor - respondeu Malfoy num sussurro abafado.

- E o ncleo?

- De drago. . tendo de corao de drago.

- ptimo - congratulou-se Voldemort Puxou da sua prpria varinha e comparou o comprimento de ambas

Lucius Malfoy fez um movimento involuntrio; por uma fraco de segundo, deu a impresso de estar  espera de receber a varinha de Voldemort em troca da sua. O gesto 
no passou despercebido ao amo, cujos olhos se arregalaram maliciosamente.

- Dar-te a minha varinha, Lucius? A minha prpria varinha? Entre os presentes, ouviram-se alguns risos abafados.

- Eu concedi-te a liberdade, Lucius, ser que isso no  suficiente? Mas tenho reparado que ultimamente tu e a tua famlia no andam nada satisfeitos... O que  
que na minha presena em tua casa te desagrada, Lucius?

- Nada... nada, meu Senhor!

- Mentiras para qu, Lucius'

A voz baixa parecia continuar a sibilar mesmo depois de os lbios cruis terem deixado de se mexer Um ou outro dos feiticeiros reprimiu a custo um arrepio  medida 
que o silvo aumentava de intensidade; alguma coisa pesada vinha a deslizar pelo cho por baixo da mesa.

A enorme serpente surgiu e rastejou lentamente para a cadeira de Voldemort. Ergueu-se, aparentemente sem fim, e instalou-se sobre os ombros do dono; o pescoo era 
da grossura da coxa de um homem; os olhos, com fissuras verticais a fazer de pupilas, mantinham-se imveis. Voldemort acariciou a criatura abstraidamente com os 
dedos compridos e finos, sem desviar o olhar de Lucius Malfoy.

- Por que razo os Malfoy se mostram to descontentes com a sua sina? No ser o meu regresso, a minha ascenso ao poder, precisamente o desejo que manifestaram 
durante tantos anos'

- com certeza, meu Senhor - asseverou Lucius Malfoy. A mo tremeu-lhe ao limpar a transpirao do lbio inferior. - Foi de facto esse o nosso desejo... e continua 
a ser

 esquerda de Malfoy, a mulher esboou um assentimento de cabea estranho e rgido, sem olhar para Voldemort e para a serpente.  sua direita, Draco, o filho, que 
estivera a fitar o corpo inerte por cima da sua cabea, deitou uma olhadela a Voldemort, mas de imediato afastou o olhar, receoso do contacto visual

- Meu Senhor - interveio uma mulher morena sentada a meio comprimento da mesa, a voz embargada de emoo -,  uma honra t-lo aqui, em casa da nossa famlia. No 
poderia ser-nos concedido maior prazer

Estava sentada ao lado da irm, to diferente dela em aparncia, com o seu cabelo escuro e plpebras pesadas, como era em atitude e porte, enquanto Narcissa se achava 
sentada com ar rgido e impvido, Bellatrix debruava-se na direco de Voldemort, pois meras palavras eram insuficientes para demonstrar a sua nsia de proximidade.



16

17

- No poderia ser-nos concedido maior prazer - ecoou Voldemort, com a cabea ligeiramente inclinada para um dos lados enquanto observava Bellatrix. - Isso significa 
muito, vindo de ti, Bellatrix.

O rubor subiu-lhe ao rosto e os seus olhos mundaram-se com lgrimas de alegria.

- O meu Senhor sabe que eu me limito a dizer a verdade!

- No poderia ser-nos concedido maior prazer... mesmo se comparado com o feliz acontecimento que, segundo me chegou aos ouvidos, ocorreu na vossa famlia este fim-de-semana?

Ela ficou a olhar para ele, os lbios entreabertos, obviamente perplexa.

- No sei ao que se refere, meu Senhor.

- Estou a falar da tua sobrinha, Bellatrix. E da vossa, Lucius e Narcissa. Ela acabou de se casar com aquele lobisomem, o Remus Lupin. Devem estar orgulhosssimos.

Em volta da mesa, deu-se uma exploso de gargalhadas de troa. Muitos mclinaram-se para a frente para trocarem olhares de satisfao; outros bateram na mesa com 
os punhos fechados. A grande serpente, descontente com a algazarra, abriu muito a boca e silvou, zangada, mas os Devoradores da Morte no a ouviram, tal era o seu 
regozijo perante a humilhao dos Malfoy. O rosto de Bellatrix, que havia ainda pouco se achava ruborizado de alegria, cobriu-se de feias manchas vermelhas.

- Ela no  nossa sobrinha, meu Senhor - gritou acima da erupo de hilaridade. - Ns... eu e a Narcissa... nunca mais pusemos a vista em cima da nossa irm desde 
que ela se casou com o Sangue de Lama. Essa fedelha no tem nada que ver com nenhuma de ns, e muito menos aquela criatura com quem ela se foi casar

- Ento e tu, Draco? - interrogou-o Voldemort, e, embora a sua voz fosse baixa, sobrepunha-se nitidamente aos apupos e  chacota. - J te ofereceste para tomar conta 
das crias?

As gargalhadas subiram de ttom; Draco Malfoy lanou um olhar aterrorizado ao pai, que estava de olhos fixos no colo, e em seguida dirigiu a sua ateno para a me. 
Esta abanou a cabea de forma quase imperceptvel, mas logo tornou a fixar o olhar impvido na parede diante de si.

- J chega - declarou Voldemort, afagando a serpente zangada. - Basta.

E as gargalhadas foram de imediato silenciadas.

18

-  frequente algumas das rvores genealgicas mais antigas degenerarem um pouco com o tempo - afirmou, e Bellatrix fitou-o, de respirao suspensa e ar suplicante. 
- De quando em vez, temos de pod-las, no  verdade' Cortar os galhos que ameaam a sade dos restantes.

- Sem dvida, meu Senhor - assentiu Bellatrix num murmrio, e os seus olhos banharam-se novamente de lgrimas de gratido. - Logo que surja a oportunidade!

- Que surgir, seguramente - declarou Voldemort. - Tanto na tua famlia, como no mundo. . Haveremos de extirpar os fungos que nos infectam at que apenas restem 
aqueles que possuem sangue genuinamente puro...

Voldemort empunhou a varinha de Lucius Malfoy, apontou-a directamente ao corpo que girava lentamente suspenso por cima da mesa e agitou-a ligeiramente. Este recuperou 
a conscincia com um gemido e comeou a debater-se contra cordas invisveis.

- Ests a reconhecer a nossa convidada, Severus? - perguntou-lhe Voldemort.

Snape ergueu os olhos para o rosto virado ao contrrio. Agora todos os Devoradores da Morte estavam de olhos postos na prisioneira, como se lhes tivesse sido dada 
autorizao para revelarem curiosidade. No momento em que se virava de frente para a lareira, a mulher disse, em voz entrecortada de terror: - Severus! Ajude-me!

- Ah,  claro - anuiu Snape, enquanto a prisioneira continuava a girar lentamente

- E tu, Draco? - indagou Voldemort, acariciando o focinho da serpente com a mo que tinha livre Draco sacudiu a cabea abruptamente. Agora que a mulher viera a si, 
parecia faltar-lhe a coragem para continuar a olhar para ela.

- Mas tu no terias aulas com ela - disse Voldemort. - Para aqueles de entre vocs que no sabem, contamos esta noite com a presena de Charity Burbage, que, at 
recentemente, deu aulas na Escola de Magia e Feitiaria de Hogwarts.

Ouviram-se leves murmrios de compreenso em volta da mesa. Uma mulher avantajada, bastante curvada e de dentes aguados soltou uma casquinada.

-  verdade... a Professora Burbage ensinou aos filhos dos feiticeiros tudo a respeito dos Muggles... que eles no so assim to diferentes de ns quanto se possa 
pensar...

Um dos Devoradores da Morte cuspiu para o cho. Charity Burbage tornou a ficar virada de frente para Snape.

19

- Severus . por favor. . por favor...

- Silncio - ordenou Voldemort dando outro safano com a varinha de Malfoy, e Chanty calou-se como se a tivessem amordaado. - No contente com corromper e poluir 
as mentes das crianas feiticeiras, na semana passada a Professora Burbage escreveu uma apologia apaixonada dos Sangues de Lama no Profeta Dirio. Os feiticeiros, 
advoga ela, devem aceitar estes ladres dos seus conhecimentos e magia. A degenerao dos puros-sangues, , na opinio da Professora Burbage, uma circunstncia altamente 
desejvel . Por vontade dela, todos ns acasalaramos com Muggles .. ou, sem dvida, com lobisomens..

Desta feita, ningum se riu: a indignao e o desprezo na voz de Voldemort eram mdisfarveis Pela terceira vez, Charity Burbage ficou voltada para Snape. As lgrimas 
caam-lhe em abundncia e molhavam-lhe o cabelo. Snape devolveu-lhe o olhar, perfeitamente impassvel, enquanto ela se ttomava a afastar lentamente dele.

- Avaa Kedavra.

O raio de luz verde iluminou por completo a sala. com um estrondo retumbante, Chanty tombou sobre a mesa, que estremeceu e rangeu. Vrios Devoradores da Morte deram 
um pulo nas cadeiras. Draco caiu da sua e estatelou-se no cho.

- Hora do jantar, Nagini - disse Voldemort em voz melflua, e a grande serpente deslizou dos seus ombros para o tampo de madeira polida.

20

II

EM MEMRIA DE DUMBLEDORE

Harry estava a sangrar. com a mo esquerda agarrada  direita e praguejando entre dentes, abriu a porta do quarto com a ajuda dum ombro. Ouviu-se um rudo de porcelana 
a ser esmigalhada debaixo dos seus ps: acabara de pisar uma chvena de ch frio que estava no cho  porta do quarto.

- Mas que...?

Olhou em seu redor; o patamar do nmero quatro de Privet Drive achava-se deserto. Talvez a chvena de ch fosse a ideia que Dudley tinha de como se pregava uma partida 
a um tolo. com a mo a sangrar ao alto, Harry juntou os cacos da chvena com a outra mo e atirou-os para o caixote j atafulhado de lixo do seu quarto que se entrevia 
da porta. Em seguida dirigiu-se  casa de banho para pr o dedo debaixo de gua corrente.

Era estpido, intil e inacreditavelmente irritante que ainda tivesse pela frente quatro dias sem ter autorizao para fazer magia. Contudo, viu-se forado a admitir 
que esta de nada serviria contra aquele golpe profundo. Nunca lhe tinham ensinado a curar feridas e, agora que pensava nisso - sobretudo  luz dos seus planos mais 
imediatos -, pareceu-lhe tratar-se duma sria lacuna na sua educao mgica. Tomando mentalmente nota para perguntar a Hermione como se fazia, serviu-se dum grande 
chumao de papel higinico para absorver o ch o melhor que pde, antes de regressar ao quarto e bater com a porta.

Passara toda a manh a esvaziar o seu malo da escola pela primeira vez desde que o enchera, j l iam seis anos. Nos anos de permeio, limitara-se a retirar os trs 
quartos de cima do contedo e a substitu-los ou a actualiz-los, deixando uma camada de tralha de natureza variada no fundo - penas velhas, olhos dessecados de 
escaravelhos e meias desirmanadas que j no lhe serviam. Havia uns minutos, Harry mergulhara uma mo naquele esterco, sentindo uma dor acutilante no anelar da mo 
direita e, quando a retirou, viu que sangrava abundantemente

21

Procedia agora com mais cautela Ajoelhando-se uma vez mais diante do malo, comeou s apalpadelas ao fundo e encontrou um velho crach que tremeluzia tenuemente 
entre Apoiem CEDRIC DIGGORY e O POTTER METE NOJO, um Avisoscpio rachado e muito gasto, e um medalho de ouro dentro do qual algum escondera um bilhete assinado 
com as iniciais R A B. Descobriu por fim a aresta aguada onde se magoara. Reconheceu-a de imediato Era um fragmento com cinco centmetros de comprimento do espelho 
encantado que o seu falecido padrinho, Sirius, lhe oferecera. Harry p-lo de lado e tacteou cuidadosamente no fundo do malo  procura do resto, mas tudo o que sobrava 
do ltimo presente do padrinho era vidro em p, que estava agarrado  camada mais funda da tralha como areia brilhante

Harry endireitou-se e examinou o estilhao aguado onde se cortara, no vendo nada para alm do reflexo de um dos seus prprios olhos verdes Em seguida pousou o 
fragmento em cima d' O Profeta Dirio dessa manh, que se encontrava em cima da cama ainda por ler, e esforou-se por conter uma sbita onda de recordaes amargas, 
pontadas de mgoa e saudade causadas pela descoberta do espelho partido, atirando-se ao resto da tralha dentro do malo

Demorou mais uma hora at o esvaziar por completo, deitar fora o que j no prestava e separar os restantes objectos em pilhas, consoante fosse ou no precisar deles 
da em diante O seu uniforme da escola e o de Quidditch, o caldeiro, os pergaminhos, as penas e a maior parte dos livros de estudo foram amontoados a um canto, 
para serem arrumados Interrogou-se que fim lhes iriam dar os tios, queim-los a altas horas da noite, provavelmente, como se constitussem provas dalgum crime hediondo 
As suas roupas de Muggle, o Manto da Invisibilidade, o kit de fazer poes, certos livros, o lbum de fotografias que Hagrid em tempos lhe oferecera, um molho de 
cartas e a sua varinha foram guardados dentro duma velha mochila Num dos bolsos da parte da frente, arrumou o Mapa dos Salteadores e o medalho com o bilhete assinado 
RAB. O medalho teve direito a esse lugar de honra no porque fosse valioso - era intil fosse de que perspectiva fosse -, mas pelo alto custo da sua obteno

Restava-lhe uma pilha de jornais em cima da secretria ao lado da sua coruja-das-neves, Hedwig cada um correspondente a um dia que Harry passara em Privet Drive 
nesse Vero

22

Levantou-se do cho, espreguiou-se e dirigiu-se  secretria Hedwig permaneceu imvel enquanto ele fazia uma escolha aos jornais, atirando-os, um a um para o monte 
do lixo.   A coruja ou estava a dormir, ou ento fingia que dormia, estava zangada com Harry por causa do tempo limitado que este presentemente lhe permitia sair 
da gaiola

Quando chegava ao fim da pilha de jornais, abrandou,  procura de um determinado exemplar que sabia ter sido publicado pouco depois da sua vinda para Privet Drive, 
para a passar o Vero, recordava-se de ter visto uma breve referncia na primeira pgina relativamente  demisso de Charity Burbage, a professora de Estudos Sobre 
Muggles em Hogwarts. Por fim, l o encontrou Foi para a pgina dez e sentou-se  secretria a reler o artigo de que andara  procura

EM MEMRIA DE ALBUS DUMBLEDORE por Elphias Doge

Conheci o Albus Dumbledore aos onze anos de idade, no nosso primeiro dia em Hogwarts. A atraco mtua que se criou entre ns deveu-se indubitavelmente ao facto 
de ambos nos sentirmos como estranhos. Eu contrara draguola pouco tempo antes de chegar  escola e, apesar de j no oferecer perigo de contgio, o meu rosto com 
marcas de bexigas e a minha tonalidade esverdeada no encorajavam os outros a aproximarem-se de mim. Pela parte que lhe tocava, o Albus chegara a Hogwarts sob o 
fardo da fama mdesejada Ainda malfizera um ano, o pai, Percival, fora condenado devido a um brutal e amplamente noticiado ataque contra trs jovens Muggles

O Albus nunca procurou negar que o pai (que acabaria por morrer em Azkaban) cometera semelhante crime, muito pelo contrrio, quando consegui reunir coragem para 
lhe perguntar, assegurou-me de que estava convencido da culpa dopai. Para alm disso, e no obstante muitos insistirem com ele para que o fizesse, o Dumbledore recusou-se 
a alongar-se sobre o triste acontecimento Havia mesmo, alis, quem estivesse disposto a elogiar a aco do pai, partindo do princpio de que tambm ele, Dumbledore, 
era inimigo dos Muggles. No poderiam ter estado mais enganados como qualquer pessoa que conhecesse o Dumbledore poderia testemunhar, ele nunca revelou a mais remota 
tendncia anti-Muggle Alis, o seu apoio determinado a favor dos direitos dos Muggles haveria de lhe conquistar muitos inimigos nos anos subsequentes

Numa questo de meses, contudo, seria a prpria fama do Albus a eclipsar a do pai No final do terceiro ano, deixaria para sempre de

23

ser conhecido como o filho do inimigo dos Muggles, para passar a ser considerado, nada mais, nada menos, o aluno mais brilhante que algum dia frequentara aquela 
escola. Aqueles de entre ns que tiveram o privilgio de contar com a sua amizade tiraram proveito do seu exemplo, para no mencionar a sua ajuda e o seu encorajamento, 
que ele dispensava sempre com generosidade. Numa fase posterior da sua vida, haveria de me confessar que j nessa altura sabia que nada lhe dava mais prazer que 
o ensino.

No apenas conquistou todos os prmios dignos de nota que a escola proporcionava, como no tardou a trocar correspondncia regular com os nomes mais notveis do 
mundo mgico da poca, incluindo Nicolas Flamel, o clebre alquimista, Bathilda Bagshot, a historiadora de renome, e Adalbert Wqffling, o terico da magia. Alguns 
dos seus ensaios foram publicados em peridicos como Transfigurao Hoje, Desafios da Magia e O Guia Prtico das Poes. A futura carreira do Dumbledore prometia 
ser meterica e a nica dvida que restava era quando seria nomeado Ministro da Magia. Embora nos anos sucessivos fossem vrias as previses de que estaria prestes 
a assumir o cargo, ele nunca alimentou ambies ministeriais.

Trs anos depois de termos chegado a Hogwarts, o irmo do Albus, Aberforth, ingressou na escola. No eram parecidos: o Aberforth nunca foi dado aos estudos e, ao 
contrrio do Albus, preferia resolver as discusses atravs de duelos ao invs de argumentao racional. Todavia, ser ir longe de mais sugerir, como j aconteceu, 
que os dois irmos no eram amigos. Davam-se to bem como dois rapazes to diferentes se poderiam dar. Justia seja feita ao Aberforth, no podemos deixar de reconhecer 
que viver  sombra do Albus no deve ter sido de todo uma experincia fcil. Ser continuamente ultrapassado em excelncia era o risco que advinha de ser seu amigo 
e, para o irmo, a experincia no deve ter sido muito agradvel.

Quando o Albus e eu abandonmos Hogwarts, tencionvamos fazer a viagem pelo mundo que na poca era tradio, visitando e observando feiticeiros estrangeiros antes 
de cada um dar inicio  respectiva carreira. Todavia, a tragdia interps-se aos nossos planos. Na prpria vspera da nossa partida, a me do Albus, Kendra, faleceu, 
deixando-o como chefe, e nico ganha-po, da famlia. Eu adiei a minha partida o tempo suficiente para poder comparecer no funeral e prestar a minha ltima homenagem 
 Kendra, partindo em seguida para o que seria ento uma viagem solitria. com um irmo mais novo e uma irm a seu cargo, e pouco ouro disponvel, estava fora de 
questo que o Albus pudesse acompanhar-me.

24

Foi esse o perodo das nossas vidas durante o qual mantivemos menor contacto. Escrevi ao Albus, descrevendo-lhe, talvez com alguma falta de sensibilidade da minha 
parte, as maravilhas da minha viagem, desde fugas por um triz a Quimeras na Grcia, at s experincias dos alquimistas egpcios. As suas cartas pouco me davam a 
conhecer da sua vida quotidiana, que eu imaginava de uma frustrao enfadonha para um feiticeiro da sua craveira. Embrenhado nas minhas prprias experincias, foi 
com horror que ouvi, j perto do fim do meu ano de viagem, que nova tragdia havia atingido os Dumbledore: a morte da irm, Ariana.

Embora a sade da Ariana j se encontrasse debilitada havia muito tempo, o golpe, decorrido to pouco tempo sobre a perda da me, teve um profundo efeito em ambos 
os irmos. Todas as pessoas mais chegadas ao Albus - e eu incluo-me entre o afortunado nmero - so unnimes em considerar que a morte da Ariana e a responsabilidade 
que o Albus sentia caber-lhe no sucedido (apesar de, obviamente, ele estar isento de qualquer culpa) lhe deixariam uma marca para toda a vida.

Regressei a casa e deparei-me com um jovem que vivenciara o sofrimento prprio duma pessoa muito mais velha. Encontrei o Albus mais reservado que antes e muito menos 
despreocupado. A contribuir para o seu desgosto, a morte da Ariana no conduzira a uma proximidade renovada entre o Albus e o Aberforth, mas antes se traduzira num 
distanciamento. (Que, com o tempo, haveria de ser sanado - posteriormente, eles reataram, se no uma amizade chegada, pelos menos sem dvida uma relao cordial.) 
Contudo, da em diante, ele raramente se referia aos pais ou  Ariana, e os amigos aprenderam a no os mencionar.

Caber a outras penas descrever os xitos dos anos subsequentes. As inmeras contribuies do Dumbledore para o manancial dos conhecimentos relativos  feitiaria, 
incluindo a descoberta das doze utilizaes do sangue de drago, iro beneficiar as geraes vindouras, bem como muitas das decises que tomou enquanto Feiticeiro 
Chefe do Wizengamot. Diz-se, ainda hoje, que nenhum duelo de feitiaria se compara ao que foi travado entre o Dumbledore e o Grindelwald em

1945. Aqueles que o testemunharam tm escrito acerca do terror e da admirao que sentiram enquanto assistiam  luta entre estes dois feiticeiros extraordinrios. 
A vitria do Dumbledore e as respectivas consequncias para o mundo da feitiaria so consideradas um ponto de viragem na histria da magia, comparvel  introduo 
do Estatuto Internacional de Secretismo ou  queda de Aquele Cujo Nome No Deve Ser Pronunciado.

25

Albus Dumbledore nunca pecou por orgulho ou vaidade, encontrava sempre algo a valorizar em toda a gente, por muito insignificante ou lamentvel que aparentasse ser, 
e estou convencido de que os desgostos que sofreu na juventude o dotaram de grande humanidade e empatia. No tenho palavras para exprimir a falta que a sua amizade 
me ir fazer, porm, a minha perda em nada se compara a que o mundo dos feiticeiros sofreu. Que ele era a maior fonte de inspirao e o mais querido de todos os 
directores de Hogwarts  inquestionvel. Morreu como viveu sempre a trabalhar para o bem geral e, at  sua derradeira hora, to disposto a estender a mo a um rapazinho 
com draguola como no dia em que o conheci

Harry terminou a leitura, mas continuou de olhar fixo na fotografia que acompanhava o obiturio. Dumbledore ostentava o seu familiar sorriso bondoso, todavia, mesmo 
no papel de jornal, os seus olhos semicerrados por cima dos culos em meia-lua davam a impresso de perscrutar Harry, cuja tristeza se confundia agora com uma sensao 
de humilhao

Julgara que conhecia bastante bem Dumbledore, no entanto, depois de ler aquele obiturio, via-se forado a admitir o contrrio. Nem por uma nica vez imaginara sequer 
como havia sido a infncia e a juventude de Dumbledore, era como se ele sempre tivesse sido tal como Harry o conhecera, venervel, de cabelo cor de prata e avanado 
em anos. A ideia de um Dumbledore adolescente era estranhssima, comparvel a tentar imaginar uma Hermione desprovida de inteligncia ou um explojento cauda-de-fogo 
amigvel

Nunca lhe passara pela cabea perguntar a Dumbledore sobre o seu passado. Teria sido sem dvida uma atitude estranha, impertinente at, mas, afinal de contas, era 
do conhecimento geral que Dumbledore tomara parte no duelo lendrio contra Gnndelwald, e Harry nunca se lembrara de o questionar acerca disso, nem to-pouco acerca 
de qualquer outra das suas proezas. No, as suas conversas haviam girado sempre em volta do passado de Harry, do futuro de Harry, dos planos de Harry e este tinha 
agora a sensao de que, no obstante os perigos e a incerteza que pairavam sobre o seu futuro, perdera oportunidades irrecuperveis por no querer saber mais a 
propsito de Dumbledore, isto apesar de a nica pergunta pessoal que algum dia fizera ao Director ter sido tambm a nica a que, suspeitava, aquele no lhe dera 
uma resposta sincera

- O que v quando olha para o Espelho dos Invisveis'

26

- Eu' Oh, eu vejo-me a segurar um par de meias grossas de l Ao fim de alguns minutos de reflexo, Harry rasgou o obiturio d'O Profeta, dobrou-o com todo o cuidado 
e guardou-o dentro do primeiro volume de Magia Defensiva Prtica e como Us-la Contra a Magia Negra. Em seguida, atirou o resto do jornal para o monte do lixo e 
virou-se para observar o quarto Estava muito mais arrumado. As nicas coisas que permaneciam fora do lugar eram O Profeta Dirio desse dia, que continuava sobre 
a cama, com o fragmento de espelho partido por cima

Harry atravessou o quarto, fez deslizar o pedao de espelho de cima d'O Profeta e abriu-o Mal tivera tempo de deitar uma olhadela ao ttulo de primeira pgina quando 
recebera o jornal enrolado num canudo que a coruja que fazia a distribuio lhe viera entregar nessa manh, tendo-o posto imediatamente de parte depois de verificar 
que no trazia nada a respeito de Voldemort. Harry tinha a certeza de que o Ministrio estava a pressionar O Profeta para que este no publicasse qualquer notcia 
sobre Voldemort E, por conseguinte, foi s nessa altura que deu pelo que escapara  sua ateno

A toda a largura da metade inferior da primeira pgina, via-se um ttulo mais reduzido colocado sobre uma fotografia de Dumbledore a andar a passadas largas com 
ar atormentado DUMBLEDORE FINALMENTE A VERDADE?

Na prxima semana, publicamos a histria escandalosa de um gnio falhado considerado por muitos o maior feiticeiro da sua gerao. Desfazendo a imagem popular de 
sageza tranquila e provecta, Rita Skeeter revela a infncia conturbada, a juventude indisciplinada, as perptuas contendas e os segredos culpados que Dumbledore 
levou para o tmulo. POR QUE MOTIVO o homem apontado por todos para ascender a Ministro da Magia se contentou em no passar de um mero director de escola? QUAL era 
o verdadeiro objectivo da organizao secreta conhecida por Ordem da Fnix? COMO foi que Dumbledore de facto morreu? As respostas a estas e muitas outras perguntas 
so apresentadas na nova biografia bombstica "A Vida e as Mentiras de Albus Dumbledore", da autoria de Rita Skeeter, em entrevista exclusiva concedida a Betty Braithivaite, 
na pgina 13

Harry apressou-se a abrir o jornal e encontrou a pgina 13. A coroar o artigo vinha uma fotografia doutro rosto familiar uma mulher com culos adtomados com jias 
e cabelo louro pri

27

morosamente encaracolado, os dentes  mostra no que pretendia passar por um sorriso vitorioso, agitando os dedos na direco dele. Esforando-se o melhor que podia 
por ignorar aquela imagem repugnante, Harry continuou a ler:

Em pessoa, Rita Skeeter revela-se muito mais calorosa e amvel do que as fotografias clebres pela sua ferocidade que aparecem na imprensa poderiam sugerir. Depois 
de me receber no hall de entrada da sua acolhedora casa, conduz-me de imediato  cozinha, onde me oferece uma chvena de ch, uma fatia de bolo ingls e, escusado 
ser dizer, um caldeiro fumegante das mais frescas coscuvilhices.

"E claro que o Dumbledore  o sonho de qualquer bigrafo", afirma Skeeter. "Uma vida to longa e preenchida. Estou certa de que o meu livro ser o primeiro de uma 
longa, longa srie."

Skeeter no perdeu seguramente tempo a reagir. O seu livro de novecentas pginas ficou concludo escassas quatro semanas aps a misteriosa morte de Dumbledore, em 
Junho. Pergunto-lhe como conseguiu esta proeza ultra-rpida.

"Oh, para quem, como eu, conta atrs de si com uma longa carreira de jornalista, trabalhar a contra-relgio ttoma-se um hbito. Eu sabia que o mundo da feitiaria 
estava a clamar pela biografia completa e quis ser a primeira a dar resposta a essa necessidade."

Menciono os comentrios recentes e amplamente divulgados de Elphias Doge, o Consultor Especial do Wizengamot e amigo de longa data de Albus Dumbledore, de acordo 
com os quais "o livro de Skeeter contm menos factos que um Cromo dos Sapos de Chocolate". Skeeter atira a cabea para trs e ri-se.

"Pobre Dodgy! Recordo-me de uma entrevista que lhe fiz h uns anos a respeito dos direitos das criaturas subaquticas, louvado seja! Completamente gaga, dava a impresso 
de pensar que estvamos no fundo do Lago Windermere, no parava de me avisar para ter cuidado

com as trutas."

E, no entanto, as acusaes de Elphias Doge sobre imprecises receberam eco de inmeros quadrantes. Estar Skeeter realmente convencida de que quatro escassas semanas 
foram suficientes para obter um retrato completo da longa e extraordinria vida de Dumbledore?

" minha cara", diz-me Skeeter com um sorriso radiante enquanto me d pancadinhas afectuosas nos ns dos dedos, "sabe to bem quanto eu a quantidade de informaes 
que um saco bem gordo de Galees, a recusa em ouvir um "no" e uma Pena de Citaes Rpidas bem afiada so capazes de arrancar! Alis, as pessoas fizeram fila para 
despe

28

jarem o lixo que sabiam acerca do Dumbledore. Sabe, nem toda a gente nutria por ele uma admirao incondicional... Ele pisou os calos a uma quantidade considervel 
de gente importante. Mas o Doge Trapaceiro bem pode descer do alto do seu Hipogrifo, porque eu tive acesso a uma fonte pela qual muitos jornalistas estariam dispostos 
a trocar as varinhas, uma fonte que nunca veio a pblico e que acompanhou de perto a fase mais turbulenta e perturbadora da juventude do Dumbledore." A publicidade 
que antecedeu a sada da biografia de Skeeter sugere sem dvida que haver grandes surpresas  espera daqueles que acreditavam que Dumbledore levou uma vida isenta 
de mcula. E quais foram as maiores surpresas que ela descobriu, pergunto-lhe.

"Ento, Betty, deixe-se disso, no me vou pr para aqui a desvendar os momentos altos do livro antes de as pessoas o comprarem!", exclama Skeeter com uma gargalhada. 
"Mas posso desde j avisar aqueles que pensavam que o Dumbledore era to imaculado como a sua barba que se vo preparando para uma amarga decepo! Limitemo-nos 
a dizer que nunca passaria pela cabea de quem o ouvisse a vociferar contra o Quem-Ns-Sabemos que, na sua juventude, ele prprio esteve envolvido na Magia Negra! 
E, para um feiticeiro que passou os ltimos anos da sua vida a clamar por tolerncia, quando era mais novo no era propriamente tolerante!  verdade, o Dumbledore 
teve um passado extremamente obscuro, isto para no mencionar aquela famlia muito duvidosa, que ele tanto se esforou por abafar." Pergunto a Skeeter se se refere 
ao irmo de Dumbledore, Aberforth, cuja condenao por uso imprprio da magia pelo Wizengamot causou um certo escndalo vai para quinze anos.

"Oh, o Aberforth  apenas a ponta do monte de esterco", graceja Skeeter. "No, no, estou a falar de algo muito mais grave que um irmo com uma queda para se meter 
com cabras, mais grave at que as mutilaes de Muggles do pai... Seja como for, o Dumbledore no conseguiu manter nenhum deles em segredo e, alis, ambos foram 
condenados pelo Wizengamot. No, a me e a irm  que me deixaram intrigada, e algumas indagaes trouxeram  superfcie um verdadeiro ninho de vboras... Mas, tal 
como j disse, vo ter de esperar pelos captulos nove a doze para terem acesso a todos os pormenores. Tudo o que posso adiantar por agora  que no admira por que 
razo o Dumbledore nunca contou como foi que partiu o nariz."

Roupa suja  parte, estar Skeeter disposta a negar a inteligncia que possibilitou as inmeras descobertas mgicas de Dumbledore?

"Ele era de facto um crnio", reconhece ela, "embora muitos agora se questionem se o mrito de todos os seus pretensos feitos dever ser

29

- lhe integralmente atribudo. Tal como revelo no captulo dezasseis, o Ivor Dillonsby alega que j descobrira oito utilizaes do sangue de drago quando o Dumbledore 
lhe levou os seus papis "emprestados"."

Todavia, a importncia de alguns dos seus feitos  indesmentvel, ouso eu dizer. Ento e a sua famosa vitria sobre Grindelwald?

"Oh, ainda bem que menciona o Grindelwald", afirma Skeeter com um sorriso cativante. "Receio que aquelas pessoas que ficam de lgrima no olho de cada vez que se 
fala na espectacular vitria do Dumbledore tero de se preparar para uma surpresa chocante... ou talvez uma surpresa repugnante. O caso  verdadeiramente srdido. 
Tudo o que posso de momento adiantar : no estejam to certos de que esse duelo espectacular e lendrio se tenha, de facto, realizado. Depois de lerem o meu livro, 
as pessoas sero foradas a concluir que o Grindelwald se limitou a invocar um leno branco na ponta da varinha e a sair airosamente!"

Skeeter recusa-se a adiantar mais seja o que for a respeito deste assunto intrigante, e, assim, viramo-nos para a relao que, mais que qualquer outra, seguramente 
ir fascinar os leitores.

"Oh, claro", diz Skeeter, assentindo animadamente com a cabea. "Eu dedico um captulo inteiro  relao entre o Potter e o Dumbledore. Tem sido descrita como pouco 
saudvel, sinistra, at. Repito, os leitores tero de comprar o livro para ficarem a par de toda a histria, mas  inquestionvel que o Dumbledore desenvolveu um 
estranho interesse pelo Potter desde o primeiro momento. Se isso trouxe algum proveito ao rapaz... bem, veremos. O que no  segredo para ningum  que o Potter 
teve uma adolescncia conturbada."

Pergunto a Skeeter se ainda mantm contacto com Harry Potter, a quem, no ano passado, fez uma entrevista que ficou clebre: um trabalho pioneiro em que Potter lhe 
revelou em exclusivo a sua convico a respeito do regresso do Quem-Ns-Sabemos.

"Oh, sim, entre ns criou-se um forte lao", assevera Skeeter. "O pobre Potter tem muito poucos amigos verdadeiros, e ns conhecemo-nos num dos momentos mais exigentes 
da sua vida: o Torneio dos Trs Feiticeiros. Sou provavelmente uma das poucas pessoas vivas que podem arrogar-se a dizer que conhecem o verdadeiro Harry Potter."

O que nos proporciona o pretexto perfeito para abordarmos os inmeros rumores que ainda circundam as derradeiras horas de Dumbledore. Estar Skeeter convencida de 
que Potter presenciou o momento da morte de Dumbledore?

"bem, no pretendo adiantar demasiado... est tudo no livro... porm, testemunhas oculares no interior do castelo de Hogwarts viram

30

o Potter a fugir do local instantes depois de o Dumbledore ter cado, saltado ou ter sido empurrado. Posteriormente, o Potter testemunhou contra o Severus Snape, 
um indivduo contra quem guarda manifesto ressentimento. Ser a realidade o que aparenta? Caber  comunidade de feiticeiros decidir... depois de terem lido o meu 
livro."

E, sob este ttom misterioso, despeo-me. No restam dvidas de que Skeeter escreveu um bestseller garantido. Entretanto, a legio de admiradores de Dumbledore bem 
pode tremer na expectativa do que poder estar prestes a descobrir acerca do seu heri.

Harry chegou ao fim do artigo, mas continuou de olhos cravados na pgina, atnito. A indignao e fria vieram-lhe  boca como um vmito; amarfanhou o jornal numa 
bola e, com toda a fora, atirou-o  parede, onde foi fazer companhia ao resto do monte de lixo que transbordava do caixote.

Comeou a passarinhar pelo quarto, abrindo gavetas vazias e pegando em livros para logo os ttomar a colocar na pilha de onde acabara de os tirar, quase sem dar pelo 
que estava a fazer, enquanto frases do artigo de Rita lhe vinham aleatoriamente  cabea: dedico um captulo inteiro  relao entre o Potter e o Dumbledore... tem 
sido descrita como pouco saudvel, sinistra at... na sua juventude, ele prprio esteve envolvido na Magia Negra... Tive acesso a uma fonte pela qual muitos jornalistas 
estariam dispostos a trocar as varinhas...

- Mentiras! - vociferou Harry e, pela janela, avistou o vizinho do lado, que parara para ttomar a ligar o cortador de relva, levantar os olhos, assustado.

Harry sentou-se pesadamente em cima da cama. O pedao partido de espelho voou para longe; Harry pegou nele e revirou-o entre os dedos, a pensar, a pensar em Dumbledore 
e nas mentiras com que Rita Skeeter o estava a difamar...

Um raio do mais brilhante azul! Harry ficou paralisado e o dedo ferido tornou a tocar na ponta aguada do espelho. Devia ter sido imaginao sua, seguramente. Relanceou 
por cima do ombro, mas a parede continuava da mesma tonalidade enjoativa de pssego escolhida pela tia Petunia: no havia ali nada azul que pudesse ter sido reflectido 
pelo espelho. Deitou nova olhadela ao fragmento de espelho e viu apenas o reflexo do seu olho verde vivo a fit-lo. Fora imaginao sua, no havia outra explicao; 
imaginara aquilo, porque estava a pensar no falecido Director. Se havia alguma coisa certa era que os olhos azuis brilhantes de Albus Dumbledore nunca mais haveriam 
de o perscrutar.

31

iii

A PARTIDA DOS DURSLEY

O barulho da porta da rua a bater ecoou escada acima e uma voz chamou-o: - Eh! Tu, rapaz!

Dezasseis anos a ser cumprimentado daquela maneira no deixaram a Harry lugar para dvidas sobre quem o tio estava a chamar; no obstante, no lhe respondeu de imediato. 
Continuava de olhar fixo no pedao de espelho no qual, durante uma fraco de segundo, julgara ter visto um olho de Dumbledore. Foi s quando o tio vociferou: "RAPAZ!" 
que Harry se levantou devagar e se encaminhou para a porta do quarto, detendo-se para guardar o fragmento do espelho na mochila cheia com os pertences que levaria 
consigo.

- Estava a ver que no te despachavas! - berrou-lhe Vernon Dursley quando o viu aparecer no patamar das escadas. - Anda c abaixo que eu preciso de falar contigo!

Harry desceu pausadamente as escadas, as mos enterradas nos bolsos das calas de ganga. Quando chegou  sala de estar, deparou-se com os trs Dursley. Estavam trajados 
para viajar: o tio Vernon com um bluso castanho-claro apertado  frente com um fecho de correr, a tia Petunia com um elegante casaco cor de salmo e Dudley, o primo 
avantajado, louro e musculado, de Harry, com um bluso de cabedal.

- O que foi? - indagou Harry.

- Senta-te! - ordenou-lhe o tio Vernon. Harry arqueou as sobrancelhas. - Se fazes favor! - acrescentou o tio, retraindo-se ligeiramente como se aquela expresso 
lhe causasse uma impresso na garganta.

Harry sentou-se. Julgava que j sabia o que ali vinha. O tio comeou a calcorrear a sala para trs e para diante, a tia Petunia e Dudley a acompanharem os seus movimentos 
com expresses ansiosas. Por fim, com a cara rubicunda e enrugada do esforo de concentrao, o tio Vernon deteve-se em frente de Harry e declarou:

- Mudei de ideias.

- Mas que surpresa - comentou Harry.

32

- No me venhas com esse ttom... - interveio a tia Petunia em voz estridente; contudo, Vernon Dursley acenou-lhe para que se

calasse.

- Tudo no passa de conversa oca - disse o tio Vernon, fixando ferozmente em Harry os seus olhos de porqinho. - No estou disposto a acreditar numa s palavra sequer. 
Ficamos onde estamos, no vamos a lado nenhum.

Harry ergueu o olhar para o tio e foi dominado por um misto de exasperao e divertimento. Nas ltimas quatro semanas, Vernon Dursley mudara de ideias a cada vinte 
e quatro horas, fazendo e desfazendo as malas e arrumando-as e tirando-as do carro de todas as vezes. O momento predilecto de Harry ocorrera quando o tio Vernon, 
alheio ao facto de Dudley ter acrescentado os halteres s malas desde a ltima vez em que as desfizera, tentara i-las mais uma vez para o porta-bagagens e se deixara 
abater por entre gemidos de dor e imprecaes.

- Na tua opinio - afirmou Vernon Dudley nesse momento, recomeando a calcorrear a sala -, ns... a Petunia, o Dudley e eu prprio... corremos perigo. Por culpa... 
por culpa..

- Por culpa da "minha gente", pois - completou Harry.

- Pois bem, eu no acredito nisso - insistiu o tio Vernon, detendo-se novamente diante de Harry. - Passei metade da noite acordado a remoer mais uma vez o assunto, 
e estou convencido de que no passa duma tramia para nos ficarem com a casa.

- A casa? - admirou-se Harry. - Mas que casa?

- Esta casa! - guinchou o tio Vernon, com a veia da testa a comear a pulsar. - A nossa casa! Os preos das casas nesta zona dispararam! O que tu queres  afastar-nos 
daqui para te poderes pr com os teus truques mgicos e, no tarda, a escritura vai parar

ao teu nome e...

- O tio est maluco? - indignou-se Harry. - Uma tramia para ficar com a casa? Ser mesmo to idiota quanto aparenta?

- Tu no te atrevas ..! - guinchou a tia Petunia, mas, mais uma vez, Vernon acenou-lhe para a calar: ao que tudo indicava, as afrontas  sua sanidade no eram nada 
quando comparadas com o perigo que ele acabara de identificar.

- S para o caso de j se ter esquecido - disse Harry -, eu j tenho uma casa! A que o meu padrinho me deixou. Ento para que  que haveria de querer esta? Pelas 
felizes recordaes?

Fez-se silncio. Harry ficou quase com a certeza de que este seu argumento fora suficiente para convencer o tio

33

- Tu supes - disse o tio Vernon, comeando novamente a passarinhar - que esse Lord No-Sei-Das-Quantas...

- Voldemort - corregiu-o Harry com impacincia -, e j deve ser a centsima vez que falamos disto. No  uma suposio,  uma certeza, o Dumbledore avisou-o no ano 
passado, e o Kingsley e Mr Weasley...

Vernon Dursley encurvou os ombros, agastado, e Harry suspeitou de que o tio estava a esforar-se por afastar a recordao da visita imprevista, escassos dias depois 
de Harry ter comeado as frias de Vero, de dois feiticeiros adultos. A chegada de Kingsley Shacklebolt e Arthur Weasley  porta dos Dursley causara-lhes uma surpresa 
extremamente desagradvel. Harry viu-se, contudo, forado a admitir que, uma vez que Mr. Weasley tinha em tempos destrudo metade da sala de estar, no se podera 
esperar que uma nova visita da sua parte fosse deixar o tio Vernon encantado.

- ...o Kingsley e Mr. Weasley tambm lhe explicaram tudo

- insistiu Harry sem d nem piedade. - Logo que eu fizer dezassete anos, o feitio protector que me mantm a salvo vai desfazer-se, e isso deixa-vos to expostos 
quanto a mim. A Ordem tem a certeza de que o Voldemort vos ir escolher como alvo, quer seja para vos torturar para tentar descobrir o meu paradeiro, quer porque 
se convenceu de que, se vos fizesse refns, eu tentaria resgatar-vos.

Os olhares do tio Vernon e os de Harry encontraram-se. Harry teve a certeza de que nesse momento eram assaltados pela mesma dvida. Ento o tio Vernon retomou a 
marcha e Harry prosseguiu:

- Tm de ir para um esconderijo e a Ordem pretende ajudar-vos. Est a ser-vos oferecida uma grande proteco, a melhor que pode haver.

O tio Vernon no lhe respondeu, continuando ao invs a passarinhar para trs e para diante. L fora, o sol pairava baixo sobre as sebes de alfena. O cortador de 
relva do vizinho do lado tornou a engasgar-se.

- Eu estava convencido de que havia um Ministrio da Magia! - exclamou abruptamente Vernon Dursley.

- E h - confirmou Harry, surpreso.

- bem, ento por que  que eles no nos protegem? Parece-me a mim que, enquanto vtimas inocentes, culpados de nada excepto de darmos guarida a um homem marcado, 
devamos ter direito a proteco do governo!

34

Harry riu-se; foi incapaz de se conter. Era to tpico do tio colocar as suas esperanas no sistema governativo, mesmo naquele mundo pelo qual nutria desprezo e 
desconfiana

- O tio ouviu o que Mr. Weasley e o Kingsley lhe disseram - retorquiu Harry. - Ns achamos que algum se infiltrou no Ministrio.

O tio Vernon dirigiu-se  lareira em passos largos e voltou, com a respirao to pesada que o seu enorme bigode preto se encrespou, a cara ainda rubicunda do esforo 
de concentrao.

- Est bem - admitiu, ttomando a deter-se em frente de Harry. - Est bem, digamos, por uma questo de abertura, que aceitamos essa proteco. Continuo sem perceber 
por que  que no podemos ficar com aquele fulano, o Kingsley.

Harry conseguiu no revirar os olhos, mas foi a muito custo. Aquela pergunta tambm j lhe fora feita uma dzia de vezes.

- Tal como j lhe expliquei - respondeu-lhe entre dentes -, o Kingsley anda a proteger o Mug... quer dizer, o vosso Primeiro-Ministro.

- Precisamente, ele  o melhor! - exclamou o tio Vernon, apontando para o ecr do televisor apagado. Os Dursley tinham visto Kingsley no noticirio, a caminhar discretamente 
atrs do Primeiro-Ministro Muggle quando este visitara um hospital Isto, a acrescentar ao facto de Kingsley ter conseguido dominar a arte de se vestir como um Muggle, 
j para no falar do ttom bastante tranquilizador da sua voz pausada e profunda, levara os Dursley a simpatizar com ele de uma forma que no acontecera com qualquer 
outro feiticeiro, embora, em abono da verdade, se deva dizer que eles nunca o tinham visto de brinco posto.

- bem, ele j est ocupado - afirmou Harry. - Mas a Hestia Jones e o Dedalus Diggle encontram-se perfeitamente  altura da situao...

- Se ao menos nos tivessem facultado alguns currculos... - comeou o tio Vernon, mas Harry perdeu a pacincia. Ps-se de p, avanou para o tio e apontou ele prprio 
para o televisor.

- Estes acidentes so tudo menos acidentes... os choques, as exploses, os descarrilamentos e tudo o mais que tenha acontecido desde a ltima vez que assistimos 
ao noticirio. H pessoas a desaparecer e a morrer, e  ele quem est por detrs de tudo. o Voldemort. J vos disse isto vezes sem conta: para ele, matar Muggles 
 uma forma de divertimento. At mesmo os

35

nevoeiros... so obra dos Dementors, e se j no se lembram do que se trata, perguntem ao vosso filho!

Dudley levou as mos repentinamente  boca. com os olhos dos pais e de Harry cravados nele, tornou a baix-las lentamente e perguntou: - H mais... mais como eles?

- Mais? - riu-se Harry. - Mais que os dois que nos atacaram,  isso que queres dizer?  claro que h, h-os s centenas, talvez por esta altura j os haja aos milhares, 
a ver pela maneira como se alimentam do medo e do desespero...

- Pronto, pronto - vociferou Vernon Dursley. - Conseguiste levar a tua avante...

- Espero bem que sim - afirmou Harry -, porque, mal eu fizer dezassete anos, todos eles., os Devoradores da Morte, os Dementors, talvez at os Inferi, que so cadveres 
enfeitiados por um feiticeiro Negro. . vo poder encontrar-vos e no deixaro certamente de vos atacar. E se se lembrarem da ltima vez em que tentaram escapar 
a feiticeiros, acho que vo concordar que precisam de ajuda.

Fez-se um breve silncio durante o qual o eco distante de Hagrid a deitar abaixo uma porta da frente parecia repercutir-se atravs dos anos. A tia Petunia estava 
de olhos postos no tio Vernon, os de Dudley fitavam Harry. Por fim, o tio Vernon disse atabalhoadamente. - Ento e o meu trabalho? Ento e a escola do Dudley? Calculo 
que estas coisas no tenham importncia nenhuma para um bando de feiticeiros preguiosos..

- Ser possvel que continue sem compreender? - Perguntou-lhe Harry. - Eles vo torturar-vos e matar-vos como fizeram aos meus pais!

- Pai - disse Dudley baixinho -, pai... eu c vou com esta gente da Ordem.

- Dudley - afirmou Harry -, pela primeira vez na tua vida, ests a dizer qualquer coisa que se aproveita.

Soube que a batalha estava ganha. Se Dudley estava suficientemente amedrontado para aceitar o auxlio da Ordem, os pais acompanh-lo-iam: separarem-se do seu Dudleyzinho 
estava fora de questo. Harry deitou uma olhadela ao relgio de viagem postado em cima da comija da lareira.

- Eles vo chegar daqui a cerca de cinco minutos - disse e, quando viu que nenhum dos Dursley lhe respondia, abandonou a sala. A perspectiva de se separar (provavelmente 
para sempre) dos tios e do primo causava-lhe uma certa satisfao, mas no

36

deixava por isso de haver um certo constrangimento no ambiente. O que se deveria dizer ao fim de dezasseis anos de constante averso?

De regresso ao seu quarto, Harry remexeu a eito dentro da mochila, acabando por retirar um punhado de nozes de coruja que enfiou atravs das grades da gaiola de 
Hedwig. Foram cair com uma pancada surda no fundo, e ela ignorou-as.

- No tarda nada, vamo-nos embora daqui - recordou-lhe Harry. - E nessa altura, vais poder voltar a voar

Ouviu tocar a campainha da porta. Hesitou, depois tornou a sair do quarto e desceu as escadas: seria de mais esperar que Hestia e Dedalus sozinhos dessem conta dos 
Dursley.

- Harry Potter! - guinchou uma voz entusiasmada, mal este abriu a porta e se deparou com um indivduo baixo com uma cartola cor de malva, que lhe fazia uma profunda 
vnia. - Uma honra, como sempre!

- Obrigado, Dedalus - respondeu-lhe Harry, dirigindo um leve sorriso de embarao a Hestia, que tinha o cabelo preto. -  muito amvel da vossa parte prestarem-se 
a isto... Eles esto aqui, os meus tios e o meu primo...

- bom dia a todos, familiares do Harry Potter! - exclamou Dedalus em ttom jovial, entrando a passos largos na sala de estar. Os Dursley no se mostraram nada satisfeitos 
por serem cumprimentados daquela forma; Harry no se admiraria por a alm se os visse mudar novamente de ideias. Ao ver a feiticeira e o feiticeiro, Dudley encolheu-se 
junto da me.

- Vejo que j fizeram as malas e esto prontos. Excelente! O plano, tal como o Harry j vos informou,  muito simples - afirmou Dedalus, tirando um enorme relgio 
de bolso do colete e examinando-o. - Ns vamos partir antes do Harry Devido ao perigo de ser usada magia na vossa casa. sendo ainda menor de idade, o Ministrio 
poderia aproveitar o pretexto para o prender... vamos percorrer, digamos, uns quinze quilmetros de carro antes de Desaparecermos para um local seguro que escolhemos 
para vos esconder. O senhor sabe conduzir, presumo? - perguntou ele educadamente ao tio Vernon.

- Se sei conduzir...? Est claro que sei conduzir! - balbuciou o tio Vernon.

- Mas que talentoso que o senhor , muito mesmo. Eu, pessoalmente, ficaria completamente atnito perante aqueles botes e maanetas - afirmou Dedalus. Era bvio 
que julgava estar a

37

lisonjear Vernon Dursley, que perdia notoriamente confiana no plano a cada palavra que Dedalus proferia.

- Nem sequer conduzir sabe - resmungou baixinho, com o bigode a encrespar-se-lhe de indignao, mas felizmente Dedalus e Hestia no deram sinal de o ouvir.

- Tu, Harry - prosseguiu Dedalus -, vais ficar aqui  espera da tua guarda. Houve uma ligeira alterao de planos...

- Que espcie de alterao? - inquiriu Harry sem demora.

- Pensei que o Olho-Louco me viesse buscar para me levar atravs de uma Apario Acompanhada.

- No pode ser - respondeu-lhe Hestia em ttom conciso.

- Depois o Olho-Louco explica-te melhor.

Os Dursley, que ouviram tudo isto com expresses da mais completa perplexidade, sobressaltaram-se quando uma voz sonora berrou: - Despachem-se! - Harry olhou em 
seu redor antes de se aperceber que a voz provinha do relgio de bolso de Dedalus.

- Tens toda a razo, estamos constrangidos a um horrio muito apertado - admitiu Dedalus, assentindo com a cabea ao relgio e ttomando a guard-lo dentro do bolso 
do colete. - Estamos a tentar fazer coincidir a tua sada de casa com a Desapario da tua famlia, Harry; assim, o feitio quebra-se no momento em que todos estiverem 
a dirigir-se para local seguro.

- Virou-se para os Dursley. - bem, j esto prontos para partir?

Nenhum deles lhe respondeu: o tio Vernon continuava a fitar, estarrecido, o chumao no bolso do colete de Dedalus.

- Talvez fosse melhor esperarmos no hall de entrada, Dedalus

- murmurou-lhe Hestia; era bvio que considerava uma descortesia da parte de ambos ficarem na sala enquanto Harry e os Dursley se despediam com afecto e, possivelmente, 
lgrimas.

- No  preciso - murmurou Harry, mas o tio Vernon tornou qualquer outra explicao desnecessria dizendo em voz alta: - bem, rapaz, ento adeus.

Estendeu o brao direito em frente para apertar a mo a Harry, contudo, no derradeiro instante, pareceu incapaz de enfrent-lo e limitou-se a cerrar o punho e a 
oscilar o brao para trs e para diante como um metrnomo.

- Ests pronto, Diddy? - inquiriu a tia Petunia, verificando se tinha a mala fechada com grande espalhafato para evitar olhar para Harry.

38

Dudley no lhe respondeu, mas ficou onde estava com a boca ligeiramente entreaberta, fazendo lembrar vagamente a Harry o gigante, Grawp.

- Ento, vamos embora - decidiu o tio Vernon.

J estavam na porta da sala de estar quando Dudley balbuciou: - Mas h uma coisa que eu no compreendo.

- O que  que tu no compreendes, meu querido? - quis saber a tia Petunia, olhando para ele.

Dudley ergueu uma mo do tamanho dum presunto e apontou para Harry.

- Por que  que ele no vem connosco?

O tio Vernon e a tia Petunia ficaram petrificados no lugar, fitando Dudley atnitos como se este tivesse acabado de exprimir o desejo de vir a ser bailarina.

- O qu? - indagou o tio Vernon em voz alta.

- Por que  que ele no vem tambm? - insistiu Dudley.

- bem, porque ele... porque no quer - balbuciou o tio Vernon virando-se para deitar um olhar feroz a Harry e acrescentar: - Tu no queres vir, pois no?

- Nem por sombras - afianou Harry.

- A tens - disse o tio Vernon ao filho. - Agora anda, vamos embora.

Saiu da sala; ouviram a porta da rua a abrir-se, mas Dudley no se mexeu e, depois de dar alguns passos hesitantes, a tia Petunia acabou por parar tambm.

- O que  que foi agora? - vociferou o tio Vernon, voltando para trs.

Dava a ideia de que Dudley se estava a debater com conceitos demasiado complexos para poderem ser transmitidos por palavras. Aps alguns instantes duma luta interior 
aparentemente dolorosa, l perguntou: - Mas para onde  que ele vai?

A tia Petunia e o tio Vernon ficaram a olhar um para o outro, embasbacados. Era bvio que Dudley estava a assust-los. Foi Hestia Jones a romper o silncio.

- Mas... sabem com certeza para onde  que o vosso sobrinho vai, no sabem? - inquiriu ela com ar perplexo.

- Claro que sabemos - afianou-lhe Vernon Dursley. - Ele vai ser levado por uns quantos do vosso bando, no ? Pronto, Dudley, vamos para o carro, ouviste o que 
o homem disse, estamos com pressa.

39

Mais uma vez, o tio Vernon encaminhou-se para a porta da rua; Dudley, porm, no foi atrs dele.

- Vai ser levado por uns quantos do nosso bando?

Hestia estava nas raias da indignao. Harry j anteriormente se confrontara com este tipo de atitude: os feiticeiros ficavam estupefactos por os seus parentes mais 
chegados manifestarem to pouco interesse pelo famoso Harry Potter.

- No faz mal - garantiu-lhe Harry. - No tem importncia, a srio.

- No tem importncia? - retorquiu Hestia, com a voz a elevar-se em ttom ameaador. - Ser possvel que estas pessoas no tenham noo de tudo por quanto tens passado? 
Do perigo que corres? Do lugar inigualvel que ocupas no corao dos que integram o movimento anti-Voldemort?

- Ha... no, no tm - respondeu-lhe Harry. - Para falar com franqueza, eles acham que sou um estorvo, mas eu j estou habituado...

- Eu no acho que tu sejas um estorvo...

Se Harry no tivesse visto os lbios de Dudley a movimentarem-se, talvez no tivesse acreditado. Assim, ficou de olhar fixo nele durante alguns instantes antes de 
admitir que aquelas palavras deveriam ter partido do primo, para comear, Dudley ruborizara. O prprio Harry estava pasmado e constrangido.

- bem. ha... obrigado, Dudley.

Mais uma vez, Dudley pareceu debater-se com ideias demasiado difceis de conceber para as conseguir expressar, antes de murmurar: - Tu salvaste-me a vida.

- Nem por isso - disse Harry. - O que o Dementor queria levar era a tua alma...

Lanou um olhar curioso ao primo No tinham tido qualquer espcie de contacto durante aquele Vero nem no ltimo, visto que Harry passara to pouco tempo em Privet 
Drive e se mantivera quase sempre confinado ao seu quarto. Todavia, nesse momento Harry apercebeu-se de que a chvena de ch frio que tinha esmigalhado nessa manh 
poderia no ter sido uma partida. Embora no deixasse de ficar ligeiramente comovido, foi para ele um alvio verificar que Dudley esgotara a capacidade de exprimir 
os seus sentimentos. Depois de abrir a boca mais uma ou duas vezes, ficou reduzido a um silncio ruborizado.

40

A tia Petunia rebentou num pranto Hestia Jones dirigiu-lhe um olhar de aprovao que se transformou em afronta quando ela se precipitou a abraar Dudley ao invs 
de Harry.

- Q-que querido, Dudders... - soluou ela para o peito macio -, que r-rapaz t-to amoroso... a a-agradecer...

- Mas ele no agradeceu nada! - retorquiu Hestia indignada. - Ele s disse que no considerava o Harry um es torvo!

- Pois, mas vindo do Dudley, isso  o mesmo que dizer "gosto muito de ti" - explicou-lhe Harry, dividido entre o tdio e a vontade de se rir da tia Petunia, abraada 
ao filho como se estivesse acabado de salvar Harry de um prdio em chamas

- Mas afinal vamos ou no vamos? - vociferou o tio Vernon, aparecendo pela milsima vez  porta da sala de estar. - Pensei que estvamos em cima da hora!

- Estamos...  claro que estamos - confirmou Dedalus Diggle, que estivera a observar a cena com um ar aturdido e que agora parecia recompor-se. - Temos mesmo de 
ir andando Harry..

Avanou aos tropees e agarrou uma mo de Harry com ambas as suas.

- ..boa sorte. Espero ttomar a ver-te. As esperanas do mundo da feitiaria esto todas voltadas para ti.

- Oh - disse Harry -, pois. Obrigado

- Adeus, Harry - despediu-se Hestia, apertando-lhe tambm a mo - Vais estar sempre nos nossos pensamentos.

- Espero que corra tudo bem - disse Harry, olhando de relance para a tia Petunia e para Dudley.

- Oh, tenho a certeza de que nos vamos entender s mil maravilhas - declarou Diggle em ttom entusistico, acenando com o chapu  medida que saa da sala. Hestia 
foi atrs dele.

Dudley libertou-se delicadamente das garras da me e dirigm-se a Harry, que teve de conter um impulso para no o ameaar com um feitio. Em seguida, Dudley estendeu-lhe 
a sua manpula cor-de-rosa

- Caramba, Dudley - comentou Harry, acima de novo acesso de soluos da tia Petunia -, ser possvel que os Dementors te tenham imbudo de uma nova personalidade?

- Sei l - murmurou Dudley. - A gente v-se, Harry.

- Pois... - disse Harry, dando um aperto de mo ao primo. - Talvez. Toma cuidado contigo, Grande D.

41

Dudley esboou uma amostra de sorriso, em seguida abandonou a sala a arrastar os ps. Harry ouviu os seus passos pesados no acesso de gravilha e depois a porta do 
carro a bater com fora. A tia Petunia, que estivera com o rosto enterrado num leno, olhou em seu redor ao ouvir aquele barulho. No estivera  espera de ficar 
a ss com Harry. Apressou-se a guardar o leno molhado dentro do bolso e disse: - bem... adeus - e encaminhou-se para a porta sem se dignar sequer a olhar para ele. 
- Adeus - respondeu-lhe Harry.

Ela deteve-se e olhou para trs. Harry teve a sensao momentnea de que a tia lhe pretendia dizer alguma coisa: deitou-lhe um olhar estranho e trmulo e pareceu 
hesitar em abrir a boca; contudo, depois, com uma leve sacudidela da cabea, precipitou-se para fora da sala atrs do mando e do filho.

42

IV

OS SETE POTTERS

Harry correu escada acima at ao seu quarto, chegando  janela mesmo a tempo de ver o carro dos Dursley a serpentear pelo acesso e a meter-se  estrada. Avistou 
a cartola de Dedalus no banco traseiro, entre a tia Petunia e Dudley. O carro virou  direita ao fundo de Privet Drive, as janelas a reflectirem momentaneamente 
o vermelho ardente do ocaso, e depois perdeu-o de vista.

Pegou na gaiola de Hedwig, na sua Flecha de Fogo e na mochila, percorreu o quarto invulgarmente arrumado com um derradeiro olhar e tornou a descer as escadas em 
passo desajeitado at ao hall de entrada, onde pousou a gaiola, a vassoura e a mochila ao fundo das escadas. O crepsculo descia agora rapidamente, inundando o hall 
de sombras  luz do entardecer. Era uma sensao bastante estranha estar ali, em silncio, ciente de que iria abandonar aquela casa para sempre. Havia muito tempo, 
quando os Dursley o deixavam sozinho e saam para se divertir, as horas de solido constituam para ele um prazer raro: fazendo uma pausa apenas para ir surripiar 
qualquer guloseima ao frigorfico, de imediato corria escada acima para jogar no computador de Dudley, ou para acender a televiso e saltar entre os seus canais 
preferidos. A recordao desses tempos provocava-lhe uma estranha sensao de vazio; era como recordar um irmo mais novo que perdera.

- Queres ir dar uma ltima volta pela casa? - sugeriu ele a Hedwig, que continuava amuada com a cabea escondida debaixo da asa - Nunca mais aqui voltamos. No queres 
recordar os bons velhos tempos? Por exemplo, olha para este tapete. Que recordaes... O Dudley vomitou-lhe em cima depois de eu o ter salvado dos Dementors... Mas 
olha que, no fim, at me ficou agradecido, acreditas?... E, no Vero passado, o Dumbledore entrou por aquela porta...

Harry perdeu momentaneamente o fio  meada, e Hedwig no fez nada para o ajudar a encontr-lo, continuando com a cabea escondida debaixo da asa. Harry voltou-se 
de costas para a porta da rua.

43

- E aqui debaixo, Hedwig... - Harry abriu a porta sob as escadas - . .era onde eu costumava dormir! Nessa altura, tu ainda no me conhecias... Caramba, j me tinha 
esquecido de como  acanhado...

Harry olhou em seu redor para os sapatos e os guarda-chuvas empilhados, lembrando-se de costumar acordar todas as manhs e olhar para a parte de baixo da escada, 
que, a maioria das vezes, estava adtomada com uma ou outra aranha. Isso fora no tempo em que ele ainda no sabia nada a respeito da sua verdadeira identidade; antes 
de saber como os pais tinham morrido e por que motivo havia coisas esquisitas constantemente a acontecer  sua volta. Mas Harry ainda se lembrava dos estranhos sonhos 
que o atormentavam, j naquele tempo- sonhos confusos que envolviam raios de luz verde e, numa ocasio (o tio Vernon por pouco no batera com o carro quando Harry 
lhe contara), uma mota voadora. . Subitamente, ouviu um estrondo ensurdecedor vindo das proximidades. Endireitou-se com um solavanco e deu uma cabeada com o cocuruto 
na ombreira baixa da porta. Interrompendo-se apenas para debitar algumas das imprecaes da preferncia do tio Vernon, foi a cambalear at  cozinha, agarrado  
cabea, e olhou pela janela para o jardim das traseiras.

A escurido parecia estar a ondular, o prprio ar a estremecer Depois, um a um e repentinamente,  medida que os Feitios de Camuflar eram desfeitos, comearam a 
surgir vultos. A dominar a cena encontrava-se Hagrid, de capacete e culos de aviador, montado numa enorme mota com um sidecar acoplado. A todo o seu redor, viam-se 
mais pessoas a desmontar de vassouras e, em dois casos, de cavalos alados pretos e esquelticos.

Harry abriu a porta das traseiras de rompante e precipitou-se para o meio deles. Ouviu-se um grito geral de boas-vindas, enquanto Hermione lhe atirava os braos 
em volta do pescoo, Ron lhe dava palmadinhas nas costas e Hagrid dizia: - Tudo bem, arry? Pronto pra zarpar?

- Sem dvida - afianou-lhe este, dirigindo um sorriso radiante  sua volta - Mas eu no estava  espera de que viessem tantos!

- Mudana de planos - resmungou Olho-Louco, que segurava dois sacos enormes e atafulhados e cujo olho mgico oscilava entre o cu do crepsculo, a casa e o jardim 
a uma velocidade estonteante. - Antes de te pormos a par do que se passa,  melhor disfararmo-nos.

Harry levou-os a todos para a cozinha, onde, a rir e a tagarelar, se instalaram nas cadeiras, se sentaram em cima das bancadas reluzentes da tia Petunia ou se encostaram 
aos seus electrodomsticos imaculados" Ron, alto e desengonado, Hermione, com o cabelo farto preso atrs numa longa trana; Fred e George, com idnticos sorrisos 
arreganhados; Bill, cheio de cicatrizes e com o cabelo comprido; Mr Weasley, com o seu rosto bondoso, a ficar calvo, os culos ligeiramente enviesados; Olho-Louco, 
temperado em muitas batalhas, perneta, o seu olho azul-vivo mgico a vibrar na rbita; Tonks, com o cabelo curto da sua tonalidade predilecta de rosa-choque; Lupin, 
com o cabelo mais grisalho, o rosto mais enrugado; Fleur, bonita e elegante, com o seu longo cabelo louro-prateado; Kingsley, careca, negro, de ombros largos; Hagrid, 
com o seu cabelo e barba desgrenhados, de costas curvadas para evitar bater com a cabea no tecto; e Mundungus Fletcher, a quem tentara estrangular da ltima vez 
que se tinham encontrado.

- Kingsley, pensei que estavas a tomar conta do Primeiro-Ministro Muggle - dirigiu-se-lhe Harry do lado oposto da cozinha.

- Ele bem pode passar uma noite sem mim - disse Kingsley.

- Tu s mais importante.

- Harry, adivinha l - chamou-o Tonks, empoleirada em cima da mquina de lavar roupa e sacudindo a mo esquerda para ele ver o seu anel cintilante.

- No me digas que te casaste - disse Harry, desviando o olhar dela para Lupin.

- Tenho pena que no pudesses estar presente, Harry, foi uma cerimnia muito discreta.

- Que maravilha, parab. .

- Pronto, pronto, depois podemos pr a conversa em dia! - vociferou Moody acima da algazarra, e a cozinha quedou-se em silncio. Moody deixou cair os sacos aos ps 
e virou-se para Harry

- Tal como imagino que o Dedalus te tenha avisado, fomos obrigados a abandonar o Plano A. O Pious Thicknesse passou-se para o inimigo, o que nos deixa perante um 
grande problema. Ele decretou que ligar esta casa  Rede de Floo, colocar aqui um Boto de Transporte, ou Aparecer e Desaparecer daqui passa a ser punvel com pena 
de priso. Tudo isto a pretexto da tua proteco, para evitar que o Quem-Ns-Sabemos te consiga apanhar. completamente despropositado, uma vez que o feitio da tua 
me j



44

45

se destina a isso mesmo. O objectivo dele  impedir-te de sares daqui em segurana.

"Segundo problema: tu s menor, o que significa que ainda tens o Detector.

- Eu no. .

- O Detector, o Detector! - exclamou Olho-Louco em ttom de impacincia. - O feitio que detecta actividade mgica em redor de menores de dezassete anos, a maneira 
como o Ministrio descobre se os menores andam a praticar feitiaria! Se tu, ou algum prximo de ti, te lanar um feitio para te tirar daqui, o Thicknesse vai 
descobrir, bem como os Devoradores da Morte.

"No podemos ficar  espera de que o Detector desaparea, porque, mal completes dezassete anos, perdes toda a proteco que a tua me te concedeu. Resumindo: o Pious 
Thicknesse est convencido de que te tem bem encurralado.

Apesar de no o conhecer, Harry no pde deixar de concordar com Thicknesse.

- Ento e o que havemos ns de fazer?

- Vamos usar os nicos meios de transporte  nossa disposio, os nicos que o Detector no consegue identificar, porque no precisamos de lanar feitios para os 
usar: vassouras, Thestrals e a mota do Hagrid.

Harry apercebeu-se de que havia falhas no plano, porm, manteve-se calado para dar a Olho-Louco a oportunidade de as enunciar.

- Agora, o encantamento da tua me s se vai desfazer sob duas condies: quando fores maior de idade, ou - Moody abarcou com um gesto a cozinha imaculada - quando 
esta casa deixar de ser o teu lar. Tu e os teus tios vo seguir caminhos separados esta noite, perfeitamente cientes de que nunca mais iro morar juntos, no  verdade?

Harry assentiu com a cabea.

- Por isso, desta feita, quando te fores embora, ser para no mais voltares, e o encantamento ser quebrado logo que sares do seu raio de aco. Ns optmos por 
desfaz-lo o mais cedo possvel, porque a alternativa seria ficar  espera do Quem-Ns-Sabemos, que ia aproveitar o momento em que faas dezassete anos.

"A nica vantagem que tens do teu lado  o facto de o Quem-Ns-Sabemos desconhecer que te viemos buscar esta noite. Deixmos escapar uma pista falsa no Ministrio: 
eles esto con

46

vencidos de que s samos daqui no dia trinta No entanto, tendo em conta que  com o Quem-Ns-Sabemos que estamos a lidar, no podemos limitar-nos a dar-lhe a data 
errada; ele ter seguramente uns quantos Devoradores da Morte a patrulhar os cus desta zona, por via das dvidas. E, assim, colocmos uma dzia de casas diferentes 
sob toda a proteco que nos foi possvel. Qualquer uma delas poderia ser o stio onde planeamos esconder-te, todas elas se encontram de alguma maneira ligadas  
Ordem; a minha casa, a do Kingsley, a da tia da Molly, a Muriel... Ests a ficar com uma ideia

- Pois - anuiu Harry, no inteiramente convencido, porque ainda estava a ver uma grande falha no plano.

- Tu vais para casa dos pais da Tonks. Logo que entres dentro do raio de aco dos feitios protectores que lanmos sobre a casa deles, vamos poder usar um Boto 
de Transporte para A Toca. Alguma pergunta?

- Ha... sim - disse Harry. - Talvez eles no saibam para qual das doze casas seguras  que eu vou em primeiro lugar, mas isso no ficar bastante bvio quando - 
fez uma conta rpida de cabea - ns os catorze sairmos daqui a voar para casa dos pais da Tonks?

- Ah - disse Moody -, esqueci-me de mencionar um ponto fundamental. Ns no iremos os catorze a voar para casa dos pais da Tonks. Esta noite, haver sete Harry Potters 
a atravessar os ares, cada um deles com um companheiro, e cada par se ir dirigir para uma casa segura diferente.

Do interior do seu manto, Moody tirou, ento, um frasco contendo o que parecia ser lama. No foi preciso acrescentar mais nada; Harry compreendeu de imediato o resto 
do plano.

- No! - protestou ele alto e bom som, a sua voz a ecoar por toda a cozinha. - Nem pensar!

- Eu bem os avisei de que tu no ias aceitar isso de bom grado - observou Hermione com um laivo de complacncia

- Se pensas que vou deixar que seis pessoas arrisquem a vida...!

- ...at parece que seria a primeira vez - ripostou Ron.

- Isto  diferente, fazerem-se passar por mim...

- bem, no se pode dizer que isso agrade a qualquer um de ns - disse Fred com franqueza. - Imagina que alguma coisa corre mal e ficamos condenados a ser uns tipos 
magricelas e de culos para o resto da vida.

47

Harry no sorriu.

- Se eu me recusar a cooperar, no podem fazer nada; precisam que eu vos d um bocado de cabelo.

- bem, nesse caso o plano vai por gua abaixo - ironizou George. -  bvio que, se te recusares a cooperar, todos juntos no vamos conseguir arrancar-te o cabelo.

- Pois, treze de ns contra um fulano que nem sequer magia pode utilizar;  claro que no temos hiptese - comentou Fred.

- Que piada - retorquiu Harry. - Vocs so mesmo engraados.

- Se tivermos de recorrer  fora, assim ser - resmungou Moody, com o seu olho mgico a tremer ligeiramente na rbita enquanto se fixava com ar feroz em Harry. 
- Todas as pessoas que aqui esto so maiores de idade, Potter, e esto dispostas a arriscar.

Mundungus encolheu os ombros e fez uma careta; o olho mgico de Moody deu uma guinada para o lado, deitando-lhe um olhar ameaador.

- Vamos deixar-nos de discusses. O tempo est a esgotar-se. Preciso duns cabelos teus, rapaz, e  j.

- Mas isto  uma loucura, no h necessidade...

- No h necessidade! - rosnou Moody. - com o Quem-Ns-Sabemos  solta e metade do Ministrio do lado dele? Potter, se andarmos com sorte, ele ter engolido a pista 
falsa e estar a preparar-se para te montar uma emboscada no dia trinta, mas seria uma imprudncia da parte dele no ter um Devorador da Morte ou mais de olho em 
ti, que  o que eu faria no seu lugar. Talvez eles no te possam deitar a mo enquanto o encantamento da tua me se mantiver, mas est prestes a desfazer-se e eles 
conhecem a localizao aproximada desta casa. A nica possibilidade que nos resta  usarmos chamarizes. Nem mesmo o Quem-Ns-Sabemos se pode dividir em sete.

Harry apanhou Hermione a olhar para ele e de imediato desviou o olhar.

- Ento, Potter... passa para c uns quantos cabelos, se fazes favor.

Harry lanou um olhar ameaador a Ron, que lhe fez uma careta como a mand-lo despachar-se.

- J! - vociferou Moody.

com todos os olhos cravados nele, Harry levou a mo ao alto da cabea, agarrou numa madeixa de cabelo e puxou.

48

- Assim  que  - disse Moody, aproximando-se dele a coxear, enquanto destapava o frasco de Poo. - Deita-os para aqui, se no te importas.

Harry deixou cair os cabelos no lquido semelhante a lama. Logo que entraram em contacto com a superfcie, a Poo comeou a fazer espuma e a deitar fumo; depois, 
subitamente, ficou de um dourado lmpido e brilhante.

- Ooh, tu tens um ar muito mais saboroso que o Crabbe e o Goyle, Harry - comentou Hermione antes de reparar nas sobrancelhas arqueadas de Ron, corar ligeiramente 
e se emendar:

- Oh, percebes o que eu quero dizer... a Poo do Goyle parecia um pntano.

- Muito bem, os falsos Potters alinham deste lado, por favor

- ordenou Moody.

Ron, Hermione, Fred, George e Fleur dispuseram-se diante do lava-loias reluzente da tia Petunia.

- Falta-nos um - constatou Lupin.

- Est aqui - indicou Hagrid com brusquido, enquanto agarrava em Mundungus pelo cachao e o deixava cair ao lado de Fleur, que franziu o nariz peremptoriamente 
e se foi colocar entre Fred e George.- Eu avisei que era melhor ser protector - disse Mundungus.

- Cala-te - admoestou-o Moody. - Tal como j te disse, verme invertebrado, quaisquer Devoradores da Morte com que nos depararmos hoje tero como objectivo capturar 
o Potter, no mat-lo. O Dumbledore sempre disse que o Quem-Ns-Sabemos quer que o Potter acabe s suas prprias mos. Sero os protectores quem ter mais a recear, 
porque os Devoradores da Morte iro tentar mat-los.

Mundungus no se mostrou particularmente tranquilizado, mas Moody j estava a tirar meia dzia de copos do tamanho de recipientes para ovos do interior do manto, 
e, depois de os encher com um pouco de Poo Polissuco, estendeu um a cada um.

- Todos juntos, agora...

Ron, Hermione, Fred, George, Fleur e Mundungus beberam a poo. Todos eles arquejaram e fizeram caretas quando esta lhes desceu  garganta: de imediato as suas feies 
comearam a borbulhar e a distorcer-se como cera quente. Hermione e Mundungus cresciam em direco ao tecto; Ron, Fred e George estavam a encolher; o cabelo de todos 
comeava a escurecer, e o de Hermione e de Fleur parecia projectar-se rapidamente para o interior do crnio.

49

Moody, com um ar muito despreocupado, estava agora a desapertar os ns dos sacos que trouxera consigo: quando tornou a endireitar-se, havia seis Harry Potters a 
arquejar e ofegar diante dele.

Fred e George viraram-se um para o outro e exclamaram em unssono: - Uau... Estamos tal e qual!

- No sei, no, olha que acho que sou mais bonito - comentou Fred examinando o seu reflexo numa chaleira

- Bah - disse Fleur, vendo-se na porta do microondas. - Bill, no olhes parra mim... Eztou de meterr medo ao susto.

- Para aqueles a quem as roupas ficarem um pouco avantajadas, tenho aqui tamanhos mais pequenos - anunciou Moody, indicando o primeiro saco - e vice-versa. No se 
esqueam dos culos, h seis pares no bolso lateral. E quando estiverem vestidos, no outro saco tm a bagagem.

O verdadeiro Harry pensou que nunca na vida deveria ter visto nada to estranho, e coisas estranhssimas foram o que no lhe faltara. Ficou a ver os seus seis duplos 
a remexerem dentro dos sacos, a tirar peas de indumentria, a pr culos, a arrumar as suas roupas. Teve vontade de lhes pedir que mostrassem um pouco mais de respeito 
pela sua privacidade quando os viu comearem a despir-se com a mais perfeita impunidade, claramente muito mais  vontade em exibirem o seu corpo do que se no estivessem 
metamorfoseados.

- Eu sabia que a Ginny estava a mentir quando falou da tatuagem - disse Ron, olhando para o peito despido.

- Harry, tu s mesmo pitosga - comentou Hermione enquanto punha os culos.

Logo que se vestiram, os falsos Harrys comearam a retirar as mochilas e as gaiolas das corujas, cada uma com uma coruja-das-neves empalhada, do segundo saco.

- ptimo - disse Moody no momento em que sete Harrys vestidos, de culos postos e com a respectiva bagagem se viraram de frente para ele. - Os pares sero os seguintes: 
o Mundungus vai comigo, de vassoura...

- Por qu'  qu'eu vou contigo? - resmungou o Harry mais prximo da porta das traseiras.

- Porque s aquele que precisa de ser mantido debaixo de olho - retorquiu Moody e, como j seria de esperar, o seu olho mgico no se desviou de Mundungus quando 
prosseguiu: - O Arthur e o Fred...

50

- Eu sou o George - disse o gmeo para o qual Moody apontava. - Nem sequer quando somos o Harry s capaz de nos distinguir?

- Desculpa, George...

- Estou s a entrar com a tua varinha. Sou mesmo o Fred...

- J chega de disparates! - vociferou Moody. - O outro George ou Fred, ou quem quer que sejas... Tu vais com o Remus.

Miss Delacour...

- Eu levo a Fleur num Thestral - declarou Bill. - Ela no  grande apreciadora de vassouras.

Fleur foi postar-se a seu lado, deitando-lhe um olhar piegas e submisso que Harry desejou do fundo do corao que nunca mais lhe assomasse ao rosto.

- Miss Granger vai com o Kingsley, tambm de Thestral... Hermione retribuiu um sorriso tranquilo a Kingsley. Harry

sabia que ela tambm no tinha grande confiana em vassouras.

- O que nos deixa a ns os dois, Ron! - exclamou Tonks com ar jovial, deitando abaixo um suporte para chvenas ao acenar-lhe.

Ron no aparentou ficar to satisfeito quanto Hermione.

- E tu vais com'go, 't bem, Harry? - disse Hagrid, com uma certa ansiedade. - Vamos de mota, as vassouras e os Thestrals na' aguentam co' meu peso, 'ts a ver. 
Mas, c'mo na' vai haver mu'to espao com'go no assento, tu vais no stdecar.

- Por mim, est ptimo - respondeu-lhe Harry, sem grande

sinceridade.

- Ns pensamos que os Devoradores da Morte esto  espera de que vs numa vassoura - afirmou Moody, que parecia adivinhar as reticncias de Harry. - O Snape teve 
tempo mais que suficiente para lhes contar tudo o que ainda no lhes contara a teu respeito, e, por conseguinte, se nos aparecer pela frente algum Devorador da Morte, 
apostamos que eles vo escolher um dos Potters que esteja  vontade numa vassoura. Muito bem, ento - prosseguiu ele, apertando o saco com as roupas dos falsos Potters 
e liderando o caminho at  porta. - Devem faltar trs minutos para a hora prevista para a nossa partida. No vale a pena trancar a porta das traseiras, no ser 
isso que impedir a entrada dos Devoradores da Morte quando vierem  tua procura... Vamos embora. .

Harry dirigiu-se apressadamente ao hall de entrada para ir buscar a mochila, a Flecha de Fogo e a gaiola de Hedwig antes de se

51

reunir aos outros no jardim das traseiras. De todos os lados se viam vassouras a saltar para as mos dos donos; com a ajuda de Kingsley, Hermione j subira para 
um grande Thestral preto e Bill ajudara Fleur a montar no outro. Hagrid estava  espera junto  mota, de culos de aviador postos.

-  esta a mota do Sirius?

- Sem tirar nem pr - confirmou Hagrid, presenteando Harry com um sorriso radiante. - E da ltima vez qu' andaste nela, Harry, cabias-me na palma da mo!

Harry no pde deixar de se sentir levemente humilhado ao entrar no sidecar. Ficava mais baixo que todos os outros: Ron dingiu-lhe um sorriso afectado ao v-lo sentado 
como uma criana num carrinho de choque. Arrumou a mochila e a vassoura aos ps e prendeu a gaiola de Hedwig entre os joelhos. Era extremamente desconfortvel.

- O Arthur fez-lhe umas alteraes - revelou-lhe Hagrid, nitidamente alheio ao desconforto de Harry. Montou na mota, que rangeu ligeiramente e se enterrou alguns 
centmetros no solo.

- Agora tem uns truques no guiador 'Quele ali foi ideia minha. Apontou com um dedo grosso para um boto roxo junto ao

velocmetro.

- Por favor, Hagrid, vai com cuidado - advertiu-o Mr. Weasley que se encontrava ao lado de ambos, a segurar na sua vassoura.

- Ainda no estou certo de que tenha sido uma boa ideia e, seja como for, s deve ser usado em situaes de emergncia.

- Ento, muito bem - declarou Moody. - Todos preparados, por favor; quero que partamos exactamente ao mesmo tempo, seno o objectivo da manobra de diverso perde-se 
por completo.

Todos montaram nas respectivas vassouras.

- Agora v l se te seguras bem, Ron - avisou-o Tonks, e Harry reparou que Ron deitou um furtivo olhar de culpa a Lupin antes de lhe colocar as mos de cada lado 
da cintura. Hagrid deu ao kick e a mota rugiu como um drago, enquanto o sidecar comeava a vibrar.

- Boa sorte a todos - gritou-lhes Moody. - Encontramo-nos dentro de cerca duma hora n' A Toca. vou contar at trs um... dois... TRS.

A mota fez um grande estrondo, e Harry sentiu o sidecar dar um forte solavanco: estava a elevar-se rapidamente pelos ares, os olhos ligeiramente lacrimejantes, o 
cabelo varrido para trs. Em

52

seu redor, as vassouras ganhavam tambm altura; a cauda preta e comprida de um Thestral passou por ele de fugida. As suas pernas, atravancadas dentro do sidecar 
juntamente com a gaiola de Hedwig e a mochila, j estavam doridas, e comeava a senti-las entorpecer Tamanho era o seu desconforto que por pouco no se esquecia 
de deitar um derradeiro olhar ao nmero quatro de Privet Drive; quando olhou da beira do sidecar, j no sabia dizer qual das casas era. E foram-se elevando cada 
vez mais pelos ares...

E foi ento que, sbita e inesperadamente, se viram rodeados. Vindos do nada, trinta vultos encapuzados, suspensos no ar, formaram um amplo crculo em volta da rea 
ocupada pelos membros da Ordem, que no se haviam apercebido...

Gritos, exploses de luz verde de todos os lados: Hagrid soltou um berro e a mota deu uma reviravolta. Harry perdeu completamente a noo de onde estavam: via os 
candeeiros da rua por cima da sua cabea, gritos por todos os lados, enquanto se agarrava ao sidecar com quanta fora tinha. A gaiola de Hedwig, a Flecha de Fogo 
e a mochila escorregaram-lhe de debaixo dos joelhos...

- No .. HEDWIO

A vassoura foi a rodopiar pelo ar, mas Harry conseguiu deitar a mo  ala da mochila e ao cimo da gaiola no momento em que a mota se tornou a endireitar. Um instante 
de alvio e logo de seguida outra exploso de luz verde. A coruja piou e caiu no cho da gaiola

- No.. NO!

A mota precipitou-se para a frente; Harry vislumbrou Devoradores da Morte encapuzados a desviarem-se  medida que Hagrid rompia o seu crculo.

- Hedwig. Hedwig...

A coruja, porm, continuava pateticamente imvel como um brinquedo no cho da gaiola. Harry no conseguia aceitar que uma coisa daquelas estivesse a acontecer e 
sentia um terrvel receio pela vida dos outros. Relanceou por cima do ombro e viu um amontoado de gente em movimento, clares de luz verde, dois pares montados em 
vassouras a elevar-se pelos ares  distncia, mas no conseguia distinguir de quem se tratava...

- Hagrid, temos de voltar para trs, temos de voltar para trs! - gritou por cima do atroar ensurdecedor do motor, puxando da varinha e empurrando a gaiola de Hedwig 
para o cho, recusando-se a acreditar que ela estava morta. - Hagrid, VOLTA PARA TRS!

53

- O meu dever  levar-te ao teu destino em segurana, Harry!

- berrou-lhe Hagrid, e enrolou o punho do acelerador.

- Pra... PRA! - gritou-lhe Harry. Contudo, quando olhou para trs, dois jactos de luz verde rasaram-lhe a orelha esquerda: quatro Devoradores da Morte tinham-se 
destacado do crculo e vinham em perseguio de ambos, fazendo pontaria s costas largas de Hagrid. Este desviou-se, mas os Devoradores da Morte conseguiram acompanhar 
a mota; mais maldies passaram disparadas por eles, e Harry viu-se obrigado a baixar-se no sidecar para as evitar. Contorcendo o corpo para trs, gritou: - Atordoar!

- e um raio de luz vermelha projectou-se da sua varinha, abrindo uma brecha entre os quatro Devoradores da Morte que vinham no seu encalo  medida que estes se 
desviavam para se esquivarem.

- Aguenta, Harry, isto vai chegar pra eles! - bradou Hagrid, e Harry ergueu o olhar mesmo a tempo de o ver carregar com um dedo gordo num boto verde junto ao indicador 
do nvel de gasolina.

Um muro, um slido muro de tijolo, irrompeu do tubo de escape. De pescoo esticado, Harry viu-o-a expandir-se a todo o comprimento em pleno ar. Trs Devoradores 
da Morte desviaram-se e conseguiram evit-lo, o quarto, porm, no teve tanta sorte, desapareceu de vista e em seguida precipitou-se como uma pedra por detrs do 
muro, a vassoura desfeita em pedaos. Um dos companheiros foi atrs dele para o salvar, mas tanto eles como o muro nascido do ar foram engolidos pela escurido, 
enquanto Hagrid se debruava sobre o guiador e ganhava velocidade.

Mais Maldies de Morte passaram a voar pela cabea de Harry vindas das varinhas dos dois Devoradores da Morte restantes; eram destinadas a Hagrid Harry reagiu com 
novos Feitios de Atordoar: raios verdes e vermelhos colidiram pelo ar numa chuva de fascas multicolores que lhe trouxe  lembrana o fogo-de-artifcio, e os Muggles 
l em baixo, que no fasiam a mais pequena ideia do que estava a acontecer...

- Aqui vamos ns, Harry, agarra-te! - berrou-lhe Hagrid, carregando num segundo boto. Desta feita, uma enorme rede irrompeu do tubo de escape da mota, mas os Devoradores 
da Morte j estavam de preveno. No apenas se conseguiram desviar dela como, ainda por cima, o companheiro que abrandara para salvar o amigo inconsciente os conseguira 
alcanar. Surgiu repentinamente da escurido, e agora vinham os trs novamente em perseguio da mota, disparando maldies para a atingir.

54

- Isto vai chegar pra eles, Harry, segura-te bem! - gritou-lhe Hagrid, e Harry viu-o a dar uma violenta pancada com a mo no boto roxo ao lado do velocmetro

com um inconfundvel rugido feroz, fogo de drago branco e azul incandescente projectou-se do tubo de escape, e a mota saiu disparada como uma bala fazendo um rudo 
semelhante ao de metal a retorcer-se. Harry viu os Devoradores da Morte desviarem-se e perderem-se de vista para evitarem o rasto mortal das labaredas e, em simultneo, 
sentiu o sidecar oscilar perigosamente. As junes de metal que o uniam  mota tinham dado de si com a fora da acelerao

- No tenhas medo, Harry! - gritou-lhe Hagrid, agora completamente deitado para trs graas ao aumento brusco de velocidade; no havia agora ningum ao volante e 
o sidecar comeava a oscilar perigosamente devido  corrente de ar produzida pela mota.

- Eu controlo a situao, Harry, na' tenhas medo! - gritou-lhe Hagrid, retirando o seu chapu-de-chuva rosa-choque s flores de dentro do casaco.

- Hagrid1 No! Deixa-me ser eu!

- REPARO'

Ouviu-se um estrondo ensurdecedor, e o sidecar soltou-se definitivamente da mota: Harry continuou a avanar a toda a velocidade, propulsionado pelo impulso do voo 
da mota, depois comeou a perder altura...

Em desespero, apontou a varinha ao sidecar e gntou- - Wingardium Leviosa!

O sidecar projectou-se no ar como se fosse uma rolha, ingovernvel, mas pelo menos ainda capaz de voar, o seu alvio, porm, no durou mais que uma fraco de segundo, 
pois no tardou a que novas maldies passassem a rasar por ele: os trs Devoradores da Morte aproximavam-se.

- J vou, Harry! - gritou-lhe Hagrid da escurido, mas Harry sentia o sidecar a perder novamente altitude: agachando-se o mais que podia, apontou para o meio dos 
vultos que o perseguiam e bramou: - Impedimenta!

O feitio atingiu o Devorador da Morte no peito; por uns momentos, o homem ficou numa posio absurda, esparramado em pleno ar como uma guia de asas abertas que 
tivesse acabado de embater contra uma barreira invisvel; um dos companheiros por pouco no colidiu com ele

55

Foi ento que o sidecar se comeou a despenhar a srio, e o outro Devorador da Morte lanou uma maldio to prxima de Harry que este se viu obrigado a baixar-se 
o mais depressa que podia por detrs do rebordo do carro, batendo com um dente na borda do assento.

- J vou, Harry, j vou!

Uma mo enorme agarrou a parte de trs do manto de Harry e iou-o do sidecar, que mergulhava a pique, Harry puxou a mochila enquanto trepava para o assento da mota 
e deu por si de costas voltadas para as costas de Hagrid.  medida que se elevavam nos ares, para longe dos dois Devoradores da Morte que ainda os perseguiam, Harry 
cuspiu sangue da boca, apontou a varinha ao sidecar e gritou: - Confingo!

Quando o viu explodir, sentiu uma terrvel pontada de angstia por Hedwig que lhe penetrou at s entranhas; o Devorador da Morte que se encontrava mais prximo 
dele foi projectado da sua vassoura e desapareceu de vista; o seu companheiro abrandou e desapareceu.

- Lamento, Harry, lamento sinceramente - lastimou-se Hagrid. - Eu na' me devia ter posto a arranj-la sozinho . Na' temos espao...

- No tem importncia, continua a voar! - gritou-lhe Harry em resposta, enquanto mais dois Devoradores da Morte surgiam da escurido, cada vez mais prximos de ambos.

Hagrid desviava-se e ziguezagueava  medida que novas maldies eram disparadas atravs do espao que os separava: Harry sabia que Hagrid no se atrevia a carregar 
outra vez no boto que expelia fogo de drago visto ele prprio se achar sentado num equilbrio to precrio. Lanou Feitios de Atordoar uns atrs dos outros aos 
seus perseguidores, mantendo-os a custo  distncia. Atirou-lhes mais um feitio para os bloquear: o Devorador da Morte que se encontrava mais perto deu uma guinada 
para o evitar, mas escorregou-lhe o capuz e,  luz vermelha do Feitio de Atordoar seguinte, Harry descortinou o rosto estranhamente inexpressivo de Stanley Shunpike 
. Stan.

- Expelliarmus' - bradou Harry.

-  ele,  ele... o verdadeiro  ele!

O grito do Devorador da Morte encapuzado chegou at Harry apesar do ribombar do motor da mota: foi uma questo de um instante at os dois perseguidores desaparecerem 
de vista.

- Harry, o qu'  qu' aconteceu? - berrou-lhe Hagrid. - Pra onde  qu' eles foram'

56

- Sei l!

Mas Harry estava com medo: o Devorador da Morte encapuzado gritara: "o verdadeiro  ele"; como teria ele descoberto? Contemplou a escurido aparentemente vazia que 
o rodeava e sentiu a ameaa. Onde estariam eles?

Agarrou-se bem ao assento para se voltar para a frente e segurou-se  parte de trs do casaco de Hagrid

- Hagrid, lana o fogo do drago outra vez, vamos fugir daqui!

- 'To segura-te bem, Harry!

O estrpito agudo e ensurdecedor fez-se ouvir uma vez mais e o fogo branco-azulado foi expelido repentinamente do tubo de escape: Harry deu por ele a escorregar 
para trs no assento, onde j de si mal cabia, e Hagrid foi projectado para trs por cima dele, por pouco no se vendo obrigado a soltar o guiador.

- Acho qu' os deixmos pra trs, Harry, acho que conseguimos! - gritou-lhe Hagrid.

Harry, no entanto, no estava convencido, sentia o medo a envolv-lo  medida que olhava para a esquerda e para a direita  procura de perseguidores, certo de que 
apareceriam a todo o momento... Por que teriam eles retrocedido? Um deles ainda empunhava uma varinha...  ele, o verdadeiro  ele... eles tinham dito aquilo logo 
a seguir a ele ter tentado Desarmar o Stan...

- 'Tamos quase a chegar, Harry, j falta pouco! - gritou-lhe Hagrid.

Harry sentiu a mota a descair ligeiramente, embora as luzes l em baixo ainda lhe parecessem to distantes como as estrelas.

Nesse momento, sentiu a cicatriz da testa arder-lhe como fogo; viu aparecer um Devorador da Morte de cada lado da mota, e por pouco no foi atingido por duas Maldies 
de Morte, lanadas de trs..

Foi ento que Harry o viu. Voldemort voava como fumo ao vento, sem a ajuda de vassoura nem de Thestral, o seu rosto a fazer lembrar o de uma serpente a reluzir na 
escurido, os seus dedos lvidos a empunharem novamente a varinha ..

Hagrid soltou um bramido de medo e lanou a mota num mergulho a pique. Agarrando-se  vida com quanta fora tinha, Harry lanava Feitios de Atordoar ao acaso para 
a noite que rodopiava  sua volta. Avistou um corpo que passou a rodopiar por ele e percebeu que atingira um deles, mas logo ouviu um estrondo e viu o motor a soltar 
fascas, a mota precipitou-se em espiral pelo ar, completamente desgovernada...

57

Jactos de luz verde ttomaram a rasar por eles a toda a velocidade. Harry no fazia ideia se estava virado para cima ou para baixo: ainda sentia a cicatriz a arder; 
contava deparar-se com a morte a todo o instante. Reparou num vulto encapuzado montado numa vassoura a curta distncia, viu-o erguer o brao...

- NO!

com um grito de fria, Hagrid lanou-se da mota para cima do Devorador da Morte; para seu horror, Harry viu tanto Hagrid como o Devorador da Morte carem at desaparecerem 
de vista, a vassoura incapaz de suster o peso de ambos.

Mal indo a tempo de apertar a mota que mergulhava no vazio entre os joelhos, Harry ouviu Voldemort bradar: -  meu!

Estava tudo perdido: no conseguia ver nem ouvir onde Voldemort se encontrava; vislumbrou outro Devorador da Morte a precipitar-se repentinamente e ouviu: - Avaa...

com a dor da cicatriz to forte que o obrigou a fechar os olhos, a sua varinha agiu por sua prpria iniciativa. Sentiu-a obrigar a sua mo a virar-se para trs como 
se fosse um grande man, vislumbrou um jorro de fogo dourado por entre as plpebras semicerradas, ouviu um estalido e um grito de fria. O Devorador da Morte que 
restava soltou um berro; Voldemort bradou: "No!" Sem saber como, Harry deu pelo seu nariz mesmo  frente do boto do fogo de drago: carregou nele com a mo que 
tinha livre e a mota lanou mais labaredas pelo ar, despenhando-se direita ao solo.

- Hagrid! - gritou Harry, agarrando-se  mota como se a sua vida dependesse disso. - Hagrid... aedo Hagrid!

A mota ganhou ainda mais velocidade, sugada na direco do solo. com a cara ao mesmo nvel do guiador, Harry via apenas as luzes distantes a aproximarem-se cada 
vez mais: ia estatelar-se no cho e no havia nada que pudesse fazer para o evitar. Vindo de trs, chegou-lhe novo grito...

- A tua varinha, Selwyn, d-me a tua varinha!

Sentiu Voldemort antes de o ver. Olhou para o lado, fitou os seus olhos vermelhos e teve a certeza de que seriam a ltima coisa que veria: Voldemort a preparar-se 
para o amaldioar uma vez mais...

E foi ento que Voldemort desapareceu. Harry baixou os olhos e avistou Hagrid esparramado no solo: segurou-se com quanta fora tinha ao guiador para evitar atingi-lo, 
tacteou  procura do travo; porm, com um choque de ensurdecer e fazer estremecer a terra, acabou por se despenhar num pequeno lago lamacento.

58

V

A QUEDA DO GUERREIRO


 Harry levantou-se a custo dos destroos de metal e couro  sua volta; enquanto tentava pr-se de p, ficou com as mos enfiadas at ao pulso em gua lamacenta. 
No era capaz de perceber como Voldemort desaparecera e contava a todo o momento v-lo surgir repentinamente da escurido. Sentiu algo quente e hmido escorrer-lhe 
da testa e pingar-lhe para o queixo. Rastejou para fora do lago e foi a cambalear at Hagrid, um enorme vulto escuro estendido no cho.

- Hagrid? Hagrid, fala comigo.

O vulto escuro, porm, no se mexeu.

- Quem est a?  o Potter? s o Harry Potter?

Harry no reconheceu a voz masculina. Ento, uma mulher gritou: - Eles despenharam-se, Ted! Despenharam-se no nosso jardim!

Harry sentia a cabea atordoada.

- Hagrid - repetiu ele em vo, sentindo os joelhos a cederem.

Quando deu por si, estava deitado de costas em cima do que lhe pareciam ser almofadas, com uma sensao de ardor nas costelas e no brao direito. O dente que cara 
ttomara a crescer e a cicatriz da testa continuava a latejar.

- O Hagrid?

Abriu os olhos e viu que se achava estendido num sof, numa sala de estar desconhecida, iluminada por um candeeiro. A sua mochila estava pousada no cho a uma curta 
distncia, molhada e lamacenta. Um indivduo de cabelo claro e uma grande barriga olhava para Harry com ar ansioso.

- O Hagrid est bem, meu filho - tranquilizou-o o homem - , a minha mulher est neste momento a tratar dele. Como te sentes? Tens mais alguma coisa partida? Eu consertei-te 
as costelas, o dente e o brao. A propsito, chamo-me Ted, Ted Tonks... Sou o pai da Dora.

59

Harry apressou-se a sentar-se, viu luzes irromperem  frente dos olhos e sentiu-se tonto e enjoado

- O Voldemort...

- Tem calma, v - sossegou-o Ted Tonks, pousando uma mo em cima do ombro de Harry e aconchegando-o contra as almofadas. - Acabaste de ter um grave acidente. O que 
 que aconteceu, afinal? A mota teve algum problema? O Arthur Weasley tornou a esticar-se demasiado, ele e as suas geringonas dos Muggles?

- No - respondeu-lhe Harry, com a cicatriz a latejar como uma ferida aberta. - Foram os Devoradores da Morte, montes deles... lanaram-se no nosso encalo ..

- Os Devoradores da Morte? - retorquiu Ted em ttom abrupto. - O que queres tu dizer com isso? Eu pensei que eles no soubessem que tu ias ser transferido esta noite. 
 .

- Mas sabiam - disse Harry.

Ted Tonks ergueu os olhos para o tecto como se atravs dele pudesse ver o cu.

- bem, pelo menos ficmos a saber que os nossos feitios protectores funcionam, no  verdade? Em princpio, sero obrigados a manter-se a pelo menos cem metros 
de distncia a todo o redor desta casa.

Harry percebia agora por que motivo Voldemort desaparecera: fora no ponto em que a mota atravessara a barreira dos feitios lanados pela Ordem. S esperava que 
continuassem a funcionar; imaginava Voldemort nesse momento cem metros acima das suas cabeas,  procura de um modo de penetrar no que Harry visualizava como uma 
enorme bolha transparente

Atirou as pernas para fora do sof; precisava de ver Hagrid com os seus prprios olhos para poder acreditar que estava vivo. Todavia, mal acabara de se levantar 
quando uma porta se abriu e Hagrid se espremeu para passar por ela, a cara toda mascarrada de lama e de sangue, coxeando ao de leve, mas milagrosamente vivo.

- Harry!

Deitando ao cho duas mesas delicadas e uma aspidistra, Hagrid percorreu a distncia que os separava em duas passadas e puxou Harry para lhe dar um abrao to apertado 
que por pouco no lhe partiu as costelas recm-consertadas. - Caramba, Harry, com'  que te safaste daquela? Pensei que fssemos os dois bater a bota.

- Pois, tambm eu Mal posso acreditar...

60

Harry mterrompeu-se: acabara de reparar na mulher que entrara no quarto atrs de Hagrid.

- Voc! - gritou-lhe e enfiou de seguida a mo no bolso, mas encontrou-o vazio.

- Tenho aqui a tua varinha, meu filho - disse-lhe Ted, dando pancadmhas com ela no brao de Harry. - Estava cada mesmo ao teu lado e eu apanhei-a E a senhora com 
quem gritaste  a minha mulher.

- Oh, ds... desculpe

 medida que avanava pela sala, a semelhana de Mrs. Tonks com a irm Bellatrix ia-se ttomando muito menos pronunciada: o cabelo era de uma tonalidade de castanho-claro 
suave e tinha uns olhos maiores e mais bondosos. No obstante, mostrou-se um tanto ou quanto altiva perante a exclamao de Harry.

- O que  que aconteceu  nossa filha? - interrogou-o ela. - O Hagrid contou-me que caram numa cilada; onde  que est a Nymphadora?

- No fao ideia - disse Harry - No sabemos o que ter sucedido a nenhum dos outros

Os olhares de Ted e da mulher cruzaram-se. Ao ver as expresses de ambos, Harry foi tomado por um misto de apreenso e culpa; se algum dos outros tivesse morrido, 
a culpa seria sua, nica e exclusivamente sua. Fora ele quem acedera em levar o plano por diante, quem lhes dera uma madeixa do seu cabelo ..

- O Boto de Transporte - disse ele, lembrando-se subitamente. - Temos de voltar para A Toca e descobrir... Nessa altura, j vos poderemos dar notcias, ou a... 
a Tonks, mal tenha. .

- A Dora est bem com certeza, Dromeda - tranquilizou-a Ted. - Ela sabe o que faz, j se viu metida em muitos apertos com os Aurors. O Boto de Transporte  por 
aqui - acrescentou ele para Harry. - Se quiseres aproveitar a boleia, tem partida prevista para daqui a trs minutos.

- Sim, quero - confirmou Harry. Pegou na mochila e atirou-a por cima do ombro. - Eu...

Deitou um olhar a Mrs. Tonks, com vontade de lhe pedir desculpas pelo medo que lhe causara e pelo qual se sentia terrivelmente responsvel, mas no lhe ocorreu nada 
que dizer que no lhe soasse a oco e a falso

- Eu digo  Tonks  Dora. . para vos mandar notcias, quando ela... Obrigado por nos porem novinhos em folha, obrigado por tudo Eu...

61

Foi para ele um alvio abandonar a sala e seguir Ted Tonks atravs de um pequeno corredor que conduzia a um quarto de dormir. Hagrid seguiu-os, baixando-se para 
evitar dar uma cabeada no lintel da porta.

- Vai l ento, meu filho. Tens ali o Boto de Transporte. Mr. Tonks estava a apontar para uma pequena escova de cabelo

de cabo prateado pousada em cima do toucador.

- Obrigado - disse-lhe Harry, estendendo um dedo para ela, a postos para partir.

- Espera um instante - mterrompeu-o Hagrid, olhando em seu redor. - Harry, onde  que 't a Hedwig?

- Ela... ela foi atingida - explicou-lhe Harry.

A constatao atingiu-o violentamente, sentiu as lgrimas arderem-lhe nos olhos e teve vergonha de si prprio. A coruja fora a sua companheira, o seu principal elo 
de ligao ao mundo da magia sempre que se vira obrigado a voltar para casa dos Dursley.

Hagrid estendeu-lhe uma grande manpula e, com pesar, deu-lhe palmadmhas no ombro.

- Deixa l - disse ele desajeitadamente. - Deixa l Ela teve 'ma vida longa e cheia...

- Hagrid! - chamou-o Ted Tonks a avis-lo, quando a escova de cabelo emitiu um halo de lu/ azul brilhante, e Hagrid por pouco no foi a tempo de lhe carregar com 
o indicador

Sentindo uma guinada abaixo do umbigo como se um anzol e uma linha de pesca invisveis o tivessem arrastado para a frente, Harry foi puxado para o vazio, rodopiando 
incontrolavelmente, com o dedo colado ao Boto de Transporte, enquanto ele e Hagrid se afastavam aos solavancos de Mr. Tonks, instantes decorridos, os ps de Harry 
embatiam violentamente no cho duro e ele caa apoiado nas mos e nos joelhos no ptio d' A Toca. Ouviu gritos. Descartando-se da escova de cabelo que entretanto 
deixara de emitir luz, Harry ps-se de p, desequilibrando-se ligeiramente, e viu Mrs. Weasley e Ginny a correr pelos degraus da porta das traseiras abaixo, enquanto 
Hagrid, que tambm cara ao aterrar, se levantava a grande custo.

- Harry? s tu o verdadeiro Harry? O que foi que sucedeu? Onde  que esto os outros? - gritou-lhe Mrs Weasley.

- Os outros como? - Ainda no chegou ningum? - indagou Harry, ofegante.

A resposta apresentava-se claramente gravada na expresso plida de Mrs. Weasley.

62

- Os Devoradores da Morte estavam  nossa espera - explicou-lhe Harry - Mal descolmos, demos por ns cercados por todos os lados. . Eles sabiam que era esta noite... 
No fao a mnima ideia do que aconteceu aos outros. Vieram quatro em nossa perseguio, foi a nica maneira que tivemos de conseguir fugir, e depois fomos apanhados 
pelo Voldemort.

Ouvia claramente o ttom         de justificao na sua prpria voz, a splica para que ela compreendesse o motivo por que ele no sabia o que sucedera aos filhos, 
mas...

- Ainda bem que no te aconteceu nada de grave - declarou ela, dando-lhe um abrao que ele achava que no merecia.

- Por acaso na' ters um conhaquezito, Molly? - perguntou-lhe Hagrid com a voz levemente trmula. - Pra fins medicinais?

Mrs. Weasley poderia t-lo invocado por artes mgicas, todavia, ao v-la ttornar a entrar apressadamente na casa tortuosa, Harry percebeu que no queria que lhe 
vissem o rosto. Voltou-se para Ginny e esta de imediato satisfez a sua splica silenciosa para que o informassem do que se passava.

- O Ron e a Tonks deveriam ter sido os primeiros a chegar, mas perderam o Boto de Transporte, que regressou sem eles - explicou-lhe ela, apontando para uma lata 
de leo ferrujenta que se encontrava no cho ali perto. - E aquele ali - indicou um tnis velho - deveria ter trazido o meu pai e o Fred, que eram esperados logo 
a seguir. Tu e o Hagrid eram os terceiros e - consultou o relgio -, se o conseguiram apanhar, o George e o Lupin devem estar de volta dentro de cerca dum minuto.

Mrs. Weasley regressou com uma garrafa de conhaque, que estendeu a Hagrid. Este tirou-lhe a rolha e bebeu directamente do gargalo.

- Me! - gritou Ginny, indicando um ponto a curta distncia.

Uma luz azul surgiu na escurido; foi-se ttomado cada vez maior, e Lupin e George apareceram, rodopiando e depois caindo. Harry percebeu de imediato que algo correra 
mal: Lupin vinha a segurar George, que estava inconsciente e tinha o rosto coberto de sangue.

Harry precipitou-se na direco de ambos e pegou em George pelas pernas. Juntos, ele e Lupin levaram-no para dentro de casa, passando pela cozinha at  sala de 
estar, onde o instalaram no sof. Quando a luz do candeeiro incidiu na cabea de George, Ginny

63

soltou um grito abafado e o estmago de Harry deu uma guinada, faltava-lhe uma das orelhas. A parte lateral da cabea e do pescoo estava ensopada em sangue hmido 
de um escarlate medonho.

Logo que Mrs. Weasley se debruou sobre o filho, Lupin agarrou em Harry por um brao e levou-o dali para fora, sem grande delicadeza, de volta  cozinha, onde Hagrid 
ainda tentava passar o seu corpo avantajado atravs da porta das traseiras.

- Eh! - gritou-lhe Hagrid, indignado. - Larga o Harry! Deixa-o em paz!

Lupin ignorou-o.

- Que criatura  que estava sentada a um canto da primeira vez que o Harry Potter visitou o meu gabinete em Hogwarts? - interrogou-o dando-lhe uma leve sacudidela. 
- Responde-me!

- U-um Grmdylow dentro de um tanque, no era?

Lupin soltou Harry e encostou-se contra a porta de um armrio da cozinha.

- Mas qu'  qu' isso  praqui chamado? - vociferou Hagrid.

- Desculpa, Harry, mas eu tinha de verificar - explicou-lhe Lupin com brusquido. - Fomos trados. O Voldemort sabia que ias ser transferido esta noite e as nicas 
pessoas que o poderiam ter informado tinham de estar directamente envolvidas no plano. Podias ser um impostor.

- Anto e por qu'  qu' a mim na' me interrogas? - ofegou Hagrid, ainda a debater-se para caber na porta.

- Tu s um meio-gigante - esclareceu Lupin, olhando para ele. - A Poo Polissuco s pode ser usada em humanos.

- Ningum da Ordem iria informar o Voldemort que amos partir esta noite - afirmou Harry; a ideia causava-lhe arrepios, no acreditava que algum deles fosse capaz 
duma coisa daquelas. - O Voldemort j s me apanhou mais para o final, a princpio no sabia qual deles era eu. Se ele tivesse estado por dentro do plano, teria 
sabido desde logo que eu era o que ia com o Hagrid.

- O Voldemort apanhou-te? - perguntou-lhe Lupin abruptamente. - E o que  que aconteceu? Como  que lhe conseguiste escapar?

Harry explicou-lhe sucintamente como os Devoradores da Morte que tinham vindo no seu encalo tinham dado mostras de reconhecer nele o verdadeiro Harry, como tinham 
abandonado a perseguio, como tinham invocado Voldemort, que aparecera instantes antes de ele e Hagrid chegarem ao refgio da casa dos pais de Tonks.

64

- Eles reconheceram-te? Mas como? O que  que tu fizeste?

- Eu.. - Harry fez um esforo por se recordar, mas toda a viagem lhe parecia uma nvoa de pnico e confuso. - Eu vi o Stan Shunpike... Sabe, o fulano que era motorista 
do Autocarro Cavaleiro? Quando eu tentei Desarm-lo ao invs de o... bem, ele no sabe o que faz, pois no? Tem de estar sujeito  Maldio Imperius!

Lupin ficou horrorizado.

- Harry, o tempo de Desarmar j l vai! Esta gente anda a tentar capturar-te para te matar! Pelo menos Atordoa se no te sentes preparado para matar!

- Mas ns estvamos a centenas de metros de altitude! O Stan no est em si prprio, e se eu o tivesse Atordoado e ele tivesse cado, teria morrido; seria o mesmo 
que usar a Avaa Kedrava! H dois anos o Expelliarmus salvou-me do Voldemort - acrescentou Harry em ttom de desafio. Lupin fazia-lhe lembrar o sarcstico Hufflepuff 
Zachanas Smith, que troara de Harry por este querer ensinar o Exrcito de Dumbledore a Desarmar.

-  verdade, Harry - afirmou Lupin, contendo-se a custo -, e muitos Devoradores da Morte assistiram ao que se passou1 Vais desculpar-me, mas, estando tu naquela 
altura sob ameaa de morte iminente, tratou-se de uma deciso muito estranha da tua parte. Repeti-la esta noite diante de Devoradores da Morte que ou presenciaram, 
ou ouviram falar da ocasio anterior, foi praticamente um suicdio!

- Ento acha que eu devia ter matado o Stan Shunpike? -

retorquiu Harry, agastado.

- Est claro que no - disse Lupin -, mas os Devoradores da Morte... francamente, a maior parte das pessoas... esperariam que tu atacasses a matar! O Expelliarmus 
 um feitio til, Harry, mas os Devoradores da Morte parecem ser da opinio que  o teu gesto de marca, e tenho de insistir para que no permitas que isso acontea!

Lupin estava a fazer Harry sentir-se um idiota, mas, apesar de tudo, ainda havia uma rstia de desafio no seu ntimo.

- Eu no fao explodir as pessoas que se atravessam no meu caminho s porque me apetece - ripostou ele. - Isso  para o

Voldemort.

A resposta de Lupin perdeu-se: depois de conseguir finalmente espremer-se pela porta, Hagrid foi a cambalear at a uma cadeira e sentou-se; a cadeira desabou debaixo 
dele. Ignorando a sua mistura de imprecaes e desculpas, Harry dirigiu-se uma vez mais a Lupin:

65

- O George vai ficar bem?

Toda a frustrao de Lupin para com Harry pareceu desvanecer-se perante aquela pergunta.

- Creio que sim, embora no haja qualquer possibilidade de lhe substituir a orelha, uma vez que foi amaldioada ..

Chegou-lhes um tumulto vindo do exterior. Lupin precipitou-se para a porta das traseiras; Harry saltou por cima das pernas de Hagrid e correu disparado para o ptio.

Depararam-se com dois vultos e,  medida que Harry corria na sua direco, apercebeu-se de que se tratava de Hermione, que agora regressava  sua aparncia normal, 
e Kingsley, ambos agarrados a um cabide retorcido. Hermione lanou-se para os braos de Harry; Kingsley, porm, no revelou qualquer satisfao ao v-los Por cima 
do ombro de Hermione, Harry viu-o a levantar a varinha e a apont-la ao peito de Lupin

- As derradeiras palavras que o Dumbledore nos dirigiu'

- O Harry  a nossa melhor esperana! Confiem nele! Kingsley dirigiu a varinha a Harry, contudo, Lupin disse-lhe:

-  ele, j verifiquei!

- Pronto, pronto! - disse Kingsley, ttomando a guardar a varinha dentro do manto. - Mas algum nos traiu! Eles sabiam, eles sabiam que era esta noite!

- Tudo indica que sim - assentiu Lupin -, no entanto, d ideia de que no sabiam que lhes iriam aparecer sete Harrys.

- Que grande consolo! - ripostou Kingsley. - Quem  que j voltou?

- S o Harry, o Hagrid, o George e eu. Hermione abafou um gemido com a palma da mo.

- O que  que vos aconteceu? - perguntou Lupin a Kingsley.

- Fomos perseguidos por cinco, ferimos dois, talvez tenhamos matado um - desbobmou Kingsley -, e tambm vimos o Quem-Ns-Sabemos, que se juntou  perseguio quando 
esta ia a meio, mas que no tardou a desaparecer. Remus, ele sabe ..

- Voar - completou Harry. - Eu tambm o vi, ele veio atrs de mim e do Hagrid.

- Ento foi por isso que ele nos deixou em paz... para ir no teu encalo' - concluiu Kingsley. - Eu no estava a perceber a razo de ele ter desaparecido. Mas ento 
o que  que o ter levado a mudar de alvo?

- O Harry decidiu revelar um certo excesso de amabilidade para com o Stan Shunpike - comentou Lupin.

66

- O Stan? - ecoou Hermione. - Mas eu pensei que ele estivesse em Azkaban.

Kingsley soltou uma gargalhada desconsolada

- Hermione,  bvio que ocorreu uma evaso em massa que foi abafada pelo Ministrio. O capuz do Travers caiu quando eu o amaldioei, e ele tambm deveria estar preso. 
Mas o que  que te aconteceu, Remus? Onde est o George?

- Ficou sem uma orelha - informou Lupin.

- Ficou sem uma...? - reiterou Hermione em voz alta.

- Obra do Snape - acrescentou Lupin.

- Do Snape? - ecoou Harry. - Mas no disse...

- Ele perdeu o capuz durante a perseguio. O Sectumsempra foi desde sempre a especialidade do Snape. Quem me dera poder dizer que lhe paguei na mesma moeda, mas 
o George comeou a perder tanto sangue quando foi ferido que eu no pude fazer mais nada com medo de que ele casse da vassoura.

O silncio mstalou-se entre os quatro, enquanto erguiam os olhos para contemplar o cu. No havia sinais de movimento; as estrelas devolveram-lhes um olhar impvido 
e sereno, sem que nenhum dos amigos as obscurecesse  sua passagem. Onde estava Ron? Onde estavam Fred e Mr. Weasley? Onde estavam Bill, Fleur, Tonks, Olho-Louco 
e Mundungus?

- Harry, d-me aqui uma ajuda! - chamou-o Hagrid em voz rouca da porta, na qual se achava novamente entalado. Satisfeito por ter alguma coisa que fazer, Harry acorreu 
a desental-lo; em seguida atravessou a cozinha vazia e voltou  sala de estar, onde Mrs. Weasley e Ginny ainda estavam ocupadas a tratar de George. Mrs. Weasley 
conseguira estancar a hemorragia e,  luz do candeeiro, Harry viu um buraco limpo onde em tempos estivera a orelha de George.

- Como  que ele est'

Mrs. Weasley virou a cabea e disse: - No posso fazer com que cresa novamente, porque foi arrancada por meio de Magia Negra. Mas podia ter sido muito pior... Pelo 
menos, est vivo.

- Pois - concordou Harry. - Felizmente.

- Ser que ouvi qualquer coisa no ptio? - indagou Ginny.

- A Hermione e o Kingsley - respondeu-lhe Harry.

- Que bom! - sussurrou Ginny. Os olhares de ambos cruzaram-se; Harry sentia vontade de a abraar, de se apoiar nela; nem se importava por a alm que Mrs. Weasley 
estivesse presente; contudo, antes de ter tempo de seguir o seu impulso, ouviu-se um enorme estrondo vindo da cozinha

67

- Eu provo-te quem sou, Kingsley, depois de ter visto o meu filho. Agora desanda ou vais ver como elas te mordem!

Harry nunca ouvira Mr. Weasley gritar daquela maneira. Entrou de rompante na sala de estar, a careca a reluzir da transpirao, os culos de banda, Fred mesmo atrs 
dele, ambos plidos mas ilesos.

- Arthur! - soluou Mrs. Weasley. - Oh, mas que grande alvio!

- Como  que ele est?

Mr. Weasley caiu de joelhos ao lado de George. Pela primeira vez desde que Harry o conhecia, Fred parecia estar sem palavras. Foi postar-se atrs do sof, a olhar 
embasbacado para a ferida do irmo gmeo como se no acreditasse no que os seus olhos viam.

Talvez desperto pelo som da chegada de Fred e do pai, George agitou-se.

- Como  que te sentes, George? - sussurrou-lhe Mrs. Weasley.

Os dedos de George comearam a tactear o lado da cabea.

- Como um santo - murmurou ele em resposta.

- O que  que se passa com ele? - resmungou Fred com um ar aterrorizado. - O crebro tambm ficou afectado?

- Como um santo - repetiu George, abrindo os olhos e olhando para o irmo. - Sabes... sou divino. Ests a ver o meu buraco, Fred?!

Mrs. Weasley soluou mais que nunca e o rubor inundou o rosto plido de Fred.

- Que ridculo - recriminou ele o irmo. - Mas que ridculo! com todo um mundo de piadas relativas a orelhas, tu vais logo escolher "buraco"?

- Ah, bem - disse George, arreganhando os dentes  me, desfeita em lgrimas. - Agora, pelo menos, j vai ser capaz de nos distinguir, me.

Olhou em seu redor.

- Ol, Harry... s o Harry, no s?

- Sim, sou - assentiu o prprio, aproximando-se mais do sof.

- bem, ao menos conseguimos trazer-te so e salvo - afirmou George. - Por que  que o Ron e o Bill no esto de volta de mim no meu leito de enfermo?

1 Trocadilho entre holy, "divino", e holey, "esburacado", que em ingls se pronunciam de ftomia idntica. (NT)

68

- - Porque ainda no regressaram, George - explicou-lhe Mrs. Weasley. O sorriso arreganhado de George desvaneceu-se. Harry deitou uma olhadela a Ginny e fez-lhe 
sinal para que o acompanhasse l fora. Quando iam a passar pela cozinha, Ginny comentou com ele em voz baixa: - A esta hora, o Ron e a Tonks j c deviam estar. 
No tinham um longo caminho pela frente; a casa da tia Muriel no fica to longe quanto isso.

Harry quedou-se em silncio. Desde que chegara  Toca que se esforara por controlar o medo, agora, porm, sentia-o a envolv-lo, a rastejar-lhe pela pele acima, 
a palpitar-lhe no peito, a sufocar-lhe a garganta. Enquanto desciam os degraus das traseiras at ao ptio escuro, Ginny deu-lhe a mo.

Kingsley andava para trs e para diante em passos largos, deitando uma olhadela ao cu de cada vez que se virava.  memria de Harry veio a imagem do tio Vernon 
a passarinhar pela sala de estar, havia um milho de anos. Hagrid, Hermione e Lupin encontravam-se lado a lado, a contemplar o cu em silncio. Nenhum deles se voltou 
quando Harry e Ginny se juntaram  sua viglia silenciosa.

Os minutos prolongaram-se at ao que lhes pareceu anos. O mais leve sopro de vento era suficiente para os sobressaltar e faz-los virarem-se para o arbusto ou rvore 
sussurrante na esperana de que um dos membros da Ordem desaparecidos pudesse saltar so e salvo de entre as folhas...

E foi ento que uma vassoura se materializou mesmo por cima das suas cabeas e desceu como um raio em direco ao solo...

- So eles! - gritou Hermione.

Tonks aterrou numa longa derrapagem que atirou terra e pedras para todos os lados.

- Remus! - bradou Tonks, enquanto desmontava da vassoura e corria para os braos de Lupin. A expresso dele estava rgida e lvida: parecia incapaz de falar. Estonteado, 
Ron foi a tropear at junto de Harry e Hermione.

- Vocs esto bem - balbuciou ele, antes de Hermione se lanar a ele e lhe dar um abrao apertado.

- Pensei... pensei...

- 'Tou bem - sossegou-a Ron, dando-lhe palmadinhas ao de leve nas costas. - 'Tou ptimo.

- O Ron foi impecvel - anunciou Tonks calorosamente, largando Lupin. - Verdadeiramente fantstico. Atordoou um dos Devoradores da Morte, mesmo na cabea, e quando 
apontamos a um alvo em movimento montados numa vassoura a voar...

69

- A srio? - disse Hermione, contemplando Ron ainda com os braos em volta do seu pescoo.

- Sempre o mesmo ttom de surpresa - retorquiu ele num ttom amuado e soltando-se do abrao dela. - Fomos os ltimos a chegar?

- No - respondeu-lhe Ginny -, continuamos  espera do Bill e da Fleur, e do Olho-Louco e do Mundungus. vou avisar a me e o pai de que ests bem, Ron

Correu para dentro de casa.

- Ento, por que  que se atrasaram? O
 que  que aconteceu' - Lupin parecia quase zangado com Tonks.

- A Bellatrix - esclareceu esta. - Ela quer deitar-me a mo quase tanto como ao Harry, Remus, fez tudo ao seu alcance para me matar. Quem me dera t-la apanhado, 
estou a dever-lhe uma. Mas do que no h dvida  que ferimos o Rodolphus... depois chegmos  casa da tia do Ron, a Muriel, e perdemos o nosso Boto de Transporte, 
e ela no parava de nos apaparicar...

Via-se um msculo a palpitar no maxilar de Lupin. Este assentiu com a cabea, mas parecia incapaz de adiantar fosse o que fosse.

- Ento e o que  que se passou convosco? - perguntou-lhes Tonks, virando a sua ateno para Harry, Hermione e Kingsley.

Estes contaram-lhe as peripcias das respectivas viagens, contudo, durante todo esse tempo, a ausncia prolongada de Bill, Fleur, Olho-Louco e Mundungus parecia 
pairar sobre eles como uma camada de gelo, o seu frio cortante cada vez mais difcil de ignorar.

- Tenho de voltar para Downing Street. J h uma hora que devia l estar - disse Kingsley por fim, depois de varrer o cu com o olhar uma ltima vez. - Quando eles 
chegarem, avisem-me.

Lupin anuiu com a cabea com um aceno de despedida aos outros, Kingsley afastou-se atravs da penumbra at ao porto. Harry teve a impresso de ouvir um leve estalo 
no momento em que Kingsley Desapareceu alm dos limites d' A Toca.

Mr e Mrs. Weasley desceram numa correria os degraus das traseiras, com Ginny logo atrs. Ambos se abraaram a Ron antes de se virarem para Lupin e Tonks.

- Obrigada - disse Mrs. Weasley -, pelos nossos filhos.

- No sejas tola, Molly - apressou-se Tonks a responder.

- Como  que est o George' - quis saber Lupin.

- O que  que se passa com ele? - interrompeu Ron de imediato.

70

- Ficou sem...

Todavia, o final da frase de Mrs. Weasley foi abafado por um grito em unssono: um Thestral acabara de aparecer e aterrar a meia dzia de metros deles. Bill e Fleur 
deslizaram do seu dorso, varridos pelo vento, mas inclumes.

- Bill! Mas que alvio, que alvio...

Mrs. Weasley correu na direco dele, contudo o abrao que Bill lhe deu foi quase mecnico. Olhando directamente para o pai, anunciou: - O Olho-Louco morreu.

Ningum disse palavra, ningum se mexeu. Harry teve a sensao de que havia qualquer coisa dentro dele a cair, a cair para o mago da terra, abandonando-o para sempre.

- Ns assistimos a tudo - explicou Bill; Fleur assentiu com a cabea, os sulcos das lgrimas a brilharem-lhe nas faces  luz que chegava at eles da janela da cozinha. 
- Aconteceu logo a seguir a termos conseguido romper o crculo: o Olho-Louco e o Dung estavam perto de ns, seguiam tambm para norte. O Voldemort (ele  capaz de 
voar) foi direitinho a eles. O Dung entrou em pnico, eu bem o ouvi gritar, o Olho-Louco tentou cal-lo, mas ele Desapareceu. A maldio do Voldemort atingiu o Moody 
em cheio na cara, ele tombou para trs e caiu da vassoura e... No havia nada que ns pudssemos fazer, nada, j tnhamos meia dzia deles na nossa peugada.

A voz de Bill fraquejou.

- Est claro que no podiam ter feito nada - tranquilizou-o Lupin.

Ficaram todos a olhar uns para os outros. Harry estava perplexo. O Olho-Louco morto; no podia ser... O Olho-Louco, to duro, to corajoso, o sobrevivente rematado...

Por fim, todos pareceram chegar  concluso, embora ningum o tenha dito explicitamente, de que no valia a pena continuarem  espera no ptio e, em silncio, seguiram 
Mr. e Mrs. Weasley de volta  Toca, e para a sala de estar, onde foram dar com Fred e George numa grande risota.

- O que  que foi? - inquiriu Fred ao ver as suas caras de caso ao entrarem - O que  que aconteceu? Quem .?

- O Olho-Louco - respondeu-lhe Mr. Weasley. - Morreu. Os sorrisos arreganhados dos gmeos transformaram-se em

esgares de choque Toda a gente parecia desorientada. Tonks chorava baixinho agarrada a um leno: Harry bem sabia que fora muito chegada a Olho-Louco, era a sua predilecta 
e protegida no

71

Ministrio da Magia. Hagrid, que se instalara a um canto no cho, onde tinha mais espao, estava a secar os olhos a um leno do tamanho duma toalha de mesa.

Bill dirigiu-se ao aparador e tirou de l uma garrafa de Usque de Fogo e uma dzia de copos.

- Aqui est - disse ele e, com um aceno da varinha, fez doze copos cheios voarem pela sala at cada um deles, erguendo o dcimo terceiro ao alto. - Ao Olho-Louco.

- Ao Olho-Louco - repetiram todos, bebendo de seguida.

- Ao Olho-Louco - ecoou Hagrid, um pouco atrasado, com um soluo.

Harry sentiu o Usque de Fogo queimar-lhe a garganta' parecia que o calor lhe devolvia a capacidade de sentir, desfazendo a sensao de entorpecimento e de alheamento 
da realidade, gerando nele uma espcie de coragem.

- Ento e o Mundungus levou sumio? - indagou Lupin, que emborcara o seu usque dum s gole.

A atmosfera sofreu uma alterao imediata, a tenso instalou-se em todos eles, de olhares cravados em Lupin, por um lado desejosos de que ele continuasse, pareceu 
a Harry, por outro, receosos do que pudessem ouvir.

- Sei o que esto a pensar - disse Bill -, e eu prprio j me fiz essa pergunta, quando vinha a caminho daqui, porque parecia que eles estavam  nossa espera, no 
foi? Mas o Mundungus no nos pode ter trado. Eles no sabiam que iria haver sete Harrys, porque ficaram confundidos quando se depararam connosco, e, para o caso 
de se terem esquecido, a sugesto desse pequeno truque partiu do Mundungus Por que razo lhes iria ele omitir o aspecto fulcral? Eu acho que o Dung entrou em pnico, 
 to simples quanto isso. Logo para comear, ele no queria ir, mas o Olho-Louco obngou-o, e o Quem-Ns-Sabemos lanou-se logo na peugada deles: qualquer pessoa 
entraria em pnico.

- O Quem-Ns-Sabemos fez exactamente aquilo que o Olho-Louco esperava que fizesse - constatou Tonks com uma fungadela. - O Olho-Louco disse que ele estaria a contar 
com que o Harry fosse acompanhado pelo Auror mais forte e experiente. O Quem-Ns-Sabemos foi atrs do Olho-Louco e, quando o Mundungus os desmascarou, virou-se para 
o Kingsley.

- Pois, isso ezt tudo muito cerrto - retorquiu Fleur -, mas continuamos sem saberr como  que ele descobrriu que noz amos levarr o Arry esta noite, non ? Algum 
se deve terr descuidado.

72

Algum deixou escaparr a data em frrente de um estrranho.  a nica exphcaon parra eles saberrem a data, mas non o plano.

Lanou um olhor feroz em seu redor, o seu lindo rosto ainda marcado pelo rasto das lgrimas, desafiando-os em silncio a contradiz-la. Ningum se atreveu O nico 
rudo a interromper o silncio foi o soluar de Hagrid por detrs do leno. Harry olhou de relance para ele, que acabara de arriscar a sua prpria vida para o salvar 
- Hagrid, de quem ele tanto gostava, em quem tanto confiava, mas que em tempos se deixara ludibriar e entregara informaes cruciais a Voldemort a troco de um ovo 
de drago. .

- No - disse Harry em voz alta, e todos os olhares se viraram para ele, surpresos- o Usque de Fogo parecia ter-lhe amplificado a voz. - Isto ... se algum cometeu 
um erro - prosseguiu Harry - e deixou escapar alguma coisa, tenho a certeza de que no foi com m inteno. A culpa no foi dessa pessoa - repetiu, mais uma vez 
ligeiramente mais alto que o seu ttom de voz habitual. - Temos de confiar uns nos outros Estou convencido de que ningum nesta sala seria capaz de me atraioar e 
entregar ao

Voldemort.

As suas palavras foram acolhidas com novo silncio. Estavam todos a olhar para ele Harry tornou a sentir-se um tanto ou quanto afogueado e bebeu mais um gole de 
usque para ter alguma coisa que fazer. Enquanto bebia, lembrou-se de Olho-Louco. Este sempre se mostrara muito crtico em relao  disponibilidade de Dumbledore 
para confiar nos outros.

- Bem dito, Harry - elogiou-o Fred inesperadamente.

- Isso, muito bem, apoiado, apoiado - acrescentou George, deitando uma olhadela de vis a Fred, cujos lbios tremeram de riso.

Lupin encarou Harry com uma expresso admirada, quase de

lstima

- Acham que estou a ser ingnuo? - perguntou-lhes Harry

- No, acho que s como o James - respondeu-lhe Lupin -, que considerava o cmulo da desonra desconfiar dos amigos

Harry sabia onde Lupin queria chegar: que o pai fora trado por um amigo, Peter Pettigrew Sentiu-se dominado por uma fria irracional. Teve vontade de argumentar, 
mas Lupin j desviara a aten " "Apoiado, apoiado", em ingls hear, hear, que George pronuncia sem aspirar o "h", ear, ou seja "orelha" (NT)

73

co dele, pousando o copo em cima de uma mesa de apoio e dirigindo-se a Bill: - H trabalho  nossa espera. Posso pedir ao Kingsley se...

- No - interrompeu-o Bill de imediato. - Eu trato disso, eu vou.

- Aonde  que tu vais? - inquiriram Tonks e Fleur em unssono.

- O corpo do Olho-Louco - esclareceu Lupin. -  preciso recuper-lo.

- Isso no pode...? - comeou Mrs. Weasley, deitando um olhar suplicante a Bill.

- Esperar? - retorquiu este. - S se quisermos que sejam os Devoradores da Morte a ficar com ele.

Ningum se pronunciou, e Lupin e Bill despediram-se e foram-se embora.

Os outros deixaram-se cair nas cadeiras, todos  excepo de Harry, que continuou de p. A presena da morte, to sbita e definitiva, fazia-se sentir entre eles.

- Tambm tenho de ir andando - anunciou Harry. Dez pares de olhos concentraram-se nele.

- No sejas tolo, Harry - repreendeu-o Mrs. Weasley. - De que  que ests para a a falar?

- No posso ficar aqui.

Esfregou a testa que estava novamente a atorment-lo; havia mais de um ano que no lhe doa tanto.

- Enquanto eu aqui estiver, todos vocs correm perigo. No quero...

- Mas que disparatado que tu me saste! - insistiu Mrs. Weasley. - O principal objectivo desta noite foi fazer-te chegar aqui so e salvo e, felizmente, deu resultado. 
E a Fleur j aceitou casar-se aqui em lugar de em Frana, j tratmos de tudo de forma a podermos ficar juntos e cuidarmos de ti...

Ela no compreendia; estava a fazer com que ele se sentisse pior, e no o contrrio.

- Se o Voldemort descobre que eu aqui estou...

- Mas por que  que ele haveria de descobrir? - ripostou Mrs. Weasley.

- Neste momento, podias estar em dzias de stios, Harry - interveio Mr. Weasley. - Ele no tem forma de saber em qual das casas protegidas tu te encontras.

- Mas no  comigo que eu estou preocupado! - exclamou Harry.

74

- Ns sabemos - afirmou Mr. Weasley em voz baixa -, s, se te fores embora, todo o esforo que fizemos esta noite ter

sido em vo.

- Tu na' vais a lado nenhum - resmungou Hagrid. - Caramba, Harry, depois de tudo por que passmos pra te trazer

pra 'qui?

- Pois, e a minha orelha? - disse George, recostando-se nas

almofadas.

- Eu sei que...

- O Olho-Louco no gostaria que...

- EU SEI! - bradou Harry.

Sentia-se assediado e chantageado: seria possvel que julgassem que ele no tinha noo do que haviam feito por ele, seria possvel que no compreendessem que era 
precisamente por isso que desejava ir-se embora, antes que eles se vissem obrigados a sofrer mais por sua causa? Seguiu-se um longo silncio de constrangimento durante 
o qual a cicatriz lhe continuou a arder e a latejar, e que Mrs. Weasley finalmente quebrou.

- Onde  que est a Hedwig, Harry? - perguntou-lhe ela em ttom apaziguador. - Podemos instal-la ao p da Pigwdgeon e dar-lhe de comer.

Harry sentiu as entranhas apertarem-se-lhe como um punho cerrado. No tinha coragem de lhe dizer a verdade. Bebeu o ltimo gole de Usque de Fogo para evitar ter 
de lhe responder.

- Vais ver quando descobrirem que tu voltaste a fazer o mesmo, Harry - disse Hagrid. - Fugiste-lhe, repeliste-o mesmo quand' ele 'tava em cima de ti!

- No fui eu -justificou-se Harry categoricamente. - Foi a minha varinha. A minha varinha agiu por vontade prpria.

Passados uns instantes, com toda a delicadeza, Hermione disse-lhe: - Mas isso  impossvel, Harry. O que tu queres dizer  que fizeste magia sem quereres; reagiste 
de forma instintiva.

- No - insistiu Harry. - A mota estava a cair, eu no fazia a mais pequena ideia de onde o Voldemort se encontrava, mas a varinha girou na minha mo, apontou para 
ele e lanou-lhe um feitio, um feitio que eu nem sequer conhecia. Nunca tinha feito aparecer labaredas douradas.

- Acontece com frequncia - explicou Mr. Weasley -, quando nos achamos sob presso, fazermos magia com que nunca sonhmos. Acontece muito s crianas pequenas, antes 
de serem treinadas...

75

- No se tratou disso - ripostou Harry entre dentes. Tinha a cicatriz a arder e estava zangado e frustrado, abominava pensar que eles achassem que o seu poder era 
comparvel ao de Voldemort.

Ningum se pronunciou. Sabia que no acreditavam nele. Contudo, agora que pensava nisso, nunca ouvira falar de nenhuma varinha que fizesse magia por sua prpria 
iniciativa.

A cicatriz ardia-lhe tanto que lhe doa; conteve a custo um gemido. Resmungando que precisava de apanhar ar fresco, pousou o copo e abandonou a sala.

 medida que atravessava o ptio envolto na escurido, o grande Thestral esqueltico levantou os olhos, roagou as suas enormes asas de morcego e em seguida tornou 
concentrar-se no pasto. Harry deteve-se junto ao porto que dava acesso ao jardim, varrendo com o olhar a vegetao crescida, enquanto esfregava a testa latejante 
e pensava em Dumbledore.

Dumbledore teria acreditado nele, disso tinha a certeza. Dumbledore teria sabido como e porqu a varinha de Harry agira por sua prpria conta, porque Dumbledore 
tinha sempre resposta para tudo; fora um grande conhecedor de varinhas, explicara a Harry a estranha ligao entre a sua varinha e a de Voldemort... Dumbledore, 
porm, tal como Olho-Louco, tal como Sirius, tal como os seus pais, tal como a sua pobre coruja, tinha ido para um stio onde Harry no poderia ttomar a falar com 
eles. Sentiu uma queimadura na garganta que nada tinha que ver com o Usque de Fogo ..

E foi ento que, sem avisar, a dor na cicatriz o atingiu com uma intensidade insuportvel  medida que se agarrava  testa e fechava os olhos, ouviu uma voz gritar 
dentro da sua cabea:

- Tu disseste-me que, se eu usasse outra varinha, o problema ficava resolvido'

E na sua mente irrompeu a imagem de um velho emaciado coberto de andrajos, estendido em cima de um pavimento de pedra, aos gritos, gritos medonhos e prolongados, 
gritos de angstia intolervel...

- No! No! Por favor, por favor...

- Tu mentiste a Lord Voldemort, Ollivander!

- No menti, no... Juro que no menti ..

- Tu tentaste ajudar o Potter, ajudaste-o a fugir de mim!

- Juro que no ajudei... Eu pensava que outra varinha iria dar resultado ..

76

- Ento, explica-me o que se passou A varinha do Lucius.

ficou destruda!

- No compreendo., a ligao... s existe... entre as vossas

duas varinhas...

- Mentiras!

- Por favor . suplico-lhe...

E Harry viu a mo lvida a empunhar a varinha e sentiu o acesso de clera malvola de Voldemort, viu o velho frgil a contorcer-se no cho em agonia...

- Harry?

Tudo terminou to depressa quanto comeara: Harry ficou a tremer na escurido, agarrado ao porto que dava para o jardim, o corao desalvorado, a cicatriz ainda 
a picar-lhe. Foi preciso algum tempo para se aperceber de que tinha Ron e Hermione a

seu lado.

- Harry, volta para dentro de casa - sussurrou-lhe Hermione. - J no ests a pensar em ir embora, pois no?

- Pois, tens de ficar aqui, meu - insistiu Ron, dando-lhe uma palmada nas costas.

- Sentes-te bem? - perguntou-lhe Hermione, suficientemente perto para lhe ver o rosto. - Ests com pssimo aspecto!

- bem - disse Harry, trmulo -, devo estar melhor que o

Ollivander...

Quando acabou de lhes contar o que vira, Ron tinha um ar apavorado, mas Hermione estava absolutamente aterrorizada.

- Mas isso j devia ter acabado! A tua cicatriz... j no devia fazer isso! No podes permitir que a ligao ttome a estabelecer-se... O Dumbledore queria que tu 
fechasses a tua mente!

Quando viu que Harry no lhe respondia, Hermione agarrou-se ao brao dele.

- Harry, ele est a apoderar-se do Ministrio, da imprensa e de metade do mundo da feitiaria! No deixes que se apodere tambm da tua mente!

77

VI

O VAMPIRO DE PIJAMA

O choque do desaparecimento de Olho-Louco pairou sobre a casa nos dias que se seguiram; Harry estava sempre  espera de o ver entrar a manquear pela porta das traseiras, 
como os outros membros da Ordem, que passavam por l para lhes dar as ltimas novidades. Harry sentia que apenas a aco seria capaz de apaziguar a sua conscincia 
pesada e o seu desgosto, e que tinha de partir o mais depressa possvel para a sua misso destinada a destruir os Horcruxes.

- bem, no h nada que possas fazer a respeito dos... - Ron mimou com os lbios a palavra Horcruxes - at fazeres dezassete anos. Ainda no te livraste do Detector. 
E ns podemos planear to bem aqui como em qualquer outro lugar, no ? Ou - baixou a voz para um sussurro - achas que j descobriste onde  que aquilo-que-sabemos 
est?

- No - admitiu Harry.

- Julgo que a Hermione anda a fazer umas investigaes - disse Ron. - Ela contou-me que estava a guard-las para quando aqui chegasses.

Estavam sentados  mesa do pequeno-almoo, Mr. Weasley e Bill tinham acabado de sair para o emprego, Mrs. Weasley fora acordar Hermione e Ginny, enquanto Fleur os 
deixara para ir tomar banho.

- O Detector vai desaparecer no dia trinta e um - afirmou Harry. - Isso significa que s preciso de ficar aqui mais quatro dias. Depois, posso..

- Cinco dias - corrigiu-o Ron em ttom firme. - Temos de ficar c at ao casamento. Elas matam-nos se nos formos embora antes disso.

Harry percebeu que "elas" se referia a Fleur e a Mrs. Weasley.

-  s mais um dia - acrescentou Ron quando viu o ar de rebeldia de Harry.

- Ser possvel que elas no percebam a importncia...'

- Est claro que no percebem - retorquiu Ron. - Nem lhes passa pela cabea. E at vem a propsito, porque queria falar contigo sobre isso mesmo.

78

l

Ron espreitou pela porta para o corredor para se certificar de que Mrs. Weasley no vinha a chegar, em seguida inclinou-se para

Harry.

- A minha me anda a tentar arrancar-nos informaes, a mim e  Hermione, sobre o que tencionamos fazer. A seguir vais ser tu, portanto vai-te desde j preparando. 
O meu pai e o Lupin tambm vieram com umas perguntas, mas, quando lhes dissemos que o Dumbledore te avisou para no contares a ningum  excepo de ns dois, eles 
desistiram. Mas a minha me  que no desiste. Est decidida a descobrir custe o que custar.

O prognstico de Ron concretizou-se umas horas mais tarde, faltava pouco para o almoo. Mrs. Weasley afastou Harry dos outros sob o pretexto de que ele a ajudasse 
a identificar uma meia desirmanada que talvez tivesse cado da sua mochila. Mal o conseguiu encurralar na pequena copa junto  cozinha, disparou.

- O Ron e a Hermione parecem estar convencidos de que vocs trs vo abandonar Hogwarts - comeou ela num ttom leve e despreocupado.

- Oh - disse Harry. - bem, pois. Vamos, de facto.

A calandra comeou a funcionar sozinha, espremendo c para fora o que se assemelhava a uma camisola interior de Mr. Weasley.

- E eu por acaso posso saber qual o motivo que vos leva z desistir dos estudos' - indagou Mrs. Weasley.

- Bem, o Dumbledore deixou-me... coisas para fazer - balbuciou Harry - O Ron e a Hermione esto ao corrente e querem vir comigo.

- Que espcie de "coisas"?

- Desculpe, mas no posso...

- bem, para falar com toda a franqueza, acho que eu e o Arthur temos o direito de saber, e tenho a certeza de que Mr. e Mrs Granger seriam da mesma opinio! - declarou 
Mrs. Weasley. Harry receara o ataque dos "pais preocupados". Obrigou-se a olh-la bem nos olhos, reparando nesse momento que eles eram exactamente da mesma tonalidade 
de castanho que os de Ginny, o que no o ajudou em nada.

- O Dumbledore no queria que mais ningum soubesse, Mrs. Weasley. Lamento. O Ron e a Hermione no so obrigados a vir, a escolha  deles...

- E eu tambm no percebo por que  que tu tens de ir! - ripostou ela, deixando-se de lisuras. - Vocs mal atingiram a maioridade, qualquer dos trs!  um perfeito 
disparate, se o

79

Dumbledore precisava que lhe fizessem alguma coisa, tinha a Ordem toda  sua disposio! Harry, tu deves ter percebido mal. O mais certo  que ele te estivesse a 
dizer que queria que qualquer coisa fosse feita, e tu interpretaste como se ele quisesse que fosses tu a faz-la...

- Eu no o interpretei mal - insistiu Harry em ttom categrico. - Tenho de ser eu a faz-lo.

Devolveu-lhe a meia desirmanada que supostamente deveria ter identificado e que ostentava um padro de juncos dourados.

- E isso no  meu, no sou adepto dos Puddlemere United.

- Oh, pois est claro que no - disse Mrs. Weasley, com um regresso sbito e um pouco enervante ao seu ttom de voz despreocupado. - Como  que no dei logo por isso? 
bem, Harry, j que ests aqui, no te importas de me dares uma ajuda nos preparativos para o casamento do Bill e da Fleur, pois no? H tanto a fazer.

- No... eu...  claro que no - balbuciou Harry, desconcertado perante aquela sbita mudana de assunto.

- s um amor - disse-lhe ela, e foi com um sorriso nos lbios que abandonou a copa.

Desse momento em diante, Mrs. Weasley manteve Harry, Ron e Hermione de tal maneira ocupados com os preparativos para o casamento que mal lhes sobrava tempo para 
pensar. A explicao mais inocente para esta atitude seria que Mrs. Weasley pretendia distrair a sua ateno da morte de Olho-Louco e dos horrores da provao que 
haviam sofrido recentemente. Todavia, aps dois dias a fio a arear talheres, a fazer condizer as cores de presentes, fitas e flores, a exterminar os gnomos do jardim 
e a ajudar Mrs. Weasley a preparar ftomadas descomunais de canaps, Harry comeou a suspeitar de que a motivao dela talvez fosse outra. Todas as tarefas de que 
os encarregava pareciam destinadas a mante-lo a ele, a Ron e a Hermione afastados uns dos outros; desde a primeira noite, quando lhes contara que Voldemort estava 
a torturar Ollivander, que no tivera ocasio de conversar com nenhum dos dois em privado.

- Julgo que a minha me est convencida de que, se conseguir impedir que os trs se juntem para falar do plano, vai ser capaz de adiar a vossa partida - comentou 
Ginny com Harry em voz sumida, enquanto punham a mesa para o jantar na terceira noite da sua estada.

- E depois o que pensar ela que vai acontecer? - murmurou Harry. - Que outra pessoa vai avanar para matar o Voldemort, enquanto ela nos mantm aqui presos a fazer 
vol-au-vents?

80

Falara sem pensar e viu o rosto de Ginny empalidecer.

- Ento, afinal sempre  verdade? - interpelou-o ela.

 isso que vocs esto a planear fazer?

- Eu... no... Eu estava a brincar - respondeu-lhe Harry em

ttom evasivo.

Ficaram a olhar fixamente um para o outro, e a expresso de Ginny deixou transparecer algo mais que choque. Subitamente, Harry apercebeu-se de que era a primeira 
vez que ficavam a ss desde as horas furtivas passadas em recantos escondidos de Hogwarts e teve a certeza de que tambm isso viera  memria dela. Ambos se sobressaltaram 
quando a porta se abriu, e Mr. Weasley, Kingsley e Bill entraram.

Agora era frequente receberem membros da Ordem para jantar, porque A Toca substitura o nmero doze de Grimmauld Place enquanto Quartel-General. Mr. Weasley explicara-lhes 
que, depois da morte de Dumbledore, o Guardador Secreto, cada uma das pessoas a quem Dumbledore confiara a localizao de Grimmauld Place se tornara por sua vez 
Guardador Secreto.

- E como somos cerca de vinte, isso diluiu muito o poder do Encantamento Fidelius. A oportunidade de os Devoradores da Morte nos arrancarem o segredo v-se assim 
vinte vezes acrescida. No podemos contar que ele se mantenha por muito mais

tempo.

- Mas com certeza a esta hora o Snape j revelou o endereo

aos Devoradores da Morte? - inquiriu Harry.

- Bem, o Olho-Louco lanou umas quantas maldies contra o Snape para o caso de ele se lembrar de voltar a pr l os ps. Esperemos que sejam suficientemente fortes 
tanto para o manter  distncia como para lhe atar a lngua, se ele tentar mencionar o stio, mas no podemos ter a certeza absoluta. Seria uma imprudncia continuar 
a usar aquela casa como Quartel-General agora que a sua proteco est to instvel.

Nessa noite, a cozinha estava to cheia de gente que era difcil manusear os garfos e as facas. Harry deu por si comprimido ao lado de Ginny; as palavras reprimidas 
que no tinham acabado por dizer urn ao outro levaram-no a desejar que houvesse algumas pessoas a separ-los. Esforava-se tanto por evitar que o seu brao roasse 
no dela que mal conseguia cortar o frango.

- Nenhuma novidade a respeito do Olho-Louco? - perguntou Harry a Bill.

- Nada - respondeu este.

81

Ainda no lhes tinha sido possvel realizar o funeral de Moody, porque Bill e Lupin no tinham conseguido recuperar o corpo. Era difcil descobrir onde poderia ter 
cado, dada a escurido e o tumulto da batalha.

- O Profeta Dirio no fez uma nica referncia  morte dele, nem ao facto de o corpo no ter sido encontrado - prosseguiu Bill. - Mas isso no nos adianta de muito. 
Ultimamente, eles tm-se fartado de omitir notcias.

- E eles ainda no exigiram que eu fosse a tribunal por ter usado magia vetada a menores para escapar aos Devoradores da Morte? - perguntou Harry a Mr. Weasley, 
do lado oposto da mesa, ao que este abanou a cabea. - Porque acham que eu no tive outra alternativa ou porque no querem que eu anuncie ao mundo que o Voldemort 
me atacou?

- A ltima hiptese, creio eu. O Scringeour no quer admitir que o Quem-Ns-Sabemos  to poderoso quanto de facto , e muito menos que houve uma evaso em massa 
de Azkaban.

- Pois, para qu contar a verdade ao pblico? - retorquiu Harry, apertando a faca com tanta fora que as cicatrizes desmaiadas das costas da sua mo direita se salientaram, 
lvidas, em contraste com a pele: No devo dizer mentiras.

- Mas ser possvel que no haja ningum no Ministrio disposto a enfrent-lo? - insurgiu-se Ron.

-  claro que sim, Ron, mas as pessoas andam aterrorizadas - justificou-se Mr. Weasley -, cheias de medo de que, para a prxima, lhes calhe a elas desaparecerem, 
ou que os seus filhos sejam os prximos a ser atacados! Andam a circular rumores atrozes; eu, logo para comear, no acredito que a professora de Estudos sobre Muggles 
se tenha demitido de Hogwarts. H semanas que ningum lhe pe a vista em cima. Entretanto, o Scringeour passa o dia fechado no gabinete; s espero que esteja a trabalhar 
num plano qualquer.

Fez-se uma pausa durante a qual, por artes mgicas, Mrs. Weasley afastou os pratos vazios para o lado e serviu tarte de ma.

- Temoz de decidirr de que  que te vais disfararr, Arry - disse Fleur, depois de a sobremesa ter sido servida a todos. - Parra o casamento - acrescentou, ao ver 
o seu ar perplexo. - E clarro que non convidmos nenhum Devorradorr da Morrte, mas non podemos garrantirr que algum non v deixarr escaparr qualquerr coisa depoiz 
de terr bebido champanhe

82

Perante isto, Harry concluiu que ela ainda suspeitava de

Hagrid.

- Sim, parece-me uma boa ideia - concordou Mrs. Weasley da cabeceira da mesa, onde estava sentada, os culos empoleirados na ponta do nariz, percorrendo uma imensa 
lista de tarefas que escrevinhara numa grande folha de pergaminho. - E tu, Ron, j arrumaste o teu quarto?

- Para qu!? - exclamou Ron, batendo com a colher com toda a fora na mesa e dirigindo um olhar indignado  me. - Para que  que o meu quarto precisa de ser limpo? 
Eu e o Harry estamos ptimos assim como est!

- Daqui a uns dias, meu rapaz, vamos realizar aqui o casamento do teu irmo ..

- E por acaso eles vo-se casar no meu quarto' - retorquiu Ron, furioso. - No! Ento, pelas barbas de Merlin, por que 

que

- No te admito que fales assim com a tua me - repreendeu-o Mr. Weasley com firmeza. - E v l se fazes o que te mandam

Ron lanou um olhar mal-humorado ao pai e  me, em seguida pegou na colher e atacou o que restava da sua tarte de

ma.

- Eu posso ajudar-te, muita da desarrumao fui eu quem a fez - disse Harry a Ron, mas Mrs. Weasley interrompeu-o sem

demora.

- No, Harry, meu querido, preferia que ajudasses o Arthur a limpar o galinheiro, e tu, Hermione, ficar-te-ia imensamente grata se mudasses os lenis da cama de 
Monsieur e Madame Delacour, que, como sabes, chegam amanh de manh s onze

horas.

A verdade, porm,  que havia muito pouco que fazer quanto

s galinhas.

- No vale a pena, ha... ires contar  Molly - disse Mr Weasley a Harry, bloqueando-lhe a entrada no galinheiro -, mas, ha... o Ted Tonks enviou-me quase tudo o 
que restou da mota do Sirius e, ha... eu escondi-a... quer dizer, guardei-a. . aqui. Material de primeira, tem uma perna de escape, creio que  assim que se chama, 
uma bateria extraordinria, e vai ser uma grande oportunidade para descobrir como funcionam os traves. vou tentar mont-la toda outra vez quando a Molly no... 
isto , quando tiver tempo.

83

Quando voltaram para casa, no conseguiram encontrar Mrs. Weasley em parte alguma, e, assim, Harry esgueirou-se pela escada acima at ao sto, onde ficava o quarto 
de Ron.

- Estou a arrumar, estou a arrumar...! Oh, s tu - disse Ron com ar de alvio, ao ver Harry entrar no quarto. Ron tornou a estender-se de barriga para cima na cama, 
de onde, era bvio, acabara de se levantar. O quarto continuava to desleixado como estivera a semana toda; a nica alterao era que Hermione estava agora sentada 
no canto mais afastado, com o seu gato felpudo arruivado, Crookshanks, aos ps, a fazer uma escolha aos livros, alguns dos quais Harry reconheceu como seus, e a 
dividi-los em duas enormes pilhas.

- Ol, Harry - curnpnmentou-o, enquanto ele se sentava na sua cama desmontvel.

- Como  que conseguiste fugir?

- Oh, a me do Ron esqueceu-se de que j nos tinha pedido, a mim e  Ginny, para mudar os lenis ontem - explicou-lhe Hermione. Atirou Numerologia e Gramtica para 
uma pilha e Ascenso e Queda das Artes Mgicas para outra.

- Estvamos mesmo agora a falar sobre o Olho-Louco - disse Ron a Harry. - Eu acho que ele talvez tenha sobrevivido.

- Mas o Bill viu-o ser atingido pela Maldio de Morte - contraps Harry.

- Pois , mas o Bill tambm estava a ser atacado - salientou Ron. - Como  que pode estar assim to certo do que viu?

- Mesmo que no tenha sido atingido pela Maldio de Morte, o Olho-Louco caiu de certeza de uma altura de mais de trezentos metros - opinou Hermione, que sopesava 
agora As Equipas de Quidditch da Inglaterra e da Irlanda numa das mos.

- Pode ter usado o Feitio do Escudo Invisvel...

- A Fleur contou-me que viu a varinha explodir-lhe da mo - lembrou Harry.

- Pronto, est bem, j que querem tanto que ele tenha morrido - ripostou Ron mal-humorado, batendo na almofada para que esta adquirisse uma forma mais confortvel.

- Est claro que no queremos que ele esteja morto! - mdignou-se Hermione com ar chocado. -  horrvel que ele tenha morrido! Estamos apenas a ser realistas.

Pela primeira vez, Harry imaginou o corpo de Olho-Louco, to desfeito como o de Dumbledore, mas com o nico olho ainda a vibrar na rbita. Sentiu uma pontada de 
repulsa misturada com uma estranha vontade de rir.

84

- O mais provvel  os Devoradores da Morte terem limpado todos os vestgios da batalha, por isso  que ningum encontrou o corpo dele - afirmou Ron sabiamente.

- Pois  - assentiu Harry. - Como o Barty Crouch, que foi transformado num osso e enterrado no jardim da frente do Hagrid. Devem ter Transfigurado o Moody e encafuado 
.

- No! - guinchou Hermione. Sobressaltado, Harry olhou para ela mesmo a tempo de a ver desfazer-se num pranto para cima do seu exemplar do Sabno de Spellman.

- Oh, no! - exclamou Harry, levantando-se a custo da sua cama desmontvel. - Hermione, eu no tive inteno de te

magoar...

Todavia, com um grande rangido de molas ferrugentas, Ron saltou da cama e adiantou-se-lhe, chegando primeiro junto dela. Colocando um brao em redor de Hermione, 
vasculhou dentro do bolso das calas de ganga e tirou para fora um leno de assoar com um aspecto repugnante, de que anteriormente se servira para limpar o forno. 
Puxou rapidamente da varinha, apontou-a para o leno e disse: - Tergeo.

Como se fosse um sifo, a varinha extraiu a maior parte da gordura com um certo ar de satisfao para consigo prprio, Ron estendeu o leno ligeiramente fumegante 
a Hermione.

- Oh.. obrigada, Ron... Desculpa... - Assoou o nariz e soltou um soluo. -  hor-rvel, no ? L-logo a seguir ao Dumbledore... E-eu n-nunca imaginei que o Olho-Louco 
pudesse morrer, parecia-me to forte!

- Pois, eu percebo - disse Ron, dando-lhe um abrao. - Mas sabes o que nos diria ele se aqui estivesse?

- Vi-vigilncia constante - respondeu Hermione, secando

os olhos.

- Nem mais - disse Ron, assentindo com a cabea. - Dir-nos-ia para aprendermos com o que lhe sucedeu E o que eu aprendi foi a no confiar naquele cobardolas reles 
do Mundungus.

Hermione soltou uma gargalhada trmula e mchnou-se para a frente para pegar em mais dois livros. Passado um instante, Ron retirou-lhe o brao subitamente dos ombros; 
ela deixara-lhe cair O Monstruoso Livro dos Monstros em cima de um p. O livro hbertara-se da cinta que o envolvia e atirava-se com toda a fria ao ttomozelo de 
Ron.

- Desculpa, desculpa! - gritou Hermione, enquanto Harry arrancava o livro da perna de Ron e tentava fech-lo.

85

- Mas afinal para que  que tu queres estes livros todos? - perguntou-lhe Ron, voltando a coxear para a cama.

- Estou s a tentar decidir quais  que havemos de levar connosco - esclareceu Hermione. - Quando formos  procura dos Horcruxes.

-  claro,  claro - disse Ron, batendo com uma mo na testa. - Esqueci-me de que amos  caa do Voldemort instalados numa biblioteca mvel.

- Ah, ah - zombou Hermione, baixando os olhos para o Silabrio de Spellman. - Deixa-me c ver... ser que vamos precisar de traduzir runas?  bem possvel... Acho 
que  melhor levarmo-lo connosco, para o caso de nos fazer falta.

Deixou cair o silabrio na mais alta das duas pilhas e pegou em Hogwarts: Uma Histria.

- Ouam - disse Harry.

Estava sentado muito direito. Ron e Hermione olharam para ele com um misto de resignao e desafio.

- Eu sei que, depois do funeral do Dumbledore, vocs disseram que queriam vir comigo - comeou Harry.

- L vai ele - disse Ron a Hermione, revirando os olhos.

- Como j estvamos  espera - suspirou ela, ttomando a concentrar a sua ateno nos livros. - Sabem, acho que vou levar Hogwarts: Uma Histria. Apesar de no irmos 
voltar para l, no me sentiria bem se no a tivesse comigo...

- Ouam! - insistiu Harry.

- No, Harry, quem tem de ouvir s tu! - ripostou Hermione. - Ns vamos contigo. H meses que isso ficou decidido... h anos, alis.

- Mas...

- Cala-te - advertiu-o Ron.

- ... tm a certeza de que pesaram bem as consequncias? - teimou Harry.

- Vejamos - afirmou Hermione, atirando Viagens com os Trolls para as pilha dos livros rejeitados com um olhar um tanto ou quanto ameaador. - H dias que ando a 
fazer as malas, para que possamos partir de um momento para o outro, o que, para tua informao, me obrigou a fazer alguns truques bem difceis, j para no falar 
de ter de surripiar o ftomecimento inteiro de Poo Polissuco do Olho-Louco debaixo do nariz da me do Ron.

"E, para alm do mais, modifiquei as memrias dos meus pais para que eles se convenam de que os seus verdadeiros nomes so

86

Vendell e Monica Wilkins e que a sua maior ambio  irem viver para a Austrlia, o que, alis, j fizeram. Isso foi para que o Voldemort no consiga localiz-los 
para os interrogar a meu respeito... ou teu, porque, infelizmente, eu j lhes contei muita

coisa sobre ti.

"Partindo do princpio de que sobrevivo  caa aos Horcruxes, quando voltar, vou  procura dos meus pais e desfao o feitio. No sei... bem, acho que o feitio 
que lancei sobre eles ser suficiente para os manter sos, sAlbos e satisfeitos.  que, esto a ver, o Wendell e a Monica Wilkins no sabem que tm uma filha.

Hermione tinha os olhos novamente inundados de lgrimas. Ron levantou-se novamente da cama, tornou a pr um brao de volta dela e franziu o sobrolho a Harry como 
se o quisesse censurar pela sua falta de tacto. Harry no encontrou resposta, principalmente porque era estranhssimo ver Ron a dar lies de tacto a quem quer que 
fosse.

- Eu... Hermione, desculpa... Eu no...

- Achas que eu e o Ron no sabemos perfeitamente o que  que nos pode suceder se formos contigo? bem, o que  facto  que sabemos. Ron, mostra ao Harry o que tu 
fizeste.

- Na, ele acabou de comer - disse Ron.

- V l, ele precisa de saber!

- Oh, pronto, est bem. Harry, chega aqui.

Pela segunda vez, Ron retirou o brao dos ombros de Hermione e dirigiu-se pesadamente  porta.

- Anda da.

- Porqu? - quis saber Harry, saindo do quarto atrs de Ron

at ao minsculo patamar.

- Descendo - murmurou Ron, apontando a varinha para o tecto baixo. Por cima das cabeas de ambos, abriu-se imediatamente um alapo e uma escada desceu at aos seus 
ps. Um barulho horrvel, meio inalao, meio gemido, chegou-lhes vindo da abertura quadrada, acompanhado por um cheiro nauseabundo que fazia lembrar esgotos.

- E o vosso vampiro, no ? - indagou Harry, que nunca chegara a ver a criatura que ocasionalmente interrompia o silncio nocturno.

- Sim,  - confirmou Ron, comeando a trepar pela escada.

- Anda ver como ele .

Harry subiu os escassos degraus que davam acesso ao sto minsculo. A sua cabea e os ombros passaram pela abertura antes

87

de reparar na criatura enroscada mesmo  sua frente, que dormia a sono solto na penumbra com a grande bocarra toda aberta.

- Mas... parece... Os vampiros costumam usar pijama?

- No - assentiu Ron. - E tambm no costumam ter cabelo ruivo, nem tantas pstulas como ele tem.

Harry contemplou a criatura com uma certa repugnncia. O seu tamanho e forma eram prprios dos humanos, e tinha vestido o que, agora que os olhos de Harry j se 
tinham habituado  escurido, era claramente um velho pijama de Ron. Tambm tinha a certeza de que, em geral, os vampiros eram bastante pegajosos e cAlbos, e no 
cabeludos e cobertos de bolhas vermelhas inflamadas.

- Ele sou eu, percebes?

- No - respondeu Harry. - No percebo.

- Quando voltarmos para o meu quarto, eu explico-te, o cheiro est a deixar-me agoniado - disse-lhe Ron. Desceram a escada, que Ron tornou a empurrar para dentro 
do sto, e regressaram para junto de Hermione, que continuava entretida a separar os livros.

- Quando nos formos embora, o vampiro vai passar a morar aqui no meu quarto - explicou-lhe Ron. - Acho que ele est desejoso que isso acontea. . bem,  difcil 
de saber, porque ele pouco mais faz que babar-se e gemer... mas farta-se de assentir com a cabea sempre que lhe falamos nisso. bem, ele vai ser eu com espatergroitite. 
Boa ideia, no achas?

Harry limitou-se a fazer um ar atnito.

- Mas ! - insistiu Ron, nitidamente frustrado por Harry no ter alcanado a excelncia do plano. - Olha, quando virem que ns os trs no aparecemos em Hogwarts, 
toda a gente vai pensar que eu e a Hermione estamos contigo, no ? O que significa que os Devoradores da Morte iro procurar de imediato as nossas famlias para 
ver se lhes arrancam informaes acerca do nosso paradeiro.

- Espero que julguem que eu me fui embora com os meus pais; neste momento, h imensos feiticeiros de origem Muggle a falar em entrar na clandestinidade - afirmou 
Hermione.

- No podemos esconder a minha famlia inteira: isso iria levantar demasiadas suspeitas, e eles tambm no podem abandonar os empregos - prosseguiu Ron - Assim, 
vamos divulgar a histria de que eu estou muito doente com espatergroitite, e que  por isso que no posso voltar para a escola. Se algum vier c

investigar, os meus pais podero mostrar-lhe o vampiro na minha cama, coberto de pstulas. Como a espatergroitite  altamente contagiosa, eles no se vo querer 
aproximar dele. E tambm no faz mal que ele no consiga dizer praticamente nada, porque parece que  isso que acontece quando o fungo alastra at  vula.

- E os teus pais j esto ao corrente do plano? - perguntou-lhe Harry.

- O meu pai est. Foi ele quem ajudou o Fred e o George a transformar o vampiro. A minha me... bem, tu j viste como ela . S depois de nos termos ido embora  
que ela vai aceitar a

nossa partida.

O silncio instalou-se no quarto, interrompido apenas por leves pancadas, enquanto Hermione continuava a atirar livros para uma pilha ou para a outra. Ron ficou 
sentado a v-la, e Harry ia olhando de um para o outro, incapaz de dizer fosse o que fosse. Mais do que qualquer outra coisa, as medidas que os amigos haviam tomado 
para proteco das respectivas famlias obrigaram-no a consciencializar-se de que eles estavam, de facto, decididos a acompanh-lo e de que sabiam perfeitamente 
o perigo a que iriam sujeitar-se. Sentiu-se tentado a dizer-lhes o quanto isso significava para ele, mas no foi simplesmente capaz de encontrar palavras

 altura

Naquele silncio, chegavam-lhes os gritos abafados de Mrs.

Weasley, quatro pisos mais abaixo.

- A Ginny deve ter-se esquecido de tirar um gro de p de uma maldita argola de guardanapo - comentou Ron. - No sei por que  que os Delacour tinham de vir dois 
dias antes do casamento.

- A irm da Fleur vai ser dama de honor, tem de estar c para os ensaios e ainda no tem idade para poder viajar sozinha - esclareceu Hermione enquanto examinava 
Ruptura com Uma Banshee sem se conseguir decidir.

- bem, os convidados no vo contribuir em nada para fazer descer os nveis de stress da minha me - observou Ron.

- O que ns temos de decidir de uma vez por todas - declarou Hermione, atirando Teoria Mgica Defensiva para o caixote do lixo sem hesitar e pegando em Uma Avaliao 
da Educao Mgica na Europa -  para onde iremos quando sairmos daqui. Eu sei que disseste que querias comear por ir a GodricsHollow, Harry, e percebo porqu, 
mas... bem... os Horcruxes no deviam ser a nossa prioridade?

89

- Se soubssemos onde  que os Horcruxes esto, dar-te-ia toda a razo - respondeu-lhe Harry, que no estava minimamente convencido de que Hermione compreendesse, 
de facto, o seu desejo de regressar a Godrics Hollow. As sepulturas dos pais justificavam apenas em parte essa atraco: Harry tinha uma forte sensao, ainda que 
inexplicvel, de que aquele local continha respostas  sua espera. Talvez isso se devesse simplesmente ao facto de ter sido ali que sobrevivera  Maldio de Morte 
de Voldemort; agora que enfrentava o desafio de repetir a proeza, Harry sentia-se atrado para o local onde tudo acontecera,  procura de uma explicao.

- Achas que h alguma probabilidade de o Voldemort ter Godncs Hollow sob vigilncia? - perguntou-lhe Hermione.

- Ele pode estar  espera de que voltes  campa dos teus pais logo que sejas livre de ires para onde muito bem entenderes.

Harry no contara com aquela eventualidade. Enquanto se esforava por encontrar um argumento em contrrio, Ron interveio, seguindo nitidamente a sua prpria linha 
de raciocnio.

- E o tal R.A.B. - disse ele. - Sabem, aquele que roubou o medalho verdadeiro?

Hermione anuiu com a cabea.

- No bilhete, ele disse que o ia destruir, no foi?

Harry puxou a mochila para junto de si e retirou o falso Horcrux dentro do qual continuava dobrado o bilhete assinado por R.A.B.

- "Roubei o Horcrux verdadeiro e tenciono destru-lo assim que puder" - leu Harry em voz alta.

- bem, ento e se ele tiver mesmo acabado com ele? - questionou Ron.

- Ou ela - salientou Hermione.

- Seja l quem for - disse Ron -, seria menos um para ns!

-  verdade, mas no  por isso que vamos deixar de ter de ir  procura do medalho verdadeiro, no ? - lembrou Hermione.

- Para descobrir se foi, de facto, destrudo ou no.

- E quando lhe deitarmos a mo, como  que se destri um Horcrux? - inquiriu Ron.

- bem - afirmou Hermione. - Andei a investigar isso

- Como? - admirou-se Harry. - Julguei que no havia nenhum livro acerca de Horcruxes na nossa biblioteca.

- E no havia, de facto - confirmou Hermione, que estava agora muito corada. - O Dumbledore retirou-os todos, mas... mas no os destruiu.

90

Ron sentou-se muito direito, de olhos arregalados.

- Pelas cuecas de Merlin! E como  que tu conseguiste deitar a mo a esses livros sobre Horcruxes'

- No... no foi roubar! - apressou-se Hermione a dizer, olhando de Harry para Ron com um certo ar de desespero.

- Mesmo depois de o Dumbledore os retirar das prateleiras, os livros continuavam a pertencer  biblioteca. Seja como for, se ele no quisesse mesmo que ningum os 
consultasse, tenho a certeza de que teria feito com que fosse muito mais difcil...

- Vai directa ao assunto! - impacientou-se Ron.

- bem... foi fcil - confessou Hermione em voz sumida.

- Limitei-me a lanar um Encantamento de Convocao. Sabem como  .. accio. E eles saram logo a voar pela janela do gabinete do Dumbledore at ao dormitrio das 
raparigas.

- Mas ento quando  que fizeste isso? - perguntou-lhe Harry, observando Hermione com um misto de admirao e

incredulidade

- Logo a seguir ao... funeral do Dumbledore - respondeu-lhe Hermione, com a voz ainda mais sumida. - Logo depois de termos decidido que amos abandonar a escola 
e ir  procura dos Horcruxes. Quando fui l acima para ir buscar as minhas coisas, ocorreu-me... bem, ocorreu-me que quanto mais soubssemos a respeito deles, melhor 
para ns... e como estava l sozinha... tentei . e deu resultado. Eles entraram imediatamente pela janela aberta e eu... meti-os dentro da mala.

Ela engoliu em seco e acrescentou em ttom suplicante: - No acredito que o Dumbledore se fosse zangar; afinal de contas, no vamos usar as informaes para fazer 
um Horcrux, no  verdade?

- Ouviste algum de ns a queixar-se? - retorquiu Ron. - Mas ento, afinal onde  que param esses livros?

Hermione vasculhou as pilhas e, passado um instante, retirou de uma delas um grande volume, encadernado a couro preto j gasto. Fez um ar levemente nauseado e segurou-o 
cuidadosamente como se fosse uma criatura que tivesse sido morta havia pouco

tempo.

- Este  aquele que fornece instrues explcitas sobre como fazer um Horcrux. Segredos da Mais Negra Magia...  um livro horrvel, mesmo medonho, cheio de feitios 
malficos. Pergunto-me quando  que o Dumbledore o ter retirado da biblioteca... Se isso aconteceu s depois de se ttomar Director, aposto que foi aqui que   Voldemort 
veio buscar todas as informaes de que necessitava.

91

- Se ele leu esse livro, ento por que  que teve de perguntar ao Slughoor como se fazia um Horcrux? - contraps Ron.

- Ele s abordou o Slughor para descobrir o que  que acontece quando dividimos a nossa alma em sete - esclareceu Harry. - O Dumbledore estava convencido de que 
o Riddle j sabia como  que se fazia um Horcrux quando foi falar com o Slughor a respeito deles. Acho que tens razo, Hermione, pode ter sido perfeitamente a que 
ele foi tirar informaes.

- E quanto mais li acerca deles - prosseguiu Hermione -, mais horrveis me pareceram, e menos acredito que ele tenha, de facto, conseguido fazer seis. Neste livro 
avisam-nos sobre como a nossa alma fica instvel quando a despedaamos, e isso no caso de fazermos um nico Horcrux!

Harry recordou-se do que Dumbledore lhe dissera a propsito de Voldemort ultrapassar a "maldade normal".

- E no h maneira de voltarmos a ficar ntegros? - inquiriu Ron.

- H - confirmou Hermione, com um sorriso vazio -, mas seria insuportavelmente doloroso.

- Porqu? Como  que se consegue? - quis saber Harry.

- Atravs dos remorsos - respondeu Hermione. - Temos de sentir verdadeiro arrependimento pelas nossas aces. H aqui uma nota de rodap. Ao que consta, a dor  
to intensa que  capaz de nos destruir. No esto a ver o Voldemort a tentar fazer isso, pois no?

- No - assentiu Ron, antes que Harry tivesse tempo de responder. - Ento e nesse livro tambm diz como  que podemos acabar com os Horcruxes?

- Diz - afirmou Hermione, que folheava agora as pginas frgeis como se estivesse a examinar vsceras podres -, porque avisa os feiticeiros Negros de que tm de 
lhes lanar feitios extremamente poderosos. De tudo quanto h, o que o Harry fez ao dirio do Riddle foi uma das poucas maneiras infalveis de destruir um Horcrux.

- O qu, apunhal-lo com um dente de Basilisco' - inquiriu Harry.

- Oh, bem, ento ainda bem que temos uma proviso to grande de dentes de Basilisco - comentou Ron. -J me tinha perguntado que fim  que lhes haveramos de dar.

- No tem de ser obrigatoriamente um dente de Basilisco - explicou-lhe Hermione, cheia de pacincia. - Tem de ser

92

uma coisa to destrutiva que o Horcrux no se consiga regenerar. S h um antdoto para o veneno de Basilisco e  inacreditavelmente raro...

- ..lgrimas de fnix - disse Harry, assentindo com a

cabea

- Precisamente - confirmou Hermione. - O nosso problema  que existem poucas substncias to destrutivas como o veneno de Basilisco, e  sempre perigoso andar com 
elas de um lado para o outro.  um problema que teremos de resolver, uma vez que rasgar, partir ou esmagar um Horcrux no resulta. Temos de o deixar num estado em 
que no possa ser regenerado por artes mgicas.

- Mas mesmo que dmos cabo do objecto em que ele vive - contraps Ron -, por que  que o pedao de alma l dentro no se pode ir alojar noutro stio?

- Porque um Horcrux  exactamente o oposto de um ser humano.

Ao ver que Harry e Ron estavam absolutamente perplexos, Hermione apressou-se a acrescentar: - Olha, Ron, se eu neste momento pegasse numa espada e te trespassasse 
com ela, no conseguiria atingir a tua alma.

- O que seria um enorme consolo para mim, disso no haja dvida - ripostou Ron.

Harry riu-se.

- Mas olha que devia ser! O que eu quero dizer, no entanto,  que, o que quer que acontea ao teu corpo, a tua alma ir sobreviver inclume - prosseguiu Hermione 
- com os Horcruxes, passa-se o contrrio. O fragmento de alma depende do recipiente onde se encontra alojado, o corpo encantado, para a sua sobrevivncia. Sem ele, 
no pode existir.

- Fiquei com a sensao de que o dirio morreu quando eu o apunhalei - disse Harry, recordando-se de ver tinta a jorrar como sangue das pginas perfuradas e dos 
gritos do fragmento da alma de Voldemort  medida que esta desaparecia.

- E logo que o dirio ficou completamente destrudo, o fragmento de alma aprisionado l dentro deixou de poder existir. A Ginny tentou livrar-se do dirio antes 
de ti, deitando-o pela sanita abaixo, mas, como  bvio, ele voltou tal e qual como antes.

- Espera a - disse Ron de sobrolho franzido. - O pedao de alma guardado naquele dirio estava a possuir a Ginny, no  verdade' Ento e isso, como  que funciona?

93

- Enquanto o recipiente mgico continuar intacto, o fragmento de alma pode entrar e sair de algum se essa pessoa se aproximar demasiado do objecto. No me estou 
a referir a segur-lo durante muito tempo, no tem nada que ver com tocar - acrescentou ela, sem dar tempo a que Ron falasse. - Estou a falar de proximidade emocional. 
A Ginny abriu o seu corao quele dirio e, assim, colocou-se numa posio extremamente vulnervel. Se nos afeioarmos ou apegarmos demasiado a um Horcrux, ficamos 
metidos num grande sarilho.

- Como ser que o Dumbledore destruiu o anel? - interrogou-se Harry. - Mas por que  que eu nunca lhe perguntei? Nunca me lembrei...

A sua voz foi esmorecendo: estava a pensar em todas as perguntas que deveria ter feito a Dumbledore e na sensao que o apoquentava, desde que o Director falecera, 
de que perdera uma infinidade de oportunidades para ficar a saber mais a seu respeito... para saber tudo...

O silncio foi subitamente quebrado quando a porta do quarto se abriu de rompante com um estrondo de fazer abanar as paredes. Hermione soltou um guincho e deixou 
cair Segredos da Mais Negra Magia; Crookshanks enfiou-se debaixo da cama, bufando de indignao; Ron deu um pulo na cama, escorregou no invlucro de um Sapo de Chocolate 
esquecido no cho e foi bater com a cabea na parede em frente, e Harry pegou instintivamente na varinha, at que se apercebeu de que estava a olhar para Mrs. Weasley, 
que tinha o cabelo num perfeito desalinho e o rosto contorcido, tal era a sua fria.

- Peo imensa desculpa por vir interromper a vossa amena cavaqueira - declarou ela com a voz trmula. - Estou certa de que todos esto a precisar de descansar... 
mas no meu quarto h pilhas de presentes que precisam de ser arrumados e eu tenho a impresso de que vocs se comprometeram a ajudar.

- Oh, claro - disse Hermione, pondo-se de p com um ar aterrorizado, atirando com livros em todas as direces -, e  o que vamos fazer... desculpe...

Deitando um olhar angustiado a Harry e Ron, Hermione apressou-se a sair do quarto atrs de Mrs. Weasley.

- At parece que somos uns elfos domsticos - queixou-se Ron em voz baixa, ainda a massajar a cabea, enquanto ele e Harry seguiam atrs de ambas. - S que sem o 
prazer no trabalho, claro. Se vejo este casamento pelas costas, nem acredito.

94

- Pois - disse Harry - , nessa altura ficamos sem nada que fazer excepto ir  caa dos Horcruxes... Vai ser como estar de

frias, no vai?

Ron comeou a rir-se, contudo, quando viu a pilha descomunal de presentes de casamento  sua espera no quarto de Mrs. Weasley, calou-se logo.

Os Delacour chegaram s onze horas da manh seguinte. Por esta altura j Harry, Ron, Hermione e Ginny partilhavam um certo ressentimento em relao  famlia de 
Fleur, e foi de m vontade que Ron tornou a marchar escada acima at ao quarto para calar meias a condizer, e que Harry fez uma tentativa para alisar o cabelo. 
Logo que Mrs. Weasley considerou que estavam todos razoavelmente apresentveis, saram em fila para o ptio soalheiro das traseiras  espera dos convidados.

Harry nunca vira aquela casa to asseada. Os caldeires ferrugentos e as botas velhas de borracha que em geral atravancavam os degraus da porta das traseiras tinham 
desaparecido e sido substitudos por dois Arbustos Palpitantes, um de cada lado da porta, no respectivo vaso; apesar de no correr uma nica brisa, as folhas adejavam 
preguiosamente, provocando um atractivo efeito de ondulao. As galinhas tinham sido trancadas, o ptio fora varrido e o jardim fora podado e todo arranjado, embora 
Harry, que gostava mais dele no seu estado selvagem, achasse que estava com um aspecto um tanto ou quanto desolador, sem o seu contingente habitual de gnomos s 
cabriolas.

J perdera a conta  quantidade de feitios de proteco que tinham sido lanados sobre A Toca quer pela Ordem, quer pelo Ministrio; tudo o que sabia era que ningum 
conseguiria viajar por artes mgicas directamente para l. Por conseguinte, Mr. Weasley fora encontrar-se com os Delacour no cimo de uma colina prxima, onde eram 
esperados por Boto de Transporte. O primeiro indcio da sua chegada foi uma gargalhada invulgarmente estridente, que se veio a verificar ter sido obra de Mr. Weasley, 
que apareceu junto ao porto logo de seguida, carregado com malas e conduzindo uma linda mulher loura, com um comprido manto verde primaveril, e que s podia ser 
a me de Fleur.

- Maman! - gritou Fleur, acorrendo a abra-la. - Papa!

Monsieur Delacour estava longe de ser to atraente quanto

a mulher: era um bem pedao mais baixo e muitssimo anafado, com uma pequena barbicha preta pontiaguda. Contudo,

parecia ser afvel. Foi a bambolear-se nas suas botas de salto alto

95

l

at Mrs Weasley, a quem pregou dois beijos em cada bochecha, deixando-a afogueada.

- Mas parra que  que estiverron com tanta maada? - disse ele em voz cava. - A Fleurr contou-nos que tm tido uma trrabalheira imenza.

- Oh, no foi nada, no foi nada de especial! - exclamou Mrs Weasley num trinado. - No foi maada nenhuma!

Ron desabafou o que lhe ia na alma, tentando acertar um pontap num gnomo que estava a espreitar por detrs dum dos novos Arbustos Palpitantes.

- Minha carra senhorra! - disse Monsieur Delacour, ainda a segurar a mo de Mrs. Weasley entre as suas duas mos anafadas, com um sorriso radiante. - A mon que 
se avizinha entrre as nossas famlias constitui parra ns uma enorrme honrra! Perrmita-me que lhe aprresente a minha mulherr, Apollme.

Madame Delacour avanou em passo desli/ante e deteve-se para beijar Mrs. Weasley.

- Enchante - disse ela. - O seu marido tem-nos eztado a contarr umas histrias ton engrraadas!

Mr. Weasley soltou uma gargalhada irracional e Mrs. Weasley deitou-lhe um olhar, ao que ele se reduziu de imediato ao silncio e assumiu uma expresso apropriada 
 cabeceira da cama de um amigo ntimo gravemente enfermo.

- E, clarr est, j conhece a minha filha mais nova, a Gabrielle! - anunciou Monsieur Delacour. Gabrielle era uma Fleur em miniatura; onze anos de idade, com um 
cabelo do mais puro louro-platinado que lhe chegava  cintura, cumprimentou Mrs. Weasley com um sorriso deslumbrante e abraou-a; em seguida pestanejou a Harry com 
um olhar sedutor Ginny clareou a voz com nfase.

- bem, faam favor de entrar! - disse Mrs. Weasley em ttom jovial, e conduziu os Delacour para dentro de casa, por entre inmeros: "No, faa favor!", e "A senhora 
primeiro!", e "Nem pensar!".

No tardou a ttomar-se evidente que os Delacour eram hspedes simpticos e prestveis. No se queixavam de nada e mostravam-se ansiosos por ajudar nos preparativos 
para o casamento. Monsieur Delacour considerava tudo, desde a distribuio dos lugares  mesa at aos sapatos da dama de honor, "charmant!", Madame Delacour era 
extremamente prendada em feitios domsticos e foi num abrir e fechar de olhos que ps o forno num brin

96

quinho; Gabrielle seguia a irm mais velha para todo o lado, esforando-se por ajudar de todas as formas ao seu alcance e tagarelando sem parar num francs rpido.

Em contrapartida, A Toca no estava preparada para acomodar tanta gente Mr. e Mrs. Weasley dormiam agora na sala de estar, depois de terem feito orelhas moucas aos 
protestos de Monsieur e Madame Delacour e insistido para que estes ficassem com o seu quarto. Gabrielle dormia com Fleur no antigo quarto de Percy, e Bill dividiria 
o quarto com Charllie, o seu padrinho, logo que este chegasse da Romnia. As oportunidades para fazerem planos em conjunto ttomaram-se praticamente inexistentes, 
e foi em desespero que Harry, Ron e Hermione se ofereceram como voluntrios para dar de comer s galinhas s para poderem fugir da casa a abarrotar de gente.

- Mas nem assim ela nos deixa em paz! - resmungou Ron, quando a sua segunda tentativa de fazerem uma reunio no ptio se viu frustrada pela apario de Mrs Weasley, 
carregada com um grande cesto de roupa acabada de lavar

- Oh, que bem, j deram de comer s galinhas - comentou ela ao aproximar-se dos trs. - E melhor trancarem-nas antes de os homens chegarem amanh... para montarem 
a tenda para o casamento - explicou-se, encostando-se ao galinheiro para descansar um pouco. Estava com um ar exausto. - Tendas Mgicas Millamant... So muito bons. 
O Bill encarregou-se de os escoltar. . E melhor no sares de casa enquanto eles por aqui andarem, Harry. No posso deixar de reconhecer que estes feitios de proteco 
todos em volta da casa complicam em demasia a organizao do casamento.

- Lamento - respondeu Harry humildemente.

- Oh, no digas disparates, meu querido! - apressou-se Mrs. Weasley a emendar-se. - Eu no quis dizer... bem, a tua segurana  muito mais importante! A propsito, 
Harry, tenho andado para te perguntar como  que queres comemorar o teu aniversrio. Afinal de contas, os dezassete anos so uma data marcante...

- No quero nada de especial - disse Harry sem demora, j a imaginar a canseira adicional que isso representaria para todos. - A srio, Mrs. Weasley, um jantar como 
o de todos os dias serve perfeitamente... Calha na vspera do casamento...

- Oh, bem, j que  assim que queres, querido. vou convidar o Remus e a Tonks, est bem? E que tal o Hagrid?

- Seria ptimo - acedeu Harry. - Mas, por favor, no lhe quero dar maada.

97

- Nem pensar, nem pensar... no  maada nenhuma.

Olhou para ele, um olhar demorado e inquisidor, depois esboou um leve sorriso de tristeza, endireitou-se e foi-se embora. Harry ficou a v-la agitar a varinha ao 
p da corda e as roupas molhadas levantarem-se do cesto e pendurarem-se na corda, sentindo uma sbita pontada de remorsos por todos os incmodos e desgostos que 
lhe vinha a causar.

98

VII

O TESTAMENTO DE ALBUS DUMBLEDORE

Harry caminhava por uma estrada montanhosa  luz azul e tranquila da alvorada. L muito em baixo, por entre um manto de nevoeiro, vislumbravam-se os conttornos de 
uma pequena aldeia. Estaria ali o homem que ele procurava? O homem de que precisava tanto que em pouco mais se permitia pensar, o homem que detinha a resposta, a 
resposta ao seu problema...

- Eh, acorda.

Abriu os olhos. Deu por si novamente deitado na cama desmontvel, no quarto desarrumado de Ron. O sol ainda no se levantara, e o quarto continuava envolvido na 
penumbra. Pigwidgeon dormia com a cabea escondida sob a sua asinha minscula. Harry sentia a cicatriz na testa a latejar.

- Estavas a murmurar enquanto dormias.

- Ai sim?

- Estavas. "Gregorovitch". Estavas sempre a repetir "Gregorovitch".

Harry no tinha os culos postos e a cara de Ron aparecia-lhe ligeiramente desfocada.

- Quem  o Gregorovitch?

- E eu  que hei-de saber? Tu  que estavas a dizer o nome dele.

Harry esfregou a testa, em reflexo. Tinha uma vaga ideia de j ter ouvido aquele nome, mas no se lembrava onde.

- Eu acho que o Voldemort anda  procura dele.

- Desgraado do homem - disse Ron com fervor. Harry sentou-se na beira da cama, ainda a esfregar a cicatriz,

agora j bem desperto. Esforou-se por se recordar exactamente do que fora que vira no sonho, mas tudo o que lhe vinha  memria era um horizonte montanhoso e a 
silhueta de uma pequena aldeia aninhada num vale profundo.

- Eu acho que ele est no estrangeiro.

- Quem, o Gregorovitch?

99

- No, o Voldemort. Acho que ele deve estar algures no estrangeiro,  procura do Gregorovitch. Aquela aldeia no me pareceu ficar em Inglaterra.

- Achas que estavas outra vez a ler-lhe a mente? Ron mostrava-se preocupado

- Por favor, no digas nada  Hermione - pediu-lhe Harry - Embora no faa a mais pequena ideia de como  que ela quer que eu consiga deixar de ver coisas enquanto 
durmo.

Fixou o olhar na pequena gaiola de Pigwidgeon, a pensar por que razo o nome "Gregorovitch" lhe pareceria familiar?

- Acho - afirmou pausadamente - que tem algo que ver com o Quidditch. Uma ligao h seguramente, mas no estou. . no estou a ver qual seja.

- com o Quidditch? - admirou-se Ron. - Tens a certeza de que no ests a fazer confuso com o Gorgovitch?

- com quem?

- com o Dragomir Gorgovitch, o Chaser, que h dois anos foi transferido para os Chuddley Cannons por uma quantia astronmica. O recordista do maior nmero de lanamentos 
de Quaffle numa poca.

- No - garantiu Harry - Tenho a certeza de que no estou a pensar no Gorgovitch.

- Eu tambm evito pensar nele - disse Ron. - bem, parabns.

- Uau .  isso, j me ia esquecendo' Hoje fao dezassete anos.

Harry pegou na varinha que estava ao lado da cama desmontvel, apontou-a  secretria atravancada de tralha onde deixara os culos e disse" - Acsiu culos! - Embora 
estes se encontrassem praticamente ao alcance da sua mo, foi com imensa satisfao que os viu flutuar ao seu encontro, pelo menos at lhe acertarem num olho.

- Em cheio - troou Ron

Deleitado com a retirada do Detector, Harry ps os pertences de Ron a voar pelo quarto, acordando Pigwigeon que, muito agitada, comeou bater as asas dentro da 
gaiola. Harry tentou ainda apertar os atacadores dos tnis por artes mgicas, (o n resultante levou vrios minutos a desapertar  mo) e, por pura diverso, transformou 
os mantos cor de laranja no cartaz dos Chudley Cannons de Ron em azul-vivo.

- Mas olha que, se eu fosse a ti fechava a braguilha  mo - advertiu-o Ron, rindo-se  socapa quando Harry se apressou a

100

verific-la. - Tens aqui o teu presente. Desembrulha-o aqui, que no  para os olhos da minha me.

- Um livro? - admirou-se Harry, ao receber o embrulho rectangular. - Foge um pouco ao que  costume, no ?

- No  um livro qualquer - salientou Ron - Trata-se dum verdadeiro tesouro: Doze Truques Infalveis para Seduzir Feiticeiras. Explica-te tudo o que precisas de 
saber sobre as raparigas. Se eu j o tivesse descoberto no ano passado, teria sabido exactamente o que fazer para me livrar da Lavender e para atinar com. . bem, 
o Fred e o George ofereceram-me um exemplar, e tenho aprendido muito. Vais ficar surpreendido, no se trata apenas de uma questo de saber manusear a varinha.

Quando chegaram  cozinha, depararam-se com uma montanha de presentes em cima da mesa. Bill e Monsieur Delacour estavam a terminar o pequeno-almoo, enquanto Mrs 
Weasley, atarefada diante duma frigideira, ia tagarelando com ambos

- O Arthur pediu-me para te desejar um feliz aniversrio, Harry - disse-lhe Mrs. Weasley, lanando-lhe um largo sorriso. - Teve de sair cedo para o trabalho, mas 
estar de volta  hora do jantar. O nosso presente  o que est por cima.

Harry sentou-se, pegou no pacote quadrado que ela lhe indicara e desembrulhou-o. L dentro achava-se um relgio em tudo idntico ao que Mr e Mrs. Weasley haviam 
oferecido a Ron quando este completara dezassete anos, era de ouro, com estrelas em volta do mostrador no lugar dos ponteiros

-  da tradio oferecer um relgio aos feiticeiros quando atingem a maioridade - explicou-lhe Mrs. Weasley, olhando para ele ansiosamente do outro lado do fogo 
- Infelizmente esse no  novo, como o do Ron, na verdade, pertenceu ao meu irmo Fabian, e ele no era l muito cuidadoso com as suas coisas, est um bocadinho 
amolgado no reverso, mas ..

O resto do discurso perdeu-se; Harry levantara-se para lhe dar um abrao. Esforou-se por colocar muitas coisas omitidas naquele abrao e talvez ela as tivesse entendido, 
porque lhe deu umas quantas palmadinhas desajeitadas na bochecha quando ele se afastou, e em seguida agitou a varinha um pouco ao acaso, entornando meia embalagem 
de bacon da frigideira para o cho.

- Feliz aniversrio, Harry! - exclamou Hermione, entrando de rompante na cozinha e acrescentando o seu presente  pilha. - No  grande coisa, mas espero que te 
agrade. O que  que lhe compraste' - perguntou ento a Ron, que fingiu no a ter ouvido.

101

- V l, abre o da Hermione! - encorajou-o Ron.

Ela comprara-lhe um Avisoscpio novo. Os outros embrulhos continham uma lmina de barbear mgica, oferta de Bill e Fleur ("Ah, pois, vai darr-te o barrbearr mais 
macio que algum dia tiveste", assegurou-lhe Monsieur Delacour, "mas tens de lhe dizerr clarramente o que  que querres... caso contrrno, s capaz de ficarr com 
menos cabelo que o que prretendias .."), bonbons dos Delacour e uma enorme caixa das mais recentes Magias Mirabolantes dos Weasley comercializadas por Fred e George.

Harry, Ron e Hermione no se demoraram  mesa, pois a chegada de Madame Delacour, de Fleur e de Gabrielle tornou a cozinha desconfortavelmente apinhada.

- Eu ttomo a embrulhar-tos - sugeriu Hermione, muito animada, pegando nos presentes que Harry levava ao colo enquanto os trs subiam as escadas. - Estou quase despachada, 
estou s  espera de que o resto das tuas cuecas acabem de se lavar, Ron...

A atrapalhao de Ron foi interrompida pela abertura de uma porta no patamar do primeiro piso

- Harry, importas-te de chegar aqui por um instante?

Era Ginny. Ron deteve-se abruptamente, mas Hermione agarrou-o por um ombro e empurrou-o escada acima Muito nervoso, Harry seguiu Ginny at ao seu quarto.

Nunca l estivera. Era pequeno, mas bem iluminado. Havia um grande cartaz da banda de feiticeiras Weird Sisters numa parede e uma fotografia de Gwenog Jones, capit 
da equipa feminina de Quidditch Holyhead Harpies, na outra. Via-se uma secretria virada para a janela aberta, que dava para o pomar onde em tempos ele e Ginny tinham 
jogado Quidditch a pares, com Ron e Hermione, e que agora albergava uma grande tenda branco-prola. A bandeira dourada no cimo encontrava-se ao nvel da janela de 
Ginny.

Esta ergueu os olhos para o rosto de Harry, respirou bem fundo e disse-lhe: - Feliz aniversrio!

- Pois... obrigado

Ginny tinha os olhos cravados nele; Harry, contudo, sentia dificuldade em retribuir-lhe o olhar: era como fixar uma luz brilhante.

- Que bela vista - comentou ele sem grande jeito, apontando para l da janela.

Ginny ignorou o comentrio e Harry no a pde culpar por isso.

102

- No sabia que prenda te havia de dar - confessou-lhe.

- No tinhas de me dar prenda nenhuma.

Mais uma vez, Ginny no fez caso das suas palavras.

- Queria que fosse alguma coisa com utilidade. No demasiado grande, porque, assim, no a poderias levar contigo.

Harry arriscou olh-la de relance. No estava chorosa; era uma das muitas qualidades de Ginny, raramente chorava. Harry j por diversas vezes pensara que o facto 
de ter seis irmos contribura para a endurecer.

Ela avanou um passo para junto dele.

- E foi ento que pensei que talvez gostasses dalguma coisa que te fizesse lembrar de mim, sabes, para o caso de encontrares alguma Veela, quando andares a tratar 
dos assuntos que tens a tratar.

- Para ser sincero, acho que as oportunidades para namorar no vo ser muito abundantes.

-  esse o raio de esperana a que eu me agarro - sussurrou-lhe ela, e em seguida bevou-o como nunca antes o beijara, e Harry devolveu-lhe o beijo, e ento instalou-se 
entre ambos um esquecimento abenoado, melhor que Usque de Fogo; ela era a nica coisa real no mundo, Ginny, a sensao de a ter junto de si, com uma mo a apoiar-lhe 
as costas e a outra no seu cabelo comprido e docemente perfumado...

A porta abriu-se de rompante atrs dele e de imediato se afastaram, sobressaltados.

- Oh - disse Ron em ttom incisivo. - Desculpem.

- Ron! - Hermione encontrava-se mesmo atrs dele, ligeiramente ofegante. Seguiu-se um silncio constrangido, depois Ginny exclamou numa vozinha inspida:

- bem, feliz aniversrio, de qualquer dos modos, Harry.

As orelhas de Ron estavam escarlates e Hermione parecia nervosa. Harry teve vontade de bater com a porta na cara de ambos, mas tinha a sensao de que uma corrente 
de ar fria acabara de varrer o quarto e que o seu momento dourado rebentara como uma bola de sabo. Todos os motivos para terminar o seu namoro com Ginny, para se 
manter o mais afastado possvel dela, pareciam ter entrado furtivamente dentro do quarto com Ron, desvanecendo o feliz esquecimento.

Olhou para Ginny, procurando em vo alguma coisa que dizer, mas ela j lhe voltara costas. Receou que, por uma vez, ela fosse ceder s lgrimas. No podia fazer 
nada para a consolar em frente de Ron.

103

Ill

- Depois falamos - disse-lhe e saiu do quarto atrs dos outros. Ron marchou escada abaixo, atravessou a cozinha ainda cheia de

gente e saiu para o ptio, e Harry segum-o, mantendo-se sempre ao seu ritmo, Hermione a trotar atrs de ambos com ar assustado. Logo que se viram rodeados pelo isolamento 
do relvado acabado de cortar, Ron deu meia volta e encarou Harry.

- Tu acabaste com ela. O que  que queres agora, brincar com os seus sentimentos?

- Eu no ando a brincar com ela - retorquiu Harry, no momento em que Hermione os alcanou.

- Ron...

Mas este levantou uma mo a avis-la para que se calasse.

- Ela ficou completamente de rastos quando tu acabaste com tudo...

- Tambm eu. Tu sabes por que  que fui obrigado a fazer isso; no foi por minha vontade.

- Pois, mas agora puseste-te a dar-lhe beijos, e ela vai ficar outra vez cheia de esperanas...

- Ela no  parva, sabe que isso no  possvel, no vai estar  espera de que ns... de que ns nos casemos ou...

 medida que proferia estas palavras, formou-se na mente de Harry uma imagem ntida de Ginny de vestido branco, a casar-se com um estranho antiptico, alto e sem 
rosto. Num instante, a verdade atingiu-o em cheio: o futuro dela estava livre e desimpedido, ao passo que ele... ele no via nada  sua frente seno Voldemort.

- Se continuas a agarrar-te a ela sempre que tiveres oportunidade...

- No ttoma a acontecer - assegurou-lhe Harry em ttom spero. No havia nuvens no cu, mas ele sentia-se como se o sol tivesse desaparecido. - Est bem assim?

Ron fez um ar meio ressentido, meio acanhado, balanou-se momentaneamente para trs e para diante, depois disse: - Pronto, ento, bem., tudo bem.

Nesse dia, Ginny no tornou a procurar mais nenhum encontro a ss com Harry, nem por algum gesto ou olhar deu a entender que haviam partilhado mais que uma conversa 
agradvel no seu quarto. Apesar disso, a chegada de Charlie constituiu um enorme alvio para Harry. Proporcionou-lhe uma distraco ver Mrs. Weasley a obrigar Charlie 
a sentar-se numa cadeira, erguer a varinha em sinal de ameaa e anunciar que lhe ia cortar o cabelo como devia ser.

104

Dado que o jantar de aniversrio de Harry iria fazer a cozinha  d'A Toca rebentar pelas costuras, mesmo sem contar com a chegada de Charlie, de Lupin, de Tonks e 
de Hagrid, decidiram colocar vrias mesas lado a lado no jardim. Fred e George enfeitiaram uma srie de lanternas roxas, todas adornadas com um grande "17", e penduraram-nas 
no ar por cima dos convidados. Graas aos cuidados de Mrs. Weasley, a ferida de George estava limpa e com bom aspecto, mas Harry ainda no se conseguira habituar 
ao buraco negro na parte lateral da cabea do amigo, no obstante as piadas constantes dos gmeos a esse propsito.

Hermione fez sair da sua varinha serpentinas roxas e douradas e pendurou-as artisticamente  volta das rvores e dos arbustos.

- Est bem giro - comentou Ron enquanto, com um ltimo floreado da varinha, Hermione cobria as folhas da macieira-brava de dourado. - Tens mesmo jeito para estas 
coisas.

- Obrigada, Ron! - agradeceu Hermione, com um ar a um tempo agradado e surpreendido. Harry afastou-se, sorrindo para consigo. Tinha uma vaga sensao de que iria 
encontrar um captulo dedicado s formas de agradecimento quando lesse atentamente Doze Truques Infalveis para Seduzir Feiticeiras; apanhou Ginny a olhar para ele 
e sorriu-lhe largamente, at que se lembrou da promessa que acabara de fazer a Ron e se apressou a entabular conversa com Monsieur Delacour

- Saiam-me do caminho, saiam-me do caminho! - cantarolou Mrs. Weasley, passando pelo porto com o que parecia ser uma Snitch gigante, do tamanho de uma bola de praia, 
a flutuar  sua frente. Harry no tardou a perceber que se tratava do seu bolo de aniversrio, que Mrs Weasley trazia suspenso por artes mgicas, ao invs de se 
arriscar a transport-lo  mo pelo piso irregular. Quando o bolo por fim aterrou em cima da mesa, Harry declarou: - Est um espectculo, Mrs. Weasley

- Oh, no  nada de especial, meu querido - disse ela em ttom afectuoso. Por cima do ombro, Ron fez-lhe um gesto com o polegar para cima e mimou com os lbios: "Boa!"

s sete da tarde, j todos os convidados haviam chegado e sido conduzidos para dentro de casa por Fred e George, que os tinham ido receber ao fim da vereda. Hagrid 
mostrou-se  altura da ocasio, vestindo o seu melhor, e mais medonho, fato castanho felpudo Embora Lupin tenha sorrido ao apertar a mo a Harry, este achou-o um 
tanto ou quanto abatido. Era muito estranho; Tonks, a seu lado, estava simplesmente radiante.

105

l
- Feliz aniversrio, Harry - desejou-lhe ela, dando-lhe um abrao apertado.

- Dezassete, eh! - disse Hagrid ao aceitar um copo de vinho do tamanho dum balde que Fred lhe estendia. - J l vo seis anos desde que nos conhecemos, Harry, 'inda 
te lembras?

- Vagamente - respondeu-lhe este, com um amplo sorriso. - No foste tu que deitaste a porta da rua abaixo, deste ao Dudley um rabo de porco e me anunciaste que eu 
era feiticeiro?

- J m' esqueci dos pormenores - disse Hagrid, rindo-se  socapa. - Tudo bem, Ron, Hermione?

- Estamos ptimos - assegurou-lhe Hermione. - E tu, como ests?

- Ah, vai-se andando. Tenho andado atarefado, nasceram-nos uns unicrnios, quando voltarem, eu mostro-vos... - Harry evitou os olhares de Ron e Hermione, enquanto 
Hagrid vasculhava dentro do bolso. - Aqui tens, Harry... na' sabia o qu'  que t' havia de dar, mas depois lembrei-me disto. - Tirou uma pequena bolsa ligeiramente 
felpuda, atada por um fio e com outro fio muito comprido, obviamente destinada a ser usada ao pescoo.

- Pele de Moke. Pode-se esconder o que se quiser l dentro que s o dono  qu' o consegue tirar. E uma dificuldade prs arranjar, estas bolsas.

- Obrigado, Hagrid!

- Na' tens de qu - respondeu-lhe Hagrid, acenando com uma mo do tamanho duma tampa de caixote do lixo - E aqui temos o Charllie! Sempre gostei dele... Eh! Charllie!

Charllie aproximou-se deles, passando a mo com ar lastimoso pelo seu recente corte de cabelo drstico. Era mais baixo e entroncado que Ron e apresentava uma srie 
de marcas de queimaduras e arranhes nos braos musculosos.

- Ol, Hagrid, como  que vai isso?

- H sculos qu' ando pra te escrever. Como  que vai o Norbert'

- O Norbert? - retorquiu Charllie com uma gargalhada. - O drago noruegus? Agora tratamo-lo por Norberta.

- O qu.. O Norbert  uma menina?

- Ah pois - confirmou Charllie.

- Como  que sabes? - interpelou-o Hermione.

- So muito mais perversas - afirmou Charllie. Deitou uma olhadela por cima do ombro e baixou a voz: - Quem me dera

106

o meu pai se despachasse a vir para casa. A minha me est a

comear a ficar nervosa.

Dirigiram todos o olhar para Mrs. Weasley, que se esforava por rnanter uma conversa com Madame Delacour por entre olhadelas

constantes ao porto.

- Acho que talvez seja melhor comearmos sem o Arthur - declarou ela aos presentes no jardim passados uns instantes. - Deve ter tido algum impedimento no... Oh!

Todos o viram em simultneo: um raio de luz que chegou a voar atravs do ptio e aterrou em cima da mesa, onde se transformou numa doninha prateada e brilhante, 
que se empertigou nas patas traseiras e falou com a voz de Mr. Weasley.

- O Ministro da Magia vem comigo.

O Patronus dissolveu-se em nada, deixando a famlia de Fleur de olhos arregalados de espanto, cravados no stio onde se desvanecera.

- No devamos estar aqui - apressou-se Lupin a dizer. - Harry... desculpa... depois explico-te...

Pegou em Tonks por um pulso e levou-a atrs de si; chegaram ao porto, treparam por ele e desapareceram. Mrs. Weasley tinha

um ar desorientado.

- O Ministro... Mas porqu...? No estou a entender... Contudo, no havia tempo para se porem com explicaes; um

segundo mais tarde, surgido do nada, Mr. Weasley aparecia junto ao porto, acompanhado por Rufus Scringeour, cuja farta cabeleira grisalha o tornou de imediato identificvel.

Os dois recm-chegados atravessaram o ptio a passos largos em direco ao jardim e  mesa iluminada pelas lanternas, onde todos se achavam sentados em silncio, 
a v-los aproximarem-se.  medida que Scringeour ia ficando ao alcance da luz das lanternas, Harry reparou que estava com um ar muito mais envelhecido, descarnado 
e amargo que da ltima vez que se tinham encontrado.

- Desculpem a intromisso - disse Scringeour, chegando a coxear e detendo-se diante da mesa. - Sobretudo quando verifico que venho interromper uma festa.

Os seus olhos demoraram-se momentaneamente no bolo em forma de Snitch gigante.

- Que contes muitos, Harry.

- Obrigado - agradeceu o aniversariante.

- Preciso de ter uma conversa em privado contigo - prosseguiu Scringeour. - E tambm com Mr. Ronald Weasley e Miss Hermione Granger.

107

- Connosco? - indagou Ron, muito admirado - Mas porqu?

- Explicar-vos-ei quando nos encontrarmos num local mais privado - afirmou Scringeour. - Ser possvel irmos para um stio assim? - pediu ele a Mr. Weasley.

- Sim, com certeza - apressou-se este a dizer, com ar nervoso. - A ha... a sala de estar, por que  que no vo para l?

- Podes indicar-nos o caminho - pediu Scringeour a Ron. - No h necessidade de nos acompanhares, Arthur.

Harry reparou que Mr. Weasley trocou um olhar apreensivo com Mrs. Weasley quando ele, Ron e Hermione se levantaram. Enquanto conduziam Scringeour para dentro de 
casa em silncio, Harry pressentiu que os amigos estavam a pensar no mesmo que ele: de alguma forma, o Ministro devia ter descoberto que os trs estavam a planear 
abandonar Hogwarts.

Scringeour no abriu a boca at terem atravessado a cozinha desarrumada e chegado  sala de estar d' A Toca. Embora o jardim estivesse inundado por uma luz suave 
e dourada, ali dentro j fazia escuro: quando entraram, Harry apontou a varinha aos candeeiros a leo e estes alumiaram a sala desleixada, mas acolhedora. Scringeour 
sentou-se na poltrona desconjuntada que Mr Weasley costumava ocupar, obrigando Harry, Ron e Hermione a espremerem-se lado a lado no sof Depois de todos se terem 
instalado, Scringeour falou.

- Tenho algumas perguntas a fazer aos trs, e creio que ser melhor faz-las individualmente. Se vocs dois - apontou para Harry e Hermione - no se importarem de 
esperar l em cima, eu comeo pelo Ron.

- Ns no vamos a lado nenhum - disse Harry, enquanto Hermione assentia vigorosamente com a cabea. - Ou fala com todos ao mesmo tempo, ou nada feito.

Scrimgeour deitou a Harry um olhar frio e avaliador e este teve a impresso de que o Ministro estava a ponderar se valia a pena abrir as hostilidades to cedo.

- Muito bem, ento, todos juntos - acedeu ele com um encolher de ombros. Clareou a voz. - A minha presena aqui, tal como estou certo que sabem, prende-se com o 
testamento de Albus Dumbledore.

Harry, Ron e Hermione trocaram olhares de espanto.

- Uma surpresa, ao que vejo! Ento no sabiam que o Dumbledore vos tinha deixado alguma coisa?

108

- A . a todos? - inquiriu Ron. - A mim e  Hermione

tambm?

- Sim, a todos...

Mas Harry de imediato o interrompeu.

- O Dumbledore morreu h mais de um ms. Por que  que demorou tanto a vir entregar-nos o que ele nos deixou?

- No ser por de mais bvio? - retorquiu Hermione, antes de Scringeour ir a tempo de responder. - Queriam examinar o que quer que ele nos tenha deixado. No tinha 
o direito de fazer isso! - indignou-se ela, com a voz ligeiramente trmula.

- Tinha todo o direito - ripostou Scringeour com desdm. - O Decreto da Confiscao Justificada confere ao Ministrio o poder de apreender todo o contedo de um 
testamento...

- Essa lei foi criada para impedir que os feiticeiros transmitissem artefactos Negros - afirmou Hermione -, e, antes de os confiscar, o Ministrio tem de estar de 
posse de provas concludentes de que os pertences do falecido so ilegais! Est a querer dizer-nos que julgava que o Dumbledore nos tentaria transmitir uma coisa 
amaldioada?

- Est a pensar seguir uma carreira ligada  Lei Mgica, Miss Granger? - interrogou-a Scringeour.

- No, no estou! - redarguiu Hermione. - Tenho esperana de contribuir para o bem do mundo!

Ron riu-se. Os olhos de Scringeour tremeluziram na direco dele e depois voltaram-se para Harry, quando este comeou a falar.

- Ento por que  que agora decidiu entregar-nos aquilo que  nosso por direito. No  capaz de arranjar um pretexto para no

o fazer?

- No,  porque os trinta e um dias esto a chegar ao fim - respondeu Hermione sem demora. - Eles no podem ficar com os objectos mais tempo a menos que provem que 
so perigosos. E verdade ou no ?

- Dirias que eras chegado ao Dumbledore, Ron? - perguntou-lhe Scringeour, ignorando Hermione. Ron mostrou-se surpreendido

- Eu? No... nem por isso... Foi sempre o Harry quem... Ron dirigiu o olhar para Harry e Hermione, a tempo de ver

esta ltima a fazer-lhe uma expresso do gnero "v l se te calas!", mas os estragos estavam feitos: Scringeour fez um ar de quem ouviu exactamente aquilo de que 
estava  espera e desejava ouvir. Qual ave de rapina, lanou-se a pique sobre a resposta de Ron.

109

l - Se no eras muito chegado ao Dumbledore, como  que justificas o facto de ele se ter lembrado de ti no testamento? Fez pouqussimas doaes pessoais. A grande 
maioria dos seus bens... a biblioteca particular, os instrumentos mgicos e outros objectos de uso pessoal. . deixou-as a Hogwarts. Por que achas que foste escolhido?

- Sei... sei l - disse Ron. - Eu... quando digo que no ramos chegados... quero dizer, acho que ele gostava de mim. .

- Deixa-te de modstias, Ron - interveio Hermione. - O Dumbledore gostava imenso de ti.

Isto era esticar a verdade para l do aceitvel; ao que Harry sabia, Ron e Dumbledore nunca tinham estado juntos a ss, e o contacto directo entre ambos fora praticamente 
inexistente. Scringeour, porm, no parecia estar a ouvi-los. Enfiou uma mo dentro do manto e tirou de l uma bolsa atada com um fio muito maior que a que Hagrid 
oferecera a Harry. Retirou da bolsa um rolo de pergaminho, que abriu e leu em voz alta.

- "Ultima Vontade e Testamento de Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore". . Pronto,  aqui... "a Ronald Btltus Weasley deixo o meu Apagador, na esperana de que 
ele se lembre de mim quando o usar."

Scringeour retirou de um saco um objecto que Harry j anteriormente vira: assemelhava-se a um isqueiro prateado, mas tinha, sabia ele, o poder de sugar toda a luz 
de um determinado local, bem como de lha devolver, carregando num simples boto. Scringeour mclmou-se para a frente e entregou o Apagador a Ron, que o aceitou e 
o revirou entre os dedos, com ar atnito

- Trata-se de um objecto valioso - afirmou Scringeour de olhos postos em Ron. - Talvez at seja nico. Do que no h dvida  que foi concebido pelo prprio Dumbledore. 
Por que motivo haveria ele de te deixar um objecto to raro?

Ron abanou a cabea, completamente desorientado.

- O Dumbledore deve ter tido milhares de alunos - insistiu Scringeour. - E, no entanto, os nicos de quem se lembrou no seu testamento so vocs. Qual ser o motivo? 
Que uso pensaria ele que o senhor iria dar ao seu Apagador, Mr. Weasley?

- Para apagar as luzes, julgo eu - murmurou Ron. - Que outra coisa poderia eu fazer com ele?

Era evidente que Scrimgeour no tinha qualquer sugesto a adiantar. Depois de deitar uma olhadela de esguelha a Ron, tornou a concentrar a sua ateno no testamento 
de Dumbledore.

110

- "A Miss Hermione Jean Granger, deixo o meu exemplar de Os Contos de Beedle, o Bardo, na esperana de que ela os ache divertidos

e instrutivos "

Scringeour retirou ento de dentro do saco um pequeno livro que parecia ser to antigo quanto o exemplar de Segredos da Mais Negra Magia guardado no quarto de Ron. 
A encadernao estava manchada e a descascar-se nalgumas partes. Hermione aceitou-o das mos de Scringeour sem dizer uma nica palavra. Posou o livro em cima do 
colo e ficou a olhar para ele. Harry reparou que o ttulo estava escrito em runas; ele nunca chegara a aprender a l-las. E reparou ainda numa lgrima a salpicar 
os smbolos gravados em relevo.

- Qual lhe parece que tenha sido o motivo para o Dumbledore lhe deixar esse livro, Miss Granger? - perguntou-lhe Scringeour em ttom irnico.

- Ele... ele sabia que eu gostava de livros - respondeu Hermione com a voz embargada, limpando os olhos  manga.

- Mas porqu este livro em particular?

- No fao ideia. Talvez tenha pensado que me fosse agradar.

- Alguma vez o Dumbledore conversou consigo a respeito de cdigos, ou de qualquer outra forma de transmitir mensagens

secretas?

- No, nunca - disse Hermione, ainda a limpar os olhos  manga. - E se, em trinta e um dias, o Ministrio no foi capaz de descobrir nenhum cdigo oculto neste livro, 
duvido de que eu

consiga faz-lo.

Sufocou um soluo. Estavam de tal maneira comprimidos uns contra os outros, que Ron teve dificuldade em libertar um brao para o colocar em redor dos ombros de Hermione. 
A ateno de Scringeour dirigiu-se uma vez mais ao testamento.

- "A Harry James Potter" - leu ele, e Harry sentiu as entranhas a contrarem-se-lhe de expectativa -, "deixo a Snitch que ele apanhou no primeiro jogo de Quidditch 
que disputou em Hogwarts, como lembrana das recompensas da perseverana e da destreza."

Quando Scringeour retirou a minscula bola dourada, do tamanho duma noz, as suas asas prateadas adejaram debilmente, e Harry no pde conter uma manifesta sensao 
de anticlmax

- Por que  que o Dumbledore se ter lembrado de te deixar a Snitch? - interrogou-o Scringeour.

- No fao ideia - respondeu Harry. - Pelas razes que acabou de citar, calculo... para me lembrar do que somos capazes de alcanar se. . formos perseverantes e 
tudo o mais

111

l - Achas ento que se trata de uma mera recordao simblica?

- Suponho que sim - confirmou Harry. - Que mais poderia ser?

- Aqui quem faz as perguntas sou eu - declarou Scringeour, aproximando a poltrona um pouco mais do sof. L fora, a noite caa rapidamente; a tenda branca que se 
via das janelas erguia-se como um fantasma acima da sebe.

- Reparei que o teu bolo de aniversrio tem a forma de uma Snitch - comentou Scringeour dirigindo-se a Harry. - Qual o motivo disso?

Hermione soltou uma gargalhada de escrnio.

- Oh, uma referncia ao facto de o Harry ser um ptimo Seeker no  seguramente, isso seria demasiado bvio - declarou ela. - Tem de haver uma mensagem secreta do 
Dumbledore escondida na cobertura!

- Eu no acho que haja mensagem nenhuma escondida na cobertura - retorquiu Scringeour -, mas uma Snitch  o local ideal para esconder um pequeno objecto. Estou certo 
de que sabem porqu!

Harry encolheu os ombros Hermione, porm, respondeu em seu lugar, Harry considerava que responder correctamente s perguntas era um hbito de tal forma enraizado 
nela que no conseguia resistir ao impulso.

- Porque as Snitches tm uma memria carnal - afirmou ela.

- O qu? - indagaram Harry e Ron em unssono, ambos estavam convencidos de que os conhecimentos de Hermione relativamente ao Quidditch eram praticamente nulos.

- Exactamente - disse Scringeour - Uma Snitch nunca  tocada por pele despida antes de ser lanada pela primeira vez, nem sequer pelo fabricante, que usa luvas. 
Transporta um feitio que lhe permite identificar o primeiro ser humano que lhe toca, para o caso de a sua posse ser disputada. A Snitch - segurou a minscula bola 
dourada ao alto - recordar-se- do teu toque, Potter. Ocorre-me pensar que o Dumbledore, a quem, por muitos defeitos que pudesse ter, no podemos deixar de reconhecer 
o talento mgico prodigioso, talvez tenha encantado esta Snitch para que ela se abra apenas para ti.

Harry sentia o corao um tanto ou quanto alvoroado. Tinha a certeza de que Scringeour estava certo. Como poderia ele evitar tocar na Snitch com as prprias mos 
diante do Ministro?

112

-- No precisas de dizer nada - asseverou-lhe Scringeour.

Talvez j saibas o que a Snitch contm?

-- No - respondeu Harry, ainda a perguntar-se como haveria de dar a impresso de tocar na Snitch sem que isso de facto acontecesse. Se ao menos ele soubesse Legihmancia 
como devia ser e conseguisse ler a mente a Hermione; quase sentia o crebro da amiga a trabalhar a seu lado.

- Toma - disse-lhe Scringeour em voz baixa. Harry encarou os olhos amarelados do Ministro e percebeu que no lhe restava alternativa seno obedecer. Estendeu a mo, 
e Scrimgeour tornou a inclinar-se para a frente e colocou a Snitch, lenta e deliberadamente, nas palmas das mos de Harry.

No aconteceu nada.  medida que os dedos de Harry se fechavam em volta da Snitch, as suas asas fatigadas adejaram por uma ltima vez e pararam. Scringeour, Ron 
e Hermione continuaram avidamente de olhos cravados na bola agora em parte oculta, como se ainda tivessem esperana de que ela se fosse transformar.

- Foi dramtico - observou Harry com frieza. Tanto Ron

como Hermione se riram.

- Ento est tudo, no est? - perguntou Hermione, preparando-se para se levantar do sof

- Ainda no - afirmou Scringeour, que parecia agora mal
- humorado.

- O que  que falta? - quis saber Harry, sentindo o entusiasmo a reacender-se.

Desta feita, Scringeour no se deu ao trabalho de ler o testamento.

- A espada de Godric GryfEndor - anunciou. Hermione e Ron retesaram-se ambos e Harry olhou em seu

redor  procura de vestgios do punho cravejado de rubis; contudo, Scringeour no retirou a espada da sua bolsa de couro que, em qualquer dos casos, parecia pequena 
de mais para a conter.

- Ento onde est ela? - inquiriu ele, desconfiado.

- Infelizmente - explicou Scringeour -, a espada no pertencia ao Dumbledore e, como tal, ele no a podia dar a ningum. A espada de Godric Gryffindor  um importante 
artefacto histrico e, por conseguinte, pertence...

- Pertence ao Harry! - interrompeu Hermione de nimo exaltado. - A espada escolheu-o a ele, foi ele quem a encontrou, saiu-lhe do Chapu Seleccionador ..

113

- De acordo com fontes histricas fidedignas, a espada pode revelar a sua presena a qualquer Gryffindor digno dela - justificou-se Scrimgeour. - Isso no a ttoma 
propriedade exclusiva de Mr. Potter, independentemente do que o Dumbledore possa ter decidido. - Coou a face mal barbeada, deitando um olhar perscrutador a Harry 
- Por que  que achas que...?

- O Dumbledore me deixou a espada? - precipitou-se Harry, esforando-se por no perder a calma. - Talvez ele julgasse que ficava bem pendurada na parede do meu quarto.

- No se trata de uma brincadeira, Mr. Potter! - resmungou Scringeour. - Sena por o Dumbledore estar convencido de que apenas a espada de Godric Gryffindor seria 
capaz de derrotar o Herdeiro de Slytherin? Teria ele desejado dar-te aquela espada, Potter, porque acreditava,  semelhana de muita gente, que ests destinado a 
destruir Aquele Cujo Nome No Deve Ser Pronunciado?

-  uma teoria interessante, no h dvida - observou Harry. - J algum tentou trespassar o Voldemort com uma espada? Talvez o Ministro devesse encarregar alguns 
funcionrios dessa misso, ao invs de perderem tempo a desmontarem Apagadores ou a abafarem fugas de Azkaban. Ento  isso que tem andado a fazer, trancado no seu 
gabinete, Ministro, a tentar abrir a minha Snitch? H pessoas a morrer, eu prprio por pouco no fui uma delas, o Voldemort perseguiu-me atravs de trs condados, 
matou o Moody Olho-Louco, contudo, do Ministrio, nem uma palavra a esse respeito, no  verdade? E ainda espera que colaboremos consigo!

- Ests a ir longe de mais! - gritou Scringeour pondo-se de p; Harry levantou-se tambm de imediato. Scringeour aproximou-se de Harry a coxear e enterrou-lhe a 
ponta da varinha com toda a fora no peito: esta abriu um buraco na T-shirt de Harry como se fosse uma beata acesa.

- Eh! - exclamou Ron, dando um pulo e empunhando a sua prpria varinha, mas Harry disse-lhe.

- No! Queres dar-lhe um pretexto para te prender?

- Lembraste-te de que no ests na escola, no  verdade? - afirmou Scrimgeour respirando com dificuldade para o rosto de Harry. - Lembraste-te de que eu no sou 
o Dumbledore, que te perdoava todas as insolncias e insubordinaes? Podes muito bem usar essa cicatriz como se fosse uma coroa, Potter, mas eu no admito que um 
rapaz de dezassete anos me venha dizer como devo fazer o meu trabalho! J  altura de aprenderes a ter-me respeito!

114

- E j  altura de o senhor aprender a merec-lo! - retorquiu

Harry

O cho estremeceu; ouviu-se o barulho de passos a correr, em

seguida a porta da sala de estar abriu-se de rompante e Mr e Mrs. Weasley entraram

- Ns... ns julgmos ter ouvido... - comeou Mr. Weasley, olhando perfeitamente alarmado para a imagem de Harry e do Ministro quase nariz com nariz.

- .. vozes exaltadas - ofegou Mrs Weasley. Scringeour recuou uns passos para longe de Harry, olhando

de relance para o buraco que lhe fizera na T-shirt. Parecia arrependido de ter perdido a cabea.

- No... no foi nada - resmungou. - Eu... eu lamento a tua atitude - acrescentou, encarando novamente Harry. - Pareces pensar que o Ministrio no deseja o mesmo 
que tu... o que o Dumbledore desejaria. Devamos estar a trabalhar em conjunto

- Eu no aprecio os seus mtodos, Ministro - ripostou Harry. - Ou j se esqueceu?

Pela segunda vez, ergueu o punho direito e mostrou a Scringeour as cicatrizes brancas que ainda apresentava nas costas da mo e onde se via escrito' Eu no devo 
dizer mentiras. A expresso de Scringeour endureceu. Virou-lhe costas sem mais uma palavra e saiu a coxear da sala Mrs. Weasley precipitou-se atrs dele. Harry ouviu-a 
deter-se na porta das traseiras. Decorridos uns instantes, gritou: - J se foi embora!

- O que  que ele queria? - interrogou-o Mr. Weasley, olhando em seu redor para Harry, Ron e Hermione, enquanto Mrs. Weasley se apressava a regressar para junto 
deles

- Entregar-nos o que o Dumbledore nos deixou - esclareceu Harry - S agora  que libertaram o contedo do testamento.

L fora, no jardim, em volta das mesas do jantar, os trs objectos que Scringeour lhes trouxera foram passados de mo em mo. Ouviram-se muitas exclamaes perante 
o Apagador e Os Contos de Beedle, o Bardo, e lamentos por Scringeour se ter recusado a entregar a espada, mas nenhum deles foi capaz de apresentar nenhuma sugesto 
para o facto de Dumbledore ter deixado a Harry uma Snitch velha. Quando Mr. Weasley estava a examinar o Apagador pela terceira ou quarta vez, Mrs. Weasley disse 
 cautela- Harry, meu querido, est toda a gente cheia de fome, mas no queramos comear sem ti... J posso servir o jantar?

115

Comeram um tanto ou quanto a despachar e ento, depois de um coro apressado de "Parabns" e de engolirem o bolo, o convvio desfez-se. Hagrid, que estava convidado 
para o casamento do dia seguinte, mas que era avantajado de mais para dormir n' A Toca, j de si a rebentar pelas costuras, foi montar uma tenda para dormir num 
campo das redondezas

- Encontramo-nos l em cima - sussurrou Harry a Hermione, enquanto ajudavam Mrs. Weasley a devolver o jardim  sua aparncia habitual - Depois de toda a gente se 
ter ido deitar.

J no quarto do sto, Ron entreteve-se a examinar o Apagador, e Harry a encher a bolsa de pele de Moke de Hagrid, no com ouro, mas com os objectos que mais estimava, 
inteis  primeira vista, embora alguns o fossem: o Mapa dos Salteadores, o fragmento do espelho encantado de Sirius e o medalho de R.A.B. Apertou bem os fios e 
pendurou a bolsa ao pescoo, sentando-se em seguida com a velha Snitch nas mos, a v-la adejar debilmente as asas. Por fim, Hermione bateu ao de leve  porta e 
entrou no quarto em bicos de ps.

- Muffliato - murmurou ela, agitando a varinha na direco das escadas.

- Pensei que no aprovasses esse feitio - observou Ron.

- Os tempos so outros -justificou-se Hermione. - Agora mostra-nos c esse Apagador.

Ron acedeu sem demora. Empunhando-o  sua frente, carregou no boto. A nica luz que tinham acesa apagou-se de imediato.

- A verdade  que - sussurrou Hermione na escurido - podamos ter obtido o mesmo resultado com Escurido Instantnea em P.

Ouviu-se um leve estalido, e o halo de luz do candeeiro voltou a incidir no tecto, ttomando a ilumin-los.

- Mesmo assim,  fixe - disse Ron, um tanto ou quanto na defensiva. - E, segundo ouvi dizer, foi o prprio Dumbledore quem o inventou!

- Eu sei, mas ele com certeza no te iria escolher como herdeiro s para nos ajudar a apagar as luzes!

- Achas que ele sabia que o Ministrio lhe confiscaria o testamento e examinar tudo quanto nos deixasse? - interpelou-a Harry

- Sem sombra de dvida - assentiu Hermione. - No testamento, ele no podia dizer por que  que decidiu deixar-nos estes objectos, mas isso por si s no explica. 
 .

116

- ... por que  que no nos deu uma pista enquanto ainda estava vivo? - aventou Ron.

- Nem mais - confirmou Hermione, que folheava agora Os Contos de Beedk, o Bardo. - Se estes objectos so suficientemente importantes para passarem mesmo debaixo 
das barbas do Ministrio, seramos levados a pensar que ele nos teria dado a saber por que motivo... A menos que achasse que era bvio?

- Mas nesse caso enganou-se, no foi' - disse Ron. - Eu sempre disse que ele no regulava bem. Um gnio, e tudo o mais, mas chalado. Deixar ao Harry uma Snitch velha... 
a que propsito

vem isso?

- No fao ideia - admitiu Hermione. - Quando o Scrimgeour te obrigou a segurares nela, Harry, eu tinha a certeza de que alguma coisa ia acontecer!

- Pois, bem - disse Harry, com a pulsao a acelerar  medida que erguia a Snitch entre os dedos. - Eu no me ia pr a esforar-me para que isso acontecesse em frente 
do Scringeour,

no acham?

- Esforares-te como? - indagou Hermione.

- A Snitch que eu apanhei no primeiro jogo de Quidditch que disputei? - adiantou Harry. - J no se lembram?

Hermione estava perfeitamente confusa. Ron, porm, ficou boquiaberto, apontando freneticamente de Harry para a Snitch e vice-versa, at conseguir recuperar a voz.

- Foi essa que tu por pouco no engoliste!

- Precisamente - assentiu Harry e, com o corao alvoroado, levou a Snitch  boca.

Esta no se abriu Sentiu a frustrao e o desapontamento a domin-lo: tornou a baixar a esfera dourada, mas Hermione lanou um grito.

- Palavras! Tem umas palavras escritas, olhem!

Harry ia deixando cair a Snitch tal foram a surpresa e o entusiasmo. Hermione estava coberta de razo. Gravadas na superfcie lisa e dourada, onde instantes antes 
no houvera nada, encontravam-se agora quatro palavras na caligrafia fina e enviesada que Harry reconheceu como pertencendo a Dumbledore.

Eu abro-me no fim

Mal tivera tempo de as ler e j as palavras haviam desaparecido.

- "Eu abro-me no fim.. " Mas que raio querer isso dizer? Hermione e Ron abanaram a cabea, completamente desconcertados.

117

kl 

- Eu abro-me no fim . no fim... Eu abro-me no fim...

No entanto, por muito que repetissem as palavras, por muito que variassem a inflexo, no foram capazes de lhes arrancar qualquer outro significado.

- E a espada - disse Ron finalmente, depois de abandonadas todas as tentativas para adivinhar o significado da inscrio da Snitch. - Para que  que ele quis que 
o Harry ficasse com a espada?

- E por que  que no se limitou a dizer-me? - lamentou-se Harry em voz baixa. - Ela estava l, pendurada na parede do gabinete dele durante todas as conversas que 
tivemos no ano passado! Se ele queria que eu ficasse com ela, por que  que no ma deu logo'

Sentia-se como se estivesse num exame com uma pergunta para a qual tinha a obrigao de saber a resposta  sua frente, mas a sua mente recusava-se a reagir. Ter-lhe-ia 
alguma coisa passado despercebida no decorrer das longas conversas que travara com Dumbledore no ano anterior? Deveria ele saber o significado de tudo aquilo? Estaria 
Dumbledore  espera de que ele compreendesse?

- E quanto a este livro - afirmou Hermione -, Os Contos de Beedle, o Bardo... eu nem nunca tinha ouvido falar dele!

- Tu nunca tinhas ouvido falar d' Os Contos de Beedle, o Bardo?

- retorquiu Ron com ar incrdulo. - Ests a brincar comigo, no ests?

- No, a srio! - exclamou Hermione, surpreendida. - Porqu, tu j tinhas?

- E claro que sim!

Harry ficou a olhar para eles, divertido. A circunstncia de Ron ter lido um livro de que Hermione nunca ouvira falar no tinha precedentes. Ron, todavia, no estava 
a ver motivo para tanta surpresa.

- Oh, v l! Todas as velhas histrias infantis foram supostamente escritas pelo Beedle, no ? A Fonte do Justo Merecimento.. O Feiticeiro e o Caldeiro Saltitante... 
A Coelha Babita e a sua Varinha Tagarela...

- Como? - disse Hermione com uma gargalhadinha.

- Como se chamava a ltima?

- Deixa-te de coisas! - atirou-lhe Ron, olhando, espantado, de Harry para Hermione. - Deves ter ouvido falar d' A Coelha Babita...

- Ron, tu sabes perfeitamente que eu e o Harry fomos educados por Muggles! - protestou Hermione - Ns no ouvimos essas histrias quando ramos pequenos, ouvimos 
A Branca de Neve e os Sete Anes e a Cinderela...

- O que  isso, uma doena? - indagou Ron.

- Ento este livro tem histrias para crianas? - concluiu Hermione, ttomando a debruar-se sobre as runas.

- Acho que sim - disse Ron hesitante. - Quer dizer, isso  o que se costuma dizer, percebes, que todas estas velhas histrias foram escritas pelo Beedle. No sei 
como elas eram na verso original.

- Mas por que  que o Dumbledore achou que eu as devia ler?

Ouviram um rangido l em baixo.

- Deve ser o Charllie, agora que a me j est a dormir, a escapulir-se para fazer o cabelo crescer  socapa - sugeriu Ron,

nervoso.

- E tambm j est na hora de ns irmos para a cama - murmurou Hermione. - Amanh no podemos dormir at tarde.

- Pois no - anuiu Ron. - Se  me do noivo lhe desse para cometer um triplo homicdio brutal, o casamento era capaz de ficar estragado. Eu apago as luzes.

E, dito isto, carregou uma vez mais no Apagador enquanto Hermione saa do quarto.

118

119

VIII

O CASAMENTO

As trs da tarde do dia seguinte encontraram Harry, Ron, Fred e George sentados  entrada da grande tenda branca armada no pomar,  espera de que os convidados chegassem. 
Harry ingerira uma dose grande de Poo Polissuco, e era agora o ssia de um rapaz Muggle e ruivo da aldeia local, Ottery St. Catchpole, a quem Fred roubara uma 
madeixa de cabelo, recorrendo ao Encantamento de Convocao. O plano previa apresentar Harry como sendo o "primo Barny" e esperar que ele passasse despercebido por 
entre o grande nmero de membros da famlia Weasley. Todos eles tinham na mo mapas de distribuio dos lugares, de modo a poderem ajudar os convidados a encontrarem 
o que lhes fora destinado. Uma hora antes, chegara um exrcito de empregados com mantos brancos acompanhados por uma banda trajada com casacos dourados, e todos 
estes feiticeiros se achavam agora sentados a curta distncia,  sombra de uma rvore; Harry via uma nvoa azulada de fumo de cachimbo a elevar-se do local.

Por detrs de Harry, a entrada para a tenda deixava entrever filas e filas de cadeiras douradas de aspecto frgil dispostas ao longo de um tapete roxo muito comprido. 
Os postes de sustentao tinham flores brancas e douradas entrelaadas  sua volta Fred e George haviam prendido um enorme molho de bales dourados por cima do stio 
exacto onde Bill e Fleur em breve se ttomariam marido e mulher. L fora, as borboletas e as abelhas pairavam ociosamente acima do relvado e das sebes. Harry sentia 
um ligeiro desconforto. O rapaz Muggle cuja aparncia ele assumira era bastante mais gordo que ele, e o manto fazia-lhe calor e tolhia-o ao sol abrasador dum dia 
estival.

- Quando eu me casar - declarou Fred, puxando pela gola do seu manto -, no vou querer saber destas tolices para nada. Podem vir como bem vos apetecer, e eu ponho 
a minha me sob o efeito de uma Ligadura Total do Corpo at o casamento chegar ao fim.

- Bem vistas as coisas, esta manh ela at no foi to m quanto isso - adiantou George - Derramou umas quantas lgri

120

irias por o Percy no vir, mas quem  que precisa dele? Oh, caramba, preparem-se, rapazes Olhem, ali vm eles.

Vindos do nada, um a um, iam surgindo vultos de cores bem garridas na extremidade mais distante do ptio. Numa questo de minutos, formara-se uma procisso, que 
comeou a serpentear atravs do jardim at  tenda. Flores exticas e pssaros encantados esvoaavam nos chapus das feiticeiras, enquanto nas gravatas de muitos 
feiticeiros reluziam pedras preciosas;  medida que os convidados se iam aproximando da tenda, o burburinho de conversas excitadas foi aumentando cada vez mais de 
intensidade, abafando o zunido das abelhas.

- Excelente, acho que estou a ver algumas primas Veela - comentou George, empertigando o pescoo para poder ver melhor. - Elas vo precisar de ajuda para entender 
os nossos costumes ingleses... Eu c me encarrego delas...

- Calrmnha a,  desorelhado - interveio Fred e, passando como uma seta pelo grupo de feiticeiras de meia-idade alvoroadas que liderava a procisso, disse. - Pronto... 
permettez-moi de ajudez vous - a um par de francesmhas bonitas, que soltaram gargalhadas afectadas e permitiram que ele as escoltasse at ao interior da tenda. George 
teve de se contentar com as feiticeiras de meia-idade, e Ron encarregou-se de um antigo colega do Ministrio de Mr. Weasley, Perkins, enquanto a Harry calhou em 
sorte um casal de idosos um tanto ou quanto surdos.

- Tudo bem? - cumprimentou-o uma voz familiar quando ele vinha a sair da tenda e se deparou com Tonks e Lupin no incio da fila. Ela pusera-se loura para a ocasio. 
- O Arthur avisou-nos que serias o rapaz do cabelo encaracolado. Desculpa o que se passou ontem  noite - acrescentou ela num sussurro, enquanto Harry os conduzia 
pela coxia. - Ultimamente o Ministrio anda muito antilobisomem, e ns pensmos que a nossa presena no te iria beneficiar em nada.

- No tem importncia, eu compreendo - assegurou-lhe Harry, dirigindo-se mais a Lupin que a Tonks. Lupin esboou-lhe um sorriso pronto; no entanto, quando eles se 
iam a afastar, reparou que a expresso de Lupin adquiria novamente traos de desespero. No entendia o que se passava, mas no havia tempo para se alongar naquele 
assunto: Hagrid estava a causar uma certa agitao. Tendo compreendido mal as indicaes de Fred, fora sentar-se, no na cadeira aumentada e reforada por artes 
mgicas e instalada propositadamente para ele na ltima fila, mas em cinco

121

 cadeiras que agora mais se assemelhavam a um grande amontoado de fsforos dourados.

Enquanto Mr. Weasley consertava os estragos e Hagrid gritava pedidos de desculpa para quem o quisesse ouvir, Harry apressou-se a regressar  entrada, onde se deparou 
com Ron diante de um feiticeiro de aspecto excntrico. Ligeiramente estrbico, com cabelo branco a dar-lhe pelo ombro, usava um barrete cuja borla lhe baloiava 
diante do nariz e um manto de uma tonalidade de gema de ovo que feria a vista. Um estranho smbolo, semelhante a um olho triangular, brilhava duma corrente de ouro 
que trazia em volta do pescoo.

- Xenophilius Lovegood - apresentou-se ele, estendendo uma mo a Harry -, eu e a minha filha moramos mesmo do outro lado da colina; os Weasley, sempre to amveis, 
tiveram a generosidade nos convidar. Mas acho que j conhece a minha filha, no  verdade? - acrescentou para Ron.

- Sim - confirmou este. - Ela veio consigo?

- Ela demorou-se no vosso encanto de jardim para cumprimentar os gnomos; que magnfica infestao!  pena que to poucos feiticeiros tenham conscincia do muito 
que podemos aprender com os gnomos, pequenos, mas to sbios... ou, para lhes dar o seu nome correcto, os Gernumbli gardensi.

- Por acaso, os nossos tambm conhecem uma grande variedade de palavres - comentou Ron -, mas acho que foram o Fred e o George que lhos ensinaram.

Estava a conduzir um grupo de feiticeiros para a tenda quando Luna apareceu de repente.

- Ol, Harry! - cumprimentou-o ela.

- Ha... eu chamo-me Barny - emendou-a Harry, desconcertado.

- Oh, tambm mudaste de nome? - perguntou ela em ttom animado.

- Como  que descobriste...?

- Oh, bastou-me olhar para a tua expresso - explicou-lhe.  semelhana do pai, Luna trajava uma indumentria amarelo
- vivo, que complementara com um grande girassol no cabelo. Depois de nos habituarmos a tanta claridade, o efeito geral no deixava de ser agradvel. Pelo menos 
no trazia rabanetes pendurados nas orelhas.

Xenophilius, que estava embrenhado em amena conversa com um conhecido seu, no reparara na troca de palavras entre Luna e

122

Harry. Depois de se despedir do feiticeiro, virou-se para a filha, que esticou um dedo e lhe disse: - Olha, pap... um dos gnomos mordeu-me!

- Que maravilha! A saliva de gnomo tem inmeras propriedades benficas! - declarou Mr. Lovegood, segurando no dedo que Luna lhe estendia e examinando as marcas das 
dentadas, que sangravam. - Luna, meu amor, se por acaso hoje sentires algum talento desabrochar de dentro de ti... talvez cantar pera ou declamar em sereis... 
no o reprimas! Podes ter sido abenoada pelos Gernumblies\

Ron, que ia a passar por eles em sentido contrrio, soltou uma sonora gargalhada de forma trocista.

- O Ron pode rir-se - disse Luna tranquilamente, enquanto Harry a conduzia a ela e a Xenophilius aos respectivos lugares -, mas o meu pai investigou a fundo a magia 
dos Gernumbli.

- A srio? - admirou-se Harry, que havia j muito tempo tomara a deciso de no contestar as opinies peculiares quer de Luna, quer do pai. - Mas tens a certeza 
de que no queres pr nada nessa dentada?

- Oh, no foi nada - respondeu Luna, sugando o dedo com ar sonhador e olhando Harry de alto a baixo. - Ests todo elegante. Eu avisei o pap de que a maior parte 
dos convidados viria de mantos de cerimnia, mas ele est convencido de que se deve usar cores solares nos casamentos... Para dar sorte, percebes?

 medida que ela se afastava atrs do pai, Ron apareceu com uma feiticeira idosa agarrada ao seu brao. O nariz adunco, os olhos com conttomos avermelhados e o chapu 
de plumas cor-de-rosa davam-lhe um ar de flamingo maldisposto.

- ... e esse cabelo est comprido de mais, Ronald, por pouco no te confundi com a Ginevra. Pelas barbas de Merlin, mas o que  que o Xenophilius Lovegood traz vestido? 
Parece uma omeleta. E tu, quem s? - grasnou ela para Harry.

- Oh, pois, tia Muriel, este  o nosso primo Barny.

- Outro Weasley? Mas olha que vocs se reproduzem como gnomos. O Harry Potter no est c? Estava com esperanas de o encontrar. Pensei que fosse teu amigo, Ronald, 
ou ser que isso foi s mais uma gabarolice das tuas?

- No... Ele no pde vir...

- Hum. Deu uma desculpa, no foi? Afinal, no  to parvo como aparenta pelas fotografias que saem nos jornais. Estive agora mesmo a ensinar a noiva como  que deve 
usar a minha tiara

123

- gritou ela a Harry - Foi feita por goblins, e h sculos que pertence  minha famlia. A rapariga at  jeitosa, mas, com franqueza... francesa. bem, arranja-me 
um bom lugar, Ronald, que j tenho cento e sete anos em cima e no posso estar muito tempo de p.

Ron deitou a Harry um olhar cheio de significado ao passar por ele e demorou-se algum tempo; quando se ttomaram a encontrar  entrada, Harry conduzira mais uma dzia 
de convidados aos respectivos lugares. A tenda estava agora praticamente cheia e, pela primeira vez, no havia fila l fora.

- Um verdadeiro pesadelo, a tia Muriel - desabafou Ron, limpando a testa  manga. - Costumava visitar-nos todos os anos pelo Natal, mas depois, felizmente, ofendeu-se 
por o Fred e o George terem colocado uma Bomba de Estrume debaixo da cadeira dela durante o jantar. O meu pai nunca se cansa de dizer que ela os deve ter retirado 
do testamento... Como se eles se ralassem com isso .. Pelo andar da carruagem, vo acabar por ser os mais ricos da famlia toda. Uau - acrescentou, pestanejando 
rapidamente  medida que Hermione vinha a correr para junto de ambos. - Ests um espanto!

- Sempre o mesmo ttom de surpresa! - retorquiu Hermione, no obstante o sorriso. Trazia um vaporoso vestido lils com sapatos de salto alto a condizer, o cabelo 
estava liso e brilhante

- A boa da tua tia Muriel no  da mesma opinio, acabei de me cruzar com ela l em cima, quando ela foi dar a tiara  Fleur. Virou-se para mim e disse-me: "Oh, 
esta no  aquela de origem Muggle?" e depois fez um comentrio  minha m postura e aos meus tornozelos escanzelados

- No leves isso a peito, ela  mal-educada para toda a gente

- explicou-lhe Ron

- Esto a falar da Muriel? - inquiriu George, ttomando a sair da tenda com Fred - Pois, ela acabou de me dizer que tenho as orelhas assimtricas. Aquele morcego 
velho Quem me dera que o tio Bilius ainda estivesse entre ns; era um fartote de rir nos casamentos.

- No foi ele que viu um Cruel e morreu passadas vinte e quatro horas? - perguntou-lhe Hermione

- bem, foi, para o fim ele ficou um bocado esquisito - admitiu George.

- Mas antes de ficar chalado, era a alma das festas - insistiu Fred - Costumava emborcar uma garrafa inteira de Usque de

124

Fogo, depois ia a correr para a pista de dana, arregaava o manto e comeava a tirar ramos de flores das...

- Pois, devia ser um encanto de pessoa - retorquiu Hernuone, enquanto Harry soltava uma sonora gargalhada.

- Nunca se casou, v-se l saber porqu - disse Ron

- Tu nunca deixas de me surpreender - ripostou Hermione. Estavam to perdidos de riso que nem deram pela chegada

de um retardatrio, um jovem de cabelo escuro, com um grande nariz adunco e espessas sobrancelhas pretas, at que este estendeu um convite a Ron e, de olhos postos 
em Hermione, declarou

- Estz zimplezmente linda!

- Viktor! - guinchou ela, deixando cair uma mahnha de missangas, que fez um estrondo bastante desproporcional ao seu tamanho. Muito corada, e enquanto se baixava 
apressadamente para a apanhar, foi dizendo: - No sabia... Que bem ver-te. Como ests tu?

As orelhas de Ron ttomaram a ficar escarlates. Depois de olhar de relance para o convite de Krum como se no acreditasse numa palavra do que l dizia, perguntou-lhe, 
num ttom despropositadamente alto: - O que  que ests aqui a fazer?

- A Fleurr convidou-me - esclareceu Krum, de sobrancelhas arqueadas.

Harry, que no tinha nada contra Viktor, apertou-lhe a mo; depois, pressentindo que seria prudente afastar Krum das proximidades de Ron, ofereceu-se para o conduzir 
ao seu lugar.

- O teu amigo non ficou nada zatizfeito porr me verr - observou Krum, enquanto entravam na tenda, agora  cunha de tantos convidados. - Ou serra teu famiharr? - 
acrescentou, deitando uma olhadela ao cabelo ruivo e encaracolado de Harry.

-  meu primo - murmurou Harry, mas Krum j no lhe estava a prestar ateno. A sua aparncia estava a causar um grande rebulio, sobretudo entre as primas Veela: 
tratava-se, afinal de contas, de um famoso jogador de Quidditch.  medida que as pessoas empertigavam o pescoo para o verem melhor, Ron, Hermione, Fred e George 
vieram a correr pela coxia.

-  melhor sentarmo-nos - disse Fred a Harry -, se no quisermos ser atropelados pela noiva.

Harry, Ron e Hermione instalaram-se nos respectivos lugares na segunda fila, atrs de Fred e de George. Hermione estava bastante corada, e Ron ainda tinha as orelhas 
escarlates. Passados

125

uns instantes, ele resmungou para Harry: - Reparaste na barbicha ridcula que ele deixou crescer?

Harry soltou um grunhido descomprometido.

Uma atmosfera de expectativa ansiosa inundara a tenda quente, os murmrios gerais interrompidos por arranques ocasionais de gargalhadas nervosas. Mr. e Mrs. Weasley 
percorreram o corredor central, sorrindo e acenando aos parentes; Mrs. Weasley trazia um conjunto cor de ametista novinho em folha, com um chapu a condizer

Passado um instante, Bill e Charlie levantaram-se na parte da frente da tenda, ambos trajados a rigor, com grandes rosas brancas na lapela; Fred lanou um assobio, 
e as primas Veela irromperam num acesso de nsmhos afectados. Depois,  medida que a msica se elevava, aparentemente dos bales dourados, os convidados foram ficando 
em silncio.

- Ooooh! - exclamou Hermione, dando meia volta na cadeira para olhar para a entrada

Um grande suspiro colectivo irrompeu das feiticeiras e dos feiticeiros presentes, enquanto Monsieur Delacour e Fleur percorriam a coxia central, Fleur a deslizar, 
Monsieur Delacour a saltitar, radiante. Fleur trazia um vestido branco muito simples e parecia emitir um halo intenso de luz prateada Ao contrrio do que era hbito, 
em que o seu resplendor eclipsava todos  sua volta, hoje contribua para embelezar todos sobre os quais incidia. Ginny e Gabrielle, ambas de vestidos dourados, 
estavam ainda mais bonitas que nos outros dias e, quando Fleur chegou junto dele, parecia que Bill nunca tinha conhecido Fenrir Greyback

- Minhas senhoras e meus senhores - declarou uma voz ligeiramente montona, e foi com um certo choque que Harry viu o mesmo feiticeiro baixo e de cabelo aos tufos 
que presidira ao funeral de Dumbledore, agora diante de Bill e Fleur. - Encontramo-nos aqui hoje reunidos para celebrar a unio de duas almas fiis..

- Pois , no h dvida de que a minha tiara lhe d outro ar - comentou a tia Muriel num murmrio um tanto ou quanto sonoro. - Mas no posso deixar de reparar que 
o vestido da Ginevra  decotado de mais

Ginny deitou uma olhadela  sua volta, com um sorriso rasgado, piscou o olho a Harry, depois apressou-se a olhar novamente em frente. Os pensamentos de Harry vaguearam 
para muito longe da tenda, de regresso s tardes passadas na companhia de Ginny em recantos sossegados do recinto da escola. Parecia que j l ia tanto tempo; sempre 
achara aqueles momentos bons de mais para serem verdade,

126

como se estivesse a roubar horas de felicidade  vida de uma pessoa normal, uma pessoa sem uma cicatriz em forma de raio na testa... -- William Arthur, aceitas Fleur 
Isabelle...? Na fila dianteira, Mrs. Weasley e Madame Delacour soluavam ambas baixinho para lenos de renda. Rudos de trompeta da fila de trs denunciaram a todos 
os presentes que Hagrid tirara do bolso um dos seus lenos de assoar do tamanho de uma toalha de mesa. Hermione virou-se para Harry e exibiu-lhe um sorriso radiante; 
tambm ela tinha os olhos banhados de lgrimas. - .. e assim vos declaro unidos para sempre. O feiticeiro de cabelo aos tufos ergueu a varinha mesmo por cima das 
cabeas de Bill e Fleur, e uma chuva de estrelas de prata caiu sobre eles, descendo em espiral em volta das suas silhuetas, agora entrelaadas. Enquanto Fred e George 
abriam uma onda de aplausos, os bales dourados por cima dos noivos rebentaram: aves do paraso e minsculos sinos dourados saram a voar de dentro deles, acrescentando 
as suas harmonias e acordes ao alando.

- Minhas senhoras e meus senhores! - declarou o feiticeiro de cabelo aos tufos. - Por favor, levantem-se!

Todos assim fizeram, a tia Muriel a resmungar de forma audvel; o feiticeiro agitou a varinha. As cadeiras onde tinham estado sentados elevaram-se graciosamente 
no ar  medida que as paredes de lona da tenda desapareciam, deixando-os debaixo de um dossel sustentado por postes dourados, com uma vista magnfica para o pomar 
banhado pelo sol e para os campos em redor. Em seguida, um fundo de ouro liquefeito espalhou-se a partir do centro da tenda, formando uma pista de dana resplandecente; 
as cadeiras flutuantes agruparam-se em redor de pequenas mesas revestidas com toalhas brancas, e ttomaram a assentar graciosamente no cho, enquanto a banda de casacos 
dourados se encaminhava para o palanque.

- Lindo - comentou Ron em ttom de aprovao,  medida que os empregados surgiam de todos os lados, alguns transportando travessas de prata com sumo de abbora, Cerveja 
de Manteiga e Usque de Fogo, outros carregados com pilhas de tartes

e sanduches.

- Devamos ir cumpriment-los! - sugeriu Hermione, Pondo-se em bicos de ps para ver para onde Bill e Fleur tinham desaparecido por entre um ajuntamento de pessoas 
desejosas de lhes apresentar os seus votos de felicidades.

- Depois temos tempo - disse Ron com um encolher de ombros, surripiando trs Cervejas de Manteiga de uma travessa que

127

ia a passar e estendendo uma a Harry. - Hermione, anda da, vamos arranjar uma mesa... aqui no! Em qualquer lugar menos perto da Muriel...

Ron liderou o trajecto atravs da pista de dana, lanando olhadelas  esquerda e  direita; Harry tinha a certeza de que ele estava a manter Krum debaixo de olho. 
Quando chegaram  outra extremidade da tenda, a maioria das mesas j se achava ocupada, a mais vazia era aquela em que Luna se encontrava sozinha.

- No te importas de que nos sentemos ao p de ti? - perguntou-lhe Ron.

- Oh, no,  claro - disse ela alegremente. - O pap foi entregar o nosso presente ao Bill e  Fleur.

- O que , um abastecimento de Razes de Gurdy para o resto da vida? - indagou Ron.

Hermione tentou dar-lhe um pontap por debaixo da mesa, mas acertou em Harry. com lgrimas de dor a virem-lhe aos olhos, Harry perdeu momentaneamente o fio  conversa.

A banda comeou a tocar. Bill e Fleur foram os primeiros a ir para a pista de dana, por entre grandes aplausos; passado um momento, Mr. Weasley conduziu Madame 
Delacour para a pista, ao que se seguiram Mrs. Weasley e o pai de Fleur.

- Gosto tanto desta msica - comentou Luna, balanando-se ao ritmo da valsa, e, logo a seguir, levantou-se e deslizou para a pista, onde se ps a rodopiar sem sair 
do stio, sozinha, de olhos fechados e ondulando os braos.

- Ela  ptima, no ? - disse Ron com voz de admirao - Sempre bem-disposta

No entanto, o sorriso no tardou a sumir-se-lhe do rosto; Viktor Krum deixou-se cair no assento vago de Luna. Hermione corou de satisfao, mas desta feita Krum 
no viera para a cumprimentar. com ar mal-humorado, perguntou: - Quem  aquele indivduo de amarrelo?

-  o Xenophilius Lovegood,  pai de uma amiga nossa - respondeu Ron. O seu ttom contundente indicava que no estava disposto a fazer troa de Xenophilius, por muito 
clara que a provocao fosse. - Vamos danar - acrescentou abruptamente para Hermione.

Esta mostrou-se surpresa, mas tambm satisfeita, e levantou-se: desapareceram por entre a multido que enchia cada vez mais a pista.

- Ah, eles agorra zon namorradoz? - indagou Krum, momentaneamente distrado.

- Ha... mais ou menos - disse Harry.

128

E tu, quem z? - perguntou-lhe Krum

- Barny Weasley. Trocaram um aperto de mo.

- E tu, Barrny... conhecez bem ezze tal Lovegood? .- No, s o conheci hoje. Porqu?

Krum arreganhou o cenho por cima da borda do copo, de olhos postos em Xenophilius, que estava a conversar com vrios feiticeiros do lado oposto da pista de dana.

- Porrque - explicou ele - ze non fozz convidado da Fleurr, eu o dezafiava parra um duelo, aqui e agorra, porr usarr aquele zmbolo infecto ao peito.

- Smbolo? - admirou-se Harry, olhando por sua vez para Xenophilius. O estranho olho triangular brilhava-lhe no peito. - Porqu' Que mal tem?

- Gmndelvald.  o zmbolo do Grrmdelvald.

- Do Grmdelwald... o feiticeiro Negro que o Dumbledore

derrotou?

- Nem maiz.

Os msculos dos maxilares de Krum movimentaram-se como se ele estivesse a mastigar, e, em seguida, prosseguiu: - O Grrmdelvald matou muita gente, porr exemplo, o 
meu av. E clarro que ele nunca foi muito popularr nezte paz, dizem que tinha medo do Dumbledorre... e com razon, a terr em conta o fim que teve Maz aquele - apontou 
um dedo a Xenophilius. - Aquele ali  o zmbolo, reconheci-o logo que o vi. o Grrmdelvald grravou-o numa parrede de Durmstrang quando andou l a eztudarr. Unz quantoz 
idiotaz impnmirram-no noz livroz e nas roupaz, com mtenon de chocarr, de ze zalientarrem... at que ns, que tnhamoz perrdido membrroz daz nossaz famliaz s monz 
do Grrmdelvald, lhez pregmoz uma lion.

Krum fez estalar os ns dos dedos num gesto de ameaa e lanou um olhar feroz a Xenophilius Harry estava perplexo. Parecia-lhe altamente improvvel que o pai de 
Luna fosse um defensor da Magia Negra, e mais ningum na tenda dava mostras de ter reconhecido o smbolo triangular em forma de runa.

- Mas tu., ha... tu tens a certeza absoluta de que  o mesmo

que o Grmdelwald usava?

- A zerrteza abzoluta - insistiu Krum com frieza. - Pazzei porr aquele zmbolo durrante muitoz anoz, conhezo-o bem

- bem, h a possibilidade - sugeriu Harry - de o Xenophilius no conhecer o verdadeiro significado do smbolo. Os

129

Lovegood so bastante... invulgares. Ele poderia facilmente t-lo encontrado algures e pensado que se tratava do perfil da cabea de um Snorkack de Chifres Amarrotados, 
ou isso.

- O perrfil dum qu?

- bem, eu no sei exactamente o que so, mas, ao que me consta, parece que ele e a filha, nas frias, se dedicam a ir  procura deles.

Harry sentiu que no estava a fazer uma descrio cabal de Luna e do pai.

- Ela  aquela que ali est - disse ele, apontando Luna, que continuava a danar sozinha, agitando os braos em volta da cabea como se estivesse a tentar afugentar 
um enxame de mosquitos.

- Porr que  que ela ezt a fazerr aquilo? - perguntou Krum

- Deve estar a tentar livrar-se dum Wrackspurt - aventou Harry, que reconheceu os sintomas

Krum pareceu ficar na dvida se Harry estaria a fazer pouco dele ou no. Tirou a varinha de dentro do manto e bateu ameaadoramente com ela na coxa; da ponta saram 
fascas.

- Gregorovitch! - exclamou Harry em voz alta. Krum teve um sobressalto, mas Harry estava demasiado entusiasmado para lhe prestar ateno Lembrara-se subitamente 
ao ver a varinha de Krum: Ollivander a pegar nela e a examin-la cuidadosamente antes do Ttomeio dos Trs Feiticeiros.

- O que  que ze pazza com ele? - indagou Krum, desconfiado.

-  um fabricante de varinhas!

- Izzo zei eu - retorquiu Krum.

- Foi ele quem fabricou a tua varinha! Foi por isso que me lembrei... o Quidditch...

A desconfiana de Krum era cada vez mais notria.

- Maz como  que tu zabes que foi o Gregorrovitch quem fabrricou a minha varrinha?

- Eu... li isso algures, acho eu -justificou-se Harry. - Numa... numa revista de fs - improvisou ele ao calhas, e Krum pareceu mais apaziguado.

- Non me lembrro de alguma vez terr falado com oz meuz ts sobrre a minha varrinha - disse ele.

- Ento... ha . por onde  que tem andado o Gregorovitch? Krum fez um ar atnito

- Ele reforrmou-ze h unz anoz. Eu fui um doz ltimoz a comprrarr uma varnnha fabrricada porr ele. Zon az melhorres... emborra eu zaiba que vocz, oz mglezes, tm 
o Ollivanderr em grrande conta.

130

Harry no lhe respondeu. Fingiu que estava a ver os convidados a danar na pista, tal como Krum; a verdade, porm,  que se einbrenhara em profundas reflexes. Ento 
Voldemort andava no encalo de um clebre fabricante de varinhas... Harry no teve de se esforar muito para encontrar um motivo para tal: este prendia_se seguramente 
com o que a varinha de Harry fizera na noite em que Voldemort o perseguira pelos ares. A varinha de azevinho e pena de fnix derrotara a varinha emprestada, algo 
que Olhvander nem previra nem compreendia. Conheceria Gregorovitch esse motivo? Sena ele de facto mais sabedor que Olhvander, estaria ele por dentro de segredos 
relativos a varinhas que Olhvander desconhecia?

- Aquela raparriga ali  bem girra - comentou Krum, trazendo Harry de volta  realidade. Krum estava a apontar para Ginny, que acabara de se juntar a Luna. - Tambm 
 tua par rente?

-  - respondeu-lhe Harry, dominado por uma sbita irritao - e namora com um tipo. Um fulano ciumento. Grandalho. Se eu fosse a ti, no o provocava.

Krum resmungou.

- Maz afinal - lastimou-se ele, emborcando a sua bebida e ttomando a levantar-se -, de que vale zerr um jogadorr interrnacional de Quidditch ze todaz az raparrigaz 
bomtaz j tm

namorrado?

E afastou-se a passos largos, deixando Harry sozinho. Este tirou uma sanduche a um empregado que ia a passar e abriu caminho por entre a beira da pista, apinhada 
de gente. Queria encontrar Ron, para lhe falar de Gregorovitch, mas o amigo estava a danar com Hermione em pleno centro da pista. Harry encostou-se a um dos pilares 
dourados e ps-se a olhar para Ginny, que nesse momento danava com Lee Jordan, um amigo de Fred e de George, esforando-se por no se sentir melindrado pela promessa 
que fizera a Ron.

Era a primeira vez que ia a um casamento, e, como tal, no estava em condies de avaliar at que ponto as celebraes dos feiticeiros diferiam das dos Muggles, 
embora tivesse a certeza de que as dos ltimos no incluiriam bolos de casamento com duas fnixes em miniatura no cimo e que levantavam voo quando se cortavam as 
fatias, nem garrafas de champanhe que flutuavam sozinhas por entre os convidados. A medida que anoitecia e as borboletas nocturnas comeavam a aparecer debaixo do 
dossel, agora

131

iluminado por candeeiros dourados, a folia foi-se descontrolando cada vez mais. Havia horas que Fred e George se tinham sumido na escurido com duas primas de Fleur; 
Charlie, Hagrid e um feiticeiro atarracado com um chapu roxo em forma de empado de carne de porco estavam a cantar "Odo, o Heri" a um canto

Abrindo caminho por entre a multido para escapar a um tio embriagado de Ron que parecia indeciso se Harry seria seu filho ou no, reparou num feiticeiro idoso sentado 
sozinho a uma mesa. A sua nuvem de cabelo branco dava-lhe o aspecto de um dente-de-leo envelhecido, e era coroada por um fez comido pelas traas. Era-lhe vagamente 
familiar: depois de dar voltas  cabea, Harry apercebeu-se subitamente de que se tratava de Elphias Doge, membro da Ordem da Fnix, e autor do obiturio de Dumbledore.

Abeirou-se dele.

- Importa-se de que me sente  sua mesa?

- No, de forma alguma - respondeu Doge; tinha uma voz bastante aguda e estridente

Harry inclinou-se para ele.

- Mr. Doge, eu sou o Harry Potter. Doge ficou boquiaberto.

- Meu caro rapaz! O Arthur disse-me que estavas aqui, disfarado..  para mim uma enorme satisfao, uma verdadeira honra!

Nervoso, num alvoroo de prazer, Doge serviu a Harry uma taa de champanhe.

- Estive a pensar em escrever-te - sussurrou-lhe - depois de o Dumbledore... o choque... e para ti, ento, tenho a certeza...

Os olhos minsculos de Doge inundaram-se repentinamente de lgrimas.

- Eu li o obiturio que escreveu n' O Profeta Dirio - adiantou Harry - No fazia ideia de que conhecia to bem o Professor Dumbledore

- To bem como qualquer outra pessoa - respondeu Doge, secando os olhos ao canto do guardanapo - No h dvida de que era eu quem o conhecia h mais tempo, se excluirmos 
o Aberforth.. e, no sei porqu, as pessoas de facto nunca levam o Aberforth em considerao.

- Por falar n' O Profeta Dirio... No sei se ter visto, Mr. Doge.. ?

- Oh, por favor, trata-me por Elphias, meu caro.

132

- Elphias, no sei se por acaso ter lido a entrevista que a Rita Skeeter deu a propsito do Dumbledore?

O rosto de Doge toldou-se de indignao.

- Oh, claro, Harry, podes ter a certeza de que li. Essa mulher... abutre talvez seja um termo mais adequado para a descrever... importunou-me at mais no para me 
convencer a falar com ela. Tenho de confessar que fui bastante descorts, chamei-lhe truta inconveniente, o que resultou, como seguramente ters visto, num ataque 
 minha sanidade mental.

- bem, nessa entrevista - prosseguiu Harry -, a Rita Skeeter deu a entender que, na juventude, o Professor Dumbledore esteve envolvido na Magia Negra.

- No acredites numa nica palavra acerca disso! - apressou-se Doge a dizer. - Numa nica palavra, Harry! No deixes que nada manche as recordaes que guardas do 
Albus Dumbledore!

Harry olhou para a expresso sria e atormentada de Doge e no se sentiu mais tranquilo, apenas frustrado. Estaria Doge de facto convencido de que era fcil para 
Harry simplesmente no acreditar? Sena possvel que no compreendesse a necessidade que ele tinha de certezas, de descobrir tudo'?

Talvez Doge suspeitasse do que ia nos pensamentos de Harry, pois assumiu um ar preocupado e acrescentou: - Harry, a Rita Skeeter  uma mulher medonha..

Mas foi interrompido por uma casquinada estridente.

- A Rita Skeeter? Oh, eu adoro-a, nunca perco uma linha

do que ela escreve!

Harry e Doge levantaram os olhos e depararam-se com a tia Muriel, as plumas a danarem-lhe no chapu, uma taa de champanhe na mo. - Ela escreveu um livro sobre 
o Dumbledore,

sabiam?

- Ol, Muriel - cumprimentou-a Doge. - Sim, estvamos

mesmo agora a falar...

- Tu a! Deixa-me sentar na tua cadeira, que tenho cento e

sete anos!

Outro primo Weasley ruivo saltou da cadeira onde estava sentado, com ar alarmado, e a tia Muriel virou-a com uma fora surpreendente e alapou-se nela entre Doge 
e Harry.

- Ol, mais uma vez, Barry, ou l como  que te chamas - dingiu-se ela a Harry. - Mas afinal o que estavas tu a dizer a respeito da Rita Skeeter, Elphias? Sabias 
que ela escreveu uma

133

biografia do Dumbledore? Estou ansiosa por l-la, no me posso esquecer de a encomendar na Borres e Floreados!

Ao ouvir isto, Doge assumiu um ar solene e rgido, mas a tia Muriel emborcou a sua taa e estalou os dedos ossudos a um empregado que ia a passar para nova dose. 
Bebeu mais um grande trago de champanhe, arrotou e em seguida disse: - No  preciso fazerem esse ar de rs empalhadas! Antes de ele ser respeitado, respeitvel 
e outros disparates que tais, olhem que correram uns rumores muito estranhos a respeito do Dumbledore!

- Crticas infundadas - retorquiu Doge, ficando mais uma vez da cor dum rabanete.

- Vindo de ti, no esperava outra coisa, Elphias - cacarejou a tia Muriel. - Bem reparei como omitiste as partes embaraosas naquele obiturio que escreveste!

- Lamento que sejas dessa opinio - disse Doge, com a frieza a sobressair-lhe na voz. - Garanto-te que foi tudo escrito do corao.

- Oh, toda a gente sabe que tu tinhas uma verdadeira adorao pelo Dumbledore; atrevo-me a dizer que irs continuar convencido de que ele era um santo nem que se 
venha a descobrir que ele se desembaraou daquela irm cepatorta.

- Muriel! - exclamou Doge.

Um arrepio que nada tinha que ver com o champanhe gelado comeava a insinuar-se no peito de Harry.

- O que quer isso dizer? - perguntou ele a Muriel. - Quem disse que a irm dele era cepatorta? Eu sempre pensei que ela fosse doente.

- Mas afinal enganaste-te, no foi, Barry!? - retorquiu a tia Muriel, deleitada com o efeito que estava a produzir. - Mas, seja como for, o que esperavas tu saber 
a respeito dele? Tudo se passou anos e anos antes de os teus pais pensarem sequer em trazer-te a este mundo, meu querido, e a verdade  que mesmo aqueles de ns 
que eram vivos na altura nunca souberam o que, de facto, se passou. E por isso que estou ansiosa por descobrir o que  que a Skeeter andou a desenterrar! O Dumbledore 
abafou aquela irm dele durante demasiado tempo!

-  falso - mdignou-se Doge. - Absolutamente falso!

- O Dumbledore nunca me contou que a irm era cepatorta

- afirmou Harry impensadamente, ainda gelado por dentro.

- E por que raio haveria ele de te contar uma coisa dessas?

- guinchou Muriel, virando-se ligeiramente na cadeira para concentrar a sua ateno em Harry.

134

- A razo por que o Dumbledore nunca falou da Ariana - comeou Elphias, com a voz embargada de emoo - , creio eu, bastante bvia. Ele ficou de tal forma arrasado 
com a sua morte

que...

- Ento, por que  que nunca ningum lhe ps a vista em

cima, Elphias? - grasnou Muriel. - Por que  que metade de ns s soube da existncia da irm quando o caixo dela saiu de casa para o funeral? Onde  que estava 
o santo do Dumbledore enquanto a Ariana esteve trancada na cave? A exibir-se em Hogwarts, sem se ralar com o que se passava dentro da sua prpria casa!

- O que quer dizer com "trancada na cave"? - interrogou-a Harry. - O que vem a ser isso?

Doge estava com um ar arrasado. A tia Muriel tornou a cacarejar antes de responder  pergunta de Harry.

- A me do Dumbledore era uma mulher terrvel, absolutamente medonha. Era de origem Muggle, embora me tenha chegado aos ouvidos que ela pretendia fazer-se passar 
pelo contrrio ..

- Ela nunca pretendeu nada disso! A Kendra era uma excelente pessoa - murmurou Doge em ttom de lstima, mas a tia Muriel ignorou-o.

- ...orgulhosa e extremamente dominadora, o gnero de feiticeira que ficaria mortificada por dar  luz uma cepatorta...

- A Ariana no era cepatorta! - arquejou Doge.

- Isso dizes tu, Elphias, mas ento explica-me l por que motivo ela nunca frequentou Hogwarts!? - instou-o a tia Muriel. Tornou a virar-se para Harry - No nosso 
tempo, era costume encobrir os cepatortas. Embora levar as coisas ao extremo de aprisionar uma menina dentro de casa e fingir que ela no

existia...

- Eu garanto-te que no foi isso que se passou! - declarou Doge, mas a tia Muriel ignorou-o completamente e continuou a

falar com Harry.

- Em geral, os cepatortas eram despachados para as escolas dos Muggles e encorajados a integrar-se na comunidade Muggle... uma soluo muito mais generosa do que 
tentar encontrar-lhes um lugar no mundo dos feiticeiros, onde seriam sempre considerados de segunda categoria; mas, como  natural,  Kendra Dumbledore nem lhe passaria 
pela cabea permitir que a filha fosse para uma

escola Muggle...

- A Ariana era uma pessoa frgil' - ripostou Doge, j em desespero - A sade dela nunca lhe permitiu...

135

- .. sair de casa? - cacarejou Muriel. - E, apesar disso, nunca a levaram a So Mungus nem chamaram nenhum curandeiro para a examinar!

- Francamente, Muriel, como  que tu podes saber .

- Para tua informao, Elphias, nessa poca, o meu primo Lancelot era curandeiro em So Mungus e, na maior das confidncias, revelou  minha famlia que a Ariana 
nunca foi levada ao hospital. Tudo muito suspeito, na opinio do Lancelot!

Doge parecia estar  beira das lgrimas A tia Muriel, que dava a ideia de se estar a divertir  grande, estalou os dedos para que lhe trouxessem mais champanhe. 
Meio entorpecido, Harry lembrou-se dos tempos em que os Dursley o mantinham fechado  chave, longe da vista de todos, tudo pelo crime de ser feiticeiro. Teria a 
irm de Dumbledore sofrido o mesmo destino, mas s avessas aprisionada por no possuir dotes mgicos? E t-la-ia Dumbledore de facto abandonado ao seu destino, enquanto 
ia para Hogwarts dar mostras da sua inteligncia e do seu talento?

- Agora, se a Kendra no tivesse morrido primeiro - prosseguiu Muriel -, eu diria que teria sido ela a tratar da sade  Ariana .

- Como te atreves a dizer semelhante coisa, MurieP - lastimou-se Doge - Uma me matar a prpria filha? Pensa bem no que ests a dizer!

- Se a me em questo foi capaz de manter a filha prisioneira anos a fio, por que no? - retorquiu a tia Muriel com um encolher de ombros. - Mas, tal como estava 
a dizer, no faz sentido, porque a Kendra morreu antes da Ariana... De qu, nunca ningum soube ao certo...

- Oh, ento deve ter sido a Ariana a matar a Kendra - ripostou Doge, num esforo corajoso para escarnecer dela. - Por que no?

- Pois, a Ariana pode ter feito uma tentativa desesperada para se libertar e matado a Kendra quando esta a tentou impedir - sugeriu a tia Muriel em ttom pensativo 
- Podes pr-te para a a abanar a cabea, que no adianta de nada, Elphias! Estiveste no funeral da Ariana, no estiveste?

- Sim, estive - confirmou Doge com os lbios trmulos. - E no tenho memria de ocasio mais triste que essa. O Albus estava de corao desfeito...

- O corao e no s... O Aberforth no partiu o nariz do Albus a meio do servio fnebre?

136

Se Doge se mostrara horrorizado at a, no era nada comparado com aquele momento. Mais parecia que Muriel acabara de o apunhalar. Esta lanou um sonoro cacarejo 
e bebeu mais um trago de champanhe, que lhe escorreu pelo queixo

- Como  que tu...? - grasnou Doge.

- A minha me era amiga da velha Bathilda Bagshot - explicou a tia Muriel em ttom animado. - Eu escondi-me atrs da porta, e ouvi a Bathilda contar  minha me como 
tudo se passou. Uma briga com o caixo mesmo ao lado! Pela maneira como a Bathilda descreveu a cena, o Aberforth ps-se aos gritos com o Albus, a dizer que a culpa 
de a Ariana ter morrido era toda dele, e chegou mesmo a acertar-lhe um murro na cara. De acordo com a Bathilda, o Albus nem sequer se tentou defender, o que j de 
si  muito estranho, porque o Albus seria capaz de dar cabo do Aberforth num duelo at com as mos atadas atrs

das costas.

Muriel tomou mais um trago de champanhe. O relato daqueles velhos escndalos parecia deleit-la tanto quanto horrorizava Doge. Harry estava sem saber o que pensar, 
em quem acreditar' queria saber a verdade e, no entanto, Doge no era capaz de fazer mais que ficar para ali sentado a balbuciar debilmente que Ariana era uma pessoa 
doente. Harry mal podia acreditar que Dumbledore tivesse permitido que uma coisa daquelas se passasse na sua prpria casa e, contudo, havia indubitavelmente qualquer 
coisa de estranho em toda aquela histria

- E ainda te digo outra coisa - afirmou Muriel, com um ligeiro soluo, enquanto pousava a taa. - Acho que foi a Bathilda quem deu com a lngua nos dentes  Rita 
Skeeter. Todas aquelas insinuaes da Skeeter na entrevista a respeito de uma fonte importante prxima do Dumbledore... Quem sabe se ela no ter testemunhado todo 
o caso da Ariana e se as coisas no se encaixam'

- A Bathilda nunca aceitaria falar com a Rita Skeeter! -

murmurou Doge.

- A Bathilda Bagshot' - inquiriu Harry. - A autora d' Uma

Histria da Magia?

O nome aparecia impresso na capa de um dos livros de estudo de Harry, embora se visse obrigado a reconhecer que no se encontrava entre aqueles que lera com mais 
ateno.

- Sim - anuiu Doge, agarrando-se  pergunta de Harry como um homem prestes a afogar-se se agarra a um colete salva

137

- vidas. - Uma historiadora da magia de enorme talento e uma velha amiga do Albus.

- Bastante gaga, nos ltimos tempos, ao que ouvi dizer - ripostou a tia Muriel, muito prazenteira.

- A ser assim, ainda  mais condenvel da parte da Skeeter ter-se aproveitado dela - afirmou Doge - e no se pode dar qualquer crdito a nada do que a Bathilda tenha 
dito!

- Oh, h formas de reavivar a memria, e tenho a certeza de que a Rita Skeeter as conhece todas - salientou a tia Muriel. - Mas mesmo admitindo que a Bathilda esteja 
chalada de todo, estou certa de que ainda deve guardar velhas fotografias, talvez cartas, at. Havia anos que ela conhecia os Dumbledore. . Valia bem uma viagem 
a GodricsHollow, na minha opinio.

Harry, que acabara de tomar um gole de Cerveja de Manteiga, engasgou-se. Doge deu-lhe palmadinhas nas costas, enquanto Harry fitava a tia Muriel com os olhos lacnmejantes. 
Mal recuperou o domnio da voz, perguntou-lhe: - A Bathilda Bagshot mora em GodricsHollow?

- Oh, sim, h sculos! Os Dumbledore mudaram-se para l depois de o Percival ter ido parar  priso, e ela era vizinha deles

- Os Dumbledore moravam em Godrics Hollow?

- Sim, Barry, foi isso mesmo que acabei de dizer - confirmou a tia Muriel em ttom mal-humorado

Harry sentia-se exaurido, vazio. Nem por uma nica vez, em seis anos, Dumbledore lhe dissera que ambos tinham morado e perdido entes queridos em Godncs Hollow. Porqu? 
Teriam Lily e James sido sepultados junto  me e  irm de Dumbledore? Teria Dumbledore visitado as suas campas, talvez passado pelas de Lily e de James para l 
chegar. E nunca, nem por uma vez, mencionara isso a Harry... Nunca se dera  maada...

O motivo por que isso era to importante, Harry no sabia explicar, nem mesmo a si prprio, e no entanto sentia que o facto de Dumbledore lhe ter omitido que tinham 
aquele local e aquelas experincias em comum era comparvel a uma mentira. Fixou o olhar em frente, mal dando por aquilo que se passava  sua volta, e s se apercebeu 
de que Hermione abandonara a pista de dana at ela puxar uma cadeira para se sentar a seu lado.

- J no aguento danar mais - disse ela ofegante, descalando um dos sapatos e esfregando a sola do p. - O Ron foi ver se encontrava mais Cervejas de Manteiga. 
Achei estranho ver agora mesmo o Viktor a afastar-se do pai da Luna, todo enfurecido, pare

138

cia mesmo que tinham estado a discutir. . - Baixou a voz, olhando fixamente para ele - Harry, est tudo bem contigo?

Harry no sabia por onde comear, mas no teve importncia. Nesse momento, uma grande criatura prateada desceu atravs do dossel por cima da pista de dana. Gracioso 
e cintilante, o lince aterrou delicadamente no meio dos danarinos atnitos. Todas as cabeas se viraram, enquanto os convidados mais prximos ficavam paralisados, 
em poses absurdas, a meio da dana. Ento, a boca do Patronus abnu-se o mais que podia, e declarou na voz sonora, profunda e lenta de Kingsley Shacklebolt:

- O Ministrio caiu. O Scringeour morreu. Eles vm a.



139

IX

UM ESCONDERIJO

Tudo lhes parecia lento e indistinto. Harry, Ron e Hermione puseram-se de p num salto e empunharam as varinhas. Muitos convidados s agora se apercebiam de que 
alguma coisa fora do comum acontecera; ainda havia cabeas a virarem-se para o lince prateado no momento em que este ja estava a desaparecer. O silncio foi-se propagando 
em ondas concntricas e geladas a partir do local em que o Patronus aterrara. Foi ento que se ouviu um grito.

Harry e Hermione atiraram-se para o meio da multido em pnico. Os convidados fugiam em todas as direces; muitos estavam a Desaparecer, os encantamentos protectores 
em redor d'A Toca haviam sido quebrados.

- Ron! - chamou-o Hermione. - Onde ests?

 medida que abriam caminho atravs da pista de dana, Harry viu vultos de manto e capuz surgirem por entre a multido; depois avistou Lupin e Tonks, de varinhas 
em punho, e ouviu-os a ambos gritar- "Protego!", um grito que ecoava por todos os lados...

- Ron! Ron' - continuava a chamar Hermione, quase a soluar, enquanto ela e Harry eram empurados por convidados aterrorizados. Harry deu-lhe a mo para ter a certeza 
de que no se separavam e, nesse instante, um raio de luz sibilou por cima das suas cabeas, mas se se tratava de um feitio protector ou de algo mais sinistro, 
ele no sabia dizer...

E foi ento que viram Ron  sua frente. Este agarrou o brao livre de Hermione, e Harry sentiu-a a girar sobre si prpria, a luz e o som desvaneceram-se  medida 
que a escurido se abatia sobre ele; sentia apenas a mo de Hermione, enquanto era comprimido atravs do espao e do tempo, para longe d' A Toca, para longe dos 
Devoradores da Morte que continuavam a chegar, para longe, talvez, do prprio Voldemort..

- Onde  que estamos? - indagou a voz de Ron.

Harry abriu os olhos. Durante um instante, julgou que no tinham abandonado o casamento: parecia-lhe que estavam rodeados de gente.

140

- Na Tottenham Court Road - anunciou Hermione ofegante. - Andem, continuem a andar, temos de descobrir um stio onde possam mudar de roupa

Harry fez o que ela lhe indicava. Seguiram em frente, meio a andar, meio a correr, atravs da rua ampla e escura, apinhada de folies e ladeada por lojas fechadas 
quela hora tardia, as estrelas a cintilar acima das suas cabeas. Um autocarro de dois andares passou por eles a roncar e um grupo de folgazes miraram-nos ao cruzarem-se 
com eles; Harry e Ron continuavam com os mantos

de cerimnia.

- Hermione, ns no temos mais roupa nenhuma para vestir

- disse-lhe Ron, quando uma jovem irrompeu em gargalhadas estrondosas ao deparar-se com ele.

- Mas como  que eu me fui esquecer do Manto da Invisivilidade? - disse Harry, recriminando-se pela sua estupidez.

- No ano passado, andou sempre comigo...

- No faz mal, eu trouxe o Manto e tenho roupas para ambos

- tranquilizou-os Hermione. - S vos peo que se esforcem por agir com naturalidade at... Aqui deve dar.

Conduziu-os para uma rua lateral e em seguida at um beco

sombrio e resguardado.

- Quando dizes que tens o Manto e roupas... - disse Harry, a olhar para Hermione de sobrolho franzido, pois ela trazia apenas a sua pequena malinha de missangas, 
dentro da qual estava

agora a vasculhar.

- Pronto, aqui est - disse Hermione e, para total estupefaco de Harry e Ron, tirou de l um par de calas de ganga, uma sweat-shirt, umas quantas pegas castanhas 
e, por fim, o Manto da Invisibilidade prateado

- Mas como raio  que tu...?

- Feitio de Extenso Indetectvel - declarou Hermione. - No  fcil, mas acho que me sa bem; seja l como for, consegui encafuar aqui dentro tudo o que nos vai 
fazer falta. - Deu um safano  malmha de aspecto frgil e esta ecoou como um poro de carga  medida que uma srie de objectos pesados se reviravam no seu interior 
- Oh, bolas, devem ser os malditos livros - comentou, espreitando para o fundo -, e eu que os tinha empilhado por temas.. Oh, deixa l... Harry,  melhor ficares 
com o Manto da Invisibilidade. Ron, v l se te despachas a mudar de roupa...

- Quando  que fizeste isto tudo? - perguntou-lhe Harry, enquanto Ron se despia.

141

- Eu avisei-vos n' A Toca que tinha tudo quanto era essencial preparado h vrios dias, para o caso de precisarmos de fugir inesperadamente. Esta manh, depois de 
teres mudado de roupa, Harry, enchi a tua mochila e guardei-a aqui dentro... Andava com um pressentimento..

- s fantstica, l isso no h dvida - elogiou-a Ron, entregando-lhe o manto feito numa trouxa.

- Obrigada - disse Hermione, esboando um leve sorriso enquanto o enfiava dentro da mala. - Por favor, Harry, despacha-te a pr o Manto!

Harry atirou o Manto da Invisibilidade por cima dos ombros e puxou-o para cima da cabea, desaparecendo da vista de ambos. S agora comeava a ganhar conscincia 
do que se passara.

- Os outros; as pessoas que estavam no casamento..

- No  altura de nos preocuparmos com isso - murmurou Hermione. -  de ti que eles andam atrs, Harry, e se voltarmos sujeitamos os outros a um risco ainda maior.

- Ela tem razo - concordou Ron, que parecia adivinhar que Harry se preparava para argumentar, mesmo sem lhe poder ver a cara. - A maioria dos membros da Ordem estava 
l, eles tratam dos outros.

Harry assentiu com a cabea, depois lembrou-se de que os amigos no o conseguiam ver e disse: - Pois - Mas foi ento que se lembrou de Ginny e o medo borbulhou-lhe 
como cido no estmago.

- V l, acho que devamos continuar - lembrou Hermione.

Percorreram de novo a ruela at  rua principal, onde se depararam com um grupo de homens a cantar e acenar no passeio oposto.

- S por curiosidade, porqu a Tottenham Court Road? - perguntou Ron a Hermione.

- No fao ideia, foi a primeira coisa que me veio  cabea, mas tenho a certeza de que estamos mais seguros no mundo dos Muggles, porque  o ltimo stio onde eles 
esperariam encontrar-nos.

- L isso  verdade - assentiu Ron, olhando em seu redor -, mas no te sentes um bocadinho... exposta?

- Mas que alternativa nos resta? - inquiriu Hermione, retraindo-se quando os homens do outro lado da rua comearam a assobiar-lhe. - No podemos reservar quartos 
no Caldeiro Escoante, no te parece? E Gnmmauld Place est fora de questo, uma vez que o Snape consegue l entrar... Suponho que podera

142

ms tentar a casa dos meus pais, embora eu esteja convencida de que h uma hiptese de eles l irem verificar... Oh, quem me dera que eles parassem com aquilo!

- Tudo bem, querida? - estava a gritar-lhe o mais embriagado de todos no passeio oposto. - Apetece-te uma bebida? Deixa l o ruivo e vem tomar uma cerveja com a 
gente'

- Vamos arranjar um lugar qualquer onde nos possamos sentar - apressou-se Hermione a sugerir, quando viu que Ron se preparava para gritar qualquer coisa para o outro 
lado da rua. -

Olha, isto serve, entrem!

Era um pequeno caf de aspecto desmazelado que ficava aberto toda a noite. As mesas com tampo de frmica estavam cobertas por uma leve camada de gordura, mas pelo 
menos encontrava-se vazio. Harry foi o primeiro a enfiar-se a um canto, e Ron sentou-se ao seu lado, de frente para Hermione, que, a contragosto, ficou de costas 
voltadas para a entrada: deitava uma olhadela por cima do ombro com tanta frequncia que mais parecia que tinha um tique. Harry no gostava de estar sem nada que 
fazer; a caminhada dera-lhe a iluso de que tinham um objectivo Por baixo do manto, sentia os derradeiros vestgios da Poo Polissuco a abandon-lo, as mos a regressar 
ao seu tamanho e forma habituais. Tirou os culos de dentro do bolso e tornou a coloc-los. Decorridos uns minutos, Ron disse. - Sabem, no estamos muito longe do 
Caldeiro Escoante, fica j ali, em Charing Cross...

- Ron, no pode ser! - retorquiu Hermione sem demora.

- No  para nos hospedarmos l,  s para descobrirmos o

que  que se anda a passar!

- Ns sabemos o que  que se anda a passar! O Voldemort apoderou-se do Ministrio, que mais precisamos ns de saber?

- Pronto, deixa l, foi s uma ideia!

Ttomaram a quedar-se num silncio incmodo.  empregada aproximou-se deles arrastando os ps e a mascar pastilha elstica, e Hermione pediu dois capochinos; visto 
que Harry estava invisvel, teria sido estranho pedir um para ele. Dois operrios corpulentos entraram no caf e espremeram-se na mesa do lado. Hermione baixou a 
voz para um sussurro:

- Eu proponho que encontremos um lugar sossegado para podermos Desaparecer, e que vamos para o campo. Quando l chegarmos, podemos enviar uma mensagem  Ordem.

- E sabes fazer aquela coisa de pr o Patronus a falar? -

inquiriu Ron.

143

- Tenho andado a treinar e estou convencida de que sim - respondeu-lhe Hermione.

- bem, desde que no os v meter em sarilhos, isto se no tiverem sido presos entretanto. Que horror, at mete nojo - acrescentou Ron, depois de dar um gole no caf 
espumoso e acinzentado. A empregada ouviu-o; lanou a Ron um olhar ameaador e, sempre a arrastar os ps, foi atender os outros clientes O mais robusto dos dois 
operrios, que era louro e bem avantajado, agora que Harry reparava nele, fez-lhe sinal para que se fosse embora. A empregada encarou-o, ofendida.

- Vamos andando que eu no quero beber esta porcaria - sugeriu Ron. - Hermione, tens dinheiro Muggle para pagar a conta?

- Tenho, antes de ir para A Toca levantei todo o que tinha na conta poupana-habitao. At aposto que os trocos esto todos no fundo - suspirou ela, estendendo 
a mo para a mala de nussangas.

Os dois operrios fizeram gestos idnticos, e Harry imitou-os instintivamente: todos trs empunharam as varinhas. Ron, que s se apercebeu do que se estava a passar 
uns segundos mais tarde, debruou-se sobre a mesa, empurrando Hermione para o lado e obrigando-a a deitar-se no banco. A fora dos feitios dos Devoradores da Morte 
despedaou a parede de azulejos onde momentos antes estivera a cabea de Ron, enquanto Harry, ainda invisvel, gritava: -Atordoar!

O Devorador da Morte louro e avantajado foi atingido na cara por um jacto de luz vermelha e tombou para um dos lados, inconsciente. O companheiro, incapaz de ver 
quem lanara o feitio, disparou outro contra Ron: cordas pretas e brilhantes voaram-lhe da ponta da varinha e envolveram Ron dos ps  cabea (a empregada desatou 
aos gritos e correu para a porta), Harry lanou outro Feitio de Atordoar contra o Devorador da Morte de feies retorcidas que amarrara Ron, mas falhou o alvo, 
fazendo ricochete na janela e atingindo a empregada, que desfaleceu diante da porta.

- Expulso! - bradou o Devorador da Morte, e a mesa  qual Harry estava sentado explodiu; a fora do rebentamento arremessou-o contra a parede, e Harry sentiu a varinha 
a escorregar-lhe da mo, enquanto o Manto lhe deslizava do corpo.

- Petnficus Totalus! - guinchou Hermione, que estava escondida, e o Devorador da Morte tombou para a frente como uma esttua, aterrando com um estrondo torturante 
em cima de uma confuso de loua partida, uma mesa desfeita e caf entornado.

144

Hermione rastejou de debaixo do banco, sacudindo o cabelo para se libertar dos cacos de loua, a tremer por todos os lados.

- D-Diffindo - disse ela, apontando a varinha a Ron, que berrou de dor quando ela lhe fez um rasgo nas calas de ganga,  altura dos joelhos, deixando-lhe um golpe 
profundo. - Oh, desculpa, Ron, tenho a mo a tremer! Diffindo!

As cordas cortadas caram no cho. Ron levantou-se, sacudindo os braos para os desentorpecer. Harry pegou na varinha e trepou por cima dos escombros at onde o 
Devorador da Morte louro estava escarrapachado em cima de um banco.

- Eu devia t-lo reconhecido, ele esteve l na noite em que o Dumbledore morreu - afirmou ele. Virou o Devorador da Morte mais moreno com o p; os olhos do homem 
alternaram rapidamente entre Harry, Ron e Hermione.

-  o Dolohov - constatou Ron. - Reconheo-o dos antigos cartazes em que ele aparecia quando andava a ser procurado. Acho que o grandalho  o Thorfmn Rowle.

- Quero l saber os nomes deles! - protestou Hermione num ttom de voz ligeiramente histrico. - Como  que eles nos descobriram? O que  que havemos de fazer agora?

Sem saber explicar o motivo, o pnico pareceu ajudar Harry a

clarear as ideias.

- Tranca a porta - disse-lhe -, e tu, Ron, apaga as luzes. Baixou os olhos para Dolohov, paralisado, a pensar o mais

depressa que conseguia, enquanto a fechadura dava um estalido e Ron se servia do Apagador para fazer o caf mergulhar na escurido. Harry ouvia agora ao longe os 
homens que havia pouco se tinham metido com Hermione a assobiarem a outra rapariga

que ia a passar.

- O que  que lhes vamos fazer' - sussurrou-lhe Ron na escurido; depois, ainda mais baixo: - Mat-los? Se pudessem, seria o que eles nos teriam feito a ns. Acabaram 
agora mesmo de

dar mostras disso.

Hermione arrepiou-se e recuou um passo. Harry abanou a cabea.

- S precisamos de lhes apagar a memria - decidiu ele. - E melhor assim, porque vai despist-los. Se os matssemos, ficariam com a certeza de que tnhamos estado 
aqui.

- Quem manda s tu - disse Ron, com um ar de enorme alvio. - Mas eu nunca lancei um Encantamento de Memria.

- Nem eu, to-pouco - acrescentou Hermione -, mas sei como  que se faz.

145

Respirou profunda e tranquilamente, em seguida apontou a varinha  testa de Dolohov e disse: - Obhviate.

De imediato, os olhos de Dolohov ficaram desfocados e sonhadores.

- Espectacular! - exclamou Harry, dando-lhe palmadmhas nas costas. - Encarrega-te do outro e da empregada, enquanto eu e o Ron arrumamos isto aqui.

- Arrumar isto aqui? - admirou-se Ron, varrendo com o olhar o caf parcialmente destrudo. - Para qu?

- No achas que, se eles acordarem e derem por si num stio que parece que acabou de ser alvo de um bombardeamento, so capaz de se perguntar o que ter acontecido?

- Oh, pois, tens razo...

Ron debateu-se por uns instantes antes de conseguir puxar a varinha do bolso.

- No admira que me custe a tir-la, Hermione: tu trouxeste as minhas calas de ganga velhas, que j me esto apertadas.

- Oh, desculpa l o incmodo - sibilou Hermione e, enquanto arrastava a empregada para longe das janelas, Harry ouviu-a a murmurar uma sugesto acerca do stio onde 
Ron podia enfiar a varinha.

Logo que o caf retomou a sua aparncia inicial, ttomaram a iar os Devoradores da Morte para o respectivo banco e sentaram-nos de frente um para o outro.

- Mas como  que eles nos conseguiram encontrar? - insistiu Hermione, olhando de um homem para o outro. - Como  que eles descobriram onde ns estvamos?

Virou-se para Harry.

- Tu... tu achas que ainda podes ter o Detector activo, Harry?

- No  possvel - declarou Ron. - O Detector  desactivado quando fazemos dezassete anos,  a lei dos feiticeiros, no se pode coloc-lo num adulto.

- Ao que eu sei, assim , de facto - anuiu Hermione. - E se os Devoradores da Morte arranjaram maneira de o aplicarem numa pessoa com dezassete anos?

- Mas o Harry no se aproximou de nenhum Devorador da Morte nas ltimas vinte e quatro horas. Quem  que lhe poderia ter aplicado novamente o Detector?

Hermione no lhe respondeu Harry sentiu-se contaminado, infectado: teria sido ento assim que os Devoradores da Morte tinham descoberto o seu paradeiro?

146

Se eu no puder recorrer  magia, nem vocs puderem

recorrer  magia ao p de mim, sem denunciarmos a nossa localizao... - comeou ele

- Ns no nos vamos separar! - declarou Hermione com

firmeza.

- Precisamos de encontrar um esconderijo seguro - sugeriu Roon - Para termos tempo de decidir o que havemos de fazer

daqui em diante.

- Grimmauld Place - aventou Harry. Os outros dois ficaram boquiabertos.

- No sejas disparatado, Harry, o Snape consegue l entrar!

- O pai do Ron disse que lanaram feitios contra ele... E ainda que eles no funcionem - insistiu Harry, vendo que Hermione se preparava para argumentar -, e depois? 
Juro, nada me daria mais satisfao do que encarar o Snape!

- Mas...

- Hermione, que outra alternativa nos resta? E a melhor que temos. O Snape  apenas um Devorador da Morte. Se  mesmo verdade que eu ainda tenho o Detector, vamos 
ter centenas deles  nossa volta para onde quer que vamos.

Hermione no tinha argumentos contra ele, embora a sua expresso indiciasse que bem lhe agradaria o contrrio Enquanto ela destrancava a porta do caf, Ron carregou 
no Apagador para ttomar a acender as luzes. Depois, quando Harry acabou de contar at trs, inverteram os feitios lanados sobre as trs vtimas e, mal a empregada 
e os Devoradores da Morte se comearam a remexer nas cadeiras, sonolentos, j Harry, Ron e Hermione tinham girado e ttomado a Desaparecer na escurido que os comprimia

Instantes decorridos, os pulmes de Harry expandiram-se de alvio e ele abriu os olhos: achavam-se agora no meio de uma praa imunda que lhes era familiar. Prdios 
altos e em mau estado rodeavam-nos de todos os lados. Conseguiram identificar o nmero doze, porque Dumbledore, o Guardador Secreto do local, os avisara da sua existncia, 
e precipitaram-se na sua direco, certificando-se a cada meia dzia de passos de que no estavam a ser perseguidos nem vigiados. Subiram a correr os degraus de 
pedra, e Harry bateu  porta da rua com a varinha. Ouviram uma srie de estalidos metlicos e uma corrente a ressoar, em seguida, com um rangido, a porta abriu-se 
de par em par e eles entraram de rompante.

147

Logo que Harry fechou a porta atrs de si, os antiquados candeeiros a gs ganharam vida, projectando uma luz trmula por todo o hall de entrada. A casa estava tal 
e qual como Harry se lembrava: sinistra, repleta de teias de aranha, os contornos das cabeas dos elfos domsticos na parede a lanar estranhas sombras pela escada 
acima. Longas cortinas escuras ocultavam o retrato da me de Sirius. A nica coisa que se achava fora do stio era o bengaleiro talhado a partir de uma perna de 
troll, que estava deitado de lado, como se Tonks tivesse acabado de tropear nele.

- Tenho a impresso de que esteve algum aqui - sussurrou Hermione, apontando para o bengaleiro.

- Isso pode ter acontecido quando os membros da Ordem se foram embora - sussurrou-lhe Ron em resposta.

- Ento, onde  que esto os feitios que eles instalaram contra o Snape? - perguntou Harry.

- Talvez s sejam activados se ele aparecer - sugeriu Ron. Ainda assim, mantiveram-se muito juntos no tapete da entrada,

de costas voltadas para a porta, com medo de se embrenharem no interior da casa.

- bem, no podemos ficar aqui eternamente - decidiu Harry, dando um passo em frente.

- Severus Snape?

A voz de Moody Olho-Louco sussurrou, vinda da escurido, pregando-lhes um susto que os fez recuar dum salto. - Ns no somos o Snape! - grasnou Harry, antes de sentir 
algo a percorr-lo como uma corrente de ar frio e de a sua lngua se enrolar sobre si prpria, impedindo-o de falar. Antes de ter tempo sequer para levar a mo  
boca, porm, a lngua tornou a desenrolar-se.

Os outros dois pareciam ter passado pela mesma experincia desagradvel. Ron emitia sons como se vomitasse; Hermione balbuciou: - D-deve... t-ter s-sido a Maldio 
da Lngua Atada que o Olho-Louco lanou contra o Snape!

com toda a cautela, Harry deu novo passo em diante. Alguma coisa se mexeu nas sombras ao fundo do corredor; contudo, antes de qualquer deles ter tempo de dizer fosse 
o que fosse, j um vulto se elevara do tapete, alto, poeirento e temvel: Hermione guinchou e o mesmo fez Mrs. Black, quando as cortinas se abriram de repente; o 
vulto acinzentado vinha a deslizar ao encontro deles, cada vez mais depressa, o cabelo que lhe chegava  cintura e a barba a flutuar, o rosto encovado, com as rbitas 
esvaziadas: estra

148

nhamente familiar, terrivelmente transfigurado, ergueu um brao definhado, apontando-o a Harry.

- No! - gritou este e, apesar de ter empunhado a varinha, nenhum feitio lhe ocorreu. - No! No fomos ns! Ns no o

matmos...

Ao ouvir a palavra "matmos", o vulto explodiu numa enorme nuvem de poeira; a tossir, com os olhos lacrimejantes, Harry olhou em seu redor e deparou-se com Hermione 
agachada no cho ao p da porta, com os braos em volta da cabea, e Ron, que tremia todo que nem varas verdes, a dar-lhe palmadinhas desajeitadas no ombro, enquanto 
dizia: - Es-est tu-tudo bem... J-j se foi em-embora!

O p rodopiava em volta de Harry como um nevoeiro, ofuscando a luz azulada dos candeeiros, enquanto Mrs. Black continuava aos gritos:

- Sangues de Lama, ndoas de desonra, mculas de vergonha na

casa dos meus pais..,

- CALE-SE! - berrou-lhe Harry, apontando-lhe a varinha, e, com uni estrondo e uma exploso de fascas vermelhas, as cortinas ttomaram a fechar-se, remetendo-a novamente 
ao silncio.

- Aquilo... aquilo era... - lamuriou-se Hermione,  medida que Ron a ajudava a levantar-se.

- Pois era - confirmou Harry -, mas no era mesmo ele, pois no? S uma imitao para assustar o Snape.

Teria resultado, perguntou-se Harry, ou teria Snape j feito explodir o vulto medonho com a mesma facilidade com que matara o verdadeiro Dumbledore? com os nervos 
ainda  flor da pele, conduziu os amigos ao longo do corredor, sempre  espera de se deparar com novo horror, mas nada se mexeu  excepo de um rato que passou 
a correr, encostado ao rodap.

- Antes de continuarmos a avanar, acho que  melhor fazermos uma inspeco - sussurrou Hermione, empunhando a varinha e declarando: - Homenum revelio.

Tudo ficou tal como estava.

- bem, tu acabaste de apanhar um grande susto - disse Ron em ttom de condescendncia. - Qual foi o propsito disso?

- Fez exactamente o que se pretendia! - retorquiu Hermione levemente agastada. - Era um feitio destinado a revelar a presena de seres humanos, e no h aqui ningum 
para alm de

ns trs!

- E do velho Poeirento - acrescentou Ron, olhando de relance para o stio do tapete de onde o vulto cadavrico acabara de surgir.

149

- Vamos l para cima - sugeriu Hermione, deitando uma olhadela assustada ao mesmo stio, liderando o caminho pelos degraus a ranger sob os seus ps at  sala de 
estar do primeiro piso

Hermione acenou com a varinha para acender os velhos candeeiros a gs, depois, com um leve arrepio de frio provocado pela corrente de ar, foi empoleirar-se no sof, 
com os braos firmemente enroscados  volta do corpo. Ron abeirou-se da janela e afastou ligeiramente um dos pesados cortinados de veludo.

- No vejo ningum l fora - informou ele. - E, caso o Harry ainda tenha o Detector, seria de esperar que eles nos tivessem seguido at aqui. Eu sei que eles no 
podem entrar dentro de casa, mas... O que  que se passa, Harry?

Harry acabara de soltar um gemido de dor: sentira a cicatriz a arder-lhe mais uma vez, enquanto algo lhe atravessava a mente, como uma luz brilhante a incidir na 
gua. Viu uma grande sombra e sentiu uma fria que no era sua a vibrar-lhe por todo o corpo, violenta e repentina como um choque elctrico.

- O que foi que viste? - interrogo-o Ron, aproximando-se dele. - Viste-o em minha casa?

- No, senti apenas raiva... Ele est mesmo zangado...

- Mas isso pode ter sido n' A Toca - disse Ron alto e bem som. - E que mais? No viste nada? Ele estava a amaldioar algum?

- No, s senti raiva... No percebi...

Harry estava atormentado, confuso, e Hermione no contribuiu em nada para o acalmar quando disse, em voz assustada:

- Outra vez a tua cicatriz? Mas afinal o que  que se passa? Eu julguei que essa ligao j tivesse sido cortada!

- E foi, durante algum tempo - murmurou Harry; a cicatriz ainda lhe doa, o que lhe dificultava a concentrao. - Eu... eu acho que se abre outra vez sempre que 
ele perde o controlo; era assim que costumava ser..

- Mas nesse caso, tens de fechar a tua mente! - instou-o Hermione em ttom estridente. - Harry, o Dumbledore no queria que tu usasses essa ligao, queria que tu 
a fechasses, era para isso que devias usar a Oclumancia! Seno, o Voldemort  capaz de implantar falsas imagens na tua mente, no te esqueas...

- Pois, eu no me esqueo, est descansada - assegurou-lhe Harry por entre os dentes cerrados; no precisava de que Hermione lhe recordasse que Voldemort j em tempos 
recorrera quela mesma ligao para o conduzir a uma armadilha, da qual resultara

150

a morte de Sirius. Arrependeu-se de lhes ter confidenciado o que acabara de ver e sentir; isso ttomava Voldemort ainda mais ameaador, como se estivesse nesse momento 
l fora, comprimido contra o vidro da janela da sala, e a dor na cicatriz continuava a atorment-lo cada vez mais, e ele sempre a resistir-lhe: era como resistir 
 nsia de vomitar.

Voltou costas a Ron e Hermione, a fingir que examinava a velha tapearia com a rvore genealgica da famlia Black pendurada na parede. Foi ento que Hermione soltou 
um guincho: Harry desembainhou a varinha e deu uma meia volta repentina, deparando-se com um Patronus prateado a flutuar atravs da janela da sala de estar e a aterrar 
no cho diante deles, onde solidificou em forma duma doninha que falou com a voz do pai de Ron.

- Famlia em segurana, no respondam, estamos a ser vigiados. O Patronus dissolveu-se. Ron emitiu um rudo algures entre

um gemido e um resmungo e deixou-se cair no sof; Hermione juntou-se a ele, agarrando-se ao seu brao.

- Eles esto bem, eles esto bem! - sussurrou ela, e Ron ensaiou uma gargalhada dbil e abraou-a.

- Harry - disse ele por cima do ombro de Hermione -, eu...

- No tem importncia - apressou-se este a dizer, agoniado de tantas dores na testa. - Trata-se da tua famlia,  natural que estejas preocupado. No teu lugar, eu 
sentiria o mesmo - Pensou em Ginny. - Eu sinto o mesmo.

A cicatriz doa-lhe como nunca, sentia-a a arder com a mesma intensidade que sentira no jardim d' A Toca. Debilmente, ouviu Hermione a sugerir: - Eu tenho medo de 
ficar sozinha. No podamos dormir nos sacos-cama que eu trouxe e acampar aqui

esta noite?

Ouviu Ron a concordar. No conseguiria resistir  dor por

muito mais tempo; tinha de lhe ceder.

- vou  casa de banho - balbuciou, saindo da sala to depressa quanto podia sem desatar a correr.

Foi por um triz: trancando a porta com as mos trmulas, agarrou-se  cabea a latejar e tombou no cho e depois, numa exploso de agonia, sentiu a raiva que no 
lhe pertencia a apoderar-se-lhe da alma, viu uma sala muito comprida, iluminada apenas por uma lareira acesa, e o Devorador da Morte louro e robusto no cho, por 
entre gritos e contores, e um vulto mais delgado sobranceiro a ele, de varinha empunhada, enquanto Harry dizia numa voz sonora, fria e impiedosa.

151

 - Mais, Rowle, ou queres que eu d a nossa conversa por terminada e te sirva ao jantar da Naginy? Lord Voldemort no tem a certeza de que desta vez te v perdoar... 
Foi para isto que me chamaste, para me informares que o Harry Potter conseguiu escapar outra vez? Draco, d ao Rowle outra amostra do nosso desagrado... J, ou sentirs 
a fora da minha ira abater-se sobre ti!

Um toro caiu na lareira: as labaredas elevaram-se, a luminosidade incidiu sobre um rosto afilado, lvido de terror... com a sensao de estar a emergir de guas 
profundas, Harry sorveu vrias golfadas de ar e abriu os olhos.

Achava-se estendido de braos e pernas abertos no pavimento frio de mrmore preto, o nariz a curta distncia dos ps em forma de caudas de serpente de prata que 
sustinham a enorme banheira. Sentou-se no cho. A cara macilenta e petrificada de Malfoy parecia ter-lhe ficado marcada a ferros no interior das pupilas. Harry sentiu-se 
nauseado com a cena a que acabara de assistir, com a forma como Draco estava a ser usado por Voldemort.

Ouviu uma pancada brusca na porta, e a voz de Hermione sobressaltou-o.

- Harry, queres a tua escova de dentes? Tenho-a aqui comigo.

- Sim, claro, obrigado - respondeu ele, esforando-se por dar  voz um ttom de naturalidade, enquanto se punha de p para lhe abrir a porta.

X

A HISTRIA DE KREACHER

152

Na manh seguinte, Harry acordou cedo, enroscado no saco-cama no cho da sala de estar. Via uma rstia do cu por entre as cortinas: o cu estava sereno, de uma 
tonalidade azul-plida, como tinta diluda, algures entre a noite e a alvorada, e o silncio reinante s era interrompido pela respirao lenta e profunda de Ron 
e Hermione. Harry olhou de relance para as sombras escuras que os corpos de ambos projectavam a seu lado no cho. Ron fora dominado por um acesso de gentileza e 
fizera questo de que Hermione dormisse em cima das almofadas do sof, de modo que a sua silhueta se achava sobrceira  dele, com o brao curvado no cho, os dedos 
quase a tocar nos de Ron. Harry perguntou-se se no teriam adormecido de mos dadas. A ideia provocou-lhe uma estranha sensao de solido

Ergueu os olhos para o tecto sombrio, onde se via o candelabro cheio de teias de aranha. Havia menos de vinte quatro horas, estivera ao sol,  entrada da tenda, 
 espera dos convidados do casamento para lhes indicar os respectivos lugares. Parecia-lhe que fora numa outra vida O que os esperaria dali em diante' Deixou-se 
ficar deitado no cho, a pensar nos Horcruxes, na difcil e arrojada misso de que Dumbledore o encarregara... Dumbledore...

O desgosto que se apoderara dele no seguimento da morte de Dumbledore era agora diferente. As acusaes que ouvira da boca de Muriel no casamento pareciam ter-se 
aninhado no seu crebro como coisas peonhentas, contaminando as recordaes que guardava do seu idolatrado feiticeiro. Seria possvel que Dumbledore tivesse permitido 
semelhante coisa? Teria ele sido como Dudley, indiferente  negligncia e aos maus tratos desde que estes no o afectassem directamente? Teria ele virado as costas 
a uma irm que vivia aprisionada e escondida de todos?

Harry pensou em GodricsHollow, nas sepulturas que Dumbledore nunca lhe mencionara; pensou nos misteriosos objectos que, sem qualquer explicao, Dumbledore lhes 
deixara em testamento, e sentiu o seu ressentimento crescer na escurido. Por que

153

motivo lhe teria Dumbledore omitido tudo aquilo? Por que razo no lhe dera qualquer explicao? Teria Dumbledore de facto nutrido alguma espcie de afecto por ele? 
Ou seria possvel que Harry no tivesse passado de um instrumento destinado a ser polido e afiado, mas que no era digno da sua confiana, da sua sinceridade?

Harry no suportava continuar ali deitado com aqueles amargos pensamentos por nica companhia. Ansioso por algo que fazer, por alguma coisa que o distrasse, saiu 
do saco-cama sem fazer barulho, pegou na varinha e esgueirou-se da sala. Chegado ao patamar, sussurrou: "Lumos" e comeou a subir as escadas  luz da varinha.

No patamar do segundo piso, havia um quarto onde ele e Ron tinham dormido da ltima vez que ali tinham estado; deitou uma olhadela ao seu interior. As portas do 
guarda-fato achavam-se abertas e a roupa da cama estava toda puxada para trs. Lembrou-se da perna de troll derrubada no hall de entrada. Algum andara a revistar 
a casa desde que a Ordem a abandonara. Teria sido Snape? Ou talvez Mundungus, que tanta coisa surripiara daquela casa quer antes, quer depois da morte de Sirius? 
O olhar de Harry vagueou para o retrato que por vezes continha Phineas Nigellus Black, o trisav de Sirius, mas encontrou-o vazio, mostrando apenas um fundo lamacento. 
Era bvio que Phineas Nigellus fora passar a noite ao gabinete do Director, em Hogwarts.

Harry continuou escada acima, at chegar ao ltimo patamar, onde havia apenas duas portas. A que tinha diante de si exibia uma placa onde se lia Sirius. Harry nunca 
entrara no quarto do padrinho. Empurrou a porta, segurando a varinha ao alto para desfrutar da melhor iluminao possvel.

O quarto era espaoso e devia, em tempos que j l iam, ter sido elegante. Via-se uma grande cama com uma cabeceira em madeira trabalhada, uma janela alta, obscurecida 
por cortinados de veludo que chegavam ao cho e um candelabro revestido por uma espessa camada de p, com os cotos das velas ainda nos respectivos suportes, a cera 
slida dependurada em gotas a fazer lembrar gelo. Uma fina pelcula de poeira cobria os retratos nas paredes e a cabeceira da cama; uma teia de aranha estendia-se 
entre o candelabro e o alto do enorme guarda-roupa de madeira e,  medida que Harry ia avanando, chegou-lhe aos ouvidos o rudo de ratos numa correria agitada

Em adolescente, Sirius tinha afixado tantos cartazes e fotografias nas paredes que muito pouco da seda azul-prateada que a revestia

154

era visvel. Harry viu-se forado a concluir que os pais de Sirius no tinham sido capazes de desfazer o Encantamento de Fixao Permanente graas ao qual continuavam 
colados nas paredes, j que estava convencido de que no teriam apreciado o gosto do filho mais velho em matria de decorao. Sirius parecia ter feito tudo ao seu 
alcance para aborrecer os pais. Viam-se vrias bandeiras dos GryfFindor, em escarlate e dourado desbotado, apenas para sublinhar a sua diferena relativamente ao 
resto da famlia. Havia muitas fotografias de motas de Muggles, para alm de (e Harry no pde deixar de admirar o desplante de Sirius) vrios cartazes de raparigas 
Muggle em biquini. Harry percebeu que eram Muggles, porque se mantinham imveis nas respectivas fotografias, os sorrisos deslavados e os olhos vidrados petrificados 
no papel. E isto fazia um ntido contraste com a nica fotografia de feiticeiros pendurada na parede, que retratava quatro alunos de Hogwarts de brao dado uns aos 
outros, a rirem-se para a objectiva.

com um pulo de alegria, Harry reconheceu o pai; o seu cabelo preto despenteado espetava-se na nuca como o de Harry, e tambm usava culos. A seu lado encontrava-se 
Sirius, bem-parecido e a atirar para o desmazelado, a sua expresso levemente arrogante muito mais jovem e feliz que Harry alguma vez a vira em vida.  direita de 
Sirius, achava-se Pettigrew, bastante mais baixo, anafado e de olhos lacrimosos, ruborizado de satisfao por ter sido includo no mais bem cotado dos grupos, com 
os admiradssimos rebeldes James e Sirius.  esquerda de James, via-se Lupin, j nessa poca com um aspecto um tanto ou quanto andrajoso, mas com o mesmo ar de surpresa 
por se ver apreciado e includo .. Ou seria simplesmente porque Harry sabia como as coisas tinham sido que as depreendia da fotografia? Tentou arranc-la da parede; 
afinal de contas, agora pertencia-lhe - Sirius deixara-lhe todos os seus bens -, mas foi-lhe impossvel Sirius no deixara nada ao acaso para prevenir que os pais 
lhe redecorassem o quarto.

Harry varreu o soalho com os olhos. L fora, o cu comeava a clarear: um raio de luz revelou pedaos de papel, livros e pequenos objectos espalhados pelo tapete. 
Era bvio que o quarto de Sirius tambm fora revistado, embora a maior parte do seu contedo, se no mesmo a totalidade, parecesse ter sido considerada intil. Alguns 
dos livros haviam sido maltratados ao ponto de se separarem das capas, e viam-se diversas pginas dispersas pelo cho.

155

Harry baixou-se, pegou nuns quantos pedaos de papel e examinou-os. Reconheceu um deles como fazendo parte de uma velha edio de Uma Histria da Magia, de Bathilda 
Bagshot, e outro de um manual de manuteno de motas. O terceiro estava escrito  mo e amarrotado; Harry ahsou-o.

Caro Padfoot,

Obrigada, muito obrigada, pelo presente de aniversrio do Harry! Foi de longe o preferido dele. Apenas com um ano de idade e j a voar numa vassoura de brinquedo, 
nem podes imaginar o ar de satisfao dele (junto uma fotografia para que possas ver com os teus prprios olhos). Tu sabes que ela s se eleva uns centmetros do 
cho, mas ele ia matando o gato e deu cabo daquela jarra horrvel que a Petunia me ofereceu pelo Natal (quanto a isso, no tenho reclamaes a apresentar). Como 
no podia deixar de ser, o James achou-lhe imensa graa, j anda a dizer que ele vai ser um excelente jogador de Quidditch, mas eu tive de guardar todos os bibels 
e j sei que temos de o ter sempre debaixo de olho quando ele estiver montado na vassoura

Tivemos um ch de aniversrio muito tranquilo, s ns e a velha Bathilda, que sempre se mostrou amvel para connosco e que  simplesmente babada pelo Harry. Lamentamos 
imenso que no tivesses podido vir, mas a Ordem tem sempre de vir em primeiro lugar e, seja como for, o Harry ainda no tem idade para saber que era o aniversrio 
dele! O James anda um pouco saturado de passar os dias aqui fechado, ele tenta disfarar, mas eu bem vejo.. E, ainda por cima, o Dumbledore ainda no lhe devolveu 
o Manto da Invisibilidade e, como tal, as pequenas expedies esto postas de parte. Se nos pudesses fazer uma visita, ele ficaria seguramente muito mais animado. 
O Wormy esteve c na semana passada, pareceu-me um pouco abatido, mas devia ser por causa das notcias sobre os McKmnon; quando soube, eu prpria passei o sero 
inteiro a chorar.

A Bathilda passa c por casa quase todos os dias,  uma senhora fascinante, com histrias surpreendentes para contar a respeito do Dumbledore; no sei  se ele ficaria 
muito satisfeito se lhe chegassem aos ouvidos! No sei at que ponto lhes devo dar crdito, porque me parece inacreditvel que o Dumbledore. .

Harry sentia as mos entorpecidas. Deixou-se ficar muito quieto, a segurar o papel milagroso entre os dedos sem foras, enquanto, no seu mago, uma espcie de erupo 
silenciosa fazia que a alegria e a mgoa se libertassem em igual medida atravs das suas veias.

156

Tornou a ler a carta, mas no lhe conseguiu arrancar mais nenhum significado para alm do que depreendera da primeira leitura, e viu-se reduzido a contemplar a caligrafia. 
Ela desenhava os "gus" da mesma maneira que ele: passou os olhos pela carta  procura de todos, e cada um deles se lhe afigurou como uma pequena onda amigvel que 
vislumbrava por detrs de um vu. A carta era um tesouro incalculvel, a prova de que Lily Potter existira, existira verdadeiramente, e de que a sua mo calorosa 
deslizara ao longo daquele pergaminho, traando com tinta aquelas letras, aquelas palavras, palavras que lhe diziam respeito a ele, Harry, seu filho.

Limpando com impacincia as lgrimas que lhe teimavam em assomar aos olhos, leu novamente a carta, desta feita concentrando-se no significado. Era como ouvir uma 
voz da qual guardava uma vaga lembrana.

Tinham tido um gato... talvez tivesse morrido, como os pais, em Godrics Hollow... ou ento fugido quando deixara de haver quem lhe desse de comer... Sirius comprara-lhe 
a sua primeira vassoura... os pais tinham conhecido Bathilda Bagshot; teria sido Dumbledore a apresent-los? O Dumbledore ainda no lhe devolveu o Manto da Invisibihdade... 
havia ali qualquer coisa que no batia certo.

Harry fez uma pausa, ponderando nas palavras da me. Por que motivo teria Dumbledore tirado o Manto da Invisibihdade a James? Harry lembrava-se nitidamente de ouvir 
o Director dizer, anos atrs: "Eu no preciso de um manto para ficar invisvel " Talvez algum membro menos dotado da Ordem tivesse precisado da ajuda do Manto, e 
Dumbledore tivesse servido de intermedirio? Harry passou adiante.

O Wormy esteva c... Pettigrew, o traidor, mostrara-se "abatido", no fora? Teria ele conscincia de que seria a ltima vez que veria James e Lily com vida?

E, a finalizar, de novo Bathilda, que contou histrias surpreendentes acerca de Dumbledore: parece inacreditvel que o Dumbledore. ..

Que Dumbledore o qu? Mas a verdade  que havia um sem-nmero de coisas que pareciam inacreditveis a respeito de Dumbledore: que em tempos obtivera a classificao 
mais baixa num teste de Transfigurao, por exemplo, ou que se dedicara a enfeitiar cabras,  semelhana de Aberforth.

Harry levantou-se e passou os olhos pelo soalho: talvez o resto da carta andasse por ali algures. Apanhou os papis, manuseando-os,

157

na sua nsia, com tanta falta de considerao como quem os revistara anteriormente; abriu gavetas, sacudiu hvros, empoleirou-se em cima de uma cadeira para percorrer 
com a mo o cimo do guarda-roupa e rastejou para debaixo da cama e da poltrona.

Por fim, deitado de cara no cho, reparou no que lhe pareceu ser um bocado de papel rasgado debaixo da cmoda. Quando estendeu a mo para o apanhar, verificou tratar-se 
de um grande pedao da fotografia que Lily descrevera na carta. Um beb de cabelo preto andava a voar para dentro e para fora da fotografia, montado numa vassoura 
minscula, enquanto se na a bandeiras despregadas e se viam umas pernas, que deviam pertencer a James, a correr atrs dele. Harry enfiou a fotografia dentro do bolso 
juntamente com a carta de Lily e continuou  procura da segunda folha

Ao fim de mais um quarto de hora, todavia, foi forado a concluir que o resto da carta da me desaparecera. Ter-se-ia dado o caso de simplesmente se ter perdido 
no decorrer dos dezasseis anos desde que fora escrita, ou teria sido levada por quem quer que andara a revistar o quarto? Harry tornou a ler a primeira folha, desta 
feita  procura de pistas para o que poderia ter ttomado a segunda folha um objecto valioso. A sua vassoura de brincar dificilmente poderia ter algum interesse para 
os Devoradores da Morte... a nica coisa potencialmente til que via ali eram as eventuais informaes a propsito de Dumbledore. Parece inacreditvel que o Dumbledore... 
o qu?

- Harry! Harry! Harry!

- Estou aqui! - respondeu ele. - O que  que se passa? Ouviu-se um enorme tropel do lado de fora da porta, e Hermione entrou de rompante.

- Ns acordmos e no sabamos de ti! - disse ela ofegante. Virou-se e gritou por cima do ombro. - Ron! Encontrei-o!

A voz irritada de Ron ecoou  distncia, vrios pisos mais abaixo. - Diz-lhe que eu mando dizer que ele  uma noja!

- Harry, por favor, no andes para a a desaparecer, pregaste-nos um valente susto! Mas, afinal, o que  que vieste aqui fazer acima? - Olhou em redor do quarto 
revistado. - O que  que andaste a fazer?

- Olha o que eu encontrei.

Estendeu-lhe a carta da me. Hermione pegou nela e leu-a enquanto Harry a observava. Quando chegou ao fim da pgina, Hermione ergueu os olhos para ele.

158

- Oh, Harry...

- E h ainda isto.

Entregou-lhe a fotografia rasgada, e Hermione sorriu ao beb montado na vassoura de brincar a voar para dentro e para fora do retrato.

- Tenho andado  procura do resto da carta - explicou-lhe Harry -, mas no est aqui.

Hermione deitou uma olhadela em seu redor.

- Foste tu que armaste esta barafunda toda, ou o quarto j estava assim quando aqui chegaste?

- Andou aqui algum a revistar antes de mim - esclareceu Harry.

- Bem me parecia. Todos os quartos para onde olhei quando vinha para aqui tinham sido remexidos. Do que andariam eles  procura, fazes ideia?

- Informaes relativas  Ordem, caso tenha sido o Snape.

- Mas seramos levados a pensar que ele j devia ter todas as informaes de que precisava.. Quero dizer, afinal de contas, ele pertencia  Ordem, no era?

- bem, nesse caso - disse Harry, ansioso por debater a sua teoria -, ento e que tal se fossem informaes acerca do Dumbledore? A segunda pgina desta carta, por 
exemplo. Conheces esta Bathilda que a minha me menciona, sabes de quem se trata?

- Quem?

- A Bathilda Bagshot, a autora de...

- Uma Histria da Magia - completou Hermione, com ar interessado. - Ento os teus pais conheciam-na? Era uma grande especialista em histria da magia.

- E ainda  viva - adiantou Harry -, e mora em Godrics Hollow, segundo ouvi a tia do Ron, a Muriel, comentar no casamento Ela tambm conhecia a famlia do Dumbledore. 
Devia ser bem interessante termos uma conversa com ela, no achas?

Havia um bocadinho de compreenso a mais para o gosto de Harry no sorriso que Hermione lhe rasgou. Tirou-lhe a carta e a fotografia da me e guardou-as dentro da 
bolsa que trazia pendurada ao pescoo, s para no ser obrigado a olhar para ela e denunciar o que lhe ia na alma.

- Eu compreendo por que  que ests to ansioso por conversar com ela a respeito dos teus pais, e do Dumbledore tambm - afirmou Hermione - Mas isso no nos iria 
dar uma grande ajuda na caa aos Horcruxes, pois no? - Ao ver que Harry no

159

lhe respondia, prosseguiu: - Harry, eu sei que tu queres muito ir a GodricsHollow, mas eu tenho medo... tenho medo da facilidade com que aqueles Devoradores da Morte 
nos encontraram ontem. Isso refora mais que nunca o meu pressentimento de que no nos devamos aproximar do local onde os teus pais esto sepultados, tenho a certeza 
de que eles esto  espera de que o vs visitar.

- No  s isso - afirmou Harry, ainda a evitar olhar para ela. - No casamento, a Muriel disse umas coisas a respeito do Dumbledore. Eu quero descobrir a verdade...

Contou a Hermione tudo o que Muriel revelara. Quando chegou ao fim, Hermione disse: - Claro, eu percebo perfeitamente por que  que isso te transtonou...

- Eu no estou transtonado - mentiu-lhe ele. - S gostaria de saber se  ou no verdade que...

- Harry, no me digas que ests mesmo convencido de que uma velha maldosa como a Muriel, ou algum como a Rita Skeeter, j agora, querem saber da verdade para alguma 
coisa? Como  que lhes podes dar ouvidos? Tu conhecias o Dumbledore!

- Pensei que sim - murmurou ele.

- Mas sabes a quantidade de mentiras que a Rita Skeeter escreveu a teu respeito! O Doge tem razo, como  que permites que pessoas dessa espcie manchem as recordaes 
que guardas do Dumbledore?

Harry desviou o olhar, esforando-se por disfarar o ressentimento que sentia. Ali estava outra vez: escolher aquilo em que acreditar. Queria a verdade. Por que 
 que toda a gente se mostrava to decidida a impedi-lo de chegar at ela?

- E se fssemos at  cozinha? - sugeriu Hermione aps uma breve pausa. - Desencantar qualquer coisa para o pequeno-almoo?

Ele concordou, ainda que a contragosto, e foi atrs dela at ao patamar, passando pela segunda porta que dava para a escada. Havia profundas marcas de arranhes 
na tinta por debaixo de uma pequena placa de que no se dera conta no escuro. Deteve-se no cimo das escadas para a ler. Era uma pequena placa, bastante pomposa, 
cuidadosamente manuscrita, o gnero de coisa que Percy Weasley seria capaz de afixar na porta do seu quarto:

E Favor No Entrar

Sem a Autorisao Expressa de

Regulus Arcturus Black

160

Harry sentiu o entusiasmo a invadi-lo, mas no soube explicar de imediato porqu. Tornou a ler a placa. Hermione j se achava um lance de escadas abaixo dele.

- Hermione - chamou-a, surpreendendo-se com a calma que transparecia da sua prpria voz. - Chega aqui.

- O que  que foi'

- O R.A.B. Acho que j descobri de quem se trata. Ouviu-se um grito sufocado, e Hermione correu escada acima.

- Na carta da tua me? Mas eu no vi...

Harry abanou a cabea, apontando para a placa de Regulus. Ela leu-a e, em seguida, apertou o brao de Harry com tanta fora que ele se retraiu.

- O irmo do Sirius? - indagou ela num murmrio.

- Ele era Devorador da Morte - lembrou Harry. - O Sirius falou-me dele: juntou-se a eles era ainda muito novo, depois faltou-lhe a coragem e tentou vir-se embora... 
e, por isso, mataram-no.

- Isso faz sentido! - exclamou Hermione - Se ele era Devorador da Morte, tinha acesso ao Voldemort e, se se desiludiu, ento deve ter querido destronar o Voldemort!

Soltou o brao de Harry, debruou-se sobre o corrimo e gritou - Ron! RON! Chega aqui, depressa!

Ron apareceu, ofegante, passado um instante, de varinha j a postos.

- O que  que se passa? Se forem outra vez as aranhas gigantes, quero tomar o pequeno-almoo antes de...

Ficou petrificado perante a placa na porta de Regulus, para a qual Hermione apontava silensiosamente.

- O qu? Esse era o quarto do irmo do Sirius, no era? Regulus Arcturus... Regulus... R.A.B.! O medalho .. Vocs acham...?

- Vamos descobrir - decidiu Harry Empurrou a porta, mas estava trancada Hermione apontou a varinha  maaneta e declarou:

- Alohomora - Ouviu-se um estalido e a porta abriu-se de imediato.

Passaram juntos pela soleira, olhando em seu redor. O quarto de Regulus era mais pequeno que o de Sirius, embora apresentasse a mesma atmosfera de antigo requinte. 
Enquanto Sirius fizera tudo ao seu alcance para marcar a diferena relativamente aos outros membros da famlia, Regulus esforara-se por salientar o contrrio. O 
esmeralda e o prateado, as cores dos Slytherin,

161

dominavam o ambiente, cobrindo a cama, as paredes e as janelas. O braso da famlia Black fora cuidadosamente pintado por cima da cama, juntamente com o seu lema- 
Toujours Pur. Por baixo, via-se uma coleco de recortes de jornais amarelecidos, que, juntos, formavam uma colagem irregular. Hermione atravessou o quarto para 
os examinar.

- Dizem todos respeito ao Voldemort - constatou ela. - Parece que o Regulus deve ter sido um grande admirador dele durante os poucos anos em que pertenceu aos Devoradores 
da Morte...

Uma leve nuvem de p desprendeu-se da colcha quando ela se sentou para ler os recortes. Harry, entretanto, reparara noutra fotografia; uma equipa de Quidditch de 
Hogwarts sorria e acenava da moldura. Aproximou-se mais e viu-lhes as serpentes que ostentavam ao peito: Slytherins. Reconheceu de imediato Regulus como o rapaz 
sentado no meio da fila dianteira: tinha o mesmo cabelo escuro e ar ligeiramente arrogante do irmo, embora fosse mais baixo, mais franzino e bastante menos bem-parecido 
que Sirius.

- Jogava como Seeker - verificou Harry.

- O qu? - indagou Hermione vagamente, continuava embrenhada nos recortes de jornais sobre Voldemort.

- Est sentado no meio da fila da frente, onde o Seeker. Deixa l - desistiu Harry, apercebendo-se de que ningum lhe prestava ateno: Ron achava-se de gatas, a 
vasculhar debaixo do guarda-fato Harry varreu o quarto com o olhar,  procura de esconderijos provveis e abeirou-se da secretria. Mais uma vez, algum a revistara 
antes deles. O contedo das gavetas fora remexido havia pouco tempo, o p levantado, mas no havia ali nada de valor: penas velhas, livros de estudo desactualizados 
que ostentavam sinais de terem sofrido maus tratos s mos de algum, um frasco de tinta recentemente partido, os seus resduos peganhentos espalhados por cima do 
contedo da gaveta.

- H uma maneira mais fcil - disse Hermione, quando viu Harry a limpar os dedos sujos de tinta s calas de ganga. Empunhou a varinha e declarou' - Acsiu medalho!

Nada aconteceu. Ron, que andara  procura entre as dobras dos cortinados pudos, fez um ar desiludido

- Ento  isso? No est aqui?

- Oh, talvez ainda esteja aqui, mas sob o efeito de um contrafeitio - aventou Hermione. - Um encantamento para impedir que seja invocado por artes mgicas, esto 
a ver?

162

- Como o que o Voldemort lanou sobre a bacia de pedra na cave - corroborou Harry, recordando-se de como fora incapaz de Convocar o falso medalho.

- Ento, como  que havemos de o descobrir? - indagou Ron.

- Temos de o procurar  mo - respondeu-lhe Hermione.

-  uma boa ideia - disse Ron, revirando os olhos e ttomando a voltar a sua ateno para os cortinados.

Passaram uma hora a vasculhar o quarto de fio a pavio; no fim, porm, viram-se forados a admitir que o medalho no se encontrava l.

Entretanto, o sol j se levantara; a sua luz ofuscou-os mesmo atravs das janelas encardidas do patamar.

- Mas pode estar em qualquer outro stio da casa - insistiu Hermione em ttom encorajador quando voltaram a descer as escadas;  medida que Harry e Ron tinham vindo 
a perder a coragem, ela mostrava-se cada vez mais determinada. - Independentemente de o ter ou no destrudo, haveria de querer escond-lo do Voldemort, no acham? 
Esto lembrados de todas as coisas horrveis de que tivemos de nos livrar quando aqui estivemos da ltima vez? Aquele relgio que passava a vida a disparar parafusos 
contra toda a gente e aquele manto velho que tentou estrangular o Ron; talvez o Regulus os tenha instalado para proteger o esconderijo do medalho, embora ns no 
nos tenhamos apercebido disso na... na...

Harry e Ron olharam para ela. Estava com um p suspenso no ar, o olhar turvo, com o aspecto apalermado de algum que tivesse acabado de ser alvo de um Encantamento 
de Memria.

- ...na altura - concluiu num sussurro.

- Passa-se alguma coisa? - perguntou-lhe Ron.

- Havia um medalho.

- O qu? - indagaram Harry e Ron em unssono.

- Num armrio da sala de estar. Ningum o conseguia abrir. E ns... ns...

Harry teve a sensao de que um tijolo lhe descera atravs do peito at ao estmago. Veio-lhe  memria: chegara mesmo a mexer-lhe quando passara de mo em mo, 
cada um a tentar abri-lo  vez. Fora atirado para um saco de lixo, juntamente com a caixa de rap com p para as verrugas e a caixa de msica que os deixava a todos 
cheios de sono...

- O Kreacher surripiou-nos imensas coisas - recordou-se Harry. Era a sua nica possibilidade, a nica rstia de esperana,

163

e ele estava disposto a agarrar-se a ela com todas as suas foras. - Ele tinha um monte de tralha no armrio da cozinha. Venham da.

Correu escada abaixo a dois e dois, os passos dos amigos a ecoar sonoramente atrs dele. Fizeram tamanha algazarra que acordaram o retrato da me de Sirius quando 
passaram pelo corredor.

- Nojentos! Sangues de Lama! Escumalha! - gritou ela, enquanto os trs passavam disparados como setas em direco  cozinha da cave e batiam com a porta atrs deles.

Harry atravessou a cozinha a correr, parou com uma derrapagem diante da porta do armrio de Kreacher e abriu-a com toda a fora. L estava o ninho de velhos cobertores 
imundos onde o elfo domstico em tempos dormira, mas por entre eles j no brilhavam as bugigangas que Kreacher tinha por hbito surripiar. A nica coisa que havia 
ali era um exemplar de Razes da Nobreza. Genealogia de Feiticeiros. Recusando-se a acreditar no que os seus olhos viam, Harry agarrou nos cobertores e comeou a 
sacudi-los. Um rato morto soltou-se deles e rebolou sinistramente pelo cho. Ron resmungou ao deixar-se abater numa cadeira da cozinha; Hermione fechou os olhos.

- Ainda no acabmos - afirmou Harry, elevando a voz e chamando: - Kreacher!

Ouviu-se um sonoro estalido e o elfo domstico que Harry to relutantamente herdara de Sirius apareceu, vindo do nada, na lareira fria e despida: minsculo, com 
metade do tamanho de um ser humano, a pele plida a cair-lhe em pregas  volta do corpo, os tufos de plo branco a brotaram copiosamente das orelhas de morcego. 
Continuava trajado com os mesmos farrapos imundos com que o tinham visto da primeira vez, e o olhar de desprezo com que presenteou Harry indicava claramente que 
a sua atitude perante a mudana de dono se mantinha tal qual a indumentria.

- Amo - crocitou Kreacher com a sua voz de sapo, fazendo uma profunda vnia e murmurando para os joelhos: -, de volta  antiga casa da minha senhora com o maldito 
traidor do Weasley e a Sangue de Lama.

- Probo-te de chamares seja a quem for "maldito traidor" ou "Sangue de Lama" - vociferou Harry. Mesmo que Kreacher no tivesse entregado Sirius a Voldemort, Harry 
continuaria a considerar o elfo, com o seu nariz carnudo semelhante a uma trombinha e os olhos injectados de sangue, uma criatura perfeitamente abominvel.

164

- Quero fazer-te uma pergunta - disse Harry, com o corao algo alvoroado, enquanto baixava os olhos para o elfo - e ordeno-te que me respondas com a verdade. Entendido?

- Sim, meu Amo - disse Kreacher, fazendo nova vnia, Harry reparou que os seus lbios se movimentavam em silncio, a articular os insultos que acabara de o proibir 
de proferir.

- H dois anos - prosseguiu Harry, sentindo agora o corao a martelar contra as costelas -, estava um grande medalho de ouro na sala de estar do primeiro piso. 
Ns deitmo-lo fora. Tu foste busc-lo ao lixo?

Fez-se um momento de silncio, durante o qual Kreacher se empertigou para encarar Harry bem de frente. Depois respondeu-lhe: - Fui

- E onde  que est agora? - perguntou-lhe Harry, exultante, enquanto Ron e Hermione faziam um ar muito satisfeito.

Kreacher fechou os olhos como se no suportasse ver a reaco dos trs s suas prximas palavras.

- Foi-se

- Foi-se? - ecoou Harry, o entusiasmo a esvaziar-se completamente. - O que queres dizer com isso de "foi-se"?

O elfo estremeceu e vacilou.

- Kreacher - declarou Harry em ttom ameaador -, ordeno-te que...

- O Mundungus Fletcher - crocitou o elfo, ainda de olhos bem fechados. - O Mundungus Fletcher roubou tudo: os retratos da Miss Bella e da Miss Cissy, as luvas da 
minha senhora, a Ordem de Merhn, Primeira Classe, as taas com o braso da famlia e, e...

Kreacher arquejava com falta de ar: o seu peito encovado subia e descia rapidamente, em seguida abriu repentinamente os olhos e soltou um grito de fazer enregelar 
o sangue:

- .e o medalho, o medalho do Amo Regulus, o Kreacher fez mal, o Kreacher falhou no cumprimento do seu dever!

Harry reagiu por instinto: no momento em que Kreacher mergulhou para apanhar o atiador de brasas da lareira, Harry lanou-se sobre ele, espalmando-o contra o cho. 
O grito de Hermione misturou-se com o do elfo, mas Harry berrou mais alto que ambos - Kreacher, ordeno-te que fiques quieto!

- Harry, solta-o! - murmurou Hermione.

- Para ele se poder agredir com o atiador? - resmungou Harry, ajoelhando-se ao lado do elfo - No me parece. Muito

165

bem, Kreacher, agora quero a verdade: como  que tu sabes que foi o Mundungus Fletcher quem roubou o medalho?

- O Kreacher viu! - ofegou o elfo,  medida que as lgrimas lhe brotavam para o narigo e para a boca cheia de dentes acinzentados. - O Kreacher viu ele a sair do 
armrio do Kreacher com as mos cheias dos tesouros do Kreacher. O Kreacher mandou ao larpio que parasse, mas o Mundungus Fletcher riu-se e de-desatou a co-correr.

- Tu disseste que o medalho pertencia ao Amo Regulus - constatou Harry - Porqu? Donde  que ele veio' O que  que o Regulus tinha que ver com ele? Kreacher, senta-te 
e conta-me tudo o que sabes a respeito desse medalho e que ligao  que o Regulus tinha com ele!

O elfo sentou-se, enroscado numa bola, apoiou a cara molhada entre os joelhos e comeou a baloiar-se para trs e para diante. Quando falou, foi com uma voz abafada, 
mas bastante ntida, que ecoou no silncio da cozinha.

- O Amo Sirius fugiu de casa, e ainda bem, porque era um rapaz malvado que fazia a minha senhora muito infeliz com o seu comportamento indisciplinado. Mas o Amo 
Regulus era orgulhoso, como convinha: sabia o que cabia por direito ao nome Black e  dignidade do seu puro-sangue. Passou anos a falar do Senhor das Trevas, que 
haveria de tirar os feiticeiros da clandestinidade para governarem os Muggles e os de origem Muggle... E, quando fez dezasseis anos, o Amo Regulus aliou-se ao Senhor 
das Trevas. To orgulhoso, to orgulhoso, to feliz por poder servir..

"E certo dia, um ano depois de se ter alistado, o Amo Regulus veio  cozinha para falar com o Kreacher. O Amo Regulus sempre gostou do Kreacher. E o Amo Regulus 
disse... ele disse...

O velho elfo comeou a balanar-se ainda mais depressa.

- ...ele disse que o Senhor das Trevas precisava de um elfo

- O Voldemort precisava de um elfo!? - reiterou Harry, dirigindo o olhar para Ron e Hermione, cuja estupefaco era comparvel  sua.

- Ah, pois - gemeu Kreacher. - E o Amo Regulus oferecera-lhe o Kreacher. Era uma honra, disse o Amo Regulus, uma honra para ele e para o Kreacher, que tinha de fazer 
tudo o que o Senhor das Trevas lhe mandasse sem hesitar... e depois v-voltar para casa.

Kreacher balanou-se ainda mais depressa, a respirao entrecortada por soluos.

166

- Ento o Kreacher foi ter com o Senhor das Trevas. O Senhor das Trevas no disse ao Kreacher o que tinham de fazer, mas levou o Kreacher para uma gruta ao p do 
mar. E, por detrs da gruta, havia uma caverna, e na caverna, havia um grande lago, muito

escuro .

Harry sentiu os plos da nuca eriarem-se. Tinha a sensao de que voz crocitante de Kreacher lhe chegava atravs daquelas guas escuras. Viu o que se passara com 
tanta clareza como se tivesse estado presente.

- ...havia um barco...

Era claro que havia um barco; Harry sabia de que barco se tratava, um barco muito pequeno de um verde fantasmagrico, encantado para transportar um feiticeiro e 
uma vtima para a ilha no meio do lago. Fora ento assim que Voldemort testara as defesas em redor do Horcrux: pedindo emprestada uma criatura dispensvel, um elfo 
domstico...

- Na ilha, h-havia uma bacia cheia de poo. O S-Senhor das Trevas obrigou o Kreacher a beber dela. .

O elfo estremeceu dos ps  cabea.

- O Kreacher bebeu e, enquanto bebia, viu coisas terrveis... As entranhas do Kreacher comearam a arder... o Kreacher chamou o Amo Regulus para o vir salvar, gritou 
pela sua Ama, mas o Senhor das Trevas s se na... Obrigou o Kreacher a beber a poo at ao fim. . deitou o medalho para a bacia vazia .. encheu-a com mais poo.

"E depois o Senhor das Trevas foi-se embora no barco, deixando o Kreacher sozinho na ilha...

Harry via a cena a desenrolar-se perante os seus olhos. Viu o rosto lvido de serpente de Voldemort a desaparecer na escurido, aqueles olhos vermelhos implacavelmente 
fixos no pobre elfo que no tardaria a morrer, sucumbindo  sede terrvel que a poo causticante provocava nas suas vtimas. . aqui, porm, a imaginao de Harry 
no era capaz de ir mais alm, pois no estava a ver como poderia Kreacher ter conseguido escapar.

- O Kreacher precisava de gua, rastejou at  beira da ilha e bebeu do lago escuro... e foi ento que mos, mos mortas, saram da gua e puxaram o Kreacher para 
debaixo d'gua...

- E como  que conseguiste escapar? - interrogou-o Harry, e no ficou surpreendido por se ouvir a sussurrar.

Kreacher levantou a cabea medonha e fitou Harry com os seus enormes olhos injectados de sangue.

167

- O Amo Regulus mandou o Kreacher voltar para casa - disse ele.

- Eu sei... mas como  que conseguiste fugir aos Inferi? Kreacher no parecia compreend-lo. i

- O Amo Regulus mandou o Kreacher voltar para casa -> repetiu ele.

- Eu sei, mas...

- bem,  bvio, no achas, Harry' - interveio Ron. - Ele Desapareceu!

- Mas... no se pode Aparecer e Desaparecer na caverna - obstou Harry -, seno, o Dumbledore...

- A magia dos elfos no  igual  magia dos feiticeiros, pois no? - lembrou Ron. - Afinal de contas, eles conseguem Aparecer e Desaparecer de Hogwarts, ao passo 
que ns no.

Fez-se silncio enquanto Harry digeria esta informao. Como poderia Voldemort ter cometido semelhante erro? Todavia, no momento em que isto lhe ocorria, Hermione 
pronunciou-se, e a voz saiu-lhe glida'

-  bvio que o Voldemort teria considerado os elfos domsticos demasiado insignificantes para se dar ao trabalho de reparar nos seus hbitos, tal e qual como os 
puros-sangues que os tratam como se fossem animais... Nunca lhe passaria pela cabea que eles pudessem possuir dotes mgicos que ele no possua...

- A lei suprema dos elfos domsticos  obedecer s ordens do seu amo - salmodiou Kreacher. - O amo mandou que o Kreacher voltasse para casa, e por isso o Kreacher 
voltou para casa. .

- bem, nesse caso, fizeste o que te mandaram, no foi? - disse Hermione em ttom amvel - No desobedeceste a nenhuma ordem!

Kreacher abanou a cabea, baloiando-se mais depressa que nunca.

- Ento e o que  que aconteceu quando voltaste' - perguntou-lhe Harry. - Qual foi a reaco do Regulus quando lhe contaste o que se passara?

- O Amo Regulus ficou muito preocupado, muito preocupado - crocitou Kreacher - O Amo Regulus disse ao Kreacher para se esconder, para no sair de casa. E depois... 
passado algum tempo . certa noite, o Amo Regulus veio ter com o Kreacher ao armrio, e o Amo Regulus estava estranho, diferente do que costumava ser, com o esprito 
perturbado, o Kreacher reparou logo .

168

e pediu ao Kreacher que o levasse  gruta, a gruta aonde o Kreacher fora com o Senhor das Trevas...

E assim partiram. Harry era capaz de os visualizar claramente, o velho elfo amedrontado e o Seeker magro e de cabelo escuro que to parecido fora com Sirius... Kreacher 
sabia como abrir a entrada oculta que dava acesso  caverna subterrnea, sabia como levantar o pequeno barco; desta feita era na companhia do seu adorado Regulus 
que viajava para a ilha com a bacia de veneno.

- E ele obrigou-te a beber da poo? - quis saber Harry, repugnado.

Mas Kreacher sacudiu e cabea e tornou a chorar. Hermione levou as mos  boca. parecia ter acabado de compreender alguma coisa

- O A-Amo Regulus tirou do bolso um medalho igual ao que o Senhor das Trevas tinha - prosseguiu Kreacher, com as lgrimas a deslizarem de cada um dos lados do seu 
nariz semelhante a uma pequena tromba. - E ele disse ao Kreacher que ficasse com ele e, quando a bacia estivesse vazia, para trocar os medalhes...

Os soluos de Kreacher saam-lhe agora de forma convulsiva; Harry teve de se concentrar muito para conseguir entend-lo.

- E ele mandou... mandou que o Kreacher se fosse embora... sem ele. E disse ao Kreacher... para ir para casa... e nunca dizer  sua senhora... o que ele fizera. 
. mas para destruir... o primeiro medalho. E depois bebeu .. a poo at ao fim... e o Kreacher trocou os medalhes... e viu., o Amo Regulus... a ser arrastado 
para debaixo de gua., e ..

- Oh, Kreacher! - lastimou-se Hermione, que estava agora a chorar. Deixou-se abater de joelhos ao lado do elfo e tentou abra-lo. Este levantou-se de imediato, 
retraindo-se para longe dela, dominado por uma ntida repulsa.

- A Sangue de Lama tocou no Kreacher, ele no permite, o que diria a sua senhora?

- J te avisei para no lhe chamares "Sangue de Lama"! - vociferou Harry, mas o elfo j se estava a castigar: atirara-se ao cho e batia com a cabea no pavimento.

- Manda-o parar... manda-o parar! - suplicou Hermione. - Oh, percebes agora como  revoltante, a forma como eles so obrigados a obedecer'

- Kreacher... pra, pra com isso! - gritou-lhe Harry.

O elfo ficou estendido no cho, trmulo e ofegante, com muco verde a brilhar-lhe em volta do nariz, uma ndoa negra a comear

169

a aparecer na testa plida no stio onde batera contra o cho, os olhos inchados, injectados de sangue e banhados de lgrimas. Harry nunca vira uma criatura to 
lastimvel

- Ento, tu trouxeste o medalho para casa - insistiu Harry sem d nem piedade, pois estava decidido a desenredar a histria at ao fim. - E tentaste destru-lo?

- Nada do que o Kreacher fazia lhe deixava mossa - gemeu o elfo. - O Kreacher tentou de tudo, tudo o que sabia, mas nada, nada funcionava... Estava rodeado de tantos 
feitios que o Kreacher tinha a certeza de que a nica maneira de o destruir era abrindo-o, mas ele no se abria... o Kreacher castigou-se, tentou mais uma vez, 
tornou a castigar-se. O Kreacher no conseguiu cumprir as ordens que lhe tinham sido dadas, o Kreacher no conseguia destruir o medalho! E a sua senhora estava 
enloquecida de desgosto, porque o Amo Regulus desaparecera, e o Kreacher no lhe podia dizer o que tinha acontecido, no, porque o Amo Regulus o p-p-proibira de 
contar aos membros da f-f-famlia o que se passara na c-caverna...

Kreacher comeou a soluar de tal maneira que j no conseguiu dizer nada que se aproveitasse. As lgrimas deslizavam pelas faces de Hermione por ver o elfo naquele 
estado, mas no se atreveu a tocar-lhe outra vez. At mesmo Ron, que no nutria qualquer espcie de admirao por Kreacher, parecia perturbado. Harry inclinou-se 
para trs, apoiando-se nos calcanhares, e abanou a cabea, tentando clarear as ideias.

- No te consigo perceber, Kreacher - disse ele por fim. - O Voldemort tentou matar-te, o Regulus morreu para derrubar o Voldemort, mas tu, ainda assim, dispuseste-te 
a entregar o Sirius ao Voldemort? Dispuseste-te a ir ter com a Narcissa e a Bellatrix, e a fazer chegar informaes ao Voldemort por intermdio delas...

- Harry, o Kreacher no v as coisas segundo essa perspectiva - afirmou Hermione, limpando os olhos s costas da mo. - Ele  um escravo, os elfos domsticos esto 
habituados a ser maltratados, s vezes com brutalidade, at; o que o Voldemort fez ao Kreacher no era assim to fora do comum quanto isso. O que  que as guerras 
entre feiticeiros podem significar para um elfo como o Kreacher' Ele  leal s pessoas que o tratam bem, como Mrs. Black o deve ter tratado, e o Regulus certamente 
tambm, e por isso ele servia-os de boa vontade e papagueava as suas convices. J sei o que  que vais dizer - prosseguiu ela, quando Harry se preparava para protestar 
-, que o Regulus mudou de ideias. . mas nada indica que tenha explicado isso ao Kreacher, pois no? E eu

julgo que sei porqu. O Kreacher e a famlia do Regulus ficariam mais seguros se ele se mantivesse fiel  velha tradio dos purossangues. O Regulus estava a tentar 
proteg-los a todos.

- O Sirius...

- O Sirius era horrvel para o Kreacher, Harry, e no vale a pena fazeres essa cara, que bem sabes que  verdade. Quando o Sirius veio para aqui morar, o Kreacher 
estava sozinho h imenso tempo, e o mais provvel era que estivesse vido de um pouco de afecto. Tenho a certeza de que a "Miss Cissy" e a "Miss Bella" eram absolutamente 
amorosas para o Kreacher quando c vinham e, assim, ele fez-lhes um favor e contou-lhes tudo o que elas pretendiam saber. Eu sempre fui da opinio de que os feiticeiros 
acabariam por pagar pela maneira como tratam os elfos domsticos bem, o Voldemort pagou... e o Sirius tambm.

Harry no a contrariou. Enquanto observava Kreacher a soluar no cho, lembrou-se do que Dumbledore lhe dissera, escassas horas aps a morte de Sirius: "No creio 
que o Sirius alguma vez tenha visto o Kreacher como uma criatura com sentimentos to fortes como os humanos..."

- Kreacher - pediu-lhe Harry, passados uns instantes -, quando te sentires em condies, ha... por favor, senta-te.

Foram precisos vrios minutos at que os soluos de Kreacher cedessem ao silncio. Depois, a custo, ele tornou a sentar-se, esfregando os ns dos dedos contra os 
olhos como uma criana de tenra idade.

- Kreacher, vou pedir-te que faas uma coisa - disse-lhe Harry. Deitou uma olhadela a Hermione, procurando ajuda, pretendia transmitir a ordem com gentileza, mas, 
ao mesmo tempo, no podia fingir que no se tratava de uma ordem. No entanto, a alterao do seu ttom de voz pareceu conquistar a aprovao da amiga, que lhe lanou 
um sorriso encorajador.

- Kreacher, quero que tu vs  procura do Mundungus Fletcher, por favor. Ns precisamos de descobrir onde est o medalho... o medalho do Amo Regulus.  muito importante. 
Queremos terminar a tarefa que o Amo Regulus comeou, queremos, h . garantir que ele no morreu em vo.

Kreacher.deixou cair os punhos fechados e ergueu os olhos para Harry.

- Ir  procura do Mundungus Fletcher? - crocitou ele.

- E traz-lo para aqui, para Gnmmauld Place - acrescentou Harry. - Achas que serias capaz de fazer isso por ns?

170

171

Ao ver Kreacher a assentir com a cabea e a pr-se de p, Harry foi tomado por uma sbita inspirao. Pegou na bolsa de Hagrid e retirou o falso Horcrux, o medalho 
substituto dentro do qual Regulus guardara o bilhete para Voldemort.

- Kreacher, eu... ha... gostava que ficasses com isto - disse ele, enfiando o medalho na mo do elfo. - Isto pertencia ao Regulus, e eu tenho a certeza de que ele 
desejaria dar-to como prova de gratido por aquilo que tu...

- Que exagero, meu - comentou Ron, enquanto o elfo deitava uma olhadela ao medalho, soltava um grito de choque e se ttomava a atirar para o cho.

Levou-lhes uma boa meia hora a acalmar Kreacher, que ficou de tal maneira comovido por ver a sua pessoa ser presenteada com uma recordao da famlia Black que nem 
tinha foras nos joelhos para se suster em p. Quando finalmente ficou em condies de dar uns passos vacilantes, todos o acompanharam ao seu armrio, o viram guardar 
o medalho em segurana entre os cobertores sujos e lhe garantiram que fariam da sua proteco a sua prioridade enquanto ele estivesse ausente. Kreacher fez ento 
duas profundas vnias a Harry e Ron, e chegou mesmo a dirigir um leve espasmo esquisito a Hermione que poderia ter passado por uma tentativa de cumprimento respeitoso, 
antes de Desaparecer com o habitual estalido sonoro.

XI

O SUBEMO

J que Kreacher fora capaz de escapar a um lago infestado de Inferi, Harry estava confiante de que a captura de Mundungus seria apenas questo de poucas horas, no 
mximo, e passou a manh a vaguear pela casa, dominado por uma grande expectativa. Todavia, Kreacher no regressou nessa manh, nem to-pouco nessa tarde. Ao cair 
da noite, Harry sentia-se abatido e ansioso, e uma ceia composta quase exclusivamente de po bolorento, que Hermione tentara em vo Transfigurar, no contribuiu 
em nada para o animar.

Kreacher no voltou no dia seguinte, nem no dia a seguir a esse. Contudo, dois homens encapuzados apareceram na praa onde se situava o nmero doze, e l ficaram 
durante toda a noite, de olhares fixos na casa que no eram capazes de ver.

- Devoradores da Morte, com toda a certeza - concluiu Ron, enquanto Harry e Hermione os observavam das janelas da sala de estar. - Acham que eles sabem que aqui 
estamos?

- Acho que no - opinou Hermione, no obstante o seu ar assustado -, seno mandavam o Snape atrs de ns, no era?

- E se ele j aqui tiver estado e a maldio do Moody lhe tiver atado a lngua? - sugeriu Ron.

-  bem possvel - admitiu Hermione -, caso contrrio j teria contado queles dois ali como  que se entra, no ? Mas eles devem estar de vigia para o caso de 
ns chegarmos. Afinal de contas, sabem que o Harry  dono desta casa.

- Como  que eles...? - comeou Harry.

- Os testamentos dos feiticeiros so examinados pelo Ministrio, ou j no se lembram? Eles sabem de certeza que o Sirius te deixou esta casa.

A presena de Devoradores da Morte l fora intensificou a atmosfera de ameaa pendente no interior do nmero doze. No recebiam notcias de ningum desde a chegada 
do Patronus de Mr. Weasley, e os efeitos da tenso comeavam a ser visveis. Inquieto e irritadio, Ron desenvolvera o hbito incomodativo de

173

brincar com o Apagador que guardava dentro do bolso; isto enfurecia sobretudo Hermione, que ocupava o tempo  espera de Kreacher, entregando-se ao estudo d' Os Contos 
de Beedle, o Bardo, e no apreciava a maneira como as luzes estavam constantemente a acender e a apagar.

- Importas-te de parar com isso!? - gritou-lhe ela na terceira noite da ausncia de Kreacher, quando todas as luzes ttomaram a ser sugadas da sala pela ensima vez.

- Desculpa, desculpa! - disse Ron, apressando-se a carregar no Apagador e a fazer voltar a luz.

- Por que  que no arranjas qualquer coisa til para te entreteres?

- O qu, como ler histrias para midos, por exemplo?

- O Dumbledore deixou-me este livro, Ron...

- ...e tambm me deixou o Apagador, talvez quisesse que eu o usasse!

Sem pacincia para ouvir Ron e Hermione a implicar um com o outro, Harry saiu da sala sem que nenhum deles desse por isso. Desceu as escadas em direco  cozinha, 
aonde ia de quando em vez, porque tinha a certeza de que era o stio mais provvel para Kreacher reaparecer. A meio do lance de escadas, contudo, ouviu uma pancada 
na porta da rua, em seguida estalidos metlicos e uma corrente a deslizar.

Sentiu todos os nervos do corpo a retesarem-se: desembainhou a varinha, embrenhou-se nas sombras por detrs dos elfos decapitados e ps-se de atalaia. A porta abriu-se: 
avistou um lampejo da praa banhada pela luz dos candeeiros, e um vulto encapuzado surgiu no hall de entrada e fechou a porta atrs de si. O intruso avanou um passo 
e a voz de Moody interpelou-o: "Severas Snape?" Em seguida o espectro poeirento elevou-se do fundo do corredor e investiu contra ele, erguendo a mo morta.

- No fui eu quem te matou, Albus - declarou uma voz pausada.

O feitio quebrou-se, o espectro de p explodiu uma vez mais, e foi impossvel distinguir o recm-chegado por entre a densa nuvem acinzentada que deixou atrs de 
si.

Harry apontou a varinha para o meio.

- No se mexa!

Esquecera-se do retrato de Mrs. Black. Ao ouvir o seu grito, as cortinas que a ocultavam abriram-se de repente e ela comeou aos guinchos: - Sangues de Lama e ral 
a desonrarem a minha casa.

174

Ron e Hermione vieram disparados pelas escadas abaixo atrs de Harry, varinhas empunhadas,  semelhana da sua, apontadas ao homem desconhecido que agora se achava 
de braos ao alto no hall.

- Poupem a munio, sou eu, o Remus!

- Oh, que grande alvio - disse Hermione em voz sumida, apontando a varinha a Mrs. Black, ao invs; aps uma exploso, as cortinas ttomaram a fechar-se com uma chicotada 
e tudo se quedou em silncio. Ron tambm baixou a varinha, Harry, porm, no.

- Mostre-se! - ordenou-lhe.

Lupin avanou para a luz do candeeiro, as mos ainda ao alto num gesto de rendio.

- Chamo-me Remus John Lupin, sou um lobisomem, tambm conhecido por Moony, um dos quatro criadores do Mapa do Salteador, casado com a Nymphadora, conhecida por Tonks, 
e fui eu quem te ensinou a fazer um Patronus, Harry, que toma a forma de um veado.

- Oh, pronto, assim est bem - acedeu Harry, baixando a varinha -, mas eu tinha de verificar, no era?

- Na qualidade de teu antigo professor de Defesa contra a Magia Negra, sinto-me tentado a concordar contigo. Ron, Hermione, no deviam baixar as vossas defesas com 
tanta facilidade.

Correram escada abaixo ao encontro de Lupin. Envolvido num grosso manto de viagem preto, estava com um ar exausto, mas satisfeito por os ver.

- Nem sinal do Severus, ento? - mterpelou-os.

- No - confirmou Harry. - O que  que se passa? Esto todos bem?

- Sim - tranquilizou-os Lupin -, mas estamos todos a ser vigiados. Acabei de ver dois Devoradores da Morte l fora, na praa...

- ... Ns sabemos...

- . . vi-me obrigado a Aparecer exactamente no degrau de cima da porta da rua para ficar com a certeza de que no me detectavam. Estou certo de que no sabem que 
vocs aqui esto, caso contrrio teriam mais gente de atalaia; andam a vigiar todos os stios que estejam de alguma forma relacionados contigo, Harry Vamos l para 
baixo, trago muitas novidades e quero saber o que  que vos aconteceu depois de abandonarem A Toca

Uma vez chegados  cozinha, Hermione apontou a varinha  lareira. As chamas acenderam-se de imediato, emprestando uma

175

sensao de conforto s paredes de pedra despidas e reflectindo-se ao longo do tampo comprido da mesa. Lupin retirou umas quantas Cervejas de Manteiga de dentro 
do manto e todos se instalaram  mesa.

- J c podia estar h trs dias, mas tive de despistar o Devorador da Morte que vinha no meu encalo - esclareceu Lupin. - Ento, vieram directamente para aqui 
depois do casamento?

- No - respondeu Harry -, s depois de nos termos confrontado com dois Devoradores da Morte num caf, em Tottenham Court Road.

Lupin entornou a cerveja quase toda pelo peito abaixo.

- O qu?

Explicaram-lhe o que se havia passado; quando terminaram, Lupin ostentava um ar atnito.

- Mas como  que eles vos conseguiram descobrir to depressa?  impossvel seguir a pista de algum que Aparea, a menos que nos agarremos a ela quando estiver a 
Desaparecer!

- E parece pouco provvel que eles andassem nesse momento a passear casualmente por Tottenham Court Road, no ? - comentou Harry.

- Ns pensmos - sugeriu Hermione - que o Harry talvez ainda tivesse o Detector activo.

-  impossvel - assegurou-lhe Lupin. Ron fez um ar presunoso e Harry sentiu um enorme alvio. - Para alm de que, se o Harry ainda tivesse o Detector activo, eles 
saberiam com certeza que ele se encontra aqui, no ? Mas no estou a ver como  que podero ter seguido a vossa pista at Tottenham Court Road; isso  preocupante, 
deveras preocupante.

Mostrou-se consternado, mas, no que a Harry dizia respeito, aquela questo podia esperar.

- Conte-nos o que aconteceu depois de nos virmos embora, no temos uma nica notcia desde que o pai do Ron nos informou de que a famlia estava em segurana.

- bem, foi o Kingsley quem nos salvou - afirmou Lupin. - Graas ao seu aviso, a maior parte dos convidados do casamento conseguiu Desaparecer antes de eles chegarem.

- E eram Devoradores da Morte ou gente do Ministrio? - interps Hermione

- Uma mistura, mas, para todos os efeitos, agora so uma e a mesma coisa - esclareceu Lupin. - Eram cerca de uma dzia, mas no sabiam que tu l estavas, Harry. 
O Arthur ouviu um

176

rumor, segundo o qual eles teriam torturado o Scringeour antes de o matarem para o obrigarem a revelar-lhes o teu paradeiro; se isso for verdade, ele no te denunciou.

Harry olhou para Ron e Hermione; as expresses dos amigos reflectiam o misto de surpresa e gratido que ele sentia. Nunca fora grande apreciador de Scringeour, contudo, 
a ser verdade o que Lupin dissera, o seu ltimo gesto tivera como objectivo a proteco de Harry. - Os Devoradores da Morte vasculharam A Toca de uma ponta  outra 
- prosseguiu Lupin. - Encontraram o vampiro, mas no se quiseram aproximar muito dele... e passaram horas a interrogar os que l ficaram. Estavam a tentar obter 
informaes a teu respeito, Harry, mas,  claro, ningum  excepo da Ordem sabia que tu l tinhas estado.

"Enquanto eles davam cabo do casamento, outros Devoradores da Morte entravam  fora em todas as casas do pas relacionadas com a Ordem. No houve mortos - apressou-se 
a adiantar, antecipando-se  pergunta inevitvel -, mas foram brutos. Deitaram fogo  casa do Dedalus Diggle, mas, como sabem, ele no estava l, e lanaram a Maldio 
Cruciatus contra a famlia da Tonks. Isto, sempre para tentarem descobrir para onde tu foste depois da visita que fizeste aos pais dela. Eles esto... abalados, 
como  natural mas, fora isso, bem.

- Os Devoradores da Morte conseguiram ultrapassar todos aqueles feitios protectores? - perguntou-lhe Harry, recordando-se de como tinham sido eficazes na noite 
em que eles se haviam despenhado no jardim dos pais de Tonks.

- O que tu tens de perceber, Harry,  que agora os Devoradores da Morte contam com o apoio do poder absoluto do Ministrio - afirmou Lupin. - Sentem-se perfeitamente 
 vontade para realizar feitios brutais sem receio de serem identificados ou detidos. Conseguiram ultrapassar todos os feitios defensivos que ns lanmos contra 
eles e, uma vez l dentro, no estiveram com rodeios quanto ao motivo da sua presena.

- E do-se ao trabalho de apresentar alguma justificao para andarem a torturar as pessoas para descobrirem o paradeiro do Harry? - inquiriu Hermione, com um laivo 
de nervoso na voz.

- bem - disse Lupin. Hesitou, em seguida pegou num exemplar dobrado d' O Profeta Dirio. - Aqui est - declarou, empurrando-o por cima da mesa na direco de Harry. 
- Seja como for, mais tarde ou mais cedo, acabaro por descobrir.  este o pretexto deles para andarem atrs de ti.

177

Harry alisou o jornal. Uma enorme fotografia do seu rosto enchia a primeira pgina. Leu o ttulo que a encabeava:

PROCURADO PARA INTERROGATRIO NO MBITO DA MORTE DE ALBUS DUMBLEDORE

Ron e Hermione soltaram exclamaes de indignao, Harry, porm, absteve-se de tecer comentrios. Afastou o jornal para longe de si; no precisava de ler mais nada: 
j sabia o que l vinha. Apenas aqueles que tinham estado no cimo da torre quando Dumbledore cara sabiam com certeza quem o matara e, tal como Rita Skeeter j anunciara 
ao mundo da feitiaria, Harry fora visto a fugir do local momentos depois da queda de Dumbledore.

- Lamento sinceramente, Harry - disse Lupin.

- Ento os Devoradores da Morte tambm se apoderaram d'O Profeta Dirio'? - inquiriu Hermione, furiosa.

Lupin assentiu com a cabea.

- Mas as pessoas com certeza que se apercebem do que se est a passar?

- O golpe foi fcil e virtualmente silencioso - explicou-lhe Lupin. - A verso oficial do assassinato do Scrimgeour  que ele se demitiu; foi substitudo pelo Pious 
Thicknesse, que se encontra sob o efeito da Maldio Imperius.

- E por que  que o Voldemort no se autoproclamou Ministro da Magia? - admirou-se Ron.

Lupin riu-se.

- Ele no precisa, Ron. Na prtica, o Ministro  ele, mas por que  que haveria de se sujeitar a ficar sentado atrs de uma secretria no Ministrio? O fantoche 
dele, o Thicknesse, trata de todos os assuntos quotidianos, deixando o Voldemort livre para alargar o seu poder para alm dos limites do Ministrio.

"E bvio que houve muita gente que deduziu o que se passou; nos ltimos dias assistimos a uma mudana to dramtica na poltica do Ministrio que correm muitos rumores 
de que o Voldemort deve estar por detrs de tudo. S que o problema  precisamente esse: no passam de rumores. As pessoas no se atrevem a desabafar umas com as 
outras, porque no sabem em quem ho-de confiar; tm medo de falar abertamente, no v dar-se o caso de as suas suspeitas se virem a confimar e as suas famlias 
serem colocadas sob vigilncia. No h dvida, o jogo do Voldemort revela uma grande astcia. Se sasse a pblico, poderia

178

provocar uma revolta declarada; mantendo-se nos bastidores, criou confuso, incerteza e medo.

- E esta alterao dramtica na poltica do Ministrio - perguntou Harry - implica advertir o mundo da feitiaria contra mim em lugar do Voldemort?

- Isso faz sem dvida parte do plano - confirmou Lupin -, e  um verdadeiro golpe de mestre. Agora que o Dumbledore morreu, tu, O Rapaz Que Sobreviveu, serias seguramente 
o smbolo e o ponto de reagrupamento de qualquer resistncia contra o Voldemort. No entanto, ao sugerir que tu estiveste envolvido na morte do velho heri, o Voldemort 
no se limitou a colocar a tua cabea a prmio: conseguiu semear a dvida e o medo entre muita gente disposta a defender-te.

- Entretanto, o Ministrio comeou a tomar medidas contra os feiticeiros de origem Muggle.

Lupin apontou para O Profeta Dirio.

- Abre-o na pgina dois.

Hermione virou as pginas com uma expresso de repulsa similar quela com que folheara Segredos da Mais Negra Magia.

- "Registo dos Feiticeiros de Origem Muggle" - leu ela em voz alta. - "O Ministrio da Magia est a levar a cabo um levantamento dos pretensos feiticeiros de origem 
Muggle, com o intuito de compreender melhor como foi que eles entraram na posse de segredos mgicos."

" "Pesquisas recentes efectuadas pelo Departamento dos Mistrios revelaram que a magia s pode ser transmitida atravs da procriao entre feiticeiros. Por conseguinte, 
quando no exista uma linhagem de feiticeiros comprovada, o mais provvel  que o pretenso feiticeiro de origem Muggle tenha obtido o poder mgico atravs do recurso 
 fora ou ao roubo."

""O Ministrio est decidido a extirpar esses usurpadores do poder mgico e, tendo em vista este objectivo, lanou um convite a todos os pretensos feiticeiros de 
origem Muggle para se apresentarem voluntariamente para uma entrevista junto da recm-nomeada Comisso de Registo dos Feiticeiros de Origem Muggle.""

- As pessoas no vo permitir que uma coisa destas acontea - insurgiu-se Ron.

- J est a acontecer, Ron - retorquiu Lupin. - Neste preciso momento, h feiticeiros de origem Muggle a serem arrebanhados.

- Mas como  que eles podem ter "roubado" a magia"? - perguntou-se Ron. -  um poder mental. Se fosse possvel roubar magia, no existiriam cepatortas, no era?

179

- Eu sei - concordou Lupin. - Seja como for, a menos que consigamos provar que temos pelo menos um feiticeiro entre os nossos familiares mais prximos, a partir 
de agora considera-se que obtivemos o poder mgico de forma ilegal e que, portanto, temos de ser castigados.

Ron olhou de relance para Hermione, em seguida disse:

- Ento e se os puros-sangues e os meios-sangues jurarem que um feiticeiro de origem Muggle pertence  sua famlia? Eu posso dizer a toda a gente que a Hermione 
 minha prima...

Hermione envolveu a mo de Ron com a sua e apertou-a.

- Obrigada, Ron, mas eu no poderia permitir que tu...

- No tens alternativa - ripostou Ron em ttom de ameaa, apertando-lhe a mo por sua vez. - Eu ensmo-te a rvore genealgica da minha famlia para que possas responder 
s perguntas que te fizerem.

Hermione soltou uma gargalhada trmula.

- Ron, uma vez que andamos fugidos na companhia do Harry Potter, a pessoa mais procurada deste pas, no creio que isso v fazer diferena alguma. Se eu pretendesse 
voltar para a escola, o caso seria outro. O que  que o Voldemort planeia para Hogwarts? - perguntou ela a Lupin.

- Todos os jovens feiticeiros passam desde j a ser obrigados a frequent-la - informou ele. - A notcia foi divulgada ontem.  uma mudana, porque nunca foi obrigatrio. 
 claro que a grande maioria dos feiticeiros da Inglaterra estudaram em Hogwarts, mas os pais tinham o direito de os educar em casa ou de os mandar para o estrangeiro, 
caso assim entendessem. Desta forma, o Voldemort vai conseguir ter toda a comunidade de feiticeiros debaixo de olho desde uma idade muito precoce. E  tambm uma 
forma de eliminar os de origem Muggle, porque os alunos so obrigados a receber um Estatuto de Sangue... ou seja, tm de provar ao Ministrio que descendem de uma 
linhagem de feiticeiros... antes de lhes ser dada autorizao para frequentar a escola.

Harry sentiu-se furioso e repugnado: naquele momento, rapazes e raparigas de onze anos estariam entusiasmados e debruados sobre pilhas de livros de feitios acabados 
de comprar, alheios ao facto de que nunca haveriam de voltar a ver Hogwarts, nem talvez mesmo as suas famlias.

- ... ... - balbuciou ele, esforando-se por encontrar palavras capazes de fazer justia ao horror que lhe ia na alma, mas Lupin afirmou calmamente:

- Eu sei. Lupin hesitou.

- Eu compreendo se no puderes confirmar isto, Harry, mas a Ordem est convencida de que o Dumbledore te encarregou de uma misso.

-  verdade - assentiu Harry -, e o Ron e a Hermione esto ao corrente e vo acompanhar-me.

- Podes revelar-me de que trata essa misso?

Harry contemplou-lhe o rosto marcado por rugas prematuras, emoldurado por cabelo espesso mas grisalho, e desejou poder dar-lhe uma resposta diferente.

- Infelizmente, Remus, no posso. Se o Dumbledore no o fez, acho que no me cabe a mim faz-lo.

- J estava  espera dessa reaco - disse Lupin com ar desapontado. - Mas talvez eu ainda te possa ser til. Tu conheces-me e sabes do que sou capaz. Eu podia ir 
convosco para assegurar a vossa proteco. No haveria necessidade de me dizerem exactamente o que andavam a fazer.

Harry hesitou. Era uma proposta muito tentadora, embora como seria possvel ocultarem a misso do conhecimento de Lupin caso ele estivesse sempre presente era coisa 
que no lhe passava pela cabea.

Hermione, contudo, fez um ar atnito.

- Mas ento e a Tonks' - inquiriu ela.

- O que  que ela tem? - retorquiu Lupin.

- bem - disse Hermione, de sobrolho franzido -, vocs so casados! O que  que ela pensa de vir connosco?

- A Tonks vai ficar absolutamente segura - garantiu Lupin. - Vai ficar em casa dos pais.

Havia algo estranho no ttom de Lupin: era quase frio. Tal como havia algo estranho na ideia de Tonks ficar escondida em casa dos pais; afinal de contas, ela era 
membro da Ordem e, ao que Harry sabia, seria de esperar que desejasse ver-se envolvida em plena aco.

- Remus - disse Hermione em ttom cauteloso -, est tudo bem... percebe o que quero dizer. . entre si e a...?

- Est tudo ptimo, muito obrigado - respondeu este com inciso.

Hermione ficou muito corada. Fez-se nova pausa, uma pausa incmoda e constrangida, ao fim da qual Lupin disse, com ar de quem se fora a admitir algo de desagradvel: 
- A Tonks vai ter um beb.

180

181

- Oh, que maravilha! - guinchou Hermione.

- Excelente! - aclamou Ron em ttom entusistico.

- Parabns - disse Harry

Lupin esboou um sorriso artificial, que mais parecia uma careta, em seguida disse: - Ento., aceitam a minha proposta? Os trs passam a ser quatro? No acredito 
que o Dumbledore se mostrasse contrrio a isso, visto que, afinal de contas, me nomeou para vosso professor de Defesa contra a Magia Negra. E deixem-me que vos diga 
desde j que estou convencido de que nos encontramos perante um tipo de magia com que muitos de ns nunca se depararam, nem imaginaram sequer.

Ron e Hermione olharam em simultneo para Harry.

- S... s para que fiquemos esclarecidos - disse ele. - Est disposto a deixar a Tonks em casa dos pais e a vir connosco?

- L, ela vai ficar perfeitamente a salvo, eles tomam conta dela - afirmou Lupin. O seu ttom era to conclusivo que rasava a indiferena. - Harry, tenho a certeza 
de que o James haveria de me querer a teu lado.

- bem - disse Harry pausadamente -, pois eu no. Para falar com franqueza, tenho a certeza de que o meu pai haveria de querer saber por que  que no fica ao lado 
do seu filho.

Lupin ficou lvido. A temperatura na cozinha parecia ter descido uns dez graus. Ron olhou fixamente em volta do aposento como se o tivessem encarregado de o memorizar 
em todos os pormenores, enquanto os olhos de Hermione oscilavam entre Harry e Lupin.

- Tu no compreendes - disse Lupin por fim.

- Ento, explique-me, por favor - insistiu Harry. Lupin engoliu em seco.

- Eu... eu cometi um grave erro ao casar-me com a Tonks. Fi-lo contra o que a razo me ditava e desde ento tenho-me arrependido amargamente.

- Estou a ver - retorquiu Harry -, e por isso decidiu abandon-la, a ela e ao mido, e fugir connosco?

Lupin levantou-se dum pulo; a cadeira tombou para trs, e ele lanou-lhes um ar to feroz que Harry vislumbrou, pela primeira vez na vida, traos de lobo nas suas 
feies humanas.

- Ser possvel que no entendas o que eu fiz  minha mulher e ao nosso filho que vem a caminho? Eu nunca devia ter-me casado com ela, fiz dela uma proscrita!

Lupin assestou um pontap na cadeira que acabara de deitar ao cho.

182

- Vocs s conhecem a minha faceta de membro da Ordem ou como protegido do Dumbledore em Hogwarts! Nem vos passa pela cabea como a maior parte do mundo da feitiaria 
encara criaturas como eu! Quando descobrem o meu mal, deixam praticamente de me falar! No conseguem perceber o que eu fiz? At mesmo a famlia dela  avessa ao 
nosso casamento, que pais  que haveriam de querer ver a prpria filha casada com um lobisomem? E a criana... a criana...

Lupin chegou mesmo a puxar o cabelo s mos-cheias; estava perfeitamente alterado.

- Os da minha raa no costumam procriar! Vai ser como eu, tenho a certeza disso... Como me poderei perdoar quando, de plena conscincia, me arrisquei a transmitir 
o mal que me aflige a uma criana inocente? E se, por algum milagre, ela no sair igual a mim, vai ficar muito melhor, mil vezes melhor, sem um pai de quem se ir 
envergonhar para sempre!

- Remus! - sussurrou Hermione, com os olhos banhados de lgrimas. - No diga uma coisa dessas... Como  que um filho seu poderia sentir vergonha de si?

- Oh, Hermione, olha que no sei - disse Harry. - Eu teria imensa vergonha dele.

Harry no sabia de onde lhe vinha tamanha fria; esta, porm, tambm o impelira a levantar-se. Pelo ar de Lupin, parecia que Harry lhe tinha batido.

- Se o novo regime considera que os de origem Muggle so maus - afirmou Harry -, o que faro a um meio lobisomem cujo pai pertence  Ordem? O meu pai morreu ao tentar 
proteger-me a num e  minha me, e voc acha que ele o aconselharia a abandonar o seu filho e a partir  aventura connosco?

- Como... como  que te atreves a dizer semelhante coisa? - indignou-se Lupin. - O que est aqui em causa no  a avidez por... pelo perigo e pela glria pessoal... 
Como  que te atreves a sugerir que...

- Parece-me que sente uma certa atraco pelo risco - opinou Harry. - Est com vontade de vestir a pele do Sirius e...

- Harry, no! - suplicou-lhe Hermione, todavia, o amigo continuou de olhar ameaador cravado no rosto lvido de Lupin.

- Nunca me teria passado pela cabea - insistiu Harry. - O homem que me ensinou a combater contra os Dementors, afinal... afinal, no passa de um cobarde.

183

Lupin puxou da varinha com uma rapidez tal que Harry mal teve tempo de levar a mo  sua; ouviu-se um enorme estrondo e ele deu por si a voar para trs, como se 
tivesse acabado de levar um murro; enquanto embatia contra a parede da cozinha e deslizava para o cho, vislumbrou a ponta do manto de Lupin a desaparecer pela porta.

- Remus, Remus, volte aqui! - chamou-o Hermione, mas Lupin nem lhe respondeu. Passado um instante, ouviram a porta da rua bater.

- Harry! - lastimou-se Hermione. - Como  que tiveste coragem de fazer o que fizeste?

- Foi fcil - respondeu-lhe este. Ps-se de p; j sentia um alto a formar-se no stio onde a cabea embatera contra a parede. A sua indignao era tal que at tremia.

- No olhes para mim assim! - ripostou ele a Hermione

- No comeces a descarregar em cima dela! - vociferou Ron

- No... no... No nos podemos zangar! - decidiu Hermione, metendo-se entre os dois.

- No tinhas nada que dizer aquelas coisas ao Lupin - insurgiu-se Ron contra Harry.

- Ele estava mesmo a pedi-las - defendeu-se o amigo. Na sua mente, entrechocavam-se imagens fragmentadas: Sirius a cair atravs do Vu; Dumbledore suspenso, desfeito, 
em pleno ar; um jacto de luz verde e a voz da me a pedir misericrdia...

- Os pais - afirmou Harry - no devem abandonar os filhos a menos que... a menos que a isso sejam obrigados

- Harry... - disse Hermione, estendendo-lhe uma mo consoladora Ele, porm, afastou-a e virou-lhe as costas, pousando os olhos na lareira acesa que Hermione invocara. 
J em tempos falara com Lupin atravs daquela lareira, procurando que este o tranquilizasse acerca de James, e Lupin confortara-o, de facto. Agora o rosto lvido 
e consternado de Lupin parecia pairar no ar diante dele. Sentiu uma pontada agonizante de remorsos. Nem Ron nem Hermione diziam nada, mas Harry tinha a certeza de 
que estavam a olhar um para o outro nas suas costas, comunicando em silncio.

Deu meia volta repentina e apanhou-os a afastarem-se precipitamente um do outro.

- Eu sei que fiz mal em chamar-lhe cobarde.

- Pois fizeste - apressou-se Ron a concordar.

184

- Mas ele est a comportar-se como se fosse

- Mesmo assim . - disse Hermione.

- Eu sei - reconheceu Harry. - Mas se isso o fizer voltar para a Tonks, ter valido a pena, no acham?

No conseguiu evitar o ttom de splica. Hermione fez um ar compreensivo, Ron, de incerteza. Harry baixou os olhos em direco aos ps, a pensar no pai. Teria James 
apoiado Harry nas acusaes que tecera contra Lupin ou ter-se-ia ele zangado com o filho pela maneira como tratara o seu velho amigo?

A cozinha silenciosa parecia ecoar com o choque da recente cena, bem como com as recriminaes omissas de Ron e Hermione. O Profeta Dirio que Lupin trouxera continuava 
pousado em cima da mesa, o retrato do prprio Harry a fitar intensamente o tecto da primeira pgina. Harry abeirou-se da mesa e sentou-se, abriu o jornal ao acaso 
e fingiu que lia. No era capaz de se concentrar na leitura, a mente agitada devido  discusso com Lupin. Tinha a certeza de que, do outro lado da mesa, Ron e Hermione 
tinham retomado a sua comunicao silenciosa. Virou uma pgina ruidosamente, e o nome de Dumbledore saltou-lhe  vista. Demorou alguns instantes a assimilar o significado 
da fotografia, que retratava uma famlia em grupo. Por baixo da fotografia, podia ler-se: A Famlia Dumbledore: da esquerda para a direita, Albus, Percival, com 
Ariana, recm-nascida, ao colo, Kendra e Aberforth.

com a ateno presa, Harry examinou a imagem com mais cuidado. O pai de Dumbledore, Percival, era um homem bem-apessoado com olhos que pareciam cintilar mesmo na 
velha fotografia comida pelos anos. A beb, Ariana, pouco maior era que um po de forma, e as feies mal se distinguiam. A me, Kendra, sobressaa pelo cabelo negro-azeviche 
apanhado num grande coque. Tinha os traos bem marcados. No obstante usar um vestido de gola alta em seda, ao examinar os seus olhos escuros, mas do rosto proeminentes 
e nariz a direito, Harry lembrou-se dos nativos americanos. Albus e Aberforth trajavam casacos com golas rendadas a condizer e tinham ambos o cabelo pelos ombros. 
Albus parecia ser alguns anos mais velho, mas, para alm disso, os dois rapazes eram bastante idnticos, pois a fotografia fora tirada antes de Albus ter partido 
o nariz e de ter comeado a usar culos

A famlia apresentava um ar perfeitamente feliz e normal, a sorrir tranquilamente da pgina do jornal O brao da beb Ariana

185

acenava vagamente do xaile. Harry olhou para o cabealho da fotografia e leu:

EXCERTO EXCLUSIVO DA BIOGRAFIA DE ALBUS DUMBLEDORE A SER PUBLICADA EM BREVE,

da autoria de Rita Skeeter

Concluindo que pior que estava j no podia ficar, Harry comeou a ler:

Altiva e orgulhosa, Kendra Dumbledore no suportou continuar em Mould-on-the-Wold depois da deteno amplamente noticiada do marido em Azkaban. Assim, decidiu pegar 
na famlia e mudar-se para Godric's Hollow, a aldeia que viria posteriormente a conquistar afama como cenrio da estranha fuga de Harry Potter ao Quem-Ns-Sabemos.

A semelhana de Mould-on-the-Wold, Godric's Hollow era habitada por um nmero considervel de famlias de feiticeiros, mas, dado que Kendra no conhecia nenhuma 
delas, seria poupada  curiosidade a respeito do crime cometido pelo marido que se vira obrigada a enfrentar na antiga aldeia. Repelindo reiteradamente as aproximaes 
amigveis dos novos vizinhos feiticeiros, no tardou a garantir que a famlia fosse deixada em paz.

"Bateu-me com a porta na cara quando lhe fui dar as boas-vindas e oferecer-lhe uma fornada de bolos de caldeiro caseiros", relata Bathilda Bagshot. "Durante o primeiro 
ano em que eles aqui moraram, eu s costumava ver os dois rapazes. S fiquei a saber que havia uma filha, porque, certa noite, no Inverno a seguir a eles se terem 
mudado para c, andava a apanhar plangentinas ao luar e vi a Kendra a levar a Ariana para o jardim das traseiras. Deu uma volta ao relvado com ela bem agarrada pela 
mo, depois tornou a lev-la para casa. Na altura, no soube o que havia de pensar."

Tudo indica que Kendra deve ter julgado que a mudana para Godric's Hollow lhe dava a oportunidade ideal para esconder Ariana de uma vez para sempre, algo que provavelmente 
j planeava havia anos. A escolha do momento foi significativa. Ariana mal completara sete anos quando desapareceu de vista, e, de acordo com a generalidade dos 
especialistas,  at esta idade que o talento mgico, a existir, se revela. Ningum com vida se recorda de Ariana alguma vez ter dado mostras do mais leve indcio 
deste talento. Parece, portanto, claro que Kendra tomou a deciso de esconder a existncia da filha ao invs de sofrer a

186

vergonha de admitir que tinha procriado uma cepatorta. O afastamento dos amigos e vizinhos que conheciam Ariana facilitaria obviamente a clausura. O segredo da existncia 
de Ariana passou ento a ser guardado por um reduzido nmero de pessoas de confiana, nas quais se incluam os dois irmos, que se esquivavam a qualquer pergunta 
mais embaraosa, recorrendo  resposta que a me lhes ensinara: "A minha irm  demasiado frgil para poder ir  escola."

Na prxima semana: Albus Dumbledore em Hogwarts - os prmios e as pretenses.

Harry enganara-se: o que acabara de ler fizera-o de facto ficar pior. Tornou a virar a sua ateno para a fotografia da famlia aparentemente feliz. Seria verdade? 
Como poderia ele descobrir? Queria ir a Godrics Hollow, mesmo que a sanidade de Bathilda Bagshot no lhe permitisse travar uma conversa com ela; queria visitar o 
local onde tanto ele como Dumbledore tinham perdido entes queridos. Estava a preparar-se para pousar o jornal e pedir a opinio de Ron e Hermione, quando um estalido 
ensurdecedor ecoou a toda a volta da cozinha.

Pela primeira vez em trs dias, Harry esquecera-se completamente de Kreacher. A primeira coisa que lhe veio  ideia foi que Lupin acabara de entrar de rompante na 
cozinha e, por uma fraco de segundo, no conseguiu distinguir a quem pertencia o emaranhado de pernas que, vindo do nada, se contorcia mesmo ao lado da sua cadeira. 
Apressou-se a levantar-se, enquanto Kreacher se desenredava e, dirigindo uma profunda vnia a Harry, crocitava: - O Kreacher voltou com o ladro Mundungus Fletcher, 
Amo.

Mundungus ps-se atabalhoadamente de p e empunhou a varinha; Hermione, contudo, conseguiu ser mais rpida que ele.

- Expelliarmus!

A varinha de Mundungus elevou-se nos ares e Hermione apanhou-a. Desvairado, Mundungus lanou-se na direco das escadas: Ron atirou-se a ele como se fosse um adversrio 
num jogo de rguebi, e Mundungus tombou no pavimento de pedra com um rudo abafado.

- O qu'  que foi? - berrou ele, contorcendo-se para se tentar libertar de Ron. - O qu'  qu' eu fiz? Mandarem um maldito elfo domstico atrs de mim, qual  a vossa, 
qu'  qu' eu fiz, larga-me, larga-me, seno...

187

- No ests em posio de nos ameaares - declarou Harry. Atirou o jornal para o lado, atravessou a cozinha em meia dzia de passos e deixou-se cair de joelhos ao 
lado de Mundungus, que, com um ar perfeitamente aterrorizado, desistiu de se contorcer. Ron levantou-se e ficou a olhar para Harry, de varinha deliberadamente apontada 
ao nariz de Mundungus. Este tresandava a suor ressequido e a tabaco, tinha o cabelo todo emaranhado e a roupa imunda.

- O Kreacher pede desculpa pela demora em trazer o ladro, Amo - crocitou o elfo. - O Fletcher sabe como se esquivar, tem muitos esconderijos e cmplices. No obstante, 
o Kreacher acabou por conseguir encurralar o ladro.

- Fizeste um excelente trabalho, Kreacher - elogiou-o Harry, e o elfo dirigiu-lhe mais uma profunda vnia.

- Muito bem, tenho umas quantas perguntas a fazer-te - disse por sua vez a Mundungus, que comeou de imediato aos gritos:

- Entrei em pnico, e depois? Eu nunca quis ir, sem ofensa, p, mas nunca me ofereceria como voluntrio pra morrer por ti, e quando vi o maldito do Quem-Ns-Sabemos 
a voar de encontro a mini, qualquer um teria dado  sola, eu sempre disse que na' quria ir.

- Para tua informao, nenhum dos outros Desapareceu - salientou Hermione.

- bem, anto devem ser todos uns gandas heris, mas eu c, nunca fingi que 'tava disposto a matar-me por tua causa .

- No estamos interessados em saber por que  que desertaste do Olho-Louco - retorquiu Harry, aproximando um pouco mais a varinha dos olhos papudos e raiados de 
sangue de Mundungus. - Ns j sabamos que s um traste rematado que no merece a nossa confiana.

- bem, anto por qu'  qu' ando a ser perseguido por elfos domsticos? Ou ser qu 'isto  outra vez por causa do raio daquelas malditas taas? J na' tenho nenhuma 
comigo, sen', por mim, bem podiam ficar co' elas todas. .

- Tambm no tem que ver com as taas, embora j estejas mais perto - afirmou Harry. - V l se te calas e me ouves!

Era para ele um alvio ter alguma coisa com que se ocupar, algum a quem pudesse exigir a verdade, por pouca que fosse. A varinha de Harry achava-se agora to prxima 
da cana do nariz de Mundungus que este ficara vesgo de tanto a tentar fixar.

188

- Quando fizeste a limpeza a esta casa e levaste tudo o que era de valor - comeou Harry, mas foi novamente interrompido por Mundungus.

- O Sirius nunca quis saber daquela tralha pra nada... Ouviram-se uns pezinhos a correr pelo cho, um claro de

cobre reluzente, uma pancada sonora e um guincho de aflio: Kreacher precipitara-se na direco Mundungus e acertara-lhe com uma frigideira na cabea.

- Manda-o parar, manda-o parar, ele devia mas  ser preso! - gritou Mundungus, encolhendo-se  medida que Kreacher ttomava a empunhar a frigideira de fundo pesado.

- Kreacher, no! - ordenou-lhe Harry com um berro.

Os braos fininhos de Kreacher tremeram sob o peso da frigideira, ainda empunhada ao alto.

- E que tal ser s mais uma, Amo Harry, para dar sorte? Ron riu-se.

- Ns precisamos dele consciente, Kreacher, mas caso ele precise de ser incentivado, cabe-te a ti fazer as honras da casa - respondeu-lhe Harry.

- Muito obrigado, Amo Harry - disse Kreacher com uma vnia, recuando meia dzia de passos, os seus grandes olhos plidos e cheios de dio ainda fixos em Mundungus.

- Quando levaste desta casa todos os objectos de valor a que conseguiste deitar a mo - recomeou Harry -, tiraste algumas coisas do armrio da cozinha. Entre elas, 
encontrava-se um medalho. - Harry sentiu uma secura repentina na boca; a tenso e o entusiasmo de Ron e Hermione pairavam nitidamente no ar. - Que fim  que lhe 
deste?

- Porqu? - quis saber Mundungus. - E valioso'

- Ainda o tens! - exclamou Hermione

- No, no tem - concluiu Ron astuciosamente. - Est  a perguntar-se se no deveria ter pedido mais dinheiro por ele.

- Mais dinheiro? - retorquiu Mundungus - O problema na' foi esse... Mas tive d' o entregar Na' tive outra escolha.

- No tiveste escolha como?

- Eu 'tava a vender na Diagonal quand' ela se chega ao p de mini e me pergunta s' eu tenho licena pra transaccionar artefactos mgicos. A maldita bisbilhoteira. 
J se 'tava a preparar pra me passar uma multa, mas engraou co' medalho e disse-me qu' o queria pra ela e que por aquela vez me safava sem multa, e qu'ia co' muita 
sorte.

189

- Quem era essa mulher? - inquiriu Harry.

- Sei l, uma feiticeira qualquer do Ministrio. Mundungus reflectiu um pouco, de sobrolho franzido.

- Uma mulher baxinha. C'um lao no alto da cabea.

Fez uma careta e em seguida acrescentou: - Parecia um sapo.

Harry deixou cair a varinha; esta acertou no nariz de Mundungus e lanou-lhe fascas vermelhas para as sobrancelhas, que se inflamaram.

- Aguamenti! - gritou Hermione, e um jacto de gua brotou da ponta da sua varinha, encharcando Mundungus, que de imediato se engasgou e comeou a lanar perdigotos 
pela boca

Harry levantou o olhar e viu o seu prprio choque reflectido nas expresses de Ron e Hermione. As cicatrizes nas costas da sua mo direita pareciam estar novamente 
a formigar.

190

XII

MAGIA E PODER

A medida que Agosto ia chegando ao fim, o quadrado de relva mal cuidada no centro de Gnmmauld Place foi mirrando ao sol at ficar castanho e ressequido. Os residentes 
do nmero doze nunca eram vistos por nenhum dos habitantes das casas vizinhas, e o mesmo se aplicava ao prprio nmero doze. Os Muggles que moravam em Gnmmauld Place 
havia muito que tinham aceitado o curioso erro na numerao que ocasionara que ao nmero onze se seguisse imediatamente o treze.

E, no entanto, a praa vinha agora a atrair uma correnteza de visitantes a quem a anomalia parecia deixar profundamente intrigados Era raro passar-se um dia em que 
a Gnmmauld Place no chegasse uma ou outra pessoa com o nico objectivo, ou pelo menos assim parecia, de se debruar sobre os parapeitos dos nmeros onze e treze, 
a examinar a juno entre ambas as casas. Os curiosos nunca se repetiam, embora parecessem partilhar da mesma averso por roupas normais. A maioria dos londrinos 
que passava por eles estava habituada a excntricos e no fazia grande caso deles, embora, de quando em vez, um deitasse uma olhadela por cima do ombro, admirado 
por ver algum com mantos to compridos com o calor que fazia.

Os espies no pareciam estar a retirar grande proveito da sua viglia. Ocasionalmente, um ou outro precipitava-se em frente, todo entusiasmado, como se finalmente 
tivesse visto algo de interessante, mas logo se deixava abater com ar desapontado.

No dia 1 de Setembro, havia mais gente  espreita na praa que nunca. Meia dzia de indivduos com longos mantos mantinham-se silenciosos e vigilantes, como sempre 
de olhos postos nas casas com os nmeros onze e treze; contudo, aquilo por que esperavam continuava a escapar-lhes.  medida que a noite se aproximava, trazendo 
consigo uma chuva inesperada e batida a vento pela primeira vez em semanas, ocorreu um desses inexplicveis momentos em que eles pareciam ter visto algo de interessante 
O homem de rosto contorcido apontou e o seu companheiro mais

191

prximo, um indivduo plido e atarracado, avanou subitamente; porm, no tardaram a recuperar o seu estado de inactividade, com ar frustrado e desiludido.

Entretanto, no interior do nmero doze, Harry acabara de entrar no hall. Por pouco no perdera o equilbrio quando Apareceu no degrau mesmo junto  porta da rua, 
receando que os Devoradores da Morte lhe tivessem entrevisto o cotovelo, momentaneamente exposto. Fechando a porta da rua com todo o cuidado, despiu o Manto da Invisibilidade, 
dobrou-o sobre o brao e percorreu o hall sombrio at  porta que dava acesso  cave, com um exemplar surripiado d' O Profeta Dirio na mo.

Foi cumprimentado pelo sussurro do costume: "Severus Snape?", o vento glido tornou a fustig-lo e a sua lngua enrolou-se momentaneamente.

- No fui eu quem te matou - apressou-se a dizer, logo que ela se desenrolou, sustendo em seguida a respirao, enquanto o espectro poirento surgido por artes mgicas 
explodia. Esperou at chegar a meio da escada, fora do alcance dos ouvidos de Mrs. Black e livre da nuvem de p, antes de chamar: - Trago novidades, e acho que no 
vos vo agradar.

A cozinha estava praticamente irreconhecvel. No havia superfcie que no reluzisse: panelas e frigideiras de cobre tinham sido polidas at adquirirem um halo rosado, 
o tampo da mesa de madeira brilhava, os copos e os pratos j postos para o jantar cintilavam  luz duma lareira bem viva, sobre a qual se via um caldeiro a ferver. 
Todavia, a diferena mais dramtica na cozinha era o elfo domstico que agora corria na direco de Harry, enrolado numa toalha branca como a neve, os tufos de plo 
das orelhas mais limpos e fofos que algodo, o medalho de Regulus a saltitar-lhe no peito franzino.

- Descalar os sapatos, se faz o favor, Amo Harry, e mos lavadas antes do jantar - crocitou Kreacher, pegando no Manto da Invisibilidade e afastando-se a passo 
desajeitado para o pendurar num cabide que estava na parede, ao lado de outras roupas antiquadas que tinham sido acabadas de lavar.

- O que  que aconteceu? - indagou Ron em ttom apreensivo. Ele e Hermione tinham estado debruados sobre um molho de apontamentos rabiscados e mapas desenhados  
mo que cobriam completamente uma das extremidades da enorme mesa da cozinha, mas agora dirigiam o olhar para Harry, que se acercava deles e atirava o jornal para 
cima dos pergaminhos espalhados.

192

Uma grande fotografia de um homem de nariz adunco e cabelo preto que lhes era familiar olhava-os fixamente, por debaixo de um cabealho onde se lia: SEVERUS SNAPE 
CONFIRMADO COMO DIRECTOR DE HOGWARTS.

- No! - exclamaram Ron e Hermione em unssono. Hermione antecipou-se; agarrou no jornal e comeou a ler o

artigo anexo em voz alta:

- "Severus Snape, h muito professor de Poes da Escola de Magia e Feitiaria de Hogwarts, foi hoje nomeado Director, no seguimento da mais importante de vrias 
mudanas no corpo docente na vetusta escola. No seguimento da demisso da anterior professora de Estudos Sobre Muggles, Alecto Carrow ir assumir esse posto enquanto 
o seu irmo, Amycus, ocupar o cargo de professor de Defesa contra a Magia Negra

""Aproveito a oportunidade para defender os nossos melhores valores e tradies mgicos .." - Como perpetrar homicdios ou cortar as orelhas s pessoas, por exemplo, 
imagino! O Snape, Director! O Snape no gabinete do Dumbledore... Valham-me as cuecas de Merlin! - guinchou Hermione, sobressaltando quer Harry, quer Ron. Levantou-se 
de um pulo da mesa e saiu disparada da cozinha, gritando pelo caminho: - No demoro nada!

- As cuecas de Merhn? - repetiu Ron, com ar divertido. - Deve estar mesmo perturbada. - Puxou o jornal para junto de si e comeou a ler o artigo relativo a Snape.

- Os outros professores no vo admitir nada disto. Tanto a McGonagall, como o Flitwick e a Sprout conhecem a verdade, sabem como o Dumbledore morreu. No iro aceitar 
o Snape como Director. E afinal quem so estes Carrow?

- Devoradores da Morte - esclareceu Harry. - Vm fotografias deles l dentro. Estavam no cimo da torre quando o Snape matou o Dumbledore, por isso esto entre amigos. 
E - prosseguiu Harry em ttom amargo, puxando uma cadeira para se sentar - parece-me que os outros professores no vo ter outra alternativa seno ficar. Se o Ministrio 
e o Voldemort se encontram por detrs do Snape, ser uma questo de escolherem entre ficarem na escola a dar aulas e uns bons anitos em Azkaban... Isto, se forem 
com sorte. Acho que eles vo optar por ficar para protegerem os alunos.

Kreacher abeirou-se muito alvoroado da mesa com uma enorme terrina nas mos e, com a ajuda duma concha, comeou a encher de sopa umas malgas imaculadas, enquanto 
assobiava entre dentes.

193

- Obrigado, Kreacher - disse Harry, virando O Profeta ao contrrio para no ser obrigado a olhar para a cara de Snape. - bem, pelo menos a partir de agora saberemos 
exactamente onde  que o Snape se encontra.

Comeou a levar colheres de sopa  boca. A qualidade dos cozinhados de Kreacher melhorara drasticamente desde que lhe fora oferecido o medalho de Regulus: aquela 
sopa de alho-francs era a melhor que Harry alguma vez provara.

- Ainda h imensos Devoradores da Morte em redor da casa - informou Ron enquanto comia -, mais que de costume. At parece que esto  espera de nos verem sair de 
casa com os nossos males da escola para irmos apanhar o Expresso de Hogwarts.

Ron deitou uma olhadela ao relgio.

- Tenho estado todo o dia a pensar nisso. Partiu vai para seis horas. E esquisito no viajarmos nele, no achas?

Na sua imaginao, Harry teve a impresso de ver a mquina a vapor vermelha como na ocasio em que ele e Ron a tinham seguido pelo ar, bruxuleando por entre campos 
e montes, como uma lagarta escarlate a ondular. Teve a certeza de que, nesse momento, Ginny, Neville e Luna se achavam na mesma carruagem, talvez a perguntar-se 
onde seria que ele, Ron e Hermione se encontravam, enquanto debatiam a melhor maneira de sabotar o novo regime de Snape.

- Por pouco eles no me viram entrar, ainda agora - disse Harry. - Aterrei mal no degrau, e o Manto escorregou-me.

- Acontece-me sempre isso. Oh, aqui est ela - acrescentou Ron, esticando o pescoo e virando-se no assento para olhar para Hermione, que vinha nesse instante a 
entrar na cozinha. - Pela tanga do Merlin, afinal que veio a ser aquilo?

- Lembrei-me de uma coisa - disse Hermione, ofegante. Trazia na mo um grande retrato emoldurado, que pousou no

cho antes de ir buscar a sua malinha de missangas ao guarda-loua da cozinha. Abriu-a e encafuou o retrato l dentro, e este, no obstante o facto bvio de ser 
demasiado grande para caber dentro da minscula mala, no tardou a desaparecer, para se juntar a tantas outras coisas, nas suas vastas profundezas.

- O Phineas Nigellus - explicou-lhes Hermione, atirando a mala para cima da mesa com o habitual estrondo sonoro e ressoante.

- Desculpa? - indagou Ron, mas Harry compreendeu. A imagem de Phineas Nigellus Black era capaz de se mudar do seu retrato em Grimmauld Place para o que se achava 
pendurado no

194

gabinete do Director em Hogwarts: a sala circular no alto da torre onde Snape estaria com toda a certeza sentado nesse momento, na posse triunfante da coleco de 
delicados instrumentos mgicos de prata de Dumbledore, do Pensatrio de pedra, do Chapu Seleccionador, bem como, a menos que tivesse sido levada para outro stio, 
da espada de Gryffindor.

- O Snape pode mandar o Phineas Nigellus revistar esta casa em seu lugar - elucidou-o Hermione enquanto se ttomava a sentar. - Mas ele que tente agora, tudo o que 
o Phineas Nigellus conseguir ver ser o fundo da minha mala.

- Excelente ideia! - exclamou Ron com ar de admirao.

- Obrigada - sorriu Hermione, puxando a sopa na sua direco. - Ento, Harry, e que mais  que aconteceu hoje?

- Nada - respondeu-lhe o amigo. - Fiquei sete horas a vigiar a entrada do Ministrio. Nem sinal dela. Mas vi o teu pai, Ron. Pareceu-me ptimo.

Ron assentiu com a cabea num gesto de agrado perante as novidades. Tinham acordado que qualquer tentativa para tentar comunicar com Mr. Weasley enquanto ele entrava 
ou saa do Ministrio seria por de mais arriscada, uma vez que vinha sempre acompanhado por outros funcionrios do Ministrio. Apesar de tudo, v-lo, nem que fosse 
de relance e ainda que ele tivesse um aspecto tenso e ansioso, nunca deixava de lhes proporcionar uma certa tranquilidade.

- O meu pai sempre nos disse que a maior parte das pessoas que trabalha no Ministrio se serve da Rede de P de Floo para chegar ao emprego - afirmou Ron. -  por 
isso que no temos visto a Umbridge: ela nunca vai a p, acha-se demasiado importante para isso.

- E ento aquela feiticeira velha e esquisita e o feiticeiro baixinho de manto azul-escuro? - interpelou-o Hermione.

- Ah, j sei, o tipo da Manuteno Mgica - concluiu Ron.

- Como  que tu sabes que ele trabalha na Manuteno Mgica? - quis saber Hermione, a colher de sopa suspensa a meio caminho entre a malga e a boca.

- O meu pai contou-me que todos os funcionrios da Manuteno Mgica usam mantos azuis-escuros.

- Mas tu nunca nos disseste isso!

Hermione deixou cair a colher e puxou para junto de si o molho de apontamentos e mapas que ela e Ron estavam a examinar quando Harry entrara na cozinha.

195

- No diz aqui nada a respeito de mantos azuis-escuros, rigorosamente nada! - declarou ela, virando febrilmente as pginas.

- E que importncia tem isso?

- Ron, tudo tem importncia! Se queremos entrar no Ministrio sem denunciar a nossa presena num momento em que eles no podem deixar de estar atentos aos intrusos, 
todos os pormenores, por mais insignificantes que sejam, contam! J falmos disto vezes sem conta, quer dizer, que vantagem h em fazermos todas estas expedies 
de reconhecimento, se tu nem sequer te ds  maada de nos contar...

- Caramba, Hermione, esqueci-me de um pormenor insignificante...

- Mas tu tens conscincia, espero eu bem, de que no h lugar mais perigoso no mundo para ns que o Ministrio da M...

- Acho que devamos tentar entrar l amanh - declarou Harry.

- Amanh' - repetiu Hermione - No ests a falar a srio, pois no, Harry?

- Estou, pois - confirmou ele. - Estou convencido de que, nem que passemos outro ms a vigiar o Ministrio, conseguiremos ficar mais bem preparados que agora. Quanto 
mais adiarmos, mais longe o medalho poder ficar do nosso alcance. J h uma boa probabilidade de a Umbridge o ter deitado fora; aquilo no se abre nem por nada.

- A menos que - contraps Ron -, ela tenha descoberto uma maneira de o abrir e esteja agora possuda.

- No caso dela, no faria qualquer diferena, ela sempre foi to m - ripostou Harry, encolhendo os ombros.

Hermione estava a morder o lbio, mergulhada em reflexo

- Ns j sabemos tudo o que importa saber - prosseguiu Harry, dirigindo-se a Hermione. - Sabemos que eles proibiram as Aparies para dentro e para fora do Ministrio. 
Sabemos que apenas os membros mais importantes do Ministrio tm autorizao para ligar as respectivas casas  Rede de P de Floo, porque o Ron ouviu aqueles Inominveis 
a queixarem-se disso. E temos uma vaga ideia de onde se situa o gabinete da Umbridge, por causa do que ouviste aquele fulano da barba a dizer ao amigalhao...

- "Se precisares de mim, estou no Nvel Um, a Dlres pediu para falar comigo" - recitou Hermione de imediato

- Exactamente - disse Harry - E ns sabemos que eles usam aquelas fichas esquisitas, ou l o que so, porque vi a feiticeira a pedir uma emprestada ao amigo...

196

- Mas no temos nenhuma!

- Se o plano der resultado, haveremos de ter! - prosseguiu Harry com toda a calma.

- No sei, Harry, olha que no sei . H uma imensido de coisas que podem dar para o torto,  tudo uma questo de sorte...

- Isso continuar a ser verdade mesmo que passemos mais trs meses a prepar-lo - insistiu Harry. -  tempo de agir.

Pelas expresses de Ron e Hermione, percebia perfeitamente que os amigos estavam com medo, ele prprio tambm no se sentia particularmente confiante e, no entanto, 
tinha a certeza de que chegara a altura de passar o plano  prtica.

Durante as ltimas quatro semanas, tinham envergado  vez o Manto da Invisibilidade e vigiado a entrada oficial do Ministrio, que Ron, graas a Mr. Weasley, conhecia 
desde a infncia. Tinham seguido de perto funcionrios do Ministrio no momento em que os viam a entrar, ouvido as suas conversas s escondidas e, atravs de observao 
atenta, ficado a saber quais eram os que chegavam sempre sozinhos, todos os dias  mesma hora. De quando em vez, aproveitavam a oportunidade para surripiar O Profeta 
Dirio da pasta de algum deles. Pouco a pouco, tinham vindo a elaborar os mapas rudimentares e os apontamentos que se achavam agora empilhados diante de Hermione.

- Muito bem - disse Ron lentamente -, admitamos que nos decidimos por amanh . Eu acho que devamos ser s eu e o

Harry.

- Oh, no comeces com isso outra vez! - suspirou Hermione

- Pensei que esse assunto j estava arrumado.

- Uma coisa  andar a espiar  entrada debaixo do Manto, outra, muito diferente,  isto, Hermione. - Ron espetou um dedo num exemplar d'O Profeta Dirio datado de 
dez dias antes

- Tu ests na lista dos feiticeiros de origem Muggle que no se apresentaram ao interrogatrio!

- E tu devias estar a morrer de espatergroitite n'A Toca! Se algum de ns no devia ir,  o Harry, que tem a cabea a prmio a troco de dez mil Galees..

- Pronto, ento eu fico - decidiu Harry. - Se conseguirem derrotar o Voldemort, no se esqueam de me avisar, est bem?

Enquanto ouvia Ron e Hermione a rir-se, Harry sentiu uma dor aguda na cicatriz da testa. A sua mo precipitou-se para l, mas ao ver os olhos de Hermione estreitarem-se, 
tentou deixar passar o momento, afastando o cabelo dos olhos.

197

- bem, se formos os trs, teremos de Desaparecer separadamente - estava Ron a dizer. - J no cabemos todos debaixo do Manto.

A cicatriz de Harry doa-lhe cada vez mais. Levantou-se. Kreacher apressou-se a acorrer junto dele.

- O Amo no acabou de comer a sua sopa, o Amo tem preferncia pelo guisado, que est muito saboroso, ou deseja j passar  tarte de melao que  to do seu agrado?

- Obrigado, Kreacher, eu volto j... ha... da casa de banho. Consciente de que Hermione o observava com ar desconfiado,

Harry precipitou-se escada acima at ao hall e em seguida at ao primeiro patamar, onde correu para a casa de banho e trancou a porta atrs de si. A gemer de dores, 
foi a cambalear at ao lavatrio preto com as ttomeiras em forma de serpentes de boca aberta, e fechou os olhos...

Percorria furtivamente uma rua ao crepsculo. Os prdios de cada um dos lados tinham empenas de madeira; pareciam casas de po de gengibre.

Acercou-se de uma delas e no tardou a ver a lividez do seu prprio dedo comprido contra a porta. Bateu, sentindo-se dominado por uma excitao crescente...

A porta abriu-se e deparou-se com uma mulher sorridente. A consternao ia tomando conta dela  medida que olhava para a cara de Harry, a boa disposio desvanecia-se, 
substituda pelo pavor...

- Gregorovitch? - inquiriu uma voz alta e fria.

A mulher abanou a cabea; estava a tentar fechar a porta. Uma mo lvida segurou-a, impedindo-a de o deixar na rua...

- Eu quero o Gregorovitch!

- Er ivohnt hier nicht mehf - gritou ela, abanando a cabea. - Ele no morar aqui! Ele no morar aqui! Eu no conhecer ele!

Abandonando a tentativa de fechar a porta, a mulher comeou a recuar para o fundo do corredor escuro, e Harry seguiu-a, avanando furtivamente de encontro a ela, 
a sua mo de longos dedos j empunhando a varinha.

- Onde  que ele est?

- Das weifi ich nicht!4 Ele mudar casa! Eu no saber, eu no saber!

1 Em alemo no original: Eleja no mora aqui. (NT)

4 Em alemo no original: Isso no sei. (NT)

198

Ele empunhou a varinha. Ela gritou. Duas crianas precipitaram-se para o corredor. Ela tentou proteg-las com os braos. Fez-se um jacto de luz verde...

- Harry! HARRY!

Abriu os olhos: estava tombado no cho. Hermione batia outra vez com os punhos na porta.

- Harry, abre!

Soltara um grito, sabia disso. Ps-se de p e destrancou a porta; Hermione entrou de rompante, recuperou o equilbrio e olhou em seu redor com ar desconfiado. Ron 
vinha mesmo atrs dela e, amedrontado, apontava agora a varinha aos cantos da casa de banho fria.

- O que  que estavas a fazer? - interrogou-o Hermione em ttom srio.

- O que  que te parece que eu estava a fazer? - retorquiu Harry, com um laivo de bravata.

- Estavas a gritar como um louco desvairado! - afirmou Ron.

- Ah, pois... Devo ter passado pelas brasas ou...

- Harry, por favor, no insultes a nossa inteligncia - disse Hermione, inspirando profundamente. - Ns sabemos que a cicatriz te comeou a doer l em baixo, e ests 
branco como a cal.

Harry sentou-se na borda da banheira.

- Pronto. Acabei de ver o Voldemort a matar uma mulher. A esta hora, j deve ter liquidado a famlia inteira. E sem necessidade nenhuma. Foi outra vez como o Cedric, 
eles estavam l por

acaso e...

- Harry, no podes permitir que isso te continue a acontecer! - gritou Hermione, a sua voz a ecoar pela casa de banho. - O Dumbledore queria que tu usasses a Oclumancia. 
Ele achava que a ligao era perigosa... O Voldemort pode servir-se de ti, Harry! De que vale conseguires v-lo a matar e a torturar gente, que vantagem poder haver 
nisso?

- Porque assim eu sei o que  que ele anda a tramar - salientou Harry.

- Ento nem sequer vais tentar impedi-lo de se ligar a ti?

- Hermione, eu no posso fazer isso. Sabes que sou uma ndoa a Oclumancia, nunca lhe apanhei o jeito.

- Nunca te empenhaste a srio! - protestou ela com veemncia. - No te percebo, Harry... Ser possvel que gostes de ter essa ligao ou relao especial ou... ou 
l o que ...

Hermione vacilou perante o olhar que Harry lhe fez ao levantar-se.

199

- Que goste? - retorquiu ele em voz sumida. - E tu, gostarias?

- Eu... no. . Desculpa, Harry, eu no queria...

- Eu abomino-a, abomino o facto de ele conseguir entrar dentro de mim, de me obrigar a v-lo nos momentos em que  mais cruel. Mas vou usar isso em meu proveito.

- O Dumbledore...

- Esquece o Dumbledore. A opo  minha, no  de mais ningum. Quero descobrir por que motivo anda ele atrs do Gregorovitch.

- De quem?

-  um fabricante de varinhas estrangeiro - esclareceu Harry. - Foi ele quem fez a varinha do Krum, e o Krum acha que ele  o mximo.

- Mas, de acordo com o que tu prprio dizes - obstou Ron -, o Voldemort tem o Ollivander preso algures. Se j tem um fabricante de varinhas, para que  que vai precisar 
de outro?

- Talvez ele seja da mesma opinio que o Krum, talvez ache que o Gregorovitch  melhor.. Ou ento convenceu-se de que o Gregorovitch ser capaz de lhe explicar o 
que a minha varinha fez quando ele me andava a perseguir, porque o OUivander no sabia.

Harry olhou de relance para o espelho rachado e coberto de p e viu Ron e Hermione a trocarem olhares cpticos nas suas costas.

- Harry, tu no te cansas de falar no que a tua varinha fez - salientou Hermione -, mas, na verdade, quem fez aquilo foste tu! Por que  que insistes tanto em no 
assumires a responsabilidade pelo poder que possuis?

- Porque eu sei que no fui eu! E o Voldemort tambm sabe, Hermione! Ambos sabemos o que foi que, de facto, aconteceu!

Fitaram-se irritados. Harry percebeu que no tinha conseguido convencer Hermione e que esta estava nesse momento a reunir contra-argumentos, tanto contra a sua teoria 
a respeito da varinha, como contra o facto de ele permitir a si prprio o acesso  mente de Voldemort. Para seu grande alvio, Ron interveio:

- Deixa l isso - aconselhou-a. -  l com ele. E, se vamos amanh ao Ministrio, no acham que seria melhor revermos o plano?

A contragosto, como os amigos no deixaram de notar, Hermione acedeu a pr o assunto de lado, embora Harry tivesse a certeza absoluta de que ela o iria atacar novamente 
 primeira

200

oportunidade. Entretanto, regressaram  cozinha, onde Kreacher lhes serviu guisado e tarte de melao.

Nessa noite, quando se foram deitar, era j tarde; tinham passado horas e horas a rever o plano vezes sem conta, at serem capazes de o recitar de cor e salteado 
uns aos outros. Harry, que dormia agora no quarto de Sirius, deixou-se ficar estendido em cima da cama com a varinha acesa apontada para a velha fotografia que retratava 
o pai, Sirius, Lupin e Pettigrew, a murmurar o plano para si prprio durante mais dez minutos. Todavia, quando apagou a varinha, no era em Poo Polissuco, Gomas 
Isyvmito nem nos mantos azuis-escuros da Manuteno Mgica que ele pensava, mas sim em Gregorovitch, o fabricante de varinhas, e quanto tempo teria esperana de 
ficar escondido, enquanto Voldemort o procurava com tanta determinao.

A madrugada pareceu seguir-se  meia-noite com uma pressa indecente.

- Ests com um aspecto pssimo - foi o cumprimento de Ron, quando entrou no quarto para acordar Harry.

- J no ser por muito mais tempo - retorquiu Harry por entre bocejos.

Foram dar com Hermione l em baixo, na cozinha. Kreacher estava a servir-lhe caf e pezinhos quentes, enquanto ela ostentava a expresso levemente manaca que Harry 
associava s revises para os exames.

- Mantos - disse ela num sussurro, cumprimentando-os com um movimento nervoso de cabea e continuando a vasculhar dentro da malinha de missangas -, Poo Polissuco... 
Manto da Invisibilidade... Detonadores de Chamarizes... cada um de vocs devia levar uns quantos, no v dar-se o caso de.. Gomas Isyvmito, Nogado Sanguechuva Nasal, 
Orelhas Extensveis...

Engoliram o pequeno-almoo  pressa e correram escada acima, deixando Kreacher a despedir-se deles com uma vnia e a prometer-lhes que encontrariam bife e empado 
de rim  sua espera quando regressassem.

- Abenoado - comentou Ron em ttom afectuoso. - S de pensar que eu costumava imaginar que lhe cortava a cabea e a pendurava na parede.

Encaminharam-se para o degrau da porta da rua com imenso cuidado: avistaram dois Devoradores da Morte de olhos inchados a vigiar a casa do outro lado da praa envolta 
na neblina. Her

201

Hermione foi a primeira a Desaparecer com Ron, e depois voltou para levar Harry consigo.

Aps o habitual breve lapso de escurido e quase-sufoco, Harry encontrou-se na pequena viela onde estava previsto que a primeira fase do plano teria incio. Ainda 
estava deserta,  excepo de dois grandes caixotes do lixo; em geral, os funcionrios do Ministrio s comeavam a aparecer ali por volta das oito da manh.

- Muito bem - declarou Hermione consultando o relgio. - Ela deve chegar dentro duns cinco minutos. Depois de a ter Atordoado...

- Hermione, ns j sabemos - interrompeu-a Ron em tom decidido. - E julguei que tnhamos de abrir a porta antes de ela chegar?

Hermione soltou um guincho.

- J me ia esquecendo! Recuem...

Apontou a varinha  porta cortafogo trancada a cadeado e coberta de graffitt de alto a baixo, que se abriu com um estrpito explosivo. O corredor escuro por detrs 
dela conduzia, tal como j sabiam atravs das suas minuciosas expedies de reconhecimento, a um teatro vazio. Hermione tornou a puxar a porta na sua direco, para 
dar a impresso de que continuava fechada.

- E agora - acrescentou ela, dando meia volta para ficar de frente para os amigos -, tornamos a pr o Manto...

- ...e ficamos  espera - concluiu Ron em seu lugar enquanto o atirava por cima da cabea de Hermione como quem atira um leno por cima de um periquito e revirava 
os olhos a Harry.

Ainda no tinha decorrido um minuto, ouviu-se um leve estalo e uma feiticeira do Ministrio, baixinha e com cabelo grisalho ondulado, Apareceu a curta distncia 
dos trs, pestanejando ligeiramente devido  sbita claridade; o sol acabara de surgir de detrs de uma nuvem. Ela, porm, mal teve tempo de desfrutar do calor inesperado, 
pois Hermione de imediato a atingiu no peito com um Feitio de Atordoar silencioso e que a fez cair redonda no cho.

- bom trabalho, Hermione - congratulou-se Ron, surgindo de detrs de um caixote do lixo colocado  porta do teatro, enquanto Harry se desenvencilhava do Manto da 
Invisibilidade. Juntos, levaram a pequena feiticeira para o corredor escuro que dava acesso  parte detrs do teatro. Hermione arrancou meia dzia de cabelos da 
cabea da feiticeira e deitou-os para dentro de um frasco de Poo Polissuco lamacenta que acabara de ir buscar

 mala de missangas. Ron estava a vasculhar na mala de mo da feiticeira baixinha.

- Chama-se Mafalda Hopkirk - anunciou, lendo um pequeno carto que identificava a vtima como assistente do Departamento de Uso Imprprio da Magia. -  melhor levares 
isto contigo, Hermione, e aqui tens as fichas.

Entregou-lhe uma srie de pequenas fichas douradas, todas elas com o acrnimo M. D. M. gravado em relevo, que tirara da mala da feiticeira.

Hermione bebeu a Poo Polissuco, que apresentava agora a agradvel tonalidade de um heliotrpio, e foi uma questo de segundos at que surgisse diante deles a dupla 
de Mafalda Hopkirk. Enquanto ela tirava os culos a Mafalda e os punha, Harry consultou o relgio.

- Estamos a ficar atrasados, o Senhor Manunteno Mgica chegar a qualquer momento.

Correram a fechar a porta atrs da qual estava escondida a verdadeira Mafalda. Harry e Ron taparam-se com o Manto da Invisibilidade, mas Hermione deixou-se ficar 
visvel,  espera. Instantes mais tardes, ouviu-se novo estalo e um feiticeiro baixinho e com ar de doninha apareceu diante dos trs.

- Oh, bons dias, Mafalda.

- bom dia! - retribuiu Hermione com voz trmula. - Como ests tu hoje'

- Para dizer a verdade, podia estar bem melhor - respondeu o pequeno feiticeiro, que tinha um ar perfeitamente abatido.

 medida que Hermione e o feiticeiro se encaminhavam para a rua principal, Harry e Ron seguiram furtivamente atrs de ambos.

- Lamento ver-te to em baixo - disse Hermione, falando com voz firme por cima do pequeno feiticeiro, enquanto ele lhe tentava expor os seus problemas; era essencial 
que no o deixassem chegar  rua - Olha, tens aqui um rebuado.

- Ha' Oh, no, obrigado.

- Fao questo! - insistiu Hermione em tom agressivo, sacudindo o saco de gomas diante dos olhos dele. com um ar um tanto ou quanto alarmado, o pequeno feiticeiro 
tirou um.

O efeito foi instantneo No momento em que a goma lhe tocou na lngua, comeou a vomitar de tal maneira que nem reparou quando Hermione lhe arrancou um punhado de 
cabelo do cocuruto.

202

203

- Oh, que horror! - exclamou ela, enquanto ele salpicava a viela toda de vmito. - Talvez fosse melhor tirares o dia de folga!

- No... no! - Engasgou-se e teve nova ameaa de vmito, tentando seguir o seu caminho apesar de mal se conseguir aguentar nas pernas. - Eu tenho... eu hoje... 
tenho de ir...

- Mas isso  um perfeito disparate! - insurgiu-se Hermione, alarmada. - No podes ir trabalhar nesse estado... Acho que devias ir a So Mungo para eles l verem 
o que  que tens!

O feiticeiro caiu de gatas no cho, arquejante, ainda a tentar rastejar at  rua principal.

- No podes ir trabalhar assim! - bradou-lhe Hermione. Por fim, ele pareceu aceitar a inevitabilidade das palavras dela.

Apoiando-se a uma Hermione repugnada para tornar a pr-se de p, girou e Desapareceu, deixando atrs de si apenas a pasta que Ron lhe tirara da mo pelo caminho 
e alguns restos voadores de vmito.

- Agh - disse Hermione enojada, segurando na bainha do manto para evitar as poas de porcaria. - Mais valia t-lo Atordoado tambm; teria feito muito menos nojice.

- L isso  verdade - assentiu Ron, saindo de debaixo do Manto com a pasta do feiticeiro na mo -, mas eu ainda acho que um monte de corpos inconscientes teria atrado 
demasiada ateno. Gosta mesmo de trabalhar, ele, no repararam? Agora d c o cabelo e a Poo!

Passados dois minutos, Ron aparecia diante deles, to baixo e parecido com uma doninha como o feiticeiro enjoado, e vestido com o manto azul-escuro que ele trazia 
dobrado dentro da pasta.

- A ver pela vontade que tinha de ir para o emprego,  estranho que hoje no viesse j com ele vestido, no acham? bom, adiante... De acordo com a etiqueta que tenho 
nas costas, a partir de agora passo a chamar-me Reg Cattermole.

- Agora esperas aqui por ns - disse Hermione a Harry, que continuava oculto debaixo do Manto da Invisibilidade - que ns j voltamos com uns cabelos para ti.

Harry teve de esperar dez minutos, embora tivesse a impresso de que fora muito mais tempo, escondido sozinho na viela toda suja de vmito, ao lado da porta por 
detrs da qual se encontrava a Mafalda Atordoada. Finalmente, Ron e Hermione tornaram a aparecer.

- No sabemos de quem se trata - confessou Hermione, entregando a Harry vrios cabelos pretos encaracolados -, mas

voltou para casa, porque no parava de sangrar do nariz! Aqui tens, ele  bastante alto, vais precisar de roupas maiores...

Tirou da bolsa um conjunto de roupa velha que Kreacher lhes lavara e engomara, e Harry retirou-se para beber a Poo e mudar de indumentria.

Logo que deu por finda a dolorosa transformao, viu-se com mais de um metro e oitenta de altura e, ao que depreendia dos seus braos musculosos, era muitssimo 
bem constitudo. Tambm tinha barba. Guardando o Manto da Invisibilidade e os culos dentro da sua nova indumentria, Harry reuniu-se aos companheiros.

- Caramba, ests de meter medo - comentou Ron, levantando os olhos para Harry, que se elevava acima dele.

- Toma l uma ficha da Mafalda - disse Hermione a Harry - e vamos embora, so quase nove horas.

Saram da viela todos juntos. Cinquenta metros adiante, na rua movimentada, depararam-se com barreiras de espiges de ferro preto que ladeavam dois lances de escadas, 
um a indicar Cavalheiros, o outro, Senhoras.

- Ento, at j - disse-lhes Hermione muito nervosa, comeando a descer a medo os degraus destinados s senhoras. Harry e Ron juntaram-se a um grupo de homens vestidos 
com roupas esquisitas que estavam a descer para o que se assemelhava a uma vulgar casa de banho pblica do metropolitano, decorada com azulejos pretos e brancos 
encardidos.

- bom dia, Reg! - cumprimentou-o outro feiticeiro de manto azul-escuro, enquanto entrava num cubculo depois de enfiar a ficha dourada numa ranhura que havia na 
porta. - Mas que grande chatice, no achas? Obrigarem-nos a todos a entrarmos no emprego desta maneira! Quem  que eles esperam que aparea por c, o Harry Potter?

O feiticeiro soltou uma estrondosa gargalhada perante a sua prpria piada e Ron forou um riso abafado.

- Pois  - anuiu ele -, que estupidez!

E ele e Harry entraram em cubculos adjacentes.

Tanto da esquerda como da direita lhes chegava o barulho de autoclismos a serem puxados. Harry agachou-se e espreitou pela fresta por baixo do cubculo, mesmo a 
tempo de ver um par de botas a entrar na sanita do lado. Olhou para a esquerda, e deparou-se com Ron a pestanejar na sua direco.

- Temos de nos meter na sanita e puxar o autoclismo? - sussurrou-lhe o amigo.

204

205

- Parece que sim - sussurrou-lhe Harry em resposta; a voz saiu-lhe em tom grave e profundo.

Puseram-se ambos de p. Sentindo-se excepcionalmente ridculo, Harry l se enfiou dentro da sanita

De imediato percebeu que tinha tomado a atitude certa, embora tivesse a sensao de estar dentro de gua, os sapatos, os ps e as roupas continuavam secos. Estendeu 
uma mo, puxou a corrente e no tardou a ser sugado por uma pequena conduta, emergindo numa lareira do Ministrio da Magia.

Levantou-se desajeitadamente; tinha muito mais corpo que aquele a que estava acostumado. O grande trio parecia mais escuro que Harry se recordava. Anteriormente, 
o centro fora ocupado por uma fonte dourada, que projectava reflexos tremeluzentes de luz para o pavimento de madeira encerado e para as paredes. Agora o cenrio 
era dominado por uma gigantesca esttua de pedra negra. Era deveras assustadora, aquela enorme escultura de um feiticeiro e de uma feiticeira sentados em tronos 
de pedra elaboradamente esculpidos, olhando com ar de superioridade para os funcionrios do Ministrio que saam aos trambolhes das lareiras l em baixo. Em letras 
com cerca de trinta centmetros de altura gravadas na base da esttua lia-se: MAGIA E PODER.

Harry foi atingido na barriga das pernas por uma forte pancada: outro feiticeiro acabara de ser projectado da lareira atrs dele.

- Sai do caminho, and... Oh, desculpa l, Runcom! Nitidamente assustado, o feiticeiro calvo afastou-se a toda a

pressa. Ao que tudo indicava, o homem que Harry personificava, Runcom, era intimidante.

- Psst' - chamou-o uma voz e, ao virar-se, deparou-se com uma feiticeira franzina e baixinha e o feiticeiro com cara de doninha da Manuteno Mgica que lhe acenavam 
do outro lado da esttua. Harry juntou-se de imediato a ambos.

- Chegaste bem? - perguntou Hermione a Harry num murmrio.

- No, ainda est enfiado na sanita - ripostou Ron.

- Oh, que engraado..  horrvel, no achas? - tornou ela a virar-se para Harry, que estava de olhar fixo na esttua - J reparaste em cima do que  que eles esto 
sentados?

Harry observou com mais ateno e constatou que aquilo que  primeira vista tomara por pedras esculpidas com fins decorativos eram, na verdade, amontoados de seres 
humanos: centenas e centenas de corpos despidos, homens, mulheres e crianas, todos eles

206

com feies deveras repugnantes e idiotas, contorcidos e comprimidos para suster o peso dos feiticeiros elegantemente trajados.

- Muggles - sussurrou-lhe Hermione. - No lugar que lhes  devido. V l, vamos andando.

Reumram-se  correnteza de feiticeiros que se encaminhava para os portes dourados ao fundo do trio, olhando em seu redor o mais sub-repticiamente que conseguiam, 
mas no viram sinal da figura facilmente reconhecvel de Dolores Umbridge. Cruzaram os portes e foram dar a um trio mais pequeno, onde se formavam filas em frente 
de vinte grades douradas que davam acesso a igual nmero de elevadores. Mal tinham chegado  mais prxima quando ouviram uma voz chamar: - Cattermole!

Olharam em seu redor e Harry sentiu o estmago dar uma reviravolta. Um dos Devoradores da Morte que presenciara a queda de Dumbledore avanava a passos largos na 
direco dele. Os funcionrios do Ministrio em volta quedaram-se em silncio, os olhos baixos; Harry sentia uma vaga de medo a espalhar-se entre eles. As feies 
mal-humoradas e abrutalhadas do homem pareciam um tanto ou quanto desajustadas do magnfico manto que flutuava atrs de si, ricamente bordado a fio de ouro. Algum 
de entre a multido  espera do elevador lhe lanou um cumprimento bajulador: - bom dia, Yaxley! - Yaxley ignorou-o.

- Pedi que algum da Manuteno Mgica me fosse arranjar o gabinete, Cattermole. Continua a chover l dentro.

Ron olhou em seu redor na esperana de que outra pessoa se fosse prontificar, mas ningum o fez.

- A chover... No seu gabinete? Isso... isso no  nada bom,

pois no?

Ron soltou uma gargalhada nervosa. Yaxley arregalou os olhos.

- Ai tu achas-lhe piada, Cattermole?

Duas feiticeiras saram da fila e apressaram-se a entrar no elevador.

- No - respondeu Ron. - No,  claro que...

- Sabers por acaso que neste preciso momento me preparo para ir l abaixo interrogar a tua mulher, Cattermole? Na verdade, estou bastante surpreendido por no estares 
a fazer-lhe companhia de mo dada, enquanto ela espera. J a deste como um caso perdido, no ? Se calhar, foi uma deciso acertada. Da prxima vez, v l se te 
casas com uma puro-sangue.

Hermione soltara um leve guincho de terror. Yaxley olhou para ela. Hermione tossiu ligeiramente e virou-lhe costas.

- Eu... eu. - balbuciou Ron.

207

- Mas, se a minha mulher fosse acusada de ser uma Sangue de Lama - prosseguiu Yaxley - ...no que me fosse casar com algum que pudesse ser confundida com essa escumalha 
- e o Director do Departamento de Execuo da Lei Mgica precisasse de que eu lhe fizesse um servio, eu faria desse servio a minha principal prioridade, Cattermole. 
Estamos entendidos?

- Sim - murmurou Ron.

A grade dourada abriu-se diante deles com grande estardalhao. com um aceno de cabea e um sorriso desagradvel a Harry, de quem obviamente se esperava que apreciasse 
o tratamento acabado de ministrar a Cattermole, Yaxley afastou-se em direco a outro elevador. Harry, Ron e Hermione entraram no seu, mas ningum os seguiu: era 
como se sofressem de uma doena infecciosa. As grades fecharam-se com um rudo metlico e o elevador comeou a subir.

- O que hei-de eu fazer? - perguntou Ron aos dois amigos em simultneo; estava com um ar aflito. - Se no aparecer, a minha mulher... quero dizer, a mulher do Cattermole...

- Ns vamos contigo, temos de nos manter unidos... - comeou Harry, mas Ron sacudiu vigorosamente a cabea.

- Isso  um disparate, j no nos sobra muito tempo. Vocs dois vo  procura da Umbridge, que eu vou arranjar o gabinete do Yaxley... Mas como  que fao para que 
deixe de chover l dentro?

- Tenta Finite Incantatem - respondeu-lhe Hermione de imediato. - Isso deve resolver o problema, se tiver sido provocado por um feitio ou maldio; caso contrrio, 
ento  porque algo correu mal com um Encantamento Atmosfrico, que  sempre um problema para consertar, por isso, como soluo de recurso, experimenta Impervius, 
para proteger o recheio...

- Repete l isso tudo outra vez, devagar... - pediu Ron, vasculhando em desespero dentro dos bolsos  procura de uma pena; contudo, nesse preciso momento, o elevador 
parou com um estremeo. Uma voz feminina desencarnada proclamou:

- Nvel Quatro, Departamento de Regulao e Controlo de Criaturas Mgicas, incorporando as Divises de Animais, Seres e Espritos, o Gabinete de Ligao aos Goblins 
e o Servio de Aconselhamento sobre Pragas - e as grades tornaram a deslizar uma vez mais, permitindo a entrada de um casal de feiticeiros e de vrios aeroplanos 
de papel violeta-plido, que comearam de imediato a esvoaar em volta do candeeiro do tecto do elevador        .

208

- bom dia, Albert - disse um indivduo de fartas suas, sorrindo a Harry. Olhou de relance para Ron e Hermione, enquanto o elevador subia novamente por entre rangidos; 
Hermione estava agora a sussurrar instrues frenticas a Ron. O feiticeiro inclinou-se para Harry, olhou para ele de soslaio e murmurou: - com que ento o Dick 
Cresswell, heim? Da Ligao aos Goblins? Boa, Albert. Estou convencido de que agora o lugar j no me pode escapar!

Piscou-lhe o olho. Harry devolveu-lhe o sorriso, na esperana de que isso fosse suficiente para o contentar. O elevador parou e as grades tornaram a abrir-se.

- Nvel Dois, Departamento de Execuo da Lei Mgica, Quartel-General dos Aurors e Servios Administrativos do Wizengamot - anunciou a voz desencarnada da feiticeira.

Harry viu Hermione a dar um leve empurro a Ron, e este apressou-se a sair do elevador, seguido pelos outros feiticeiros e deixando Harry e Hermione a ss. Mal a 
porta dourada se fechou, Hermione disse, muito depressa: - Para ser sincera, Harry: acho que  melhor eu ir atrs dele, acho que ele no sabe o que fazer e se o 
apanham, vai tudo por...

- Nvel Um, Ministro da Magia e Pessoal de Apoio.

As grades douradas tornaram a deslizar para trs, e Hermione sufocou um grito. Encontravam-se quatro pessoas diante deles, duas delas embrenhadas a conversar: um 
feiticeiro com uma longa cabeleira e um magnfico manto preto e dourado, e uma feiticeira atarracada e com cara de sapo, com um lao de veludo no cabelo curto e 
uma prancheta firmemente encostada ao peito.

209

XIII

A COMISSO DE REGISTO DOS FEITICEIROS DE ORIGEM MUGGLE

- A h, Mafalda! - exclamou Umbridge, fitando Hermione. -L\ - Foi o Travers quem te mandou, no?

- S-sim - guinchou Hermione.

- ptimo, serves perfeitamente. - Umbridge dirigiu-se ao feiticeiro vestido de preto e dourado. - Temos o problema resolvido, Ministro, se puderem dispensar a Mafalda 
para as actas, poderemos comear imediatamente. - Consultou o bloco que trazia na prancheta. - Dez pessoas hoje e uma delas a mulher de um funcionrio do Ministrio! 
Tss, tss... at aqui, no corao do Ministrio'

- Entrou no elevador ao lado de Hermione, seguida pelos dois feiticeiros que haviam estado a ouvir a conversa de Umbridge com o Ministro. - Vamos j l para baixo, 
Mafalda, encontrars tudo aquilo de que precisas na sala de audincias. bom dia, Albert, no sais aqui?

- Sim, claro - anuiu Harry com a voz grave de Runcom Harry saiu do elevador. As grades douradas fecharam-se atrs

dele com um estalido. Olhando para trs de relance, viu a cara ansiosa de Hermione a desaparecer, com um feiticeiro alto de cada lado, e o lao de veludo do cabelo 
de Umbridge ao nvel do ombro.

- O que te traz por c, Runcom? - perguntou o novo Ministro da Magia. O seu longo cabelo e barba pretos achavam-se salpicados de fios prateados, e uma testa larga 
e saliente sombreava-lhe os olhos brilhantes, fazendo lembrar a Harry um caranguejo a espreitar de uma rocha.

- Preciso de dar uma palavrinha a... - Harry hesitou uma fraco de segundo -, Arthur Weasley. Disseram-me que ele estava no Nvel Um.

- Ah - interessou-se Pius Thicknesse. - Foi apanhado a contactar com um Indesejvel?

- No - respondeu Harry, sentindo a garganta seca. - No, nada disso.

- Ah, bom. E s uma questo de tempo - comentou Thicknesse. - Se queres a minha opinio, os traidores de sangue so to maus como os Sangues de Lama. bom dia, Runcom.

210

- bom dia, Ministro.

Harry ficou a ver Thicknesse afastar-se pelo corredor revestido de alcatifa espessa. No instante em que ele desapareceu de vista, Harry tirou o Manto da Invisibihdade 
de debaixo da sua pesada capa preta, cobriu-se com ele e partiu corredor fora na direco oposta. Runcom era to alto que Harry se via obrigado a curvar-se para 
ter a certeza de que os ps estavam tapados.

Sentia o pnico instalado na boca do estmago.  medida que ia passando pelas portas de madeira polida, todas elas com uma pequena placa com o nome do seu proprietrio 
e respectiva ocupao, o poder do Ministrio, a sua complexidade e impenetrabilidade, comearam a impor-se-lhe de tal maneira que o plano to cuidadosamente elaborado 
com Ron e Hermione ao longo das ltimas quatro semanas lhe parecia ridiculamente infantil. Tinham concentrado todos os seus esforos em entrar sem serem detectados; 
no tinham sequer pensado no que fariam se fossem obrigados a separar-se. Agora Hermione estava retida numa audincia judicial que levaria indubitavelmente horas, 
Ron esforava-se por realizar magia que, como Harry bem sabia, estava fora do seu alcance, com a liberdade de uma mulher dependendo muito possivelmente do resultado, 
e ele, Harry, vagueava pelo ltimo andar quando sabia perfeitamente que a sua presa acabara de descer no elevador.

Estacou, encostou-se a uma parede e procurou decidir o que fazer O silncio pesava-lhe; no havia azfama, nem conversas, nem passos apressados: os corredores de 
alcatifa roxa estavam to silenciosos como se tivesse sido lanado sobre eles o encantamento MufHiato.

O gabinete dela deve ser aqui em ama, pensou Harry

Era altamente improvvel que Umbridge guardasse as jias no gabinete, mas, por outro lado, parecia idiotice no o revistar para ter a certeza. Recomeou, portanto, 
a andar pelo corredor, sem encontrar ningum excepto um feiticeiro de testa franzida a murmurar instrues para uma pena que flutuava diante dele, rabiscando uma 
tira de pergaminho.

Prestando agora ateno aos nomes indicados nas portas, Harry virou a esquina. A meio do corredor seguinte desembocou num vasto espao aberto, onde se via uma dezena 
de feiticeiras e feiticeiros sentados em filas de pequenas secretrias, semelhantes s das escolas, embora muito mais polidas e sem          Harry deteve-se para 
os observar, pois o efeito era hipntico. Todos eles agitavam e rodavam as varinhas em unssono, e havia quadrados de

211

papel colorido a voar em todas as direces, quais pequenos papagaios cor-de-rosa. Aps alguns segundos, Harry apercebeu-se de que os gestos possuam ritmo, que 
todos os papis formavam o mesmo padro, e ao cabo de mais alguns segundos compreendeu que estava a observar a criao de panfletos, e que os quadrados de papel 
eram pginas, as quais, uma vez reunidas, dobradas e ordenadas por meio de magia, caam em pilhas impecveis ao lado de cada feiticeiro.

Aproximou-se sub-repticiamente, embora os funcionrios se encontrassem to absortos na sua tarefa que Harry duvidava que ouvissem passos abafados pela alcatifa, 
e surripiou um panfleto j terminado da pilha junto a uma jovem feiticeira. Examinou-o debaixo do Manto da Invisibilidade. A capa cor-de-rosa exibia um ttulo a 
dourado:

 !

SANGUES DE LAMA

E os Perigos que Representam para uma Sociedade Pacfica de Puros-Sangues .

Debaixo do ttulo havia o desenho de uma rosa vermelha, com um rosto delicado no meio das ptalas a ser estrangulado por uma erva daninha de dentes afiados e ar 
mal-encarado. O panfleto no indicava o nome do autor, mas, mais uma vez, as cicatrizes das costas da sua mo direita pareceram arder, enquanto Harry o examinava. 
Depois, a jovem feiticeira a seu lado confirmou-lhe as suspeitas ao dizer, continuando a agitar a varinha' - Algum sabe se a velha bruxa vai ficar a interrogar 
Sangues de Lama todo o dia?

- Cautela - avisou o feiticeiro junto dela, olhando nervosamente em volta. Uma das suas pginas escorregou e caiu ao cho

- Que foi, agora, alm de um olho, ela tambm tem orelhas mgicas?

A feiticeira relanceou um olhar para a porta de mogno brilhante em frente do espao ocupado pelos redactores de panfletos. Harry olhou igualmente e a clera ergueu-se 
nele como uma serpente. No stio em que, numa porta de entrada de Muggles, haveria um culo, fora incrustado na madeira um olho grande e redondo, de ris azul forte; 
um olho chocantemente familiar para quem quer que tivesse conhecido Alastor Moody.

Durante uma fraco de segundo, Harry esqueceu-se de onde estava e do que ali estava a fazer, esqueceu-se at de que se achava invisvel. Avanou em passos largos 
direito  porta para examinar

212

o olho. Este no se movia: olhava cegamente para cima, petrificado. A placa sob ele dizia:

Dlares Umbridge Adjunta do Ministro

E por baixo, numa placa nova ligeiramente mais brilhante'

Directora da Comisso de Registo dos Feiticeiros de Origem Muggle

Harry voltou a fitar a dezena de redactores de panfletos: embora estivessem concentrados no seu trabalho, no podia contar que no reparassem se a porta de um gabinete 
vazio se abrisse mesmo diante deles. Assim, retirou de um bolso interior um estranho objecto com pequenas pernas que se agitavam e corpo de borracha em forma de 
buzina. Agachou-se sob o Manto e pousou o Detonador de Chamarizes no cho.

Este afastou-se rapidamente por entre as pernas dos feiticeiros  sua frente. Momentos depois, enquanto Harry aguardava com a mo na maaneta da porta, ergueu-se 
a um canto uma exploso ruidosa e grande quantidade de fumo negro e acre. A jovem feiticeira da primeira fila soltou um guincho e voaram por toda a parte pginas 
cor-de-rosa, enquanto ela e os companheiros se erguiam de um salto, procurando em volta a origem do tumulto. Harry fez girar a maaneta, entrou no gabinete de Umbridge 
e fechou a porta atrs de si.

Sentiu-se como se tivesse recuado no tempo. A sala era exactamente igual ao gabinete de Umbridge em Hogwarts' cortinas rendadas, naprons e flores secas cobriam todas 
as superfcies disponveis. As paredes ostentavam os mesmos pratos decorativos, cada um com o seu gatinho colorido, de lao ao pescoo, aos pulos e cambalhotas com 
uma graciosidade enjoativa. A secretria tinha uma toalha florida com folhos. Por trs do olho de Moody Olho-Louco, um telescpio permitia a Umbridge espiar os funcionrios 
do outro lado da porta Harry espreitou e viu que eles continuavam aglomerados em redor do Detonador de Chamarizes. Arrancou o telescpio da porta, deixando um buraco, 
tirou o olho mgico e meteu-o no bolso. Depois virou-se de novo para a sala, ergueu a varinha e murmurou: Accio medalho.

No aconteceu nada, mas ele tambm no esperara outra coisa; sem dvida Umbridge sabia tudo acerca de encantamentos e fei

213

ticos protectores. Apressou-se, portanto, a passar para trs da secretria e comeou a abrir gavetas. Viu penas e blocos de notas e fita mgica,clips encantados 
que se desenroscavam como serpentes da sua gaveta e tinham de ser obrigados a recuar com palmadas; uma pequena caixa rendada, excessivamente ornamentada, repleta 
de laos de cabelo e ganchos; mas nem sinal de um medalho.

Atrs da secretria havia um arquivador, onde Harry se lanou  procura. Tal como os de Filch em Hogwarts, estava cheio de pastas, todas rotuladas com nomes. S 
ao chegar  gaveta de baixo  que Harry viu algo que o distraiu da sua busca: a pasta de Mr. Weasley.

Tirou-a para fora e abriu-a.

ARTHUR WEASLEY

Estatuto de Sangue: Puro-sangue, mas com intolerveis tendncias pr-Muggle. Membro conhecido da Ordem da Fnix

Famlia: Mulher (puro-sangue), sete filhos, os dois

mais novos em Hogwarts. NB: Filho mais novo presentemente em casa, gravemente doente; confirmado por inspectores do Ministrio

Estatuto de Segurana: VIGIADO. Todos os movimentos esto a ser monitorizados. Forte possibilidade de Indesejvel N 1 contactar (j se alojou previamente em casa 
da famlia Weasley)

"Indesejvel Nmero Um", murmurou Harry, voltando a colocar a pasta de Mr. Weasley no stio e fechando a gaveta. Tinha uma ideia sobre quem seria e, to certo como 
dois e dois serem quatro, quando se endireitou e relanceou um olhar em redor do gabinete  procura de mais esconderijos, viu um pster de si prprio na parede, com 
as palavras "INDESEJVEL N 1" gravadas no peito. Uma pequena nota cor-de-rosa, com o desenho de um gatinho ao canto, fora l colada. Harry aproximou-se para a ler 
e viu que Umbridge escrevera "A Ser Castigado."

Ainda mais furioso, passou a espreitar os fundos das jarras e cestos com flores secas, mas no ficou nada surpreendido por no encontrar o medalho. Lanou um derradeiro 
olhar ao gabinete, e o seu corao falhou uma batida. Dumbledore fitava-o de um pequeno espelho rectangular, pousado numa estante ao lado da secretria.

214

Atravessou a sala a correr e pegou-lhe, mas, no instante em que lhe tocou, percebeu que no se tratava de um espelho. Dumbledore sorria pensativamente da capa brilhante 
de um livro. Harry no notara logo as letras verdes ornamentadas a toda a largura do chapu: A Vida e as Mentiras de Albus Dumbledore, nem os dizeres levemente mais 
pequenos sobre o peito: por Rita Skeeter, autora do bestseller Armando Dippet: Mestre ou Mentecapto?

Abriu o livro ao acaso e viu uma fotografia de pgina inteira com dois rapazes adolescentes, a rir  gargalhada, os braos passados por cima do ombro um do outro. 
Dumbledore, ento com o cabelo pelo meio das costas, deixara crescer uma barba fina e rala que fazia lembrar a do queixo de Krum, que tanto irritara Ron. O rapaz 
que gargalhava silenciosamente divertido ao lado de Dumbledore, ostentava um ar de regozijo travesso. O cabelo dourado caa-lhe em caracis at aos ombros. Harry 
perguntou-se se seria o jovem Doge, mas antes de conseguir ler a legenda, a porta do gabinete abriu-se.

Se Thicknesse no tivesse entrado a olhar por cima do ombro, Harry no teria tido tempo de se cobrir com o Manto da Invisibilidade. Mesmo assim, pensou que o Ministro 
talvez tivesse vislumbrado movimento, porque permaneceu completamente imvel durante alguns segundos, fitando com curiosidade o local onde Harry acabava de desaparecer. 
Decidindo, porventura, que tudo o que vira fora Dumbledore a coar o nariz na capa do livro, pois Harry apressara-se a coloc-lo de novo na estante, Thicknesse dirigiu-se 
finalmente para a secretria e apontou a varinha  pena que se achava a postos no tinteiro. Esta saltou e comeou a escrever uma nota para Umbridge. Muito devagar, 
mal se atrevendo a respirar, Harry saiu a recuar do gabinete para a rea de trabalho do exterior.

Os redactores de panfletos mantinham-se aglomerados em volta dos restos do Detonador de Chamarizes, que continuava a apitar debilmente e a fumegar. Harry dirigiu-se 
rapidamente para o corredor, ouvindo a jovem feiticeira dizer: - Aposto que se esgueirou dos Feitios Experimentais para aqui, eles so to descuidados. Lembram-se 
daquele pato venenoso?

Caminhando apressado em direco aos elevadores, Harry considerou as suas opes. Nunca houvera grandes probabilidades de o medalho se encontrar ali, no Ministrio, 
e no podia haver esperana de enfeitiar Umbridge para revelar o seu paradeiro, estando ela sentada numa sala de audincias apinhada. A priori

215

dade agora tinha de ser sair do Ministrio antes de serem descobertos, e voltarem a tentar noutro dia. A primeira coisa a fazer era encontrar Ron, e depois combinariam 
a maneira de retirar Hermione da sala de audincias.

O elevador chegou vazio. Harry entrou e, enquanto comeava a descer, tirou o Manto da Invisibilidade. Para enorme alvio seu, quando se deteve ruidosamente no Nvel 
Dois entrou Ron, encharcado e de olhar desvairado.

- B-bom dia - gaguejou ele para Harry; o elevador recomeou a mover-se.

- Ron, sou eu, o Harry!

- Harry! Caramba, tinha-me esquecido do teu aspecto... por que no est a Hermione contigo?

- Teve de descer com a Umbridge para as salas de audincia, no podia recusar, e...

Mas antes de Harry conseguir terminar a frase, o elevador estacou de novo, as portas abriram-se e entrou Mr. Weasley, a conversar com uma feiticeira idosa, de cabelo 
louro, com um penteado to alto que se assemelhava a uma colmeia.

- ...compreendo perfeitamente o que queres dizer, Wakanda, mas receio no poder tomar parte...

Mr Weasley interrompeu-se: reparara em Harry. Era muito estranho ver Mr. Weasley a fit-lo com tanta averso. As portas do elevador fecharam-se e os quatro desceram 
uma vez mais.

- Oh, ol, Reg - cumprimentou Mr. Weasley, olhando em volta ao ouvir o som de um gotejar contnuo oriundo do manto de Ron. - A tua mulher no vai ser interrogada 
hoje? Ha ... o que  que te aconteceu? Por que ests to molhado?

- Est a chover no gabinete do Yaxley - respondeu Ron. Dirigiu-se ao ombro de Mr. Weasley, e Harry teve a certeza de que ele receava que o pai o pudesse reconhecer 
se olhassem a direito um para o outro. - No consegui parar aquilo, por isso mandaram-me ir buscar o Berme... Phillsworth, creio que disseram...

- Sim, ultimamente tem chovido em imensos gabinetes - comentou Mr. Weasley. - Experimentaste meteolojinx recanto? com o Bletchley resultou.

- Meteolojinx recanto? - titubeou Ron. - No, no experimentei. Obrigado, p... quer dizer, obrigado, Arthur.

As portas do elevador abriram-se; a velha feiticeira com penteado  colmeia saiu e Ron passou por ela como uma flecha at

216

desaparecer de vista. Harry preparava-se para o seguir, mas encontrou o caminho bloqueado por Percy Weasley que entrava no elevador, de nariz enterrado nos papis 
que vinha a ler.

S depois de as portas se terem fechado de novo ruidosamente  que Percy se apercebeu de que se encontrava num elevador com o pai. Ergueu os olhos, viu Mr. Weasley, 
corou violentamente, e abandonou o elevador no instante em que as portas se voltaram a abrir. Pela segunda vez, Harry tentou sair, mas agora foi o brao de Mr. Weasley 
que o impediu.

- Um momento, Runcom.

As portas fecharam-se e, enquanto desciam outro andar, Mr. Weasley disse: - Constou-me que prestaste informaes acerca do Dirk Cresswell.

Harry teve a impresso de que o encontro com Percy s agravara a clera de Mr. Weasley. Decidiu que a sua melhor hiptese era fazer-se estpido.

- Perdo? - indagou ele.

- No finjas, Runcom - proferiu Mr. Weasley em tom ameaador. - Foste tu quem descobriu o feiticeiro que lhe falsificou a rvore genealgica, no foste?

- Eu ... e se tiver sido? - desafiou Harry.

- bom, o Dirk Cresswell  dez vezes melhor feiticeiro do que tu - declarou Mr. Weasley calmamente, enquanto o elevador descia ainda mais. - E se ele sobreviver a 
Azkaban, ters de responder perante ele, para no falar da mulher, dos filhos e dos amigos...

- Arthur - interrompeu Harry -, sabes que ests a ser vigiado, no sabes?

- Isso  uma ameaa, Runcom? - perguntou Mr. Weasley

em voz sonora.

- No - exclamou Harry -,  um facto! Eles andam a vigiar todos os teus movimentos...

As portas do elevador abriram-se. Tinham chegado ao trio. Mr. Weasley lanou-lhe um olhar agressivo e saiu do elevador. Harry ficou ali, sentindo-se abalado. Desejou 
estar a passar por outra pessoa que no Runcom... as portas do elevador fecharam-se.

Harry pegou no Manto da Invisibilidade e voltou a coloc-lo. Tentaria libertar Hermione sozinho, enquanto Ron se ocupava do gabinete onde chovia. Quando as portas 
se abriram, saiu para um corredor de pedra, iluminado por tochas, muito diferente dos corredores alcatifados e revestidos a madeira dos andares supe

217

riores. O elevador afastou-se de novo aos soluos, e Harry estremeceu levemente, fitando a distante porta preta que marcava a entrada do Departamento dos Mistrios.

Partiu, no com destino  porta negra, mas  passagem em arco situada do lado esquerdo, segundo se recordava, e que abria para um lance de escadas conduzindo s 
salas de audincias. Enquanto descia, ia debatendo mentalmente as suas possibilidades: ainda lhe restava um par de Detonadores de Chamarizes, mas talvez fosse melhor 
bater simplesmente  porta da sala de audincias, entrar como Runcom e pedir para dar uma palavrinha a Mafalda?  claro que no sabia se Runcom era suficientemente 
importante para se safar com uma dessas e, mesmo que conseguisse, o facto de Hermione no reaparecer podia desencadear uma busca antes de eles abandonarem o Ministrio...

Perdido nos seus pensamentos, no registou imediatamente a frialdade anormal que o invadia, como se estivesse a penetrar no nevoeiro. O frio ia aumentando a cada 
passo que dava: um frio que lhe entrava pela garganta e lhe rasgava os pulmes. E depois experimentou aquela furtiva sensao de desespero, de ausncia de esperana, 
a inund-lo, a expandir-se dentro de si...

Dementors, pensou.

Ao chegar ao fundo das escadas, virou  direita e avistou uma cena terrvel. O corredor sombrio no exterior das salas de audincia achava-se apinhado de figuras 
altas, encapuzadas de preto, os rostos completamente ocultos, sendo a respirao irregular o nico som audvel. Os petrificados feiticeiros de origem Muggle, levados 
para interrogatrio, estavam sentados em duros bancos de madeira, comprimidos uns contra os outros e a tremer. A maior parte escondia a cara nas mos, talvez numa 
tentativa instintiva de se protegerem das bocas vidas dos Dementors. Alguns encontravam-se acompanhados pelas famlias, outros sozinhos. Os Dementors deslizavam 
de um lado para o outro diante deles, e o frio, o desalento e o desespero do local atingiram Harry como uma maldio...

Reage, disse ele a si prprio, mas sabia que no podia invocar um Patronus sem revelar imediatamente a sua identidade. Portanto avanou o mais silenciosamente possvel 
e, embora o entorpecimento parecesse apoderar-se da sua mente a cada passo, Harry forou-se a pensar em Hermione e Ron, que precisavam dele.

Mover-se pelo meio das enormes figuras negras era aterrador; os rostos desprovidos de olhos, ocultos debaixo dos capuzes,

218

i

viravam-se quando ele passava, e Harry teve a certeza de que eles o pressentiam, sentindo, talvez, uma presena humana que ainda conservava alguma esperana, alguma 
resistncia...

E ento, de modo abrupto e chocante no meio do silncio gelado, uma das portas das masmorras do lado esquerdo do corredor foi escancarada e ouviram-se gritos.

- No, no, eu sou meio-sangue, eu sou meio-sangue, estou a dizer-vos! O meu pai era feiticeiro, era mesmo, verifiquem, Arkie Alderton,  um conhecido desgner de 
vassouras, verifiquem, estou a dizer-lhes... larguem-me, larguem-me...

- Este  o seu ltimo aviso - entoou a voz melflua de Umbridge, magicamente ampliada de modo a soar claramente acima dos gritos desesperados do homem. - Se lutar, 
ser sujeito ao beijo do Dementor.

Os gritos do homem cessaram, mas pelo corredor ecoaram soluos secos.

- Levem-no - ordenou Umbridge.

 porta da sala de audincias surgiram dois Dementors, as mos putrefactas e sarnentas apertando os braos de um feiticeiro que parecia prestes a desmaiar. Deslizaram 
com ele pelo corredor fora e o rasto de escurido que deixavam engoliu-o.

- Seguinte: Mary Cattermole - chamou Umbridge. Levantou-se uma mulher baixa, a tremer dos ps  cabea.

Usava o cabelo preto apanhado atrs num carrapito e um longo manto sem ornamentos. O rosto estava completamente exangue. Ao passar pelos Dementors, Harry viu-a estremecer.

No obedeceu a qualquer espcie de plano, foi um gesto instintivo, porque no suportou v-la entrar sozinha na masmorra: quando a porta comeou a fechar-se, Harry 
esgueirou-se atrs da mulher para a sala de audincias.

No era a mesma sala em que ele fora interrogado uma vez por uso imprprio de magia. Esta era muito mais pequena, embora o tecto fosse igualmente alto; dava a sensao 
claustrofbica de se estar enclausurado no fundo de um poo.

Havia ali mais Dementors, espalhando a sua aura glida pela sala; mantinham-se, quais sentinelas sem rosto, nos cantos mais afastados do estrado. A, atrs de uma 
balaustrada, sentava-se Umbridge, com Yaxley de um lado, e Hermione, to plida como Mrs. Cattermole, do outro. Na base do estrado, vagueava de um lado para o outro 
um gato de longo plo prateado e reluzente, e Harry percebeu que ele se encontrava ali para proteger os acu

219

Ml

sadores do desespero que emanava dos Dementors: isso era para os acusados sentirem, no os acusadores

- Sente-se - disse Umbridge na sua voz suave e sedosa.

Mrs. Cattermole dirigiu-se aos tropees para a cadeira existente no meio da sala, abaixo do estrado. Assim que se sentou, saltaram dos braos da cadeira correntes 
que a amarraram a ela.

- E Mary Elizabeth Cattermole? - perguntou Umbridge. Mrs. Cattermole fez um aceno trmulo.

- Casada com Regmald Cattermole, do Departamento de Manuteno Mgica?

Mrs. Cattermole rompeu em lgrimas.

- No sei onde ele est, ficou de vir ter aqui comigo! Umbridge ignorou-a.

- Me de Maisie, Ellie e Alfred Cattermole? Mrs. Cattermole soluou com mais fora.

- Eles esto com medo, pensam que eu posso no regressar

a casa. .

- Poupe-nos - cuspiu Yaxley - Os fedelhos de Sangues de Lama no nos inspiram simpatia.

Os soluos de Mrs. Cattermole disfararam os passos de Harry, que se dirigia cautelosamente para os degraus de acesso ao estrado. No momento em que passou o local 
patrulhado pelo gato Patronus sentiu a mudana de temperatura ali estava quente e confortvel. O Patronus, tinha a certeza, era de Umbridge, e brilhava fortemente 
porque ela se sentia imensamente feliz ali, no seu elemento, aplicando as torpes leis que ajudara a redigir. Lenta e muito cautelosamente, avanou pelo estrado, 
por trs de Umbridge, Yaxley e Hermione, e ocupou um lugar atrs desta. Receava que a amiga se sobressaltasse. Pensou em lanar um encantamento Muffliato sobre Umbridge 
e Yaxley, mas mesmo murmurar a palavra poderia alarmar Hermione Depois Umbridge ergueu a voz para se dirigir a Mrs. Cattermole e Harry aproveitou a oportunidade.

- Estou atrs de ti - segredou ele ao ouvido de Hermione.

Tal como previra, ela deu um salto to grande que quase derrubou o frasco de tinta com que deveria estar a registar a entrevista, mas tanto Umbridge como Yaxley 
se achavam concentrados em Mrs. Cattermole e aquilo passou despercebido.

- Foi-lhe apreendida hoje uma varinha,  sua chegada ao Ministrio, Mrs. Cattermole - dizia Umbridge. - Vinte e dois centmetros, cerejeira, ncleo de plo de unicrnio. 
Reconhece a descrio?

Mrs. Cattermole acenou afirmativamente, enxugando os olhos  manga.

- Pode fazer o favor de nos dizer a que feiticeiro ou feiticeira tirou essa varinha?

- T-tirei? - soluou Mrs. Cattermole. - Eu no a ... tirei a ningum. Eu c-comprei-a quando tinha onze anos. Ela ... ela... ela ... escolheu-me.

Chorava ainda mais fortemente.

Umbridge soltou uma gargalhada suave, juvenil, que provocou em Harry o desejo de a atacar. Inclinou-se sobre a balaustrada para melhor observar a sua vtima, e algo 
dourado oscilou tambm para diante, ficando pendente no vazio o medalho

Hermione vira-o e soltou um leve grito, mas Umbridge e Yaxley, ainda absortos na sua presa, estavam surdos a todo o resto.

- No - proferiu Umbridge - , no, no creio, Mrs. Cattermole. As varinhas s escolhem feiticeiros ou feiticeiras. A senhora no  feiticeira. Tenho aqui as suas 
respostas ao questionrio que lhe foi enviado... Mafalda, passe-mo.

Umbridge estendeu a mo pequena: nesse momento assemelhava-se tanto a um sapo que Harry ficou admirado por no ver membranas entre os dedos rechonchudos. As mos 
de Hermione tremiam de choque. Vasculhou numa pilha de documentos equilibrados na cadeira a seu lado e, por fim, extraiu um pedao de pergaminho com o nome de Mrs. 
Cattermole.

- Que... bonito... que isso , Dolores - elogiou ela, apontando para o pendente que reluzia entre os folhos da blusa de Umbridge.

- O qu? - perguntou asperamente Umbridge, olhando para baixo. - Ah sim ... uma velha herana de famlia - disse ela, dando uma palmadinha no medalho pousado no 
amplo peito. - O "S"  de Selwyn.. sou parente dos Selwyns. de facto, h poucas famlias de puros-sangues com que eu no seja aparentada ..  uma pena - prosseguiu 
ela, em voz mais alta, folheando o questionrio de Mrs. Cattermole - que no possa dizer-se o mesmo de si. Profisso dos pais: vendedores de hortalias.

Yaxley na-se jocosamente. Mais em baixo, o gato de farta pelagem prateada patrulhava de um lado para o outro, e os Dementors aguardavam aos cantos.

Foi a mentira de Umbridge que fez o sangue subir  cabea de Harry, anulando o seu sentido de prudncia, o facto de o medalho, que ela recebera como suborno de 
um criminoso insigmfi

220

221

cante, estar a ser usado para apoiar as suas prprias credenciais de puro-sangue. Levantou a varinha, sem se preocupar sequer em a manter oculta sob o Manto da Invisibilidade, 
e exclamou: Atordoar! Houve um relmpago de luz vermelha. Umbridge tombou e foi bater com a testa na berma da balaustrada; os documentos de Mrs. Cattermole deslizaram-lhe 
do colo para o cho e, l em baixo, o gato prateado evaporou-se. O ar glido atingiu-os como um vento sbito. Yaxley, confuso, olhou em volta  procura da origem 
dos distrbios e viu a mo de Harry, desencarnada, a apontar-lhe uma varinha. Tentou pegar na sua prpria varinha, mas era demasiado tarde.

- Atordoar!

Yaxley deslizou para o solo e ficou ali todo enrolado.

- Harry!

- Hermione, se julgas que eu ia ficar aqui sentado a deix-la fingir ...

- Harry, Mrs. Cattermole!

Harry deu meia volta, libertando-se simultaneamente do Manto da Invisibilidade. Ao fundo, os Dementors tinham sado dos seus cantos e vinham a deslizar em direco 
 mulher acorrentada  cadeira; ou porque o Patronus desaparecera, ou porque sentiam que os seus senhores j no controlavam a situao, pareciam ter deixado de 
se coibir. Mrs. Cattermole soltou um terrvel grito de pavor quando uma mo viscosa lhe agarrou no queixo, empurrando-lhe a cabea para trs.

- EXPECTO PATRONUM!

O veado prateado voou da ponta da varinha de Harry e saltou na direco dos Dementors, que recuaram e voltaram a fundir-se com as sombras negras. A luz do veado, 
mais poderosa e mais quente que a proteco do gato, encheu a masmorra inteira enquanto ele trotava em redor da sala.

- Agarra o Horcrux - disse Harry a Hermione.

Desceu os degraus a correr, enfiando novamente o Manto da Invisibilidade no saco, e aproximou-se de Mrs. Cattermole.

- Voc? - balbuciou ela, fitando-o fixamente. - Mas... mas o Reg disse que foi voc quem indicou o meu nome para interrogatrio!

- Fui? - murmurou Harry, puxando com fora as correntes que lhe amarravam os braos. - Bem, mudei de opinio. Diffindo! - No aconteceu nada. - Hermione, como  
que me livro destas correntes?

- Espera, estou a tentar fazer uma coisa aqui em cima...

- Hermione, estamos rodeados de Dementors!

- Eu sei, Harry, mas se ela acorda e v que o medalho desapareceu... tenho de o duplicar... Geminio! Pronto ... isto deve engan-la...

Hermione aproximou-se a correr.

- Vejamos... Relashio!

As correntes estalaram e recolheram para os braos da cadeira. Mrs. Cattermole parecia to assustada como antes.

- No compreendo - balbuciou ela.

- A senhora vai sair daqui connosco - disse Harry, ajudando-a a pr-se de p. - V para casa, pegue nos seus filhos e ponha-se a andar, ponha-se a andar do pas 
se preciso for. Disfarcem-se e apressem-se. J viu como , por aqui no ter nada que se assemelhe a um julgamento justo.

- Harry - interrompeu Hermione - como  que vamos sair daqui com todos aqueles Dementors do lado de l da porta?

- com os Patronus - respondeu Harry, apontando a varinha ao seu. O veado abrandou e comeou a caminhar em direco  porta, ainda a brilhar vivamente. - O maior 
nmero que conseguirmos arranjar; invoca o teu, Hermione.

- Expec-expecto patronum - disse Hermione. No aconteceu nada.

-  o nico encantamento em que ela sempre teve dificuldade - explicou Harry a Mrs. Cattermole, agora totalmente perplexa. -  realmente uma pena... v l, Hermione..!

- Expecto patronum.

Uma lontra prateada irrompeu da extremidade da varinha de Hermione e flutuou graciosamente pelo ar, juntando-se ao veado.

- 'bora - incitou Harry, conduzindo Hermione e Mrs. Cattermole para a porta.

Quando os Patronus deslizaram para o exterior da masmorra, ouviram-se gritos de choque das pessoas que aguardavam l fora. Harry olhou em volta: de ambos os lados, 
os Dementors recuavam, fundindo-se na escurido, dispersando diante das criaturas prateadas.

- Foi decidido que devem todos regressar a casa e procurar onde se esconder com as vossas famlias - disse Harry para os feiticeiros de origem Muggle que ali esperavam, 
agora ofuscados pela luz dos Patronus e ainda ligeiramente encolhidos. - Se puderem, vo para o estrangeiro. Mas ponham-se a milhas do

222

223



Ministrio.  esta a ...ha ...a nova posio oficial. Agora, se seguirem os Patronus, podero sair pelo trio.

Conseguiram subir a escada de pedra sem serem interrompidos, mas, ao aproximarem-se dos elevadores, Harry comeou a sentir uma certa apreenso. Se surgissem no trio 
com um veado prateado, acompanhado de uma lontra que planava a seu lado, e umas vinte pessoas, metade das quais acusadas de terem origem Muggle, no podia deixar 
de sentir que atrairiam atenes indesejadas. Acabara de chegar a essa desagradvel concluso quando o elevador se deteve em frente deles.

- Reg! - gritou Mrs. Cattermole, atirando-se para os braos de Ron. - O Runcom libertou-me, atacou a Umbridge e o Yaxley, e disse-nos a todos para sairmos do pas, 
e eu acho melhor obedecer, Reg, acho mesmo. Vamos voltar depressa para casa, apanhar as crianas e... por que  que ests encharcado?

- gua - murmurou Ron, desembaraando-se dela. - Harry, eles sabem que h intrusos no interior do Ministrio, qualquer coisa a respeito de um buraco na porta da 
Umbridge, calculo que tenhamos uns cinco minutos no mx...

O Patronus de Hermione evaporou-se com um estalido e ela virou para Harry um rosto aterrado.

- Harry, se ficamos encurralados aqui...!

- No ficamos, se nos mexermos - respondeu Harry. Dirigiu-se ao grupo silencioso que o seguia e que o fitava aturdido.

- Quem tem varinhas?

Cerca de metade levantou a mo.

- OK, todos os que no tm varinha precisam de se juntar a algum que tenha. Precisamos de ser rpidos... antes que eles nos detenham. Vamos l.

Conseguiram encaixar-se em dois elevadores. O Patronus de Harry ficou de sentinela diante das grades enquanto elas se fechavam e os elevadores comeavam a subir.

- Nvel Oito - disse a voz imperturbvel da feiticeira -, trio.

Harry percebeu imediatamente que iam ter problemas. O trio achava-se cheio de gente que se deslocava de uma lareira para outra, selando-as.

- Harry! - guinchou Hermione. - O que  que ns vamos...?

- ALTO! - trovejou Harry, e a voz potente de Runcom ecoou pelo trio. Os feiticeiros que estavam a selar as lareiras

224

estacaram. - Sigam-me - murmurou ele para o grupo de aterrados feiticeiros, que avanou num todo, conduzido por Ron e Hermione.

- O que h, Albert? - indagou o mesmo feiticeiro careca que anteriormente seguira Harry  sada da lareira. Parecia nervoso.

- Este grupo precisa de partir antes de selarem as sadas - respondeu Harry, com toda a autoridade de que foi capaz.

O bando de feiticeiros  sua frente entreolhou-se.

- Disseram-nos para selar todas as sadas e no deixar ningum...

- Ests a contradizer-me? - vociferou Harry. - Queres que mande examinar a tua rvore genealgica, como fiz com a do Dick Cresswell?

- Desculpa! - ofegou o feiticeiro careca, recuando. - No era minha inteno, Albert, mas pensava ... pensava que eles c estavam para serem interrogados e...

- O sangue deles  puro - declarou Harry, e a sua voz grave ecoou impressionante pelo hall. - Mais puro do que o de muitos vs, diria eu. Toca a andar - trovejou 
ele para os feiticeiros de origem Muggle, que correram para as lareiras e comearam a desaparecer aos pares. Os feiticeiros do ministrio mantiveram-se afastados, 
alguns com ar perplexo, outros receosos e indignados. Ento ...

- Mary!

Mrs. Cattermole olhou por cima do ombro. O verdadeiro Reg Cattermole, j sem vmitos mas ainda plido e abatido, acabara de sair a correr de um elevador.

- R-Reg?

Ela olhou do marido para Ron, que praguejou de forma audvel.

O feiticeiro careca ficou boquiaberto, virando ridiculamente a cabea de um Reg Cattermole para o outro.

- Hei... o que se passa? O que  isto?

- Selem a sada! SELEM!

Yaxley irrompera de outro elevador e corria para o grupo junto das lareiras pelas quais todos os feiticeiros de origem Muggle, excepto Mrs. Cattermole, haviam j 
desaparecido. Quando o feiticeiro careca levantou a varinha, Harry ergueu um punho enorme e deu-lhe um murro que o fez voar pelo ar.

- Ele tem estado a ajudar gente daquela a escapar, Yaxley! - gritou Harry.

225

Os colegas do feiticeiro careca provocaram um tumulto, ao abrigo do qual Ron agarrou Mrs. Cattermole, puxou-a para a lareira ainda aberta e desapareceu. Confuso, 
Yaxley olhou de Harry para o feiticeiro esmurrado, enquanto o verdadeiro Reg Cattermole gritava: - A minha mulher! Quem era aquele com a minha mulher? O que  que 
se passa?

Harry viu Yaxley virar a cabea, um vislumbre da verdade a assomar ao seu rosto embrutecido.

- Anda! - gritou ele para Hermione. Deu-lhe a mo e saltaram juntos para a lareira no instante em que a maldio de Yaxley passava por cima da cabea de Harry. Giraram 
durante alguns segundos antes de irromperam de uma sanita para um cubculo. Harry escancarou a porta e avistou Ron, junto aos lavatrios, ainda a debater-se com 
Mrs. Cattermole.

- Reg, no compreendo...

- Largue-me, eu no sou o seu marido, a senhora tem de ir para casa!

Ouviu-se um rudo no cubculo atrs deles. Harry olhou em volta; Yaxley acabava de surgir.

- VAMOS! - gritou Harry. Agarrou na mo de Hermione e no brao de Ron e Desapareceu no mesmo instante.

As trevas envolveram-nos juntamente com a sensao de faixas a apert-los, mas havia algo errado ... a mo de Hermione parecia estar a deslizar da sua...

Perguntou-se se iria sufocar, no conseguia respirar nem ver, e as nicas coisas slidas no mundo eram o brao de Ron e os dedos de Hermione que se lhe escapavam 
lentamente...

E, ento, avistou a porta do nmero doze de Grimmauld Place, com o seu batente em forma de serpente, mas, antes de conseguir respirar fundo, houve um grito e um 
relmpago de luz roxa; de sbito, a mo de Hermione apertou a sua como um torno e tudo ficou novamente negro.

226

XIV

O LADRO

Harry abriu os olhos e uma tonalidade de um dourado esverdeado ofuscou-o; no fazia a menor ideia do que acontecera, sabia apenas que estava estendido em cima de 
folhas e galhos, ou assim lhe parecia. Esforando-se por encher de ar os pulmes, que dir-se-ia terem sido achatados, pestanejou e percebeu que o claro brilhante 
era o sol filtrado por um dossel de folhas muito acima dele. Depois um objecto mexeu-se junto  sua cara. Ps-se de gatas, pronto a enfrentar alguma criaturinha 
feroz, mas viu que o objecto era o p de Ron. Olhando em redor, constatou que tanto eles como Hermione se encontravam estendidos no solo de uma floresta, aparentemente 
sozinhos.

O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi a Floresta Proibida, e por instantes, apesar de saber como seria idiota e perigoso para eles andarem nos terrenos de Hogwarts, 
o seu corao deu um salto  ideia de se esgueirarem por entre as rvores at  cabana de Ginny. Contudo, nos poucos momentos que decorreram at Ron soltar um gemido 
surdo e Harry comear a rastejar em direco a ele, compreendeu que aquilo no era a Floresta Proibida: as rvores pareciam mais novas, estavam mais espaadas, o 
solo mais limpo.

Deparou-se com Hermione, tambm de gatas, junto  cabea de Ron. Assim que pousou os olhos nele, todas as outras preocupaes se desvaneceram da sua mente, pois 
Ron tinha todo o lado esquerdo encharcado em sangue e o seu rosto destacava-se, de um branco acinzentado, contra a terra juncada de folhas. O efeito da Poo Polissuco 
comeara a desaparecer: Ron achava-se a meio caminho entre a aparncia de Cattermole e a dele prprio, com o cabelo a ficar cada vez mais ruivo, enquanto se esvaa 
da cara a pouca cor que lhe restava.

- O que  que lhe aconteceu?

- Foi Dividido - disse Hermione, os dedos atarefando-se j na manga de Ron, onde o sangue estava mais espesso e mais escuro.

227

Horrorizado, Harry observou-a a rasgar a camisa de Ron. Sempre pensara na Diviso como algo de cmico, mas aquilo... Sentiu um desagradvel aperto nas entranhas 
vendo Hermione deixar a nu o brao de Ron, a que faltava um grande pedao de carne, cortado com a preciso de uma faca.

- Harry, depressa, na minha mala est um pequeno frasco com o rtulo Essncia de Ditana...

- Na mala... certo...

Dirigiu-se rapidamente para o stio onde Hermione aterrara, pegou na minscula mala enfeitada com missangas e enfiou a mo l dentro. Apalpando rapidamente objecto 
atrs de objecto, sentiu as lombadas de pele de livros, mangas de camisolas de l, taces de sapatos...

- Depressa!

Harry apanhou a sua varinha do cho e apontou-a para as profundezas da mala mgica.

- Aedo ditaina!

Saltou da mala um pequeno frasco castanho; apanhou-o e apressou-se a voltar para junto de Hermione e Ron, que tinha agora os olhos semicerrados, deixando apenas 
antever laivos esbranquiados do globo ocular por entre as plpebras.

- Desmaiou - constatou Hermione, ela prpria bastante plida. J no estava igual a Mafalda, embora o cabelo continuasse grisalho em certos pontos. - Abre-o, Harry, 
tenho as mos a tremer.

Harry tirou a tampa do pequeno frasco, e Hermione pegou-lhe e deitou trs gotas da poo na ferida que sangrava. Elevou-se um fumo esverdeado e, quando este se dissipou, 
Harry viu que a hemorragia estancara. A ferida parecia agora ter j vrios dias; surgira pele nova sobre o que ainda h pouco era uma ferida aberta.

- Uau - exclamou Harry.

- No me sinto  vontade para fazer mais nada - declarou Hermione, abalada. - H encantamentos que o poriam completamente bom, mas no me atrevo a tentar, no v 
execut-los mal e provocar ainda mais danos... ele ja perdeu tanto sangue...

- Como  que ele se feriu? Quer dizer - Harry abanou a cabea, esforando-se por desanuviar as ideias compreender o que acabara de acontecer -, por que estamos ns 
aqui? Pensava que amos voltar para Grimmauld Place?

Hermione respirou fundo. Parecia prxima das lgrimas.

- Harry, no creio que possamos voltar para l.

228

- O que...

- Quando amos a Desaparecer, o Yaxley apanhou-me e eu no fui capaz de me libertar dele,  demasiado forte, e continuava agarrado a mim quando chegmos a Grimmauld 
Place, e depois... bom, acho que ele deve ter visto a porta e pensado que ns amos parar ali, porque abrandou um pouco a fora e eu consegui sacudi-lo e trouxe-nos 
antes para aqui!

- Mas ento, onde  que ele est? Espera a... no queres dizer que ele est em Grimmauld Place? Ele no pode l entrar!

Hermione acenou afirmativamente e os seus olhos encheram-se de lgrimas.

- Harry, eu penso que pode. Eu... eu obriguei-o a largar-me com um Feitio de Revulso, mas j o tinha levado para o interior da proteco do Encantamento Fidelius. 
Desde que o Dumbledore morreu, ns somos Guardadores Secretos, por isso revelei-lhe o segredo, no foi?

No valia a pena iludirem-se: Harry estava certo de que ela tinha razo. Era um duro golpe. Se Yaxley conseguia agora entrar na casa, no havia maneira de eles poderem 
regressar. Nesse mesmo instante podia estar a levar para l Devoradores da Morte por meio de Apario. Apesar de sombria e opressiva, a casa fora o seu nico refgio 
seguro e, agora que Kreacher andava muito mais feliz e amistoso, transformara-se at numa espcie de lar. com uma pontada de pena que no tinha nada a ver com comida, 
Harry imaginou o elfo domstico atarefado a preparar a empada de rim que Harry, Ron e Hermione nunca comeriam.

- Harry, lamento muito, lamento tanto!

- No sejas parva, no tiveste culpa! Se algum teve, fui eu... Meteu a mo no bolso e tirou o olho de Moody Olho-Louco.

Hermione encolheu-se, com ar horrorizado.

- A Umbridge tinha-o pregado na porta do seu gabinete, para espiar as pessoas. Eu no podia deix-lo l... mas foi assim que eles souberam que havia intrusos.

Antes de Hermione poder responder, Ron gemeu e abriu os olhos. O seu rosto continuava exangue e reluzia de suor.

- Como te sentes? - murmurou Hermione.

- Pssimo - grasnou Ron, estremecendo ao levar a mo ao brao. - Onde  que ns estamos?

- Na floresta onde se disputou a Taa Mundial de Quidditch - respondeu Hermione. - Eu queria um local resguardado, secreto, e este foi...

229

- ... o primeiro stio que te ocorreu - concluiu Harry por ela, relanceando um olhar em volta da clareira aparentemente deserta No pde deixar de se lembrar do 
que acontecera da ltima vez que tinham Aparecido no primeiro stio que ocorrera a Hermione e de como os Devoradores da Morte os tinham encontrado em poucos minutos. 
Teria sido Legilimancia? Saberiam Voldemort ou os seus capangas, naquele momento, para onde Hermione os levara?

- Achas que devamos pr-nos a andar daqui para fora? - perguntou Ron a Harry, e este percebeu, pela expresso do amigo, que ele estava a pensar o mesmo.

- No sei.

Ron continuava plido e transpirado. No fizera qualquer tentativa para se sentar e o seu aspecto era de quem est demasiado fraco para tal. A ideia de o mover era 
assustadora.

- Por agora vamos ficar aqui - decidiu Harry. - E Parecendo aliviada, Hermione ergueu-se de um salto.

- Onde  que vais? - indagou Ron. '

- Se vamos ficar, temos de colocar alguns encantamentos de proteco em redor deste stio - respondeu ela e, erguendo a varinha, comeou a andar, descrevendo um 
amplo crculo em volta de Harry e Ron, sempre a murmurar encantamentos. Harry detectou pequenas alteraes no ar que os rodeava: era como se Hermione tivesse feito 
cair uma nvoa de calor sobre a clareira.

- Salvio hexia ... Protego totalum . Repelia Muggletum ... Muffliato .. Podias ir tirando a tenda, Harry...

- A tenda?

- Da mala!

- Da... claro - concordou Harry.

Desta vez no se deu ao trabalho de tentear no seu interior e usou outro Encantamento de Convocao. A tenda emergiu numa amlgama irregular de lona, cordas e estacas. 
Harry reconheceu-a, em parte devido ao cheiro a gatos, como a mesma tenda em que tinham dormido na noite da Taa Mundial de Quidditch.

- Julgava que isto pertencia quele tipo do Ministrio, o Perkins? - comentou ele, comeando a desenredar as estacas da tenda.

- Parece que ele no a quis de volta, piorou imenso do lumbago - respondeu Hermione, que executava agora complicados movimentos em forma de oito com a sua varinha 
-, portanto o pai do Ron disse que eu a podia trazer. Erecto! - acrescentou,

230

apontando a varinha  lona disforme; com um nico movimento fluido, esta ergueu-se no ar e pousou, completamente armada, no solo diante de Harry que, surpreendido, 
viu uma estaca saltar-lhe das mos e ir cravar-se, com um baque final, na extremidade de uma corda de sustentao.

- Cave Immicum - concluiu Hermione com um floreado em direco ao cu. -  tudo o que consigo fazer Na pior das hipteses, saberemos que eles se aproximam, no posso 
garantir que detenham o Vol...

- No pronuncies o nome! - interrompeu-a Ron, em voz spera

Harry e Hermione entreolharam-se.

- Desculpem - pediu Ron, gemendo um pouco ao erguer-se para olhar para eles -, mas soa-me a .. a uma maldio, ou coisa assim. No podemos chamar-lhe Quem-Ns-Sabemos 
. por favor?

- O Dumbledore di/ia que ter medo de um nome... - principiou Harry.

- Caso no tenhas reparado, meu, tratar o Quem-Ns-Sabemos pelo nome acabou por no servir de muito ao Dumbledore - retorquiu Ron em tom agreste. - Mostrem algum... 
respeito pelo Quem-Ns-Sabemos, est bem?

- Respeito? - repetiu Harry, mas Hermione lanou-lhe um olhar de aviso; aparentemente ele no devia discutir com Ron enquanto este se encontrasse to debilitado.

Harry e Hermione semitransportaram, semi-arrastaram Ron pela entrada da tenda. O interior era exactamente como Harry recordava: um pequeno apartamento completo, 
com casa de banho e uma cozinha minscula Afastou um velho cadeiro e pousou cuidadosamente Ron na cama de baixo de um beliche. At aquela pequena deslocao deixara 
o amigo ainda mais lvido, e uma vez instalado no colcho, fechou de novo os olhos e no falou durante um bocado.

- vou fazer ch - declarou Hermione, ofegante, tirando a chaleira e as canecas das profundesas da mala e dirigindo-se  cozinha.

Harry achou a bebida quente to reconfortante como o fora o Usque de Fogo na noite em que Olho-Louco morrera; o seu calor parecia queimar um pouco o medo que se 
agitava no seu peito. Aps um ou dois minutos, Ron rompeu o silncio.

- O que acham que aconteceu aos Cattermole?

231

- com sorte, tero escapado - disse Hermione, apertando a caneca quente para se confortar. - Desde que Mr. Cattermole tenha conservado a presena de esprito, ter 
transportado Mrs. Cattermole por meio de Apario Acompanhada e estaro agora a abandonar o pas com os filhos. Foi o que o Harry lhe disse para fazerem.

- Caramba, espero que se tenham safado - murmurou Ron, recostando-se na almofada O ch parecia estar a fazer-lhe bem; recuperara mesmo um pouco de cor. - No entanto, 
no tive a sensao de que o Reg Cattermole fosse assim to vivo, pela forma como todos me falavam quando eu estava a passar por ele. Cus, espero que consigam . 
se ambos acabarem em Azkaban por nossa causa...

Harry virou-se para Hermione e a pergunta que lhe subira aos lbios - se o facto de Mrs. Cattermole no ter varinha a impediria de Aparecer ao lado do marido - morreu-lhe 
na garganta Hermione observava Ron enquanto este se preocupava com o destino dos Cattermole, e havia na sua expresso tanta ternura que Harry quase se sentiu como 
se a tivesse surpreendido a beij-lo.

- E ento, tem-lo? - perguntou Harry, em parte para lhe recordar que estava ali.

- Tenho .. tenho o qu? - indagou Hermione com um leve sobressalto.

- Por que  que ns passmos por tudo isto? O medalho1 Onde est o medalho?

- Vocs tm-no? - gritou Ron, erguendo-se um pouco mais nas almofadas. - Ningum me diz nada' Caramba, podiam ter mencionado o facto!

- Bem, andmos a fugir aos Devoradores da Morte para salvar a vida, no foi? - comentou Hermione. - Est aqui.

E tirando o medalho do bolso do manto, estendeu-o a Ron.

Era do tamanho de um ovo de galinha. Um "S" floreado, com numerosas pequenas pedras verdes incrustadas, cintilava debilmente  luz difusa que entrava atravs do 
tecto de lona da tenda.

- No h a possibilidade de algum o ter destrudo desde que esteve na posse do Kreacher? - sugeriu Ron, esperanado. - Quer dizer, temos a certeza de que ainda 
 um Horcrux?

- Penso que sim - respondeu Hermione, voltando a pegar-lhe e examinando-o atentamente - Haveria vestgios de estragos se tivesse sido destrudo por meio de magia.

232

Passou-o a Harry, que o revirou entre os dedos. Aquilo parecia perfeito, intacto Recordou os restos lacerados do dirio e a forma como a pedra do anel-Horcrux rachara 
quando Dumbledore o destrura.

- Acho que o Kreacher tem razo - disse ele. - Vamos ter de descobrir maneira de abrir esta coisa para a podermos destruir

Enquanto falava, a conscincia do que tinha na mo, do que vivia por detrs das pequenas portas douradas, atingiu-o de sbito. Apesar de todos os esforos que tinham 
feito para o encontrar, sentiu um violento impulso de atirar o medalho para longe de si. Dominando-se, tentou abri-lo com os dedos, e depois experimentou o encantamento 
que Hermione usara para abrir a porta do quarto de Regulus. Nada resultou. Voltou a entregar o medalho a Ron e a Hermione, e ambos deram o seu melhor, mas no tiveram 
mais xito que ele.

- Mas sentes, no? - perguntou Ron em voz abafada, com o medalho bem apertado no punho cerrado.

- O qu?

Ron passou o Horcrux a Harry Aps alguns instantes, Harry julgou saber ao que o amigo se referia. Seria o seu prprio sangue a pulsar-lhe nas veias que ele sentia, 
ou era algo a bater no interior do medalho, como um minsculo corao de metal?

- O que  que vamos fazer com ele? - indagou Hermione.

- Guard-lo bem at descobrirmos como se destri - replicou Harry e, embora sem a mnima vontade, pendurou a corrente ao pescoo e ocultou o medalho sob o manto, 
onde ele ficou encostado ao seu peito, junto  bolsa que Ginny lhe dera.

- Acho que devemos fazer turnos a vigiar o exterior da tenda - prosseguiu ele para Hermione, levantando-se e espreguiando-se. - E tambm temos de pensar em arranjar 
alguma comida. Tu ficas quieto - acrescentou veementemente vendo Ron tentar sentar-se e adquirir um horroroso tom esverdeado.

com o Avisoscpio que Hermione oferecera a Harry pelos anos cuidadosamente pousado em cima da mesa da tenda, Harry e Hermione passaram o resto do dia a revezar-se 
como vigias. Contudo, o Avisoscpio manteve-se silencioso e imvel no seu lugar durante todo o dia e, ou devido aos encantamentos protectores e para repelir Muggles 
que Hermione espalhara em volta deles, ou pelo facto de as pessoas raramente se aventurarem por aquelas bandas, a sua zona da floresta permaneceu deserta, exceptuando 
alguns ocasionais pssaros e esquilos. A noite no trouxe

233

alteraes; s dez horas, Harry iluminou a sua varinha e trocou de lugar com Hermione, ficando a contemplar uma cena deserta e a observar os morcegos, que esvoaavam 
l muito no alto, atravs da pequena faixa de cu estrelado visvel da clareira protegida. Estava agora faminto, e um pouco zonzo. Hermione no metera na mala mgica 
nenhum alimento, presumindo que regressariam a Gnmmauld Place nessa noite, pelo que no tinham nada para comer, excepto cogumelos silvestres que ela colhera entre 
as rvores mais prximas e estufara numa panela de campismo. Aps duas ou trs garfadas, Ron afastara a sua poro com ar nauseado, e Harry s no tinha feito o 
mesmo para no magoar Hermione.

O silncio que os rodeava era quebrado por estranhos roagares e o que lhe pareciam ramos a estalar: Harry pensava que eram provocados por animais e no por pessoas, 
contudo manteve a varinha bem segura e a postos. As suas entranhas, j insatisfeitas devido  dose insuficiente de cogumelos emborrachados, ardiam de apreenso.

Pensara que se sentiria exultante se conseguissem recuperar o Horcrux, mas isso no acontecera; ali sentado, perscrutando a escurido parcialmente iluminada pela 
varinha, sentia apenas preocupao acerca do que aconteceria a seguir. Era como se andasse a correr em direco quele ponto havia semanas, meses, talvez at anos, 
e agora se tivesse detido abruptamente por se lhe ter acabado a estrada.

Havia outros Horcruxes algures, mas ele no fazia a menor ideia de onde poderiam estar. Nem sequer conhecia a sua natureza. Entretanto, ignorava completamente como 
destruir o nico que tinham encontrado, o Horcrux agora encostado  pele nua do seu peito. Curiosamente, no absorvera o calor do corpo, mantendo-se to frio como 
se tivesse acabado de sair de gua gelada. De vez em quando, Harry pensava sentir o dbil pulsar do corao a bater irregularmente junto ao seu. Ou talvez fosse 
imaginao.

Ali sentado no escuro, assaltaram-no vagos pressentimentos a que ele tentou resistir, mas eles regressavam, inexorveis. Nenhum pode viver enquanto o outro sobreviver. 
Ron e Hermione, que conversavam agora em voz baixa atrs dele, na tenda, podiam ir-se embora se quisessem: ele no. E pareceu a Harry, ali sentado a tentar dominar 
o seu prprio medo e exausto, que o Horcrux pousado no seu peito marcava o tempo que lhe restava ... Que ideia estpida, disse ele para consigo, no penses isso 
.

234

A cicatriz comeara de novo a picar-lhe. Receou estar a provocar aquilo devido aos seus pensamentos, e tentou dirigi-los para outro canal. Pensou no pobre Kreacher, 
que os esperava em casa e recebera antes Yaxley. O elfo conservar-se-ia calado ou contaria ao Devorador da Morte tudo o que sabia? Harry desejava acreditar que Kreacher 
mudara em relao a si durante o ltimo ms, que lhe seria agora leal, mas sabia-se l o que aconteceria? E se os Devoradores da Morte torturassem o elfo? Imagens 
mrbidas invadiram a mente de Harry e ele tentou afast-las igualmente, pois no podia fazer nada por Kreacher: ele e Hermione j haviam decidido no tentar convoc-lo; 
e se viesse tambm algum do Ministrio? No podia contar que a Apario dos elfos estivesse isenta da falha que levara Yaxley at Gnmmauld Place, agarrado  bainha 
da manga de Hermione.

A cicatriz ardia-lhe agora. Pensou que havia tanto que eles no sabiam: Lopin tinha razo quanto  existncia de magia com que eles nunca se tinham deparado, nem 
imaginado Por que no se explicara Dumbledore melhor? Teria pensado que havia tempo, que viveria muitos anos, sculos, talvez, como o seu amigo Nicolas Flamel? Se 
assim fora, enganara-se... Snape encarregara-se disso. . Snape, a serpente adormecida, que atacara no cimo da Torre .

E Dumbledore cara. . cara...

- "Entrega-ma, Gregorovitch."

A voz de Harry era aguda, clara e fria: a varinha estendia-se  sua frente, empunhada por uma mo branca, de dedos longos. O homem a quem a apontava achava-se suspenso 
no ar, de cabea para baixo, embora no houvesse qualquer corda a sust-lo; estava ali a oscilar, invisvel e misteriosamente amarrado, os membros atados em volta 
do corpo, a cara aterrada ao nvel da de Harry, e congestionada devido ao afluxo de sangue  cabea. Tinha o cabelo de um branco alvo e barba farta e cerrada: um 
Pai Natal enfeixado.

- No a tenho, j no a tenho! Foi-me roubada h muitos

anos!

- No mintas a Lord Voldemort, Gregorovitch. Ele sabe... ele

sabe sempre

As pupilas do homem suspenso estavam enormes, dilatadas pelo medo, e pareceram aumentar cada vez mais at o seu negrume envolver completamente Harry

E agora Harry percorria apressado um corredor sombrio no rasto do pequeno e robusto Gregorovitch, que erguia uma

235

lanterna; Gregorovitch irrompeu pela sala na extremidade do corredor e a sua lanterna iluminou aquilo que parecia uma oficina; aparas de madeira e ouro brilhavam 
na mancha de claridade oscilante, e no parapeito da janela estava empoleirado, qual pssaro gigante, um jovem de cabelo dourado. Na fraco de segundo em que a luz 
da lanterna o iluminou, Harry viu-lhe a satisfao impressa no rosto atraente, depois o intruso lanou um Feitio de Atordoar da sua varinha e saltou agilmente para 
trs, para o lado de fora da janela, com uma gargalhada exultante.

E Harry projectava-se para fora daquelas pupilas enormes, semelhantes a um tnel, e o rosto de Gregorovitch estava paralisado de pavor.

- Quem era o ladro, Gregorovttch? - indagou a aguda voz gelada.

- No sei, nunca soube, um jovem... no... por favor . POR FAVOR!

Um grito que se prolongou interminavelmente e depois um claro de luz verde...

- Harry1

Abriu os olhos, ofegante, as fontes a latejar. Desmaiara contra o lado da tenda, deslizara pela lona e achava-se estatelado no solo. Ergueu os olhos para Hermione, 
cuja farta cabeleira obscurecia o minsculo pedao de cu visvel atravs dos ramos negros, l muito em cima.

- Foi um sonho - disse ele, sentando-se rapidamente e tentando enfrentar o olhar de Hermione com ar inocente. - Devo ter dormitado, desculpa

- Eu sei que foi a tua cicatriz! Percebe-se pela expresso da tua cara! Estavas a ler a mente do Vol

- No lhe pronuncies o nome! - veio a voz irritada de Ron das profundezas da tenda.

- Est bem - retorquiu Hermione. - A mente do Quem-Ns-Sabemos, ento!

- Eu no quis que acontecesse! - defendeu-se Harry. - Foi um sonho! Tu consegues controlar aquilo com que sonhas, Hermione?

- Se aprendesses a usar Oclumancia...

Mas Harry no estava disposto a levar um sermo; queria discutir aquilo que acabara de ver.

- Ele encontrou o Gregorovitch, Hermione, e penso que o matou, mas antes disso leu-lhe a mente e eu vi...

236

- Acho melhor ficar eu de vigia, se ests to cansado que at adormeces - declarou Hermione em tom frio.

- Eu termino o turno!

- No,  bvio que ests exausto. Vai-te deitar. Sentou-se  entrada da tenda, com uma expresso obstinada.

Irritado, mas desejoso de evitar discusses, Harry foi para dentro. O rosto ainda plido de Ron espreitava do beliche inferior, Harry trepou para o de cima, deitou-se 
e fitou o tecto de lona escura Aps alguns instantes, Ron falou em voz to baixa que no seria audvel por Hermione, agachada  entrada.

- O que anda o Quem-Ns-Sabemos a fazer?

Harry apertou os olhos num esforo para recordar todos os pormenores e depois sussurrou para a escurido.

- Encontrou o Gregorovitch. Tmha-o amarrado, estava a tortur-lo.

- Como  que o Gregorovitch lhe pode fazer uma varinha nova se est amarrado?

- No sei...  esquisito, no ?

Harry cerrou os olhos, ponderando tudo o que vira e ouvira. Quanto mais recordava, menos sentido fazia... Voldemort no dissera nada acerca da varinha de Harry, 
nem dos ncleos gmeos, nem de Gregorovitch lhe fazer uma nova varinha, mais poderosa, para derrotar a de Harry...

- Ele queria qualquer coisa do Gregorovitch - disse Harry, ainda de olhos firmemente cerrados. - Pediu-lhe para lha entregar, mas o Gregorovitch disse que lha tinham 
roubado... e depois. . depois...

Relembrou a maneira como ele prprio, sob a forma de Voldemort, parecera penetrar nas recordaes de Gregorovitch atravs dos seus olhos...

- Ele leu a mente do Gregorovitch, e eu vi um tipo jovem empoleirado no parapeito de uma janela, que lanou um feitio sobre o Gregorovitch e saltou, desaparecendo 
de vista. Ele roubou-a, o que quer que seja que o Quem-Ns-Sabemos procura. E eu... eu creio que j o vi algures...

Harry desejou poder lanar outra olhadela ao rosto sorridente do rapaz O roubo dera-se h muitos anos, segundo Gregorovitch Por que lhe parecia o jovem ladro to 
familiar?

Os rudos da floresta em redor chegavam abafados ao interior da tenda e a nica coisa que Harry ouvia era a respirao de Ron. Ao fim de um bocado, este murmurou: 
- No conseguiste ver o que o ladro tinha na mo?

237

- No... devia ser uma coisa pequena.

- Harry?

As ripas de madeira do beliche de Ron rangeram quando ele mudou de posio.

- Harry, no pensas que o Quem-Ns-Sabemos ande  procura de outra coisa para transformar num Horcrux?

- No sei - respondeu Harry lentamente. - Talvez. Mas no seria perigoso para ele fazer outro? A Hermione no disse que ele j levara a sua alma at ao limite?

- , mas talvez ele no saiba isso.

- ... talvez - concedeu Harry.

Tivera a certeza de que Voldemort andava  procura de uma maneira de rodear o problema dos ncleos gmeos, de que Voldemort queria que o velho fabricante de varinhas 
lhe fornecesse uma soluo... e no entanto ele matara-o, aparentemente sem lhe fazer uma nica pergunta sobre a cincia das varinhas.

O que andava Voldemort a tentar encontrar? Por que era que, com o Ministrio da Magia e o mundo dos feiticeiros a seus ps, ele se achava longe, perseguindo, obstinado, 
um objecto que Gregorovitch possura em tempos, e que lhe fora roubado pelo ladro desconhecido?

Harry via ainda a cara do jovem louro, jovial, travessa; havia em todo ele um ar de diabrura triunfante que lembrava Fred e George. Lanara-se do parapeito da janela 
como um pssaro, e Harry j o vira, mas no conseguia lembrar-se onde...

com Gregorovitch morto, era agora o feiticeiro de rosto jovial que se encontrava em perigo, e era sobre ele que os pensamentos de Harry se alongavam, enquanto o 
ressonar de Ron lhe chegava do beliche de baixo, e ele prprio mergulhava, uma vez mais, lentamente no sono.

XV

A VINGANA DO GOBLIN

238

No dia seguinte de manh cedo, antes de os outros dois acordarem, Harry saiu da tenda para explorar a floresta em redor  procura da rvore mais retorcida e de aspecto 
mais resistente que encontrasse. A,  sombra dela, enterrou o olho de Moody Olho-Louco, marcando o local com uma pequena cruz que gravou na casca com a varinha. 
No era muito, mas achava que Olho-Louco preferiria mil vezes isso a estar pregado na porta de Dolores Umbridge. Depois, regressou  tenda e esperou que os outros 
despertassem, a fim de planearem o que fariam a seguir.

Harry e Hermione achavam que era melhor no permanecer muito tempo no mesmo stio, e Ron concordou, com a nica condio de que a mudana seguinte os levasse para 
onde houvesse uma sanduche de bacon ao alcance da mo. Assim, Hermione retirou os encantamentos que colocara em volta da clareira, enquanto Harry e Ron apagavam 
do solo todas as marcas e pegadas que pudessem indicar terem ali acampado. Depois Desapareceram para os arredores de uma pequena cidade onde se realizava uma feira.

Uma vez montada a tenda ao abrigo de um pequeno bosque, e rodeada de novos encantamentos defensivos, Harry aventurou-se a sair sob o Manto da Invisibilidade para 
procurar alimentos. No entanto, a sortida no correu como previsto. Acabava de entrar na cidade quando um frio anormal, a neblina que caa e o sbito escurecer do 
cu o levaram a imobilizar-se, petrificado.

- Mas tu sabes invocar um ptimo Patronus! - protestou Ron, vendo Harry regressar  tenda de mos vazias, arquejante, e articulando uma nica palavra: Dementors.

- No consegui... que se materializasse - ofegou ele, dobrado com uma pontada. - No... veio.

As expresses consternadas e desapontadas dos outros fizeram-no sentir-se envergonhado. Fora uma experincia apavorante, ver os Dementors sarem a deslizar da neblina 
ao longe e perceber, quando o frio paralisante lhe sufocou os pulmes e um grito distante lhe encheu os ouvidos, que no ia ser capaz de se proteger.

239

Precisara de exercer toda a sua fora de vontade para se arrancar daquele stio e fugir, deixando os Dementors cegos a planar por entre os Muggles, que podiam no 
ser capazes de os ver, mas sentiam seguramente o desespero que eles lanavam por onde quer que passassem

- Portanto, continuamos sem comida.

- Cala a boca, Ron - ordenou Hermione. - Harry, o que aconteceu' Por que pensas tu que no conseguiste materializar o teu Patronus? Ontem foste impecvel!

- No sei.

Sentou-se, cabisbaixo, num dos velhos cadeires de Perkins, sentindo-se cada vez mais humilhado. Receava que houvesse algo de errado consigo. O dia anterior parecia 
ter sido h imenso tempo e agora era como se tivesse outra vez treze anos e fosse o nico a ter desmaiado no Expresso de Hogwarts.

Ron deu um pontap na perna da cadeira.

- Que foi? - resmungou ele para Hermione. - Estou a morrer de fome! A nica coisa que comi desde que quase me esva em sangue foi uns cogumelos!

- Ento vai l tu e abre caminho por entre os Dementors - disse Harry, picado.

- E ia, mas estou de brao ao peito, caso no tenhas reparado!

- Muito conveniente.

- E o que queres tu dizer com...

- E claro! - exclamou Hermione, dando uma palmada na testa e, com o sobressalto, reduzindo-os a ambos ao silncio. - Harry, d c o medalho! V l - pediu ela, 
impaciente, fazendo estalar os dedos na direco dele ao ver que Harry no reagia -, o Horcrux, Harry, ainda o trazes!

Estendeu as mos e Harry passou a corrente dourada por cima da cabea. No momento em que se quebrou o contacto com a sua pele, sentiu-se liberto e estranhamente 
leve. No se apercebera sequer de que estava suado, ou de que tinha um peso a comprimir-lhe o estmago at ambas as sensaes desaparecerem.

- Melhor? - indagou Hermione.

- Sim, muito melhor!

- Harry - disse ela, agachando-se diante dele e usando o timbre de voz que Harry associava a visitas a pessoas gravemente doentes -, no pensas ter sido possudo, 
pois no?

- O qu? No! - protestou ele, na defensiva. - Lembro-me de tudo o que fizemos enquanto o tive posto No saberia o

240

que fiz se estivesse possudo, pois no? A Ginny disse-me que havia alturas em que no conseguia lembrar-se de nada.

- Hmm - fez Hermione, fitando o pesado medalho. - bom, talvez seja melhor no o usarmos. Podemos s conserv-lo na tenda.

- No vamos deixar esse Horcrux por a  balda - declarou Harry firmemente. - Se o perdermos, se for roubado...

- Oh, est bem, est bem - acedeu Hermione, colocando-o ao pescoo e ocultando-o da vista nas pregas da blusa. - Mas vamos revezar-nos, de maneira a que ningum 
o use durante muito tempo.

- ptimo - disse Ron, em tom irritado -, e agora que resolvemos isso, importam-se de irmos arranjar comida?

- Certo, mas vamos procur-la a outro stio - decidiu Hermione, relanceando um olhar a Harry. - No vale a pena ficarmos num local onde sabemos que andam a vaguear 
Dementors.

Por fim, instalaram-se para passar a noite num vasto campo pertencente a uma quinta isolada, onde conseguiram obter ovos e po.

- Isto no  roubar, pois no? - perguntou Hermione com a voz perturbada, enquanto devoravam torradas com ovos mexidos. - Dado que deixei ficar dinheiro debaixo 
do galinheiro?

Ron revirou os olhos e proferiu, com as bochechas inchadas: - Er-mi-one, tu p'eocupas-te 'e mais. 'escontrai-te!

E, na realidade, era muito mais fcil descontrarem-se depois de confortavelmente alimentados: a discusso acerca dos Dementors foi esquecida nas risadas dessa noite, 
e Harry sentia-se animado, esperanado mesmo, ao iniciar o primeiro dos trs turnos de vigia nocturna.

Era a primeira vez que se deparavam com o seguinte facto- um estmago cheio  sinnimo de boa disposio; e vazio, de disputas e mau humor. Harry foi quem menos 
se surpreendeu porque quase morrera  fome vrias vezes em casa dos Dursley. Hermione aguentava-se razoavelmente nas noites em que no conseguiam mais que frutos 
silvestres ou bolachas duras, ficando talvez um pouco mais irascvel, ou mantendo-se num silncio obstinado. Ron, contudo, fora sempre habituado a trs deliciosas 
refeies dirias, preparadas pela me ou pelos elfos domsticos de Hogwarts, e a fome tornava-o simultaneamente irracional e conflituoso. Sempre que a falta de 
comida coincidia com a vez de Ron usar o Horcrux, mostrava-se extremamente desagradvel.

241

- Ento, agora vamos para onde? - era o seu refro constante. No parecia ter ideias prprias, mas esperava que Harry e Hermione arranjassem planos, enquanto ele 
ficava sentado a remoer sobre a escassez de reservas alimentares. Consequentemente, Harry e Hermione passavam horas infrutferas tentando decidir onde poderiam encontrar 
os outros Horcruxes, e como destruir o que j possuam, em conversas que se tornavam cada vez mais repetitivas, dada a falta de novas informaes.

Visto Dumbledore ter dito a Harry que acreditava que Voldemort teria escondido os Horcruxes em lugares significativos, eles iam recitando, numa espcie de enfadonha 
litania, os locais onde sabiam que Voldemort vivera ou que visitara. O orfanato onde nascera e fora criado, Hogwarts, onde fora educado, Borgin Burkes, onde trabalhara 
aps ter deixado a escola, e depois a Albnia, onde passara os seus anos de exlio: estes constituam a base das suas especulaes.

- Isso, vamos at  Albnia. No devemos levar mais que uma tarde a revistar o pas inteiro - comentou Ron, sarcstico.

- No pode haver nada l. Ele j fizera cinco dos seus Horcruxes antes de partir para o exlio, e o Dumbledore tinha a certeza de que a serpente  o sexto - afirmou 
Hermione. - Sabemos que a serpente no est na Albnia, acompanha em geral o Vol...

- No te pedi que deixasses de dizer isso?

- bom! A serpente acompanha em geral o Quem-Ns-Sabemos... satisfeito?

- No particularmente.

- No estou a v-lo a esconder nada no Borgin Burkes - disse Harry, que j afirmara aquilo muitas vezes, mas o repetiu simplesmente para quebrar o silncio desagradvel. 
- O Borgin e o Burke eram peritos em objectos das trevas, teriam reconhecido imediatamente um Horcrux.

Ron bocejou ostensivamente. Dominando o forte impulso de lhe atirar qualquer coisa, Harry prosseguiu: - Mas continuo a pensar que ele pode ter escondido qualquer 
coisa em Hogwarts.

Hermione suspirou.

- Mas o Dumbledore t-la-ia encontrado, Harry!

Harry repetiu o argumento que usava sempre para apoiar a sua teoria.

- O Dumbledore declarou,  minha frente, que nunca presumira conhecer todos os segredos de Hogwarts. Digo-lhes que se houvesse um stio que o Vol...

242

- Pra!

- O QUEM-NS-SABEMOS, ento! - gritou Harry, no limite da pacincia. - Se houve um lugar realmente importante para o Quem-ns-Sabemos, foi Hogwarts!

- Ora, anda l - fungou Ron. - A escola?

- Sim, a escola! Foi o seu primeiro lar a srio, o lugar que significava que ele era especial, significava tudo para ele, e mesmo depois de ter sado de l...

- Estamos a falar do Quem-Ns-Sabemos, certo? No  de ti? - indagou Ron. Dava puxes na corrente do Horcrux que trazia pendurado ao pescoo. Harry sentiu vontade 
de a agarrar e de o estrangular com ela.

- Tu contaste-nos que o Quem-Ns-Sabemos pediu ao Dumbledore para lhe dar emprego depois de ter sado de l - disse Hermione.

-  verdade - confirmou Harry.

- E o Dumbledore pensava que ele s queria voltar para tentar encontrar alguma coisa, provavelmente um objecto de outro fundador, para fazer novo Horcrux?

- Sim - disse Harry.

- Mas ele no conseguiu o emprego, pois no? - insistiu Hermione. - Portanto nunca teve oportunidade de encontrar um objecto de um fundador e de o esconder na escola!

- OK, pronto - concordou Harry, derrotado. - Esqueam Hogwarts.

Dada a inexistncia de outras pistas, dirigiram-se a Londres e, ocultos sob o Manto da Invisibilidade, procuraram o orfanato em que Voldemort fora criado. Hermione 
esgueirou-se para uma biblioteca e descobriu pelos registos que a casa havia sido demolida muitos anos antes. Visitaram o local, e encontraram uma torre de escritrios.

- Podamos experimentar escavar as fundaes? - sugeriu Hermione pouco convicta.

- Ele nunca teria escondido um Horcrux aqui - afirmou Harry. Sempre o soubera: o orfanato fora o local de onde Voldemort quisera escapar; nunca l teria escondido 
parte da sua alma. Dumbledore mostrara a Harry que Voldemort procurava grandeza ou misticismo para os seus esconderijos; aquele canto lgubre e cinzento de Londres 
no podia ser mais diferente de Hogwarts, ou do Ministrio, ou de um edifcio como Gringotts, o banco dos feiticeiros, com as suas portas douradas e pavimentos de 
mrmore.

243

Mesmo sem terem ideias novas, continuaram a deslocar-se pelo pas, armando a tenda num stio diferente todas as noites, por uma questo de segurana. Todas as manhs 
se certificavam de que haviam apagado quaisquer sinais da sua presena, e depois partiam  descoberta de outro local isolado e abrigado, viajando por Apario at 
mais florestas, fendas sombrias em rochas, charnecas em flor, encostas de montanhas cobertas de tojo e, certa vez, uma enseada abrigada e pedregosa. Mais ou menos 
de doze em doze horas, passavam o Horcrux de uns para os outros, como se estivessem a executar um perverso jogo das cadeiras em cmara lenta, com pavor de que a 
msica parasse porque a recompensa seriam mais doze horas de medo e ansiedade.

A cicatriz de Harry continuava a arder-lhe. Reparou que isso acontecia com mais frequncia quando trazia o Horcrux. s vezes no conseguia evitar reagir  dor.

- Que foi? O que  que viste? - perguntava Ron, sempre que via Harry estremecer.

- Uma cara - murmurava invariavelmente Harry. - A mesma cara. O ladro que roubou o Gregorovitch.

E Ron virava-se, sem procurar ocultar o seu desapontamento. Harry sabia que o amigo esperava ouvir notcias da sua famlia, ou do resto da Ordem da Fnix, mas a 
verdade  que ele, Harry, no era uma antena de televiso; s conseguia ver aquilo em que Voldemort estava a pensar na altura, e no sintonizar o que quer que lhe 
apetecesse. Aparentemente, Voldemort pensava constantemente no jovem desconhecido de cara jovial, cujo nome e paradeiro, Harry tinha a certeza, Voldemort sabia tanto 
como ele. Enquanto a sua cicatriz continuava a arder e o alegre jovem louro vagueava, provocante, na sua memria, aprendeu a suprimir quaisquer sinais de dor ou 
desconforto, pois os outros dois apenas demonstravam impacincia quando ele mencionava o ladro. E, na verdade, Harry no podia censur-los, uma vez que ansiavam 
desesperadamente por uma pista sobre os Horcruxes.

 medida que os dias se transformavam em semanas, Harry comeou a desconfiar que Ron e Hermione andavam a ter conversas a seu respeito, das quais o excluam. Por 
diversas vezes pararam de falar abruptamente quando Harry entrou na tenda, e duas vezes deparou acidentalmente com eles a conferenciarem um pouco afastados, de cabeas 
juntas e a falarem rapidamente; de ambas as vezes se calaram ao perceberem que ele se aproximava, atarefando-se a juntar lenha ou a ir buscar gua.

Harry no podia deixar de se interrogar se eles no teriam concordado em o acompanhar no que parecia agora uma intil viagem ao acaso, por pensarem que ele tinha 
algum plano secreto de que, em devido tempo, tomariam conhecimento. Ron no se esforava sequer por disfarar o seu mau humor, e Harry comeava a recear que tambm 
Hermione se sentisse desapontada com a sua fraca liderana. Em desespero de causa, tentou pensar em mais locais para Horcruxes, mas o nico que continuava a ocorrer-lhe 
era Hogwarts, e como nenhum dos outros o achava minimamente provvel, deixou de o sugerir.

O Outono estendeu-se pelos campos enquanto eles se deslocavam: armavam agora a tenda em tapetes de folhas cadas. Neblinas naturais juntavam-se s provocadas pelos 
Dementors e o vento e a chuva aumentavam-lhes os problemas. O facto de Hermione ter melhorado a arte de identificar cogumelos comestveis no era, de forma alguma, 
compensao para o seu contnuo isolamento, a falta de companhia de outras pessoas, ou a sua total ignorncia sobre o que se estava a passar na guerra contra Voldemort.

- A minha me - comentou Ron uma noite em que se encontravam sentados na margem de um rio, em Gales -,  capaz de fazer aparecer comida do nada.

Espetava, com ar sorumbtico, os pedaos cinzentos de peixe queimado que tinha no prato. Harry deitou automaticamente um relance ao pescoo de Ron e constatou, como 
esperara, que l reluzia a corrente dourada do Horcrux. Conseguiu dominar o impulso de se irritar com ele, sabendo que a sua atitude melhoraria ligeiramente quando 
chegasse a altura de tirar o medalho.

- A tua me no  capaz de fazer surgir comida do nada - contraps Hermione. - Ningum . A comida  a primeira das cinco Principais Excepes  Lei de Gamp da Transfigurao 
dos Elemen...

- Olha, diz coisas que se percebam, t bem? - retorquiu Ron, pescando uma espinha de entre os dentes.

-  impossvel fazer boa comida sem nada! Podes Convoc-la se souberes onde existe, podes transform-la, podes aumentar a quantidade seja tiveres alguma...

- ... bem, no te preocupes em aumentar isto,  nojento - declarou Ron.

- O Harry apanhou o peixe e eu fiz o melhor que pude! J reparei que acabo por ser sempre eu a ter de arranjar comida; porque sou rapariga, suponho!

244

- No, porque supostamente s a melhor em magia! - gritou tambm Ron.

Hermione ergueu-se de um salto, fazendo saltar pedaos de lcio esturricado do seu prato de lata para o cho.

- Amanh podes cozinhar tu, Ron, podes tu ir procurar os ingredientes e tentar transform-los em qualquer coisa que se possa comer, e eu fico aqui sentada a fazer 
caretas e a resmungar e vais ver como te...

- Cala-te! - exclamou Harry, pondo-se subitamente de p e levantando as duas mos - Cala-te j!

Hermione arvorou um ar ofendido.

- Como  que podes pr-te do lado dele, quando ele nunca cozm...

- Hermione, est calada, ouvi algum!

Escutava atentamente, as mos ainda erguidas, avisando-os para no falarem. Depois, acima dos rudos do rio escuro que lhes corria ao lado, ouviu de novo as vozes. 
Procurou com a vista o Avisoscpio. No se movia.

- Lanaste o Encantamento Muffliato sobre ns, certo' - sussurrou ele para Hermione.

- Fiz tudo - respondeu ela, tambm num murmrio -, MufHiato, Repelente de Muggles & Feitio de Camuflar, todos. Quem quer que seja, no deve poder ver-nos nem ouvir-nos.

O som de passos arrastados e uns rangidos, aliados ao rudo de pedras e ramos pisados, disseram-lhes que vinham vrias pessoas a descer a ngreme encosta arborizada 
que conduzia  margem estreita onde tinham armado a tenda. Pegaram nas varinhas e aguardaram. Os encantamentos de que se haviam rodeado deviam ser suficientes, no 
meio da quase total escurido, para os proteger de serem detectados por Muggles e feiticeiros normais. Se fossem Devoradores da Morte, ento talvez as suas defesas 
estivessem prestes a ser testadas por Magia Negra pela primeira vez.

As vozes foram-se tornando mais altas, mas no mais inteligveis, quando o grupo de homens chegou  margem. Harry calculou que os seus donos estavam a menos de seis 
metros, mas a queda de gua formada pelo rio tornava impossvel ter a certeza. Hermione pegou na mala de missangas e comeou a vasculhar; aps alguns instantes, 
tirou de l trs Orelhas Extensveis e atirou duas a Harry e Ron, que se apressaram a inserir os fios cor de carne nos ouvidos, colocando a outra extremidade no 
exterior da tenda.

246

Da a segundos, Harry ouviu uma voz masculina, num tom fatigado.

- Devia haver por aqui alguns salmes, ou achas que ainda no  a estao deles? Acsio salmo!

Ouviram-se diversos espadanares na gua e depois o som de um peixe a bater num corpo. Algum resmungou apreciativamente. Harry enfiou mais a Orelha Extensvel no 
ouvido: acima do murmrio do rio, distinguiu mais vozes, mas no falavam ingls nem qualquer lngua humana que j tivesse ouvido Era uma linguagem spera e dissonante, 
uma srie de rudos estrepitosos e guturais, e parecia ser falada por duas pessoas, uma delas com uma voz levemente mais grave e lenta que a da outra.

Do lado de l da lona irrompeu uma fogueira ondulante e grandes sombras passaram entre a tenda e as chamas. O delicioso odor de salmo a assar flutuou, tentador, 
na direco deles. Depois ouviu-se o bater de talheres em pratos, e o primeiro homem falou de novo.

- Tomem, Gripook, Gornuk.

- Golblinsl - articulou Hermione para Harry, que anuiu.

- Obrigado - agradeceram os goblins, em coro e em ingls.

- Ento, vocs trs andam fugidos h quanto tempo? - perguntou uma nova voz, melodiosa e agradvel, que Harry achou familiar e  qual associou um homem barrigudo, 
de rosto bem-humorado.

- Seis semanas... sete... j me esqueci - respondeu o homem, fatigado. - Encontrei o Gripook nos primeiros dias e unimos foras com o Gornuk pouco depois.  agradvel 
ter companhia - Seguiu-se uma pausa, enquanto as facas rapavam os pratos e canecas de lata eram erguidas e voltadas a pousar no solo. - O que te fez partir, Ted? 
- prosseguiu o homem.

- Sabia que eles me iriam buscar - replicou o da voz melodiosa, Ted, e de repente Harry percebeu quem ele era: o pai de Tonks. - Constou-me que os Devoradores da 
Morte andavam pelas vizinhanas na semana passada e achei melhor pr-me ao fresco. Recusei registar-me como tendo origem Muggle, por uma questo de princpio, percebes, 
portanto sabia que, mais tarde ou mais cedo, acabaria por ter de partir. A minha mulher no dever ter problemas,  puro-sangue. E depois encontrei aqui o Dean, 
qu, h meia dzia de dias, filho?

-  - disse outra voz, e Harry, Ron e Hermione entreolhararn-se, em silncio mas fora de si de excitao, certos de haverem reconhecido a voz de Dean Thomas, o seu 
colega dos Gryffindor.

247

- De origem Muggle, hem? - indagou o primeiro homem.

- No tenho a certeza - respondeu Dean. - O meu pai deixou a minha me quando eu era mido, mas no tenho qualquer prova de que ele fosse feiticeiro.

Fez-se silncio durante um bocado, ouvindo-se apenas os sons de mastigao; depois Ted voltou a falar.

- Devo dizer que fiquei admirado por te encontrar, Dirk. Satisfeito, mas admirado. Constou que tinhas sido apanhado.

- E fui - confirmou Dirk. - Ia a meio caminho de Azkaban quando fugi. Atordoei o Dawlish e lhe fanei a vassoura. Foi mais fcil do que poderia pensar-se; acho que 
ele no anda l muito bem Talvez tenha sido Confundido. Se assim foi, gostaria de apertar a mo da feiticeira ou feiticeiro que o fez; provavelmente salvou-me a 
vida.

Seguiu-se nova pausa, durante a qual o fogo crepitou e o no continuou a correr. Depois Ted indagou: - E onde  que vocs dois se encaixam? Eu, ha... tinha a impresso 
de que os goblins eram pelo Quem-Ns-Sabemos, na generalidade.

- Pois tinhas uma impresso falsa - declarou o goblin de voz mais aguda. - Ns no tomamos partido. Esta  uma guerra de feiticeiros.

- Ento por que  que andam fugidos?

- Pareceu-me prudente - respondeu o goblin de voz mais grave. - Tendo recusado aquilo que considerei um pedido impertinente, compreendi que a minha segurana pessoal 
estava em risco

- O que  que eles te pediram para fazer? - mteressou-se Ted.

- Tarefas imprprias da dignidade da minha raa - redarguiu o goblin, e a sua voz soava mais spera e menos humana ao dizer tal. - Eu no sou um elfo domstico.

- E tu, Griphook?

- Motivos semelhantes - disse o goblin da voz aguda. - Gringotts j no se acha sob controlo exclusivo da minha raa e eu no aceito ordens de feiticeiros.

Acrescentou qualquer coisa em surdina, em dialecto de goblin, e Gornuk riu-se.

- Qual  a piada? - perguntou Dean.

- Ele disse que h coisas que os feiticeiros tambm no aceitam - elucidou Dirk.

Fez-se uma breve pausa.

- No percebo - disse Dean.

248

- Tive a minha pequena vingana antes de partir - declarou Griphook em ingls.

- Valente homem... quero dizer, goblin - emendou Ted apressadamente. - No trancaste um Devorador da Morte num dos velhos cofres de alta segurana, suponho?

- Se assim fosse, a espada no o teria ajudado a fugir - replicou Griphook. Gornuk riu-se de novo e at Dirk soltou uma pequena gargalhada seca.

- Continua a escapar-nos qualquer coisa - confessou Ted.

- O mesmo se passa com o Severus Snape, embora ele no saiba - comentou Griphook, e os dois goblins partiram-se a rir.

No interior da tenda, Harry quase no respirava com a excitao" ele e Hermione fitavam-se, escutando o mais atentamente possvel

- No ouviste falar nisso, Ted? - perguntou Dirk. - Nos garotos que tentaram roubar a espada de Grynffindor do gabinete do Snape, em Hogwarts?

Uma corrente elctrica pareceu percorrer o corpo de Harry, acirrando-lhe todos os nervos e pregando-o ao cho.

- Nem uma palavra - disse Ted. - No saiu no Profeta, pois no?

- Era pouco provvel - casquinou Dirk. - Quem me contou foi aqui o Griphook, e ele soube pelo Bill Weasley, que trabalha no banco. Um dos garotos que tentou tirar 
a espada foi a irm mais nova do Bill.

Harry relanceou um olhar a Hermione e Ron, ambos agarrados s Orelhas Extensveis com tanta fora como se fossem cordas de salvamento.

- Ela e dois amigos entraram no gabinete do Snape e espatifaram o estojo de vidro onde, ao que parece, ele guardava a espada. O Snape apanhou-os quando eles tentavam 
escapar-se com ela escada abaixo.

- Ah, louvados sejam - exclamou Ted. - O que  que eles pensaram, que poderiam usar a espada contra o Quem-Ns-Sabemos? Ou contra o prprio Snape?

- Bem, o que quer que pensavam fazer com ela, o Snape decidiu que a espada no se achava segura onde estava - prosseguiu Dirk. - Um par de dias mais tarde, depois 
de ter obtido o acordo do Quem-Ns-Sabemos, imagino eu, mandou-a para Londres a fim de ser guardada em Gringotts.

Os goblins desmancharam-se de novo a rir.

249

l

- Eu continuo a no perceber a piada - disse Ted

-  uma imitao - grasnou Gripook.

- A espada de Gryffindor?!

- Oh, sim.  uma cpia - uma excelente cpia,  verdade

- mas feita por feiticeiros. A original foi forjada h sculos por goblins e possua certas propriedades que so exclusivas da armaria fabricada por goblins. Onde 
quer que a genuna espada de Grynffindor se encontre, no  num cofre do Banco Grimgotts.

- Estou a ver - comentou Ted. - E depreendo que no te deste ao trabalho de informar os Devoradores da Morte disso?

- No vi motivo para os sobrecarregar com tal informao

- disse Gripook em tom complacente, e Ted e Dean fizeram coro com as gargalhadas de Gornuk e Dirk.

No interior da tenda, Harry fechou os olhos, tentando, por um esforo de vontade, induzir algum a fazer a pergunta que ele precisava de ver respondida, e aps um 
minuto que pareceu dez, Dean, tambm um ex-namorado de Ginny (recordou Harry com um choque) fez-lhe a vontade.

- O que aconteceu  Ginny e aos outros? Aos que tentaram roub-la?

- Oh, foram castigados, e cruelmente - afirmou Gripook, indiferente.

- Mas esto bem, no? - apressou-se Ted a indagar. - Quer dizer, os Weasley no precisam de mais filhos feridos, pois no?

- Tanto quanto sei, no sofreram ferimentos graves - respondeu Gripook.

- Tiveram sorte - observou Ted. - com os antecedentes do Snape, suponho que devemos dar-nos por felizes por ainda estarem vivos.

- Ento tu acreditas nessa histria, Ted? - perguntou Dirk. - Acreditas que o Snape matou o Dumbledore?

- Claro que sim - afirmou Ted. - No vais ficar a a olhar para num e a dizer que pensas que o jovem Potter teve alguma coisa a ver com isso?

- Actualmente  difcil saber em que acreditar - murmurou Dirk.

- Eu conheo o Harry Potter - interferiu Dean - E acho que ele  o autntico .. o Eleito, ou l o que lhe queiram chamar.

- Pois, h muita gente que gostaria de acreditar que sim, meu filho - observou Dirk -, incluindo eu. Mas onde est ele? Cavou, ao que parece. Se ele soubesse alguma 
coisa que ns ignoramos, ou tivesse alguma coisa de especial a seu favor, seria natural que andasse agora por a a combater, a reorganizar a resistncia, em vez 
de se esconder. E sabes, o Profeta apresentou boas razes contra ele...

- O Profeta? - escarneceu Ted. - Mereces que te mintam se ainda ls esse lixo, Dirk. Se queres factos, experimenta A Voz Delirante.

Ouviu-se uma sbita exploso de tosse e vmitos, e muitas pancadas; pelo som, Dirk engolira uma espinha. Por fim, tartamudeou: - A Voz Delirante? Esse pasquim luntico 
do Xeno Lovegood?

- Presentemente no  assim to luntico - corrigiu Ted.

- Tens de lhe dar uma olhadela. O Xeno anda a publicar tudo aquilo que o Profeta ignora, nem traz uma s meno a Snorkacks de Chifres Amarrotados na ltima edio. 
L por quanto tempo  que eles o vo deixar safar-se com isso,  que eu no sei. Mas o Xeno diz, na primeira pgina de todos os nmeros, que qualquer feiticeiro 
que seja contra o Quem-Ns-Sabemos devia ter como prioridade nmero um ajudar o Harry Potter.

-  difcil ajudar um rapaz que desapareceu da face da Terra

- comentou Dirk.

- Ouve, o facto de eles ainda o no terem apanhado  uma faanha e tanto - insistiu Ted. - Eu c recebia com satisfao sugestes dele.  o que ns andamos a tentar 
fazer, continuar livres, no ?

- Sim, pois, a tens razo - concedeu Dirk, em tom sombrio. - com o Ministrio inteiro e todos os seus informadores  sua procura, eu esperaria que j tivesse sido 
apanhado. Repara, quem nos diz que no o apanharam e mataram j, sem fazerem publicidade?

- Ah, no digas isso, Dirk - murmurou Ted.

Fez-se uma longa pausa preenchida pelo tilintar de garfos e facas. Quando voltaram a falar, foi para discutir se deveriam dormir na margem ou subir novamente a encosta 
arborizada. Decidindo que as rvores lhes proporcionariam melhor abrigo, apagaram a fogueira, e regressaram por onde tinham vindo, as vozes a afastarem-se.

Harry, Ron e Hermione enrolaram as Orelhas Extensveis. Harry, a quem fora muito difcil ficar calado, enquanto ouviam os outros, descobria agora que apenas conseguia 
articular:

- Ginny. . a espada...

250

251

- Eu sei! - exclamou Hermione.

Precipitou-se para a pequena mala de missangas, mergulhando o brao l dentro at  axila.

- Aqui... est. . - murmurou ela, por entre os dentes cerrados, a puxar qualquer coisa que se encontrava, obviamente, nas profundezas da mala. Lentamente, surgiu 
 vista a ponta de uma moldura ornamentada. Harry apressou-se a ajud-la. Enquanto tiravam o retrato vazio de Phineas Nlgellus da mala de Hermione, esta conservava 
a sua varinha apontada para ele, pronta a lanar-lhe um encantamento a todo o instante.

- Se algum trocou a espada verdadeira pela imitao enquanto ela estava no gabinete do Dumbledore - disse ela ofegando, ao encostarem o retrato a um dos lados da 
tenda -, o Phineas Nlgellus viu isso acontecer, pois est pendurado mesmo ao lado do estojo!

- A menos que estivesse a dormir - comentou Harry, mas mesmo assim susteve a respirao, enquanto Hermione ajoelhava em frente da tela vazia, de varinha dirigida 
ao centro, pigarreava e depois chamava: - Ha... Phineas? Phineas Nlgellus?

No aconteceu nada.

- Phineas Nlgellus? - repetiu Hermione. - Professor Black? Por favor, poderamos falar consigo? Por favor?

- "Por favor" ajuda sempre - proferiu uma fria voz de falsete, e Phineas Nlgellus deslizou para o seu retrato. Imediatamente Hermione gritou. - Obscuro!

Uma venda negra surgiu sobre os inteligentes olhos negros de Phineas Nlgellus, levando-o a chocar com a moldura e a guinchar de dor.

- O que... como ousam... o que esto...?

- Lamento imenso, Professor Black - desculpou-se Hermione -, mas  uma precauo necessria!

- Removam imediatamente este torpe acrscimo! Removam-no, digo-vos eu! Esto a arruinar uma grande obra de arte! Onde  que eu estou? O que se passa?

- Deixe l o nosso paradeiro - interrompeu Harry, e Phineas Black imobilizou-se, abandonando as suas tentativas de despegar a venda pintada.

- Ser possvel que esta seja a voz do esquivo Mr. Potter?

- Talvez - disse Harry, sabendo que isso manteria Phineas Nlgellus interessado - Temos algumas perguntas para lhe fazer, a respeito da espada de Gryffindor.

252

- Ah - comentou Phineas Nlgellus, virando agora a cabea de um lado para o outro e esforando-se por vislumbrar Harry. - Sim, aquela rapariga idiota agiu muito insensatamente...

- No fale assim da minha irm - avisou-o Ron asperamente. Phineas Nlgellus ergueu altivamente as sobrancelhas.

- Quem mais se encontra a? - indagou ele, virando a cabea de um lado para o outro. - O teu tom desagrada-me! A rapariga e os amigos foram extremamente imprudentes. 
Roubar o Director!

- No estavam a roubar - contraps Harry. - Essa espada no  do Snape!

- Pertence  escola do Professor Snape - corrigiu Phineas Nlgellus. - Exactamente que direito se arroga essa garota Weasley sobre ela? Mereceu o seu castigo, tal 
como o idiota do Longbottom e a excntrica da Lovegood!

- O Neville no  idiota e a Luna no  excntrica! - exclamou Hermione.

- Onde  que eu estou? - repetiu Phineas Nlgellus, recomeando a debater-se com a venda. - Para onde  que me trouxeram? Por que me tiraram da casa dos meus antepassados?

- Isso agora no interessa! Como  que o Snape castigou a Ginny, o Neville e a Luna? - perguntou Harry, ansioso.

- O Professor Snape mandou-os para a Floresta Proibida, fazer alguns trabalhos para o bronco, o Hagrid.

- O Hagrid no  bronco! - proferiu Hermione em voz estridente.

- E o Snape pode ter achado que isso era um castigo - observou Harry -, mas a Ginny, o Neville e a Luna provavelmente fartaram-se de rir com o Hagrid. A Floresta 
Proibida... j se confrontaram com muito pior que a Floresta Proibida, grande coisa!

Sentiu um enorme alvio; tinha imaginado horrores, a Maldio Cruciatus, no mnimo.

- O que ns queramos realmente saber, Professor Black,  se algum, hum, retirou mesmo a espada? Talvez tenha sido levada para limpar ou... ou algo assim?

Phineas Nlgellus fez nova pausa nos seus esforos para destapar os olhos e soltou uma risadinha.

- Gentinha de origem Muggle! - casquinou ele. - Armaria fabricada por golblins no precisa de manuteno, sua pateta. A prata dos golblins repele a sujidade terrena, 
absorvendo apenas aquilo que a fortalece.

- No chame pateta  Hermione - avisou-o Harry.

253

- Estou farto de que me contradigam - comentou Phineas Nigellus. - Talvez seja altura de voltar ao gabinete do Director?

Ainda vendado, comeou a tactear o lado da moldura, procurando o caminho para sair daquele seu retrato e regressar ao de Hogwarts quando Harry teve uma inspirao 
repentina.

- O Dumbledore! No pode trazer-nos o Dumbledore?

- Perdo? - perguntou Phineas Nigellus.

- O retrato do Professor Dumbledore... no o poderia trazer consigo, para aqui, para o seu?

Phineas Nigellus virou a cara na direco da voz de Harry.

-  evidente que os feiticeiros de origem Muggle no so os nicos ignorantes, Potter. Os retratos de Hogwarts podem conviver uns com os outros, mas no podem viajar 
para fora do castelo, excepto para visitar um quadro seu pendurado noutro local. O Dumbledore no pode vir at aqui comigo, e depois do tratamento que recebi s 
vossas mos, garanto-vos que no farei nova visita.

Um pouco desconolado, Harry observou os esforos redobrados de Phineas para sair da sua moldura.

- Professor Black - chamou Hermione -, no poderia apenas dizer-nos, por favor, quando foi a ltima vez que algum retirou a espada do seu estojo? Antes de a Ginny 
a ter tirado, quero eu dizer?

Phineas fungou, impaciente.

- Creio que a ltima vez que vi a espada de Gryffindor deixar o seu estojo foi quando o Professor Dumbledore a usou para quebrar um anel.

Hermione girou nos calcanhares para fitar Harry. Nenhum deles ousou dizer mais em frente de Phineas Nigellus, que conseguira finalmente localizar a sada.

- Bem, boa noite a todos - proferiu ele em voz irritadia, comeando a desaparecer de vista. Apenas a orla da aba do seu chapu era ainda visvel quando Harry soltou 
um grito sbito.

- Espere! Contou ao Snape que viu isso?

Phineas Nigellus voltou a enfiar a cabea vendada no retrato.

- O Professor Snape tem coisas mais importantes em que pensar do que as muitas excentricidades do Albus Dumbledore. Adeus, Potter!

E com isso desapareceu completamente, deixando para trs apenas o fundo sombrio do seu retrato.

- Harry! - exclamou Hermione.

- Eu sei! - gritou Harry. Incapaz de se conter, desferia murros para o ar: nunca ousara esperar tanto. Andava de um lado para

254

o outro na tenda, sentindo-se capaz de correr quilmetros; j nem sequer tinha fome. Hermione estava a encaixar novamente o retrato de Phineas Nigellus na mala de 
missangas; depois de a fechar, atirou-a para o lado e ergueu o rosto radiante para Harry.

- A espada  capaz de destruir Horcruxes! As lminas feitas por goblins absorvem apenas aquilo que as fortalece... Harry, aquela espada est impregnada com veneno 
de Basilisco!

- E o Dumbledore no ma deu porque ainda precisava dela, queria us-la no medalho...

- ...e deve ter percebido que eles no te deixariam ficar com ela se ta deixasse no testamento...

- ...portanto fez uma cpia...

- ...e colocou uma imitao no estojo de vidro...

- ...e deixou a verdadeira... onde?

Entreolharam-se; Harry sentia que a resposta pairava invisvel no ar por cima deles, to perto que era um tormento. Por que no lhe teria Dumbledore contado? Ou 
ter-lhe-ia, na realidade, dito, sem que na altura Harry se tivesse apercebido?

- Pensa! - sussurrou Hermione. - Pensa! Onde  que ele a teria deixado?

- No em Hogwarts - decidiu Harry, voltando a percorrer a tenda.

- Algures em Hogsmeade? - sugeriu Hermione.

- Na Cabana dos Gritos? - alvitrou Harry. - Nunca ningum l vai.

- Mas o Snape sabe como l entrar, no seria um bocado arriscado?

- O Dumbledore confiava no Snape - lembrou-lhe Harry.

- No o suficiente para lhe contar que trocara as espadas - contraps Hermione.

- Sim, tens razo! - exclamou Harry, sentindo-se ainda mais animado ao pensar que Dumbledore tivera algumas reservas, embora leves, acerca da lealdade de Snape. 
- Ento, ele teria escondido a espada bem longe de Hogsmeade, no? O que achas tu, Ron? Ron?

Olhou em volta. Durante um momento de estupefaco, pensou que Ron sara da tenda, mas depois percebeu que ele estava deitado nas sombras de um beliche inferior, 
com ar hostil.

- Ah, lembraram-se de mim, foi? - observou Ron.

- O qu?

Ron fungou, continuando a fitar o fundo do beliche superior.

255

- Continuem, vocs dois No deixem que eu vos estrague a festa.

Perplexo, Harry olhou para Hermione  procura de ajuda, mas ela abanou a cabea, aparentemente to desorientada como ele.

- Qual  o problema? - perguntou Harry.

- Problema? No h problema nenhum - respondeu Ron, recusando-se ainda a fitar Harry. - Pelo menos, na tua opinio.

Sentiram-se diversos pingues na lona, sobre as suas cabeas. Comeara a chover.

- Bem, tu tens obviamente um problema - insistiu Harry.

- Desembucha, anda.

Ron rodou as longas pernas para fora da cama e sentou-se. Ostentava uma expresso maldosa, nada prpria dele.

- Est bem, vou desembuchar. No esperem que eu me ponha aos saltos na tenda por haver mais uma maldita pea que temos de encontrar. Limita-te a acrescent-la  
lista de coisas que tu no sabes.

- Que eu no sei? - repetiu Harry. - Eu no sei? Pingue, pingue, pingue: a chuva caa agora com mais fora,

tamborilando na margem coberta de folhas em redor deles e no rio que corria no meio das trevas. O pavor abafou o jbilo de Harry: Ron acabara de dizer exactamente 
aquilo que ele desconfiava e receava que o amigo pensasse.

- No  que eu no ande a divertir-me  grande - prosseguiu Ron -, compreendes, com o brao estropiado e sem nada para comer e a gelar todas as noites. S que esperava, 
compreendes, que depois de fugidos andarmos h semanas, j tivssemos conseguido qualquer coisa.

- Ron - disse Hermione, mas em voz to baixa que Ron pde fingir que no a ouvira por causa do sonoro tamborilar que a chuva fazia agora na tenda.

- Pensei que sabias para o que te alistaras - observou Harry.

- , eu tambm.

- Ento, que parte  que no correspondeu s tuas expectativas? - indagou Harry. A clera vinha agora em sua defesa.

- Pensavas que amos ficar em hotis de cinco estrelas' Que encontraramos um Horcrux dia sim, dia no? Pensaste que estarias de volta ao aconchego da mam pelo 
Natal?

- Ns pensmos que tu sabias o que estavas a fazer! - gritou Ron, erguendo-se, e as suas palavras perfuraram Harry como facas em brasa - Pensmos que o Dumbledore 
te dissera o que fazer, pensmos que tinhas um plano a srio!

256

- Ron! - advertiu Hermione, desta vez claramente audvel acima da chuva que fustigava o tecto da tenda, mas ele voltou a ignor-la

- bom, lamento muito decepcionar-vos - declarou Harry, em voz muito calma apesar de se sentir vazio e incompetente. - Fui sincero convosco desde o princpio, contei-vos 
tudo o que o Dumbledore me contou. E, caso no tenhas reparado, encontrmos um Horcrux...

- , e estamos to perto de dar cabo dele como de encontrar os restantes, por outras palavras, a milhas!

- Tira o medalho, Ron - pediu Hermione em voz invulgarmente aguda. - Tira-o, por favor. No estarias a falar assim se no o tivesses usado o dia inteiro

- Estaria, sim - contrariou Harry, que no queria saber de desculpas. - Pensam que no reparei em vocs dois a segredar nas minhas costas? Pensam que no calculei 
que andavam a pensar isto mesmo?

- Harry, ns no andmos .

- No mintas! - atirou-lhe Ron com violncia. - Tu tambm o disseste, disseste que estavas desapontada, disseste que pensavas que ele tinha algo mais a que se agarrar 
do que ..

- Eu no disse isso assim... Harry, no disse! - gritou ela A chuva martelava a tenda, pela face de Hermione corriam

lgrimas, e a excitao de h poucos minutos evaporara-se como se nunca tivesse existido, um breve fogo de artifcio que explodira e fenecera, deixando tudo negro, 
hmido e frio A espada de Gryffindor estava escondida num lugar desconhecido, e eles encontravam-se ali, numa tenda, trs adolescentes cujo nico feito era no estarem, 
ainda, mortos.

- Sendo assim, por que  que continuas aqui? - perguntou Harry a Ron.

- V-se l saber - respondeu Ron.

- Ento vai para casa - disse Harry.

- , talvez v! - gritou Ron, dando vrios passos na direco de Harry, que no recuou. - No ouviste o que eles disseram acerca da minha irm? Mas tu ests-te nas 
tintas, claro,  apenas a Floresta Proibida, e o Harry Potter, o heri que j enfrentou pior, marimba-se para o que lhe possa acontecer por l! Pois eu no, aranhas 
gigantes e cenas loucas. .

- Eu s disse... ela estava com os outros, e estavam com o Hagrid ..

257

- ... , percebo, ests-te nas tintas! E o resto da minha famlia, "os Weasley no precisam de mais filhos feridos", ouviste isso?

- Sim, eu...

- Mas no te incomodou o que pudesse significar?

- Ron! - Hermione meteu-se  fora entre eles -, no creio que signifique que aconteceu mais alguma coisa, algo que ns desconheamos; pensa, Ron, o Bill j est 
desfigurado, nesta altura j imensa gente deve ter visto que o George perdeu uma orelha, e pensa-se que tu ests no teu leito de morte com espatergroitite, tenho 
a certeza de que  esse o significado...

- Ah, ento tens a certeza, ? Muito bem, pronto, no me preocupo com eles. Est tudo muito bem para vocs, no , com os vossos pais a salvo...

- Os meus pais esto mortos! - rugiu Harry.

- E os meus podem ir pelo mesmo caminho! - bradou Ron.

- Ento VAI! - trovejou Harry. - Volta para eles, finge que recuperaste da espatergroitite e a mam poder alimentar-te e...

Ron fez um movimento sbito e Harry reagiu, mas antes de a varinha de qualquer deles chegar a sair do bolso do seu proprietrio, j Hermione levantara a sua.

- Protego! - gritou ela, e um escudo invisvel estendeu-se entre ela e Harry de um lado, e Ron do outro; foram os trs obrigados a recuar alguns passos devido  
fora do feitio e Harry e Ron fitaram-se ferozmente de cada lado da barreira transparente, como se estivessem a ver-se claramente pela primeira vez. Harry sentiu 
um dio corrosivo por Ron: algo se quebrara entre eles.

- Tira o Horcrux - disse Harry.

Ron puxou violentamente a corrente por cima da cabea e atirou o medalho para uma cadeira prxima. Depois, virou-se para Hermione.

- E tu, o que vais fazer?

- A respeito de qu?

- Ficas, ou qu?

- Eu... - A angstia espalhava-se no rosto de Hermione. - Sim... sim, eu fico. Ron, ns dissemos que iramos com o Harry, dissemos que ajudaramos...

- - Percebo. Escolhe-lo a ele.

- Ron, no... por favor... volta, volta!

Viu-se impedida pelo seu prprio Feitio do Escudo Invisvel e, quando o anulou, j ele sara disparado para a noite. Harry man

258

teve-se absolutamente imvel e calado, ouvindo-a soluar e chamar por Ron no meio das rvores.

Hermione regressou aps alguns minutos, com o cabelo ensopado colado  cara.

- Ele p-p-partiu! Desapareceu!

Deixou-se cair numa cadeira, enroscou-se e comeou a chorar.

Harry sentia-se aturdido. Curvou-se, apanhou o Horcrux e passou-o em volta do pescoo. Foi buscar cobertores ao beliche de Ron e atirou-os para cima de Hermione. 
Depois subiu para a sua cama e ficou a olhar fixamente para o tecto de lona escura, escutando o martelar da chuva.

259

XVI

GODRICS HOLLOW

No dia seguinte, ao acordar, decorreram vrios minutos antes de Harry se lembrar do que tinha acontecido. Depois esperou, infantilmente, que tivesse sido um sonho, 
que Ron ainda ali se encontrasse e nunca tivesse partido. Contudo, ao virar a cabea na almofada, viu o beliche vazio. Parecia um corpo morto pela forma como lhe 
atraa o olhar. Harry saltou da cama, desviando os olhos da de Ron. Hermione, que j se achava ocupada na cozinha, no lhe deu os bons-dias, voltando rapidamente 
a cara quando ele passou.

Elefoi-se embora, disse Harry a si mesmo. Elefoi-se embora. Teve de continuar a pensar aquilo enquanto se lavava e vestia, como se a repetio amortecesse o choque. 
Ele foi-se embora e no volta E essa era a simples verdade, como Harry sabia, pois os encantamentos protectores significavam que, uma vez tendo abandonado aquele 
lugar, seria impossvel a Ron ach-los outra vez.

Ele e Hermione tomaram o pequeno-almoo em silncio. Hermione tinha os olhos inchados e vermelhos, e todo o ar de quem no dormira. Arrumaram as coisas, com Hermione 
a molengar. Harry sabia a razo de ela querer prolongar a estada na margem do rio; por vrias vezes a viu erguer o olhar, ansiosa, e tinha a certeza de que tentara 
iludir-se, pensando que ouvira passos pelo meio da chuva forte, mas no surgiu de entre as rvores nenhuma figura ruiva. Sempre que Harry a imitava (pois no podia 
deixar de sentir ele prprio uma rstia de esperana) e, olhando em volta, no via mais que uma floresta fustigada pela chuva, explodia dentro dele outra pequena 
bolha de clera. Ouvia Ron a dizer, "Ns pensmos que tu sabias o que estavas afazer!" e voltava s arrumaes com um n na boca do estmago.

O rio lamacento subia rapidamente e no tardaria a extravasar para a margem. Tinham demorado uma boa hora a mais do que habitualmente levavam a abandonar o local 
do acampamento. Por fim, aps ter arrumado a mala por trs vezes, Hermione pareceu incapaz de descobrir mais razes para adiar: deu a mo a Harry e

260

Desapareceram, reaparecendo numa encosta coberta de urze e varrida pelo vento.

No instante em que chegaram, Hermione largou a mo de Harry e afastou-se dele, acabando por se sentar numa grande pedra, com a cara nos joelhos e o corpo a tremer; 
Harry percebeu que soluava. Contemplou-a, achando que deveria ir confort-la, mas algo o manteve pregado ao cho. Tudo no seu ntimo estava frio e tenso e voltou 
a ver a expresso desdenhosa da cara de Ron. Partiu a passos largos pelo meio da urze, descrevendo um amplo crculo cujo centro era a transtornada Hermione, e lanou 
os encantamentos destinados a proteg-los, em geral executados por ela.

Durante os dias seguintes no falaram a respeito de Ron. Harry estava decidido a nunca mais lhe pronunciar o nome, e Hermione parecia saber que no adiantaria forar 
a questo, embora s vezes,  noite, quando pensava que ele estava a dormir, Harry a ouvisse chorar. Entretanto, ele comeara a tirar o Mapa do Salteador e analisava-o 
 luz da varinha. Aguardava o momento em que o ponto com o nome de Ron reapareceria nos corredores de Hogwarts, provando que ele regressara ao conforto do castelo, 
protegido pelo seu estatuto de puro-sangue. Ron, contudo, no surgia no mapa e, ao fim de algum tempo, Harry deu por si a abri-lo simplesmente para contemplar o 
nome de Ginny no dormitrio das raparigas, perguntando-se se a intensidade com que o fitava seria capaz de lhe interromper o sono, se Ginny saberia que ele estava 
a pensar nela, esperando que estivesse bem.

De dia, dedicavam-se a tentar determinar as possveis localizaes da espada de Gryffindor, mas quanto mais conversavam acerca dos lugares onde Dumbledore a poderia 
ter escondido, mais desesperada e rebuscada se tornava a sua especulao. Harry dava tratos  cabea durante a noite, mas no conseguia lembrar-se de Dumbledore 
ter alguma vez mencionado um lugar onde pudesse esconder qualquer coisa. Havia alturas em que no sabia se se sentia mais furioso com Ron ou com Dumbledore. Ns 
pensmos que tu sabias o que estavas afazer... pensmos que o Dumbledore te dissera o que fazer ... pensmos que tinhas um plano a serio!

No podia esconder a verdade de si prprio: Ron tivera razo. Dumbledore deixara-o praticamente sem nada. Tinham descoberto um Horcrux, mas no tinham forma de o 
destruir, e os outros encontravam-se to inatingveis como sempre. O desespero ameaava subjug-lo. Sentia-se abalado ao pensar na sua prpria

261

presuno ao aceitar a oferta dos amigos para o acompanharem naquela jornada sinuosa e intil. No sabia nada, no tinha quaisquer ideias e mantmha-se constante 
e dolorosamente alerta a qualquer sinal de que tambm Hermione se preparava para lhe dizer que estava farta e se ia embora.

Passavam muitos seres praticamente calados, e Hermione habituou-se a ir buscar o retrato de Phineas Nigellus e a encost-lo a uma cadeira, como se ele pudesse preencher 
parcialmente o enorme vazio deixado pela partida de Ron. Apesar da sua anterior afirmao de que no voltaria a visit-los, Phineas Nlgellus no conseguia resistir 
 possibilidade de descobrir mais coisas acerca do que Harry andava a fazer, e consentia em reaparecer, vendado, com intervalos de poucos dias. Harry sentia-se mesmo 
satisfeito por o ver, porque, embora falso e insolente, era uma companhia. Saboreavam todas as notcias sobre o que estava a acontecer em Hogwarts, apesar de Phineas 
Nlgellus no ser o informador ideal. Venerava Snape, o primeiro Director dos Slytherin desde que ele prprio dirigira a escola, e tinham de ter cuidado em no criticar, 
nem fazer perguntas impertinentes acerca de Snape, ou Phineas Nlgellus abandonava imediatamente o seu retrato.

No entanto, o antigo director sempre deixava cair algumas informaes isoladas. Parecia que Snape enfrentava um constante motim surdo por parte de um ncleo duro 
de alunos. Ginny fora proibida de ir a Hogsmeade. Snape reinstalara o velho decreto de Umbridge, proibindo reunies de trs ou mais alunos, e quaisquer associaes 
de estudantes no oficiais.

De tudo isso, Harry deduziu que Ginny, possivelmente com o apoio de Neville e Luna, andava a esforar-se por dar seguimento ao Exrcito de Dumbledore. Essas escassas 
notcias provocavam-lhe um desejo to forte de ver Ginny que se assemelhava a uma dor de estmago; mas tambm o levavam a voltar a pensar em Ron, e em Dumbledore, 
e at em Hogwarts, de que sentia tantas saudades como da sua ex-namorada. De facto, enquanto Phineas Nlgellus falava dos castigos de Snape, Harry teve uns segundos 
de loucura em que se imaginou a regressar simplesmente  escola para se juntar  desestabilizao do regime de Snape. ser alimentado, ter uma cama fofa e outras 
pessoas a ocuparem-se de tudo, parecia-lhe nesse momento a perspectiva mais maravilhosa do mundo Mas ento recordou-se de que era o Indesejvel Numero Um, de que 
havia um prmio de dez mil Galees pela sua cabea, e de que entrar actualmente em Hogwarts era to perigoso

262

como entrar no Ministrio da Magia. Na realidade, Phineas Nlgellus acentuou inadvertidamente esse facto ao fazer perguntas capciosas acerca do paradeiro de Harry 
e Hermione. Esta enfiava-o na mala sempre que tal acontecia, e Phineas Nlgellus recusava-se invariavelmente a aparecer durante alguns dias aps essas despedidas 
sem cerimnia.

O tempo arrefecia cada vez mais. No se atreviam a permanecer por perodos demasiado longos numa nica rea, por isso, em vez de ficarem pelo Sul de Inglaterra, 
onde a pior das suas preocupaes seria um solo duro causado pela geada, continuaram a vaguear por todo o pas, enfrentando a encosta de uma montanha, onde uma saraivada 
de chuva e neve lhes fustigou a tenda, um vasto paul onde a tenda foi inundada por gua gelada, e uma minscula ilha no meio de um lago escocs, onde a neve quase 
soterrou a tenda durante a noite.

J tinham avistado rvores de Natal a reluzir atravs de diversas janelas, quando chegou uma noite em que Harry resolveu sugerir, mais uma vez, o que lhe parecia 
ser a nica via ainda por explorar. Tinham acabado de comer uma refeio invulgarmente boa - Hermione fora a um supermercado sob o Manto da Invisibilidade (metendo 
escrupulosamente o dinheiro numa caixa aberta,  sada) e Harry achou que talvez fosse mais fcil persuadida com o estmago cheio de esparguete  bolonhesa e pras 
de lata. Tomara igualmente a precauo de sugerir que fizessem um intervalo de algumas horas sem usar o Horcrux, que se achava pendurado na borda do beliche a seu 
lado

- Hermione?

- Hum? - Estava enroscada num dos estufados cadeires com Os Contos de Beedle, o Bardo, Harry no conseguia imaginar o que mais conseguiria ela extrair do livro, 
que at nem era muito grande; mas evidentemente ela ainda procurava decifrar qualquer coisa, porque tinha o Silabrio de Spellman aberto no brao da cadeira.

Harry pigarreou. Sentia-se exactamente como na ocasio, vrios anos antes, em que perguntara  Professora McGonagall se podia ir a Hogsmeade, apesar de no ter conseguido 
convencer os Dursley a assinar a sua folha de autorizao.

- Hermione, tenho andado a pensar, e...

- Harry, s capaz de me ajudar aqui numa coisa? Aparentemente ela nem o ouvira. Inclinou-se para a frente e

estendeu-lhe Os Contos de Beedle, o Bardo.

263

- Olha para este smbolo - pediu ela, apontando para o topo da pgina. Por cima daquilo que Harry presumiu ser o ttulo da histria (como no sabia ler runas, no 
podia ter a certeza), via-se a imagem de algo semelhante a um olho triangular, com a pupila atravessada por uma linha vertical.

- Eu nunca tive Runas Antigas, Hermione.

- Eu sei, mas isto no  uma runa e tambm no est no silabrio. Durante muito tempo pensei que fosse o desenho de um olho, mas no creio que seja! Foi feito a 
tinta, olha, algum o desenhou aqui, no faz realmente parte do livro. Pensa bem, j alguma vez viste isto?

- No... no, espera a. - Harry olhou mais atentamente. - No  o mesmo smbolo que o pai da Luna usava ao pescoo?

- Ora bem, foi isso mesmo que eu pensei!

- Ento  a marca do Grindelwald. >' Ela fitou-o embasbacada, a boca entreaberta.

- O qu? '

- O Krum disse-me... '\ Contou-lhe a histria que Viktor Krum lhe havia contado na

casamento. Hermione ficou atnita. l

- A marca do Grindelwald? '  Olhou de Harry para o estranho smbolo e de novo para o

amigo.

- Nunca me constou que o Grindelwald tivesse uma marca. No h qualquer meno disso em nada do que eu li a respeito dele.

- bom, como te digo, o Krum  de opinio que esse smbolo est gravado numa parede em Durmstrang, e que foi o Grindelwald que l o gravou.

Ela recostou-se no velho cadeiro, de testa franzida.

- Isso  muito estranho. Se isto  um smbolo de Magia Negra, o que est a fazer num livro de histrias infantis?

- Sim,  esquisito - concordou Harry. - E dir-se-ia que o Scrimgeour o teria reconhecido. Era Ministro, devia ser perito em assuntos de Magia Negra.

- Eu sei... talvez tenha pensado que isto era um olho, como me aconteceu a mim. Todas as outras histrias tm pequenas imagens por cima dos ttulos.

Calou-se, mas continuou a examinar a estranha marca. Harry tentou de novo.

- Hermione?

264

- Hum?

- Tenho andado a pensar. Eu... eu quero ir a Godrics Hollow. Ela fitou-o, mas o seu olhar era vago e Harry teve a certeza de

que Hermione continuava a pensar na misteriosa marca do livro.

- Sim - respondeu ela. - Sim, tambm me tenho perguntado isso. Penso realmente que teremos de ir.

- Ouviste bem o que eu disse? - indagou ele.

- Claro que sim. Queres ir a Godric's Hollow. Estou de acordo, acho que devemos ir. Quer dizer, tambm no consigo lembrar-me de mais nenhum stio onde ela possa 
estar. Ser perigoso, mas quanto mais penso nisso, mais provvel me parece que l esteja.

- Ha... l esteja o que? - perguntou Harry.

Ao ouvir aquilo, ela fez um ar to perplexo quanto o dele.

- Ora, a espada, Harry! O Dumbledore deve ter sabido que tu quererias l ir, e afinal Godric's Hollow  a terra natal do Godric Gryffindor...

- Palavra? O Gryffindor  natural de Godric's Hollow?

- Harry, tu alguma vez abriste Uma Histria da Magia?

- Hummm - fez ele sorrindo, ao que lhe parecia, pela primeira vez em meses, sentindo os msculos da cara estranhamente hirtos, - Talvez o tenha aberto, sabes, quando 
o comprei... s dessa vez...

- Bem, dado que a vila tem o nome dele, seria de pensar que tivesses estabelecido a ligao - comentou Hermione, num tom de voz muito mais caracterstico da sua 
antiga maneira de ser do que aquele com que falava ultimamente. Harry quase esperou ouvi-la anunciar que ia para a biblioteca. - H um trecho acerca da vila em Uma 
Histria da Magia, espera l...

Abriu a mala de missangas, vasculhou l dentro durante um bocado, extraindo finalmente o seu exemplar do antigo livro escolar, Uma Histria da Magia, de Bathilda 
Bagshot, que desfolhou at encontrar a pgina desejada.

- "Aps a assinatura do Estatuto Internacional de Secretismo, em  689, os feiticeiros esconderam-se definitivamente. Era natural, talvez, que

formassem as suas pequenas comunidades no interior de uma comunidade. Muitas pequenas vilas e aldeias atraram diversas famlias mgicas, que se associaram para 
apoio e proteco mtuos. As vilas de Tinworth, na Comualha, Upper Flagley, no Yorkshire, e Ottery St. Catchpole, na costa sul de Inglaterra, foram notrios lares 
de grupos de famlias de feiticeiros que viviam a par de Muggles tolerantes e, por vezes, Confundidos.

265

O mais clebre desses locais de fixao semimgicos , talvez, Godrics Hollow, a vila do West Country onde nasceu o grande feiticeiro Godric Gryffindor, e onde Bowman 
Wright, ferreiro mgico, forjou a primeira Snitch Dourada. O cemitrio est cheio dos nomes de antigas famlias mgicas, o que explica, sem dvida, as histrias 
de assombraes que atormentam a pequena igreja h muitos sculos."

- Tu e os teus pais no so mencionados - rematou Hermione, fechando o livro -, porque a Professora Bagshot no inclui nada posterior ao final do sculo XIX. Mas 
no vs? Godrics Hollow, Godrics Gryffindor, a espada de Gryffindor; no achas que o Dumbledore esperaria que tu estabelecesses a relao?

- Ah, pois...

Harry no queria confessar que no fora, de todo, a pensar na espada que sugerira a ida a Godrics Hollow. O que o atraa na vila eram as campas dos pais, a casa 
onde escapara por uma unha negra  morte, e a pessoa de Bathilda Bagshot.

- Lembras-te do que disse a Muriel? - acabou ele por perguntar.

- Quem?

- Tu sabes - hesitou; no queria pronunciar o nome de Ron. - A tia-av da Ginny. No casamento. A que disse que tu tinhas os tornozelos escanzelados.

- Ah - fez Hermione

Foi um momento difcil, Harry sabia que ela pressentira a iminncia do nome de Ron. Apressou-se a continuar: - Ela disse que a Bathilda Bagshot ainda vive em Godricss 
Hollow.

- Bathilda Bagshot - murmurou Hermione, passando o indicador pelo nome de Bathilda gravado na capa de Uma Historia da Magia - Bem, suponho..

Susteve a respirao to dramaticamente que Harry sentiu uma volta no estmago; puxou pela varinha e virou-se para a entrada, meio  espera de ver uma mo a abrir 
caminho pela aba da tenda, mas no havia ali nada.

- Que foi? - perguntou ele, meio zangado, meio aliviado. - Por que  que fizeste isso? Pensei que tinhas visto um Devorador da Morte a abrir o fecho da tenda, no 
mnimo...

- Harry, e se  a Bathilda quem tem a espada? E se o Dumbledore lha confiou?

Harry considerou essa possibilidade. Bathilda seria agora uma mulher extremamente idosa e, segundo Muriel, estava "gag". Haveria a probabilidade de Dumbledore ter 
escondido a espada de

266

Gryffindor junto dela? Se assim fora, Harry achava que ele deixara muitas coisas ao acaso: Dumbledore nunca revelara ter substitudo a espada por uma imitao, nem 
sequer mencionara uma relao de amizade com Bathilda. No entanto, aquele no era o momento para lanar dvidas sobre a teoria de Hermione, especialmente quando 
ela acabava de se mostrar disposta a alinhar no desejo mais caro de Harry.

- E, talvez ele o tenha feito! Ento, vamos a Godrics Hollow?

- Sim, mas teremos de ponderar tudo muito cuidadosamente, Harry. - Endireitara-se, e Harry percebeu que a perspectiva de voltar a ter um plano a animara tanto como 
a ele. - Para comear, precisamos de praticar Desaparecer juntos debaixo do Manto da Invisibilidade, e talvez Encantamentos de Camuflagem tambm fosse sensato, a 
no ser que aches que no podemos deixar as coisas pela metade e devemos usar a Poo Polissuco? Nesse caso, ser preciso arranjar cabelo de algum. Na realidade, 
penso que  o melhor que temos a fazer, Harry, quanto mais impenetrveis forem os nossos disfarces, melhor...

Harry deixou-a falar, acenando e concordando sempre que havia uma pausa, mas a sua mente j no seguia a conversa. Pela primeira vez desde que tinha descoberto que 
a espada do cofre de Gringotts era uma mutao, sentia-se excitado.

Estava prestes a voltar a casa, prestes a voltar ao stio onde tinha tido uma famlia. Seria em Godrics's Hollow que, no fora Voldemort, ele teria crescido e passado 
todas as frias escolares. Teria podido convidar amigos para sua casa... Teria at podido ter irmos e irms... Teria sido a sua me a fazer o bolo dos seus dezassete 
anos A vida que perdera nunca lhe parecera to real como nesse momento em que sabia estar prestes a ver o local onde ela lhe fora roubada. Nessa noite, depois de 
Hermione se ter ido deitar, Harry tirou silenciosamente a sua mochila da mala dela e, l de dentro, o lbum de fotografias que Hagrid lhe oferecera h tanto tempo. 
Pela primeira vez em meses, perscrutou as velhas fotografias dos pais, que lhe sorriam e acenavam das imagens, e eram tudo o que lhe restava deles.

Por ele, teria partido alegremente para Godricss Hollow no dia seguinte, mas Hermione tinha outras ideias. Como estava convencida de que Voldemort esperaria que 
Harry voltasse  cena da morte dos pais, ela mostrava-se decidida a partir apenas depois de se certificarem de que possuam os melhores disfarces possveis. Assim, 
s uma semana inteira mais tarde - depois de obterem sub-repticiamente cabelos de inocentes Muggles que faziam as suas compras de Natal, e terem praticado Aparecer 
e Desaparecer juntos debaixo do Manto da Invisibilidade -  que Hermione acedeu a fazer a viagem

Iam Aparecer na vila a coberto da escurido, por isso a tarde chegava ao fim quando finalmente beberam a Poo Polissuco, que transformou Harry num Muggle de meia 
idade, quase careca, e Hermione na sua pequena e tmida esposa. A mala de missangas, contendo tudo o que possuam (exceptuando o Horcrux, que Harry levava ao pescoo) 
foi metida num bolso interior do casaco de Hermione, abotoado at cima. Harry passou o Manto da Invisibilidade por cima deles, e giraram de novo para as trevas sufocantes.

com o corao a bater-lhe na garganta, Harry abriu os olhos Encontravam-se, de mos dadas, numa azinhaga coberta de neve, sob um cu azul-escuro onde comeavam a 
cintilar debilmente as primeiras estrelas da noite. De ambos os lados do estreito caminho havia vivendas, em cujas janelas brilhavam decoraes natalcias. Um pouco 
mais  frente, o claro dourado de candeeiros de rua indicava o centro da vila

- Tanta neve! - segredou Hermione debaixo do Manto. - Por que  que no nos lembrmos da neve? Depois de todas as precaues que tommos, acabamos por deixar pegadas! 
Vamos ter de as apagar... vai tu  frente, e eu encarrego-me disso. .

Harry no queria entrar na vila como um cavalo de pantomima, tentando manter-se ocultos e simultaneamente apagando os seus rastos com magia.

- Vamos tirar o Manto - props ele; e vendo-a fazer um ar assustado -, ora, anda l, no nos parecemos connosco e no h por aqui ningum.

Guardou o Manto dentro do casaco e prosseguiram sem problemas, com o ar glido a morder-lhes o rosto  medida que iam passando pelas casas: qualquer delas podia 
ter sido aquela onde James e Lily haviam vivido em tempos, ou em que Bathilda vivia agora. Harry fitava as portas, os telhados cobertos de neve e os alpendres das 
entradas, perguntando-se se recordaria alguma delas, sabendo intimamente que tal era impossvel, que tinha pouco mais de um ano quando deixara aquele lugar para 
sempre. Nem sequer tinha a certeza de poder ver a casa, no sabia o que acontecia quando morriam pessoas sujeitas a um Encantamento Fidehus. Depois, a azinhaga por 
onde caminhavam curvou para a esquerda e o centro da vila, uma pequena praa, surgiu diante deles.

268

Decorada a toda a volta com luzes coloridas, tinha no meio algo que parecia um memorial de guerra, parcialmente tapado por uma rvore de Natal fustigada pelo vento. 
Havia diversas lojas, uma estao de correios, um pub e uma pequena igreja cujos vitrais brilhavam como jias do lado oposto da praa

A neve ali era compacta: estava dura e escorregadia nos stios que as pessoas tinham pisado o dia inteiro Diante deles, os habitantes da vila cruzavam-se de um lado 
para o outro, as figuras brevemente iluminadas pelos candeeiros de rua. Ouviram fragmentos de risos e msica pop quando a porta do pub se abriu e fechou; depois 
chegou-lhes o princpio de um cntico de Natal do interior da pequena igreja

- Harry, acho que hoje  noite de Natal! - exclamou Hermione.

- ?

Perdera a conta  data; h semanas que no viam um jornal.

- Tenho a certeza de que sim - afirmou Hermione, de olhos pregados na igreja. - Eles... eles esto ali, no ? A tua me e o teu pai? Vejo o cemitrio l por trs.

Harry sentiu um frmito de algo que era mais que excitao: assemelhava-se, porventura, a medo. Agora que se achava to perto, perguntava-se se, afinal, queria ver. 
Talvez Hermione soubesse como ele se sentia, porque lhe pegou na mo e assumiu pela primeira vez a liderana, puxando-o para diante. A meio da praa, contudo, estacou 
de sbito.

- Harry, olha!

Apontava para o memorial de guerra, que se transformara  passagem deles Em vez de um obelisco coberto de nomes, havia agora uma esttua de trs pessoas: um homem 
de cabelo revolto e culos, uma mulher de cabelo comprido e rosto doce e belo, e um beb nos braos da me. A neve cobria-lhes as cabeas, quais barretes brancos 
e fofos.

Harry aproximou-se mais, fitando intensamente as caras dos pais. Nunca imaginara que existisse uma esttua... que estranho ver-se representado em pedra, um beb 
feliz sem uma cicatriz na testa...

- 'Bora - disse ele, depois de a ter contemplado at  saciedade. Viraram-se de novo para a igreja. Ao atravessar a rua, Harry relanceou um olhar por cima do ombro, 
a esttua transformara-se outra vez no memorial

Os cnticos subiram de tom  medida que se acercavam da igreja. Harry sentiu a garganta apertada; aquilo trazia-lhe recor

269

daes to fortes de Hogwarts: Peeves gritando verses grosseiras de canes de Natal do interior de armaduras, as doze rvores de Natal do Salo Nobre, Dumbledore 
com um barrete que ganhara numa rifa, Ron com uma camisola tricotada  mo...

 entrada para o cemitrio havia um porto; Hermione abriu-o o mais silenciosamente possvel, e avanaram. De ambos os lados do caminho escorregadio que conduzia 
s portas da igreja a neve acumulara-se, espessa e intacta. Moveram-se atravs dela, deixando atrs de si profundos sulcos enquanto rodeavam o edifcio, mantendo-se 
nas sombras sob as janelas iluminadas.

Atrs da igreja, fila aps fila de tmulos nveos emergiam de um manto azul claro salpicado de vermelho ofuscante, dourado e verde onde os reflexos dos vitrais tocavam 
no solo. Conservando a varinha bem apertada na mo dentro do bolso do casaco, Harry dirigiu-se  campa mais prxima.

- Olha para isto,  um Abbott, talvez seja algum parente da Hannah, falecido h muito!

- Fala baixo - pediu-lhe Hermione.

Penetraram mais no cemitrio, abrindo fossos negros na neve, curvando-se para decifrar as palavras de velhas lpides, perscrutando de vez em quando a escurido em 
redor para se certificarem de que no tinham companhia.

- Harry, aqui!

Hermione achava-se duas filas de tmulos mais atrs; teve de recuar at ela, com o corao a martelar-lhe no peito.

- . .?

- No, mas olha!

Apontou para a lpide negra. Harry curvou-se e viu, no granito gelado e manchado de lquenes, as palavras Kendra Dumbledore e, logo abaixo das datas de nascimento 
e morte, e a sua filha Ariana. Havia igualmente uma citao:

Onde estiver o teu tesouro, a estar tambm o teu corao.

Portanto, Rita Skeeter e Muriel tinham razo nalgumas coisas. A famlia Dumbledore vivera realmente ali, e parte dela falecera ali.

Ver o tmulo foi pior do que ouvir falar dele. Harry no pde deixar de pensar que ele e Dumbledore possuam ambos fortes razes naquele cemitrio, e que o Director 
lho devia ter dito; e todavia ele nunca pensara em partilhar essa ligao. Podiam ter visitado juntos o local; Harry imaginou-se por instantes a ir ali com Dumbledore, 
no lao que isso teria constitudo, em quanto teria

270

significado para si. Mas parecia que, para Dumbledore, o facto de as suas famlias jazerem lado a lado no mesmo cemitrio fora uma coincidncia sem importncia, 
irrelevante, talvez, para a tarefa que destinara a Harry.

Hermione fitava-o, e Harry sentiu-se satisfeito por ter o rosto oculto na sombra. Voltou a ler as palavras do tmulo. Onde estiver o teu tesouro, a estar tambm 
o teu corao. No compreendia o significado daquelas palavras. Decerto fora Dumbledore que as escolhera, como membro mais velho da famlia, aps a morte da me.

- Tens a certeza de que ele nunca mencionou...? - comeou Hermione.

- No - respondeu Harry, secamente; depois acrescentou: - Vamos continuar a procurar. - Deu meia volta, desejando no ter visto a lpide: no queria a sua alvoroada 
ansiedade manchada pelo ressentimento.

- Aqui! - gritou Hermione de novo, instantes mais tarde, do meio das trevas - Oh, no, desculpa! Pensei que dizia Potter.

Esfregava uma lpide arruinada e coberta de musgo, fitando-a com a testa levemente enrugada.

- Harry, volta aqui um momento

Ele no queria ser outra vez desviado, e foi relutantemente que retrocedeu pela neve em direco a ela.

- Que ?

- Olha para isto!

A campa era extremamente velha, e to desgastada pela aco do tempo que Harry mal conseguiu distinguir o nome. Hermione mostrou-lhe o smbolo por baixo dele.

- Harry,  a marca do livro!

Examinou o stio indicado: a lpide estava to corroda que era difcil perceber o que l se achava gravado, embora parecesse haver uma marca triangular sob o nome 
quase ilegvel.

- ... podia ser. .

Hermione acendeu a varinha e apontou-a para o nome inscrito na lpide.

- Diz Ig...Ignotus, creio eu...

- Eu vou continuar  procura dos meus pais, est bem? - declarou Harry, com uma leve nota de irritao na voz; e partiu, deixando-a agachada ao lado da velha campa

De tempos a tempos reconhecia um apelido que, tal como Abbott, encontrara em Hogwarts. s vezes, havia vrias geraes da mesma famlia de feiticeiros representadas 
no cemitrio e Harry

271

1

percebia pelas datas que a famlia se extinguira, ou que os membros actuais tinham deixado Godrics Hollow. Foi-se enfronhando cada vez mais pelo meio das campas 
e sempre que chegava a uma nova lpide sentia uma leve guinada de apreenso e expectativa.

A escurido e o silncio pareceram tornar-se, de repente, muito mais profundos. Olhou em volta, apreensivo, pensando em Dementors, e depois percebeu que os cnticos 
de Natal haviam cessado, e que a tagarelice e a agitao das pessoas que saam da igreja se iam desvanecendo  medida que regressavam  praa. Algum acabava de 
apagar as luzes no interior da igreja.

Ento, a voz de Hermione elevou-se do escuro pela terceira vez, forte e ntida, a alguns passos de distncia.

- Harry, eles esto aqui .. aqui mesmo

E Harry percebeu, pelo tom da voz dela, que desta vez se tratava da sua me e do seu pai; avanou nessa direco, sentindo-se como se algo muito pesado lhe estivesse 
a comprimir o peito, a mesma sensao que experimentara logo aps a morte de Dumbledore, uma mgoa que realmente lhe pesara no corao e nos pulmes

A pedra tumular encontrava-se apenas duas filas para l da de Kendra e Ariana. Era de mrmore branco, tal como a de Dumbledore, o que facilitava a leitura, pois 
parecia brilhar no escuro. Harry no precisou de se ajoelhar nem sequer de se aproximar muito para distinguir as palavras nela gravadas.

James Potter, nascido a 27 Maro 1960, falecido a 31 Outubro 1981 Lily Potter, nascida a 30Janeiro 1960, falecida a 31 Outubro 1981

O ltimo inimigo que ser destrudo  a morte.

Harry leu as palavras lentamente, como se tivesse apenas uma oportunidade de assimilar o seu significado, e ao chegar s ltimas, leu-as em voz alta

- "O ltimo inimigo que ser destrudo  a morte".. - Ocorreu-lhe um pensamento horrvel, e com ele uma espcie de pnico. - Isto no  uma ideia prpria de Devorador 
da Morte? Por que est isto aqui?

- No significa derrotar a morte da maneira que os Devoradores da Morte o entendem, Harry - disse Hermione em voz doce. - Significa... percebes... viver para alm 
da morte. Viver depois da morte.

Mas eles no estavam vivos, pensou Harry: tinham partido. As palavras ocas no podiam disfarar o facto de os restos bolorentos dos seus pais jazerem sob neve e 
pedra, indiferentes, ignorantes E as lgrimas irromperam antes que ele as pudesse deter, queimando-lhe o rosto e gelando depois instantaneamente, e de que adiantava 
enxug-las, ou dissimular? Deixou-as correr, de lbios comprimidos, fitando de cabea baixa a neve espessa que ocultava dos seus olhos o stio onde jaziam os restos 
de James e Lily, ossos agora, certamente, ou p, sem saberem nem se importarem com o facto de o seu filho vivo se encontrar to perto, com o corao ainda a bater, 
vivo por causa do sacrifcio deles e quase desejando, nesse momento, estar a dormir junto deles debaixo da neve.

Hermione pegara-lhe de novo na mo e apertava-lha fortemente. No conseguiu olhar para ela, mas devolveu a presso, sorvendo agora rpida e profundamente o ar nocturno, 
tentando controlar-se, tentando recuperar o domnio de si prprio Devia ter trazido algo para lhes oferecer, mas no pensara nisso, e todas as plantas do cemitrio 
se achavam despidas de folhas e geladas Hermione, porm, ergueu a varinha, descreveu um crculo no ar e diante deles desabrochou uma coroa de rosas-de-Natal. Harry 
apanhou-a e pousou-a na campa dos pais.

Assim que se ergueu, desejou partir: no acreditava poder aguentar nem mais um minuto ali. Ps o brao em volta dos ombros de Hermione, e ela passou-lhe o dela pela 
cintura, voltaram-se em silncio e afastaram-se devagar neve fora, deixando para trs a me e a irm de Dumbledore, de regresso  igreja escurecida, para l do porto 
do cemitrio

272

273

XVII

O SEGREDO DE BATHILDA

- H-Harry, pra a.

O-O-- O que foi?

Tinham acabado de chegar  campa de um Abbott desconhecido.

- Est ali algum Algum a observar-nos. Sei que est. Ali, junto daqueles arbustos.

Estacaram, absolutamente imveis, agarrados um ao outro, fitando o negrume no extremo do cemitrio. Harry no conseguiu ver nada

- Tens a certeza?

- Vi qualquer coisa mexer, era capaz de jurar... Separou-se dele para libertar o brao da varinha.

- Parecemos Muggles - fez notar Harry.

- Muggles que acabam de depositar flores na campa dos teus pais! Harry, tenho a certeza de que est ali algum!

Harry recordou Uma Histria da Magia; constava que o cemitrio era assombrado. E se.. ? Mas nessa altura ouviu um roagar e viu um pequeno remoinho de neve junto 
do arbusto para onde Hermione apontara. Os fantasmas no faziam a neve mover-se.

- E um gato - disse ele, ao cabo de um ou dois segundos -, ou um pssaro. Se fosse um Devorador da Morte, j estaramos mortos. Mas vamos pr-nos a andar daqui para 
fora, e poderemos voltar a colocar o Manto.

Olharam vrias vezes para trs enquanto se dirigiam  sada. Harry, que no se sentia to corajoso como fingira para tranquilizar Hermione, ficou satisfeito por 
chegar ao porto e ao passeio escorregadio. Voltaram a colocar o Manto da Invisibihdade. O pub estava mais cheio do que anteriormente: no interior, muitas vozes 
entoavam agora o cntico que eles tinham ouvido ao aproximar-se da igreja. Por instantes, Harry ponderou a hiptese de sugerir que se refugiassem l dentro, mas, 
antes de poder falar, Hermione murmurou: - Vamos por aqui - e puxou-o para a rua escura que saa da vila na direco oposta quela por onde haviam entrado. Harry 
distinguiu o stio onde as casas e a azinhaga

274

acabavam e os campos se estendiam de novo. Caminhavam o mais depressa que podiam, passando por outras janelas onde reluziam luzinhas multicoloridas, com as silhuetas 
de rvores de Natal recortadas a negro contra as cortinas.

- Como  que vamos descobrir a casa da Bathilda? - perguntou Hermione, que tremia um pouco e olhava constantemente para trs por cima do ombro. - Harry? O que  
que achas? Harry?

Puxou-lhe o brao, mas Harry no estava a prestar ateno. Olhava na direco da massa escura que se avistava no extremo daquela correnteza de casas. De seguida, 
apressou o passo, arrastando consigo Hermione, que escorregou um pouco no gelo.

- Harry...

- Olha... olha para ali, Hermione...

- No v... oh!

Ele conseguia v-la; o Encantamento Fidelius devia ter cessado com a morte de James e Lily. A sebe crescera desordenadamente nos dezasseis anos passados desde que 
Hagrid levantara Harry dos escombros, dispersos agora por entre as ervas que lhes chegavam  cintura. A maior parte da casa continuava de p, embora totalmente coberta 
de hera escura e neve, mas o lado direito do andar superior estava destrudo; Harry tinha a certeza de que fora ali que a maldio se invertera. Ele e Hermione detiveram-se 
em frente ao porto, fitando as runas do que, em tempos, deveria ter sido uma casa igual s que a ladeavam.

- Gostava de saber por que  que nunca ningum a reconstruiu - segredou Hermione.

- Talvez no seja possvel? - sugeriu Harry. - Talvez seja como os ferimentos provocados por Magia Negra e no se possam reparar os estragos?

Tirou a mo de debaixo do Manto e agarrou o porto ferrugento, coberto de neve, no porque desejasse abri-lo, mas simplesmente para tocar numa parte da casa.

- No vais entrar, pois no? No parece seguro, pode... oh, Harry, olha!

Aparentemente, ao tocar no porto fizera com que algo sucedesse. Do solo, diante deles, irrompera uma tabuleta, atravessando o emaranhado de urtigas e ervas daninhas, 
semelhante a uma estranha flor de crescimento instantneo. Na madeira, em letras douradas, dizia:

275

Neste stio, na noite de 31 de Outubro 1981,

Lily e James Potter perderam a vida. O seu filho, Harry, continua a ser o nico feiticeiro

a ter sobrevivido  Maldio de Morte.

Esta casa, invisvel para os Muggles, foi deixada em runas

como monumento aos Potter

e memria da violncia que destruiu a sua famlia

E a toda a volta daquelas palavras meticulosamente escritas, havia rabiscos acrescentados por outros feiticeiros que tinham vindo ver o lugar onde O Rapaz Que Sobreviveu 
havia escapado. Alguns tinham-se limitado a assinar os nomes com Tinta Perptua; outros tinham gravado as suas iniciais na madeira, e outros ainda tinham deixado 
mensagens. As mais recentes, brilhando vivamente por cima de dezasseis anos de mensagens mgicas, diziam todas o mesmo.

"Boa wrte, Harry, onde quer que te encontres " "Harry, se leres isto, ns estamos contigo1" "Viva Harry Potter"

- Eles no deviam ter escrito na tabuleta! - exclamou Hermione, indignada.

Mas Harry sorria com expresso exultante.

-  formidvel. Ainda bem que o fizeram. Eu... Interrompeu-se. Pela azinhaga, em direco a eles, caminhava

uma figura vacilante, muito agasalhada, que se recortava contra as luzes brilhantes da praa distante. Harry achou que a figura pertencia a uma mulher, embora fosse 
difcil dizer. Movia-se devagar, possivelmente receosa de escorregar no solo nevado. A curvatura do corpo, a sua constituio, o passo arrastado, tudo transmitia 
uma impresso de idade extremamente avanada. Observaram a sua aproximao em silncio. Harry aguardava, para ver se ela viraria em alguma das casas por onde passava, 
mas sabia instintivamente que no. Por fim, a figura deteve-se a alguns passos de distncia, e ficou simplesmente ali parada, no meio da estrada gelada, de frente 
para eles.

Harry no precisava que Hermione lhe beliscasse o brao. No havia a menor possibilidade de aquela mulher ser Muggle. estava ali a fitar uma casa que deveria ser 
completamente invisvel para ela, se no fosse feiticeira. Mesmo partindo do princpio de que era feiticeira, era um comportamento muito estranho sair numa noite 
to fria apenas para contemplar uma velha runa. Entretanto,

segundo todas as regras da magia normal, no deveria ser capaz de ver nem Hermione nem Harry No entanto, ele teve a estranhssima sensao de que a mulher sabia 
no s que eles ali estavam, como tambm quem eram. Acabara de chegar a essa concluso pouco reconfortante, quando ela ergueu a mo enluvada e fez um gesto de chamamento.

Debaixo do Manto, Hermione chegou-se mais para ele, o brao apertado contra o seu.

- Como  que ela sabe?

Ele abanou a cabea. A mulher fez novo gesto, agora mais vigoroso. Harry podia pensar em vrias razes para no acorrer ao chamamento; contudo, as suas desconfianas 
acerca da identidade dela aumentavam a cada momento que passava, enquanto se fitavam na rua deserta.

Seria possvel que ela tivesse estado  espera deles durante todos aqueles longos meses? Que Dumbledore lhe tivesse dito para esperar, porque Harry acabaria por 
l ir? No teria sido ela que se movera nas sombras do cemitrio e os seguira at ali? At a sua capacidade de os pressentir sugeria um tipo de poder  Dumbledore, 
que ele nunca encontrara antes

Harry falou por fim, levando Hermione a suster a respirao e a dar um salto.

- A senhora  Bathilda?

A figura agasalhada acenou afirmativamente e voltou a fazer o mesmo gesto.

Harry e Hermione entreolharam-se debaixo do Manto. Harry ergueu as sobrancelhas numa interrogao e Hermione concordou com um leve aceno nervoso.

Avanaram em direco  mulher, e imediatamente ela se voltou e partiu, vacilante, pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. Passaram diversas casas, e depois ela 
entrou num porto. Seguiram-na pelo caminho acima, atravs do jardim quase to descuidado como aquele que acabavam de abandonar. Junto  porta, ela debateu-se um 
momento com a chave, abriu-a e afastou-se para os deixar passar.

A mulher cheirava mal, ou talvez fosse da casa; Harry torceu o nariz ao passarem por ela e tirou o Manto da Invisibihdade. Agora, que se encontrava a seu lado, viu 
como era pequena curvada pela idade, mal lhe chegava ao peito. Fechou a porta atrs de si, os ns dos dedos azulados e manchados contra a tinta a cair, e ao que 
se virou e perscrutou o rosto de Harry Tinha os olhos

276

277

enevoados por cataratas e afundados em pregas de pele transparente, e toda a sua cara se achava salpicada de capilares e manchas de fgado. Harry perguntou-se se 
ela conseguiria sequer distingui-lo; ainda que conseguisse, o que veria seria o Muggle careca cuja identidade ele roubara.

O odor a velhice, a p, a roupa suja e a comida estragada intensificou-se quando ela desenrolou um xaile negro, rodo de traas, revelando a cabea coberta de cabelo 
branco e ralo, atravs do qual se via claramente o crnio.

- Bathilda? - repetiu Harry.

Ela voltou a anuir. Harry teve de sbito conscincia do medalho encostado  sua pele; a coisa que havia no seu interior, e que s vezes latejava ou palpitava, despertara; 
sentia-a pulsar atravs do ouro frio. Saberia ela, poderia pressentir, que aquilo que a destruiria se encontrava perto?

Bathilda passou por eles a arrastar os ps, empurrando Hermione como se a no tivesse visto, e desapareceu no que lhes pareceu ser uma saleta.

- Harry, no me sinto nada  vontade com isto - ofegou Hermione.

- Olha para o tamanho dela; acho que conseguiramos domin-la se fosse preciso - comentou Harry. - Sabes, eu devia ter-te dito, mas eu j sabia que ela no regulava 
bem. A Muriel chamou-lhe "gag".

- Anda! - chamou Bathilda da sala ao lado. Hermione teve um sobressalto e agarrou-se ao brao de

Harry.

- Tudo OK - acalmou-a ele, entrando  frente para a saleta.

Bathilda cambaleava pela sala acendendo candeeiros, mas esta continuava muito escura, alm de imunda. Camadas de p rangiam debaixo dos ps deles e o nariz de Harry 
detectou, subjacente ao cheiro a mofo e a bolor, algo pior, como carne apodrecida. Perguntou-se quando teria sido a ltima vez que algum entrara naquela casa para 
ver como ela estava. Bathilda parecia igualmente ter-se esquecido de que podia usar magia, pois acendeu as velas  mo, desajeitadamente, em risco constante de incendiar 
o punho de renda comprido.

- Deixe-me fazer isso - ofereceu-se Harry, pegando-lhe nos fsforos. Ela ficou a observ-lo, enquanto ele acabava de acender os cotos de velas pregados em pires 
em redor da sala, precaria

278

mente empoleirados em pilhas de livros e em mesas de apoio entulhadas de chvenas rachadas e bolorentas.

A ltima superfcie em que Harry avistou uma vela era uma cmoda de bojo curvo, em cima da qual havia numerosas fotografias. Quando a chama ganhou vida, o seu reflexo 
danou na prata e nos vidros poeirentos. Harry viu alguns movimentos tnues oriundos das imagens. Enquanto Bathilda procurava, atabalhoadamente, achas para a lareira, 
ele murmurou, "Tergeo." O p desapareceu das fotografias e ele viu imediatamente que faltava uma meia dzia, as das molduras maiores e mais ornamentadas. Perguntou-se 
se teria sido Bathilda ou outra pessoa a retir-las. Depois, uma das fotografias mais para o fundo da coleco captou o seu olhar, e Harry pegou-lhe.

O ladro de rosto jovial e cabelos dourados, o jovem que se empoleirava no parapeito da janela de Gregorovitch, sorria-lhe indolentemente da sua moldura prateada. 
E, nesse instante, Harry lembrou-se de onde vira antes aquele jovem: em A Vida e as Mentiras de Albus Dumbledore, de brao dado com um Dumbledore adolescente, e 
era a que deviam encontrar-se todas as fotografias que faltavam: no livro de Rita.

- Mrs... Miss... Bagshot? - chamou ele, com um leve tremor na voz. - Quem  este?

Bathilda achava-se no meio da sala, vendo Hermione acender-lhe a lareira.

- Miss Bagshot? - repetiu Harry, e avanou, de fotografia na mo, enquanto as chamas irrompiam na lareira. Bathilda ergueu os olhos ao ouvir a sua voz e o Horcrux 
bateu com mais fora contra o peito dele.

- Quem  esta pessoa? - perguntou-lhe Harry, estendendo a fotografia.

Ela examinou-a solenemente e depois fitou Harry.

- Sabe quem ? - repetiu ele, em voz muito mais lenta e sonora do que o habitual. - Este homem? Conhece-o? Como  que ele se chama?

Bathilda mantinha o seu ar vago e Harry sentiu uma terrvel frustrao. Como  que Rita Skeeter libertara as recordaes de Bathilda?

- Quem  este homem? - repetiu ele em voz alta.

- Harry, que ests tu a fazer? - perguntou Hermione.

- Este retrato, Hermione,  o ladro, o ladro que roubou o Gregorovitch! Por favor! - pediu ele a Bathilda. - Quem  este?

279

Mas ela limitou-se a fit-lo.

- Por que  que nos pediu para vir consigo, Mrs... Miss... Bagshot? - indagou Hermione, elevando, por seu turno, a voz. - Havia alguma coisa que nos quisesse dizer?

Sem dar qualquer sinal de ter ouvido Hermione, Bathilda aproximou-se mais de Harry. com um pequeno movimento de cabea, olhou na direco do vestbulo.

- Quer que nos vamos embora? - perguntou ele.

Ela repetiu o gesto, desta vez apontando primeiro para ele, depois para ela prpria, e depois para o tecto.

- Ah, certo... Hermione, acho que ela quer que eu v l acima com ela.

- Est bem - acedeu Hermione -, vamos l.

Mas vendo Hermione mover-se, Bathilda abanou a cabea com um vigor surpreendente, apontando uma vez mais para Harry e depois para si.

- Ela quer que eu v sozinho.

- Porqu? - inquiriu Hermione, e a sua voz ressoou, spera e ntida, na sala iluminada a velas; a velha senhora abanou levemente a cabea perante o rudo.

- Talvez o Dumbledore lhe tenha dito para me dar a espada a mim, e apenas a mim?

- Achas realmente que ela sabe quem tu s?

- Sim - afirmou Harry, fitando os olhos leitosos pregados nos seus -, acho que sabe, sim.

- Ento est bem, mas despacha-te, Harry.

- V  frente - disse Harry a Bathilda.

Ela pareceu compreender, porque passou em redor dele num passo arrastado e dirigiu-se para a porta. Harry relanceou um olhar a Hermione, sorrindo tranquilizadoramente, 
mas no teve a certeza de ela ter reparado; a amiga parara no meio da sala imunda e mal iluminada, apertando os braos contra o corpo, a olhar para a estante. Ao 
sair da sala, sem que nem Bathilda nem Hermione o vissem, Harry enfiou dentro do casaco a moldura prateada com a fotografia do ladro desconhecido.

As escadas eram estreitas e ngremes; Harry sentiu-se tentado a assentar as mos no traseiro de Bathilda para garantir que ela no se desequilibrava, caindo para 
trs, por cima dele, uma hiptese mais que plausvel. Devagar, arquejando um pouco, ela subiu at ao patamar, virou imediatamente  direita e conduziu-o a um quarto 
de tecto baixo.

280

Estava escuro como breu e cheirava horrivelmente: Harry acabara de identificar um bacio a espreitar de debaixo da cama, quando Bathilda fechou a porta e at isso 
foi engolido pelas trevas.

- Lumos - proferiu ele, e a sua varinha iluminou-se. Teve um sobressalto: nesses poucos segundos de escurido, Bathilda deslocara-se para junto dele sem que a tivesse 
ouvido aproximar-se.

- s o Potter? - sussurrou ela.

- Sou, sim.

Ela acenou lenta, solenemente. Harry sentiu o Horcrux pulsar mais depressa, mais depressa que o seu prprio corao: era uma sensao desagradvel e perturbadora.

- Tem alguma coisa para mim? - perguntou Harry, mas ela parecia distrada com a extremidade iluminada da sua varinha.

- Tem alguma coisa para mim? - repetiu ele.

Ento ela fechou os olhos e aconteceram vrias coisas ao mesmo tempo: a cicatriz de Harry ardeu-lhe penosamente, o Horcrux contorceu-se de tal maneira que a frente 
da sua camisola se moveu e o quarto escuro e ftido dissolveu-se momentaneamente. Ele sentiu um mpeto de alegria e falou numa voz aguda e fria: aguenta-o!

Harry cambaleou e o quarto escuro e fedorento pareceu cerrar-se em volta dele; no sabia o que acabava de acontecer.

- Tem alguma coisa para mim? - perguntou ele pela terceira vez, em voz mais alta.

- Aqui - sussurrou ela, apontando para o canto. Harry ergueu a varinha e viu os contornos de uma cmoda atravancada debaixo dos cortinados da janela.

Desta vez ela no foi  frente. Harry espremeu-se para passar entre a mulher e a cama por fazer, de varinha levantada. No queria afastar os olhos dela.

- O que ? - perguntou ao atingir a cmoda, em cujo topo se empilhava algo que parecia e cheirava a roupa suja.

- A - disse ela, apontando a massa informe.

E no instante em que ele desviou o olhar, perscrutando aquele emaranhado confuso  procura de um punho de espada, um rubi, ela moveu-se de uma forma esquisita. Entreviu-a 
pelo canto do olho e o pnico levou-o a voltar-se. Ficou paralisado de terror ao ver o velho corpo desabar e a enorme serpente emergir do lugar onde estivera o pescoo 
de Bathilda.

A serpente atacou quando ele erguia a varinha: a fora da mordedura no seu brao atirou a varinha a rodopiar at ao tecto,

281

a luz oscilando vertiginosamente pelo quarto at se extinguir. Depois, uma violenta pancada da cauda no estmago deixou-o sem respirao: tombou para trs, sobre 
a cmoda, em cima do monte de roupa suja.

Rolou para o lado, evitando por um triz a cauda da serpente, que aoitou o mvel no stio em que ele se encontrava um segundo antes; fragmentos do tampo de vidro 
choveram sobre ele e Harry caiu no cho. Ouviu Hermione chamar l de baixo: - Harry?

No conseguia introduzir ar suficiente nos pulmes para a chamar tambm; depois, uma pesada massa mole esmagou-o contra o cho e ele sentiu-a deslizar por cima de 
si, forte, musculosa..

- No! - ofegou ele, preso ao cho.

- Sssim - sussurrou a voz. - Sssim... aguentar-te... aguentar-te aqui...

- Acsio... Acsio varinha...

Mas no aconteceu nada e Harry precisava das mos para tentar forar a serpente a afastar-se de si, enquanto ela se enroscava em volta do seu dorso, roubando-lhe 
o ar, comprimindo fortemente o Horcrux contra o seu peito, um crculo de gelo que palpitava com vida, a centmetros do seu corao frentico... e o seu crebro inundava-se 
de luz branca e fria, o pensamento obliterado, a respirao asfixiada, passos distantes, tudo a desaparecer...

Um corao de metal martelava fora do seu peito, e agora ele estava a voar, a voar com o corao triunfante, sem precisar de vassoura nem de Thestral...

De sbito, despertou nas trevas ftidas; Nagini soltara-o. Esforou-se por se erguer, e viu a serpente recortada contra a luz do patamar: atacou, e Hermione mergulhou 
para o lado, soltando um grito agudo; a sua maldio atingiu a janela, que se estilhaou. O ar glacial invadiu o quarto e Harry agachou-se para evitar nova chuva 
de fragmentos de vidro; o p escorregou-lhe em algo que parecia um lpis... a sua varinha...

Baixou-se e pegou-lhe, mas a serpente enchia agora o quarto, aoitando tudo com a cauda; Hermione no se encontrava  vista e, por momentos, Harry pensou o pior, 
mas depois houve uma exploso sonora e um relmpago de luz vermelha, e a serpente voou pelos ares, chicoteando violentamente a cara de Harry, desenrolando os anis, 
enquanto se erguia at ao tecto. Harry levantou a varinha, mas nesse instante sentiu a cicatriz queim-lo com uma intensidade, uma violncia que no acontecia h 
muitos anos

282

- Ele vem a! Hermione, ele vem a!

Mal soltara o grito, a serpente caiu, sibilando furiosamente. Tudo se transformou em caos: ela despedaou as prateleiras das paredes e havia pedaos de loua partida 
a voar por toda a parte, enquanto Harry saltava por cima da cama e agarrava a forma escura que sabia ser Hermione...

Ela guinchou de dor quando ele a puxou para o outro lado da cama; a serpente ergueu-se mais uma vez, mas Harry sabia que algo pior do que a serpente estava a chegar, 
encontrava-se talvez j ao porto, a sua cabea ameaava explodir com a dor na cicatriz ..

A serpente investiu ao mesmo tempo que ele saltava, arrastando consigo Hermione; reagindo ao ataque, Hermione gritou, Confrmgo! E o seu encantamento voou em redor 
do quarto, estilhaando o espelho do guarda-roupa e fazendo ricochete neles, ressaltando do cho at ao tecto; Harry sentiu o seu calor queimar-lhe as costas da 
mo. Um pedao de vidro cortou-lhe a face e, arrastando Hermione consigo, pulou da cama para a cmoda partida, e depois atravs da janela despedaada rumo ao nada, 
com o grito dela a ressoar pela noite, enquanto rodopiavam no ar...

E depois a sua cicatriz rebentou e ele era Voldemort e corria pelo quarto ftido, as longas mos lvidas apertando o parapeito da janela ao avistar o homem careca 
e a mulher baixa rodopiarem e desaparecerem, e gritou de raiva, um grito que se confundiu com o da rapariga, que ecoou pelos jardins escuros e chegou at aos sinos 
da igreja que repicavam no Dia de Natal. .

E o grito dele era o grito de Harry, a sua dor era a dor de Harry... poder aquilo acontecer ali, onde j acontecera antes... ali,  vista daquela casa onde ele estivera 
to perto de saber o que era morrer... morrer... a dor to terrvel... arrancado ao seu corpo... mas se no tinha corpo, por que  que a cabea lhe doa tanto, se 
estava morto, como  que podia sentir de forma to insuportvel, a dor no cessava com a morte, no desaparecia...

Na noite hmida e ventosa, duas crianas mascaradas de abboras saltitando pela praa, e as montras das lojas enfeitadas com aranhas de papel e todos os adornos 
espalhafatosos dos Muggles sobre um mundo em que no acreditavam... e ele ia deslizando, com aquela sensao de propsito, e poder, e certeza que experimentava sempre 
nessas ocasies... no clera., isso era para almas mais fracas que ele. . mas triunfo, sim... ele aguardara aquilo, ansiara...

"Bonito disfarce, Senhor!"

283

Viu o sorriso do rapazinho desvanecer-se quando se aproximou o suficiente para espreitar para debaixo do capuz do manto, viu o medo sombrear-lhe a cara pintalgada: 
depois a criana deu meia volta e fugiu a correr... debaixo da capa ele tacteou o punho da sua varinha... um simples movimento e a criana nunca chegaria ao p da 
me... mas era desnecessrio, inteiramente desnecessrio...

E moveu-se ao longo de uma nova rua, mais sombria, e agora o seu destino achava-se finalmente  vista, quebrado o Encantamento Fidelius, embora eles ainda o no 
soubessem... e ele foi mais silencioso que as folhas mortas que tombavam no pavimento ao acercar-se da sebe escura, e ficou a olhar para l dela...

Eles no tinham corrido as cortinas, viu-os perfeitamente na sala de estar, o homem alto, de cabelo preto e culos, fazendo emergir da sua varinha nuvens defumo 
colorido para divertir o garoto de cabelo preto e pijama azul. A criana ria-se e tentava apanhar o fumo, agarr-lo com o seu pequeno punho...

Abriu-se uma porta e a me entrou, dizendo palavras que ele no conseguiu ouvir, o longo cabelo ruivo escuro a cair-lhe para a cara. Agora o pai erguia o filho e 
entregava-o  me. Atirou a varinha para o sof e estendeu-se, bocejando...

O porto rangeu levemente ao ser empurrado, mas James Potter no ouviu. A mo lvida tirou a varinha de debaixo do manto e apontou para a porta, que rebentou.

J transpusera a entrada quando James chegou, correndo, ao vestbulo. Era fcil, demasiado fcil, ele nem sequer pegara na varinha...

- Lily, pega no Harry e foge! E ele! Foge! Rpido! Eu demoro-o... Demoro-o, sem varinha!... Gargalhou antes de lanar a maldio...

- Avada Kedavra!

A luz verde encheu o vestbulo acanhado, iluminou o carrinho de beb encostado  parede, fez o corrimo brilhar como um pra-raios, e James Potter caiu como uma 
marioneta a que tivessem cortado os fios...

Ele ouvia-a gritar no piso superior, encurralada, mas desde que se mostrasse sensata, ela, pelo menos, no tinha nada a recear... subiu os degraus, escutando, levemente 
divertido, as tentativas dela para se barricar... ela tambm no empunhava a varinha... como haviam sido estpidos, e confiantes, pensando que a sua segurana residia 
nos amigos, que as armas podiam ser abandonadas ainda que por momentos...

Forou a porta, afastou, com um gesto displicente da varinha, a cadeira e as caixas apressadamente empilhadas contra ela... e ali estava a me, com a criana ao 
colo. Ao v-lo, ela pousou o filho no bero atrs de si e abriu completamente os braos, como se isso ajudasse, como se, ao abrig-lo da vista, esperasse ser antes 
ela a escolhida...

284

- O Harry no, o Harry no, por favor, o Harry no!

- Afasta-te, rapariga pateta... afasta-te, j...

- O Harry no, no, por favor, leve-me a mim, mate-me antes a mim...

- E o meu ltimo aviso...

- O Harry no! Por favor... tenha piedade... tenha piedade... O Harry no! O Harry no! Por favor... eu farei tudo...

- Afasta-te ... Afasta-te, rapariga...

Podia t-la afastado  fora do bero, mas pareceu-lhe mais prudente acabar com todos eles...

A luz verde relampejou pelo quarto e ela tombou, tal como o marido. Durante todo esse tempo, a criana no chorara: aguentava-se em p, agarrada s grades do bero, 
e erguia os olhos para o rosto do intruso com uma espcie de interesse bem-disposto, pensando, talvez, que por baixo do manto se escondia o pai, afazer mais luzes 
bonitas, e a me ia levantar[-se a qualquer instante, a rir-se...

Apontou a varinha com todo o cuidado  cara do rapaz: queria ver aquilo acontecer, a destruio daquele perigo inexplicvel. A criana comeou a chorar: pressentira 
que ele no era James. No gostou que chorasse, nunca suportara as lamrias dos mais pequenos no orfanato...

- Avada Kedavra!

E ento sentiu-se despedaar: no era nada, nada excepto dor e terror, e tinha de se esconder, no ali, nos escombros da casa arruinada, onde a criana estava encurralada 
e aos gritos, mas muito longe... muito longe...

- No - gemeu Harry.

A serpente rastejava no solo sujo e entulhado, e ele matara o rapaz, e no entanto ele era o rapaz...

- No...

E agora encontrava-se  janela estilhaada da casa de Bathilda, imerso nas recordaes da sua maior perda, e a seus ps a enorme serpente deslizava sobre loua e 
vidros quebrados... baixou os olhos e viu uma coisa... uma coisa incrvel...

- No...

- Harry, est tudo bem, tu ests bem!

Curvou-se e apanhou a fotografia esmigalhada. L estava ele, o ladro desconhecido, o ladro que ele procurava...

- No... eu deixei-a cair... deixei-a cair...

- Harry, tudo OK, acorda, acorda!

Ele era Harry... Harry, no Voldemort... e o roagar que ouvia no era uma serpente...

285

Abriu os olhos.

- Harry - murmurou Hermione. - Sentes-te... bem?

- Sim - mentiu ele.

Encontrava-se na tenda, deitado num dos beliches inferiores, sob um monte de cobertores. Percebeu que era quase madrugada pelo silncio e pela qualidade da luz fria 
e uniforme para l do tecto de lona. Estava alagado em suor; sentia-o nos lenis e nos cobertores.

- Escapmos.

- Sim - confirmou Hermione. - Tive de usar um Feitio de Suspenso para te pr no beliche, no consegui erguer-te. Tu tens estado... bom, tu no tens estado bem...

Havia sombras arroxeadas sob os seus olhos castanhos e Harry reparou que ela segurava uma pequena esponja: tinha estado a enxugar-lhe a cara.

- Tens estado doente - concluiu ela. - Bastante doente.

- H quanto tempo  que fugimos?

- H horas.  quase manh.

- E eu tenho estado... o qu, inconsciente?

- No exactamente - respondeu Hermione, constrangida. - Tens estado aos gritos e a gemer e... assim - acrescentou ela num tom que deixou Harry pouco  vontade. O 
que fizera ele? Gritara maldies, como Voldemort? Chorara como o beb do bero?

- No consegui tirar-te o Horcrux - disse Hermione, e ele percebeu que ela queria mudar de assunto. - Estava colado, colado ao teu peito. Tens uma marca; lamento, 
mas tive de usar um Encantamento de Desunir para o tirar. A serpente mordeu-te, tambm, mas j limpei a ferida e pus-lhe um pouco de ditana...

Ele arrancou a T-shirt transpirada que tinha vestida e olhou para baixo. Havia um oval escarlate sobre o seu corao, no local em que o medalho o queimara. Viu 
igualmente as marcas de dentadas semi-saradas no brao.

- Onde  que puseste o Horcrux?

- Na minha mala. Acho que no o devemos usar durante algum tempo.

Harry recostou-se nas almofadas e fitou o rosto dela, contrado, pardacento.

- No devamos ter ido a Godric's Hollow. A culpa  minha, a culpa  toda minha, Hermione, lamento.

286

- A culpa no  tua. Eu tambm quis ir; pensei realmente que o Dumbledore te podia ter deixado l a espada.

- , pois... enganmo-nos, no foi?

- O que  que aconteceu, Harry? O que  que aconteceu quando ela te levou para cima? A serpente estava escondida algures? Surgiu e matou-a e depois atacou-te?

- No - disse ele. - Ela era a serpente... ou a serpente era ela... durante todo o tempo.

- O qu... qu?

Ele cerrou os olhos. Ainda sentia em si, o cheiro da casa de Bathilda, o que tornava tudo aquilo horrorosamente ntido.

- A Bathilda devia estar morta haja algum tempo. A serpente estava... estava dentro dela. O Quem-Ns-Sabemos p-la ali, em Godric's Hollow, para ficar  espera. 
Tu tinhas razo. Ele sabia que eu iria l.

- A serpente estava dentro dela?

Harrry abriu novamente os olhos: Hermione mostrava-se repugnada, nauseada.

- O Lupin disse que nos depararamos com magia que nem poderamos imaginar - lembrou ele. - Ela no quis falar  tua frente porque era serpents, era tudo serpents, 
e eu no me apercebi disso, mas  claro, eu compreendi-a. Assim que chegmos ao quarto, a serpente enviou uma mensagem ao Quem-Ns-Sabemos, ouvi-a dentro da minha 
cabea, senti-o a animar-se e ouvi-o dizer-lhe que me aguentasse ali... e depois...

Recordou a serpente a sair do pescoo de Bathilda: Hermione no precisava de saber os pormenores todos.

- ... ela transformou-se, transformou-se na serpente e atacou. Baixou os olhos para as marcas das mordeduras.

- Ela no devia matar-me, apenas manter-me ali at chegar o Quem-Ns-Sabemos.

Se ao menos ele tivesse conseguido matar a serpente, tudo aquilo teria valido a pena, tudo... De corao apertado, sentou-se e atirou os cobertores para o lado.

- Harry, no, tenho a certeza de que devias descansar!

- Quem precisa de dormir s tu. Sem ofensa, mas ests com um aspecto terrvel. Eu estou bem. Fico a vigiar um bocado. A minha varinha?

Ela no respondeu, limitando-se a olhar para ele.

- Onde est a minha varinha, Hermione?

Ela mordia os lbios e as lgrimas inundaram-lhe os olhos.

287

- Harry...

- Onde est a minha varinha?

Ela meteu a mo debaixo da cama e estendeu-lha.

A varinha de azevinho e fnix estava praticamente quebrada em duas. Apenas um frgil fio da pena de fnix mantinha os dois pedaos juntos. A madeira estilhaara-se 
completamente. Harry recebeu-a nas mos como se fosse um ser vivo que tivesse sofrido terrveis ferimentos. No conseguia pensar devidamente, era tudo uma nvoa 
de pnico e medo. Depois estendeu a varinha a Hermione.

- Repara-a. Por favor.

- Harry, no creio que... partida desta maneira...

- Por favor, Hermione, tenta!

- R-Reparo!

Um dos pedaos de varinha reuniu-se ao outro. Harry levantou-a.

- Lumos!

A varinha faiscou frouxamente e depois apagou-se. Harry apontou-a a Hermione.

- Expelliarmus!

A varinha de Hermione deu um pequeno solavanco, mas no saiu da mo dela. A dbil tentativa de magia foi de mais para a varinha de Harry, que voltou a quebrar-se 
em duas. Ele ficou a fit-la, horrorizado, incapaz de assimilar o que via... a varinha que sobrevivera a tantas coisas...

- Harry - sussurrou Hermione, to baixo que ele mal a ouvia. - Tenho tanta, tanta pena. Acho que fui eu. Quando amos a sair, sabes, a serpente vinha a atacar-nos, 
por isso eu mandei-lhe uma Maldio Fulminante que ressaltou por toda a parte, e deve ter ... deve ter atingido...

- Foi um acidente - disse Harry mecanicamente. Sentia-se vazio, atordoado. - Ns... ns encontraremos maneira de a reparar.

- Harry, no creio que sejamos capazes - respondeu Hermione, as lgrimas a escorrerem-lhe pela cara. - Lembras-te... lembras-te do Ron? De quando partiu a varinha 
dele, ao espatifar o carro? Nunca mais voltou a ser a mesma, ele teve de arranjar uma nova.

Harry pensou em Ollivander, raptado e mantido refm por Voldemort, em Gregorovitch, j morto. Onde  que iria arranjar uma varinha nova?

288

- bem - comentou ele, em ton falsamente despreocupado bem, ento vais ter de me emprestar a tua, por agora. Enquanto

fico de vigia.

com o rosto brilhante de lgrimas, Hermione estendeu-lhe a sua varinha, e ele deixou-a sentada ao lado da cama, desejando apenas afastar-se da amiga.



289

XVIII

A VIDA E AS MENTIRAS DE ALBUS DUMBLEDORE

Nascia o sol. A vastido pura e incolor do cu estendia-se sobre ele, indiferente a si e ao seu sofrimento. Harry sentou-se  entrada da tenda e inspirou profundamente 
o ar fresco. O simples facto de estar vivo para contemplar o nascer do sol sobre a paisagem reluzente de neve deveria ser o maior tesouro da terra e, todavia, no 
conseguia apreci-lo: tinha os sentidos embotados pela calamidade de perder a sua varinha. Relanceou um olhar sobre o vale atapetado de neve, ouvindo ao longe sinos 
de igreja repicar no silncio rutilante.

Sem se aperceber, cravara os dedos nos braos como se estivesse a tentar resistir a uma dor fsica. Derramara o seu sangue tantas vezes que nem fazia ideia; uma 
vez, perdera todos os ossos do brao direito; aquela viagem j lhe proporcionara cicatrizes no peito e nos braos para acrescentar s da mo e da testa, mas nunca, 
at esse momento, se sentira fatalmente enfraquecido, vulnervel e nu, como se a melhor parte do seu poder mgico lhe tivesse sido arrancada. Sabia exactamente o 
que Hermione diria se ele expressasse tais sentimentos: a varinha apenas reflecte o poder do feiticeiro. Mas enganava-se, o caso dele era diferente. Ela no sentira 
a varinha girar como o ponteiro de uma bssola e disparar chamas douradas contra o seu inimigo. Perdera a proteco dos ncleos gmeos e, s agora, que esta desaparecera, 
se apercebia de quanto contara com ela.

Tirou do bolso os pedaos da varinha partida e, sem olhar para eles, enfiou-os na bolsa de Hagrid que trazia ao pescoo. A bolsa encontrava-se agora demasiado cheia 
de objectos quebrados e inteis para poder comportar mais. A mo de Harry roou a velha Snitch atravs da pele de Moke e, por instantes, teve de dominar a tentao 
de a tirar e deitar fora. Impenetrvel, imprestvel, intil tal como tudo o que Dumbledore deixara ficar...

E a raiva que sentia por Dumbledore irrompia por ele como lava, queimando-o interiormente, aniquilando todos os outros sentimentos. Em desespero total, tinham-se 
forado a acreditar que

290

Godric's Hollow possua respostas e convencido de que deviam l ir, que fazia tudo parte de um caminho secreto traado por Dumbledore; mas no havia mapa, nem plano. 
Dumbledore deixara-os a tentear no escuro, a debaterem-se, sozinhos e sem ajuda, com terrores desconhecidos e impensveis: nada lhes era explicado, nada lhes era 
dado sem custos, no tinham a espada, e agora Harry no tinha varinha. E deixara cair a fotografia do ladro, pelo que seria decerto fcil a Voldemort descobrir 
agora a sua identidade... Voldemort possua agora toda a informao...

- Harry?

Hermione parecia recear que ele lhe lanasse uma maldio com a sua prpria varinha. com o rosto sulcado de lgrimas, agachou-se ao lado dele, com duas chvenas 
de ch nas mos trmulas e algo volumoso debaixo do brao.

- Obrigado - agradeceu Harry, pegando numa das chvenas.

- Importas-te que fale contigo?

- No - respondeu ele, no desejando mago-la.

- Harry, tu querias saber quem era o homem daquela fotografia. Bem... eu trouxe o livro.

Timidamente, pousou no colo dele um exemplar intacto de A Vida e as Mentiras de Albus Dumbledore.

- Onde... como...?

- Estava na sala da Bathilda, pousado ao acaso... com esta nota a sair l de dentro.

Hermione leu em voz alta as poucas linhas de uma caligrafia angulosa, verde-cido.

- "Querida Batty, Obrigada pela ajuda. Mando um exemplar do livro, espero que goste. Foi voc quem disse tudo, mesmo que no se lembre. Rita.". Penso que deve ter 
chegado ainda a verdadeira Bathilda era viva, mas talvez ela no estivesse em condies de o ler?

- No,  provvel que no.

Harry fitou o rosto de Dumbledore e sentiu uma onda selvagem de prazer: agora ia saber todas as coisas que Dumbledore nunca julgara valer a pena contar-lhe, quer 
Dumbledore quisesse quer no.

- Ainda ests zangado comigo, no ests? - perguntou Hermione. Ele ergueu os olhos e viu novas lgrimas a rolarem-lhe pelas faces, percebendo que a sua prpria cara 
devia expressar a clera que sentia.

- No - respondeu em tom calmo. - No, Hermione, sei que foi um acidente. Esforavas-te por nos tirar dali vivos, e foste incrvel. Eu teria morrido, se tu l no 
estivesses para me ajudar.

291

Tentou retribuir o sorriso lacrimoso dela, e depois voltou a sua ateno para o livro. Tinha a lombada hirta, era evidente que nunca fora aberto. Folheou as pginas, 
 procura de fotografias. Encontrou quase imediatamente a que pretendia: o jovem Dumbledore e o seu atraente companheiro, rindo s gargalhadas de alguma piada h 
muito esquecida. Harry examinou a legenda.

Albus Dumbledore, pouco aps a morte da me, com o seu amigo Gellert Grindelwald.

Durante um longo momento, Harry fitou, estupefacto, a ltima palavra. Grindelwald! O seu amigo Grindelwald. Olhou de lado para Hermione, que continuava a contemplar 
o nome como se no pudesse acreditar no que via. Lentamente, ergueu os olhos para Harry.

- Grindelwald?

Ignorando o resto das fotografias, Harry procurou, nas pginas em redor, nova referncia quele nome fatal. Depressa o descobriu, e leu avidamente, mas perdeu-se: 
era necessrio recuar mais para perceber tudo, e, por fim, foi parar ao incio de um captulo intitulado "O Bem Maior". Juntos, ele e Hermione comearam a ler:

Agora a aproximar-se do seu dcimo oitavo aniversrio, Dumbledore deixou Hogwarts num esplendor de glria - Chefe de Equipa, Prefeito, Vencedor do Prmio Barnabus 
Finkley para Lanamento Excepcional de Encantamentos, Representante da Juventude Britnica no Wizengamot, Vencedor da Medalha de Ouro por Contribuio Indita na 
Conferncia Alquimista Internacional no Cairo. Dumbledore tencionava, a seguir, fazer o Grand Tour com Elphias "Bafo de Co" Doge, o inseparvel companheiro, tolo 
mas dedicado, que arranjara na escola.

Os dois jovens encontravam-se no Caldeiro Escoante, em Londres, preparando a partida para a Grcia na manh seguinte, quando chegou uma coruja com a notcia da 
morte da me de Dumbledore. Doge "Bafo de Co", que recusou ser entrevistado para este livro, j deu ao pblico a sua verso sentimental do que aconteceu a seguir. 
Apresenta-nos a morte de Kendra como um golpe trgico, e a deciso de Dumbledore renunciar  sua expedio como um nobre acto de sacrifcio pessoal.

 certo que Dumbledore regressou de imediato a Godric's Hollow, supostamente para "cuidar" do irmo mais novo e da irm. Mas, exactamente, como foi que ele cuidou 
deles?

292

"No regulava bem da cabea, aquele Aberforth", diz End Smcek, cuja famlia vivia, na altura, nos arredores de Godric's Hollow. "Um valdevinos. Claro que, com'a 
me e o pai tinham morrido, a gente sentia pena dele, s qu'ele passava a vida a atirar-me com caca de cabra  cabea. Acho qu'o Albus no lhe ligava nenhuma, p'lo 
menos nunca os vi juntos."

Ento o que andava Albus afazer, se no confortava o irmo mais novo? A resposta, segundo parece,  a garantir que o encarceramento da irm continuasse. Porque, 
embora a sua primeira carcereira tivesse morrido, no houve qualquer alterao no estado lamentvel de Ariana Dumbledore. At a sua existncia continuou a ser conhecida 
apenas dos poucos estranhos em quem se podia confiar, como Doge "Bajo de Co", pois acreditavam na histria da sua "sade dbil".

Outra amiga da famlia, tambm facilmente iludida, foi Bathilda Bagshot, a famosa historiadora de magia que vive h muitos anos em Godric's Hollow. Kendra,  claro, 
repelira as primeiras tentativas de Bathilda para acolher a famlia na vila. Vrios anos depois, no entanto, a autora enviou uma coruja a Albus, ento em Hogwarts, 
transmitindo-lhe as suas impresses favorveis acerca do ensaio dele sobre Transformao de Transespcies, em A Transfigurao Hoje. Esse contacto inicial levou 
ao relacionamento com toda a famlia de Dumbledore. Por altura da morte de Kendra, Bathilda era a nica pessoa em Godric's Hollow com quem a me de Dumbledore falava.

Infelizmente, o brilhantismo demonstrado por Bathilda em ocasies anteriores da sua vida, encontra-se agora toldado. "O fogo continua aceso, mas o caldeiro est 
vazio," como me disse Ivor Dillonsby, ou, nas palavras mais terra--terra de Enid Smeek, "Ela t pior qu'uma barata tonta." No entanto, uma combinao de tcnicas 
de reportagem altamente refinadas permitiu-me extrair factos em nmero suficiente para reconstituir toda a escandalosa histria.

Tal como o resto do mundo dos feiticeiros, Bathilda atribui a morte prematura de Kendra  "inverso de um feitio", histria repetida por Albus e Aberforth nos anos 
seguintes. Bathilda papagueia igualmente a verso da famlia sobre Ariana, chamando-lhe "frgil" e "delicada". H, no entanto, um assunto em que Bathilda mereceu 
bem os esforos que desenvolvi para arranjar Veritaserum, porque  ela, e s ela, a nica pessoa a conhecer a histria completa do segredo mais bem guardado da vida 
de Albus Dumbledore. Revelado agora pela primeira vez, pe em causa tudo aquilo em que os seus admiradores acreditavam a respeito de Dumbledore: o seu suposto dio 
a Magia Negra, a sua oposio  opresso dos Muggles, at mesmo a sua devoo  prpria famlia.

293

No mesmo Vero em que Dumbledore regressou  sua casa em Godric's Hollow, agora rfo e chefe da famlia, Bathilda Bagshot acedeu receber em casa dela o sobrinho-neto, 
Gellert Grindelwald. O nome de Grindelwald  justamente famoso: numa lista dos Mais Perigosos Feiticeiros Negros de Todos os Tempos, ele apenas perdeu o primeiro 
lugar porque, uma gerao mais tarde, chegou o Quem-Ns-Sabemos para lhe roubar a coroa. Todavia, como Grindelwald no estendeu a sua campanha de terror  Gr-Bretanha, 
os pormenores da sua ascenso ao poder no so bem conhecidos por c.

Educado em Durmstrang, uma escola famosa, j ento, pela sua infeliz tolerncia da Magia Negra, Grindelwald mostrou-se to precocemente brilhante como Dumbledore. 
Contudo, em vez de canalizar a suas capacidades para a obteno de distines e prmios, Gellert Grindelwald dedicou-se a outras actividades. Aos dezasseis anos, 
at Durmstrang achou que no podia continuar a fechar os olhos s experincias viciosas de Gellert Grindelwald, e ele foi expulso.

A partir da, tudo o que se sabe acerca dos movimentos seguintes de Grindelwald  que "viajou para o estrangeiro durante alguns meses." Pode agora ser revelado que 
Grindelwald optou por visitar a sua tia-av, em Godric's Hollow, e que ali, embora para muitos possa ser altamente chocante ouvir tal, estabeleceu uma amizade ntima 
com Dumbledore em pessoa.

"A mim pareceu-me um rapaz encantador," tagarela Bathilda, "seja o que for que se tenha tornado mais tarde. Naturalmente, apresentei-o ao pobre Albus, que sentia 
a falta da companhia de jovens da sua idade. Os rapazes simpatizaram imediatamente um com o outro." Sem dvida que sim! Bathilda mostra-me uma carta, por ela conservada, 
que Albus Dumbledore enviou a Gellert Grindelwald altas horas da noite.

"Sim, mesmo depois de terem passado o dia inteiro a discutir - ambos rapazes brilhantes, davam-se s mil maravilhas - s vezes eu ouvia uma coruja a bater  janela 
do quarto do Gellert, para entregar uma carta do Albus! Ocorrera-lhe uma ideia, e ele queria partilh-la com o Gellert imediatamente!"

E que ideias! Por mais profundamente chocantes que os fs de Albus Dumbledore os achem, aqui vo os pensamentos do seu heri aos dezassete anos, tal como transmitidos 
ao seu novo melhor amigo (a cpia do original da carta pode ver-se na pgina 463):

294

Gellert,

Sobre a tua questo de o domnio dos feiticeiros ser PARA O BEM DOS PRPRIOS MUGGLES - este , penso eu, o ponto crucial. Sim, foi-nos dado poder e, sim, esse poder 
d-nos o direito de governar, mas d-nos igualmente responsabilidades sobre os governados. Temos de sublinhar este ponto, ser a pedra fundamental sobre a qual construiremos. 
Quando nos depararmos com oposio, como decerto acontecer, deve ser essa a base da nossa contra-argumentao. Ns tomamos o controlo PARA UM BEM MAIOR. E consequentemente, 
quando encontrarmos resistncia, devemos usar apenas a fora necessria e no mais. (Foi esse o teu erro em Durmstrang! Mas no me queixo, porque se no tivesses 
sido expulso, nunca nos teramos conhecido.)

Albus.

Por mais atnitos e consternados que fiquem os seus muitos admiradores, esta carta constitui a prova de que Albus Dumbledore sonhou, em tempos, subverter o Estatuto 
de Secretismo e estabelecer o domnio dos feiticeiros sobre os Muggles. Que golpe, para aqueles que sempre viram em Dumbledore o maior campeo dos feiticeiros de 
origem Muggle! Como parecem ocos aqueles discursos promovendo os direitos dos Muggles  luz destas novas provas to condenatrias! Como Albus Dumbledore nos surge 
desprezvel, ocupado a planear a sua subida ao poder, quando devia andar afazer o luto pela me e a cuidar da irm!

Sem dvida, os que estiverem decididos a conservar Dumbledore no seu pedestal arruinado, alegaro que, afinal, ele no ps o seu plano em aco, que deve ter mudado 
de ideias, que caiu em si. Contudo, a verdade parece ser muito mais chocante.

Escassos dois meses aps o incio da sua nova grande amizade, Dumbledore e Grindelwald separaram-se, no voltando a ver-se at se encontrarem para o seu lendrio 
duelo (para mais, ver captulo 22). O que provocou esta ruptura abrupta? Teria Dumbledore cado em si? Teria ele dito a Grindelwald que no colaboraria mais nos 
seus planos? Infelizmente, no!

"A causa, penso eu, foi a morte da pequena Ariana," diz Bathilda. "Representou um choque terrvel. O Gellert estava l em casa quando isso aconteceu, e voltou para 
a minha muito agitado, a dizer que queria regressar ao seu pas no dia seguinte. Tremendamente transtornado, sabe. Portanto eu arranjei um Boto de Transporte e 
foi a ltima vez que o vi."

"O Albus ficou fora de si com a morte da Ariana. Foi horrvel para os dois irmos. Tinham perdido tudo excepto um ao outro. No

295

admira que perdessem as estribeiras. O Aberforth culpava o Albus, sabe, como  vulgar fazer-se nessas pavorosas circunstncias. Mas o Aberforth disse sempre muita 
loucura, pobre rapaz. Ainda assim, partir o nariz do Albus no funeral no foi decente. A Kendra teria ficado destruda se visse os filhos a lutarem assim, sobre 
o corpo da filha. Foi uma pena o Gellert no ter podido ficar para o funeral... teria sido um consolo para o Albus, pelo menos..."

Esta terrvel contenda ao lado do caixo, conhecida apenas dos raros presentes no funeral de Ariana Dumbledore, levanta diversas questes. Exactamente, por que foi 
que Aberforth Dumbledore culpou o irmo Albus da morte da irm? Seria, como "Batty" pretende, uma mera efuso de mgoa? Ou poderia haver uma razo mais concreta 
para a sua clera? Grindelwald, expulso de Durmstrang devido a ataques quase fatais a colegas, abandonou  pressa o pas horas depois da morte da rapariga, e Albus 
(por vergonha, por medo?) no voltou a v-lo, at ser forado a tal pelas splicas do mundo feiticeiro.

Nem Dumbledore nem Grindelwald parecem ter alguma vez referido esta breve amizade de juventude em anos posteriores. Contudo, no pode haver dvida de que Dumbledore 
adiou, durante cinco anos de tumulto, fatalidades e desaparecimentos, o seu ataque a Gellert Grindelwald. Seriam restos de afeio pelo homem, ou receio de se ver 
desmascarado como o seu ex-melhor amigo, o que levou Dumbledore a hesitar? Teria Dumbledore sentido relutncia em empenhar-se na captura do homem que, em tempos, 
ficara to feliz por conhecer?

E como morreu a misteriosa Ariana? Ter ela sido, inadvertidamente, vtima de algum ritual Negro? Ter tropeado em algo que no devia, enquanto os dois jovens praticavam 
para a sua tentativa de glria e domnio? Ser possvel que Ariana Dumbledore tenha sido a primeira pessoa a morrer "por um bem maior"?

O captulo terminava ali e Harry ergueu os olhos. Hermione chegara ao fim da pgina primeiro que ele. Tirou o livro das mos de Harry, parecendo um pouco alarmada 
com a sua expresso, e fechou-o sem o olhar, como se estivesse a esconder algo indecente.

- Harry...

Mas Harry abanou a cabea. Dentro de si quebrara-se uma certeza ntima; era exactamente o que sentira aps a partida de Ron. Confiara em Dumbledore, acreditara ser 
ele a encarnao do bem e da sabedoria, mas tudo se desfizera em cinzas: que mais poderia perder? Ron, Dumbledore, a varinha de fnix...

296

- Harry. - Hermione parecia ter-lhe lido os pensamentos. - Escuta. Isto... isto no  uma leitura muito agradvel...

- Pois, bem podes diz-lo...

- ... mas no te esqueas, Harry, de que isto foi escrito pela Rita Skeeter.

- Tu leste aquela carta para o Grindelwald, no leste?

- Li, s-sim. - Hesitou, com ar perturbado, rodeando a chvena de ch com as mos frias. - Penso que essa  a pior parte. Sei que a Bathilda pensou que aquilo no 
passava de palavras, mas "Para um Bem Maior" transformou-se no slogan do Grindelwald, a sua justificao para todas as atrocidades cometidas posteriormente. E... 
por aqui... parece que foi o Dumbledore quem lhe deu a ideia. Dizem que "Para um Bem Maior" estava mesmo inscrito  entrada de Nurmengard.

- O que  Nurmengard?

- A priso que o Grindelwald mandou construir para encerrar os seus oponentes. Ele prprio acabou l, depois de o Dumbledore o ter vencido. Seja como for, ...  
horrvel pensar que as ideias do Dumbledore ajudaram a ascenso do Grindelwald ao poder. Mas, por outro lado, nem sequer a Rita pode alegar que eles conviveram mais 
do que alguns meses durante um Vero quando eram ainda ambos muito jovens, e...

- J estava  espera que dissesses isso - interrompeu Harry. No queria deixar a sua clera derramar-se sobre ela, mas era-lhe difcil manter um tom sereno. - Calculei 
que fosses dizer que "eles eram novos". Tinham a mesma idade que ns temos agora. E ns estamos aqui, a arriscar a vida para lutar contra a Magia Negra, e ele estava 
l, unha com carne com o seu novo melhor amigo, planeando subir ao poder e dominar os Muggles.

No conseguiria controlar-se durante muito mais tempo: levantou-se e comeou a andar por ali, tentando dar uma certa vazo  raiva.

- Eu no estou a tentar defender o que o Dumbledore escreveu - disse Hermione. - Todo esse disparate sobre o "direito a governar", no  mais que uma outra forma 
de "Magia  Poder". Mas, Harry, a me dele tinha acabado de morrer, e ele estava preso ali em casa, sozinho...

- Sozinho? Ele no estava sozinho! Tinha a companhia do irmo e da irm, a irm cepatorta que ele mantinha encarcerada...

- Eu no acredito nisso - declarou Hermione. Levantou-se igualmente. - O que quer que tenha havido de errado com essa

297
rapariga, no creio que ela fosse cepatorta. O Dumbledore que ns conhecemos nunca, mas nunca, teria permitido...

- O Dumbledore que ns julgvamos conhecer no queria conquistar os Muggles pela fora! - gritou Harry; a sua voz ecoou pelo cume deserto da colina, provocando a 
debandada de vrios melros, que levantavam voo a grasnar, subindo em espiral contra o cu nacarado.

- Ele mudou, Harry, ele mudou!  to simples como isso! Talvez acreditasse nessas coisas aos dezassete anos, mas todo o resto da sua vida foi dedicado a combater 
a Magia Negra! Foi o Dumbledore quem deteve o Grindelwald, foi ele quem votou sempre pela proteco dos Muggles e pelos direitos dos feiticeiros de origem Muggle, 
quem lutou contra o Quem-Ns-Sabemos desde o incio, e quem morreu a tentar derrub-lo!

O livro de Rita jazia no solo entre eles, de maneira que o rosto de Dumbledore sorria tristemente a ambos.

- Desculpa, Harry, mas eu acho que a verdadeira razo por que tu ests to irritado  o Dumbledore nunca te ter contado nada disto.

- Talvez seja! - bradou Harry, cobrindo a cabea com os braos, sem saber bem se estava a tentar conter a sua clera ou a proteger-se do peso da sua prpria desiluso. 
- Olha o que ele exigiu de mim, Hermione! Arrisca a vida, Harry! Outra vez! Outra vez! E no esperes que eu te explique tudo, confia cegamente em mim, confia em 
que eu sei o que estou a fazer, confia em mim apesar de eu no confiar em ti! Nunca toda a verdade! Nunca!

A sua voz cedeu de tenso; ficaram a olhar um para o outro no meio da brancura e do vazio, e Harry sentiu que eram to insignificantes como insectos sob a vastido 
daquele cu.

- Ele gostava de ti - segredou Hermione. - Eu sei que ele gostava de ti.

Harry deixou cair os braos.

- No sei de quem  que ele gostava, Hermione, mas nunca foi de mim. Isto no  gostar, esta embrulhada em que ele me deixou. Partilhou os seus verdadeiros pensamentos 
muitssimo mais com o Gellert Grindelwald do que alguma vez o fez comigo!

Pegou na varinha de Hermione, que deixara cair na neve, e sentou-se novamente  entrada da tenda.

- Obrigado pelo ch. Eu termino o turno de vigia. Volta tu para a cama.

298

Ela hesitou, mas percebeu a despedida. Apanhou o livro

depois rodeou-o para voltar  tenda, mas, ao passar, roou-lhe

levemente com a mo pela cabea. Ele cerrou os olhos ao sentir

toque, e odiou-se por desejar que o que ela dissera fosse ver dade: que Dumbledore lhe tivera realmente afecto.

299

XIX

A CORA PRATEADA

Nevava quando Hermione entrou de vigia  meia-noite. Os sonhos de Harry foram confusos e perturbadores: Nagini serpenteava pelo meio deles, primeiro atravs de um 
gigantesco anel rachado, depois atravs de uma coroa de rosas-de-Natal. Acordou vrias vezes, em pnico, convencido de que algum o chamava ao longe, imaginando 
que o vento a soprar em volta da tenda eram passos ou vozes.

Finalmente, levantou-se s escuras e foi ter com Hermione, enroscada  entrada da tenda a ler Uma Histria da Magia  luz da varinha. A neve continuava a cair em 
flocos densos, e ela acolheu com alvio a sugesto de arrumarem as coisas cedo e sarem dali.

- Vamos para um stio mais abrigado - concordou ela, arrepiada, enfiando uma sweatshirt por cima do pijama. - Passei o tempo a pensar que ouvia gente a mover-se 
l fora. Uma ou duas vezes, julguei mesmo ter avistado algum.

Harry deteve-se a meio de vestir uma camisola e relanceou um olhar ao Avisoscpio, imvel e silencioso, em cima da mesa.

- Tenho a certeza de que foi tudo imaginao - disse Hermione, parecendo nervosa. - A neve na escurido faz-nos ver coisas... mas talvez devssemos Desaparecer debaixo 
do Manto da Invisibilidade, pelo sim pelo no.

Meia hora depois, com a tenda arrumada, Harry de Horcrux ao pescoo e Hermione apertando a mala de missangas, Desapareceram. Foram engolidos pela opresso habitual; 
os ps de Harry perderam o contacto com o solo nevado e depois embateram com fora no que lhe pareceu ser terra gelada coberta de folhas.

- Onde  que estamos? - perguntou ele, perscrutando um novo macio de rvores, enquanto Hermione abria a mala e comeava a tirar as estacas da tenda.

- Na Floresta de Dean - respondeu ela. - Vim para aqui acampar uma vez, com a minha me e o meu pai.

Tambm ali a neve cobria as rvores em redor, e o frio era cortante, mas pelo menos estavam protegidos do vento. Passaram a

300

maior parte do dia no interior da tenda, encolhidos, procurando aquecer-se em volta das teis chamas azul-vivo que Hermione produzia com tanta percia, e que podiam 
ser apanhadas e transportadas num frasco. Harry sentia-se como se estivesse a recuperar de uma doena curta mas grave, impresso essa que era reforada pela solicitude 
de Hermione. Nessa tarde caiu sobre eles mais um nevo, de maneira que at a abrigada clareira ficou coberta por nova camada de flocos.

Aps duas noites a dormir pouco, os sentidos de Harry achavam-se mais alerta que o usual. A fuga de Godrics Hollow fora to  justa que Voldemort lhe parecia agora 
mais perto que nunca, mais ameaador. Quando as trevas os envolveram de novo, Harry recusou a oferta de Hermione para ficar de vigia e mandou-a para a cama.

Levou uma velha almofada para a entrada da tenda e sentou-se, com todas as camisolas que possua vestidas mas, mesmo assim, a tremer de frio. A escurido aumentava 
 medida que as horas iam passando, at ser virtualmente impenetrvel. Preparava-se para tirar o Mapa do Salteador, a fim de observar o ponto de Ginny durante um 
bocado, quando se lembrou de que estavam nas frias de Natal e de que ela teria voltado para A Toca.

Cada movimento minsculo parecia ampliado na vastido da floresta. Harry sabia que ela estaria cheia de criaturas vivas, mas desejava que todas elas se conservassem 
quietas e silenciosas, de forma a poder distinguir as suas inocentes corridas e caadas dos rudos que pudessem proclamar movimentos diferentes e sinistros. Recordou 
o som de um manto a deslizar sobre folhas mortas muitos anos antes, e imediatamente julgou ouvi-lo de novo antes de dar a si prprio um abano mental. Os encantamentos 
protectores funcionavam h semanas; por que haveriam de ceder agora? E, no entanto, no conseguia afastar a sensao de que havia algo diferente nessa noite.

Vrias vezes se endireitou, sobressaltado, o pescoo dorido por ter adormecido, curvado num ngulo incmodo contra o lado da tenda. A noite adquiriu uma tal densidade 
de negrume aveludado que ele poderia estar suspenso no limbo entre a Desapario e a Apario. Acabava de erguer a mo diante da cara para ver se conseguia distinguir 
os dedos quando aquilo aconteceu.

Mesmo diante dele surgiu uma viva luz prateada, movendo-se atravs das rvores. Fosse qual fosse a sua origem, deslocava-se silenciosamente. A luz parecia simplesmente 
vogar na direco dele.

301

Ps-se de p de um salto, a voz gelada na garganta, e levantou a varinha de Hermione. Contraiu os olhos quando a luz se tornou ofuscante, as silhuetas das rvores 
 sua frente negras como breu. A coisa continuava a aproximar-se ..

E ento a origem da luz saiu de detrs de um carvalho. Era uma deslumbrante cora prateada, avanando com cuidado, ainda silenciosa, e sem deixar pegadas na fina 
camada de neve. Avanou para ele com a bela cabea, de grandes olhos muito pestanudos, bem erguida.

Harry mirava a criatura, assombrado, no com a sua estranheza, mas com a sua inexplicvel familiaridade. Sentiu que estivera  espera da sua vinda, mas que se esquecera, 
at esse momento, de que tinham combinado encontrar-se. O impulso de chamar Hermione, to forte apenas h um instante, desaparecera. Sabia, teria apostado a vida, 
que ela viera para ele, e s para ele.

Fitaram-se durante longos momentos e depois ela virou-se e afastou-se.

- No! - disse ele, a voz falhando-lhe pela falta de uso. - Volta' Ela continuou a avanar decididamente por entre as rvores, e

depressa o seu brilho ficou embotado pelos grossos troncos negros Durante um segundo, Harry hesitou, trmulo. A cautela segredava-lhe que podia ser um truque, um 
engodo, uma armadilha Mas o instinto, um instinto avassalador, dizia-lhe que aquilo no era Magia Negra. Partiu no rasto dela.

A neve estalava sob os seus ps, mas a cora no fazia qualquer rudo ao passar pelo meio das rvores, pois era apenas luz. Ia-o conduzindo cada vez mais para o 
interior da floresta, e Harry caminhava rapidamente, seguro de que, quando ela parasse, permitiria que ele se aproximasse devidamente. E depois falaria, e a voz 
dir-lhe-ia o que ele precisava de saber.

Por fim, ela estacou. Virou, uma vez mais, a sua bela cabea para ele, e Harry comeou a correr, com uma pergunta a queimar-lhe os lbios, mas ao abrir a boca para 
a fazer, ela desvaneceu-se

Embora as trevas a tivessem engolido completamente, a sua imagem reluzente continuava gravada na retina de Harry: obscurecia-lhe a viso, avivando-se quando ele 
baixava as plpebras, desorientando-o. Agora chegava o medo a presena dela significara segurana.

- Lumos' - sussurrou ele, e a ponta da varinha ilummou-se A imagem da cora desvanecia-se a cada pestanejar seu, ah

parado, a escutar os sons da floresta, o estalar distante de galhos,

302

suaves silvos de neve a cair. Estaria prestes a ser atacado? T-lo-ia ela atrado a uma emboscada? Seria imaginao achar que havia algum, para l do alcance do 
foco da varinha, a observ-lo?

Levantou mais a varinha. Ningum correu para ele, no irrompeu nenhum relmpago de luz verde de detrs de uma rvore. Ento, por que o conduzira ela quele stio?

Algo brilhou  claridade da varinha e Harry virou-se rapidamente, mas a nica coisa que ali havia era um pequeno lago gelado, cuja superfcie negra e fendida reluziu 
quando ele ergueu mais a luz para o examinar.

Avanou cautelosamente e olhou para baixo. O gelo reflectiu a sua sombra distorcida, e o claro da varinha, mas l no fundo, por baixo da espessa carapaa de um 
cinzento embaciado, havia mais qualquer coisa que reluzia. Uma grande cruz de prata...

O corao subiu-lhe  boca: ajoelhou-se  beira do lago e inclinou a varinha de forma a inundar o fundo com o mximo de luz possvel. Um claro vermelho carregado 
. era uma espada com o punho cravejado de rubis faiscantes .. a espada de Gryffindor achava-se no fundo do lago da floresta1

Contemplou-a, mal ousando respirar. Como era aquilo possvel? Como poderia ela ter vindo parar a um lago de floresta, to perto do lugar onde estavam acampados? 
Teria alguma magia desconhecida atrado Hermione a este local, ou seria a cora, que ele tomara por um Patronus, uma espcie de guardi do lago? Ou teria a espada 
sido posta no lago depois de terem chegado, precisamente por eles se encontrarem ali? E, nesse caso, onde estava a pessoa que a quisera passar a Harry? Dirigiu novamente 
a varinha para as rvores e arbustos em volta, procurando uma silhueta humana, o brilho de um olho, mas no avistou ningum. Mesmo assim, o medo alimentou-lhe a 
euforia ao voltar de novo a ateno para a espada repousando no fundo do lago gelado

Apontou a varinha  forma prateada e murmurou. - Acsio espada.

Esta no se mexeu. Ele tambm no o esperara. Se fosse assim io fcil, a espada estaria no cho para ele lhe pegar, e no nas profundezas de um lago gelado. Comeou 
a percorrer o crculo de gelo, esforando-se por recordar a ltima vez que a espada se 'he entregara Ele corria ento um perigo terrvel, e pedira socorro.

- Socorro - murmurou ele, mas a espada permaneceu no rundo do lago, indiferente, imvel.

303

O que fora, perguntou-se Harry (de novo a andar), que Dumbledore lhe dissera da ltima vez que recuperara a espada? S um verdadeiro Gryffindor poderia ter tirado 
a espada de dentro do Chapu E quais eram as qualidades que definiam um Gryffindor? Respondeu-lhe uma pequena voz no interior da sua cabea: os Gryffindor distinguem-se 
pela sua ousadia, coragem e cavalheirismo.

Harry estacou e soltou um longo suspiro, vendo o seu bafo dispersar rapidamente no ar gelado. Sabia o que tinha de fazer. Se fosse honesto consigo prprio, tinha 
de reconhecer que pensara que as coisas poderiam acabar assim desde o momento em que avistara a espada atravs do gelo.

Olhou em volta para as rvores que o rodeavam, mas achava-se agora convencido de que ningum o ia atacar. Tinham tido essa possibilidade enquanto ele caminhava sozinho 
pela floresta, tinham tido imensas oportunidades enquanto ele examinava o lago. Nesta altura, a nica razo para adiar era o facto de a perspectiva imediata ser 
to profundamente desagradvel.

com os dedos entorpecidos, comeou a remover as inmeras camadas de roupa. No estava bem a ver, pensou ele desanimado, onde era que o "cavalheirismo" encaixava 
ali, a menos que contasse como cavalheirismo no chamar Hermione para fazer aquilo em vez dele.

Uma coruja piou algures enquanto ele se despia, e, com uma pontada, recordou-se de Hedwig. Tremia agora de frio, e tinha os dentes a bater horrorosamente, mas continuou 
a despir-se at ficar s com a roupa interior, descalo na neve. Pousou a bolsa com a varinha, a carta da me, o fragmento do espelho de Sinus e a velha Snitch em 
cima da roupa; depois apontou a varinha de Hermione para o gelo.

- Diffindo.

O gelo rachou com um som semelhante a uma bala no silncio, a superfcie do lago estalou e pedaos de gelo escuro ficaram a balouar na gua agitada. Tanto quanto 
Harry conseguia avaliar, no era fundo, mas para recuperar a espada teria de submergir completamente.

Meditar na tarefa que o aguardava no a tornaria mais fcil, nem  gua mais quente Avanou para a beira do lago e colocou a varinha de Hermione no cho, ainda acesa. 
Depois, esforando-se por no imaginar o frio ainda mais intenso que estava prestes a sentir, ou como em breve iria tremer violentamente, saltou.

304

Todos os poros do seu corpo gritaram em protesto: o prprio ar pareceu gelar-lhe nos pulmes ao mergulhar at aos ombros na gua glacial. Mal conseguia respirar; 
tremendo to violentamente que a gua extravasou as bordas do lago, tacteou com os ps dormentes  procura da espada. S queria mergulhar uma vez.

Foi adiando de segundo em segundo o momento de submerso total, ofegante e percorrido por arrepios, at dizer a si prprio que aquilo tinha de ser feito; chamou 
a si toda a sua coragem e mergulhou

O frio era uma agonia e atacou-o como fogo. O seu prprio crebro parecia ter congelado, enquanto ele avanava pela gua escura at ao fundo e estendia a mo,  
procura da espada. Os dedos fecharam-se em volta do punho; puxou-a para cima.

Ento sentiu algo apertar-lhe com fora o pescoo. Pensou em plantas aquticas, apesar de no ter roado em coisa alguma ao mergulhar, e levantou a mo desocupada 
para se libertar. Mas no eram plantas: a corrente do Horcrux apertara-se e estava lentamente a comprimirr-lhe a traqueia.

Harry agitou desesperadamente as pernas, tentando impulsionar-se para a superfcie, mas apenas conseguiu ser projectado para o lado rochoso do lago Esbracejando, 
sufocado, debateu-se com a corrente que o estrangulava, os dedos gelados incapazes de a soltar, e depois comearam a acender-se na sua cabea pequenas luzes, e ele 
estava a afogar-se, e no lhe restava nada, no havia nada que pudesse fazer, e os braos que se cerravam em redor do seu peito pertenciam seguramente  Morte...

Engasgado e a vomitar, ensopado e mais enregelado que alguma vez se sentira na vida, recuperou os sentidos, de cara na neve Algures, ali perto, outra pessoa arquejava, 
tossia e cambaleava. Hermione viera de novo, como quando a serpente o atacara... todavia no parecia ela, no com aquela tosse to rouca, no a avaliar pelo peso 
daqueles passos.

Harry no teve foras para erguer a cabea e ver a identidade do seu salvador. A nica coisa que conseguiu fazer foi levar a mo trmula  garganta e tactear o stio 
onde o medalho lhe cortara a carne. O Horcrux desaparecera: algum o cortara, libertando-o. Depois, uma voz ofegante falou por cima da sua cabea - Tu., ests... 
louco'?

Nada, excepto o choque de ouvir aquela voz, poderia ter dado a Harry nimo para se levantar. A tremer violentamente, ps-se de p, cambaleante. Ah, diante dele, 
estava Ron, completamente

305

vestido mas ensopado at aos ossos, o cabelo colado  cara, a espada de Gryffindor numa das mos, e na outra o Horcrux a balouar da corrente partida.

- Por que diabo - ofegou Ron, erguendo o Horcrux, que oscilou de um lado para o outro na sua corrente encurtada, numa imitao de hipnotismo -,  que no tiraste 
esta coisa antes de mergulhar?

Harry no conseguiu responder. A cora prateada no era nada, nada, comparada com o reaparecimento de Ron; nem conseguia acreditar. Percorrido por arrepios de frio, 
apanhou a pilha de roupa ainda pousada  beira do lago e comeou a vesti-la. Enquanto enfiava camisola atrs de camisola por cima da cabea, Harry fitava Ron, quase 
 espera de o ver desaparecer de cada vez que o perdia de vista, e no entanto ele tinha de ser real: acabara de mergulhar no lago e salvara-lhe a vida.

- Eras t-tu? - tartamudeou por fim Harry, a bater os dentes, a voz mais fraca do que o habitual devido a quase ter sido estrangulado.

- Bem, sim - respondeu Ron, parecendo levemente confuso.

- T-tu invocaste aquela cora?

- O qu? No, claro que no! Pensei que tinhas sido tu!

- O meu Patronus  um veado.

- Ah, pois. Bem me pareceu que estava diferente. Faltava-lhe a armao.

Harry voltou a pr a bolsa de Ginny ao pescoo, enfiou uma ltima camisola, curvou-se para apanhar a varinha de Hermione e fitou outra vez Ron.

- Como  que tu ests aqui?

Aparentemente, Ron esperara que essa questo s surgisse mais tarde, se chegasse a surgir.

- Bem, eu... sabes... eu voltei. Se... - Pigarreou. - Sabes... Se ainda me quiseres.

Seguiu-se uma pausa em que o assunto da partida de Ron pareceu erguer-se como um muro entre eles. No entanto, ele estava ali. Ele voltara. Acabara de lhe salvar 
a vida.

Ron baixou o olhar para as mos e pareceu momentaneamente surpreendido ao ver aquilo que empunhava.

- Ah,  verdade, eu trouxe-a - disse ele, algo desnecessariamente, estendendo a espada para Harry a inspeccionar. - Foi por isso que mergulhaste, certo?

306

- Sim - respondeu Harry. - Mas no compreendo. Como  que aqui chegaste? Como  que nos encontraste?

- Longa histria - declarou Ron. - H horas que ando  vossa procura, a floresta  grande, no ? E estava a pensar que teria de dormir debaixo de uma rvore e esperar 
pela manh quando vi aparecer aquele veado, contigo atrs.

- No viste mais ningum?

- No - disse Ron. - Eu...

Mas hesitou, relanceando um olhar a duas rvores que cresciam muito juntas a alguns passos.

- ... pensei, de facto, ter visto qualquer coisa a mexer-se ali, mas ia nessa altura a correr para o lago, porque tu tinhas mergulhado e no voltaras a reaparecer, 
por isso no ia fazer desvios para... eh!

Mas Harry j avanava a passos largos para o lugar indicado por Ron. Os dois carvalhos cresciam muito juntos; havia apenas uma abertura de alguns centmetros entre 
os troncos,  altura dos olhos, um stio ideal para ver sem ser visto. Contudo, o solo em redor no tinha neve e Harry no avistou sinais de pegadas. Voltou para 
o stio onde Ron o aguardava, ainda a segurar a espada e o Horcrux.

- Alguma coisa? - perguntou Ron.

- No - respondeu Harry.

- Ento, como  que a espada foi parar quele lago?

- Quem quer que invocou o Patronus deve t-la l posto. Fitaram ambos a ornamentada espada de prata, cujo punho

cravejado de rubis brilhava suavemente  luz da varinha de Hermione.

- Achas que esta  a verdadeira? - indagou Ron.

- H uma forma de saber, no h? - retorquiu Harry.

O Horcrux continuava a oscilar na mo de Ron. O medalho contorcia-se levemente e Harry percebeu que a coisa que se encontrava l dentro despertara de novo. Pressentira 
a presena da espada e tentara matar Harry para evitar que ele se apoderasse dela. Agora no era altura para longas discusses; agora era o momento de destruir o 
medalho, de uma vez por todas. Harry olhou em redor, erguendo bem alto a varinha de Hermione, e viu o stio: uma pedra achatada  sombra de um pltano.

- Anda da - chamou ele, e foi  frente; depois sacudiu a neve da superfcie da pedra e estendeu a mo para o Horcrux. Contudo, quando Ron lhe ofereceu a espada, 
Harry abanou a cabea.

307

- No, deves ser tu a fazer isto.

- Eu? - exclamou Ron, com ar chocado. - Porqu?

- Porque foste tu quem tirou a espada do lago. Acho que deves ser tu.

No estava a ser amvel nem generoso. To seguramente como soubera que a cora era benigna, sabia que devia ser Ron a empunhar a espada. Dumbledore tinha, pelo menos, 
ensinado qualquer coisa a Harry sobre certos tipos de magia, sobre o incalculvel poder de certos actos.

- Eu vou abri-lo - disse Harry - e tu destri-lo imediatamente, OK? Porque o que quer que esteja l dentro vai dar luta. O pedao do Riddle que havia no dirio tentou 
matar-me.

- Como  que vais abri-lo? - perguntou Ron. Parecia aterrado.

- vou pedir-lhe que se abra, em serpents - explicou Harry. A resposta veio-lhe to facilmente aos lbios que pensou que, l no fundo, sempre a soubera: talvez tivesse 
sido preciso o recente encontro com Nagini para se aperceber disso. Olhou para o "S" sinuoso, cravejado de reluzentes pedras verdes: era fcil visualiz-lo como 
uma minscula serpente, enroscada na pedra fria.

- No! - pediu Ron. - No, no o abras! Estou a falar a srio!

- Por que no? - perguntou Harry. - Vamos livrar-nos desta maldita coisa, h meses...

- No sou capaz, Harry, a srio... faz tu...

- Mas porqu?

- Porque eu reajo mal a essa coisa! - disse Ron, recuando, a afastar-se do medalho pousado na pedra. - No consigo lidar com ela! No estou a desculpar-me pela 
maneira como me portei, Harry, mas isso afecta-me mais que a ti e  Hermione, fazia-me pensar coisas, coisas que eu j andava a pensar realmente, mas tornava tudo 
pior, no sou capaz de explicar, e depois eu tirava-o e ficava outra vez com as ideias claras, e depois tinha de voltar a pr o raio da coisa e... no sou capaz, 
Harry!

Tinha recuado, arrastando a espada e abanando a cabea.

- s capaz, sim - afirmou Harry -, s capaz! Acabaste de recuperar a espada, eu sei que deves ser tu a us-la. Por favor, livra-te disto de uma vez, Ron.

O som do seu nome pareceu actuar como um estimulante. Ron engoliu em seco, e depois, ainda a respirar fundo pelo nariz comprido, avanou de novo para a pedra.

308

- Diz-me quando - pediu ele em voz rouca.

- vou contar at trs - disse Harry, olhando novamente para o medalho, de olhos franzidos, concentrando-se na letra "S", imaginando uma serpente, enquanto o contedo 
do medalho chocalhava como uma barata encurralada. Teria sido fcil apiedar-se, se Harry no sentisse ainda os golpes do pescoo a arder.

- Um... dois... trs... abre-te.

A ltima palavra saiu como uma rosnadela sibilada e as metades douradas do medalho escancararam-se com um leve clique.

Por trs de cada um dos vidros do interior pestanejava um olho vivo, preto e atraente, como haviam sido os de tom Riddle antes de ele os ter tornado escarlates e 
com pupilas reduzidas a fendas.

- Destri-o! - urgiu Harry, segurando firmemente o medalho em cima da pedra.

Ron ergueu a espada com as mos trmulas: a ponta ficou pendente sobre os olhos que giravam freneticamente, e Harry agarrou com fora o medalho, preparando-se, 
imaginando j o sangue a esguichar das metades vazias.

Ento, uma voz saiu, sibilante, do Horcrux.

- Eu vi o teu corao, e ele  meu.

- No o escutes! - disse Harry asperamente. - Destri-o!

- Eu vi os teus sonhos, Ronald Weasley, e vi os teus medos. Tudo o que desejas  possvel, mas tudo o que receias  igualmente possvel. ..

- D-lhe! - gritou Harry; a sua voz ecoou pelas rvores em redor, a ponta da espada tremeu, e Ron continuou a fitar os olhos de Riddle.

- Mal amado, sempre, pela me que ansiava por uma filha... mal amado, agora, pela rapariga que prefere o teu amigo... em segundo lugar, sempre, eternamente eclipsado...

- Ron, destri-o j! - bradou Harry; sentia o medalho a estremecer nas suas mos e receava o que se seguiria. Ron ergueu ainda mais a espada, e ao fazer tal os 
olhos de Riddle faiscaram, escarlates.

Das duas metades do medalho, dos olhos, emergiram, quais bolhas grotescas, as cabeas de Harry e Hermione, estranhamente distorcidas.

Ron soltou um grito de choque e recuou, enquanto as figuras se iam elevando do medalho: primeiro dorsos, depois cinturas, depois pernas, at se erguerem lado a 
lado, como rvores com uma raiz comum, oscilando sobre Ron e o verdadeiro Harry, que retirara os dedos do medalho, incandescente agora e a escaldar.

309

- Ron! - chamou ele, mas o Harry-Riddle falava agora com a voz de Voldemort, e Ron fitava, hipnotizado, o rosto deste.

- Por que  que voltaste? Estvamos melhor sem ti, mais felizes sem ti, satisfeitos com a tua ausncia... rimo-nos da tua estupidez, da tua cobardia, da tua presuno...

- Presuno! - ecoou a Hermione-Riddle, que era mais bela e contudo mais terrvel que a verdadeira Hermione; oscilou, gargalhando, diante de Ron, que parecia aterrado 
mas paralisado, com a espada pendendo, intil, a seu lado. - Quem iria olhar para ti, quem iria alguma vez olhar para ti, comparado com Harry Potter? O que

fizeste tu alguma vez, comparado com O Eleito? O que s tu, comparado com O Rapaz Que Sobreviveu?

- Ron, d-lhe, DESTRI-O! - trovejou Harry, mas Ron no se moveu: tinha os olhos esbugalhados, e neles se reflectiam o Harry-Riddle e a Hermione-Riddle, os cabelos 
ondeando como chamas, os olhos vermelhos brilhantes, as vozes erguidas num dueto maligno.

- A tua me confessou - rosnou o Harry-Riddle, perante o sorriso trocista da Hermione-Riddle - que teria preferido ter-me como filho, teria trocado de bom grado...

- Quem no o preferiria a ele, que mulher te escolheria a ti? Tu no s nada, nada, nada comparado com ele - entoou a Hermione-Riddle, e esticando-se como uma serpente 
enroscou-se em volta do Harry-Riddle, envolvendo-o num abrao apertado; os seus lbios tocaram-se.

No solo, em frente deles, o rosto de Ron espelhou a sua angstia: levantou a espada alto, os braos a tremer.

- Fora, Ron! - gritou Harry.

Ron olhou na direco dele e Harry pensou ver um trao de escarlate nos seus olhos.

- Ron...?

A espada relampejou, e desceu. Harry atirou-se para o lado, ouviu-se um rudo metlico e um longo grito arrastado. Deu meia-volta, escorregando na neve, a varinha 
pronta para se defender, mas no havia nada com que lutar.

As monstruosas verses de si prprio e de Hermione tinham desaparecido: ficara apenas Ron, a segurar a espada frouxamente na mo, fitando os fragmentos despedaados 
do medalho em cima da pedra lisa.

Lentamente, Harry dirigiu-se para ele, sem saber muito bem o que fazer ou dizer. Ron arquejava. J no tinha os olhos vermelhos, mas sim do seu azul normal; e estavam 
hmidos.

310

Harry baixou-se, fingindo no reparar, e pegou no Horcrux quebrado. Ron estilhaara o vidro de ambas as metades: os olhos de Riddle tinham desaparecido e o forro 
de seda manchada do medalho fumegava levemente. A coisa que vivera no Horcrux sumira-se; torturar Ron fora o seu acto final.

A espada retiniu quando Ron a soltou. Este cara de joelhos, com a cabea nos braos. Tremia, mas Harry percebeu que no era de frio. Enfiou o medalho partido no 
bolso, ajoelhou-se ao lado de Ron e pousou-lhe a mo no ombro com muito cuidado. Considerou bom sinal o facto de o amigo no a sacudir.

- Depois de tu partires - disse ele em voz baixa, grato por Ron ter a cara oculta -, ela chorou durante uma semana. Provavelmente mais, s que no queria que eu 
visse. Houve carradas de noites em que nem sequer falmos um com o outro. com a tua partida...

No conseguiu terminar; s agora, que Ron se encontrava ali de novo,  que Harry tomava conscincia perfeita de quanto a sua ausncia lhes custara.

- Ela  como uma irm para mim - prosseguiu ele. - Gosto dela como de uma irm e acho que ela sente o mesmo por mim. Foi sempre assim. Pensava que tu sabias.

Ron no respondeu, mas virou a cara para o outro lado e limpou ruidosamente o nariz  manga. Harry ps-se de novo em p e dirigiu-se para o stio onde se achava 
a enorme mochila de Ron, a alguns metros dali, largada quando ele correra para o lago a fim de impedir Harry de se afogar. P-la s costas e voltou para junto do 
amigo, que se ergueu vacilante  sua aproximao, os olhos ainda vermelhos, mas recomposto.

- Lamento - disse ele em voz rouca. - Lamento ter partido. Sei que fui um... um...

Perscrutou a escurido em redor, como se esperasse ver saltar de l uma palavra suficientemente m para o atacar.

- Acho que esta noite compensaste mais ou menos isso - comentou Harry. - Apanhaste a espada. Acabaste com o Horcrux. Salvaste-me a vida.

- Dito assim, faz-me parecer muito mais fixe do que fui - murmurou Ron.

- Coisas deste gnero parecem sempre mais fixes do que realmente foram - declarou Harry. - Ando h anos a tentar dizer-vos isso.

Avanaram simultaneamente e abraaram-se; Harry apertou com fora as costas do casaco de Ron, ainda ensopado.

311

- E agora - disse Harry, quando se separaram - tudo o que precisamos  de encontrar outra vez a tenda.

Mas isso no foi difcil. Apesar de o passeio com a cora, atravs da floresta s escuras, lhe ter parecido longo, com Ron ao lado, o caminho de regresso afigurou-se-lhe 
surpreendentemente curto. Harry estava ansioso por acordar Hermione, e entrou na tenda com uma excitao crescente, seguido de Ron, que se deixara ficar um pouco 
para trs.

A tenda parecia fantasticamente quente depois do lago e da floresta, iluminada apenas pelas chamas azuladas que ainda serpenteavam de uma taa pousada no cho. Hermione 
dormia profundamente, enroscada debaixo dos cobertores, e s se moveu aps Harry ter pronunciado o seu nome diversas vezes.

- Hermione!

Ela mexeu-se e depois sentou-se rapidamente, afastando o cabelo da cara.

- O que  que aconteceu? Harry? Ests bem?

- Tudo OK, est tudo bem. Mais do que bem, estou ptimo. Est aqui uma pessoa.

- Que queres dizer com isso? Quem...?

Avistou Ron, ali parado a segurar a espada e a pingar para a carpete puda. Harry recuou para um canto mais escuro, tirou a mochila de Ron e tentou fundir-se com 
a lona.

Hermione deslizou do beliche e moveu-se como uma sonmbula na direco de Ron, de olhos fixos na sua cara plida. Parou em frente dele, de lbios entreabertos e 
olhos arregalados. Ron fez um dbil sorriso esperanoso, e semi-ergueu os braos.

Hermione atirou-se para diante e comeou aos murros a todos os pedacinhos dele que conseguia alcanar.

- Ai... au... larga-me! Mas que...? Hermione... AU!

- Seu... grande... idiota Ronald... Weasley!

Sublinhava cada palavra com uma pancada. Ron recuou, protegendo a cabea ao v-la avanar.

- Tu... rastejas... de... volta... at... aqui... aps... semanas... e... semanas... oh, onde est a minha varinha!

Parecia disposta a arranc-la da mo de Harry e este reagiu instintivamente.

- Protego!

O escudo invisvel ergueu-se entre Ron e Hermione: a sua fora f-la cair de costas no cho. Cuspindo o cabelo da boca, voltou a erguer-se de um salto.

312

- Hermione! - pediu Harry. - Calm...

- Calma uma ova! - gritou ela. Nunca ele a vira perder o controlo daquela maneira; parecia completamente louca.

- Devolve-me a minha varinha! Devolve-a!

- Hermione, queres fazer o favor...

- No me digas o que fazer, Harry Potter! - guinchou ela. - Nem te atrevas! Devolve-a j! E TU!

Apontava para Ron, num tom de acusao terrvel: era como uma maldio, e Harry no censurou Ron por recuar vrios passos.

- Eu fui a correr atrs de ti! Chamei-te! Supliquei-te que voltasses!

- Eu sei - disse Ron. - Hermione, lamento, realm...

- Ah, tu lamentas!

Riu-se, uma gargalhada aguda, descontrolada; Ron olhou para Harry  procura de ajuda, mas este limitou-se a fazer uma careta de impotncia.

- Tu voltas aps semanas - semanas - e pensas que vai ficar tudo bem por dizer que lamentas?

- bom, que mais posso eu dizer? - bradou Ron, e Harry sentiu-se satisfeito por ver que ele comeava a dar luta.

- Ah, no sei! - proferiu Hermione, com enorme sarcasmo. - Vasculha os miolos, Ron, s levas uns segundos...

- Hermione - interrompeu Harry, que considerou aquilo um golpe baixo -, ele acaba de salvar a minha...

- No me interessa! - gritou ela. - No me interessa o que ele fez! Semanas e semanas, e tanto quanto ele sabia, ns podamos estar mortos...

- Eu sabia que vocs no estavam mortos! - rugiu Ron, abafando, pela primeira vez, a voz dela, e aproximando-se o mais que podia devido ao Feitio do Escudo Invisvel 
que se erguia entre eles. - O Harry est em todas as pginas do Profeta, na rdio, andam  vossa procura por toda a parte, todos esses rumores e histrias de loucos, 
eu sabia que ouviria logo dizer se vocs tivessem morrido, no sabes o que foi para...

- O que foi para ti?

A voz dela estava agora to esganiada que em breve apenas os morcegos conseguiriam ouvi-la, mas atingira um nvel de indignao que a emudeceu temporariamente, 
e Ron aproveitou a oportunidade.

- Eu quis voltar no mesmo minuto em que Desapareci, mas fui cair no meio de um bando de Raptores, Hermione, e no pude ir a parte alguma!

313

- Um bando de qu? - perguntou Harry, enquanto Hermione se atirava para uma cadeira, com os braos e as pernas to cruzados que parecia improvvel que conseguisse 
desenrosc-los nos prximos anos.

- Raptores - repetiu Ron. - Esto por toda a parte, bandos que tentam obter ouro a apanhar feiticeiros de origem Muggle e traidores de sangue, h uma recompensa 
do Ministrio por cada um que for capturado. Eu ia sozinho, e tenho aspecto de estar em idade escolar, por isso eles ficaram muito excitados, pensaram que eu era 
de origem Muggle e que andava fugido. Tive de pensar depressa para impedir que me arrastassem para o Ministrio.

- O que  que lhes disseste?

- Que era o Stan Shunpike. Foi a primeira pessoa de quem me lembrei.

- E eles acreditaram?

- No eram l muito brilhantes. Um deles era definitivamente meio troll, pelo cheiro ..

Olhou de relance para Hermione, esperando claramente que ela adoasse com aquele pequeno intervalo de humor, mas a sua expresso permaneceu rgida, encimando os 
membros firmemente entrelaados.

- Seja como for, eles discutiram sobre se eu seria ou no o Stan. Foi um bocado pattico, para ser franco, mas eles continuavam a ser cinco e eu s um, e tinham-me 
tirado a varinha. Depois, dois deles envolveram-se numa luta e, enquanto os outros estavam distrados, consegui atingir no estmago o que me segurava, agarrei na 
varinha dele, Desarmei o fulano que tinha a minha, e Desapareci. No o fiz l muito bem, voltei a ser Dividido... - estendeu a mo direita para mostrar duas unhas 
em falta; Hermione ergueu friamente as sobrancelhas - e reapareci a milhas do stio onde vocs se achavam. Quando voltei  margem do rio onde estivramos... vocs 
tinham partido.

- Cus, que histria arrebatadora - comentou Hermione, no tom de voz arrogante que adoptava quando queria magoar. - Deves ter ficado simplesmente aterrado. Entretanto, 
ns fomos a Godrics Hollow e, deixa-me pensar, o que  que aconteceu por l, Harry? Ah, sim, apareceu a serpente do Quem-Ns-Sabemos, que quase nos matou aos dois, 
e depois chegou o prprio Quem-Ns-Sabemos que nos falhou a por um segundo.

- O qu? - exclamou Ron, olhando dela para Harry com ar embasbacado, mas Hermione ignorou-o.

- Imagine-se perder duas unhas, Harry! Isso d-nos toda uma nova perspectiva de sofrimento, no achas?

- Hermione - disse Harry serenamente - o Ron acaba de me salvar a vida

Ela pareceu no o ouvir.

- H, no entanto, uma coisa que eu gostava de saber - continuou ela, fixando os olhos num local cerca de meio metro acima da cabea de Ron. - Exactamente, como  
que tu nos encontraste esta noite? Isto  importante. Desde que saibamos, poderemos certificar-nos de que no somos visitados por mais ningum que no desejemos 
ver.

Ron deitou-lhe um olhar furioso, e depois tirou um pequeno objecto prateado do bolso das calas de ganga.

- com isto.

Ela viu-se obrigada a olhar para Ron se queria ver o que ele lhes estava a mostrar.

- O Apagador? - perguntou Hermione, to surpreendida que se esqueceu do ar frio e ameaador.

- Isto no se limita a acender e apagar luzes - elucidou Ron. - No sei como  que funciona, nem por que  que aconteceu ento e no em qualquer outra altura, porque 
eu tenho desejado regressar desde que me fui embora. Mas estava a ouvir a rdio, muito cedo na manh do dia de Natal, e ouvi... ouvi-te a ti.

Fitava Hermione.

- Ouviste-me na rdio? - perguntou ela, incrdula.

- No, ouvi-te a sair do meu bolso. A tua voz - ergueu de novo o Apagador - saa disto.

- E o que dizia eu ao certo? - indagou Hermione, com um tom entre o cepticismo e a curiosidade.

- O meu nome. "Ron." E disseste... qualquer coisa a respeito de uma varinha...

Hermione corou intensamente. Harry lembrava-se: fora a primeira vez, desde o dia em que Ron partira, que o seu nome tinha sido pronunciado em voz alta por qualquer 
deles; Hermione mencionara-o a respeito da reparao da varinha de Harry.

- Por isso eu tirei-o para fora - continuou Ron, olhando para o Apagador -, e ele no parecia diferente, nem nada, mas eu tinha a certeza de te ter ouvido. Portanto 
liguei-o. E a luz desapareceu do meu quarto, mas apareceu outra luz do lado de fora da minha janela.

315

Ron levantou a mo vazia e apontou para diante, os olhos focados em algo que nem Harry nem Hermione viam.

- Era uma bola de luz, a modos que a pulsar, e azulada, como a luz que se v em volta de um Boto de Transporte, sabem?

- Sim - anuram Harry e Hermione em coro, automaticamente.

- Percebi que chegara a altura - disse Ron. - Peguei na minha tralha, arrumei-a na mochila e sa para o jardim.

"A pequena bola de luz estava l a pairar,  minha espera, e quando eu sa saltitou um pouco para diante, e eu segui-a para trs do barraco e depois ela... bem, 
ela enfiou-se dentro de mim.

- O qu? - perguntou Harry, certo de no ter ouvido bem.

- Veio assim como que a flutuar em direco a mim - Ron ilustrou o movimento com o indicador livre -, direita ao meu peito, e depois... entrou a direito. Ficou aqui 
- tocou num ponto perto do corao -, eu sentia-a, estava quente. E, uma vez dentro de mim, eu soube o que fazer, soube que ela me levaria para onde eu precisasse 
de ir. Portanto, Desapareci e surgi na encosta de um monte. Havia neve por toda a parte...

- Ns estivemos l - concordou Harry. - Passmos l duas noites e, na segunda, eu levei a noite a pensar que ouvia algum a mover-se por ali no escuro e a chamar!

- , pois, era eu - disse Ron. - Mas os vossos encantamentos protectores funcionam mesmo, porque no consegui ver-vos nem ouvir-vos. Mas tinha a certeza de que estavam 
por ali, por isso acabei por me enfiar no saco-cama e esperei que um de vocs aparecesse. Pensei que teriam de se mostrar quando empacotassem a tenda.

- Na verdade, no - explicou Hermione. - Temos andado a Desaparecer debaixo do Manto da Invisibilidade como precauo suplementar. E partimos francamente cedo, porque, 
como disse o Harry, tnhamos ouvido algum a andar por ali.

- Bem, eu fiquei o dia inteiro nessa encosta - prosseguiu Ron. - Sempre  espera de que vocs aparecessem. Mas quando comeou a escurecer, percebi que deviam ter-me 
escapado, por isso voltei a ligar o Apagador, a luz azul surgiu e entrou em mim, e eu Desapareci e cheguei aqui, a esta floresta. Continuava a no conseguir ver-vos, 
portanto s podia esperar que um de vocs acabasse por se mostrar ... e foi o que o Harry fez. Bem, primeiro vi a cora, obviamente.

316

- Viste o qu? - perguntou Hermione em tom vivo.

Eles explicaram o que acontecera e,  medida que a histria da cora prateada e da espada dentro do lago se ia desenrolando, Hermione olhava de um para o outro de 
testa franzida, num esforo de concentrao to forte que se esqueceu de conservar os membros entrelaados.

- Mas isso foi com certeza um Patronus! - exclamou ela. - No conseguiram ver quem  que o estava a invocar? No viram ningum? E ela conduziu-vos  espada! No 
posso crer! E depois, o que  que aconteceu?

Ron explicou que observara Harry a saltar para o lago e esperara v-lo regressar  superfcie; que percebera que alguma coisa correra mal, mergulhara e salvara Harry, 
e que depois voltara para ir buscar a espada. Chegou at  abertura do medalho, mas a hesitou e Harry concluiu:

- ... e o Ron destruiu-o com a espada.

- E ele... ele foi-se? Assim, sem mais nem menos? - murmurou ela.

- Bem, ele... ele gritou - disse Harry, olhando de relance para Ron. - Toma.

Atirou o medalho para o colo dela, que lhe pegou cautelosamente e examinou os vidros fendidos.

Achando que era finalmente seguro, Harry removeu o Feitio do Escudo Invisvel com um gesto da varinha de Hermione e virou-se para Ron.

- No disseste que te safaste dos Raptores com uma varinha a mais?

- O qu? - perguntou Ron, que estava a ver Hermione examinar o medalho. - Oh... oh, pois.

Abriu um dos fechos da mochila e tirou da bolsa uma varinha curta e preta. - Est aqui. Achei que dava sempre jeito ter uma de reserva.

- E tinhas razo - comentou Harry, estendendo a mo. - A minha partiu-se.

- 'Ts a gozar? - exclamou Ron, mas nessa altura Hermione levantou-se e ele pareceu novamente apreensivo.

Hermione meteu o Horcrux destrudo na mala de missangas, e depois subiu para o seu beliche e instalou-se sem mais uma palavra.

Ron passou a nova varinha a Harry.

- Acho que no te safaste mal - murmurou Harry.

317

- E - concordou Ron. - Podia ter sido pior. Lembras-te de quando ela me lanou aqueles pssaros?

- Ainda no exclu essa hiptese - a voz de Hermione saiu abafada de debaixo dos cobertores, mas Harry viu Ron sorrir levemente ao tirar da mochila o pijama castanho.

XX

XENOPHILIUS LOVEGOOD

318

Harry no esperara que a clera de Hermione se evaporasse durante a noite, portanto no ficou surpreendido por, na manh seguinte, ela comunicar principalmente por 
meio de olhares assassinos e silncios marcados. Ron respondeu mantendo um comportamento invulgarmente sbrio na sua presena, como sinal exterior de remorsos persistentes. 
De facto, quando estavam os trs juntos, Harry sentia-se como o nico no enlutado num funeral com poucos acompanhantes. No entanto, durante os poucos momentos que 
passou sozinho com Harry (para irem buscar gua e procurar cogumelos no mato), Ron tornava-se despudoradamente jovial.

- Algum nos ajudou - repetia ele. - Algum enviou aquela cora. H algum do nosso lado. Um Horcrux a menos, p!

Animados pela destruio do medalho, comearam a debater possveis localizaes dos outros Horcruxes e, embora anteriormente tivessem discutido o assunto exaustivamente, 
Harry sentia-se optimista, certo de que quela se seguiriam mais descobertas. O amuo de Hermione no conseguia perturbar-lhe a boa disposio: a sbita reviravolta 
da sorte, o aparecimento da cora misteriosa, a recuperao da espada de Gryffindor e, acima de tudo, o regresso de Ron, tornavam Harry to feliz que lhe era difcil 
manter um ar carrancudo.

Ao final da tarde, ele e Ron voltaram a escapar  presena funesta de Hermione e, a pretexto de vasculharem as sebes despidas em busca de amoras inexistentes, prosseguiram 
a sua troca de novidades. Harry conseguira, finalmente, contar a Ron todas as suas diversas deambulaes com Hermione, at  histria completa do que acontecera 
em Godric's Hollow; Ron comeava a agora a pr Harry a par de tudo o que descobrira acerca do mundo dos feiticeiros durante as semanas em que estivera ausente.

- ... e como  que vocs souberam do Tabu? - perguntou ele a Harry, depois de lhe ter falado das muitas tentativas deseses

319

peradas de feiticeiros de origem Muggle para se evadirem do Ministrio.

- Do qu?

- Tu e a Hermione deixaram de dizer o nome do QuemNs-Sabemos!

- Ah, sim. Bem, foi apenas um mau hbito que adquirimos

- respondeu Harry. - Mas eu no tenho qualquer problema em lhe chamar V..

- NO! - rugiu Ron, levando Harry a saltar para o meio da sebe e Hermione (de nariz enterrado num livro  entrada da tenda) a fit-los de sobrolho carregado. - Desculpa 
- pediu Ron, ajudando Harry a libertar-se das silvas -, mas o nome foi enfeitiado, Harry,  assim que eles descobrem as pessoas! Usar o nome dele quebra os encantamentos 
protectores, provoca uma perturbao mgica qualquer... foi assim que nos descobriram em Tottenham Court Road!

- Porque ns usmos o nome dele?

- Exacto! Tens de lhes reconhecer o mrito, faz sentido. S as pessoas que se lhe opunham verdadeiramente, como o Dumbledore,  que se atreviam a us-lo. Agora puseram 
um Tabu sobre ele, todos os que o pronunciarem so detectveis... uma maneira rpida e fcil de descobrir membros da Ordem! Quase apanharam o Kingsley...

- 'Ts a gozar?

- Srio, um grupo de Devoradores da Morte encurralou-o, disse o Bill, mas ele lutou e safou-se. Anda agora fugido, tal como ns. - Pensativo, Ron coou o queixo 
com a ponta da varinha.

- No achas que o Kingsley possa ter mandado aquela cora?

- O Patronus dele  um lince, vimo-lo no casamento, lembras-te?

- Ah, pois...

Andaram um pouco mais ao longo da sebe, afastando-se da tenda e de Hermione.

- Harry... no achas que possa ter sido o Dumbledore?

- O Dumbledore o qu?

Ron pareceu levemente embaraado, mas disse em voz baixa:

- O Dumbledore... a cora? Quer dizer - observava Harry pelo canto do olho -, foi ele o ltimo a possuir a espada verdadeira, no foi?

Harry no se riu de Ron, porque compreendeu perfeitamente a nsia subjacente quela pergunta. A ideia de que Dumbledore

tinha conseguido voltar para junto deles, de que os protegia, teria sido indizivelmente reconfortante. Abanou a cabea.

- O Dumbledore morreu - afirmou ele. - Eu vi isso acontecer, vi o corpo. Partiu definitivamente. Alis, o Patronus dele era uma fnix, no uma cora.

- Mas os Patronus podem mudar, no podem? - insistiu Ron. - O da Tonks mudou, no foi?

- Sim, mas se o Dumbledore estivesse vivo, por que no se mostraria? Por que no nos entregaria simplesmente a espada?

- Sei l - respondeu Ron. - Pela mesma razo por que no ta deu enquanto estava vivo? Pela mesma razo por que te deixou uma velha Snitch e  Hermione um livro de 
histrias infantis?

- E qual ? - perguntou Harry, virando-se para olhar Ron bem de frente, ansioso pela resposta.

- No sei - disse Ron. - s vezes pensava, quando me sentia um bocado em baixo, que ele se estava a divertir ou... que apenas queria tornar as coisas mais difceis. 
Mas agora j no penso assim. Ele sabia o que estava a fazer quando me deu o Apagador, no sabia? Ele... bem - as suas orelhas tingiram-se de um vermelho vivo e 
Ron concentrou-se num tufo de erva a seus ps, que vasculhou com a biqueira do sapato -, ele deve ter sabido que eu vos abandonaria.

- No - corrigiu-o Harry. - Ele deve ter sabido que tu quererias sempre regressar.

Ron fez um ar grato, mas ainda constrangido. Em parte para mudar de assunto, Harry disse: - Por falar no Dumbledore, sabes o que a Skeeter escreveu a respeito dele?

- Ah, sim - respondeu logo Ron -, as pessoas tm falado imenso disso. Claro que, se as coisas fossem diferentes, teria sido uma notcia de estrondo, o Dumbledore 
e o Grindelwald compinchas, mas assim  apenas motivo de risota para os que no gostavam do Dumbledore, e uma espcie de bofetada na cara para todos os que o consideravam 
um tipo to porreiro. Pessoalmente, no acho nada de especial. Ele era muito novo quando...

- Tinha a nossa idade - retorquiu Harry, tal como fizera com Hermione, e algo na sua expresso levou Ron a decidir no insistir no assunto.

No meio de uma teia gelada, entre as silvas, via-se uma grande aranha. Harry apontou-lhe a varinha que Ron lhe dera na noite anterior, e que Hermione condescendera 
entretanto em examinar, declarando que era de abrunheiro.

320

321

- Engorgio.

A aranha estremeceu um pouco, e balouou levemente na teia. Harry tentou de novo. Dessa vez a aranha cresceu um bocado.

- Pra com isso - disse Ron vivamente. - Lamento ter dito que o Dumbledore era novo, OK?

Harry esquecera-se da averso de Ron a aranhas.

- Desculpa... reducio.

A aranha no encolheu. Harry fitou a varinha de abrunheiro. Todos os insignificantes encantamentos que lanara com ela nesse dia tinham parecido menos potentes que 
os realizados com a sua varinha de fnix. Esta dava-lhe uma sensao de estranheza imposta, como se tivesse a mo de outra pessoa cosida  extremidade do seu brao.

- S precisas de prtica - disse Hermione, que se aproximara silenciosamente por trs deles, e ficara a observar, ansiosa, enquanto Harry tentava aumentar e diminuir 
a aranha. -  tudo uma questo de confiana, Harry.

Ele sabia por que motivo ela desejava ver tudo bem: ainda se sentia culpada por lhe ter partido a varinha. Mordeu os lbios para no dar a resposta que lhe apetecia: 
ficasse ela com a varinha de abrunheiro, se achava que no fazia diferena, e ele ficaria antes com a dela. Contudo, desejoso de ver todos amigos outra vez, concordou; 
mas quando Ron dirigiu um sorriso hesitante a Hermione, ela afastou-se e sumiu-se uma vez mais atrs do livro.

Ao cair da noite regressaram os trs  tenda, e Harry encarregou-se do primeiro turno de vigia. Sentado  entrada, tentou fazer a varinha de abrunheiro levitar pequenas 
pedras a seus ps, mas a sua magia parecia ainda mais desastrada e menos potente que antes. Hermione estava deitada no seu beliche a ler, e Ron, aps vrios relances 
nervosos na direco dela, tirara da mochila um pequeno rdio de madeira e comeara a tentar sintoniz-lo.

- H um programa - disse ele a Harry, em voz baixa - que transmite as notcias como realmente so. Todos os outros esto do lado do Quem-Ns-Sabemos e seguem as 
directrizes do Ministrio, mas este... espera s at ouvires,  formidvel. S que no podem emitir todas as noites, tm de mudar continuamente de stio para o caso 
de sofrerem uma busca, e  preciso uma palavra-chave para o sintonizar... o problema  que eu falhei a ltima...

Tamborilou levemente com a varinha no cimo do rdio, murmurando palavras ao acaso. Lanou diversos olhares dissimulados a Hermione, receando obviamente uma exploso 
irritada, mas ela

322

ligou-lhe tanto como se ele ali no estivesse. Durante cerca de dez minutos, Ron tamborilou e murmurou, Hermione desfolhou as pginas do seu livro e Harry continuou 
a praticar com a varinha de abrunheiro.

Por fim, Hermione desceu do seu beliche e Ron cessou imediatamente de tamborilar.

- Se isto te incomoda, eu paro! - ofereceu-se ele nervosamente.

Hermione nem se dignou responder, e aproximou-se de Harry.

- Temos de conversar - comeou ela.

Ele olhou para o livro que ela ainda apertava. Era A Vida e as Mentiras de Albus Dumbledore.

- Que foi? - perguntou, apreensivo. Passou-lhe pela cabea que houvesse ali um captulo a seu respeito; no tinha a certeza de conseguir aguentar ouvir a verso 
de Rita acerca do seu relacionamento com Dumbledore. A resposta de Hermione, todavia, foi totalmente inesperada.

- Quero ir visitar o Xenophilius Lovegood. Ele fitou-a, atnito.

- O qu?

- O Xenophilius Lovegood. O pai da Luna. Quero ir falar com ele!

- Ha... porqu?

Ela respirou fundo, como que a preparar-se e disse: - Por causa daquela marca, a marca em Beedle, o Bardo. Olha para isto!

Enfiou A Vida e as Mentiras de Albus Dumbledore debaixo dos olhos do renitente Harry e ele viu uma fotografia do original da carta que Dumbledore escrevera a Grindelwald, 
com a familiar letra fina e inclinada do Director. Detestou ver a prova acabada de que Dumbledore escrevera, de facto, aquelas palavras, que no tinham sido inveno 
de Rita.

- A assinatura - insistiu Hermione. - Olha para a assinatura, Harry!

Obedeceu. Por momentos no percebeu ao que ela se referia, mas, olhando mais atentamente com ajuda da varinha iluminada, viu que Dumbledore substitura o "A" de 
Albus por uma minscula verso da mesma marca triangular inscrita em Os Contos de Beedle, o Bardo.

- Ha... o que esto vocs... ? - indagou Ron, hesitante; mas Hermione emudeceu-o com um olhar e virou-se de novo para Harry.

323

- Est sempre a aparecer-nos, no ? - observou ela. - Eu se: que o Viktor disse que era a marca do Grmdelwald, mas encontrava-se indiscutivelmente naquela velha 
campa em Godrics's Hollow, e as datas da lpide so muito anteriores ao aparecimento do Grmdelwald! E agora isto! Ora ns no podemos perguntar ao Dumbledore nem 
ao Grmdelwald o seu significado - nem sequer sei se o Grmdelwald ainda  vivo - mas podemos perguntar a Mr. Lovegood. Ele usava este smbolo no casamento. Tenho 
a certeza de que  importante, Harry!

Harry no respondeu imediatamente. Fitou o rosto intenso e ansioso dela e depois, pensativo, a escurido em redor. Aps uma longa pausa, disse - Hermione, ns no 
queremos outro Godrics Hollow. Convencemo-nos de que tnhamos de l ir e...

- Mas isto est sempre a aparecer, Harry! O Dumbledore deixou-me Os Contos de Beedle, o Bardo, como  que sabes que no era para ns procurarmos o significado do 
smbolo?

- L vamos ns outra vez! - Harry sentia-se algo exasperado. - Continuamos a tentar convencer-nos de que o Dumbledore nos deixou sinais secretos e pistas...

- O Apagador revelou-se muito til - mtrometeu-se Ron. - Eu acho que a Hermione tem razo, acho que devamos ir falar com o Lovegood.

Harry deitou-lhe um olhar mal-humorado Estava certo de que o apoio de Ron a Hermione no tinha nada a ver com o desejo de saber o significado da runa triangular.

- No ser como em Godrics Hollow - acrescentou Ron -, o Lovegood est do teu lado, Harry, A Voz Delirante tem-te apoiado sempre, continua a dizer s pessoas que 
tm de te ajudar!

- Tenho a certeza de que isto  importante! - repetiu Hermione em tom veemente.

- Mas no achas que, se fosse, o Dumbledore me teria falado disso antes de morrer?

- Talvez... talvez seja uma coisa que tens de descobrir por ti prprio - sugeriu Hermione, com o leve ar de quem se agarra a qualquer possibilidade.

-  - assentiu Ron, adulador -, faz sentido.

- No, no faz - retorquiu Hermione asperamente -, mas eu continuo a pensar que devamos ir falar com Mr. Lovegood. Um smbolo que liga o Dumbledore, o Grmdelwald 
e Godrics's Hollow? Harry, tenho a certeza de que devamos saber o que isto !

324

- Eu c acho que devamos votar - props Ron. - Quem  a favor de ir falar com o Lovegood...

A mo dele disparou para o ar ainda antes da de Hermione, cujos lbios tremiam suspeitamente ao erguer a sua.

- Foste vencido, Harry, lamento - declarou Ron, dando-lhe uma palmadmha nas costas.

- Belo - comentou Harry, entre divertido e irritado. - Mas, depois de falarmos com o Lovegood, vamos tentar descobrir mais Horcruxes, certo? E j agora, onde  que 
vivem os Lovegood? Algum de vocs sabe'

- Sim, no  muito longe da minha casa - afirmou Ron. - No sei exactamente onde, mas a me e o pai apontam sempre para os montes quando os mencionam. No devem 
ser difceis de encontrar.

Depois de Hermione ter voltado para o seu beliche, Harry baixou a voz.

- Tu s concordaste para tentar voltar a cair nas boas graas dela.

- No amor e na guerra, vale tudo - disse Ron, alegremente -, e isto  um bocado de ambos. Anima-te, so as frias de Natal, a Luna vai estar em casa!

Tinham uma excelente vista sobre a vila de Ottery St. Catchpole da colma ventosa para onde Desapareceram na manh seguinte Do seu elevado ponto de observao, a 
vila parecia uma coleco de casas de boneca sob os longos raios de sol oblquos que se derramavam sobre a terra pelas brechas entre as nuvens. Ficaram um ou dois 
minutos a olhar na direco d'A Toca, com as mos a proteger os olhos, mas a nica coisa que avistavam eram as altas sebes e as rvores do pomar, que protegiam a 
pequena casa enviesada dos olhos dos Muggles.

-  esquisito, estar to perto e no ir v-los - observou Ron.

- Bem, no  que no tenhas acabado de os ver. Estiveste l pelo Natal - comentou Hermione friamente.

- Eu no estive n'A Toca! - exclamou Ron, soltando uma gargalhada incrdula. - Acham que eu ia voltar para l e contar a todos eles que vos tinha abandonado? Pois, 
o Fred e o George deviam reagir optimamente. E a Ginny, essa teria sido extremamente compreensiva.

- Ento, onde  que estiveste? - perguntou Hermione, surpreendida.

325

- Na casa nova do Bill e da Fleur. A Casa das Conchas. O Bill foi sempre decente comigo. Ele... no ficou propriamente impressionado quando soube o que eu fizera, 
mas no repisou o assunto. Viu que eu estava realmente arrependido. Ningum do resto da famlia sabe que eu l estive. O Bill disse  me que ele e a Fleur no iam 
a casa pelo Natal porque o queriam passar sozinhos Sabem, primeiras frias desde que se casaram. No creio que a Fleur se tenha importado. Sabem como ela detesta 
a Celestina Warbeck.

Ron voltou costas  Toca.

- Vamos tentar dali de cima - sugeriu ele, avanando  frente para o cume do monte

Caminharam durante algumas horas, com Harry oculto pelo Manto da Invisibihdade por insistncia de Hermione A cadeia de montes baixos parecia ser desabitada, com 
excepo de uma casinha com ar deserto.

- Achas que ser a deles e foram passar o Natal fora? - indagou Hermione, espreitando pela janela para uma pequena cozinha impecvel, com gernios no peitoril. Ron 
fungou.

- Olha, tenho c a sensao de que basta olhar pela janela da cozinha dos Lovegood para sabermos quem l vive. Vamos tentar a prxima srie de montes.

Portanto Desapareceram alguns quilmetros mais para norte.

- Aha! - gritou Ron, enquanto o vento lhes fustigava os cabelos e os mantos. Apontava para cima, para o cume do monte em que haviam surgido, onde se erguia verticalmente 
contra o cu uma casa de aspecto estranhssimo, um grande cilindro preto, com uma lua fantasmagrica suspensa l atrs, no cu vespertino. - Aquilo tem de ser a 
casa da Luna, quem mais viveria num lugar assim? Parece uma gralha gigantesca!

- No se parece nada com um pssaro - contraps Hermione, que fitava a torre de testa franzida.

- Eu referia-me a uma torre de xadrez. - elucidou Ron.

Sendo possuidor das pernas mais compridas, Ron foi o primeiro a chegar ao cimo do monte. Quando Harry e Hermione o alcanaram, ofegantes & a comprimir com as mos 
as pontadas de dor de burro, encontraram-no com um largo sorriso.

5 No ongmal "rook", que tanto pode significar "gralha", como uma pea de xadrez, a torre (NT)

326

-  a deles - disse Ron. - Olhem.

Trs tabuletas pintadas  mo haviam sido pregadas num porto desengonado. A primeira dizia, "A Voz Delirante Editor: X Lovegood.", a segunda, "Colha o seu prprio 
Azevinho", e a terceira, "Afaste-se das Ameixas Dirigveis."

O porto rangeu quando o abriram. O caminho em ziguezague, que conduzia  porta de entrada, achava-se repleto de uma variedade de estranhas plantas, incluindo um 
arbusto cheio dos frutos alaranjados, com feitio de rabanetes, que Luna usava por vezes como brincos. Harry julgou reconhecer um Silvirrio e passou ao largo do 
cepo mirrado. Duas velhas rvores de mas cidas, dobradas pelo vento, despidas de folhas, mas ainda pesadas de frutos vermelhos do tamanho de morangos, e coroas 
farfalhudas de azevinho de bagas brancas, faziam sentinela de cada lado da porta. Uma pequena coruja, de cabea levemente achatada, tipo falco, espreitou-os de 
um dos ramos.

-  melhor tirares o Manto da Invisibilidade, Harry - aconselhou Hermione -,  a ti que Mr Lovegood deseja ajudar e no a ns.

Harry seguiu a sugesto e entregou-lhe o Manto para que o guardasse na mala de rrussangas. Depois ela bateu trs vezes na pesada porta negra, cravejada de pregos 
de ferro e com um batente em forma de guia.

Decorreram uns dez segundos at a porta se escancarar e surgir Xenophihus Lovegood, descalo e vestindo algo que se assemelhava a uma camisa de noite manchada. O 
seu cabelo branco e fino apresentava-se sujo e revolto. Em comparao, o seu aspecto no casamento de Bill e Fleur fora absolutamente garboso.

- O qu? O que ? Quem so vocs? O que  que querem? - gritou ele em voz esganiada e rabugenta, olhando primeiro para Hermione, depois para Ron, e finalmente para 
Harry, perante o qual abriu a boca, formando um "O" perfeito e cmico.

- Ol, Mr. Lovegood - cumprimentou Harry, estendendo a mo. - Sou o Harry, o Harry Potter.

Xenophihus no aceitou a mo de Harry, embora o seu olho que no apontava para o nariz se dirigisse de imediato para a cicatriz da testa de Harry.

- Podemos entrar? - indagou Harry. - Gostaramos de perguntar-lhe uma coisa.

- Eu... eu no tenho a certeza de que isso seja prudente - sussurrou Xenophihus. Engoliu e lanou um breve olhar em redor

327

do jardim. - Que grande choque... palavra . eu... eu lamento mas no acho realmente que deva...

- No demora muito - insistiu Harry, ligeiramente desapontado por aquela recepo nada calorosa.

- Eu. . oh, est bem, ento. Entrem, depressa. Depressa! Mal tinham acabado de transpor a porta j Xenophihus a

fechava atrs deles. Encontraram-se na cozinha mais estranha que Harry j vira. A diviso era completamente circular, de forma que a sensao era de se estar dentro 
de um gigantesco pimenteiro. Tudo era curvo para se ajustar s paredes: o fogo, o lava-louas e os armrios, e tinha sido tudo pintado com flores, insectos e pssaros 
em fortes cores primrias. Harry julgou reconhecer o estilo de Luna: o efeito, num espao to acanhado, era algo avassalador. No meio da sala, uma escada de caracol 
de ferro forjado conduzia aos nveis superiores. De cima das suas cabeas vinha uma srie de baques e pancadas, e Harry perguntou-se o que estaria Luna a fazer.

-  melhor subirem - convidou Xenophihus, que foi  frente, ainda com ar extremamente constrangido.

A diviso de cima parecia ser uma combinao de sala com oficina, e, assim sendo, encontrava-se ainda mais entulhada que a cozinha. Embora muito mais pequena, e 
totalmente redonda, assemelhava-se de certo modo  Sala das Necessidades na inesquecvel ocasio em que se transformara num gigantesco labirinto, formado por sculos 
de objectos escondidos. Havia pilhas atrs de pilhas de livros e jornais em todas as superfcies. Do tecto pendiam delicados modelos de criaturas que Harry no reconheceu, 
todos a bater as asas ou a fecharem as queixadas

Luna no estava ali: a coisa que fazia a tal algazarra era um objecto de madeira, repleto de rodas e engrenagens a girarem magicamente. Parecia a bizarra descendncia 
de uma bancada de trabalho e um conjunto de prateleiras velhas, mas, aps alguns instantes, Harry deduziu que se tratava de uma prensa antiquada, dado o facto de 
estar a cuspir exemplares de A Voz Delirante.

- com licena - pediu Xenophilius e, dirigindo-se  mquina, extraiu uma toalha suja de debaixo de inmeros livros e jornais, que caram todos ao cho, e atirou-a 
para cima da prensa, abafando levemente o ruidoso mecanismo. Depois, virou-se para Harry.

- Por que  que vieram aqui?

Antes de Harry poder falar, contudo, Hermione soltou um pequeno grito de choque.

328

- Mr. Lovegood... o que  aquilo?

Apontava para um enorme chifre cinzento, retorcido, no muito diferente do de um unicrnio, que se encontrava montado na parede, projectando-se um bom pedao pela 
sala.

-  o chifre de um Snorkack de Chifres Amarrotados - respondeu Xenophilius.

- No, no ! - contrariou Hermione.

- Hermione - murmurou Harry, embaraado -, este no  o momento...

- Mas, Harry, aquilo  um chifre de Erumpent! E Material Comerciahzvel Classe B e  extremamente perigoso t-lo em casa!

- Como  que sabes que  um chifre de Erumpent? - indagou Ron, afastando-se o mais depressa que lhe foi possvel, dada a extrema barafunda da sala.

- H uma descrio em Monstros Fantsticos e Onde Encontr-los! Mr. Lovegood, tem de se livrar dele imediatamente, no sabe que pode explodir ao mais pequeno toque?

- O Snorkack de Chifres Amarrotados  uma criatura tmida e altamente mgica - disse Xenophilius pausadamente, uma expresso obstinada no rosto - e o seu chifre...

- Mr. Lovegood, eu reconheo as marcas estriadas em volta da base, aquilo  um chifre de Erumpent e  incrivelmente perigoso... no sei onde o arranjou...

- Comprei-o - declarou Xenophilius em tom dogmtico - h duas semanas, a um jovem feiticeiro encantador que conhecia o meu interesse pelos delicados Snorkacks. Foi 
uma surpresa de Natal para a minha Luna. E agora - rematou ele, virando-se para Harry - exactamente o que o traz por c, Mr. Potter?

- Precisamos que nos ajude - retorquiu Harry, antes de Hermione poder recomear.

- Ah - fez Xenophilius. - Ajuda. Hum... - O seu olho bom dirigiu-se de novo para a cicatriz de Harry. Parecia simultaneamente aterrado e hipnotizado. - Sim. O caso 
 que... ajudar Harry Potter...  bastante perigoso. .

- No  o senhor que passa a vida a dizer a toda a gente que o nosso primeiro dever  ajudar o Harry? - observou Ron - Nesse seu jornal?

Xenophilius relanceou um olhar por cima do ombro para a prensa oculta, que continuava a emitir rudos vrios por baixo da toalha.

329

- Ha... sim, eu expressei essa opinio. Contudo...

- ... isso  vlido para todos os outros, menos para si pessoalmente? - comentou Ron.

Xenophilius no respondeu. Engolia constantemente em seco, os olhos percorrendo-os vivamente aos trs. Harry teve a impresso de que ele travava uma dolorosa luta 
interior.

- Onde est a Luna? - perguntou Hermione. - Vamos ver o que ela pensa.

Xenophilius susteve a respirao e pareceu estar a revestir-se de coragem. Por fim, em voz trmula, praticamente inaudvel acima do rudo da prensa, disse: - A Luna 
est l em baixo no ribeiro, a pescar Plimpies de gua Doce. Ela... ela vai gostar de vos ver. Eu vou cham-la e depois... sim, muito bem. Tentarei ajudar-vos.

Sumiu-se pela escada de caracol abaixo e eles ouviram a porta de entrada abrir e fechar. Entreolharam-se.

- Velhadas cobarde - exclamou Ron. - A Luna tem dez vezes mais coragem.

- Provavelmente preocupa-se com o que lhes possa acontecer, se os Devoradores da Morte descobrirem que eu aqui estive - disse Harry.

- Bem, eu concordo com o Ron - declarou Hermione. - Que horrvel velho hipcrita, a dizer a toda a gente para te ajudar e depois a tentar esquivar-se. E faz favor, 
v se te mantns longe desse chifre.

Harry foi at  janela do outro lado da sala. Avistou um ribeiro, uma faixa estreita e reluzente l muito em baixo, na base do monte. Estavam muito alto; um pssaro 
passou pela janela, enquanto ele olhava na direco d'A Toca, agora invisvel por trs de outra cadeia de montes. Ginny encontrava-se ali, algures. Desde o casamento 
de Bill e Fleur que no estavam to perto um do outro como naquele momento, mas ela no fazia ideia de que ele tinha os olhos fixos na sua direco, a pensar nela. 
Supunha que deveria sentir-se satisfeito por isso; todos aqueles com quem ele entrava em contacto ficavam em perigo, a atitude de Xenophilius bem o demonstrava.

Afastou-se da janela e o seu olhar tombou sobre outro objecto esquisito, pousado no entulhado aparador curvo: um busto de pedra de uma feiticeira, bela mas de ar 
austero, com um toucado extremamente bizarro. Dos lados, saam duas coisas semelhantes a cometas acsticas, douradas e curvas. Havia um minsculo par de asas azuis 
reluzentes, presas a uma tira de couro que lhe passava

330

pelo topo da cabea, enquanto um dos rabanetes cor de laranja fora colado a uma segunda tira em redor da testa.

- Olhem para isto - chamou Harry.

- Deslumbrante - comentou Ron. - Admira que ele no o tenha levado ao casamento.

Ouviram a porta fechar-se e, momentos depois, Xenophilius voltou a subir a escada at  sala, as pernas magras enfiadas agora em botas de borracha, transportando 
uma bandeja com chvenas de ch desirmanadas e um bule a fumegar.

- Ah, descobriram a minha inveno preferida - observou ele, enfiando a bandeja nos braos de Hermione e indo juntar
Harry ao lado da esttua. - Adaptada, muito adequada
- se a

mente,  cabea da bela Rowena Ravenclaw. Uma inteligncia extraordinria  o maior tesouro da Humanidade!

Indicou os objectos semelhantes a cometas acsticas.

- Isto so os sifes Wrackspurt... para remover todas as fontes de distraco da rea circundante do pensador. Aqui - apontou as asas minsculas - um propulsor Billywig, 
para induzir um estado de esprito elevado. Finalmente - apontou para o rabanete laranja - a Ameixa Dirigvel, para intensificar a capacidade de aceitar o extraordinrio.

Xenophilius voltou em largas passadas para junto do tabuleiro de ch, que Hermione conseguira equilibrar, precariamente, numa das superlotadas mesas de apoio.

- Posso oferecer-vos a todos uma infuso de razes de Gurdy? - perguntou Xenophilius. - Somos ns mesmos que a preparamos. - Comeando a servir a bebida, de um roxo 
to carregado como sumo de beterraba, acrescentou: - A Luna est l para baixo, do outro lado da Ponte do Fundo, e ficou muito excitada por vocs se encontrarem 
c. No deve demorar muito, j apanhou Plimpies quase suficientes para fazer sopa para todos. Sentem-se e sirvam-se de acar.

- E agora - tirou uma oscilante pilha de jornais de um cadeiro e sentou-se, cruzando as pernas enfiadas nas botas - em que posso ajud-lo, Mr. Potter?

- Bem - comeou Harry, lanando um olhar a Hermione, que acenou encorajadoramente -,  sobre aquele smbolo que o senhor tinha ao pescoo no casamento do Bill e 
da Fleur, Mr. Lovegood. Gostaramos de saber o seu significado.

Xenophilius ergueu as sobrancelhas.

- Refere-se ao sinal dos Talisms da Morte?

331

XXI

O CONTO DOS TRS IRMOS

Harry virou-se e olhou para Ron e Hermione; tambm nenhum deles parecia ter entendido o que Xenophilius dissera.

- Os Talisms da Morte?

- Exacto - confirmou Xenophilius. - Nunca ouviram falar deles? No me admiro. So muito raros os feiticeiros que acreditam. Vejam aquele jovem cabea-dura que estava 
no casamento do seu irmo - acenou na direco de Ron - e me atacou por exibir o smbolo de um famoso feiticeiro Negro! Que ignorncia! No h nada de Negro nos 
Talisms... pelo menos nesse sentido grosseiro. A pessoa usa simplesmente o smbolo para se revelar a outros crentes, na esperana de que eles a possam ajudar na 
Demanda.

Mexeu os diversos torres de acar da sua infuso de razes de Gurdy e bebeu um pouco.

- Lamento - disse Harry. - Continuo a no entender. Por delicadeza, bebeu tambm um gole da sua chvena e quase

se engasgava: aquilo era repugnante, como se algum tivesse liquidificado Feijes de Todos os Sabores com sabor a ranho.

- Bem, sabe, os crentes procuram os Talisms da Morte - explicou Xenophilius, fazendo estalar ao de leve os lbios, aparentemente deleitado com a sua infuso de 
razes de Gurdy.

- Mas o que so os Talisms da Morte? - perguntou Hermione.

Xenophilius afastou a chvena vazia.

- Presumo que todos conhecem bem O Conto dos Trs Irmos?

Harry respondeu "No", mas Ron e Hermione disseram ambos "Sim".

Xenophilius assentiu gravemente.

- Bem, bem, Mr. Potter, tudo comea com O Conto dos Trs Irmos... tenho um exemplar do livro algures por aqui...

Relanceou um olhar vago em redor da sala, s pilhas de pergaminhos e livros, mas Hermione atalhou: - Eu tenho um exemplar, Mr. Lovegood, tenho-o aqui mesmo.

332

E tirou Os Contos de Beedle, o Bardo da pequena mala de missangas.

- O original? - indagou Xenophilius vivamente e, perante o seu aceno afirmativo, sugeriu: - Bem, ento por que no l alto?  a melhor forma de termos a certeza 
de que todos compreendem.

- Ha... est bem - acedeu Hermione, nervosa. Abriu o livro e Harry viu o smbolo que andavam a investigar no topo da pgina; Hermione tossicou e comeou a ler.

"Era uma vez trs irmos que caminhavam por uma estrada solitria e sinuosa ao crepsculo..."

-  meia-noite, dizia-nos sempre a nossa me - interrompeu Ron, que se esticara, de braos por cima da cabea, para ouvir. Hermione deitou-lhe um olhar de desagrado.

- Desculpa, s acho que assusta mais se for  meia-noite! - disse ele.

- Claro, porque realmente o que faz falta nas nossas vidas  um pouco mais de medo - comentou Harry, antes de conseguir conter-se. Xenophilius olhava para o cu, 
pela janela, e no parecia estar a prestar muita ateno. - Continua, Hermione.

"A certa altura, os irmos chegaram a um rio demasiado fundo para passar a p e demasiado perigoso para atravessar a nado. Contudo, esses irmos eram exmios em 
artes mgicas, por isso limitaram-se a agitar as varinhas e fizeram aparecer uma ponte sobre as guas traioeiras. Iam a meio desta quando encontraram o caminho 
bloqueado por uma figura encapuzada.

E a Morte falou-lhes..."

- Desculpa - interrompeu Harry -, mas a Morte falou-lhes?

- Isto  um conto de fadas, Harry!

- Certo, desculpa. Continua.

E a Morte falou-lhes. Estava zangada por ter sido defraudada em trs novas vtimas, pois normalmente os viajantes afogavam-se no rio. Mas a Morte era astuta. Fingiu 
felicitar os trs irmos pela sua magia e disse que cada um deles havia ganho um prmio por ter sido suficientemente esperto para a evitar.

E assim, o irmo mais velho, que era um homem combativo, pediu uma varinha mais poderosa que todas as que existissem: uma varinha que vencesse sempre os duelos, 
uma varinha digna de um feiticeiro que vencera a Morte! Portanto a Morte foi at um velho sabugueiro na margem do rio, moldou uma varinha de um ramo tombado e deu-a 
ao irmo mais velho.

333

Depois, o segundo irmo, que era um homem arrogante, decidiu que queria humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de trazer outros de volta da Morte. Ento a Morte 
pegou numa pedra da margem do rio e deu-a ao segundo irmo, dizendo-lhe que a pedra teria o poder de fazer regressar os mortos.

E depois a Morte perguntou ao terceiro irmo, o mais jovem, do que gostaria ele. O irmo mais novo era o mais humilde e tambm o mais sensato dos irmos, e no confiava 
na Morte. Por isso, pediu qualquer coisa que lhe permitisse sair daquele local sem ser seguido pela Morte. E esta, muito contrariada, entregou-lhe o seu prprio 
Manto da Invisibilidade."

- A Morte tem um Manto da Invisibilidade? - interrompeu novamente Harry.

- Para poder aproximar-se sorrateiramente das pessoas - disse Ron. - s vezes sente-se farta de correr atrs delas, a agitar os braos e a gritar... desculpa, Hermione.

"Depois a Morte afastou-se e permitiu que os trs irmos prosseguissem o seu caminho, e eles assim fizeram, falando com espanto da aventura que tinham vivido, e 
admirando os presentes da Morte.

A seu tempo, os irmos separaram-se, seguindo cada um o seu destino.

O primeiro irmo continuou a viajar durante uma semana ou mais e, ao chegar a uma vila distante, foi procurar um outro feiticeiro com quem tinha desavenas. Naturalmente, 
com a Varinha de Sabugueiro como arma, no podia deixar de vencer o duelo que se seguiu. Abandonando o inimigo morto estendido no cho, o irmo mais velho dirigiu-se 
a uma estalagem, onde se gabou, alto e bom som, da poderosa varinha que arrancara  prpria Morte, e que o tornava invencvel.

Nessa mesma noite, outro feiticeiro aproximou-se silenciosamente do irmo mais velho, que se achava estendido na sua cama, encharcado em vinho. O ladro roubou a 
varinha e,  cautela, cortou o pescoo ao irmo mais velho.

E assim a Morte levou consigo o irmo mais velho.

Entretanto, o segundo irmo viajara para sua casa, onde vivia sozinho. A, pegou na pedra que tinha o poder de fazer regressar os mortos, e f-la girar trs vezes 
na mo. Para seu espanto e satisfao, afigura da rapariga que em tempos esperara desposar, antes da sua morte prematura, apareceu imediatamente diante dele.

No entanto, ela estava triste e fria, separada dele como que por um vu. Embora tivesse voltado ao mundo mortal, no pertencia verdadeiramente ali, e sofria. Por 
fim, o segundo irmo, louco de saudades no mitigadas, suicidou-se para se juntar verdadeiramente a ela.

334

E assim a Morte levou consigo o segundo irmo.

Mas embora procurasse durante muitos anos o terceiro irmo, a Morte nunca conseguiu encontr-lo. S ao atingir uma idade provecta  que o irmo mais novo tirou, 
finalmente, o Manto da Invisibilidade e o deu ao seu filho. E ento acolheu a Morte como uma velha amiga, e foi com ela satisfeito e, como iguais, abandonaram esta 
vida."

Hermione fechou o livro. Decorreram alguns instantes antes de Xenophilius parecer dar-se conta de que ela parara de ler; depois desviou o olhar da janela e disse: 
- Pronto, a tm.

- Perdo? - Hermione mostrava-se confusa.

- So esses os Talisms da Morte - explicou Xenophilius.

Tirou uma pena da mesa a abarrotar, junto do seu cotovelo, e puxou um pedao de pergaminho rasgado de entre os livros.

- A Varinha de Sabugueiro - comeou ele, e traou uma linha vertical no pergaminho. - A Pedra da Ressurreio - prosseguiu, acrescentando um crculo  volta da linha. 
- O Manto da Invisibilidade - concluiu ele, encerrando a linha e o crculo num tringulo, para formar o smbolo que tanto intrigara Hermione. - Juntos, so os Talisms 
da Morte.

- Mas no h qualquer meno s palavras "Talisms da Morte" na histria - observou Hermione.

- Ora, claro que no - retorquiu Xenophilius, com um ar irritantemente convencido. - Isso  uma histria infantil, contada mais para divertir do que para instruir. 
Aqueles de ns que compreendem esses assuntos, contudo, reconhecem que a velha histria se refere a trs objectos, ou Talisms, que, se reunidos, faro do seu possuidor 
senhor da Morte.

Seguiu-se um breve silncio durante o qual Xenophilius voltou a olhar pela janela. O sol baixava j no horizonte.

- A Luna no deve tardar a ter Plimpies suficientes - murmurou ele.

- Quando diz "senhor da Morte"... - principiou Ron.

- Senhor - proferiu Xenophilius, petulante, agitando a mo. - Conquistador. Vencedor. O termo que preferirem.

- Mas ento... quer dizer... - comeou Hermione lentamente, e Harry percebeu que ela se esforava por no denotar na voz qualquer trao de cepticismo - que o senhor 
acredita que esses objectos, esses Talisms, existem realmente?

Xenophilius ergueu novamente as sobrancelhas.

- Mas  claro.

335

- Mas - insistiu Hernuone, e Harry viu que a sua conteno comeava a ceder -, Mr. Lovegood, como  possvel que o senhor acredite...7

- A Luna falou-me muito de si, minha jovem - retorquiu Xenophihus. - A menina, pelo que ouo, no  desprovida de inteligncia, mas  penosamente limitada. Tacanha, 
de vistas curtas.

- Talvez devesses experimentar o chapu, Hermione - sugeriu Ron, acenando na direco do ridculo toucado. A voz tremia-lhe devido ao esforo para no se rir.

- Mr. Lovegood - recomeou Hermione - Todos ns sabemos que existem Mantos da Invisibilidade. So raros, mas existem. Mas...

- Ah, mas o Terceiro Talism  um verdadeiro manto de mvisibilidade, Miss Granger! Quero eu dizer, no  um manto de viagem imbudo com um Encantamento de Camuflagem, 
ou possuindo um Feitio de Desorientao, ou ainda tecido com plo de Denuguise, que inicialmente nos ocultar, mas se ir desvanecendo com os anos at se tornar 
opaco. Estamos a falar de um manto que torna quem o usa completamente invisvel, e que resiste eternamente, proporcionando uma ocultao constante e impenetrvel 
por mais encantamentos que lhe sejam lanados. Quantos mantos assim  que j viu, Miss Granger?

Hermione abriu a boca para responder, e voltou a fech-la, com uma expresso ainda mais perplexa. Ela, Harry e Ron entreolharam-se, e Harry sabia que estavam todos 
a pensar a mesma coisa Acontecia que, nesse instante, se encontrava ali na sala com eles um manto exactamente como aquele que Xenophilius acabava de descrever.

- Precisamente - prosseguiu Xenophilius, como se os tivesse derrotado a todos com os seus argumentos - Nenhum de vs viu nunca algo assim. O seu possuidor seria 
imensamente rico, no seria?

Olhou outra vez pela janela. O cu achava-se agora matizado por um levssimo trao de rosa.

- Muito bem - cedeu Hermione, desconcertada. - Admitamos que o Manto existe., ento e a pedra, Mr. Lovegood? Aquilo a que o senhor chama a Pedra da Ressurreio?

- O que tem?

- Bem, como pode isso ser real?

- Prove que no  - retorquiu Xenophilius. Hermione assumiu um ar ofendido.

336

- Mas isso ... desculpe, mas isso  completamente ridculo' Como  possvel eu provar que ela no existe? Espera que eu pegue em... em todos os seixos do mundo, 
e os experimente? Quer dizer, pode afirmar-se que qualquer coisa  real se a nica base para se acreditar nela  o facto de ningum ter provado que no existe!

- Pois pode - concordou Xenophilius. - Fico feliz por ver que est a alargar um pouco as suas vistas.

- Ento e a Varinha de Sabugueiro - apressou-se Harry a interferir, antes de Hermione poder responder -, pensa que tambm existe?

- Ah, bom, no caso dessa h inmeras provas - declarou Xenophilius. - A Varinha de Sabugueiro  o Talism cujo rasto se pode seguir mais facilmente, devido  maneira 
como passa de mo em mo.

- E que ? - perguntou Harry.

- Que  o facto de o possuidor da Varinha ter de a tirar ao seu anterior proprietrio, para se tornar verdadeiramente senhor dela - respondeu Xenophilius. - Decerto 
ouviram falar da forma como a Varinha chegou s mos de Egbert, o Perverso, depois de ele ter massacrado Emenc, o Mau? Da maneira como Godelot morreu na sua prpria 
adega depois de o filho, Hereward, lhe ter tirado a Varinha? Do odioso Loxias, que se apoderou da Varinha de Barnabas Deverill, depois de o matar? O rasto sangrento 
da Varinha de Sabugueiro salpica as pginas da histria da feitiaria.

Harry relanceou um olhar a Hermione, que fitava Xenophilius de testa franzida, mas no o contradissera.

- Ento, e onde  que pensa que se encontra agora a Varinha de Sabugueiro? - interrogou Ron.

- Ah, quem sabe? - comentou Xenophilius, olhando para fora. - Quem sabe onde jaz oculta a Varinha de Sabugueiro? O rasto perde-se em Arcus e Livius. Quem pode dizer 
qual dos dois derrotou realmente Loxias, e qual ficou com a Varinha? E quem pode afirmar quem os ter, por sua vez, derrotado? A Histria, infelizmente, no o revela.

Fez-se uma pausa. Por fim, Hermione perguntou com ar hirto: - Mr. Lovegood, a famlia Peverell tem alguma coisa a ver com os Talisms da Morte?

Xenophilius pareceu surpreendido, enquanto na memria de Harry perpassava algo que ele no conseguia localizar. Peverell... j ouvira esse nome...

337

- Mas a menina tem estado a enganar-me! - exclamou Xenophihus, endireitando-se na cadeira, e fitando Hermione de olhos esbugalhados - Pensei que era uma novata na 
Demanda dos Talisms1 Muitos de ns, Demandadores, acreditamos que os Peverell tm tudo - tudo! - a ver com os Talisms!

- Quem so os Peverell? - interessou-se Ron

-  o nome inscrito na lpide que tem esta marca, em Godricss Hollow - respondeu Hermione, ainda a observar Xenophilius. - Ignotus Peverell.

- Exactamente! - bradou Xenophihus, de indicador pedantemente erguido. - O sinal dos Talisms da Morte na campa de Ignotus  uma prova conclusiva!

- De qu? - indagou Ron.

- Ora, de que os trs irmos do conto foram realmente os trs irmos Peverell, Antioch, Cadmus e Ignotus! Que foram eles os possuidores originais dos Talisms!

com um novo relance  janela, levantou-se, pegou no tabuleiro e dirigiu-se para a escada de caracol.

- Ficam para jantar, no  verdade? - disse ele, voltando a desaparecer escada abaixo. - Toda a gente pede a nossa receita de sopa de Plimpies de gua Doce.

- Provavelmente para mostrar ao Departamento de Venenos de S. Mungo - murmurou Ron, entre dentes.

Harry esperou at ouvirem Xenophilius a andar l em baixo, na cozinha, antes de falar.

- O que  que pensas? - dirigia-se a Hermione.

- Oh, Harry - disse ela em tom fatigado -,  tudo um monte de disparates. No pode ser esse o verdadeiro significado do sinal. Isto tem de ser apenas a estramblica 
interpretao que ele lhe d. Que perda de tempo.

- Suponho que este  o homem que nos trouxe Snorkacks de Chifres Amarrotados - comentou Ron

- Tu tambm no acreditas? - perguntou-lhe Harry.

- Na, esta histria  apenas uma daquelas coisas que se contam s crianas para lhes dar lies, no ? "No te metas em sarilhos, no andes  bulha, no mexas onde 
no deves! S humilde, mete-te na tua vida e tudo correr bem." Agora que penso nisso - acrescentou Ron -, talvez seja por causa desta histria que se diz que as 
varinhas de sabugueiro do azar.

- De que ests tu a falar?

338

-  uma daquelas supersties, no ? "Feiticeiras nascidas em Maio casam com Muggles." "Feitio feito ao crepsculo desfaz-se  meia-noite." "Varinha de sabugueiro 
nunca fez prosperar." J devem ter ouvido. A minha me conhece montes delas.

- O Harry e eu fomos educados por Muggles - recordou-lhe Hermione -, ensinaram-nos supersties diferentes. - Suspirou profundamente ao sentir um cheiro bastante 
acre subir da cozinha. A nica coisa boa acerca da sua exasperao com Xenophilius era ter parecido lev-la a esquecer que estava aborrecida com Ron.

- Acho que tens razo - disse-lhe ela. - E apenas um conto moral,  obvio qual  o melhor presente, aquele que escolheramos...

Falaram os trs ao mesmo tempo; Hermione disse "o Manto", Ron bradou "a Varinha", e Harry proferiu "a Pedra "

Olharam uns para os outros, meio surpreendidos, meio divertidos.

- Espera-se que digamos o Manto - Ron dirigia-se a Hermione -, mas no precisamos de ser invisveis se tivermos a Varinha. Uma varinha invencvel, Hermione, ento!

- Ns j temos um Manto da Invisibilidade - observou Harry.

- E bem til nos tem sido, caso no tenhas reparado! - retorquiu Hermione. - Ao passo que a Varinha atrairia forosamente sarilhos...

- . . s se a apregoasses aos sete ventos - argumentou Ron

- S se fosses suficientemente idiota para andares por a a danar, agitando-a por cima da cabea e a cantar: "Eu tenho uma varinha invencvel, venham c experiment-la 
se se acham suficientemente duros " Desde que conservasses o bico calado...

- Sim, mas conseguirias manter o bico calado' - contraps Hermione, com ar cptico. - Sabem, a nica coisa verdadeira que ele nos disse foi que existem histrias 
a respeito de varinhas com poderes extraordinrios h centenas de anos.

- Existem? - perguntou Harry.

Hermione pareceu exasperada: a expresso era-lhes to agradavelmente familiar, que Harry e Ron sorriram um ao outro.

- O Pau da Morte, A Varinha do Destino, surgem com diferentes nomes atravs dos sculos, geralmente na posse de algum feiticeiro Negro que se vangloria delas. O 
Professor Binns mencionou algumas, mas... oh, so tudo disparates. As varinhas tm apenas o poder dos feiticeiros que as utilizam. S que alguns feiticeiros gostam 
de se gabar que as deles so maiores e melhores que as dos outros.

339

- Mas como  que sabes - insistiu Harry - que essas varinhas, o Pau da Morte e a Varinha do Destino, no so a mesma varinha, a surgir ao longo dos sculos sob nomes 
diferentes?

- O qu, e que todas elas so realmente a Varinha de Sabugueiro, feita pela Morte? - disse Ron.

Harry riu-se: a estranha ideia que lhe ocorrera era, afinal, ridcula. A sua varinha, lembrou a si prprio, era de azevinho e no de sabugueiro, e, independentemente 
do que tinha feito naquela noite em que Voldemort o perseguira pelos cus, fora fabricada por Ollivander. E se fosse invencvel, como teria podido partir-se?

- Ento, por que  que tu escolhias a Pedra? - quis saber Ron.

- Bem, se ns pudssemos trazer as pessoas de volta, podamos ter o Sirius... o Olho-Louco... o Dumbledore... os meus pais...

Nem Ron nem Hermione sorriram.

- Mas, segundo Beedle, o Bardo, eles no quereriam voltar, pois no? - continuou Harry, recordando o conto que acabavam de ouvir. - Suponho que no tero existido 
carradas de histrias acerca de uma pedra que faz ressuscitar os mortos, pois no? - perguntou ele a Hermione.

- No - respondeu ela, pesarosa. - No creio que ningum, exceptuando Mr. Lovegood, se iluda a ponto de achar que isso  possvel. Beedle, provavelmente, foi buscar 
a ideia  Pedra Filosofal; percebes, em vez de uma pedra para ser imortal, uma pedra para anular a morte.

O cheiro da cozinha tornara-se mais forte: era algo semelhante a cuecas a arder. Harry perguntou-se se seria possvel comer o suficiente do que quer que Xenophilius 
lhes preparava para ele no se sentir ofendido.

- Mas ento, e o Manto? - proferiu Ron, lentamente. - No vem que ele tem razo? Eu estou to habituado ao Manto do Harry e ao bom que ele , que nunca me dei ao 
trabalho de pensar. Nunca ouvi falar de um como o do Harry.  infalvel. Nunca fomos descobertos...

- Claro que no... ficamos invisveis quando estamos debaixo dele, Ron!

- Mas tudo aquilo que ele disse a respeito de outros mantos - e eles no so propriamente a um Knut a dzia -  verdade, sabem! Isto nunca me tinha ocorrido, mas 
j ouvi falar de man

340

tos perderem os encantamentos quando ficam velhos, ou de serem rasgados por feitios, ficando com buracos. O do Harry era do pai dele, portanto no  exactamente 
novo, pois no, mas est absolutamente... perfeito!

- Sim, est bem, mas Ron, a Pedra...

Enquanto eles discutiam em murmrios, Harry andava em volta da sala, quase sem os ouvir. Ao chegar  escada de caracol, ergueu os olhos, distrado, para o andar 
seguinte, e sentiu-se confuso. O seu prprio rosto fitava-o do tecto do quarto l de cima.

Aps um instante de perplexidade, percebeu que no era um espelho mas sim uma pintura. Curioso, comeou a subir a escada.

- Harry, que vais tu fazer? Acho que no devias ir bisbilhotar sem ele aqui!

Mas Harry alcanara j o andar de cima.

Luna decorara o tecto do seu quarto com cinco caras maravilhosamente pintadas: Harry, Ron, Hermione, Ginny e Neville. No se mexiam como os retratos de Hogwarts, 
mas ainda assim havia neles uma certa aura de magia: Harry achou que eles respiravam. Entrelaadas em volta das figuras, ligando-as umas s outras, viam-se o que 
sups serem finas correntes douradas, mas depois de as ter examinado durante cerca de um minuto, apercebeu-se de que as correntes eram na realidade uma palavra, 
repetida milhentas vezes, a tinta dourada: amigos... amigos... amigos...

Sentiu uma enorme onda de afecto por Luna. Olhou em volta do quarto. Ao lado da cama havia uma grande fotografia, de uma jovem Luna com uma mulher muito parecida 
com ela. Estavam abraadas. A fotografia mostrava uma Luna mais bem arranjada do que Harry alguma vez a vira na vida. A fotografia tinha p, o que lhe pareceu algo 
estranho. Olhou em redor.

Havia qualquer coisa errada. A carpete azul-plido estava igualmente coberta de p. O guarda-roupa, de portas escancaradas, no tinha fatos. A cama apresentava um 
ar frio, hostil, como se l no dormisse ningum h semanas. Na janela mais prxima estendia-se uma teia de aranha, atravs de um cu vermelho-sangue.

- O que se passa? - perguntou Hermione quando Harry desceu, mas antes de ele poder responder, Xenophilius surgiu no topo das escadas, vindo da cozinha, segurando 
agora um tabuleiro carregado de taas.

- Mr. Lovegood - interpelou-o Harry. - Onde est a Luna?

- Perdo?

341

- Onde est a Luna? Xenophilius estacou no ltimo degrau.

- Eu... eu j vos disse. Est l em baixo, na Ponte do Fundo, a pescar Plimpies.

- Ento por que  que s contou com quatro nesse tabuleiro? Xenophilius tentou falar, mas no saiu som algum. O nico

barulho era o rudo provocado pela prensa, e um leve chocalhar proveniente do tabuleiro, quando as mos de Xenophilius comearam a tremer.

- Acho que a Luna no est c h semanas - prosseguiu Harry. - A roupa dela desapareceu, ningum tem dormido na cama. Onde est ela? E por que  que no pra de 
olhar para a janela?

Xenophilius deixou cair o tabuleiro: as taas ressaltaram e espatifaram-se. Harry, Ron e Hermione puxaram pelas varinhas: Xenophilius imobilizou-se, a mo prestes 
a entrar no bolso. Nesse momento, a prensa soltou um tremendo bum e numerosos exemplares d'A Voz Delirante jorraram para. o cho de debaixo da toalha; a prensa calou-se 
por fim.

Hermione curvou-se e apanhou um dos jornais, com a varinha ainda apontada a Mr. Lovegood.

- Harry, olha para isto.

Ele avanou para ela o mais depressa que pde, atravs de toda aquela tralha. A primeira pgina d'A Voz Delirante trazia o seu retrato, com as palavras "Indesejvel 
Nmero Um" estampadas, e com o cabealho prometendo uma recompensa monetria.

- Ento A Voz Delirante adoptou um novo ponto de vista? - perguntou Harry friamente, o crebro a trabalhar a toda a velocidade. - Foi isso que esteve a fazer no 
jardim, Mr. Lovegood? A enviar uma coruja ao Ministrio?

Xenophilius humedeceu os lbios.

- Eles levaram a minha Luna - balbuciou ele. - Por causa daquilo que eu tenho escrito. Levaram a minha Luna e no sei onde ela est, nem o que lhe fizeram. Mas talvez 
a libertassem se

eu... se eu...

- Entregasse o Harry? - concluiu Hermione por ele.

- Nada feito - declarou Ron categoricamente. - Saia do caminho, ns vamos embora.

Xenophilius estava com um aspecto horroroso, parecia centenrio, arrebanhando os lbios num sorriso medonho.

- Eles chegaro a qualquer instante. Tenho de salvar a Luna. No posso perder a Luna. Vocs no podem ir-se embora.

342

Abriu os braos diante da escada, e Harry teve uma viso sbita da sua me a fazer o mesmo diante do seu bero.

- No nos obrigue a mago-lo - pediu Harry. - Saia do caminho, Mr. Lovegood.

- HARRY! - gritou Hermione.

Pelas janelas passavam figuras montadas em vassouras. Quando os trs desviaram os olhos dele, Xenophilius puxou da varinha. Harry apercebeu-se do erro mesmo a tempo: 
atirou-se para o lado, empurrando Ron e Hermione para fora de perigo, enquanto o Feitio de Atordoar de Xenophilius voava pela sala e atingia o chifre de Erumpent.

Houve uma exploso colossal. O seu som pareceu estilhaar a sala: fragmentos de madeira, papel e lixo voaram em todas as direces, juntamente com uma impenetrvel 
nuvem de p branco e espesso. Harry foi atirado ao ar, e depois estatelou-se no cho, os braos a proteger a cabea, impossibilitado de ver por causa dos fragmentos 
que choviam sobre ele. Ouviu o grito de Hermione, o berro de Ron e uma srie de pancadas metlicas denunciadoras de que Xenophilius fora arrancado do stio em que 
estava e se despenhara, de costas, pela escada de caracol abaixo.

Semienterrado nos escombros, Harry tentou erguer-se: mal conseguia respirar e ver devido ao p. Metade do tecto desabara, e do buraco pendia a extremidade da cama 
de Luna. O busto de Rowena Ravenclaw jazia a seu lado sem metade da cara, havia fragmentos de pergaminho rasgados a flutuar pelo ar, e a maior parte da prensa cara 
de lado, bloqueando o topo das escadas para a cozinha. Depois aproximou-se dele outro vulto branco e Hermione, coberta de p como uma segunda esttua, levou um dedo 
aos lbios.

A porta l em baixo escancarou-se com estrpito.

- Eu no te disse que no valia a pena apressarmo-nos, Travers? - comentou uma voz spera. - No te disse que este luntico estava apenas a delirar como de costume?

Seguiu-se um baque e um grito de dor de Xenophilius.

- No... no... l em cima... o Potter!

- Eu disse-te a semana passada, Lovegood, que no voltvamos c seno por informaes seguras! Lembras-te da semana passada? Quando quiseste trocar a tua filha pela 
porcaria daquele toucado idiota? E da semana anterior... - outro baque, outro guincho - quando pensaste que a devolveramos se nos oferecesses a prova de que h 
Snorkacks - baque - de Chifres - baque - Amarrotados?

343

- No... no... suplico-lhe! - soluou Xenophilius. - A srio que  o Potter! A srio!

- E agora, descobre-se que s nos chamaste c para tentar rebentar connosco! - rugiu o Devorador da Morte; seguiu-se uma srie de baques entremeados com gritos de 
agonia de Xenophilius.

- Isto parece prestes a desabar, Selwyn - disse uma segunda voz glida, que ecoou pelos degraus estropiados. - A escada est completamente bloqueada. Posso tentar 
desobstru-la, mas  capaz de vir tudo abaixo.

- Aldrabo imundo - gritou o feiticeiro chamado Selwyn. - Nunca na vida viste o Potter, pois no? Julgaste que nos podias atrair aqui e matar-nos, no foi? E pensas 
que  assim que vais recuperar a tua filha?

- Juro... juro... o Potter est l em cima!

- Homenum revelia - proferiu a voz ao fundo das escadas. Harry ouviu Hermione suster a respirao, e teve a estranha

sensao de que algo descia sobre ele, cobrindo-lhe o corpo com a sua sombra.

- H de facto algum l em cima, Selwyn - disse vivamente o segundo homem.

- E o Potter, garanto-lhes,  o Potter! - soluava Xenophilius. - Por favor... por favor... dem-me a Luna, devolvam-me a Luna...

- Podes ficar com a tua mida, Lovegood - declarou Selwyn - se subires aquelas escadas e me trouxeres para baixo o Harry Potter. Mas se isto for uma tramia, se 
for um truque, se tens l em cima um cmplice  espera para nos atacar, veremos se conseguimos deixar um pedacinho da tua filha para tu enterrares.

Xenophilius soltou um uivo de medo e desespero. Ouviram-se passos apressados e depois o som de raspar: Xenophilius esforava-se por ultrapassar os escombros da escada.

- Embora - segredou Harry -, temos de sair daqui. Comeou a libertar-se do entulho a coberto do rudo que

Xenophilius fazia nas escadas. Ron ficara mais enterrado: Harry e Hermione treparam por cima dos destroos, o mais silenciosamente possvel, at ao stio onde ele 
estava, tentando retirar uma pesada cmoda de cima das suas pernas. Enquanto as batidas e repeles de Xenophilius se aproximavam cada vez mais, Hermione conseguiu 
libertar Ron, usando um Feitio de Suspenso.

344

- Bem - disse Hermione, vendo a prensa quebrada que bloqueava o cimo das escadas comear a oscilar; Xenophilius encontrava-se apenas a alguns passos deles. Ela continuava 
branca de p. - Tens confiana em mim, Harry?

Harry acenou afirmativamente.

- OK, ento - segredou ela - d-me o Manto da Invisibilidade. Ron, tu vais p-lo.

- Eu? Mas o Harry...

- Por favor, Ron! Harry, aperta bem a minha mo, Ron, agarra-me o ombro.

Harry estendeu a mo esquerda. Ron desapareceu debaixo do Manto. A prensa abanava: Xenophilius tentava afast-la com um Feitio de Suspenso. Harry no sabia do 
que estava Hermione  espera.

- Segurem-se bem - sussurrou ela. - Segurem-se bem... a qualquer instante...

O rosto lvido de Xenophilius surgiu por cima do aparador.

- Obliviate! - gritou Hermione, apontando a varinha, primeiro  cara dele e depois ao soalho sob os seus ps: Deprimo!

Rebentara com o cho da sala. Caram como pedras, Harry ainda a segurar-lhe a mo com toda a fora; ouviu-se um grito l de baixo e ele avistou dois homens tentando 
sair do caminho, enquanto lhes choviam a toda a volta enormes quantidades de entulho e moblia partida, cados do tecto despedaado. Hermione girou no ar e o estrondo 
da casa em derrocada repercutiu-se nos ouvidos de Harry quando ela o arrastou, uma vez mais, para a escurido.

345

XXII

OS TALISMS DA MORTE

Harry caiu na erva, arquejante, e ps-se em p de um pulo. Pelos vistos, tinham aterrado algures num campo ao lusco-fusco; Hermione andava j num corrupio de volta 
deles, sacudindo a varinha.

- Protego totalum... Salvio hexia...

- Que sujeito mais traioeiro! - Respirando a custo, Ron abandonou a proteco do Manto da Invisibilidade e lanou-o a Harry. - s um gnio, Hermione, verdadeiramente 
um gnio, nem acredito que nos conseguimos safar daquela!

- Cave inimicum... eu no disse que era um chifre de Erumpent? Eu no lhe disse? E agora a casa dele foi pelos ares!

- E muito bem feito - regozijou-se Ron, examinando as suas calas de ganga rasgadas e os golpes nas pernas. - O que achas que lhe vo fazer?

- Oh, espero que no o matem! - gemeu Hermione. - Era por isso que eu queria que os Devoradores da Morte vissem o Harry antes de nos virmos embora, para ficarem 
a saber que o Xenophilius no mentira!

- Afinal, por que tive de me esconder?

- Toda a gente pensa que ests de cama com espatergroitite, Ron! Eles raptaram a Luna por o pai dela apoiar o Harry! O que aconteceria  tua famlia se descobrissem 
que ests com ele?

- E, ento, a tua me e o teu pai?

- Eles encontram-se na Austrlia - referiu Hermione. - Presumo que estejam bem. No sabem nada.

- s um gnio - repetiu Ron, com ar assombrado.

- Sim, s mesmo, Hermione - concordou Harry, com fervor -, no sei o que seria de ns sem ti.

Ela sorriu radiosamente, mas depois ficou muito sria.

- E, ento, a Luna?

- Bem, se eles estiverem a dizer a verdade e ela ainda se encontrar viva... - comeou Ron.

- No digas isso, no digas isso! - protestou Hermione. - Ela tem de estar viva, tem mesmo!

- Nesse caso, deve estar em Azkaban - alvitrou Ron. - S no sei  se vai conseguir sobreviver... muitos no conseguem...

- Ela vai conseguir - declarou Harry. Era-lhe insuportvel encarar a alternativa. - A Luna  rija, muito mais rija do que vocs pensam.  bem capaz de estar a falar 
de Wrackspurts e Farejadores a todos os companheiros.

- Espero que tenhas razo - afirmou Hermione. Passou uma mo pelos olhos. - At teria imensa pena do Xenophilius se...

- ...se ele no tem tentado vender-nos aos Devoradores da Morte, claro - redarguiu Ron.

Montaram a tenda e recolheram-se, tendo-lhes Ron preparado um ch. Depois de conseguirem escapar por um triz, aquele espao glido e bafiento era como um lar para 
eles, seguro, familiar e acolhedor.

- Oh, mas por que fomos at l? - gemeu Hermione aps alguns minutos de silncio. - Tu tinhas razo, Harry, foi exactamente como em Godric s Hollow, uma completa 
perda de tempo! Os Talisms da Morte... mas que absurdo... muito embora, vendo bem - pareceu fazer-se subitamente luz -, ele pudesse ter inventado tudo, vocs no 
acham? Provavelmente nem sequer acredita nos Talisms da Morte, s queria empatar-nos at os Devoradores da Morte chegarem!

- No me parece - referiu Ron. - Quando estamos tensos  muito mais difcil inventar cenas do que julgas. Senti-o na pele quando os Raptores me apanharam. Foi bem 
mais fcil fingir que era o Stan, porque o conhecia um pouco, do que inventar toda uma nova personalidade. O velho Lovegood estava sob montes de presso, a tentar 
a todo o custo que no arredssemos p. Acho que ele nos disse a verdade, ou pelo menos aquilo que est convencido de ser a verdade, s para que continussemos a 
conversar.

- Bem, isso agora j no importa - suspirou Hermione. - Mesmo que ele estivesse a ser sincero, nunca ouvi tantos disparates juntos em toda a minha vida.

- Calm' a, malta - interveio Ron. - Tambm diziam que a Cmara dos Segredos era um mito, no era?

- Mas os Talisms da Morte no podem existir, Ron!

- Ests sempre a dizer isso, mas um deles pode - protestou Ron. - O Manto da Invisibilidade do Harry...

346

347

- O Conto dos Trs Irmos  uma histria - frisou Hermione. - Uma histria sobre o medo que os humanos tm da morte. Se sobreviver fosse to simples quanto escondermo-nos 
debaixo do Manto da Invisibilidade, j no precisaramos de mais nada!

- Olha que no sei. Vinha mesmo a calhar-nos uma varinha invencvel - comentou Harry, rodando a to abominada varinha de abrunheiro entre os dedos.

- No existe semelhante coisa, Harry!

- Tu mesma disseste que havia montes de varinhas... o Pau da Morte e l o que quer que se chamam...

- Pronto, ainda que queiras ficar na iluso de que a Varinha de Sabugueiro existe, e ento a Pedra da Ressurreio? - Os dedos dela colocaram aspas em torno do nome, 
e a sua voz encheu-se de sarcasmo. - Nenhuma magia consegue ressuscitar os mortos, e pronto'

- Quando a minha varinha se ligou  do Quem-Ns-Sabemos, fez com que a minha me e o meu pai aparecessem... e o Cedric...

- Mas eles no regressaram propriamente dos mortos, pois no? - indagou Hermione. - Aquelas... aquelas plidas imitaes no so propriamente o mesmo que devolver 
a vida a algum.

- Mas ela, a rapariga do conto, ela no voltou realmente, pois no? A histria diz que quando as pessoas morrem, ficam a pertencer aos mortos. S que o segundo irmo 
ainda a conseguiu ver e falar com ela, no foi? Chegou mesmo a viver algum tempo com ela...

Harry detectou preocupao e algo indefinvel no semblante de Hermione Depois, quando ela olhou para Ron, apercebeu-se de que era medo: assustara-a ao falar em viver 
com os mortos.

- E aquele tal Peverell que est enterrado em Godrics Hollow - apressou-se a afirmar, tentando dar mostras de forte sanidade mental -, tu no sabes nada sobre ele, 
ou sabes?

- No - redarguiu ela, aliviada por mudarem de assunto. - resolvi investig-lo depois de ter visto a marca na sepultura dele; estou convencida de que, se ele tivesse 
sido algum famoso, ou feito algo de importante, surgiria em algum dos nossos livros. O nico stio onde consegui encontrar o nome "Peverell"  na Nobreza Natural. 
Uma Genealogia dos Feiticeiros. Pedi-o emprestado ao Kreacher - explicou, ao ver Ron arquear os sobrolhos. - Enumera apenas as famlias de puro-sangue j extintas 
na linha

348

masculina. Parece que os Peverell foram uma das primeiras famlias a desaparecer.

- "Extintas na linha masculina"? - repetiu Ron.

- Significa que o nome desapareceu - explicou Hermione -, h sculos, no caso dos Peverell. No entanto, podem existir ainda descendentes, s que com um apelido diferente.

E Harry teve ento um rasgo sbito, a lembrana que se agitara ao ouvir o nome Peverell: um velho imundo a esfregar um anel feio no rosto de um funcionrio do Ministrio, 
e exclamou bem alto: - Marvolo Gaunt!

- Como  que ? - perguntaram Ron e Hermione em simultneo.

- Marvolo Gaunt1 O av do Quem-Ns-Sabemos! No Pensatrio! com o Dumbledore! O Marvolo Gaunt disse que descendia dos Peverell!

Ron e Hermione ficaram perplexos.

- O anel, o anel que se tornou o Horcrux, o Marvolo Gaunt afirmou que ostentava o braso dos Peverell! Eu vi-o agit-lo diante do rosto do sujeito do Ministrio, 
quase lho enfiou pelo nariz!

- O braso dos PeverelP - inquiriu Hermione, de repente.

- Conseguiste ver como era?

- Nem por isso - respondeu Harry, tentando recordar-se.

- No havia nele nada de invulgar, tanto quanto pude reparar; talvez alguns riscos. S o observei realmente de perto depois de se ter rachado.

Harry viu os olhos de Hermione arregalarem-se de repente ao perceber. Ron olhava ora para um ora para o outro, estupefacto.

- Caramba, achas que era outra vez este smbolo? O smbolo dos Talisms?

- Por que no? - inquiriu Harry, entusiasmado. - O Marvolo Gaunt era um velho estpido e cretino que vivia como um porco, s estava interessado na sua linhagem. 
Se aquele anel tivesse sido transmitido ao longo dos sculos,  bem possvel que ele no soubesse realmente do que se tratava. No existiam livros naquela casa e, 
vai por mim, ele no era pessoa para se pr a ler contos de fadas a crianas. Ter-lhe-ia agradado pensar que os riscos na pedra eram um braso porque, para ele, 
possuir sangue puro era praticamente o mesmo que pertencer  realeza.

- Sim .. e tudo isso  muito interessante - afirmou Hermione, com cautela -, mas, Harry, se ests a falar daquilo que eu julgo que ests a falar...

349

- E por que no? Por que no? - entusiasmou-se Harry, abandonando as reservas. - Era a Pedra, no era? - Lanou um olhar a Ron, pedindo-lhe apoio. - E se fosse a 
Pedra da Ressurreio?

Ron ficou boquiaberto. - Caramba... mas ser que ainda funcionava se o Dumbledore a partiu ...

- Funcionar? Funcionar? Ron, nunca funcionou! No existe nenhuma Pedra da Ressurreio! - Hermione levantara-se de rompante, parecendo exasperada e furiosa. - Harry, 
ests a tentar encaixar tudo na histria dos Talisms...

- Encaixar tudo? - repetiu ele. - Hermione, isto encaixa-se por si prprio! Sei que o sinal dos Talisms da Morte estava naquela pedra! O Gaunt afirmou-se descendente 
dos Peverell!

- H um minuto disseste-nos que no tinhas visto bem a marca na pedra!

- Onde achas que o anel est agora? - perguntou Ron a Harry. - O que fez o Dumbledore com ele depois de o partir?

Mas a imaginao de Harry estava j a milhas, muito mais distante que a de Ron e Hermione...

Trs objectos, ou Talisms, que, se reunidos, faro do seu possuidor senhor da Morte... senhor... conquistador... vencedor... o ltimo inimigo que ser destrudo 
 a morte...

E viu-se na posse dos Talisms, a enfrentar Voldemort, que no podia competir com os seus Horcruxes... nenhum pode viver enquanto o outro sobreviver... seria aquela 
a resposta? Os Talisms contra os Horcruxes? Existiria, afinal de contas, uma maneira de assegurar que s ele triunfasse? Se ele fosse o detentor dos Talisms da 
Morte, ficaria a salvo?

- Harry?

Mas ele mal escutou Hermione: pegara no seu Manto da Invisibilidade, e ia-o apalpando, sentindo o tecido fluido como gua, leve como uma pena. Nunca vira nada igual 
nos seus quase sete anos no mundo da feitiaria. O Manto era tal e qual como Xenophilius o descrevera: um manto que, de Jacto, torna quem o usa completamente invisvel, 
e que resiste eternamente, proporcionando uma ocultao constante e impenetrvel, por mais encantamentos que lhe sejam lanados...

E depois, soltou uma pequena exclamao, lembrando-se...

- O Dumbledore tinha o meu Manto na noite em que os meus pais morreram!

A sua voz tremeu e sentiu o rubor no rosto, mas ignorou-o. - A minha me disse ao Sirius que o Dumbledore pedira o

350



Manto emprestado! E isso! Ele queria examin-lo, porque estava convencido de que era o terceiro Talism! O Ignotus Peverell est sepultado em Godric's Hollow... 
-- Harry ia caminhando  volta da tenda, sem ver, com a sensao de que se lhe abriam novas e fantsticas hipteses. - Ele  meu antepassado! Eu descendo do terceiro 
irmo! Tudo faz sentido!

Sentiu-se imbudo de certeza, de crena nos Talisms, como se a mera ideia de os possuir lhe conferisse proteco, e quando voltou para junto dos outros dois, transbordava 
de alegria.

- Harry - repetiu Hermione, mas ele atarefava-se a abrir a bolsa que usava  volta do pescoo, os dedos visivelmente trmulos.

- L-a - disse, enfiando-lhe na mo a carta da me. - L-a! O Dumbledore tinha o Manto, Hermione! Por que outro motivo o quereria? Ele no precisava de um Manto, 
podia lanar um Feitio de Camuflar to poderoso que ficava completamente invisvel!

Caiu algo ao cho que rebolou, brilhando, para debaixo de uma cadeira: quando tirara a carta fizera cair a Snitch. Baixou-se para a apanhar e, nesse momento, a sequncia 
das fabulosas descobertas que acabara de fazer ofereceu-lhe um bnus, e no conseguiu conter o choque nem o espanto dentro de si, precisando de os extravasar:

- EST AQUI DENTRO! Ele deixou-me o anel - est dentro da Snitch!

- Achas?

No percebia por que Ron ficara to abalado. Era to bvio, to evidente para Harry: tudo se encaixava, tudo... o seu Manto era o terceiro Talism e, quando descobrisse 
a forma de abrir a Snitch, teria o segundo, e a seguir s precisava de encontrar o primeiro Talism, a Varinha de Sabugueiro, e depois...

Foi como se tivesse descido a cortina sobre um palco iluminado: todo o seu entusiasmo, toda a sua esperana e felicidade se apagaram de uma assentada, e ficou sozinho 
no escuro, e o feitio glorioso desfez-se.

-  dela que ele anda  procura.

A mudana na sua voz deixou Ron e Hermione ainda mais assustados.

- O Quem-Ns-Sabemos anda atrs da Varinha de Sabugueiro.

Virou costas aos rostos incrdulos e tensos dos amigos. Sabia que era verdade. Tudo fazia sentido. Voldemort no andava 

351

procura de uma varinha nova; na verdade, buscava uma varinha antiga, uma varinha muito antiga. Harry aproximou-se da entrada da tenda, esquecendo Ron e Hermione 
ao olhar a noite, a pensar .

Voldemort fora criado num orfanato para Muggles. Em criana, nunca ningum lhe contara Os Contos de Beedle, o Bardo, tal como Harry tambm nunca os ouvira Dificilmente 
quaisquer feiticeiros acreditariam nos Talisms da Morte. Seria possvel que Voldemort tivesse conhecimento deles?

Harry fitou a escurido... se Voldemort soubesse da existncia dos Talisms da Morte, certamente os teria procurado, feito algo para os possuir: trs objectos cujo 
detentor dominaria a Morte? Se tivesse sabido dos Talisms da Morte, no haveria, antes de mais, necessitado dos Horcruxes. O simples facto de ter roubado um Talism, 
transformando-o num Horcrux, demonstrava o seu desconhecimento deste ltimo grande segredo da feitiaria!

O que significava que Voldemort andava em busca da Varinha de Sabugueiro sem ter conscincia de todo o seu poder, sem compreender que era um elemento de trs... 
visto a Varinha ser o Talism que no podia ser escondido, cuja existncia era mais conhecida... o rasto de sangue da Varinha de Sabugueiro estende-se pelas pginas 
da histria da feitiaria...

Harry observou o cu nublado, fiapos cinzento-fumo e prateado a deslizar pela superfcie da lua branca. Sentia a cabea andar  roda ante o assombro das suas descobertas.

Regressou ao interior da tenda. Foi um choque ver Ron e Hermione especados exactamente onde os deixara, Hermione segurando ainda a carta de Lily, Ron a seu lado, 
com um ar de ligeira ansiedade. No se apercebiam de onde os ltimos minutos os haviam levado?

- No haja dvida - referiu Harry, procurando atra-los para o foco luminoso da sua extraordinria convico. - Isto explica tudo. Os Talisms da Morte so reais, 
e eu tenho um .. - possivelmente dois...

Exibiu a Snitch.

- . e o Quem-Ns-Sabemos anda atrs do terceiro, mas no entende... julga apenas que  uma varinha poderosa..

- Harry - interveio Hermione, aproximando-se dele e devolvendo-lhe a carta de Lily. - Desculpa, mas acho que ests redondamente enganado, redondamente.

352

- Mas ser que no vs? Tudo se encaixa ...

- No, no encaixa - frisou. - No encaixa, Harry, tu ests apenas a deixar-te levar. Por favor - pediu, quando ele fez meno de responder -, por favor responde-me 
apenas a isto. Se os Talisms da Morte existissem realmente, e o Dumbledore tivesse conhecimento deles, se soubesse que quem possusse a totalidade dominaria a Morte... 
Harry, por que motivo ele no to contaria? Por que motivo?

Ele tinha a resposta na ponta da lngua.

- Mas tu mesma o afirmaste, Hermione! Disseste que temos de ser ns a descobri-los!  uma Demanda!

- Mas eu s o afirmei para te conseguir persuadir a vires a casa dos Lovegood! - exclamou Hermione, exasperada. - No estava nada convencida!

Harry ignorou aquele comentrio

- O Dumbledore costumava deixar-me descobrir coisas por mim prprio. Ele deixava-me pr  prova a minha fora, correr riscos. Isto parece-me mesmo tpico dele.

- Harry, no estamos a falar de uma brincadeira, isto no  um exerccio! Isto  a srio, e o Dumbledore deixou-te instrues muito claras, encontrar e destruir 
os Horcruxes! Aquele smbolo no significa nada, esquece os Talisms da Morte, no podemos desviar-nos do nosso objectivo ..

Harry praticamente no a escutava. Ia virando sucessivamente a Snitch nas mos, esperando em parte que ela se abrisse, expondo a Pedra da Ressurreio, para provar 
a Hermione que ele tinha razo, que os Talisms da Morte eram verdadeiros.

Ela resolveu apelar a Ron

- Tu no acreditas nisto, pois no? Harry levantou a cabea. Ron hesitou.

- No sei... quero dizer . uma parte at parece bater certo - respondeu Ron, encravado. - Mas olhando para o todo... - Respirou fundo. - Acho que temos de nos livrar 
dos Horcruxes, Harry. Foi o que o Dumbledore nos mandou fazer Talvez... talvez devssemos esquecer esta cena dos Talisms

- Obrigada, Ron - disse Hermione. - Eu fico com o primeiro turno.

E passou apressada por Harry, indo sentar-se  entrada da tenda, dando definitivamente o assunto por encerrado.

Mas Harry quase no pregou olho naquela noite. A ideia dos Talisms da Morte apoderara-se dele, e no conseguiria descansar

353

enquanto aqueles pensamentos andassem s voltas na sua mente: a Varinha, a Pedra e o Manto, se ao menos conseguisse ficar na posse deles todos ...

Eu abro-me no fim . mas o que era o fim? Por que no podia ficar com a Pedra naquele momento? Se ao menos tivesse a Pedra, poderia colocar aquelas questes pessoalmente 
a Dumbledore... e, no escuro, foi murmurando palavras  Snitch, experimentando tudo, at serpents, mas a bola dourada recusava a abrir-se

E a Varinha, a Varinha de Sabugueiro, onde se encontrava escondida? Onde a procurava Voldemort naquele momento? Harry desejou que a sua cicatriz ardesse e lhe mostrasse 
os pensamentos de Voldemort, pois, pela primeira vez na vida, ele e Voldemort estavam unidos no desejo da mesma coisa... a ideia no agradaria a Hermione, claro... 
mas como ela no acreditava... Xenophihus acertara, em parte... Limitada. Tacanha De vistas curtas Na realidade, a ideia dos Talisms da Morte deixava-a assustada, 
em especial a Pedra da Ressurreio. . e Harry voltou a encostar a boca  Snitch, beijando-a, quase a engolindo, mas o metal frio no cedeu.

O dia estava quase a raiar quando se recordou de Luna, sozinha numa cela em Azkaban, rodeada de Dementors, e subitamente sentiu vergonha de si prprio Esquecera-se 
por completo dela na sua contemplao febril dos Talisms. Se ao menos a conseguissem resgatar, mas um to grande nmero de Dementors seria praticamente invencvel 
Agora que pensava no assunto, no experimentara ainda lanar um Patronus com a varinha de abrunheiro . tinha de o fazer pela manh...

Se ao menos houvesse uma maneira de obter uma varinha melhor...

E o desejo da Varinha de Sabugueiro, do Pau da Morte, imbatvel, invencvel, tornou a apoderar-se dele.

Na manh seguinte, guardaram a tenda e partiram escoltados por uma desoladora chuvada. A carga de gua acompanhou-os at  costa, onde montaram a tenda naquela noite, 
e persistiu pela semana fora, enquanto atravessavam paisagens encharcadas que Harry achou ermas e deprimentes. Os Talisms da Morte no lhe saam da cabea. Era 
como se se tivesse acendido uma chama dentro de si, que nada, nem a terminante incredulidade de Hermione nem as dvidas insistentes de Ron, conseguia apagar. E todavia, 
quanto mais intensamente ardia nele o desejo dos Talisms, menos animado se sentia. Atribuiu as culpas a Ron e Hermione. A teimosa indiferena deles era to prejudicial 
quanto a chuva inces sante que lhe minava o humor, mas nada disso o conseguiria dissuadir da sua certeza, que o dominava por completo. Harry deixou que a convico 
e o desejo dos Talisms o consumissem de tal forma que se sentiu completamente isolado dos outros dois e da sua obsesso pelos Horcruxes.

- Obsesso? - insurgiu-se Hermione, em voz cava e furiosa, quando Harry caiu na asneira de usar a palavra uma noite, depois de Hermione o haver censurado pela sua 
falta de interesse na localizao de mais Horcruxes. - No somos ns que estamos obcecados, Harry' Ns s estamos a tentar fazer o que o Dumbledore queria que fizssemos!

No entanto, aquela crtica velada embateu na sua indiferena. Dumbledore deixara o sinal dos Talisms para que Hermione o decifrasse e tambm deixara, Harry continuava 
convicto disso, a Pedra da Ressurreio escondida dentro da Snitch dourada. Nenhum pode viver enquanto o outro sobreviver.. senhor da Morte.. por que razo Ron e 
Hermione no compreendiam?

- "O ltimo inimigo que ser destrudo  a morte" - citou Harry serenamente.

- Julguei que a nossa misso fosse lutar contra o Quem-Ns-Sabemos - retrucou Hermione, e Harry resolveu no insistir mais com ela.

O prprio mistrio da cora prateada, que os outros dois tanta questo faziam de discutir, afigurava-se naquele momento menos importante para Harry, praticamente 
um aspecto secundrio. Naquele momento, a sua nica preocupao era o facto de a cicatriz ter recomeado a arder, conquanto se esforasse ao mximo por ocult-lo 
dos outros dois. Refugiava-se na solido sempre que tal acontecia, mas o que surgia decepcionava-o. As vises que partilhava com Voldemort haviam perdido qualidade; 
estavam mais esfumadas, mudando como se se focassem e desfocassem. Harry conseguia to-somente detectar aspectos indefinidos de um objecto que se assemelhava a uma 
caveira, e algo como uma montanha que era mais sombra que substncia. Acostumado a imagens extremamente realistas, Harry ficou desconcertado com a mudana. Preocupava-o 
que a ligao entre si prprio e Voldemort tivesse sofrido danos, uma ligao que temia e, independentemente do que dissera a Hermione, prezava. De certa forma, 
associava aquelas imagens vagas e insatisfatrias  destruio da sua varinha, como se fosse por culpa da varinha de abrunheiro que tivesse deixado de ver a mente 
de Voldemort com a mesma nitidez de antes.

354

355

 medida que as semanas decorriam, era impossvel Harry no reparar, apesar da recente concentrao na sua pessoa, que Ron parecia estar a assumir o controlo. Talvez 
fizesse questo de compens-los por os ter abandonado; ou talvez a apatia em que Harry mergulhara tivesse despertado as suas qualidades de liderana adormecidas: 
naquele momento, porm, era Ron quem encorajava e exortava os outros dois  aco

- Faltam trs Horcruxes - no parava de afirmar. - Precisamos de um plano de aco, colaborem l! Onde  que ns no procurmos. Vamos rever tudo. O orfanato .

Diagon-Al, Hogwarts, a casa de Riddle, o Borgin & Burkes, a Albnia, todos os locais onde sabiam que tom Riddle vivera, trabalhara, estivera de visita ou cometera 
um crime, Ron e Hermione passaram-nos de novo em revista, contando com a participao de Harry s para que Hermione no continuasse a atorment-lo. De bom grado 
teria permanecido sentado sozinho, em silncio, a tentar ler os pensamentos de Voldemort, para saber mais pormenores sobre a Varinha de Sabugueiro, mas Ron insistia 
em que se deslocassem a stios cada vez mais inverosmeis, simplesmente, Harry tinha conscincia disso, para os manter em movimento.

- Nunca se sabe - era o constante refro de Ron. - Upper Flagey  uma aldeia de feiticeiros,  possvel que ele tenha querido viver l. Vamos dar uma espreitadela

Aquelas frequentes incurses em territrio de feiticeiros fizeram com que avistassem Raptores uma vez por outra.

- Consta que alguns deles so to maus quanto os Devoradores da Morte - comentou Ron. - Os que me apanharam eram um bocado idiotas, mas o Bill acha que alguns deles 
so mesmo perigosos. Disseram no ltimas do Potter...

- No qu? - inquiriu Harry.

- ltimas do Potter, no vos contei que se chama assim? O programa que tenho tentado sintonizar no rdio, o nico que diz a verdade sobre o que se passa! Quase todos 
os programas seguem a linha do Quem-Ns-Sabemos, todos excepto o ltimas do Potter Queria muito ouvi-lo, mas  complicado de sintonizar

Ron levou noite aps noite a usar a sua varinha para marcar diversos ritmos na parte de cima do rdio, enquanto os botes giravam. Esporadicamente, apanhava excertos 
de conselhos sobre a forma de tratamento da draguola e, uma vez, alguns acordes de "Um Caldeiro Cheio de Amor Forte e Ardente". Enquanto ia

356

dando pancadinhas, Ron continuava a tentar acertar na senha, murmurando entre dentes sries aleatrias de palavras.

- Normalmente tem algo a ver com a Ordem - exphcou-lhes. - O Bill era um craque a adivinh-las. Um dia, hei-de conseguir acertar

Mas s em Maro a sorte bafejou finalmente Ron. Harry estava sentado  entrada da tenda, de sentinela, a olhar ociosamente para um p de jacmtos-bravos que conseguira 
brotar do solo gelado, quando Ron gritou, todo entusiasmado, l de dentro da tenda.

- Consegui, consegui! A senha era "Albus!" Chega aqui, Harry!

Arrancado pela primeira vez em dias  contemplao dos Talisms da Morte, Harry entrou apressado na tenda e encontrou Ron e Hermione ajoelhados no cho ao p do 
pequeno rdio. Hermione, que estivera a limpar a espada de Gryffindor s para se manter ocupada, permaneceu sentada, olhando boquiaberta para o minsculo altifalante, 
de onde saa uma voz bem familiar.

- ...lamentamos a nossa ausncia temporria do ar, que se ficou a dever a uma srie de visitas domicilirias dos adorveis Devoradores da Morte na nossa zona.

- Mas aquele  o Lee Jordan! - exclamou Hermione.

- Eu sei! - confirmou Ron, entusiasmado. - Fixe, hem?

- ...encontramo-nos agora noutro local seguro - dizia Lee -, e tenho o prazer de os informar que os nossos dois reprteres habituais se encontram aqui presentes 
esta noite. Boa noite, rapazes!

- Ol.

- Boa noite, River.

- O "River"  o Lee - esclareceu Ron. - Eles arranjaram todos nomes de cdigo, mas d para a gente saber...

- Xiu! - protestou Hermione.

- Mas antes de ouvirmos as notcias de Royal e Romulus - prosseguiu Lee -, vamos aproveitar para anunciar as mortes que a Agncia Noticiosa da Feitiaria e O Profeta 
Dirio no consideram dignas de meno.  com enorme pesar que informamos os nossos ouvintes dos assassnios de Ted Tonks e Dirk Cresswell

Harry sentiu um sbito repelo nas entranhas. Ele, Ron e Hermione entreolharam-se, horrorizados.

- Um goblin que d pelo nome de Gornuk tambm morreu Tanto quanto sabemos, Dean Thomas, de origem Muggle, e um

357

segundo goblin que viajavam com Tonks, Cresswell e Gornuk, podem ter escapado. Se o Dean estiver a ouvir, ou se algum tiver conhecimento do seu paradeiro, os pais 
e as irms dele esto desesperados por notcias.

"Entretanto, foi encontrada morta na sua casa, em Gaddley, uma famlia Muggle de cinco membros. As autoridades dos Muggles esto a atribuir as mortes a uma fuga 
de gs, mas informam-me os membros da Ordem da Fnix que foi uma Maldio de Morte - mais provas, como se necessrias fossem, do facto de a chacina dos Muggles se 
estar a transformar praticamente numa actividade recreativa sob a gide do novo regime.

"Por ltimo, lamentamos informar os nossos ouvintes de que os restos mortais de Bathilda Bagshot foram encontrados em Godrics Hollow. Tudo indica que a sua morte 
tenha ocorrido h vrios meses. Segundo comunicado da Ordem da Fnix, o corpo dela apresentava sinais inconfundveis de ferimentos provocados por Magia Negra.

"Gostaramos de convidar agora os nossos ouvintes a participar num minuto de silncio em memria de Ted Tonks, Dirk Cresswell, Bathilda Bagshot, Gornuk e os Muggles 
annimos, mas nem por isso menos chorados, assassinados pelos Devoradores da Morte.

Fez-se silncio e Harry, Ron e Hermione no falaram. Uma parte de Harry ansiava saber mais, outra receava o que se pudesse seguir. Era a primeira vez em muito tempo 
que se sentia plenamente ligado ao mundo exterior.

- Obrigado - disse a voz de Lee. - E passemos agora ao nosso reprter habitual, Royal, para uma actualizao dos reflexos que as alteraes introduzidas pela nova 
ordem da feitiaria tiveram sobre o mundo dos Muggles.

- Obrigado, River - afirmou uma voz inconfundvel, cava, comedida, confiante.

- O Kingsley! - gritou Ron.

- Ns sabemos! - interveio Hermione, obrigando-o a calar-se.

- Os Muggles continuam a desconhecer a origem do seu sofrimento, assim como continuam a registar pesadas baixas - referiu Kingsley. - No entanto, no param de nos 
chegar histrias verdadeiramente fantsticas de feiticeiros e feiticeiras que poem em risco a prpria segurana para protegerem amigos e vizinhos Muggles, muitas 
vezes sem que estes se apercebam disso. Gostaria

358

de fazer um apelo a todos os nossos ouvintes para que sigam o exemplo deles, qui lanando um feitio protector sobre as habitaes de cada Muggle na vossa rua. 
Muitas vidas se poderiam salvar com a implementao destas simples medidas.

- E o que diria, Royal, queles ouvintes que respondam que, nestes tempos perigosos, o lema deveria ser "primeiro os feiticeiros"? - inquiriu Lee.

- Eu diria que de "primeiro os feiticeiros" a "primeiro os puros-sangues" e depois a "Devoradores da Morte" vai um passo muito curto - replicou Kingsley. - Afinal, 
somos todos humanos, no somos? Cada vida humana tem idntico valor, e merece ser salva.

- Excelentemente formulado, Royal, e tem o meu voto para Ministro da Magia se alguma vez sairmos desta trapalhada - comentou Lee. - E agora, vamos passar a palavra 
a Romulus para a nossa popular rubrica: Os Amigos do Potter.

- Obrigado, River - disse outra voz muito familiar; Ron comeou a falar, mas Hermione impediu-o, sussurrando:

- Ns sabemos que  o Lupin!

- Romulus, garante, como tem feito sempre que veio ao nosso programa, que Harry Potter ainda est vivo?

- Claro que sim - afirmou Lupin, com veemncia. - No existe a menor dvida na minha mente de que os Devoradores da Morte apregoariam a sua morte aos quatro ventos 
se ela tivesse ocorrido, pois desferiria um rude golpe no moral daqueles que oferecem resistncia ao novo regime. "O Rapaz Que Sobreviveu" continua a ser um smbolo 
de tudo aquilo por que lutamos: o triunfo do bem, o valor da inocncia, a necessidade de continuar a resistir.

Apoderou-se de Harry um misto de gratido e vergonha. Seria possvel que Lupin lhe tivesse perdoado, ento, as coisas terrveis que lhe dissera da ltima vez que 
se tinham encontrado?

- E o que diria ao Harry se soubesse que ele estava a ouvi-lo, Romulus?

- Dir-lhe-ia que estamos todos com ele em esprito - referiu Lupin; depois notou-se uma ligeira hesitao. - E dir-lhe-ia que seguisse os seus instintos, que so 
bons e esto quase sempre certos.

Harry fitou Hermione, que tinha os olhos marejados de lgrimas.

- Quase sempre certos - repetiu ela.

359

- Oh, eu no vos disse? - perguntou Ron, surpreso. - O Bill contou-me que o Lopin est de novo a viver com a Tonks! E parece que ela est a ficar tambm com um barrigo.

- .. e a nossa habitual actualizao sobre aqueles amigos do Harry Potter que esto a sofrer por se lhe manterem fiis? - dizia Lee.

- Bem, como os nossos ouvintes regulares sabero, diversos dos mais destacados apoiantes do Harry Potter encontram-se detidos neste momento, incluindo Xenophilius 
Lovegood, antigo editor d'A Voz Delirante . . - anunciou Lopin.

- Pelo menos, est vivo' - murmurou Ron.

- Soubemos tambm, nas ltimas horas, que Rubeus Hagrid .. - os trs ficaram em suspenso, e por pouco no perdiam o

resto da frase - . .o famoso guardador dos campos da Escola de Hogwarts, escapou por um triz  deteno nos terrenos da mesma, quando constou que organizara em sua 
casa uma festa de "Apoio a Harry Potter". No entanto, Hagrid no se encontra detido, e tanto quanto julgamos saber, anda a monte.

- Pelos vistos, quando se trata de fugir dos Devoradores da Morte, sempre ajuda ter um meio-irmo de quase cinco metros? - inquiriu Lee.

- Pode dizer-se que constituiria uma vantagem, sim - concordou Lopin circunspectamente. - Posso acrescentar que, apesar de ns aqui no Ultimas do Potter aplaudirmos 
o esprito do Hagrid, gostaramos de exortar os mais dedicados apoiantes do Harry a no seguirem o exemplo do Hagrid. No presente clima, so desaconselhadas quaisquer 
manifestaes de "Apoio a Harry Potter".

- E so mesmo, Romulus - concordou Lee -, por isso sugerimos que continuem a mostrar o vosso apreo pelo homem da cicatriz em forma de raio escutando o ltimas do 
Potter! E passemos agora s notcias respeitantes ao feiticeiro que se est a revelar to esquivo quanto o prprio Harry Potter. Gostaramos de nos referir a ele 
como o Chefe dos Devoradores da Morte, e que ficassem aqui registadas algumas das suas opinies sobre os rumores mais insanos que circulam a seu respeito. Caros 
espectadores, passo a apresentar-vos o nosso novo correspondente: Roedor.

- Roedor? - estranhou outra voz ainda mais familiar e Harry, Ron e Hermione exclamaram em unssono: - O Fred!

- No. .  o George!

360

- Acho que  o Fred - insistiu Ron, aproximando-se mais, enquanto o gmeo, qualquer que fosse, dizia. - Recuso-me a ser "Roedor", nem pensem, j lhes tinha dito 
que queria ser "Florete"1

- Pronto, seja ento. "Florete", o que se lhe oferece dizer-nos sobre as vrias histrias que temos ouvido a respeito do Chefe dos Devoradores da Morte?

- Ora aqui vai, River - respondeu Fred. - Como os nossos ouvintes sabero, a menos que se tenham refugiado no fundo de um lago de jardim ou num lugar semelhante, 
a estratgia do Quem-Ns-Sabemos de permanecer nas sombras est a criar um belo chinazinho de pnico. Mas ateno, a serem genunas as alegadas aparies dele, devemos 
ter por a  solta qualquer coisa como dezanove Quem-Ns-Sabemos.

- O que at lhe convm, como  evidente - comentou Kmgsley. - O ambiente de mistrio est a criar mais terror do que se ele prprio desse a cara.

- Concordo - referiu Fred. - Por isso, malta, vamos l a ver se a gente se acalma um pouco. As coisas j esto bastante ms, pelo que se dispensam as invenes. 
Por exemplo, esta ideia nova de que o Quem-Ns-Sabemos  capaz de matar com um nico olhar. Isso  para os Basiliscos, ouvintes. Um teste simples: verifiquem se 
a coisa que est a olhar para vocs tem pernas. Se tiver, olhem-na nos olhos, ainda que, se for realmente o Quem-Ns-Sabemos, muito provavelmente ser a ltima coisa 
que faro

Pela primeira vez em semanas e semanas, Harry dava gargalhadas, sentindo o peso da tenso abandon-lo.

- E os rumores de que ele continua a ser avistado no estrangeiro? - inquiriu Lee

- Bem, quem no gostaria de umas feriazinhas depois de toda a trabalheira a que ele se tem dado' - perguntou Fred. - A questo , malta, no se deixem enganar por 
uma falsa sensao de segurana, pensando que ele est fora do pas. Pode estar, ou pode no estar, mas a verdade  que ele se consegue deslocar mais depressa do 
que o Severus Snape quando lhe pem  frente um frasco de champ, por isso no contem que ele esteja muito tempo ausente, se tencionam correr alguns riscos. Nunca 
me imaginei a diz-lo, mas a segurana em primeiro lugar!

- Muitssimo obrigado por estas sbias palavras, Florete - disse Lee - Caros ouvintes, termina assim outro Ultimas do Potter. No sabemos quando ser possvel uma 
nova transmisso, mas

361

podem ter a certeza de que voltaremos. Continuem a rodar o sintonizador: a prxima senha ser "Olho-Louco" Mantenham-se a salvo e no percam a f. Boa noite.

O boto do rdio girou e as luzes por detrs do painel apagaram-se. Harry, Ron e Hermione sorriam ainda. Fora extremamente tonificante ouvir aquelas vozes familiares; 
Harry acostumara-se tanto ao seu isolamento que quase se esquecera de que havia outras pessoas a resistir a Voldemort. Era o mesmo que acordar depois de um longo 
sono.

- Foi bom, hem? - perguntou Ron, todo satisfeito.

- Fabuloso - comentou Harry.

- Muito corajoso da parte deles - suspirou Hermione, cheia de admirao. - Se forem descobertos...

- Bem, eles mudam constantemente de stio, no mudam? - perguntou Ron. - Tal como ns.

- Mas no ouviste o que disse o Fred? - perguntou Harry, todo empolgado; agora que a transmisso terminara, os seus pensamentos voltaram  obsesso que o consumia 
integralmente. - Ele est no estrangeiro! Continua  procura da Varinha, eu sabia!

- Harry...

- Ento, Hermione, por que fazes tanta questo em no o admitir? O Vol...

- HARRY, NO!

- ... demort anda atrs da Varinha de Sabugueiro'

- O nome  Tabu! - barafustou Ron, pondo-se em p de um salto ao mesmo tempo que se ouviu um estalo do lado de fora da tenda. - Eu avisei-te, Harry, eu avisei-te, 
no podemos continuar aqui... temos de colocar a proteco  nossa volta .. depressa ..  assim que eles descobrem..

Mas Ron calara-se, e Harry soube porqu. O Avisoscpio em cima da mesa acendera-se e comeara a rodar; ouviam vozes cada vez mais prximas: vozes rudes, excitadas 
Ron tirou do bolso o Apagador e accionou-o: as luzes apagaram-se.

- Saiam c para fora com as mos no ar! - ouviu-se uma voz spera cortar o escuro. - Sabemos que esto a dentro! Tm meia dzia de varinhas apontadas a vocs e 
no nos interessa quem amaldioamos!

362

XXIII

A MANSO DOS MALFOY

Harry olhou para os outros dois, agora meros contornos na escurido. Viu Hermione apontar a sua varinha, no para o exterior, mas ao seu rosto; houve um rudo, um 
intenso claro branco e depois perdeu as foras, em agonia, deixando de ver. Sentiu, porm, o rosto inchar rapidamente, enquanto passos pesados o rodeavam

- Levanta-te, verme.

Mos desconhecidas iaram Harry rudemente do cho. Antes que tivesse tempo de o impedir, algum lhe remexeu nos bolsos e retirou a varinha de abrunheiro. com os 
dedos, Harry apalpou o rosto que lhe doa intensamente, sem conseguir reconhec-lo; estava inchado e balofo, como se tivesse sofrido uma violenta reaco alrgica. 
Tinha os olhos reduzidos a fendas atravs das quais mal conseguia ver, e os culos caram-lhe quando foi levado da tenda feito um fardo; apenas conseguia distinguir 
as formas desfocadas de quatro ou cinco pessoas a lutar com Ron e Hermione l fora.

- Largue-a! - gritou Ron. Ouviu-se o som inconfundvel de punhos a bater. Ron gemeu de dor e Hermione gritou.

- No! Deixe-o em paz, deixe-o em paz!

- O teu amiguinho vai sofrer bem pior que isto se estiver na minha lista - disse a voz spera horrivelmente familiar.

- Que rapariga deliciosa., que pitu... que pele to macia... adoro...

Harry sentiu um aperto no estmago. Sabia de quem se tratava' Fenrir Greyback, o lobisomem a quem era permitido usar as vestes de Devorador da Morte em troca da 
selvajaria para que fora contratado.

- Revistem a tenda! - ordenou outra voz.

Harry viu-se atirado, de bruos, para o cho. Uma pancada informou-o de que Ron fora arremessado para junto de si. Conseguiam ouvir passos e barulho; dentro da tenda, 
os homens empurravam cadeiras enquanto procediam  busca.

363

- Ora vamos l ver quem apanhmos - disse l em cima a voz de regozijo de Greyback, e Harry foi virado, ficando de costas. Um raio de luz de uma varinha incidiu-lhe 
no rosto e Greyback soltou uma gargalhada.

- vou precisar de Cerveja de Manteiga para poder olhar aqui para este. O que te aconteceu, feioso?

Harry no respondeu de imediato.

- Eu perguntei - repetiu Greyback, e Harry recebeu um soco no diafragma que o fez dobrar-se todo de dor -, o que te aconteceu?

- Picado - murmurou Harry. - Fui picado.

- Pois,  o que parece - proferiu uma segunda voz.

- Como te chamas? - perguntou rispidamente Greyback.

- Dudley - disse Harry.

- E o teu nome prprio?

- Ha... Vernon. Vernon Dudley.

- Confirma na lista, Scabior - ordenou Greyback, e Harry ouviu-o dar dois passos para o lado a fim de interrogar Ron. - E ento tu, Cenoura?

- Stan Shunpike - respondeu Ron.

- Uma ova! - resmungou o homem chamado Scabior. - Ns conhecemos o Stan Shunpike, e ele j colaborou connosco.

Nova pancada seca.

- Xou Bardy - falou Ron, e Harry apercebeu-se de que ele tinha a boca cheia de sangue. - Bardy Weadley.

- Um Weasley? - proferiu Greyback com voz spera. - Ento s familiar dos traidores de sangue apesar de no seres1 Sangue de Lama. E, por ltimo, a tua linda amiguinha... 
- A satisfao na voz dele deixou Harry com a pele toda arrepiada.

- Calma, Greyback - advertiu Scabior, acima do escrnio dos outros.

- Oh, eu no vou morder, por enquanto. Vejamos se ela  um pouco mais rpida que o Barney a lembrar-se do seu nome. Quem s tu, fedelha?

- Penelope Clearwater - respondeu Hermione. Pareceu apavorada, mas convincente.

- E qual  o teu Estatuto?

- Meio-sangue - informou Hermione.

-  bastante fcil de verificar - afirmou Scabior. - Mas todos eles parecem ter idade pr'andar 'inda em Hogwarts...

364

- Vimos embora - explicou Ron.

- Vieram-se embora, foi, Cenoura? - inquiriu Scabior. - E decidiram ir acampar? E pensaste, s no gozo, que podiam usar o nome do Senhor das Trevas?

- No foi gozo - disse Ron. - Acidente.

- Acidente? - Soaram mais gargalhadas escarninhas.

- Sabes quem gostava de usar o nome do Senhor das Trevas, Weasley? - resmungou Greyback. - A Ordem da Fnix. Diz-t'alguma coisa?

- Sim.

- Bem, eles no tratam o Senhor das Trevas com o devido respeito, por isso o nome passou a ser Tabu. Alguns membros da Ordem foram descobertos dessa maneira. Veremos. 
Amarrem-nos com os outros dois prisioneiros.

Algum puxou Harry pelos cabelos, arrastou-o por uma curta distncia, colocando-o numa posio sentada, depois comeou a amarr-lo costas com costas a outras pessoas. 
Harry permanecia meio cego, mal conseguindo ver atravs dos olhos inchados. Quando finalmente o homem que os amarrava se afastou, Harry segredou aos outros prisioneiros.

- Algum tem ainda varinha?

- No - disseram Ron e Hermione, cada um a seu lado.

- Isto  tudo culpa minha, disse o nome, lamento...

- Harry?

Era uma nova voz mas familiar, e vinha directamente de trs Harry, da pessoa amarrada  esquerda de Hermione.

- Dean?

- Es tu! Se eles descobrem quem apanharam...! So Raptores e andam apenas  procura de fugitivos para vender a troco de ouro...

- A pesca at foi rendosa para uma noite - dizia Greyback, quando um par de botas cardadas passou perto de Harry e mais barulhos vindos de dentro da tenda se fizeram 
ouvir. - Uma Sangue de Lama, um goblin fugitivo e trs gazeteiros. J verificaste os nomes deles na lista, Scabior? - bradou.

- J. No 't aqui nenhum Vernon Dudley, Greyback.

- Interessante - comentou Greyback. - Mas que interessante.

Acocorou-se ao lado de Harry, que viu, pelo intervalo infinitesimal entre as suas plpebras inchadas, um rosto coberto de cabelo grisalho eriado e suas, com dentes 
castanhos pontiagudos

365

e feridas aos cantos da boca. Greyback exalava o mesmo mau odor de quando estivera no cimo da Torre onde Dumbledore morrera: a sujidade, suor e sangue.

- com que esto no s procurado, hein, Vernon? Ou ests naquela lista com um nome diferente? Em que equipa estavas em Hogwarts?

- Slytherin - respondeu Harry automaticamente.

- Curioso com'eles julgam que queremos ouvir isso - zombou Scabior, das sombras. - Mas nenhum deles nos sabe dizer onde fica a sala comum.

- Fica nas masmorras - afirmou Harry com toda a clareza.

- Entra-se pela parede. Est cheia de caveiras e fica por debaixo do lago, por isso a luz  esverdeada.

Seguiu-se uma breve pausa.

- Ena, ena, parece que apanhmos mesmo um Slytherinzinho

- comentou Scabior. - Sorte a tua, Vernon, pois no h muitos Slytherin Sangue de Lama. Quem  o teu pai?

- Trabalha no Ministrio - mentiu Harry. Sabia que toda aquela histria cairia por terra mal comeassem a investigar, mas, afinal de contas, a brincadeira acabaria 
assim que o seu rosto retomasse o aspecto normal. - Departamento de Acidentes e Catstrofes Mgicos.

- Sabes que mais, Greyback? - interveio Scabior. - Penso que h l um Dudley.

Harry mal conseguia respirar: seria possvel que a sorte, a pura sorte, os conseguisse tirar de forma segura daquele aperto?

- Ena, ena - disse Greyback, e Harry detectou um nfimo tom de agitao naquela voz insensvel e percebeu que Greyback tinha curiosidade em saber se, de facto, acabara 
de atacar e amarrar o filho de um funcionrio do Ministrio. O seu corao latejava de encontro s cordas que lhe amarravam as costelas; no se surpreenderia se 
Greyback o conseguisse sentir. - Se ests a dizer a verdade, feioso, no temers uma ida ao Ministrio. Espero que o teu pai nos recompense por te termos apanhado.

- No entanto - referiu Harry, com a boca completamente ressequida -, se nos deixasse...

- Hei! - ouviu-se um grito do interior da tenda. - Olha-me para isto, Greyback!

Uma figura escura avanou apressada na direco deles, e Harry viu um refulgir de prata  luz das varinhas. Haviam encontrado a espada de Gryffindor.

366

- Mu-ui-to bonita - comentou Greyback em tom de apreciao, tomando-a do companheiro. - Oh, muito bonita mesmo. Parece ter sido fabricada por goblins, sim senhor. 
Onde arranjaste uma coisa destas?

-  do meu pai - mentiu Harry, na esperana efmera de que estivesse demasiado escuro para Greyback conseguir ver o nome gravado por debaixo do punho. - Pedimo-la 
emprestada para cortar lenha...

- Calm'a, Greyback! Olha pra isto, n'O Profeta!

No momento em que Scabior falou, a cicatriz de Harry, que estava completamente esticada sobre a sua testa retesada, ardeu-lhe intensamente. com mais clareza do que 
distinguia o que se passava em seu redor, viu um edifcio muito alto, uma fortaleza sinistra, negra e medonha: os pensamentos de Voldemort tinham-se tornado subitamente 
ntidos; voava na direco do edifcio gigantesco com uma sensao de finalidade simultaneamente calma e eufrica...

To perto... to perto...

com um enorme esforo de vontade, Harry fechou a sua mente aos pensamentos de Voldemort, obrigando-se a regressar ao local onde permanecia sentado, amarrado a Ron, 
Hermione, Dean e Griphook, escutando Greyback e Scabior.

- "Hermione Granger" - dizia Scabior -, "a Sangue de Lama que se sabe viajar com Harry Potter."

A cicatriz de Harry ardia no silncio sbito, mas fez um esforo supremo para se manter presente, para no resvalar para a mente de Voldemort. Ouviu o chiar das 
botas de Greyback ao acocorar-se diante de Hermione.

- Sabes uma coisa, pequenota? Esta fotografia parece-se imenso contigo.

- No ! No sou eu!

O guincho apavorado de Hermione equivaleu a uma confisso.

- "... que se sabe viajar com Harry Potter" - repetiu Greyback calmamente.

O silncio descera sobre a cena. A cicatriz de Harry doa-lhe intensamente, mas lutou com todas as suas foras contra o chamamento dos pensamentos de Voldemort: 
nunca fora to importante manter a lucidez.

- Bem, o caso muda de figura, no muda? - murmurou Greyback.

Ningum falou. Harry apercebeu-se de que o bando de Raptores observava, esttico, e sentiu o brao de Hermione tremer

367

junto ao seu. Greyback levantou-se e deu dois passos, at onde Harry estava sentado, tornando a acocorar-se para olhar de perto as suas feies deformadas.

- O que  isso na tua testa, Vernon? - perguntou baixinho, o seu bafo ftido nas narinas de Harry quando encostou um dedo imundo  cicatriz esticada.

- No lhe toque! - gritou Harry. Fora mais forte do que ele; julgou que ia vomitar tal era a dor que sentia.

- Estava convencido de que usavas culos, Potter - proferiu Greyback melifluamente.

- Encontrei uns culos! - bradou um dos Raptores, movendo-se ao fundo. - Havia uns culos na tenda, Greyback, espera...

E segundos depois, os culos de Harry tinham-lhe sido enfiados  fora no rosto. Os Raptores aproximaram-se ento, observando-o atentamente.

-  ele! - bradou Greyback com voz spera. - Apanhmos o Potter!

Recuaram todos alguns passos, atnitos com o que haviam feito. Harry, continuando a esforar-se por se manter lcido apesar de sentir a cabea dilacerada, no soube 
o que responder: vises fragmentadas rasavam a superfcie da sua mente...

..ele deslizava em torno das altas muralhas da fortaleza negra...

No, ele era Harry, amarrado e sem a varinha, correndo enorme perigo...

.. erguendo o olhar, at  janela cimeira, na torre mais alta...

Ele era Harry, e discutiam o seu destino em voz baixa...

.. tempo de voar...

- ... para o Ministrio?

- O Ministrio que v para o diabo - resmungou Greyback. - Eles ficam com os louros, e ns a ver navios. Vamos mas  lev-lo directamente ao Quem-Ns-Sabemos.

- Vais convoc-lo? Para aqui? - inquiriu Scabior, parecendo apavorado.

- No - bradou Greyback -, eu no tenho... dizem que ele est a usar a casa dos Malfoy como base. Levamos o rapaz para l.

Harry julgou saber o motivo por que Greyback no ia chamar Voldemort. O lobisomem podia estar autorizado a usar as vestes de Devorador da Morte quando os seus servios 
eram solicitados, mas s o crculo ntimo de Voldemort apresentava a Marca Negra. No fora concedida a Greyback a mais elevada das honras.

368

A cicatriz de Harry tornou a arder intensamente... ... e ele elevou-se na noite, voando at  janela mesmo no cimo da torre...

- ... a certeza absoluta de qu'  ele? Porque se na' for, Greyback,  o nosso fim.

- Quem  que manda aqui? - atroou Greyback, disfarando o seu momento de fraqueza. - Eu digo que  o Potter, ele mais a sua varinha, isso d duzentos Galees no 
mnimo! Mas se forem demasiado medrosos para me acompanharem, qualquer de vocs, ento fica tudo para mim, e com alguma sorte, acabo por levar tambm a rapariga!

.. a janela era uma nfima fenda na rocha negra, demasiado estreita para um homem entrar... via-se apenas uma figura esqueltica atravs dela, toda encolhida debaixo 
de um cobertor... morta, ou adormecida...?

- Est bem! - concordou Scabior. - Est bem, ns alinhamos! E os outros, Greyback, o que fazemos com eles?

- J agora, podamos lev-los todos. Temos dois Sangues de Lama, isso so mais dez Galees. D-me tambm a espada. Se forem rubis, est ali outra pequena fortuna.

Os prisioneiros foram levantados  fora. Harry conseguia ouvir a respirao de Hermione, acelerada de terror.

- Agarrem bem e no larguem. Eu pego no Potter! - disse Greyback, apanhando um punhado de cabelo de Harry; este sentiu as unhas dele, compridas e amarelas, rasparem-lhe 
o couro cabeludo. - Aos trs ! Um... dois... trs...

Desapareceram, arrastando consigo os prisioneiros. Harry debateu-se, tentando livrar-se da mo de Greyback, mas era escusado: Ron e Hermione estavam comprimidos 
contra ele de cada lado, era impossvel separar-se do grupo e,  medida que o ar lhe saa  fora dos pulmes, a cicatriz ardia-lhe ainda mais dolorosamente...

..qual cobra, enfiava-se a fora pela fresta de uma janela e pousava, com a leveza do vapor, numa espcie de cela...

Os prisioneiros embateram uns nos outros ao aterrarem numa vereda campestre. Os olhos de Harry, ainda inchados, levaram um momento a aclimatar-se, depois viu dois 
portes de ferro forjado no fim do que se afigurava um longo caminho de acesso. Sentiu uma nfima pontada de alvio, pois o pior estava ainda para acontecer: Voldemort 
no estava ali.

Encontrava-se, como Harry sabia muito bem, pois esforava-se por resistir  viso, num estranho lugar, uma espcie de for

369

taleza, no cimo de uma torre. Quanto tempo demoraria a chegar, mal soubesse da presena de Harry, isso j era outra questo... Um dos Raptores avanou em grandes 
passadas para os portes e sacudiu-os.

- Como entramos? Esto trancados, Greyback, no consigo... co'a breca!

Retirou as mos, assustado. O ferro contorcia-se, perdendo os arcos e espirais abstractos, transformando-se num rosto assustador, que falou numa voz metlica e retumbante: 
- Refira ao que vem!

- Apanhmos o Potter! - anunciou Greyback em tom triunfante. - Capturmos o Harry Potter!

Os portes abriram-se.

- Vamos! - ordenou Greyback aos seus homens e os prisioneiros foram empurrados atravs dos portes e comearam a subir o acesso, passando entre sebes altas que abafavam 
os seus passos. Harry viu uma forma branca espectral por cima de si, e apercebeu-se de que era um pavo albino. Tropeou e foi levantado por Greyback; caminhava 
agora em passos vacilantes, de lado, amarrado costas com costas aos outros quatro prisioneiros. Fechando os olhos inchados, deixou que a dor na sua cicatriz o vencesse 
momentaneamente, querendo saber o que fazia Voldemort, se j saberia que Harry Potter fora apanhado...

.. afigura emaciada agitou-se por baixo do cobertor fino e virou-se para ele, os olhos abrindo-se num rosto cadavrico... o homem frgil estava sentado, os enormes 
olhos encovados cravados nele, em Voldemort, e depois sorriu. Perdera a maior parte dos dentes...

"com que ento vieste. Bem me quis parecer que o farias... um dia. Mas a tua viagem foi em vo. Nunca a tive."

"Mentes!"

 medida que a raiva de Voldemort latejava dentro dele, a cicatriz de Harry ameaava explodir de dor; fez um esforo brusco para que a sua mente regressasse ao corpo, 
procurando a todo o custo manter-se presente, enquanto os prisioneiros eram empurrados pela gravilha.

A luz incidiu sobre o grupo.

- O que  isto? - perguntou uma voz de mulher.

- Viemos ver Aquele Cujo Nome No Deve Ser Pronunciado! - justificou-se Greyback na sua voz spera.

- Quem  voc?

- A senhora conhece-me! - Havia ressentimento na voz do lobisomem. - Fenrir Greyback! Apanhmos o Harry Potter.

370

Greyback agarrou Harry e virou-o bruscamente para a luz, obrigando os outros prisioneiros a acompanhar tambm o movimento.

- Sei que 't inchado, minha senhora, mas  ele! - interveio Scabior. - Se olhar com ateno, ver a cicatriz . E esta 'qui, v,  a rapariga, a Sangue de Lama que 
tem andado a viajar com ele, minha senhora. No h dvida qu' ele, e temos tambm a varinha! Olhe, minha senhora...

Harry viu Narcissa Malfoy observar com ateno o seu rosto inchado. Scabior estendeu-lhe bruscamente a varinha de abrunheiro. Ela arqueou os sobrolhos.

- Tragam-nos para dentro - ordenou.

Harry e os outros foram obrigados a subir as escadas de pedra entre empurres e pontaps, entrando num hall com paredes cobertas de retratos.

- Sigam-me - ordenou Narcissa, indo na frente enquanto atravessava o espao. - O meu filho, Draco, veio passar as frias da Pscoa a casa. Se esse for o Harry Potter, 
ele saber.

A sala de visitas ofuscava depois da escurido exterior; mesmo com os olhos quase fechados, Harry conseguia distinguir as propores imensas do aposento. Um lustre 
de cristal pendia do tecto e viam-se mais retratos nas paredes violceas. Duas figuras levantaram-se das poltronas diante de uma lareira de mrmore trabalhado, quando 
os prisioneiros foram empurrados pelos Raptores para dentro da sala.

- O que vem a ser isto?

A voz arrastada de Lucius Malfoy, desagradavelmente familiar, chegou aos ouvidos de Harry, que comeou a entrar em pnico: no via qualquer sada, e tornava-se mais 
fcil,  medida que o seu medo aumentava, isolar os pensamentos de Voldemort, apesar de a cicatriz continuar a arder.

- Dizem que apanharam o Potter - anunciou a voz fria de Narcissa. - Draco, chega aqui.

Harry no ousou olhar directamente para Draco, observando-o de lado: uma figura ligeiramente mais alta que ele, erguendo-se de uma poltrona, o rosto uma mancha plida 
e afilada sob o cabelo louro-esbranquiado.

Greyback obrigou os prisioneiros a girar novamente de modo a posicionar Harry mesmo por baixo do lustre.

- Ento, rapaz? - ouviu-se a voz desabrida do lobisomem. Harry estava virado para um espelho por cima da lareira, um

enorme objecto dourado com uma moldura de ornamentos sinuo

371

sos. Atravs das fendas dos olhos, viu pela primeira vez o seu prprio reflexo desde que abandonara Grimmauld Place.

O rosto estava enorme, reluzente e rosado, as feies distorcidas pelo feitio de Hermione. O cabelo preto chegava-lhe aos ombros e havia uma sombra escura  volta 
do maxilar. Se no soubesse que era ele quem estava ali, ter-se-ia perguntado quem usava os seus culos. Resolveu no falar, pois a voz decerto o denunciaria e continuou 
a evitar olhar directamente para Draco quando este ltimo se aproximou.

- Ento, Draco? - indagou Lucus Malfoy. Parecia ansioso. -  ele? E o Harry Potter?

- Eu no... eu no tenho a certeza - respondeu Draco. Mantinha-se afastado de Greyback, e parecia to assustado por ter de olhar para Harry quanto este para si.

- Mas olha para ele com ateno, olha! Aproxima-te mais! Harry nunca vira Lucius Malfoy to excitado.

- Draco, se formos ns a entregar o Potter ao Senhor das Trevas, tudo ser perdo...

- S espero que no se esteja a esquecer de quem realmente o apanhou, Mr. Malfoy? - interps Greyback em tom ameaador.

- Claro que no, claro que no! - impacientou-se Lucius. Aproximou-se tanto de Harry que este conseguiu ver o rosto normalmente aptico e plido com ntido pormenor 
mesmo atravs dos olhos inchados. com o seu prprio rosto transformado numa mscara balofa, Harry tinha a sensao de estar a espreitar por entre as grades de uma 
gaiola.

- O que lhe fizeste? - perguntou Lucius a Greyback. - Como foi que ele ficou neste estado?

- Isso no fomos ns.

- Pois a mim parece-me um Feitio de Ferrar - referiu Lucius.

Os seus olhos cinzentos esquadrinharam a testa de Harry.

- H algo ali - murmurou -, poderia ser a cicatriz, completamente esticada... Draco, chega aqui, olha como deve ser! O que te parece?

Harry viu ento o rosto de Draco aproximar-se, mesmo ao lado do do pai. Eram extraordinariamente parecidos, s que, enquanto o pai dava mostras de no caber em si 
de entusiasmo, a expresso de Draco estava cheia de relutncia, mesmo medo.

- No sei - referiu, e voltou para junto da lareira, onde a me assistia de p.

- Era bom termos a certeza, Lucius - bradou Narcissa ao marido na sua voz fria e cristalina. - A certeza absoluta de que  o Potter, antes de chamarmos o Senhor 
das Trevas... Dizem que esta lhe pertence - olhava com ateno para a varinha de abrunheiro -, mas no corresponde  descrio do Ollivander... Se estivermos equivocados, 
se chamarmos o Senhor das Trevas aqui para nada... lembras-te do que ele fez ao Rowle e ao Dolohov?

- E ento a Sangue de Lama? - resmungou Greyback. Harry foi quase levantado do cho quando os Raptores obrigaram os prisioneiros a rodar de novo, para que a luz 
incidisse em Hermione.

- Espera - disse Narcissa com brusquido. - Sim... sim, ela estava na loja de Madame Malkin com o Potter! Vi a fotografia dela n'O Profetal Olha, Draco, no  a 
tal Granger?

- Eu... talvez... sim.

- Mas, nesse caso, aquele  o Weasley! - exclamou Lucius, dando grandes passadas  volta dos prisioneiros para observar Ron. - So eles, os amigos do Potter... Draco, 
olha para ele,  ou no  o filho do Arthur Weasley, como  que ele se chama...?

- Sim - repetiu Draco, de costas para os prisioneiros. - Pode ser.

A porta da sala de visitas abriu-se atrs de Harry. Uma mulher falou, e o som daquela voz fez com que o medo que sentia aumentasse exponencialmente.

- O que vem a ser isto? O que aconteceu, Cissy?

Snitch Lestrange caminhou lentamente  volta dos prisioneiros e parou mesmo  direita de Harry, fitando Hermione atravs dos seus olhos de plpebras pesadas.

- No me digam - afirmou com muita calma -, que esta  a Sangue de Lama? Que  a Granger?

- Sim, sim,  a Granger! - exclamou Lucius. - E ao lado dela, segundo julgamos, est o Potter! O Potter e os seus amigos, finalmente apanhados!

- O Potter? - esganiou-se Snitch, e recuou, para melhor contemplar Harry. - Tm a certeza? Bem, nesse caso, o Senhor das Trevas tem de ser imediatamente informado!

Arregaou a manga esquerda: Harry viu a Marca Negra cauterizada na carne do brao dela, e percebeu que se preparava para lhe tocar, para chamar o seu querido amo.

- Eu ia agora mesmo cham-lo! - disse Lucius, e a sua mo fechou-se sobre o pulso de Snitch, impedindo-a de tocar na

372

373



Marca. - Eu vou cham-lo, Bella, o Potter foi trazido a minha casa, por conseguinte, encontra-se sob a minha autoridade.

- A tua autoridade! - escarneceu ela, tentando libertar a mo da presso dele. - Perdeste a tua autoridade quando perdeste a varinha, Lucius! Como te atreves! Tira 
as mos de cima de mim!

- Isto no tem nada a ver contigo, no foste tu quem capturou o rapaz...

- com sua licena, Mr. Malfoy - interrompeu Greyback -, mas fomos ns que apanhmos o Potter, e somos ns que vamos reclamar o ouro.

- O ouro! - riu-se Snitch, continuando a tentar libertar-se do cunhado, a mo livre procurando no bolso a varinha. - Leva o teu ouro, abutre imundo, para que quero 
eu o ouro? S pretendo a honra da sua... da. .

Deixou de se debater, os olhos escuros cravados em algo que Harry no conseguia ver. Radiante com a sua desistncia, Lucius largou-lhe bruscamente a mo e arregaou 
a manga...

- PRA! - guinchou Bellatrix --No lhe toques, pereceremos todos se o Senhor das Trevas vier agora!

Lucius estacou, o dedo indicador pairando sobre a sua prpria Marca. Bellatrix abandonou de sbito a limitada linha de viso de Harry.

- O que  aquilo? - ouviu-a perguntar.

- Uma espada - resmungou um dos Raptores, fora do campo de viso.

- Traz-ma.

- No  sua, Patroa,  minha, fui eu quem a encontrou. Ouviu-se um estalo e um claro de luz vermelha: Harry

apercebeu-se de que o Raptor fora Atordoado. Seguiu-se um urro de raiva dos seus comparsas e Scabior sacou da varinha.

- Mas o que raio vem a ser isto, mulher?

- Atordoar! - gritou ela -, atordoar!

Ningum lhe fez frente, apesar de serem quatro contra uma: como Harry sabia, ela era uma feiticeira de capacidades prodigiosas e sem qualquer pejo Caram onde estavam, 
todos menos Greyback, que fora obrigado a ajoelhar-se, de braos esticados. Pelo canto do olho, Harry viu Bellatrix aproximar-se rapidamente do lobisomem, a espada 
de Gryffindor bem firme na mo, o rosto plido

- Onde arranjaste esta espada? - sussurrou a Greyback ao retirar-lhe a varinha sem que ele oferecesse a menor resistncia.

- Como se atreve! - resmoneou, conseguindo apenas mexer a boca e vendo-se forado a encar-la. Mostrou os dentes afiados. - Liberte-me, mulher!

- Onde encontraste esta espada? - insistiu ela, brandindo-a junto do rosto dele. - O Snape enviou-a para o meu cofre em Gringotts!

- Estava na tenda deles - articulou Greyback na sua voz spera. - Liberte-me, est a ouvir?

Bellatrix brandiu a varinha e o lobisomem ps-se em p de um salto, mas pareceu demasiado desconfiado para se aproximar dela. Comeou a rondar por detrs de uma 
poltrona, cravando as unhas imundas e curvas nas costas do mvel.

- Draco, livra-te desta escumalha - ordenou Bellatrix, indicando os homens inconscientes - Se no tiveres coragem para acabar com eles, ento deixa-os no ptio para 
mim.

- Como te atreves a falar com o Draco dessa... - interveio Narcissa, furibunda, mas Bellatrix gritou: - Cala-te! A situao  mais grave do que possas imaginar, 
Cissy1 Temos um problema gravssimo1

Levantou-se, ligeiramente ofegante, olhando para a espada, examinando-lhe o punho. De seguida, virou-se para observar os quatro prisioneiros silenciosos.

- Se for realmente o Potter, no lhe devem fazer mal - murmurou mais para si do que para os outros. - O Senhor das Trevas deseja encarregar-se pessoalmente do Potter... 
mas se ele descobre... preciso... preciso de saber...

Virou-se novamente para a irm

- Os prisioneiros tm de ser metidos na cave, enquanto decido o que fazer!

- Esta  a minha casa, Bella, tu no ds ordens na minha...

- Imediatamente! No imaginas o perigo que corremos! - esgamou-se Bellatrix; parecia assustada, louca; da sua varinha brotou uma fina labareda que abriu um buraco 
na carpete.

Narcissa hesitou momentaneamente e depois dirigiu-se ao lobisomem. - Leva estes prisioneiros para a cave, Greyback.

- Espera - ordenou Bellatrix rispidamente. - Todos excepto... excepto a Sangue de Lama.

Greyback emitiu um ronco de prazer.

- No! - gritou Ron - Pode ficar comigo, fazer o que quiser!

Bellatrix atingiu-o no rosto e o golpe ecoou pela sala.

374

375

- Se ela morrer ao ser interrogada, chegar a tua vez. - No meu livro, os traidores do sangue vm logo a seguir aos Sangues de Lama. Leva-os para baixo, Greyback, 
e certifica-te de que ficam bem fechados, mas no lhes faas nada... por enquanto.

Devolveu a varinha a Greyback atirando-lha e, em seguida, tirou do manto um pequeno punhal de prata. Separou Hermione dos outros prisioneiros, depois arrastou-a 
pelos cabelos at ao meio da sala, enquanto Greyback obrigava os restantes a passar por outra porta, at um corredor escuro, a varinha estendida diante de si, projectando 
uma fora invisvel e irresistvel.

- Acham que ela me deixar um pedao da rapariga quando j no lhe servir? - sussurrou Greyback enquanto os empurrava pelo corredor. - Acho que vou poder dar-lhe 
uma dentada ou duas, o que me dizes, Cenoura?

Harry sentia Ron tremer. Foram obrigados a descer um lano de escadas ngremes, ainda amarrados costas com costas e em perigo de escorregarem e partirem o pescoo 
a qualquer instante. Ao fundo havia uma porta pesada. Greyback destrancou-a com uma pancada da varinha, depois obrigou-os a entrar num espao hmido e bafiento e 
deixou-os na mais completa escurido. Ainda o eco da porta da cave a fechar-se no cessara quando um grito arrepiante e entrecortado se ouviu mesmo por cima deles.

- HERMIONE! - berrou Ron, e comeou a contorcer-se e a debater-se nas cordas que os uniam, chegando a fazer Harry cambalear. - HERMIONE!

- Silncio! - imps Harry. - Cala-te, Ron, precisamos de descobrir uma maneira de sairmos daqui.

- HERMIONE! HERMIONE!

- Precisamos de um plano, pra de berrar... temos de nos livrar destas cordas.

- Harry? - um murmrio propagou-se no escuro. - Ron? So vocs?

Ron deixou de gritar. Ouviu-se um movimento prximo deles, depois Harry viu uma sombra abeirar-se.

- Harry? Ron?

- Luna?

- Sim, sou eu! Oh, no, eu no queria que fossem apanhados!

- Luna, podes ajudar-nos a tirar estas cordas? - inquiriu Harry.

- Oh, sim, espero que sim... h um prego velho que usamos quando necessitamos de partir alguma coisa... s um momento...

376

Hermione tornou a gritar l em cima, e ouviram Belatrix tambm aos berros, mas as palavras dela no se perceberam, pois Ron clamou novamente: - HERMIONE! HERMIONE!

- Mr. Ollivander? - Harry ouviu Luna dizer. - Mr. Ollivander, tem o prego? Se se afastar um nadinha... creio que estava ao lado do jarro da gua...

Voltou numa questo de segundos.

- Vo ter de ficar quietos - avisou.

Harry sentiu-a escarafunchar nas fibras grossas para desfazer os ns. A voz de Bellatrix chegou-lhes l de cima.

- vou perguntar-te de novo! Onde arranjaste esta espada? Onde?

- Encontrmo-la... ns encontrmo-la... POR FAVOR! - voltou Hermione a gritar; Ron debateu-se mais intensamente do que nunca e o prego ferrugento raspou no pulso 
de Harry.

- Ron, por favor fica quieto! - murmurou Luna. - No vejo o que estou a fazer...

- O meu bolso! - exclamou Ron. - No meu bolso, h um Apagador, e est cheio de luz!

Decorridos alguns segundos, ouviu-se um estalido e as esferas luminescentes que o Apagador absorvera das lmpadas da tenda voaram para a cave: incapazes de se reunirem 
s suas fontes, ficaram simplesmente ali em suspenso, como minsculos sis, enchendo a sala subterrnea de luz. Harry viu Luna, toda ela olhos no rosto branco, e 
a figura imvel de Ollivander, o fabricante de varinhas, encolhido no cho ao canto. Esticando o pescoo, viu quem eram os seus companheiros de cativeiro: Dean e 
Griphook, o goblin, que parecia quase inconsciente, mantido de p pelas cordas que o prendiam aos humanos.

- Oh, assim  muito mais fcil, obrigada, Ron - disse Luna, e recomeou a atacar as cordas. - Ol, Dean!

L de cima chegou-lhes a voz de Bellatrix.

- Ests a mentir, Sangue de Lama imunda, e eu sei! Estiveste dentro do meu cofre em Gringotts! Diz a verdade, diz a verdade!

Outro grito medonho...

- HERMIONE!

- O que mais levaste? O que mais tens contigo? Diz-me a verdade, seno juro que te espeto este punhal!

- Pronto!

Harry sentiu as cordas carem e virou-se, esfregando os pulsos, vendo Ron correr  volta da cave, olhando para o tecto baixo, procurando um alapo. Dean, com o 
rosto ensanguentado e

377

coberto de ndoas negras, agradeceu a Luna e ficou ali a tremer, mas Griphook deixou-se cair no cho da cave, parecendo tonto e desorientado, com muitos verges 
no seu rosto trigueiro. Ron tentava naquele momento Desaparecer sem varinha

- No tem sada, Ron - explicou Luna, observando os esforos infrutferos dele. - A cave  completamente  prova de fuga. Ainda cheguei a tentar. Mr Ollivander est 
aqui h muito mais tempo e j experimentou tudo.

Hermione gritava de novo: o som atravessou Harry como uma dor fsica. Mal se apercebendo do intenso ardor na cicatriz, tambm ele comeou a correr  volta da cave, 
tacteando as paredes  procura sabia-se l do qu, consciente no seu ntimo de que era escusado.

- O que mais levaste? O que mais? RESPONDE-ME! CRUCIO'

Os gritos de Hermione ecoavam l em cima, Ron ia soluando enquanto desferia socos nas paredes e Harry, no mais absoluto desespero, agarrou a bolsa de Hagridque 
usava ao pescoo e enfiou os dedos l dentro: retirou a Snitch de Dumbledore e sacudiu-a, esperando no sabia o qu... no aconteceu nada; agitou as metades partidas 
da varinha de fnix, que permaneceram sem vida... o fragmento de espelho caiu ao cho a cintilar, e viu um brilho de um azul muito intenso...

O olho de Dumbledore fitava-o do espelho.

- Ajude-nos! - gritou em louco desespero. - Estamos na cave da Manso dos Malfoy, ajude-nos!

O olho piscou e desapareceu.

Harry no teve a certeza se o vira realmente. Inclinou o fragmento do espelho para c e para l, e no apareceu nada reflectido a no ser as paredes e o tecto da 
priso, e l em cima Hermione a gritar desalmadamente e, a seu lado, Ron, bradando: - HERMIONE! HERMIONE!

- Como  que entraste no meu cofre? - ouviram Bellatrix gritar. - Foi aquele goblin nojento quem te ajudou?

- Ns s a encontrmos esta noite! - soluou Hermione. - Nunca estivemos dentro do seu cofre... a espada no  verdadeira! No passa de uma imitao, apenas uma 
imitao!

- Uma imitao? - esganiou-se Bellatrix. - Oh, e esperas que eu acredite?

- Mas podemos descobri-lo facilmente! - ouviu-se a voz de Lucius - Draco, vai buscar o goblin, ele pode dizer-nos se a espada  verdadeira ou no!

378

Harry atravessou a cave, aproximando-se do stio onde Gripook jazia no cho, todo encolhido.

- Gripook - murmurou junto  orelha pontiaguda do goblin -, tens de lhes dizer que a espada  falsa, eles no podem saber que  a verdadeira, Gripook, por favor...

Ouviu algum descer a correr as escadas da cave; logo de seguida, ouviu-se a voz trmula de Draco do outro lado da porta.

- Afastem-se Formem uma fila junto  parede do fundo. No tentem nada, seno mato-os!

Fizeram o que lhes mandavam, quando a fechadura rodou, Ron accionou o Apagador e as luzes recolheram ao seu bolso, devolvendo a escurido  cave. A porta escancarou-se; 
Malfoy entrou pomposamente, a varinha estendida diante de si, plido e determinado. Agarrou o pequeno goblin por um brao e saiu s arrecuas, arrastando consigo 
Griphook. A porta bateu ao fechar-se e ao mesmo tempo ecoou dentro da cave um sonoro estalido.

Ron activou o Apagador. Trs bolas de fogo voaram novamente pelo ar, abandonando o seu bolso e revelando Dobby, o elfo domstico, que acabara de Aparecer no meio 
deles

- DOB..!

Harry bateu no brao de Ron para o impedir de gritar, e aquele ficou apavorado ao aperceber-se do seu erro. Ouviram-se passos a atravessar o tecto l em cima: Draco 
a levar Griphook a Bellatrix.

Os olhos de Dobby, enormes e em forma de bola de tnis, estavam arregalados; tremia dos ps s pontas das orelhas. Voltara  casa dos seus antigos amos e via-se 
bem que estava petrificado.

- Harry Potter - chiou, a voz num tremor quase inaudvel -, Dobby vir salv-lo.

- Mas como  que tu...?

Um grito medonho abafou as palavras de Harry: Hermione estava novamente a ser torturada. Foi direito ao assunto.

- Consegues Desaparecer desta cave? - perguntou a Dobby, que anuiu, abanando as orelhas.

- E consegues levar humanos contigo? Dobby anuiu outra vez.

- Muito bem. Dobby, quero que pegues na Luna, no Dean e em Mr. Ollivander e os leves... os leves a...

- ...a casa do Bill e da Fleur - disse Ron. - A Casa das Conchas, nos arredores de Tinworth!

O elfo anuiu uma terceira vez.

379

- E depois voltas - pediu Harry. - s capaz de o fazer, Dobby?

- Claro, Harry Potter - murmurou o pequeno elfo. Correu para junto de Mr. Ollivander, que mal parecia estar consciente. Tomou uma das mos do fabricante de varinhas 
na sua, depois estendeu a outra a Luna e a Dean, nenhum dos quais se mexeu

- Harry, ns queremos ajudar-te! - segredou Luna.

- No podemos deixar-te aqui - disse Dean

- Vo, vocs os dois! Encontramo-nos em casa do Bill e da Fleur.

Enquanto Harry falava, a sua cicatriz ardeu como nunca, e durante alguns segundos olhou para baixo, no para o fabricante de varinhas, mas para outro homem que era 
igualmente velho, igualmente magro, mas soltava gargalhadas de desdm.

"Mata-me ento, Voldemort, a morte ser bem vinda! Mas a minha morte no te trar o que procuras... h tanta coisa que tu no entendes...

Sentiu a fria de Voldemort, mas quando Hermione gritou novamente, ignorou-a, regressando  cave e ao horror do seu prprio presente.

- Vo! - suplicou Harry a Luna e Dean. - Vo! Ns iremos em seguida, mas vo!

Agarraram os dedos estendidos do elfo. Ouviu-se outro estalido sonoro, e Dobby, Luna, Dean e Ollivander desapareceram.

- O que foi aquilo? - gritou Lucius Malfoy por cima das cabeas deles. - Ouviram aquilo? Que barulho foi aquele na cave?

Harry e Ron entreolharam-se.

- Draco .. no, chama o Wormtail! Obriga-o a ir verificar! Ouviram-se passos a atravessar a sala l em cima, depois reinou

o silncio. Harry sabia que as pessoas na sala de visitas se tinham posto  escuta de mais rudos vindos da cave.

- Vamos ter de tentar neutraliz-lo - murmurou a Ron. No tinham alternativa: assim que algum entrasse no espao e desse pela ausncia de trs prisioneiros, estavam 
perdidos. - Deixa as luzes acesas - acrescentou Harry, e quando ouviram algum descer as escadas do lado de fora da porta, coseram-se com a parede de ambos os lados.

- Afastem-se - ouviu-se a voz de Wormtail. - Afastem-se da porta. vou entrar.

A porta escancarou-se. Durante uma fraco de segundo, Wormtail ficou a olhar para a cave aparentemente vazia, encan deado pela luz dos trs sis em miniatura que 
pairavam no meio do ar. Depois Harry e Ron caram sobre ele. Ron agarrou-lhe o brao que segurava a varinha e levantou-o  bruta; Harry tapou-lhe a boca com a mo, 
abafando-lhe a voz. Lutaram em silncio a varinha de Wormtail lanou fascas e a sua mo de prata fechou-se  volta da garganta de Harry.

- O que , Wormtail? - gritou Lucius Malfoy l de cima.

- Nada! - respondeu Ron, numa imitao razovel da voz asmtica de Wormtail. - Est tudo bem!

Harry mal conseguia respirar.

- Vais-me matar' - perguntou, articulando a custo e tentando afastar os dedos de metal. - Depois de te ter salvado a vida' Ests em dvida para comigo, Wormtail!

Os dedos de prata afrouxaram a presso. Harry no estava  espera e libertou-se, surpreendido, mantendo a mo sobre a boca de Wormtail Viu os olhos pequenos e aquosos 
do homem, que faziam lembrar os de um rato, arregalarem-se de medo e surpresa, parecia to chocado quanto Harry ante o que a sua mo fizera, ante o minsculo impulso 
misericordioso que evidenciara, e continuou a lutar mais energicamente, como que para anular o efeito daquele momento de fraqueza.

- E vamos ficar-te com isto - cochichou Ron, tirando-lhe a varinha com a outra mo

Sem varinha e impotente, as pupilas de Pettigrew dilataram-se de terror. Os seus olhos tmham-se deslocado do rosto de Harry para outra coisa. Os dedos de prata aproximavam-se 
inexoravelmente da sua prpria garganta

- No...

Sem parar para pensar, Harry tentou puxar a mo para trs, mas no havia como sust-la. A ferramenta de prata que Voldemort oferecera ao seu servo mais cobarde virara-se 
contra o prprio possuidor Desarmado e sem prstimo; Pettigrew colhia a recompensa da sua hesitao, do seu momento de piedade; estava a ser estrangulado diante 
dos olhos deles.

- No!

Ron largara tambm Wormtail, e juntos, ele e Harry tentaram arrancar os dedos de metal que esmagavam a garganta de Wormtail, mas era escusado. Pettigrew comeava 
a ficar roxo

- Relashw! - disse Ron, apontando a varinha  mo de prata, s que no aconteceu nada; os joelhos de Pettigrew cederam, e em simultneo, Hermione soltou um grito 
medonho l em cima.

380

381

Wormtail revirou os olhos no rosto arroxeado, teve um ltimo espasmo e imobihzou-se.

Harry e Ron entreolharam-se, depois, deixando o corpo de Wormtail no cho atrs de si, subiram as escadas a correr e voltaram ao corredor umbroso que dava acesso 
 sala de visitas. Avanaram cautelosamente, at chegarem  porta, que se encontrava entreaberta. Tinham agora uma boa viso de Bellatrix a olhar para Gripook, que 
segurava a espada de Gryffindor nas suas mos de dedos longos. Hermione estava estendida aos ps de Bellatrix.

- Ento? - perguntou esta a Gripook. -  a espada verdadeira?

Harry aguardou, sustendo a respirao, tentando ignorar o ardor na cicatriz.

- No - respondeu Gripook. -  uma imitao

- Tens a certeza? - arfou Bellatrix. - A certeza absoluta?

- Sim - respondeu o goblin.

O alvio estampou-se no rosto dela, perdendo por completo a tenso.

- ptimo - disse, e com um gesto fortuito da sua varinha, desferiu outro golpe fundo no rosto do goblin, que caiu aos seus ps, soltando um berro. Empurrou-o para 
o lado com um pontap. - E agora - anunciou, numa voz a transbordar de triunfo -, vamos chamar o Senhor das Trevas!

Arregaou ento a manga e tocou com o indicador na Marca Negra.

De imediato, a cicatriz de Harry deu a impresso de se ter aberto de novo. O que o rodeava desapareceu: transformara-se em Voldemort, e o feiticeiro esqueltico 
diante de si esboava-lhe um sorriso desdentado; enfureceu-se ao sentir a convocao .. avisara-os, dissera-lhes expressamente para s o convocarem se fosse Harry 
Potter. Se estivessem enganados...

"Mata-me, ento!" pediu o velho. "No vencers, no podes vencer! Aquela varinha nunca h-de ser tua..."

E Voldemort deu largas  sua fria: um jorro de luz verde encheu a cela da priso e o velho corpo frgil foi levantado da sua cama dura, depois arremessado de novo, 
j sem vida, e Voldemort regressou  janela, controlando a custo a ira... eles sofreriam a sua vingana se no tivessem um bom motivo para o chamarem.

- E acho - disse a voz de Bellatrix -, que podemos livrar-nos da Sangue de Lama. Greyback, leva-a se quiseres.

382

- NOOOOOOOOOOO!

Ron irrompera pela sala; Bellatrix olhou  sua volta, em choque, e decidiu virar a sua varinha para ele...

- Expelharmus' - atroou Ron, apontando a Bellatrix a varinha de Wormtail; a dela voou pelo ar e foi apanhada por Harry, que correra atrs de Ron. Lucius, Narcissa, 
Draco e Greyback deram meia volta; Harry gritou: - Atordoar1 - e Lucius Malfoy desfaleceu na lareira. Jactos de luz voaram das varinhas de Draco, Narcissa e Greyback; 
Harry atirou-se para o cho, rebolando para trs do sof a fim de os evitar.

- PAREM OU ELA MORRE!

Arquejante, Harry espreitou pela esquina do sof. Bellatrix amparava Hermione, que parecia desmaiada, e encostara o punhal de prata  garganta da rapariga.

- Larguem as vossa varinhas - proferiu entre dentes. - Larguem-nas, seno veremos mesmo quo imundo  o sangue dela!

Ron ficou rgido, agarrando a varinha de Wormtail. Harry endireitou-se, segurando ainda a de Bellatrix

- Eu disse para as largarem! - guinchou, encostando mais a lmina  garganta de Hermione; Harry viu aparecerem gotas de sangue.

- Est bem! - gritou, e colocou a varinha de Bellatrix no cho aos seus ps. Ron fez o mesmo com a de Wormtail e levantaram ambos as mos  altura dos ombros.

- ptimo! - comentou com uma expresso irnica. - Draco, vai apanh-las! O Senhor das Trevas vem a, Harry Potter! A tua morte aproxima-se!

Harry tinha conscincia disso; a sua cicatriz rebentava de tanta dor, e conseguia sentir Voldemort a voar pelo cu, vindo de muito longe, sobre um mar escuro e revolto; 
no tardaria a aproximar-se o suficiente para Aparecer, e Harry no via qualquer sada.

- bom - dissebellatrix, baixinho, enquanto Draco regressava rapidamente com as varinhas -, Cissy, acho que devamos voltar a amarrar estes pequenos heris, enquanto 
o Greyback se encarrega da menina Sangue de Lama. Estou certa de que o Senhor das Trevas no se opor a que fiques com a rapariga, Greyback, depois do que fizeste 
esta noite.

Aquando da ltima palavra, ouviu-se um rangido vindo l de cima. Todos eles olharam a tempo de ver o lustre de cristal tremer; depois, com uma chiadeira e um sinistro 
tilintar, comeou a cair.

383

Bellatrix encontrava-se mesmo por debaixo dele; largando Hermione, atirou-se para o lado com um guincho. O lustre esmigalhou-se no cho, numa exploso de cristal 
e correntes, despenhando-se em cima de Hermione e do goblin, que continuava a agarrar a espada de Gryffindor. Estilhaos cintilantes de cristal voaram em todas as 
direces: Draco dobrou-se todo, as mos cobrindo o rosto ensanguentado.

Enquanto Ron comessava retirar Hermione dos destroos, Harry aproveitou a oportunidade, pulou por cima de uma poltrona e arrancou as trs varinhas da mo de Draco, 
apontando-as todas a Greyback e gritando: - Atordoar! - O lobisomem foi levantado do cho pelo feitio triplo, voou at ao tecto e depois estatelou-se no cho.

Enquanto Narcissa afastava Draco de mais perigos, Bellatrix ps-se em p de um salto, o cabelo a esvoaar ao brandir o punhal de prata; mas Narcissa apontara a sua 
varinha na direco da porta.

- Dobby! - exclamou, e at Bellatrix se imobilizou. - Tu! Foste tu quem fez cair o lustre...?

O minsculo elfo entrou na sala em passo rpido, o dedo trmulo apontado  sua antiga ama.

- No dever fazer mal a Harry Potter - proferiu num guincho.

- Mata-o, Cissy - bradou Bellatrix, mas ouviu-se outro sonoro estalido, e tambm a varinha de Narcissa voou pelo ar e aterrou do outro lado da sala

- Seu macacide nojento! - berrou Bellatrix. - Como te atreves a tirar a varinha a uma feiticeira, como te atreves a desafiar os teus amos?

- Dobby no ter amo - chiou o elfo. - Dobby ser um elfo livre, e Dobby vir aqui para salvar Harry Potter e os amigos dele!

A cicatriz de Harry cegava-o de dor. Tinha a vaga sensao de que faltariam momentos, segundos apenas para Lord Voldemort aparecer.

- Ron, apanha... e VAMOS! - gritou, atirando-lhe uma das varinhas; depois baixou-se para puxar Gripook, que ficara debaixo do lustre Iando o goblin, que gemia e 
continuava agarrado  espada, e colocando-o ao ombro, Harry pegou na mo de Dobby e rodopiou ali mesmo para Desaparecer

Ao mergulhar na escurido, captou uma ltima imagem da sala: as figuras plidas e estticas de Narcissa e Draco, a listra ruiva que era o cabelo de Ron, e uma mancha 
de prata a voar, quando o punhal de Bellatrix atravessou a sala at ao local onde ele Desaparecia .

384

A casa do Bill e da Fleur... A Casa das Conchas... A casa do Bill e da Fleur.

Aventurara-se no desconhecido; s lhe restava repetir o nome do destino e esperar que isso bastasse para o levar at l A dor na testa dilacerava-o e o peso do goblin 
esmagava-o; sentia a lmina da espada de GryfEndor nas costas, a mo de Dobby a tremer na sua; perguntou-se se o elfo estaria a tentar assumir o controlo, a pux-los 
na direco certa e tentou, apertando os dedos, indicar que estava tudo bem consigo.

E depois embateram em terra slida e sentiram o cheiro a maresia. Harry caiu de joelhos, libertou a mo de Dobby e procurou depositar Gripook delicadamente no solo.

- Ests bem? - inquiriu, quando o goblin se mexeu, mas Griphook limitou-se a soltar um lamento.

Harry olhou  sua volta no escuro. Parecia existir uma casinha ali perto sob o cu imenso e estrelado, e julgou distinguir movimento no exterior dela.

- Dobby, esta  a Casa das Conchas? - perguntou baixinho, agarrando as duas varinhas que trouxera da casa dos Malfoy, pronto para lutar se necessrio fosse. - Viemos 
ter ao lugar certo? Dobby?

Olhou  sua volta. O pequeno elfo encontrava-se de p a pouca distncia dele.

- DOBBY!

O elfo oscilou ligeiramente, as estrelas reflectidas nos seus enormes olhos brilhantes. Simultaneamente, ele e Harry olharam para o cabo de prata do punhal que saa 
do peito arquejante do elfo

- Dobby.. no .. ACUDAM! - berrou Harry na direco da cabana, na direco das pessoas que se moviam - ACUDAM!

No sabia, nem lhe interessava, se eram feiticeiros ou Muggles, amigos ou inimigos; s lhe importava a mancha escura que alastrava pelo peito de Dobby, e o facto 
de ele ter estendido os braos magritos para si com uma expresso de splica. Harry agarrou-o e deitou-o de lado na erva fria.

- Dobby, no, no morras, no morras..

Os olhos do elfo procuraram-no, e os seus lbios tremeram com o esforo de formar palavras.

- Harry... Potter..

E depois, com um pequeno estremecimento, o elfo imobilizou-se por completo e os seus olhos transformavam-se em enormes globos vtreos salpicados de luz das estrelas 
que j no conseguiam ver.

385

XXIV

O FABRICANTE DE VARINHAS

Foi como mergulhar num velho pesadelo; por um instante, tornou a ajoelhar junto do corpo de Dumbledore, na base da torre mais alta de Hogwarts, s que, na realidade, 
olhava para um corpo minsculo enrolado na erva, trespassado pelo punhal de prata deBellatrix. A voz de Harry continuava a dizer "Dobby. . Dobby .", muito embora 
soubesse que o elfo fora para um stio de onde ele no podia faz-lo regressar.

Passado cerca de um minuto, apercebeu-se de que, afinal, tinham vindo ter ao local certo, pois ali estavam Bill e Fleur, Dean e Luna reunidos  sua volta, enquanto 
permanecia debruado sobre o elfo.

- A Hermione? - perguntou de repente. - Onde  que ela est?

- O Ron levou-a para dentro - explicou Bill. - Ela vai ficar bem.

Harry voltou a olhar para Dobby. Estendeu uma mo e arrancou a lmina afiada do corpo do elfo, de seguida despiu o casaco e cobriu Dobby com ele como se fosse um 
cobertor.

O mar batia nas rochas algures ali perto; Harry escutou-o um bocado enquanto os outros falavam, discutindo assuntos pelos quais no conseguia manifestar interesse, 
tomando decises. Dean transportou Gripook, ferido, para dentro de casa, Fleur acompanhando-os apressada; Bill ia alvitrando sobre a forma de enterrar o elfo. Harry 
concordava sem ter realmente conscincia do que ele dizia. E, nesse entretanto, olhou para o corpo minsculo, e a sua cicatriz picou e ardeu e, numa parte da sua 
mente, como se espreitasse pela extremidade errada de um comprido telescpio, viu Voldemort punir aqueles que tinham ficado na Manso dos Malfoy. A sua raiva era 
medonha e, todavia, a dor de Harry pela perda de Dobby pareceu atenu-la, a ponto de se tornar uma tempestade que o atingiu do outro lado de um imenso oceano silencioso.

- Quero faz-lo como deve ser - foram as primeiras palavras que teve plena conscincia de proferir. - No atravs de magia. Tens uma p?

386

E, pouco depois, metia mos  obra, sozinho, abrindo a sepultura no local que Bill lhe indicara, ao fundo do jardim, entre os arbustos. Escavou com uma espcie de 
fria, satisfeito com o trabalho manual, grato por no envolver qualquer magia; cada gota de suor e cada bolha tinha o sabor de uma homenagem ao elfo que lhes salvara 
as vidas.

A cicatriz ardeu, mas dominou a dor; sentiu-a, mas alheou-se dela. Aprendera finalmente a controlar, aprendera a fechar a sua mente a Voldemort, precisamente aquilo 
que Dumbledore quisera que ele aprendesse com Snape. Assim como Voldemort no conseguira dominar Harry, enquanto este se consumia de dor por Sirius, tambm os seus 
pensamentos no conseguiam penetr-lo naquele momento, enquanto chorava Dobby. Pelos vistos, a dor expulsava Voldemort... muito embora, como  evidente, Dumbledore 
tivesse afirmado ser o amor..

Harry continuou a cavar, mais e mais fundo, a terra dura e fria, transformando o seu pesar em suor, negando a dor na cicatriz. No escuro, unicamente com o som da 
sua prpria respirao e o mpeto do mar por companhia, recordou o que acontecera em casa dos Malfoy, vieram-lhe  mente o que ouvira, e a compreenso brotou no 
escuro.

O ritmo constante dos seus braos marcava o compasso dos seus pensamentos. Talisms... Horcruxes... Talisms... Horcruxes... deixara, porm, de sentir a ardncia 
daquele desejo estranho e obsessivo. A perda e o medo tornam-no extinguido: parecia que o haviam esbofeteado para voltar a despertar.

Harry ia cavando cada vez mais a sepultura, e sabia onde estivera Voldemort naquela noite, e quem matara na cela cimeira de Nurmengard, e porqu..

E veio-lhe ao pensamento Wormtail, morto por causa de um pequeno impulso inconsciente de misericrdia... Dumbledore previra-o . o que mais soubera ele?

Perdeu a noo do tempo. Soube to-somente que o escuro diminura um pouco quando Ron e Dean se lhe reuniram.

- Como est a Hermione?

- Melhor - redarguiu Ron. - A Fleur est a cuidar dela. Harry tinha a resposta pronta para quando lhe perguntassem

por que no se limitara a criar uma sepultura perfeita com a sua varinha, mas no foi necessria. Os amigos saltaram para a cova que abrira igualmente munidos de 
ps, e juntos trabalharam em silncio at o buraco parecer suficientemente fundo.

387

Harry envolveu o melhor que pde o elfo no seu casaco. Ron sentou-se na beira da sepultura e tirou os sapatos e as meias, que calou nos ps nus do elfo. Dean arranjou 
um chapu de l que Harry enfiou cuidadosamente na cabea de Dobby, cobrindo-lhe as orelhas que se assemelhavam s de um morcego.

- Devamos fechar-lhe os olhos.

Harry no dera pela aproximao dos outros no escuro. Bill envergava uma capa de viagem; Fleur um grande avental branco, de cujo bolso saa uma garrafa do que Harry 
reconheceu ser Skek-Gro. Hermione vinha embrulhada num roupo emprestado, plida e com passos um pouco vacilantes, Ron ps um brao  sua volta quando ela o alcanou. 
Luna, que se encolhia num dos casacos de Fleur, acocorou-se e colocou delicadamente os dedos nas plpebras do elfo, fazendo-as descer sobre o seu olhar vtreo

- Pronto - disse baixinho. - Agora parece estar a dormir. Harry depositou o elfo na sepultura, comps os minsculos

membros para que desse a impresso de estar a repousar, depois saiu de l e olhou pela ltima vez o pequeno corpo. Fez um esforo para no se ir abaixo enquanto 
recordava o funeral de Dumbledore, e as filas e filas de cadeiras douradas, e o Ministro da Magia na primeira fila a enumerar as proezas de Dumbledore, a imponncia 
do tmulo de mrmore branco. Achou que Dobby merecia um funeral com igual grandiosidade, s que o elfo jazia ali entre os arbustos numa cova toscamente aberta.

- Penso que deveramos dizer algumas palavras - alvitrou Luna. - Eu falo primeiro, pode ser?

E como todos a olhassem, dirigiu-se ao elfo morto no fundo da sepultura.

- Muitssimo obrigada, Dobby, por me salvares daquela cave.  to injusto que tivesses de morrer, quando foste to bom e to valente. Nunca esquecerei o que fizeste 
por ns. Espero que agora estejas feliz

Virou-se e olhou com expectativa para Ron, que pigarreou e disse em voz grossa: - Pois... obrigado, Dobby.

- Obrigado - murmurou Dean. Harry engoliu em seco.

- Adeus, Dobby - referiu. Foi apenas o que conseguiu articular, mas Luna dissera tudo o que ele queria. Bill ergueu a sua varinha e a terra ao lado da sepultura 
elevou-se no ar e caiu suavemente sobre ela, formando um pequeno monte avermelhado.

- Importam-se que fique aqui um momento' - perguntou aos outros.

Murmuraram palavras que no percebeu, sentiu palmadas leves nas costas e depois seguiram todos em direco  casa, deixando Harry sozinho  beira do elfo

Olhou  sua volta: havia uma srie de grandes pedras brancas, alisadas pelo mar, a delimitar os canteiros das flores. Pegou numa das maiores e colocou-a, como uma 
almofada, sobre o stio onde repousaria naquele momento a cabea de Dobby. Levou ento a mo ao bolso para tirar uma varinha.

Estavam l duas. Esquecera-se, perdera a noo; no se conseguia lembrar, presentemente, a quem pertenciam aquelas varinhas; tinha a vaga ideia de as haver arrancado 
da mo de algum. Escolheu a mais curta das duas, que lhe pareceu mais agradvel na mo, e apontou-a  rocha.

Lentamente, sob as suas instrues murmuradas, apareceram cortes profundos na superfcie da rocha. Sabia que Hermione o teria feito com maior perfeio, e provavelmente 
maior rapidez, mas queria assinalar o local tal como quisera cavar a sepultura. Quando Harry se levantou, podia ler-se na pedra:

Aqui jaz Dobby, um Elfo Livre.

Olhou mais alguns segundos para o seu trabalho, depois afastou-se, a cicatriz ainda a picar um pouco e a mente a transbordar do que lhe viera ao esprito enquanto 
cavava a sepultura, ideias que haviam ganho forma no escuro, ideias com tanto de fascinante quanto de terrvel.

Encontravam-se todos sentados na sala de estar quando entrou no pequeno hall, a ateno focada em Bill, que falava. A sala era de uma cor clara e bonita, com um 
pequeno fogo de madeira dada  costa a arder intensamente na lareira. Harry no quis sujar a carpete de lama, de modo que permaneceu  porta, a escutar.

- ... felizmente a Ginny est de frias. Se ela estivesse em Hogwarts t-la-iam apanhado antes de a encontrarmos. Agora sabemos que ela tambm est a salvo.

Virou-se e viu Harry ali especado.

- Tenho estado a tir-los todos d'A Toca - explicou. - Mudei-os para casa da Muriel. Agora que os Devoradores da Morte sabem que o Ron est contigo, de certeza vo 
ter a famlia debaixo de olho... no peas desculpa - acrescentou, ao ver a

388

389

expresso de Harry. - Sempre foi uma questo de tempo, o pai anda a diz-lo h meses. Somos a maior famlia de traidores do sangue que existe.

- Como  que eles esto protegidos? - indagou Harry.

- Pelo Encantamento Fidelius. O pai  o Guardador Secreto. E tambm o aplicmos  casa; aqui, o Guardador Secreto sou eu. Nenhum de ns pode ir trabalhar, porm 
neste momento isso no  o mais importante. Assim que o Ollivander e o Griphook estiverem suficientemente recuperados, mud-los-emos tambm para casa da Muriel. 
Aqui o espao no  muito grande, mas na dela h bastante. A perna do Griphook est a sarar, a Fleur deulhe Skele-Gro: provavelmente poderemos mud-los dentro de 
uma hora ou...

- No - interveio Harry, e Bill sobressaltou-se. - Necessito de ambos aqui. Preciso de falar com eles.  importante.

Ouviu a autoridade na sua prpria voz, a convico, o sentido de finalidade que brotara nele enquanto cavava a sepultura de Dobby. Todos os rostos se viraram para 
ele, com ar perplexo.

- Vou-me lavar - disse Harry a Bill, olhando as suas mos ainda cobertas de lama e do sangue de Dobby. - Depois vou precisar de falar com eles, de imediato.

Dirigiu-se  pequena cozinha, aproximou-se do lava-loias por debaixo da janela virada para o mar. A aurora ia raiando sobre um horizonte de um delicado tom rosado 
com laivos dourados, enquanto se lavava, seguindo de novo a corrente de pensamento que lhe surgira na escurido do jardim...

Dobby nunca chegaria a contar-lhes quem o enviara  cave. Mas Harry sabia o que vira. Um olho azul penetrante que espreitara do fragmento de espelho, e depois a 
ajuda viera. Em Hogwarts, ser sempre dada ajuda queles que a pedirem.

Enxugou as mos, alheio  beleza da cena no exterior da janela e ao murmrio dos outros na sala de estar. Olhou para l do oceano e, naquela madrugada, sentiu-se 
mais prximo que nunca, mais prximo do centro de tudo.

A cicatriz continuava a arder, e soube que Voldemort estava tambm a chegar l. Compreendeu e, por outro lado, no compreendia. O instinto dizia-lhe uma coisa, o 
seu crebro, outra completamente diferente. O Dumbledore no esprito de Harry sorriu, observando-o por cima das pontas dos dedos, unidas, como se orasse.

O senhor deu o Apagador ao Ron. Compreendeu-o... deu-lhe uma forma de regressar...

390

E compreendeu tambm o Wormtail... sabia que existia ali um certo remorso, algures...

E se os conhecia... o que sabia a meu respeito, Dumbledore?

E suposto eu saber, mas no procurar? No imaginava quo difcil isso seria para mim? Foi por isso que tornou isto to difcil? Para que eu tivesse tempo de me aperceber?

Harry manteve-se imvel, o olhar perdido, observando o ponto onde uma aurola dourada de sol ofuscante se erguia acima do horizonte. Olhou de seguida para as mos 
lavadas, e surpreendeu-se momentaneamente ao ver o pano que segurava. Pousou-o e regressou ao hall, e quando o fez, sentiu a cicatriz pulsar intensamente, e surgiu 
na sua mente, rpido como o reflexo de uma libelinha sobre a gua, o contorno de um edifcio que conhecia extremamente bem.

Bill e Fleur encontravam-se ao fundo das escadas.

- vou ter de falar com o Griphook e o Ollivander.

- No - disse Fleur. - Vais terr de esperrar, 'Arry. Elez ezto ambos doentes e canzados.

- Lamento - contraps com veemncia -, mas isto no pode esperar. Preciso de falar com eles imediatamente. Em privado... e em separado.  urgente.

- Mas afinal o que se passa, Harry? - perguntou Bill. - Apareces aqui com um elfo domstico morto e um goblin meio inconsciente, a Hermione parece ter sido torturada 
e o Ron acaba de se recusar a contar-me seja o que for...

- No posso dizer o que vamos fazer - explicou Harry sem rodeios. - Pertences  Ordem, Bill, tu sabes que o Dumbledore nos confiou uma misso. No podemos falar 
dela a mais ningum.

Fleur emitiu um rudo de impacincia, mas Bill no olhou para ela; fitava Harry. Era difcil decifrar o seu rosto sulcado por cicatrizes profundas. Por fim, Bill 
concordou: - Est bem. com quem queres falar primeiro?

Harry hesitou. Sabia o que dependia da sua deciso. No restava praticamente tempo nenhum; aquele era o momento de decidir: Horcruxes ou Talisms?

- com o Griphook - referiu Harry. - Falarei primeiro com o Griphook.

O seu corao batia acelerado, como se tivesse andado a correr e acabado de vencer um obstculo enorme.

- L em cima, nesse caso - disse Bill, seguindo na frente.

391

Harry subira vrios degraus antes de parar e olhar para trs.

- vou precisar tambm de vocs os dois - dirigiu-se a Ron e Hermione, que espreitavam, meio escondidos,  entrada da sala de estar.

Avanaram ambos para a luz, parecendo estranhamente aliviados.

- Como te sentes? - perguntou Harry a Hermione. - Foste extraordinria... inventares aquela histria quando ela te estava a magoar daquela maneira

Hermione esboou um sorriso fraco, enquanto Ron lhe passava um brao pelos ombros.

- O que vamos fazer agora, Harry? - perguntou ele.

- J vais ver. Venham da

Harry, Ron e Hermione seguiram Bill pelas escadas ngremes at um pequeno patamar. Havia ali trs portas

- Esta aqui - referiu Bill, abrindo a porta do seu quarto e de Fleur. Tambm dali se avistava o mar, agora salpicado de ouro com o sol nascente Harry aproximou-se 
da janela, virou as costas  vista espectacular e aguardou, de braos cruzados, a cicatriz a arder. Hermione ocupou o cadeiro junto do toucador; Ron sentou-se no 
brao.

Bill reapareceu, trazendo o pequeno goblin, que depositou cuidadosamente em cima da cama. Gripook proferiu um agradecimento entre dentes e Bill saiu, fechando a 
porta

- Lamento ter-te tirado da cama - disse Harry. - Como esto as tuas pernas?

- Doridas - replicou o goblin. - Mas a sarar. Continuava agarrado  espada de Gryffindor, e assumira um ar

estranho, semitruculento, semi-intrigado. Harry reparou na pele plida do goblin, nos seus dedos compridos e magros, nos olhos pretos. Fleur descalara-lhe os sapatos: 
os ps compridos estavam imundos. Era maior do que um elfo domstico, mas no muito. A sua cabea abaulada era consideravelmente maior que a de um humano.

- Provavelmente no te recordas... - comeou Harry.

- ... que fui eu o goblin que te acompanhou ao teu cofre, da primeira vez que estiveste em Gringotts? - concluiu Griphook - Recordo-me, Harry Potter. s famoso mesmo 
entre os goblins.

Harry e o goblin entreolharam-se, avaliando-se. A cicatriz de Harry continuava a incomod-lo. Queria despachar rapidamente esta entrevista com Griphook e, ao mesmo 
tempo, receava dar um

392

passo em falso. Enquanto tentava decidir a melhor maneira de efectuar o seu pedido, o goblin quebrou o silncio.

- Enterraste o elfo - afirmou, parecendo subitamente rancoroso. - Vi-te, da janela do quarto ao lado

- Sim - confirmou Harry

Griphook mirou-o pelo canto dos olhos pretos descados

- s um feiticeiro invulgar, Harry Potter.

- Invulgar como? - indagou Harry, coando distraidamente a cicatriz.

- Tu mesmo cavaste a sepultura.

- E da?

Griphook no respondeu. Harry preferiu pensar que estava a ser gozado por agir como um Muggle, mas era-lhe indiferente se Gripook aprovava ou no a sepultura de 
Dobby. Preparou-se para o ataque.

- Griphook, preciso de te perguntar...

- Tambm salvaste um goblin.

- O qu?

- Trouxeste-me para aqui Salvaste-me.

- Bem, s espero que no estejas arrependido - redarguiu Harry, com alguma impacincia.

- No, Harry Potter - prosseguiu Griphook, e enrolou com um dedo a barba preta e rala do queixo -, mas s um feiticeiro muito estranho.

- Est bem - disse Harry. - Olha, preciso de ajuda, Griphook, e tu podes prestar-ma.

O goblin no deu mostras de encorajamento e continuou a olhar para Harry com ar carrancudo, como se nunca tivesse visto nada assim.

- Preciso de entrar num cofre de Gringotts.

Harry no quisera dizer aquilo de uma forma to abrupta; as palavras saram-lhe  fora no momento em que a dor pulsou de novo na sua cicatriz em forma de raio, 
e viu novamente o contorno de Hogwarts. Fechou a mente com firmeza. Necessitava de falar com Griphook. Ron e Hermione olhavam para Harry como se ele tivesse enlouquecido.

- Harry... - disse Hermione, mas foi interrompida por Griphook.

- Entrar num cofre de Gringotts? - repetiu o goblin, fazendo um leve esgar ao ajeitar-se na cama. -  impossvel

- No , no - contradisse-o Ron. - J foi feito

393

- Pois foi - corroborou Harry. - No mesmo dia em que te conheci, Griphook. No meu aniversrio, h sete anos.

- O cofre em questo estava vazio na altura - ripostou o goblin, e Harry percebeu que apesar de Griphook ter deixado Gringotts, ficara ofendido com a ideia de as 
suas defesas terem sido violadas. - A sua proteco era mnima.

- Bem, o cofre em que precisamos de entrar no se encontra vazio, e depreendo que a sua proteco seja bastante poderosa - referiu Harry. - Pertence aos Lestrange.

Viu Hermione e Ron trocarem olhares, admirados, mas haveria tempo para explicaes depois de Griphook ter dado a sua resposta.

- No tens a menor hiptese - respondeu Griphook, sem rodeios. - A mnima hiptese. "Se buscas, pois, no nosso cho o tesouro que pertence aos que do..."

- "Podes achar, ladro, cuidado mais que o tesouro, ests avisado..." Eu sei, lembro-me - disse Harry. - Mas no estou a tentar ficar com nenhum tesouro para mim, 
no estou a tentar roubar nada para meu proveito pessoal. Acreditas?

O goblin olhou de esguelha para Harry, e a cicatriz em forma de raio na sua testa deu sinal, mas ele ignorou-a, recusando-se a admitir a dor ou o convite que lhe 
fazia.

- Se existisse um feiticeiro que de certeza no procurasse o lucro pessoal - respondeu finalmente Griphook -, serias tu, Harry Potter. - Os goblins e os elfos no 
esto acostumados  proteco, ou ao respeito, que demonstraste esta noite. No da parte dos portadores de varinha.

- Dos portadores de varinha - repetiu Harry; a expresso soou estranha aos seus ouvidos, enquanto a cicatriz voltava a arder, enquanto Voldemort centrava os seus 
pensamentos no norte, e Harry ansiava por interrogar Ollivander, no quarto ao lado.

- O direito de andar munido de uma varinha - afirmou o goblin calmamente -, h muito que vem sendo disputado entre feiticeiros e goblins.

- Bem, os goblins podem fazer magia sem varinhas - referiu Ron.

- Isso  irrelevante! Os feiticeiros recusam-se a partilhar os segredos da sabedoria das varinhas com outros seres mgicos, negam-nos a possibilidade de aumentarmos 
os nossos poderes!

- Bem, os goblins tambm no partilham nenhuma da sua magia - interveio Ron. - Vocs no nos querem contar os

394

segredos do fabrico de espadas e armaduras. Os goblins sabem trabalhar o metal de uma forma que os feiticeiros nunca...

- Isso no interessa - atalhou Harry, vendo a cor de Griphook intensificar-se. - No estamos a comparar feiticeiros com goblins nem qualquer outro tipo de criatura 
mgica...

Griphook soltou uma gargalhada grosseira.

- Mas estamos,  precisamente isso! Enquanto o Senhor das Trevas se torna mais poderoso que nunca, a tua raa refora o seu poder sobre a minha! Gringotts est sujeito 
ao controlo dos feiticeiros, os elfos domsticos so chacinados, e algum entre os portadores de varinha protesta?

- Ns protestamos! - exclamou Hermione. Endireitara-se, os olhos brilhantes. - Ns protestamos. E sou quase to perseguida quanto qualquer goblin ou elfo, Griphook! 
Sou uma Sangue de Lama!

- No te rebaixes dessa maneira... - murmurou Ron.

- Por que no haveria de o fazer? - insurgiu-se Hermione.

- Sou Sangue de Lama e com orgulho! Nesta nova ordem, no ocupo uma posio superior  tua, Griphook! Foi a mim que eles decidiram torturar, l em casa dos Malfoy!

Ao falar, afastou a gola do roupo e mostrou o golpe fino e escarlate que Bellatrixlhe fizera na garganta.

- Sabias que foi o Harry quem libertou o Dobby? - prosseguiu ela. - Sabias que h anos que queremos que os elfos sejam livres? - (Ron agitou-se desconfortavelmente 
no brao da cadeira de Hermione.) - Tu no queres, mais do que ns, ver o Quem-Ns-Sabemos derrotado, Griphook!

O goblin olhou para Hermione com a mesma curiosidade que mostrara em relao a Harry.

- O que procuras no cofre dos Lestrange? - indagou subitamente. - A espada que est l dentro  falsa. Esta  a verdadeira.

- Olhou de um para o outro. - Acho que vocs j o sabem. Pediram-me que mentisse.

- Mas a espada falsa no  a nica coisa dentro daquele cofre, pois no? - inquiriu Harry. - Talvez tenhas visto os outros objectos que l esto?

O seu corao batia mais acelerado que nunca. Redobrou os esforos para ignorar o pulsar da cicatriz. O goblin voltou a enrolar a barba no dedo.

- O nosso cdigo no permite que falemos dos segredos de Gringotts. Ns somos os guardies de tesouros fabulosos. Temos

395

uma obrigao para com os objectos guardados ao nosso cuidado, que foram tantas vezes forjados pelas nossas mos

O goblin acariciou a espada, e os seus olhos pretos percorreram Harry, Hermione, Ron, e depois voltaram ao primeiro.

- To jovem - disse finalmente -, para lutares contra tantos.

- Ajudas-nos? - perguntou Harry. - No temos qualquer esperana de l entrar sem a ajuda de um goblin. Tu s a nossa nica esperana.

- Eu vou... pensar no assunto - respondeu Gripook exasperadamente.

- Mas... - comeou Ron, furioso, enquanto Hermione o acotovelava nas costelas.

- Obrigado - disse Harry.

O goblin curvou a sua cabea grande e abaulada em reconhecimento, depois flectiu as pernas curtas.

- Acho - referiu, ajeitando-se pomposamente na cama de Bill e Fleur -, que o Skele-Gro terminou o seu efeito. vou finalmente poder dormir. Desculpem-me..

- Sim,  claro - disse Harry, mas antes de sair do quarto, debruou-se e tirou a espada de Gryffindor que se encontrava ao lado do goblin. Gripook no protestou, 
mas Harry julgou detectar ressentimento nos seus olhos quando fechou a porta ao sair.

- Minorca d'uma figa - rosnou Ron entre dentes. - Est a adorar deixar-nos na expectativa.

- Harry - murmurou Hermione, puxando ambos da porta para o meio do patamar ainda escuro -, ests realmente a dizer aquilo que penso' Ests a dizer que existe um 
Horcrux no cofre dos Lestrange?

- Sim - respondeu Harry - A Bellatrixficou aterrada s com a ideia de termos l entrado, ficou fora de si. Porqu? O que julgou que poderamos ter visto, o que mais 
pensou que teramos tirado? Algo que a deixou petrificada com receio de que o Quem-Ns-Sabemos pudesse vir a ter conhecimento.

- Mas julguei que andssemos  procura de locais onde o Quem-Ns-Sabemos esteve, locais onde ele fez algo importante? - estranhou Ron, com ar desconcertado - Ele 
entrou alguma vez no cofre dos Lestrange?

- Desconheo se ele alguma vez entrou em Gringotts - confessou Harry. - Nunca l guardou ouro quando era mais novo, porque ningum lhe deixou nada. No entanto, deve 
ter visto o banco do exterior, da primeira vez que foi a Diagonal

396

A cicatriz de Harry latejou, mas ele ignorou-a; queria que Ron e Hermione compreendessem a importncia de Gringotts antes de falarem com Ollivander.

- C para mim, ele invejaria qualquer um que tivesse uma chave de um cofre em Gringotts. Acho que o teria encarado como um smbolo de que pertencia verdadeiramente 
ao mundo da feitiaria E no te esqueas de que ele confiou na Bellatrix e no marido. Eles devem ter sido os seus servidores mais dedicados antes da sua queda, e 
foram procur-lo depois de ter desaparecido. Ouvi-o afirm-lo na noite em que voltou.

Harry coou a cicatriz.

- No me parece, porm, que ele tenha dito  Bellatrix que se tratava de um Horcrux. Nunca contou ao Lucius Malfoy a verdade sobre o dirio. Provavelmente referiu 
que era um pertence muito valioso e pediu-lhe para o guardar no seu cofre. O lugar mais seguro no mundo para algo que queiramos esconder, disse-me oHagrid..  excepo 
de Hogwarts.

Quando Harry terminou de falar, Ron abanou a cabea.

- Tu compreende-lo bem.

- Em parte - respondeu Harry. - Em parte... s gostava de ter compreendido tambm o Dumbledore Mas veremos. Venham... agora o Ollivander.

Ron e Hermione pareceram ter ficado perplexos, mas impressionados, seguindo-o pelo pequeno patamar, bateram  porta do quarto em frente ao de Bill e Fleur e obtiveram 
como resposta um fraco "Entre!"

O fabricante de varinhas encontrava-se deitado na cama mais afastada da janela. Estivera mais de um ano detido na cave, e fora torturado, Harry sabia-o, pelo menos 
numa ocasio. Tinha um ar emaciado, os ossos do rosto a sobressair pronunciadamente na tez amarelada. Os seus fabulosos olhos cinzentos pareciam enormes nas rbitas 
encovadas. As mos que repousavam sobre o cobertor poderiam pertencer a um esqueleto. Harry sentou-se na outra cama, ao lado de Ron e Hermione. O sol nascente no 
se via dali. O quarto ficava virado para o jardim no cimo do penhasco e para a sepultura recentemente cavada.

- Mr Ollivander, lamento incomod-lo - principiou Harry.

- Meu caro rapaz. - A voz de Ollivander era fraca. - Salvou-nos. Julguei que fssemos morrer naquele lugar. Nunca lhe poderei agradecer... nunca lhe poderei agradecer... 
o suficiente.

- Ainda bem que conseguimos.

397

A cicatriz de Harry latejava. Sabia, tinha a certeza, de que quase no restava tempo nenhum para alcanar primeiro o objectivo de Voldemort, ou pelo menos, para 
tentar frustr-lo. Sentiu um acesso de pnico... mas tomara aquela deciso quando decidira falar primeiro com Gripook. Aparentando uma calma que no sentia, remexeu 
na bolsa que usava ao pescoo e retirou as duas metades da sua varinha partida.

- Mr. Ollivander, necessito de ajuda.

- Tudo o que quiser - disse o fabricante de varinhas com voz fraca.

- Consegue repar-la?  possvel?

Ollivander estendeu uma mo trmula e Harry colocou as duas metades quase desunidas na palma.

- Azevinho e pena de fnix - afirmou Ollivander, em voz trmula. - Vinte e oito centmetros. Bela e leve

- Sim - disse Harry. - Consegue...?

- No - murmurou Ollivander. - Lamento, muito mesmo, mas uma varinha que sofreu tamanho dano no pode ser reparada, pelo menos que eu saiba.

Harry preparara-se para aquela notcia, mas no deixava de ser um duro golpe. Pegou nas metades da varinha e tornou a guard-las na bolsa. Ollivander cravou o olhar 
no local onde a varinha partida desaparecera, e s o desviou quando Harry tirou do bolso as duas varinhas que trouxera de casa dos Malfoy.

-  capaz de identificar estas? - sondou Harry.

O fabricante de varinhas pegou na primeira e aproximou-a dos olhos mortios, fazendo-a rolar entre os dedos deformados, flectindo-a ligeiramente.

- Nogueira e tendo de corao de drago - constatou. - Trinta e dois centmetros. Inflexvel. Esta varinha pertenceu a Bellatrix Lestrange.

- E esta aqui?

Ollivander procedeu a idntico exame.

- Espinheiro e plo de unicrnio. Precisamente vinte e cinco centmetros Razoavelmente malevel. Esta era a varinha de Draco Malfoy.

- Era? - repetiu Harry. -J no  dele?

- Talvez no Se lha tirou .

- . . sim, tirei-lha..

- ... nesse caso, pode ser sua. Claro que  importante a maneira como a varinha foi obtida. Muito depende tambm da

398

prpria varinha. De um modo geral, porm, sempre que uma varinha  conquistada, a sua fidelidade muda.

Reinou o silncio no quarto,  excepo do barulho distante das ondas a rebentar.

- O senhor fala das varinhas como se elas possussem sentimentos - comentou Harry -, como se tivessem pensamento prprio

- A varinha escolhe o feiticeiro - disse Ollivander. - Isso sempre ficou claro para ns, que estudamos a cincia das varinhas.

- No entanto,  possvel uma pessoa usar uma varinha que no a escolheu? - inquiriu Harry.

- Claro que sim, um feiticeiro que se preze poder canalizar a sua magia atravs de quase todos os instrumentos. Porm, os melhores resultados obtm-se sempre que 
se verifica uma fortssima afinidade entre feiticeiro e varinha. Estas ligaes so complexas. Uma atraco inicial, e depois uma busca mtua de experincia, a varinha 
a aprender com o feiticeiro, este com a varinha.

O mar avanava e recuava num som pesaroso.

- Tirei esta varinha pela fora ao Draco Malfoy - confessou Harry. - Posso us-la com segurana?

- Penso que sim. A posse de uma varinha rege-se por leis subtis, no entanto e por norma, a varinha conquistada curvar a sua vontade  do seu novo dono

- Assim sendo, posso usar esta? - inquiriu Ron, retirando do bolso a varinha de Wormtail e entregando-a a Ollivander.

- Castanheiro e tendo de corao de drago Vinte e trs centmetros e meio. Frgil. Fui obrigado a fabric-la, pouco depois do meu rapto, para Peter Pettigrew Sim, 
o mais provvel  ela fazer o que lhe manda, e faz-lo melhor que outra varinha.

- E isto aplica-se a todas as varinhas, no aplica? - perguntou Harry.

- Creio que sim - replicou Ollivander, os seus olhos protuberantes cravados no rosto de Harry. - Faz perguntas profundas, Mr Potter. A cincia das varinhas  um 
ramo complexo e misterioso da magia.

- Nesse caso, no  necessrio matar o anterior dono para tomar posse de uma varinha? - quis saber Harry.

Ollivander engoliu em seco.

- Necessrio? No, eu no diria que seja necessrio matar.

- Porm, existem lendas - disse Harry, e sentiu o seu ritmo cardaco acelerar e a dor na cicatriz intensificar-se; tinha a certeza

399

de que Voldemort decidira pr em prtica a sua ideia - Lendas sobre uma varinha . ou varinhas... que passaram de mo em mo por via do assassnio.

Ollivander empalideceu. Na alvura da almofada, apresentava uma cor macilenta, e os seus olhos pareciam enormes, injectados de sangue e arregalados com o que se afigurava 
ser medo.

- Somente uma varinha, creio - sussurrou.

- E o Quem-Ns-Sabemos est interessado nela, no  verdade? - perguntou Harry.

- Eu. como? - articulou Ollivander, e lanou um olhar suplicante a Ron e Hermione. - Como  que tem conhecimento disto?

- Ele quis que lhe dissesse como vencer a ligao entre as nossas varinhas - explicou Harry.

Ollivander ficou apavorado.

- Ele torturou-me, tem de compreender! com a Maldio Cruciatus, eu... eu no tive outra alternativa seno contar-lhe o que sabia, o que presumia!

- Eu entendo - Harry mostrou-se compreensivo. - O senhor falou-lhe dos ncleos gmeos? Disse que ele s tinha de pedir emprestada a varinha de outro feiticeiro?

Ollivander ficou horrorizado, paralisado, pelo alcance dos conhecimentos de Harry. Anuiu lentamente.

- S que no resultou - prosseguiu Harry. - Mesmo assim, a minha conseguiu vencer a varinha emprestada. Sabe qual a razo?

Ollivander abanou lentamente a cabea tal como se limitara a anuir.

- Eu... nunca ouvira falar de semelhante coisa. A sua varinha efectuou algo nico naquela noite. A ligao dos ncleos gmeos  incrivelmente rara, todavia, o motivo 
pelo qual a sua varinha partiu ao meio a emprestada,  algo que ignoro...

- Estvamos a falar da outra varinha, aquela que muda de mos por via do assassnio Quando o Quem-Ns-Sabemos se apercebeu de que a minha varinha fizera algo de 
estranho, reapareceu e fez perguntas sobre aquela outra varinha, no fez?

- Como pode ter conhecimento disso? Harry no respondeu.

- Sim, ele fez perguntas - sussurrou Ollivander. - Queria saber tudo o que eu lhe pudesse contar sobre a varinha tambm conhecida como o Pau da Morte, a Varinha 
do Destino ou a Varinha de Sabugueiro.

400

Harry olhou de soslaio para Hermione, que ficara estupefacta.

- O Senhor das Trevas - afirmou Ollivander, em tom abafado e assustado -, sempre se mostrara satisfeito com a varinha que lhe fabriquei . teixo e pena de fnix, 
trinta e um centmetros... at descobrir a ligao dos ncleos gmeos. Agora pretende outra varinha, mais poderosa, com o nico intuito de conquistar

a sua

- Mas ele no tardar a saber, se no sabe j, que a minha se partiu e no tem reparao possvel - afirmou Harry, desanimado.

- No! - exclamou Hermione, parecendo assustada. - Ele no o pode saber, Harry, como poderia?

- Pelo Prion Incantatem - explicou Harry. - Deixmos a tua varinha e a de abrunheiro em casa dos Malfoy, Hermione. Se as examinarem como deve ser, obrigam-nas a 
recriar os feitios lanados ultimamente, vero que a tua partiu a minha, vero que tentaste repar-la e no conseguiste, e aperceber-se-o de que tenho estado a 
usar a de abrunheiro de ento para c.

A pouca cor que ela recuperara desde que haviam chegado escoara-se-lhe do rosto. Ron lanou um olhar reprovador a Harry e disse. - No nos vamos preocupar com isso 
agora...

Mas Mr. Ollivander interveio.

- O Senhor das Trevas j no procura a Varinha de Sabugueiro unicamente com o propsito de o destruir, Mr. Potter. Ele est decidido a possu-la, porque acredita 
que o tornar verdadeiramente invulnervel

- E tornar?

- O dono da Varinha de Sabugueiro receia sempre ser atacado - frisou Ollivander -, mas a ideia do Senhor das Trevas na posse do Pau da Morte , tenho de o admitir... 
assombrosa.

De repente, Harry recordou as incertezas sentidas da primeira vez que se tinham encontrado, de quanto gostara de Ollivander. Mesmo naquele momento, tendo sido torturado 
e aprisionado por Voldemort, a ideia do feiticeiro das Trevas na posse desta varinha tanto se lhe afigurava fascinante como o enchia de repulsa.

- Nesse caso, o senhor... o senhor est realmente convencido de que essa varinha existe, Mr. Ollivander? - inquiriu Hermione

- Oh sim - respondeu Ollivander - Sim,  perfeitamente possvel seguir o rasto da Varinha ao longo da histria Existem lacunas, como  evidente, e bem longas, perodos 
em que ela desa

401

parece temporariamente de vista ou est escondida; mas volta sempre a parecer. Possui certas caractersticas que a identificam perante aqueles que dominam a cincia 
das varinhas. H relatos escritos, alguns deles obscuros, que eu e outros fabricantes de varinhas nos empenhmos em estudar e que apresentam uma aura de autenticidade

- Nesse caso, o senhor... no acha que possa ser uma histria inventada, ou um mito? - perguntou Hermione, esperanada.

- No - redarguiu Ollivander. - No sei ao certo se necessita obrigatoriamente de passar pelo assassnio. A sua histria  sangrenta, mas isso pode dever-se simplesmente 
ao facto de se tratar de um objecto muito cobiado, e despertar paixes ardentes nos feiticeiros.  imensamente poderosa, perigosa nas mos erradas, e um objecto 
de incrvel fascnio para todos aqueles que estudam o poder das varinhas.

- Mr Ollivander - disse Harry -, o senhor contou ao Quem-Ns-Sabemos que o Gregorovitch tinha a Varinha de Sabugueiro, no contou'

Ollivander empalideceu ainda mais, se tal era possvel. Parecia espectral quando engoliu em seco.

- Mas como... como  que...?

- No interessa como sei - retorquiu Harry, fechando por momentos os olhos quando a cicatriz ardeu e teve, por meros segundos, uma viso da rua principal em Hogsmeade, 
ainda escura, porque ficava muito mais para norte. - Contou ao Quem-Ns-Sabemos que o Gregorovitch tinha a Varinha?

- Era um rumor - murmurou Ollivander - Um rumor, h muitos, muitos anos, bem antes de o senhor ter nascido! Creio que foi o prprio Gregorovitch que o lanou. Percebe 
como seria excelente para o negcio espalhar que ele estava a estudar, e a duplicar, as qualidades da Varinha de Sabugueiro!

- Oh, percebo muito bem - afirmou Harry Levantou-se. - Mr. Ollivander, s mais uma coisa, e depois deix-lo-emos descansar. O que sabe sobre os Talisms da Morte?

- Os... os qu? - perguntou o fabricante de varinhas, com um ar absolutamente desorientado.

- Os Talisms da Morte.

- Lamento, mas no sei do que est a falar.  algo relacionado com as varinhas?

Harry olhou para o rosto abatido e acreditou que Ollivander no estava a fingir. No sabia mesmo dos Talisms.

402

- Obrigado - disse Harry. - Muito obrigado. Agora vamos deix-lo repousar um pouco

Ollivander parecia abalado.

- Ele estava a torturar-me! - afligiu-se. - com a Maldio Cruciatus... O senhor no imagina...

- Imagino - respondeu Harry. - Pode crer que imagino. Por favor, procure repousar. Estou-lhe grato por me ter contado tudo isto.

Desceu as escadas  frente de Ron e Hermione. Vislumbrou Bill, Fleur, Luna e Dean sentados  mesa na cozinha, chvenas de ch diante deles. Levantaram todos a cabea 
quando Harry apareceu  porta, mas ele limitou-se a acenar-lhes e prosseguiu para o jardim, seguido de Ron e Hermione. O monte de terra avermelhada que cobria Dobby 
estava l  frente e Harry encaminhou-se para ele,  medida que a dor na sua cabea ganhava cada vez maior intensidade. Era naquele momento um esforo tremendo bloquear 
as vises que se lhe impunham pela fora, mas sabia que teria de resistir s mais um pouco. Submeter-se-ia muito em breve, uma vez que precisava de saber se a sua 
teoria estava certa. S tinha de fazer mais um breve esforo, a fim de poder explicar a Ron e Hermione.

- O Gregorovitch teve a Varinha de Sabugueiro, h muito, muito tempo - disse. - Vi o Quem-Ns-Sabemos tentar descobrir o paradeiro dele. Quando o localizou, constatou 
que o Gregorovitch j no estava na sua posse: fora-lhe roubada pelo Grmdelwald. No sei como este descobriu que o Gregorovitch a tinha... mas se o Gregorovitch 
foi suficientemente estpido para espalhar o rumor, no deve ter sido assim to difcil

Voldemort encontrava-se aos portes de Hogwarts; Harry conseguia v-lo ali especado, e ver tambm o candeeiro a oscilar no alvorecer, aproximando-se cada vez mais.

- E o Grmdelwald usou a Varinha de Sabugueiro para ganhar poder. E, no auge do seu poder, quando o Dumbledore soube que ele era o nico capaz de o deter, bateu-se 
em duelo com o Grmdelwald e venceu-o, acabando por ficar com a Varinha de Sabugueiro.

- O Dumbledore tinha a Varinha de Sabugueiro? - inquiriu Ron. - Mas, nesse caso... onde  que ela est agora?

- Em Hogwarts - respondeu Harry, esforando-se por permanecer com eles no jardim no cimo do penhasco.

- Nesse caso, vamos imediatamente para l! - instou Ron. - Harry, vamos l busc-la antes que ele o faa!

403

-  tarde de mais - revelou Harry. Foi mais forte do que ele, e agarrou a cabea, tentando resistir. - Ele sabe onde ela est. Encontra-se l neste momento.

- Harry! - interpelou-o Ron, furibundo. - H quanto tempo tens conhecimento disto e por que temos estado a perder tempo? Por que falaste primeiro com o Griphook? 
Podamos ter ido... ainda podemos ir...

- No - contraps Harry, e caiu de joelhos na erva. - A Hermione tem razo. O Dumbledore no queria que eu ficasse com ela. No queria que eu a tirasse. Queria que 
eu descobrisse os Horcruxes.

-  a Varinha invencvel, Harry! - gemeu Ron.

- Eu no devo... devo sim descobrir os Horcruxes.

E de repente tudo ficou frio e escuro: o sol j quase no se via acima do horizonte, enquanto ele deslizava ao lado de Snape, subindo os terrenos em direco ao 
lago.

- Em breve irei ter contigo ao castelo - disse, na sua voz forte e fria. - Agora deixa-me.

Snape fez uma vnia e voltou a subir o caminho, o manto preto a ondular atrs de si. Harry caminhava lentamente, aguardando que a figura de Snape desaparecesse. 
No convinha nada que Snape ou, na verdade, qualquer outra pessoa, visse para onde ele ia. Mas no havia luzes acesas nas janelas do castelo, e podia ocultar-se... 
e num segundo lanara sobre si um Feitio de Camuflar que o escondeu dos seus prprios olhos.

Continuou a caminhar, contornando a margem do lago, observando os contornos do adorado castelo, o seu primeiro reino, que lhe pertencia por direito...

E l estava, junto ao lago, reflectido nas guas escuras. O tmulo de mrmore branco, uma mcula desnecessria na paisagem familiar. Sentiu novamente aquele acesso 
de euforia controlada, aquela sensao inebriante de finalidade destrutiva. Ergueu a velha varinha de teixo: como era apropriado que este fosse o seu grande e derradeiro 
acto.

O tmulo abriu-se de alto a baixo. A figura amortalhada era to alta e magra quanto o fora em vida. Ergueu novamente a varinha.

As mortalhas abriram-se e caram. O rosto estava translcido, plido, chupado, contudo, preservado quase na ntegra. Tinhani-lhe deixado ficar os culos no nariz 
adunco: escarneceu, divertido. As mos de Dumbledore estavam cruzadas sobre o peito, e ali estava, presa debaixo delas, sepultada com ele.

404

Imaginara o velho tolo que o mrmore ou a morte protegeriam a varinha? Pensara que o Senhor das Trevas recearia violar o seu tmulo? Como uma aranha, a mo desceu 
subitamente e tirou a Varinha da posse de Dumbledore, e quando o fez, saltou da sua ponta uma chuva de fascas, que caram sobre o corpo do seu ltimo dono. Estava 
finalmente pronta a servir um novo amo.

405

XXV

A CASA DAS CONCHAS

A casa de Bill e Fleur ficava isolada num penhasco sobranceiro ao mar, as paredes caiadas e decoradas com conchas. Era um local solitrio e belo. Onde quer que Harry 
se encontrasse, no interior ou no jardim, ouvia o fluxo e refluxo constantes do mar, como o respirar de uma enorme criatura adormecida. Passou grande parte dos dias 
seguintes a arranjar pretextos para evitar a casa apinhada, ansiando pela vista do cu aberto e do imenso mar vazio, e a. sensao do vento frio carregado de sal 
no rosto.

Ainda se sentia assustado pela enormidade da deciso de no disputar a posse da Varinha com Voldemort. No conseguia lembrar-se de nenhuma ocasio anterior em que 
tivesse decidido no agir e estava cheio de dvidas, dvidas essas que Ron no conseguia deixar de expressar sempre que estavam juntos:

- E se o Dumbledore queria que descobrssemos o smbolo a tempo de obtermos a Varinha? E se a descoberta do significado do smbolo te tornasse 'digno' de ficar com 
os Talisms? Harry, e se aquela for realmente a Varinha de Sabugueiro, como raio  suposto neutralizarmos o Quem-Ns-Sabemos?

Harry no tinha respostas; havia ocasies em que se perguntava se fora pura loucura no tentar impedir Voldemort de abrir o tmulo. No conseguia sequer explicar 
de forma satisfatria por que razo decidira no o fazer: sempre que tentava reconstruir os argumentos que o haviam levado quela deciso, eles afiguravam-se-lhe 
cada vez mais fracos.

Curiosamente, porm, o apoio de Hermione deixava-o to confuso quanto as dvidas de Ron. Obrigada agora a aceitar que a Varinha de Sabugueiro existia mesmo, ela 
insistia em como se tratava de um objecto malfico, afirmando que a forma como Voldemort se apoderara dela era repugnante e indigna de ser considerada.

- Tu terias sido incapaz de o fazer, Harry - dissera-lhe repetidas vezes. - No terias forado a sepultura do Dumbledore.

Todavia, a ideia do corpo de Dumbledore assustava Harry muito menos que a possibilidade de ter interpretado mal as inten

406

oes dele em vida. Continuava s apalpadelas; escolhera o seu caminho, mas olhava constantemente para trs, perguntando-se se percebera mal os sinais, se no deveria 
ter optado pela outra alternativa. De tempos a tempos, a raiva que sentia por Dumbledore voltava a acomet-lo, poderosa como as ondas que rebentavam no penhasco 
por debaixo da casa, raiva por Dumbledore no lhe ter explicado antes de morrer.

- Mas ele est mesmo morto? - indagou Ron, trs dias depois da sua chegada. Harry estivera a olhar para l do muro que separava o jardim do penhasco, quando Ron 
e Hermione o haviam encontrado; desejou que no o tivessem feito, no sentindo a menor vontade de se envolver naquela discusso.

- Est, sim, Ron, por favor no recomeces!

- Encara os factos, Hermione - disse Ron, falando para l de Harry, que continuava a fitar o horizonte. - A cora prateada. A espada. O olho que o Harry viu no espelho 
..

- O Harry admite que o olho pode ter sido imaginao! No admites, Harry?

-  possvel que sim - respondeu Harry, sem a encarar.

- Mas no ests convencido disso, pois no? - insistiu Ron.

- No estou, no - admitiu Harry.

- Ests a ver! - insistiu logo Ron, antes que Hermione pudesse prosseguir. - Se no foi o Dumbledore, explica-me como  que o Dobby sabia que ns estvamos na cave, 
Hermione?

- No sei... mas conseguirs explicar-me como foi que o Dumbledore o enviou at ns se jaz num tmulo em Hogwarts?

- No sei, podia ter sido o fantasma dele!

- O Dumbledore no voltaria sob a forma de fantasma - afirmou Harry. Naquele momento, tinha muito poucas certezas a respeito de Dumbledore, mas isso sabia. - Ele 
teria seguido em frente.

- O que queres dizer com isso? - inquiriu Ron, mas, antes que Harry tivesse tempo de adiantar mais, uma voz atrs deles chamou: - Arry?

Fleur sara de casa, o cabelo comprido cor de prata a esvoaar com a brisa.

- 'Arry, o Gnp'ook gostarria de falarr contigo. Ele ezt no quarrt mais pequeno, e diz que no querr serr escutado.

Era manifesto o seu desagrado por ter de levar recados, e ao voltar para trs parecia irritada.

Griphook aguardava-os, tal como Fleur dissera, no mais pequeno dos trs quartos da casa, que Hermione e Luna ocupavam

407

 noite. Correra as cortinas de algodo vermelho em virtude de o brilho do cu nublado lhe ferir a vista, conferindo ao quarto uma tonalidade gnea que destoava 
do resto da casinha leve e clara.

- J tomei a minha deciso, Harry Potter -, anunciou o goblin, que estava sentado de pernas cruzadas numa cadeira baixa, tamborilando nos braos com os seus longos 
dedos. - Apesar de os goblins de Gringotts o considerarem uma traio vil, resolvi ajudar-te.

- Isso  fantstico! - exclamou Harry, sentindo uma onda de alvio. - Griphook, obrigado, estamos imensamente...

- ...em troca - prosseguiu o goblin, com firmeza -, de uma paga.

Ligeiramente apanhado de surpresa, Harry hesitou.

- Quanto  que queres? Posso dar-te ouro.

- Ouro no - disse Griphook. - Eu tenho ouro. Os seus olhos pretos sem crnea brilharam.

- Quero a espada. A espada de Godric Gryffindor. Harry no podia ter ficado mais esmorecido.

- No podes ficar com ela - protestou. - Lamento.

- Ento - referiu o goblin em voz baixa -, temos um problema.

- Podemos dar-te qualquer outra coisa - interveio Ron, cheio de ansiedade. - Aposto que os Lestrange tm carradas de coisas, poders levar o que quiseres assim que 
entrarmos no cofre.

Escolhera as palavras erradas. Griphook ruborizou-se de fria.

- Eu no sou nenhum ladro, rapaz! No estou a tentar apoderar-me de tesouros a que no tenho direito!

- A espada  nossa...

- No  - contraps o goblin.

- Ns somos Gryffindor, e ela pertencia a Godric Gryffindor...

- E antes de ser de Gryffindor, de quem era? - quis saber o goblin, empertigando-se.

- De ningum - referiu Ron -, foi feita para ele, no foi?

- No! - insurgiu-se o goblin, eriando-se de raiva ao mesmo tempo que apontava um dedo comprido a Ron. - L est outra vez a arrogncia dos feiticeiros! Aquela 
espada era de Ragnuk I, tendo-lhe sido tirada por Godric Gryffindor!  um tesouro perdido, uma obra-prima sada das mos dos goblins! Pertence-nos! A espada  o 
preo do meu servio,  pegar ou largar!

Griphook fitou-os com ar ameaador. Harry trocou um olhar com os outros e depois informou: - Necessitamos de discutir o

408

assunto, Griphook, se fosse possvel. Importas-te de nos conceder alguns minutos?

O goblin anuiu, carrancudo.

Descendo  sala de estar vazia, Harry aproximou-se da lareira, de testa franzida, tentando pensar no que fazer. Nas suas costas, Ron disse: - Ele est a aproveitar-se. 
No podemos deix-lo ficar com aquela espada.

- E verdade? - perguntou Harry a Hermione. - A espada foi roubada por Gryffindor?

- No sei - respondeu, atrapalhada. - A histria da feitiaria omite com frequncia o que os feiticeiros fizeram a outras raas mgicas, mas no tenho conhecimento 
de nenhuma referncia a que Gryffindor tivesse roubado a espada.

- Deve ser uma daquelas histrias dos goblins - alvitrou Ron -, em que os feiticeiros esto sempre a tentar levar a melhor sobre eles. Acho que deveramos ficar 
satisfeitos por ele no ter pedido uma das nossas varinhas.

- Os goblins tm bons motivos para detestar os feiticeiros, Ron - lembrou-lhe Hermione. - Foram brutalmente tratados no passado.

- No entanto, no so propriamente coelhos fofinhos, pois no? - inquiriu Ron. - Mataram muitos de ns. Tambm jogaram sujo.

- Mas discutir com o Griphook sobre qual das raas  mais dissimulada e violenta no aumentar as probabilidades de ele nos ajudar, pois no?

Seguiu-se uma pausa, enquanto tentavam pensar numa maneira de contornar o problema. Harry olhou pela janela para a sepultura de Dobby. Luna colocava lavanda-do-mar 
num frasco de compota ao lado da lpide.

- Est bem - concordou Ron, e Harry virou-se para ele. - E que tal isto? Dizemos ao Griphook que precisamos da espada at entrarmos no cofre, e que depois pode ficar 
com ela. Existe l uma falsa, no existe? Podemos troc-las e entregar-lhe a falsa.

- Ron, ele notaria a diferena melhor que ns - afirmou Hermione. - Foi o nico a aperceber-se de que houvera uma troca!

- Pois, mas podamos pisgar-nos antes que ele se apercebesse...

Encolheu-se todo ante o olhar que Hermione lhe lanava.

409

- Isso - disse ela muito calmamente -,  ignbil. Pedir-lhe ajuda, e depois tra-lo? E ainda estranhas que os goblins no gostem dos feiticeiros, Ron?

As orelhas de Ron tinham ficado vermelhas.

- Pronto, pronto! Foi a nica coisa que me ocorreu. Que soluo propes, ento?

- Precisamos de lhe oferecer algo mais, algo de igual valor.

- Brilhante. vou buscar uma das nossas outras espadas fabricadas por goblins e tu fazes um embrulho de oferta.

O silncio instalou-se de novo entre ambos. Harry tinha a certeza de que o goblin no aceitaria mais nada seno a espada, ainda que tivessem algo igualmente valioso 
para lhe oferecer. Contudo, a espada era uma arma indispensvel contra os Horcruxes.

Fechou os olhos por um momento e escutou o bramido do mar. Desagradava-lhe a ideia de Gryffindor poder ter roubado a espada; sempre se orgulhara de ser um Gryffindor; 
este fora o paladino dos feiticeiros de origem Muggle, o feiticeiro que fizera frente a Slytherin e ao seu amor pelos puros-sangues...

- Talvez ele esteja a mentir - alvitrou Harry, voltando a abrir os olhos. - O Griphook. Talvez Gryffindor no roubasse a espada. Como podemos saber que a verso 
da histria do goblin est correcta?

- E faz alguma diferena? - inquiriu Hermione.

- Muda a minha opinio - retrucou Harry. Respirou fundo.

- Vamos dizer-lhe que pode ficar com a espada depois de nos ter ajudado a entrar naquele cofre... mas temos de evitar indicar-lhe exactamente em que altura poder 
ficar com ela.

Estampou-se um sorriso rasgado no rosto de Ron. Hermione, porm, pareceu ficar alarmada.

- Harry, no  justo...

- Poder ficar com ela - prosseguiu Harry -, depois de a termos usado em todos os Horcruxes. Certificar-me-ei de que a recebe nessa altura. Cumprirei o prometido!

- Mas isso pode levar anos! - exclamou Hermione.

- Eu sei, s que ele no precisa de o saber. No estarei a mentir... por assim dizer.

O olhar de Harry cruzou-se com o dela, um misto de desafio e vergonha. Recordou as palavras gravadas por cima do porto de entrada de Nurmengard: Para o Bem Maior. 
Afastou a ideia. Tinham outra alternativa?

410

l

- No me agrada - confessou Hermione.

- Nem a mim, nada mesmo - admitiu Harry.

- Bem, pois eu acho genial - manifestou-se Ron, levantando-se de novo. - Vamos contar-lhe.

De volta ao pequeno quarto, Harry apresentou-lhe a proposta, tendo o cuidado de a formular de modo a no indicar qualquer momento concreto para a entrega da espada. 
Hermione olhava carrancuda para o cho enquanto ele falava, e sentiu-se irritado com a atitude dela, temendo que pudesse denunciar o estratagema. No entanto, Griphook 
no tinha olhos para mais ningum seno Harry.

- Tenho a tua palavra, Harry Potter, em como me entregars a espada de Gryffindor se eu te ajudar?

- Sim - respondeu Harry.

- Ento aperta - disse o goblin, estendendo-lhe a mo. Harry assim fez. Sentiu curiosidade em saber se aqueles olhos

pretos viam algum apreenso nos seus. Depois Griphook largou-o, bateu as palmas e disse: - Muito bem. Vamos comear!

Foi o mesmo que voltar a planear o assalto ao Ministrio. Iniciaram os preparativos no quarto mais pequeno, que era mantido na penumbra, respeitando a preferncia 
de Griphook.

- Estive apenas uma vez no cofre dos Lestrange - contou-lhes Griphook -, quando me mandaram l colocar a espada falsa.  uma das cmaras mais antigas. As famlias 
de feiticeiros mais antigas guardam os seus tesouros no nvel mais profundo, onde os cofres so maiores e esto mais bem protegidos.

Permaneceram horas a fio fechados no minsculo quarto que mais parecia um armrio. Lentamente, os dias transformaram-se em semanas. Era necessrio resolver problema 
atrs de problema, sendo um dos piores o facto de a reserva de Poo Polissuco estar quase esgotada.

- Na realidade, s resta o suficiente para um de ns - referiu Hermione, verificando a Poo espessa como lama  luz do candeeiro.

- Ser suficiente - redarguiu Harry, que examinava o mapa dos tneis mais profundos traado  mo por Griphook.

Era impossvel os outros habitantes da Casa das Conchas no se aperceberem de que se passava algo, agora que Harry, Ron e Hermione s apareciam  hora das refeies. 
Ningum fez perguntas, apesar de Harry sentir amide que Bill os olhava  mesa, muito srio e preocupado.

411

Quanto mais tempo passavam juntos, mais Harry se apercebia de que no gostava muito do goblin. Griphook mostrou-se inesperadamente sanguinrio, riu-se da ideia de 
infligir dor a criaturas inferiores e pareceu deliciar-se com a possibilidade de terem de ferir outros feiticeiros para alcanarem o cofre dos Lestrange. Harry sabia 
que a sua averso era partilhada pelos seus dois companheiros, s que no a exteriorizavam: necessitavam de Griphook.

O goblin comia com os restantes, contrafeito. Mesmo depois de saradas as pernas, continuava a pedir que lhe levassem tabuleiros com comida ao quarto, como faziam 
com Ollivander, ainda fraco, at que Bill (na sequncia de uma exploso de Fleur) foi l acima dizer-lhe que a situao no podia continuar. A partir da, Griphook 
fazia-lhes companhia  mesa, apesar de se recusar a comer os mesmos alimentos que eles, preferindo pedaos de carne crua, razes e cogumelos variados.

Harry sentia-se responsvel; afinal, fora ele que insistira para que o goblin permanecesse na Casa das Conchas a fim de poder interrog-lo; por sua culpa  que toda 
a famlia Weasley se vira obrigada a esconder-se e que Bill, Fred, George e Mr. Weasley tinham deixado de poder trabalhar.

- Lamento imenso - disse a Fleur, num final de tarde ventosa de Abril, enquanto a ajudava a preparar o jantar. - No queria nada que passassem por tudo isto.

Fleur acabara de pr umas facas a trabalhar, cortando bifes para Griphook e Bill, que passara a preferir a carne em sangue desde que fora atacado por Greyback. Enquanto 
as facas continuavam a cortar, a expresso algo irritada dela suavizou-se.

- 'Arry, salvazte a vida da minha irrm, no o esquecerrei. At nem era bem verdade, mas Harry decidiu no lhe recordar que Gabrielle nunca correra verdadeiramente 
perigo.

- De qualquer forma - prosseguiu Fleur, apontando a varinha a uma panela de molho no fogo, que comeou imediatamente a borbulhar. - Mr. Ollivander parrte parra 
caza da Muriel esta noite. Azim ficarr tudo maiz fcil. O goblin - carregou um pouco o cenho ao mencion-lo -, pode mudarr-se c parra baixo e tu, o Ron e o Dean 
ficam naquele quarrt.

- Ns no nos importamos de dormir na sala de estar - afirmou Harry, sabendo que Griphook no veria com bons olhos ter de dormir no sof; era essencial para os seus 
planos mante-lo satisfeito. - No te preocupes connosco. - E, quando ela tentou

412

protestar, ele prosseguiu. - Em breve vos iremos deixar tambm, o Ron, a Hermione e eu. No necessitaremos de aqui ficar muito mais tempo.

- Maz como azim? - perguntou ela, lanando-lhe um olhar carrancudo, a varinha que apontava para o preparado na caarola agora suspensa no ar. - Clarro que no vo 
parrtir, ezto em zegurrana aqui!

Parecia mesmo Mrs. Weasley a falar, e Harry alegrou-se com o facto de a porta das traseiras se abrir naquele momento. Luna e Dean entraram, o cabelo molhado da chuva 
e os braos cheios de lenha.

- ... e orelhinhas minsculas - dizia Luna -, parecidas com as de um hipoptamo, s que roxas e peludas, diz o pap. E se os quiseres chamar, ters de cantarolar; 
eles preferem uma valsa, no demasiado rpida...

Parecendo constrangido, Dean encolheu os ombros a Harry quando passou, seguindo Luna at  sala comum, onde Ron e Hermione punham a mesa para o jantar. Aproveitando 
a oportunidade para se furtar s perguntas de Fleur, Harry pegou em dois jarros de sumo de abbora e seguiu-os.

- ...e se alguma vez vieres a nossa casa, poderei mostrar-te o chifre, o pap escreveu-me a falar dele mas ainda no o vi, porque os Devoradores da Morte me tiraram 
do Expresso de Hogwarts e no cheguei a ir passar o Natal a casa - dizia Luna, enquanto alimentava a lareira na companhia de Dean.

- Luna, ns j te dissemos - dirigiu-se-lhe Hermione. - Aquele chifre explodiu. Era de um Erumpent, no de um Snorkack de Chifres Amarrotados...

- No, era sem dvida um chifre de Snorkack - insistiu Luna serenamente. - O pap disse-me. Provavelmente j estar reconstrudo, eles consertam-se, sabes.

Hermione abanou a cabea e continuou a colocar os garfos quando Bill apareceu, trazendo Mr. Ollivander, que parecia ainda excepcionalmente frgil, e se agarrara 
ao brao de Bill enquanto este o amparava, carregando uma grande mala de viagem.

- vou ter saudades suas, Mr. Ollivander - referiu Luna, aproximando-se do velhote.

- E eu de ti, minha querida - afirmou Ollivander, batendo-lhe ao de leve no ombro. - Foste para mim um consolo inexprimvel naquele lugar terrvel.

413

- Enton, au revoir'', Mr. Ollivander - disse Fleur, beijando-o em ambas as faces. - E perrgunto-me ze me farria o favorr de levarr um embrrulho  Muriel, a tia do 
Bill? Nunca lhe cheguei a devolverr a tiarra.

- Terei o maior prazer - respondeu Ollivander, com uma pequena vnia -,  o mnimo que posso fazer para retribuir a vossa generosa hospitalidade.

Fleur exibiu um estojo de veludo pudo, que abriu para mostrar ao fabricante de varinhas. A tiara reluziu e cintilou  luz do candeeiro baixo.

- Selenites e brilhantes - comentou Griphook, que entrara sorrateiramente na sala sem que Harry se apercebesse. - Fabricada por goblins, creio?

- E paga por feiticeiros - afirmou Bill calmamente, e o goblin deitou-lhe um olhar simultaneamente furtivo e de desafio.

Fortes rajadas de vento sacudiam as janelas da casa quando Bill e Ollivander se embrenharam na noite. Os restantes apertaram-se  volta da mesa; cotovelo com cotovelo 
e mal tendo espao para se mexerem, comearam a comer. O fogo crepitava e estalava na lareira ao lado deles. Harry apercebeu-se de que Fleur se limitava a brincar 
com a comida, olhando constantemente para a janela; no entanto, Bill regressou antes de terem terminado o primeiro prato, o cabelo comprido despenteado pelo vento.

- Est tudo bem - dirigiu-se a Fleur. - O Ollivander ficou instalado, a me e o pai mandam-te beijinhos e a Ginny diz que gosta muito de ti. O Fred e o George esto 
a deixar a Muriel irritadssima, pois continuam com o negcio de encomendas por coruja a partir do quarto das traseiras. No entanto, ficou animada por receber de 
novo a tiara. Disse que julgava que a tnhamos roubado.

- Ah, como a tua tia  alarmante! - comentou Fleur, furiosa, brandindo a varinha e fazendo com que os pratos sujos se erguessem e formassem uma pilha em pleno ar. 
Apanhou-os e saiu da sala decididamente.

- O pap fez uma tiara - explicou Luna. - Bem,  mais uma coroa, na realidade.

Ron captou o olhar de Harry e sorriu; Harry sabia que se estava a recordar do ridculo toucado que tinham visto aquando da sua visita a Xenophilius.

6 Em francs no original: adeus. (NT) Em francs no original: encantadora. (NT}

414

- Sim, ele est a tentar recriar o diadema perdido de Ravenclaw. Julga ter j identificado a maior parte dos elementos. O acrscimo das asas de Billywig fez toda 
a diferena...

Ouviu-se uma pancada na porta da frente e todas as cabeas se viraram para l. Fleur saiu a correr da cozinha, com ar assustado; Bill ps-se em p de um salto, a 
varinha apontada  porta; Harry, Ron e Hermione fizeram o mesmo. Silenciosamente, Griphook escondeu-se debaixo da mesa.

- Quem ? - perguntou Bill.

- Sou eu, o Remus John Lupin! - gritou uma voz acima do uivar do vento. Harry sentiu um arrepio de medo; o que teria acontecido? - Sou um lobisomem, casado com Nymphadora 
Tonks, e tu, o Guardador Secreto da Casa das Conchas, deste-me a morada e disseste que aparecesse se fosse urgente!

- Lupin - murmurou Bill, e correu para a porta, escancarando-a.

Lupin entrou de rompante. Vinha lvido, embrulhado numa capa de viagem, o cabelo grisalho em desalinho. Endireitou-se, olhou  volta da sala, certificando-se de 
quem l estava, e depois anunciou sonoramente: -  um rapaz! Vamos chamar-lhe Ted, que  o nome do pai da Dora!

Hermione soltou um gritinho.

- O qu...? A Tonks j teve o beb?

- Sim, sim, ela j teve o beb! - bradou Lupin. Ouviram-se a toda a volta da mesa exclamaes de satisfao e suspiros de alvio: Hermione e Fleur disseram ambas 
"Parabns!" em tom esganiado, e Ron exclamou, "Caramba, um beb!" como se nunca antes tivesse ouvido falar de tal.

- Sim... sim...  um rapaz - repetiu Lupin, que parecia atarantado com a sua prpria felicidade. Contornou a mesa e abraou Harry; a cena na cave de Grimmauld Place 
podia perfeitamente nunca ter acontecido.

- Vais ser o padrinho, no vais? - perguntou, soltando Harry.

- Eu? - balbuciou Harry.

- Sim, tu, claro ... a Dora est plenamente de acordo, ningum melhor...

- Eu... pois... co' a breca...

Harry sentiu-se aflito, atnito e encantado. Bill correu ento a buscar vinho e Fleur convenceu Lupin a acompanh-los numa bebida.

415

- No me posso demorar muito, preciso de voltar - anunciou Lupin, sorrindo a todos. Harry achou que ele parecia ter rejuvenescido vrios anos. - Obrigado, obrigado, 
Bill.

Bill no tardou a encher todos os copos; levantaram-se e ergueram-nos num brinde.

- Ao Teddy Remus Lupin! - saudou Lupin -, que h-de ser um grande feiticeiro!

- com quem  qu' ele ze parrece? - inquiriu Fleur.

- Eu penso que se parece com a Dora, mas ela acha que  comigo. Tem pouco cabelo Parecia preto quando nasceu, mas era capaz de jurar que uma hora depois ficou ruivo. 
Provavelmente quando eu regressar estar louro. A Andromeda diz que o cabelo da Tonks comeou a mudar de cor no dia em que ela nasceu - Esvaziou o copo - Oh, uma 
vez no so vezes, s mais este - acrescentou, sorrindo, quando Bill fez meno de lho voltar a encher

O vento fustigava a pequena casa e o fogo crepitava, e Bill no tardou a abrir outra garrafa de vinho. A notcia de Lupin parecia t-los feito esquecer os seus problemas, 
em especial a sensao de viverem sitiados: o anncio de uma nova vida era animador. Apenas o goblin se mostrava indiferente  sbita atmosfera festiva e, passado 
um bocado, voltou para o quarto que ocupava agora sozinho. Harry julgou ter sido o nico a aperceber-se disso, at ver o olhar de Bill seguir o goblin que subia 
as escadas

- No .. no... tenho mesmo de voltar - disse por fim Lupin, declinando mais um copo de vinho. Ps-se em p e envolveu-se na sua capa de viagem. - Adeus, adeus., 
tentarei trazer algumas fotografias dentro de uns dias... vo ficar todos to contentes por saberem que vos vi...

Fechou a capa e efectuou as despedidas, abraando as mulheres e apertando as mos aos homens; depois, ainda sorridente, regressou  noite agreste.

- Vais ser padrinho, Harry' - exclamou Bill, quando se dirigiram juntos para a cozinha, ajudando a levantar a mesa. - Uma verdadeira honra! Parabns!

Quando Harry pousou os copos vazios que trazia, Bill fechou a porta, isolando as vozes animadas dos outros, que continuavam a comemorar mesmo na ausncia de Lupin.

- Na verdade, queria falar contigo em particular, Harry. No foi fcil conseguir uma oportunidade com a casa to cheia de gente

416

Bill hesitou.

- Harry, ests a planear algo com o Gripook.

Foi uma afirmao, no uma pergunta, e Harry no se deu ao incmodo de o negar. Olhou apenas para Bill, ficando  espera.

- Eu conheo os goblins - afirmou Bill - Tenho trabalhado em Gringotts desde que deixei Hogwarts Tanto quanto a amizade entre feiticeiros e goblins  possvel, eu 
prprio tenho amigos goblins .. ou, pelo menos, goblins que conheo bem, e de quem gosto. - Mais uma vez, Bill hesitou. - Harry, o que  que queres do Gripook, e 
o que  que lhe prometeste em troca?

- No te posso contar - retorquiu Harry. - Desculpa, Bill. A porta da cozinha abriu-se; Fleur tentava trazer mais copos

vazios.

- Espera - pediu-lhe Bill. - S um momento. Ela saiu s arrecuas e voltou a fechar a porta.

- Ento, vou dar-te um conselho - prosseguiu Bill. - Se fizeste algum tipo de acordo com o Gripook, e muito em particular se ele envolver algum tesouro, tens de 
ser excepcionalmente cauteloso. A noo que os goblins tm de propriedade, pagamento e recompensa no  a mesma dos humanos.

Harry sentiu uma ligeira onda de desconforto, como se uma pequena cobra se houvesse agitado dentro de si.

- O que queres dizer? - perguntou.

- Estamos a falar de uma raa de seres diferente - explicou Bill. - Os negcios entre feiticeiros e goblins h sculos que so tensos... mas tu aprendeste tudo isso 
em Histria da Magia. Ambos os lados cometeram faltas, e nunca afirmaria que os feiticeiros no tm culpas no cartrio. Todavia, existe uma crena entre alguns goblins, 
e os de Gringotts so talvez os mais apegados a ela, de que no se pode confiar nos feiticeiros quando esto em causa ouro e tesouros, que eles no demonstram qualquer 
respeito pela propriedade dos goblins.

- Eu respeito... - comeou Harry, mas Bill abanou a cabea.

- Tu no entendes, Harry, ningum o compreenderia, a menos que tivesse vivido com goblins. Para um goblin, o verdadeiro dono, por direito, de qualquer objecto  
o fabricante, no o comprador. Todos os objectos fabricados por goblins so, aos olhos deles, seus por direito.

- Mas se foi comprado ..

- ...nesse caso, consideram-no alugado por aquele que pagou. Eles tm, por conseguinte, enorme dificuldade em aceitar a ideia

417

de que os objectos fabricados por goblins passem de feiticeiro em feiticeiro. Tu viste a expresso do Gripook quando a tiara lhe passou debaixo dos olhos. No o 
aprova. Acredito que est convencido, tal como os mais acrrimos da espcie dele, de que devia ter sido devolvida aos goblins assim que o comprador inicial morreu. 
Para eles, o nosso hbito de conservar os objectos fabricados pelos goblins, passando-os de feiticeiro em feiticeiro, sem mais qualquer paga, pouco melhor  que 
roubo.

Naquele momento, uma sensao sinistra invadiu Harry e perguntou-se se Bill saberia mais do que dava a entender.

- S te estou a avisar - referiu Bill, apoiando a mo na porta que dava para a sala -, para teres muito cuidado com o que prometes aos goblins, Harry Seria menos 
perigoso assaltar Gringotts que renegar uma promessa feita a um goblin.

- Muito bem - disse Harry, quando Bill abriu a porta -, fica registado. Obrigado, no o esquecerei.

Ao seguir Bill at junto dos outros, ocorreu-lhe um pensamento irnico, fruto, sem dvida, do vinho que bebera. Parecia estar a tornar-se um padrinho to audacioso 
para Teddy Lupin quanto Sirius Black fora para si.

418

XXVI

GRINGOTTS

Os planos estavam traados e os preparativos concludos; no quarto mais pequeno, um nico cabelo preto, crespo e comprido (retirado da camisola que Hermione trouxera 
vestida na Manso dos Malfoy) encontrava-se enrolado num pequeno frasco de vidro em cima da comija da lareira.

- E irs usar a verdadeira varinha dela - disse Harry, indicando com a cabea a varinha de nogueira -, por isso presumo que ficars bastante convincente.

Hermione pareceu recear que a varinha pudesse pic-la ou mord-la quando lhe pegou.

- Odeio esta coisa - confessou em voz baixa. - A srio que a odeio. Causa uma sensao estranha, no funciona bem comigo... at parece que  um bocado dela.

Harry no pde deixar de recordar a forma como Hermione minimizara a sua averso  varinha de abrunheiro, insistindo que ele se punha a imaginar coisas quando ela 
no funcionava to bem quanto a sua, tendo-o aconselhado simplesmente a treinar. Decidiu, porm, no lhe retribuir o conselho; a vspera da tentativa de assalto 
a Gringotts no se afigurava o momento indicado para a hostilizar.

- Provavelmente ajudar-te- a integrares-te na personagem - sugeriu Ron. - Pensa no que essa varinha fez!

- Mas  precisamente isso! - protestou Hermione. - Foi esta varinha que torturou a me e o pai do Neville, e sabe-se l quantas mais pessoas? Foi esta varinha que 
matou o Sirius!

Harry no pensara nisso. Olhou para a varinha e foi acometido de um impulso brutal de a partir, de a cortar ao meio com a espada de Gryffindor, que estava encostada 
 parede a seu lado.

- Sinto a falta da minha varinha - queixou-se Hermione, infeliz - Quem me dera que Mr. Ollivander pudesse ter-me fabricado tambm outra.

Naquela manh, Mr. Ollivander enviara uma varinha nova a Luna e ela encontrava-se de momento l fora, no relvado das tra

419

seiras, a testar as suas capacidades ao sol do final da tarde. Dean, que ficara tambm sem a sua, roubada pelos Raptores, observava-a com ar bastante carrancudo.

Harry olhou para a varinha de espinheiro que pertencera anteriormente a Draco Malfoy. Ficara surpreendido mas agradado ao constatar que funcionava consigo pelo menos 
to bem como sucedera com a de Hermione. Recordando o que Ollivander lhes contara sobre o funcionamento secreto das varinhas, Harry julgou entender qual era o problema 
da amiga: como no a tirara pessoalmente a Bellatrix, Hermione no conquistara a fidelidade da varinha.

A porta do quarto abriu-se e Griphook entrou. Harry levou instintivamente a mo ao punho da espada e aproximou-a de si, mas logo se arrependeu do seu gesto, pois 
percebeu que o goblin reparara. Procurando amenizar o momento desagradvel, disse: - Temos estado a efectuar verificaes de ltima hora, Griphook. Avismos o Bill 
e a Fleur de que partiramos amanh, e pedimos que no se levantassem para se despedirem de ns.

Tinham sido inflexveis nesse aspecto, uma v/ que Hermione necessitaria de se transformar em Bellatrix antes de sarem, e quanto menos Bill e Fleur soubessem ou 
suspeitassem do que iam fazer, melhor. Haviam igualmente explicado que no regressariam. Como tinham perdido a velha tenda de Perkins na noite em que os Raptores 
os haviam apanhado, Bill emprestara-lhes outra. Estava agora guardada dentro da mala de missangas, que Hermione conseguira proteger dos Raptores recorrendo ao simples 
expediente de a enfiar na meia, algo que deixou Harry impressionado.

Apesar de ir sentir saudades de Bill, Fleur, Luna e Dean, para j no mencionar os confortos da casa de que haviam desfrutado nas ltimas semanas, Harry estava ansioso 
por abandonar os limites da Casa das Conchas. Estava farto de tentar certificar-se de que no os escutavam, farto de ficar fechado no minsculo quarto escuro. Acima 
de tudo, ansiava ver Griphook pelas costas. Contudo, uma pergunta para a qual Harry no tinha resposta era precisamente a forma e o momento em que se separariam 
do goblin sem lhe entregarem a espada de Gryffindor. Fora impossvel decidir como iriam faz-lo, porque o goblin raramente deixava Harry, Ron e Hermione sozinhos 
e juntos por mais de cinco minutos de cada vez.

- Ele  mais sabido que a minha me - resmungava Ron sempre que os longos dedos do goblin apareciam no umbral das

portas. com o aviso de Bill em mente, Harry no podia deixar de desconfiar que Griphook estava atento a qualquer possvel trapaa. Hermione reprovara to veementemente 
o plano para o trair que Harry desistira de tentar que ela lhe desse ideias sobre a melhor forma de o fazer; nas raras ocasies em que conseguiram desfrutar de uns 
momentos sem Griphook, Ron no arranjara nada melhor que: "Vamos ter de nos desenrascar, p."

Nessa noite Harry dormiu mal. Acordado de madrugada, pensou no que sentira na noite anterior a terem-se infiltrado no Ministrio da Magia, e recordou a sua determinao 
e entusiasmo. Naquele momento sentia apenas pontadas de ansiedade e dvidas insistentes: no conseguia alhear-se do medo de que fosse correr tudo mal. Dizia constantemente 
de si para si que o plano era bom, que Griphook sabia o que enfrentavam, que estavam bem preparados para todas as dificuldades que provavelmente se lhes deparariam, 
s que continuava apreensivo. Uma ou duas vezes ouviu Ron mexer-se e teve a certeza de que tambm ele estava acordado, mas como partilhavam a sala de estar com Dean, 
Harry no disse nada.

Foi um alvio quando as seis horas chegaram e puderam esgueirar-se dos sacos-cama, vestir-se na semiescurido e sair sorrateiramente para o jardim, onde se encontrariam 
com Hermione e Griphook. A alvorada apresentava-se glida, mas o vento soprava fraco naquele momento, pois estavam em Maio. Harry olhou para as estrelas que brilhavam 
ainda palidamente no cu escuro e ouviu o mar bater e recuar no penhasco. Como sentiria a falta daquele

som!

Pequenos rebentos verdes iam entretanto abrindo caminho atravs da terra avermelhada da sepultura de Dobby; dali a um ano, o monte estaria coberto de flores. A pedra 
branca que ostentava o nome do elfo evidenciava j os efeitos do tempo e Harry apercebeu-se ento de que no teriam encontrado local mais belo para a ltima morada 
de Dobby, mas encheu-se de tristeza s de pensar em deix-lo. Olhando para a sepultura, perguntou-se mais uma vez como soubera o elfo aonde ir em auxlio deles. 
Distrado, levou os dedos  pequena bolsa que continuava a usar pendurada ao pescoo, atravs da qual sentia o fragmento do espelho onde tivera a certeza de ver 
o olho de Dumbledore. Depois, o som de uma porta a abrir-se f-lo virar-se.

Bellatrix Lestrange avanava em passadas pelo relvado na direco deles, acompanhada de Griphook. Enquanto caminhava,

l 

420

421

guardou a malmha de missangas dentro do bolso do velho manto que trouxera de Gnmmauld Place. Apesar de Harry saber perfeitamente que na realidade era Hermione, no 
conseguiu reprimir um calafrio de repulsa Era mais alta do que ele, o longo cabelo preto a ondular-lhe pelas costas, os olhos de plpebras pesadas pousados nele 
cheios de desdm; porm, quando ela falou, ouviu Hermione atravs da voz grave de Bellatrix.

- Que sabor repugnante o dela, pior que Raiz de Gurdi' Pronto, Ron, anda c para que eu te possa...

- Est bem, mas no te esqueas, eu no gosto da barba demasiado comprida...

- Oh, francamente, no precisas de ficar uma beleza...

- Eu sei, mas atrapalha-me! E gostava do meu nariz um bocadinho mais curto, tenta faz-lo como da ltima vez.

Hermione suspirou e meteu mos  obra, murmurando baixinho, enquanto transformava vrios aspectos das feies de Ron Ele precisava de assumir uma identidade completamente 
falsa, e contavam com a aura malvola liberta por Bellatrix para o proteger. Entretanto, Harry e Gripook esconder-se-iam debaixo do Manto da Invisibilidade.

- Pronto - disse Hermione -, que tal te parece ele, Harry? Ainda era possvel distinguir Ron debaixo do seu disfarce, mas

apenas, pensou Harry, porque o conhecia to bem. O cabelo estava mais comprido e ondulado, tinha uma barba castanha cerrada e bigode, nem sombra das sardas, um nariz 
curto e abatatado e sobrancelhas farfalhudas.

- Bem, ele no faz o meu gnero, mas serve - comentou Harry. -J podemos partir?

Olharam os trs para a Casa das Conchas, escura e silenciosa sob as estrelas que desapareciam, depois viraram-se e comearam a afastar-se em direco ao ponto, mesmo 
para l do muro, onde o Encantamento Fidehus deixava de funcionar, e poderiam Desaparecer. Assim que transpuseram o porto, Gripook falou.

- Eu devia trepar agora, Harry Potter, creio?

Harry curvou-se e o goblin subiu-lhe para as costas, cruzando as mos diante da sua garganta No era pesado, mas Harry detestou a sensao de o transportar e a fora 
surpreendente com que se agarrava. Hermione retirou o Manto da Invisibihdade da mala de missangas e estendeu-o sobre ambos

- Perfeito - disse, curvando-se para espreitar os ps de Harry. - No consigo ver nada. Podemos ir.

422

Harry girou ali mesmo com Gripook sobre os ombros, concentrando-se com todas as suas foras no Caldeiro Escoante, a estalagem que ficava mesmo  entrada de Diagonal. 
O goblin agarrou-se ainda com mais fora quando mergulharam na escurido sufocante; segundos depois, Harry sentiu o passeio debaixo dos ps e, ao abrir os olhos, 
estava em Charing Cross Road. Muggles passavam atarefados com o semblante pesado prprio do incio de mais um dia de trabalho, ignorando em absoluto a existncia 
da pequena estalagem.

O bar do Caldeiro Escoante estava quase deserto. tom, o proprietrio curvado e desdentado, limpava os copos por detrs do balco; dois feiticeiros que conversavam 
em tom abafado l ao fundo olharam para Hermione e retiraram-se para as sombras.

- Madame Lestrange - murmurou tom, e quando Hermione passou, ele inclinou subservientemente a cabea.

- bom dia - disse Hermione, e quando Harry passou sorrateiramente, levando Gripook s cavalitas debaixo do Manto, viu tom esboar um ar de surpresa.

- Demasiado corts - segredou Harry ao ouvido de Hermione, enquanto atravessavam a estalagem at ao minsculo ptio das traseiras. - Tens de tratar as pessoas como 
se fossem escumalha!

- Est bem, est bem!

Hermione puxou da varinha de Bellatrix e bateu num tijolo da parede aparentemente normal que tinham na sua frente. Logo os tijolos comearam a rodopiar e girar, 
at que apareceu um buraco no meio, que se foi alargando sucessivamente, acabando por formar um arco que dava para a estreita rua empedrada conhecida como Diagonal.

Reinava o silncio, pois as lojas ainda no tinham aberto, e quase no circulavam fregueses. A rua torta e empedrada estava agora bastante modificada; j no era 
o local fervilhante que Harry visitara antes de entrar para Hogwarts, tantos anos antes. Havia cada vez mais lojas tapadas com tbuas, apesar de terem surgido diversos 
novos estabelecimentos dedicados  Magia Negra desde a sua ltima visita. O seu prprio rosto fitava-o dos cartazes colados em muitas montras, todos eles ostentando 
sempre em legenda as palavras "Indesejvel Nmero Um".

Via-se uma srie de pessoas andrajosas sentadas s portas. Ouviu-as lamuriarem-se aos raros transeuntes, suplicando ouro, insistindo que eram verdadeiros feiticeiros. 
Um homem tinha o olho tapado por uma ligadura ensanguentada.

423

 medida que avanavam, os mendigos avistavam Hermione e pareciam desvanecer-se  sua passagem, puxando os capuzes sobre os rostos e fugindo o mais depressa possvel. 
Hermione olhou-os com curiosidade, at o homem com a ligadura ensanguentada se lhe atravessar directamente no caminho.

- Os meus filhos! - gritou, apontando para ela. A sua voz soou embargada, esganiada, dando a impresso de estar desvairado - Onde esto os meus filhos? O que  
que ele lhes fez? A senhora sabe, a senhora sabe!

- Eu. . a srio que eu... - balbuciou Hermione.

O homem atirou-se a ela, tentando chegar-lhe  garganta; depois, com um estoiro e uma exploso de luz vermelha, foi arremessado de costas ao cho, ficando inconsciente. 
Ron imobilizara-se com a varinha ainda em riste e uma expresso de choque visvel por detrs da barba. Apareceram rostos s janelas de ambos os lados da rua, enquanto 
um pequeno grupo de transeuntes de ar prspero cingia os mantos e se afastava rapidamente, ansiosos por abandonar o local.

A sua entrada em Diagonal no podia ter dado mais nas vistas; por um momento, Harry perguntou-se se no seria prefervel irem-se embora e tentarem conceber um plano 
diferente. Porm, antes que tivessem tempo de se mexer ou consultar-se, ouviram um grito vindo detrs deles.

- Mas  a Madame Lestrange!

Harry virou-se rapidamente e Griphook agarrou-se-lhe com mais fora ao pescoo: um feiticeiro alto e magro com uma coroa farfalhuda de cabelo grisalho e um nariz 
comprido e pronunciado avanava para eles em grandes passadas.

-  o Travers - informou o goblin entre dentes ao ouvido de Harry, mas naquele momento Harry no se lembrava de quem era Travers. Hermione erguera-se a toda a sua 
altura e dissera, com todo o desprezo que conseguiu: - E o que quer o senhor?

Travers estacou ali mesmo, manifestamente afrontado.

- Ele  Devorador da Morte! - sussurrou Gripook, e Harry deslizou para o lado a fim de repetir a informao ao ouvido de Hermione.

- Desejava simplesmente cumpriment-la - afirmou Travers com frieza -, mas se a minha presena  indesejada.

Harry reconheceu ento a voz; Travers era um dos Devoradores da Morte que fora chamado a casa de Xenophilius.

- No, no, de modo algum, Travers - apressou-se Hermione a redarguir, tentando disfarar o seu erro. - Como est'

- Bem, confesso-me surpreendido ao v-la por estas bandas, Bellatrix        .

- A srio' Porqu? - inquiriu Hermione.

- Bem - Travers tossicou -, constou-me que os habitantes da Manso dos Malfoy no podiam sair de casa, depois da... ha...

fuga
Harry torceu para que Hermione mantivesse a calma. Se aquilo

era verdade, e Bellatrix no devia ser vista em pblico ..

- O Senhor das Trevas perdoa queles que o serviram mui fielmente no passado - disse Hermione, numa magnfica imitao do tom mais insolente de Bellatrix. - Talvez 
o seu prestgio no seja to grande quanto o meu, Travers.

Apesar de o Devorador da Morte parecer melindrado, mostrou-se tambm menos desconfiado. Olhou para o homem que Ron acabara de Atordoar.

- Em que  que aquela coisa o ofendeu?

- No interessa, no voltar a faz-lo - respondeu Hermione com frieza.

- Alguns destes "Sem Varinha" conseguem ser mesmo incomodativos - queixou-se Travers. - Enquanto se limitarem a mendigar, no tenho nada a opor, mas, ainda a semana 
passada, uma mulher chegou inclusivamente a pedir-me que pugnasse pela sua causa no Ministrio. "Senhor, sou feiticeira, sou feiticeira, deixe-me provar-lho!" - 
contou, imitando a voz esganiada dela. - Como se eu fosse dar-lhe a minha varinha., mas de quem  a varinha - inquiriu Travers, curioso - que est a usar de momento, 
Bellatrix' Ouvi dizer que a sua tinha...

- Esta  a minha varinha - referiu Hermione friamente, mostrando-lhe a varinha de Bellatrix. - No sei a que boatos tem dado ouvidos, Travers, mas parece-me lamentavelmente 
desinformado.

Travers pareceu ter ficado um pouco esmorecido com aquela resposta, e dirigiu-se antes a Ron.

- Quem  o seu amigo' No o reconheo

- Este  Dragomir Despart - apresentou Hermione; haviam decidido que inventar algum estrangeiro era o disfarce mais seguro para Ron assumir. - Ele fala muito pouco 
ingls, mas  simpatizante dos objectivos do Senhor das Trevas. Veio at aqui da Transilvnia para conhecer o nosso novo regime.

- No me diga? Como est, Dragomir?

- Com't? - disse Ron, estendendo a mo.

424

425

Travers apresentou dois dedos e apertou a mo de Ron como se receasse conspurcar-se.

- Ento o que a traz e ao seu., bem... amigo simpatizante  Diagonal to cedo? - inquiriu Travers.

- Necessito de ir a Gringotts - adiantou Hermione.

- Infelizmente, eu tambm - informou Travers. - Ouro, imundo ouro! No podemos viver sem ele, confesso, porm, que abomino a necessidade de contacto com os nossos 
amigos de dedos longos.

Harry sentiu as mos entrelaadas de Gripook crisparem-se momentaneamente  volta do seu pescoo.

- Vamos? - sugeriu Travers, fazendo sinal a Hermione para avanar.

Hermione no teve alternativa seno caminhar ao lado dele e seguir pela rua torta e empedrada em direco ao local onde Gringotts se erguia, imponente e branco como 
a neve, ao p das outras pequenas lojas. Ron manteve-se ao lado deles, e Harry e Gripook seguiam atrs.

Um Devorador da Morte atento era a ltima coisa de que precisavam e o pior de tudo era que, com Travers mesmo ao lado do que julgava ser Bellatrix, era impossvel 
a Harry comunicar com Hermione ou Ron. No tardou que chegassem  base das escadas de mrmore que conduziam s enormes portas de bronze. Tal como Gripook os avisara 
entretanto, os goblins de libr que normalmente ladeavam a entrada haviam sido substitudos por dois feiticeiros, empunhando cada qual um fino bastonete dourado.

- Ah, as Sondas da Probidade - suspirou Travers em tom teatral -, quo toscas... mas eficazes!

E comeou a subir os degraus, baixando a cabea aos feiticeiros  esquerda e  direita, que ergueram os bastonetes dourados e os passaram de cima a baixo pelo seu 
corpo. Harry sabia que as Sondas detectavam feitios de ocultao e objectos mgicos escondidos. Ciente de que dispunha apenas de segundos, Harry apontou sucessivamente 
a varinha de Draco a cada um dos guardas e murmurou "Confunde", duas vezes. Sem que Travers se apercebesse, estando naquele momento a olhar pelas portas de bronze 
para o hall interior, os guardas estremeceram ao de leve quando os feitios os atingiram

O longo cabelo preto de Hermione ondulava atrs dela ao subir as escadas.

- Um momento, minha senhora - interpelou-a o guarda, levantando a sua Sonda.

426

- Mas acabou de o fazer! - insurgiu-se Hermione, na arrogante voz de comando de Bellatrix. Travers virou-se para trs, de sobrolhos arqueados. O guarda ficara baralhado. 
Olhou para a fina Sonda dourada, e depois para o seu companheiro, que disse em voz ligeiramente confusa. - Sim, acabaste de os examinar, Marius.

Hermione continuou a avanar, Ron a seu lado, Harry e Gripook trotando invisivelmente atrs deles. Harry olhou para trs quando transpuseram o limiar: ambos os feiticeiros 
coavam as cabeas.

Havia dois goblins diante das portas interiores, que eram de prata e exibiam o poema avisando do castigo terrvel aplicado aos potenciais larpios. Harry ergueu 
o olhar e foi invadido por uma sbita e ntida recordao: ele prprio ali, naquele mesmo lugar, no dia em que completara onze anos, o aniversrio mais maravilhoso 
da sua vida, e Hagrid a seu lado, dizendo, "Louco seria 'quele qu'o tentasse assaltar" Nesse dia, Gringotts afigurara-se-lhe um local maravilhoso, o repositrio 
encantado de tesouros que nunca imaginara possuir. Nunca, por um instante, tinha sonhado que l voltaria para roubar... Segundos depois encontravam-se no amplo trio 
de mrmore do banco.

Goblins sentados ao comprido balco em bancos altos atendiam os primeiros clientes do dia. Hermione, Ron e Travers dingiram-se a um goblin velho que examinava  
lupa uma moeda grossa de ouro. Hermione deixou que Travers lhe passasse  frente a pretexto de explicar a Ron os pormenores do trio.

O goblin ps de lado a moeda que observava, disse a ningum em particular, "Duendes", e depois saudou Travers, que lhe entregou uma minscula chave de ouro, a qual, 
aps ter sido examinada lhe foi devolvida.

Hermione avanou.

- Madame Lestrange! - saudou o goblin, claramente sobressaltado. - No pode ser! Em... em que posso ser-lhe til hoje?

- Desejo entrar no meu cofre - afirmou Hermione.

O velho goblin pareceu encolher-se. Harry olhou  sua volta. No s Travers se detinha, atento, como vrios outros goblins haviam levantado a cabea do seu trabalho 
para fitarem Hermione.

- A senhora traz... identificao? - inquiriu o goblin.

- Identificao? Ma... mas nunca antes me pediram a minha identificao! - protestou Hermione.

- Eles sabem! - segredou Gripook ao ouvido de Harry. - Devem ter sido avisados de que poderia surgir um impostor!

427

- A sua varinha servir, Madame - disse o goblin. Estendeu uma mo ligeiramente trmula e, numa sbita iluminao, Harry apercebeu-se de que os goblins de Gringotts 
tinham conhecimento de que a varinha de Bellatrix fora roubada.

- Age j, age j - murmurou Gripook ao ouvido de Harry -, a Maldio Imperius!

Harry ergueu a varinha de espinheiro por debaixo do Manto, apontou-a ao velho goblm e murmurou, pela primeira vez na vida, "Imprio'"

Uma curiosa sensao desceu pelo brao de Harry, uma impresso de formigueiro quente que parecia brotar da sua mente, percorrer os tendes e veias que o ligavam 
 varinha e  maldio que ela acabara de lanar. O goblin recebeu a varinha de Bellatrix, examinou-a com ateno e depois exclamou: - Ah, vejo que mandou fabricar 
uma nova varinha, Madame Lestrange!

- O qu? - insurgiu-se Hermione -, no, no, essa  minha...

- Uma nova varinha? - estranhou Travers, voltando a aproximar-se do balco; de novo os goblins ali presentes se puseram a observar. - Mas como  possvel, a que 
fabricante recorreu?

Harry agiu sem pensar: apontando a sua varinha a Travers, murmurou "Imprio1" mais uma vez

- Oh, sim, estou a ver - disse Travers, olhando para a varinha de Bellatrix -, sim, muito bonita. E funciona bem? Sempre achei que as varinhas requerem um certo 
treino, no lhe parece?

Hermione ficou completamente desconcertada; no entanto, para imenso alvio de Harry, aceitou a bizarra volta nos acontecimentos sem qualquer comentrio.

O velho goblin ao balco bateu as palmas e um goblin mais jovem aproximou-se.

- vou precisar dos Apetrechos - dirigiu-se ao jovem funcionrio, que desapareceu num pice e regressou um instante depois com um saco de couro que parecia cheio 
de metal a chocalhar, o qual entregou ao seu superior. - ptimo! ptimo' Agora, se fizer o favor de me acompanhar, Madame Lestrange - disse o velho goblin, pulando 
do seu banco e desaparecendo de vista -, conduzi-la-ei ao seu cofre.

Reapareceu  esquina do balco, bamboleando-se todo satisfeito na direco deles, o contedo do saco de couro ainda a chocalhar. Travers mantinha-se perfeitamente 
imvel com a boca

428

completamente escancarada. Ron fazia recair as atenes sobre aquele estranho fenmeno, olhando aparvalhado para Travers.

- Espere... Bogrod!

Apareceu outro goblin  esquina, a correr.

- Temos instrues - disse, fazendo uma vnia a Hermione -, queira desculpar-me, Madame Lestrange, mas houve ordens especiais no que se refere ao cofre dos Lestrange.

Murmurou urgentemente ao ouvido de Bogrod, mas o goblin que sofrera a Maldio Imperius falou-lhe com secura.

- Estou ciente das instrues. Madame Lestrange deseja visitar o seu cofre... famlia muito antiga... clientes antigos... por aqui, se faz favor.

E, sempre acompanhado pelo chocalhar, avanou apressado na direco de uma das muitas portas existentes no trio. Harry olhou novamente para Travers, que continuava 
pregado ao cho, parecendo anormalmente alheado, e tomou uma deciso: com um movimento brusco da varinha, obrigou-o a acompanh-los, caminhando obedientemente atrs 
deles. Ao chegarem  porta, entraram no tnel de pedra rugosa do outro lado, iluminado por archotes flamejantes

- Estamos em apuros, eles desconfiam - comentou Harry, retirando o Manto da Invisibihdade quando a porta bateu atrs deles. Gripook desceu dos seus ombros; nem Travers 
nem Bogrod mostraram a menor surpresa perante o sbito aparecimento de Harry Potter no meio deles. - Pu-los sob a Maldio Imperius - acrescentou, em resposta s 
questes confusas de Hermione e Ron sobre Travers e Bogrod, que permaneciam ali a olhar, especados. - No creio que lhe tenha imprimido fora suficiente, no sei 
.

E outra lembrana atravessou-lhe a mente- a verdadeira Bellatrix Lestrange a gritar-lhe da primeira vez que ele tentara usar uma Maldio Imperdovel: "Tens de as 
sentir, Potter!"

- O que fazemos? - indagou Ron. - Pomo-nos a andar enquanto  tempo?

- Se ainda pudermos - disse Hermione, olhando na direco da porta que dava para o trio principal, onde podia estar a acontecer sabia-se l o qu

- J que viemos at aqui, acho que devemos continuar.

- ptimo! - exclamou Gripook. - bom, precisamos do Bogrod para controlar a carreta; eu j no possuo autoridade, mas no h lugar para o feiticeiro.

429

Harry apontou a sua varinha a Travers.

- Imprio!

O feiticeiro deu meia volta e afastou-se pelos carris escuros num passo estugado.

- O que o obrigaste a fazer?

- A esconder-se - respondeu Harry, ao apontar a varinha a Bogrod, que assobiou, chamando uma carreta que apareceu a rolar pelos carris na direco deles, vinda do 
escuro. Harry teve a certeza de ouvir gritos no trio, no momento em que subiram para a carreta, Bogrod na frente com Griphook, Harry, Ron e Hermione todos apertados 
l atrs.

Arrancaram com um solavanco, sempre a ganhar velocidade; passaram velozmente por Travers, que se enfiava numa fenda na parede; depois a carreta comeou a descrever 
curvas e contracurvas pelos tneis labirnticos, cada vez mais para o fundo. Harry no conseguia ouvir nada acima do barulho do veculo nos carris; o seu cabelo 
esvoaava, enquanto se desviavam das estalactites, embrenhando-se cada vez mais nas profundezas da terra, mas ele continuava a olhar para trs. J agora, mais valia 
terem deixado ficar enormes pegadas; quanto mais pensava no assunto, mais absurdo lhe parecia terem disfarado Hermione de Bellatrix, e terem trazido a sua varinha, 
quando os Devoradores da Morte sabiam quem a roubara...

Harry nunca penetrara to fundo em Gringotts; deram uma curva muito apertada a toda a velocidade e viram  sua frente, a escassos segundos, uma cascata que se despenhava 
sobre os carris. Harry ouviu Griphook gritar, "No!", mas no existiam traves. Atravessaram-na. Harry ficou com os olhos e a boca cheios de gua; no conseguia 
ver nem respirar; depois, com um saco medonho, a carreta virou-se e foram todos cuspidos. Em seguida, desfez-se ao embater na parede do tnel. Harry ouviu Hermione 
gritar algo e sentiu-se deslizar para trs pelo solo como se no existisse gravidade, aterrando sem dor no cho de rocha do tnel.

- F... Feitio de Amortecer - balbuciou Hermione, enquanto Ron a levantava: mas, para horror de Harry, viu que ela j no era Bellatrix; ali estava, com as roupas 
enormes todas encharcadas, de regresso  sua pessoa; Ron voltara a ser ruivo e sem barba. Aperceberam-se disso enquanto se miravam, levando as mos aos prprios 
rostos.

- A Queda do Ladro! - exclamou Griphook, pondo-se em p e olhando para o dilvio que se despenhava sobre os carris, que, como Harry sabia agora, no era apenas 
gua. - Remove qual

430

quer encantamento, qualquer ocultao por magia! Eles sabem que h impostores em Gringotts, e accionaram as defesas contra ns! Harry viu Hermione verificar se ainda 
tinha a mala de missangas, e levou apressadamente a mo debaixo do casaco para se certificar de que no perdera o Manto da Invisibilidade. Virou-se seguidamente, 
vendo Bogrod abanar a cabea de perplexidade: a Queda do Ladro parecia ter eliminado a Maldio Imperius.

- Precisamos dele - referiu Griphook -, no conseguimos entrar no cofre sem um goblin de Gringotts. E precisamos dos Apetrechos!

- Imprio! - bradou Harry novamente; a sua voz ecoou atravs do tnel de pedra, registando outra vez a sensao de controlo vertiginoso que brotava do crebro para 
a varinha. Bogrod submeteu-se mais uma vez  vontade dele, a sua expresso de perplexidade mudando para corts indiferena, enquanto Ron apanhava rapidamente o saco 
de couro com as ferramentas de metal.

- Harry, acho que vm a pessoas! - avisou Hermione e, apontando a varinha de Bellatrix  cascata, gritou, "Protego!" Viu o Feitio do Escudo Invisvel cessar o 
fluxo de gua encantada ao percorrer o tnel.

- Excelente ideia - afirmou Harry -, vai  frente, Griphook!

- Como  que vamos sair daqui? - inquiriu Ron, ao seguirem apressados a p, no escuro, atrs do goblin, Bogrod a arfar como um co velho, tentando acompanh-los.

- Preocupamo-nos com isso quando chegar a altura - respondeu Harry. Procurava escutar; julgava ter ouvido um rudo metlico e movimento ali perto. - Griphook, ainda 
falta muito?

- Est quase, Harry Potter, est quase...

E, ao virarem uma esquina, viram aquilo para que Harry se preparara, mas que no deixou de os fazer estacar a todos.

Um gigantesco drago estava amarrado ao solo  frente deles, barrando o acesso a quatro ou cinco dos cofres mais profundos do banco. As escamas do animal estavam 
descoradas e lascadas devido ao longo encarceramento debaixo do solo; os olhos eram de um rosa leitoso e ambas as patas traseiras apresentavam pesadas grilhetas 
de onde partiam correntes at enormes cavilhas cravadas fundo no cho de rocha. As grandes asas com espiges, recolhidas junto ao corpo, teriam enchido a cmara 
caso as abrisse e, ao virar a feia cabea para eles, emitiu um rugido que fez tremer a rocha; depois abriu a boca e cuspiu um jacto de fogo que os fez fugir pelo 
tnel acima.

431

- Est parcialmente cego - afirmou Griphook, ofegante -, mas  ainda mais selvagem por esse motivo. No entanto, ns temos meios de o controlar. Aprendeu o que se 
vai passar quando chegam os Apetrechos. Dem-mos c.

Ron passou o saco a Griphook e o goblin retirou uma srie de pequenos instrumentos de metal que, quando sacudidos, emitiam um rudo forte e vibrante como martelos 
em miniatura a bater em bigornas. Griphook distribuiu-os e Bogrod aceitou timidamente os seus.

- Sabem o que tm a fazer - disse Griphook a Harry, Ron e Hermione. - Ele est  espera de sentir dor quando ouvir o rudo; recuar, e o Bogrod deve encostar a palma 
da mo  porta do cofre.

Avanaram, contornando de novo a esquina e agitando os Apetrechos. O rudo ecoou nas paredes rochosas, extremamente ampliado, pelo que o interior do crnio de Harry 
pareceu vibrar com a barulheira. O drago emitiu outro bramido rouco, depois recuou. Harry viu-o tremer, e quando se aproximaram mais, reparou nas cicatrizes deixadas 
por golpes maldosos desferidos no seu focinho e calculou que tivesse sido ensinado a temer as espadas em brasa ao ouvir o som dos Apetrechos.

- Obriga-o a encostar a mo  porta! - insistiu Griphook com Harry, que virou novamente a sua varinha para Bogrod. O velho goblin obedeceu, apoiando a palma da mo 
na madeira, e a porta do cofre dissipou-se, revelando uma abertura que fazia lembrar a de uma caverna, cheia do cho ao tecto de moedas e taas de ouro, armaduras 
de prata, as peles de estranhas criaturas, algumas com compridos espinhos, outras com asas descadas, poes em frascos cravejados de pedras preciosas e uma caveira 
ostentando ainda uma coroa.

- Procurem, rpido! - ordenou Harry, e todos se apressaram a entrar no cofre.

Descrevera a Ron e Hermione a taa de Hufflepuff, mas se fosse o outro Horcrux desconhecido que estava escondido naquele cofre, ignorava qual o seu aspecto. Mal 
tivera, porm, tempo de olhar  sua volta, quando se ouviu um rudo abafado por detrs deles: a porta reaparecera, fechando-os dentro do cofre, e ficaram mergulhados 
na mais densa escurido.

- No importa, o Bogrod conseguir libertar-nos! - explicou Griphook, quando Ron soltava um grito de surpresa. - Acendam as vossas varinhas, est bem? E rpido, 
temos muito pouco tempo!

432

- Lumos!

Harry fez rodar a varinha acesa a toda a volta do cofre: o feixe luminoso incidiu em jias cintilantes, e ele viu a falsa espada de Gryffindor numa prateleira alta, 
no meio de um emaranhado de correntes. Ron e Hermione tinham acendido tambm as suas varinhas e examinavam as pilhas de objectos que os rodeavam.

- Harry, ser que isto poderia ser...? Aaaau!

Hermione gritou de dor e Harry virou a sua varinha para ela a tempo de ver um clice com pedras preciosas cair-lhe da mo: s que, nesse entretanto, dividiu-se ao 
meio e transformou-se numa chuva de clices, pelo que, um segundo depois, no meio de um grande estrpito, o cho ficou coberto de clices idnticos a rolar em todas 
as direces, sendo impossvel distinguir o original.

- Queimou-me! - gemeu Hermione, chupando os dedos empolados.

- Acrescentaram-lhes as Maldies Gemino e Flagrante! - esclareceu Griphook. - Tudo aquilo em que tocarem queimar e multiplicar-se-, mas as cpias no tm valor... 
e se continuarem a mexer no tesouro, acabaro por morrer esmagados pelo peso do ouro a expandir-se!

- No toquem em nada, ouviram?! - avisou Harry, mas nesse preciso momento, sem querer, Ron bateu num dos clices cados com o p, e mais vinte surgiram do nada, 
enquanto ele saltitava no mesmo lugar, com parte do sapato queimado devido ao contacto com o metal quente.

- Fica quieto, no te mexas! - advertiu Hermione, agarrando Ron.

- Limitem-se a olhar! - ordenou Harry. - Lembrem-se, a taa  pequena e de ouro, tem um texugo gravado, duas asas... ou ento vejam se conseguem localizar algures 
o smbolo de Ravenclaw, a guia...

Apontaram as varinhas para todos os recantos e fendas, rodando cautelosamente no mesmo lugar, mas era impossvel no roar em nada; Harry fez resvalar uma enorme 
cascata de falsos Galees, que se reuniram aos clices, e agora mal tinham onde colocar os ps, e o ouro reluzente emanava calor, pelo que o cofre mais parecia uma 
fornalha. A luz da varinha de Harry percorreu escudos e elmos fabricados por goblins, colocados em prateleiras que chegavam ao tecto. Fez subir cada vez mais o feixe 
luminoso, at que, de repente, este incidiu num objecto que lhe deixou o corao em sobressalto e a mo a tremer.

433

- Est ali, est l em cima!

Ron e Hermione apontaram tambm para l as suas varinhas, pelo que a pequena taa de ouro cintilou sob um feixe de luz triplo, a taa que pertencera a Helga Hufflepuff, 
que passara para a posse de Hepzibah Smith e que lhe fora roubada por tom Riddle.

- E como diabo vamos conseguir l chegar sem tocar em nada? - indagou Ron.

- Aedo taa! - exclamou Hermione, que evidentemente se esquecera, no seu desespero, do que Griphook lhes explicara durante as sesses de planeamento.

-  escusado,  escusado! - protestou o goblin.

- Nesse caso, o que fazemos? - perguntou Harry ao goblin. - Se queres a espada, Griphook, vais ter de nos ajudar mais do que... espera! Eu posso tocar nas coisas 
com a espada? Hermione, passa-ma!

Hermione levou a mo ao interior do manto, retirou a mala de missangas, remexeu durante alguns segundos e retirou a espada reluzente. Harry pegou-lhe pelo punho 
com rubis e tocou com a ponta da lmina numa garrafa de prata, que no se multiplicou.

- Se eu conseguisse enfiar a espada na asa... mas como  que hei-de chegar l acima?

A prateleira onde a taa se encontrava ficava fora do alcance de qualquer deles, at de Ron, que era o mais alto. O calor do tesouro encantado erguia-se em ondas 
e o suor escorria pelo rosto e pelas costas de Harry, enquanto ele se esforava por pensar numa forma de chegar  taa; ouviu, ento, o drago bramir do outro lado 
da porta do cofre, e o som do chocalhar metlico que se tornava cada vez mais forte.

Agora  que estavam verdadeiramente encurralados: no tinham sada seno pela porta, e parecia estar a aproximar-se uma horda de goblins do outro lado. Harry olhou 
para Ron e Hermione e viu o terror estampado nos seus rostos.

- Hermione - disse Harry quando a barulheira se intensificou -, tenho de ir l acima, temos de o destruir...

Ela ergueu a varinha, apontou-a a Harry e murmurou: - Levicorpus.

Iado no ar pelo tornozelo, Harry bateu numa armadura, da qual irromperam rplicas, quais corpos incandescentes, enchendo o espao j bastante apertado. com gritos 
de dor, Ron, Hermione e os dois goblins foram arremessados contra mais objectos, que

434

comearam igualmente a duplicar-se. Meio soterrados por uma enchente de tesouro ao rubro, debateram-se e gritaram, enquanto Harry enfiava a espada na asa da taa 
de Hufflepuff, prendendo-a na lmina.

- Impervius! - guinchou Hermione, numa tentativa de se protegerem do metal escaldante.

Depois, um grito aterrador fez Harry olhar para baixo: Ron e Hermione estavam enterrados no tesouro at  cintura, esforando-se por impedir Bogrod de resvalar para 
debaixo da enchente, mas Griphook afundara-se e s se avistavam as pontas de alguns dos seus dedos.

Harry agarrou os dedos de Griphook e puxou. Coberto de bolhas, o goblin foi aparecendo gradualmente, soltando uivos.

- Liberacorpus! - gritou Harry, e com um estrondo, ele e Griphook aterraram na superfcie do tesouro que se avolumava, e a espada voou da mo de Harry.

- Apanha-a! - berrou Harry, tentando resistir  dor do metal quente na sua pele, enquanto Griphook lhe trepava para os ombros, decidido a evitar a massa crescente 
de objectos ao rubro. - Onde est a espada? Tinha l a taa!

O chocalhar metlico do outro lado da porta estava a tornar-se ensurdecedor... era tarde de mais...

- Ali!

Foi Griphook a avist-la e a atirar-se de cabea e, naquele instante, Harry percebeu que o goblin nunca esperara que eles cumprissem a sua palavra. com uma mo a 
segurar firmemente um punhado do cabelo de Harry para se certificar de que no caa no mar revolto de ouro ardente, Griphook pegou no punho da espada e levantou-a 
ao alto para Harry no a alcanar.

A minscula taa de ouro, presa pela asa na lmina da espada, foi arremessada ao ar. com o goblin ainda escarranchado nele, Harry atirou-se de cabea, apanhando-a 
e, apesar de a sentir escaldar-lhe a carne, no a largou, nem mesmo enquanto inmeras taas de HufHepuff iam brotando do seu punho, chovendo sobre ele, ao mesmo 
tempo que a entrada do cofre se abria novamente. Deu consigo a resvalar descontroladamente numa avalancha crescente de ouro e prata que o levaram, a Ron e a Hermione 
at ao exterior do cofre.

Mal tomando conscincia da dor das queimaduras que lhe cobriam o corpo, e ainda a deslizar pela vaga do tesouro em duplicao, Harry guardou a taa no bolso e estendeu 
a mo para recu

435

perar a espada, mas Griphook desaparecera. Pulando dos ombros de Harry assim que pde, correra a esconder-se no meio dos goblins que os rodeavam, brandindo a espada 
e gritando: "Ladres! Ladres! Socorro! Ladres!" Desaparecera no meio da turba que avanava, todos eles munidos de punhais, e que o aceitaram sem questionar.

Resvalando no metal quente, Harry ps-se em p e percebeu que a nica sada era em frente.

- Atordoar! - berrou, e Ron e Hermione juntaram-se-lhe: jactos de luz vermelha voaram sobre a multido de goblins e alguns tombaram, mas outros avanaram, e Harry 
viu diversos guardas feiticeiros aparecer a correr ao virar da esquina.

O drago amarrado soltou um bramido e um jorro de chamas atingiu os goblins: os feiticeiros debandaram, todos encolhidos, pelo caminho que haviam trazido, e Harry 
foi bafejado pela inspirao ou pela loucura. Apontando a varinha s enormes grilhetas que prendiam o animal ao cho, gritou: "Relashio!"

As grilhetas abriram-se com sonoros estalos.

- Por aqui! - gritou Harry e, continuando a lanar Feitios de Atordoar sobre os goblins que avanavam, correu na direco do drago cego.

- Harry... Harry... o que ests a fazer? - esganiou-se Hermione.

- Subam, subam, vamos l...

O drago no se apercebera de que estava livre: Harry apoiou o p na curva da pata traseira e iou-se para o seu dorso. As escamas eram duras como ao e pareceu-lhe 
que o animal nem sequer o sentira. Esticou um brao e Hermione iou-se; Ron subiu para trs deles, e um segundo depois, o drago deu-se conta de que j no estava 
agrilhoado.

Empinou-se, rugindo: Harry apertou os joelhos, agarrando-se com toda a fora s escamas denteadas, enquanto as asas se abriam, derrubando os goblins aos gritos como 
se fossem pinos de bowling, e ergueu-se no ar. Harry, Ron e Hermione, espalmados no seu dorso, raspavam no tecto enquanto ele avanava em direco  abertura do 
tnel, ao mesmo tempo que os goblins que os perseguiam arremessavam punhais que resvalavam dos seus flancos.

- Nunca conseguiremos escapar,  demasiado grande! - exclamou Hermione, mas o drago abriu a boca e vomitou de novo chamas, fazendo explodir o tnel. O cho e tecto 
fenderam

436

- se e desmoronaram-se. O drago ia abrindo caminho, utilizando a fora das garras, e Harry mantinha os olhos fechados por causa do calor e do p, ensurdecido pelo 
estrondo das rochas a cair e pelos bramidos do drago. Agarrando-se a custo ao seu dorso, esperava ser cuspido a qualquer instante; ouviu ento Hermione gritar: 
"Defodio!"

A amiga ajudava o drago a alargar o tnel, escavando o tecto, enquanto ele se elevava a custo, em direco ao ar mais fresco, afastando-se dos goblins aos gritos 
e do chocalhar metlico. Harry e Ron imitaram-na, desfazendo o tecto com mais feitios de escavar. Passaram pelo lago subterrneo e, no meio dos rugidos, o enorme 
animal pareceu pressentir a liberdade e o espao  sua frente; atrs deles, a cauda espinhosa do drago varria o tnel que se enchia de grandes pedaos de rocha 
e de gigantescas estalactites arrancadas; o rudo dos goblins ia-se tornando mais abafado, enquanto l  frente o fogo do drago lhes ia desimpedindo o caminho...

E depois, com o esforo conjugado dos feitios e da fora bruta do drago, conseguiram finalmente sair do tnel para o trio de mrmore. Goblins e feiticeiros gritaram, 
correndo a esconder-se, e o drago pde por fim estender as asas. Virando a cabea ornada de chifres para o ar fresco que sentia no exterior para l da entrada, 
ergueu-se com Harry, Ron e Hermione ainda agarrados ao seu dorso, abriu caminho atravs das portas de metal, deixando-as retorcidas e suspensas dos gonzos, enquanto 
avanava, cambaleante, por Diagonal e se lanava no cu.

437

XXVII

O ESCONDERIJO FINAL

Era impossvel gui-lo. O drago no conseguia ver para onde ia, e Harry sabia que, se ele mudasse bruscamente de direco ou se se virasse no ar, no conseguiriam 
agarrar-se ao seu imenso dorso. No obstante,  medida que se elevavam cada vez mais, com Londres a estender-se por debaixo deles como um mapa cinzento e verde, 
a sensao que invadia Harry era sobretudo de gratido por uma fuga que se afigurara impossvel. Agachado sobre o pescoo do animal, segurava-se com fora s escamas 
metlicas, e a brisa refrescava-lhe a pele queimada e empolada, enquanto as asas do drago batiam o ar como as velas de .um moinho de vento. Atrs de si, no sabia 
dizer se de satisfao se de medo, Ron praguejava incessantemente a plenos pulmes, e Hermione parecia soluar.

Decorridos cerca de cinco minutos, Harry perdeu parte do seu receio inicial de que o drago fosse arremess-los, pois o seu nico intuito parecia ser afastar-se 
o mais possvel da priso subterrnea; no entanto, restava a questo assaz assustadora de como e quando iriam descer. No fazia a menor ideia do tempo que os drages 
podiam voar sem pousar, nem como aquele drago em particular, que mal conseguia ver, localizaria um bom local de descida. Olhava constantemente  sua volta, imaginando-se 
a sentir a sua cicatriz a arder...

Quanto tempo decorreria at Voldemort saber que eles tinham assaltado o cofre dos Lestrange? com que celeridade seria Bellatrix avisada pelos goblins de Gringotts? 
Aperceber-se-iam rapidamente do que fora levado? E depois, quando descobrissem que a taa de ouro desaparecera? Voldemort saberia, finalmente, que eles andavam atrs 
dos Horcruxes!

O drago parecia desejoso de ar mais fresco e puro: ia subindo gradualmente at que atravessaram farrapos de nuvem glidos e Harry deixou de conseguir distinguir 
os pequenos pontos coloridos que eram os carros a entrar e sair da capital. E continuaram a voar, sobre campos divididos em parcelas verdes e castanhas, sobre

438

estradas e rios que serpenteavam atravs da paisagem, quais pedaos de fita brilhante e baa.

- O que ser que ele procura? - gritou Ron,  medida que avanavam cada vez mais para norte.

- No fao ideia - respondeu Harry, berrando tambm. Tinha as mos dormentes do frio, mas no se atrevia a tentar aliviar a presso. H j algum tempo que se debatia 
com o que fariam se vissem a costa passar por debaixo deles, se o drago rumasse ao alto mar: estava gelado e entorpecido, j para no mencionar a fome e a sede 
desesperante que sentia. Perguntou-se quando teria o animal comido pela ltima vez. Por certo, dentro em breve necessitaria de sustento? E se, nessa altura, se apercebesse 
de que levava no dorso trs humanos perfeitamente comestveis?

O sol desceu mais no cu, que estava a ficar cor de anil, e o drago continuava a voar. Cidades e vilas desapareciam de vista por debaixo deles, a sua sombra enorme 
a deslizar sobre a terra como uma grande nuvem carregada. Doa-lhe o corpo todo do esforo de se agarrar ao dorso do drago.

- E imaginao minha - gritou Ron, aps um silncio considervel -, ou estamos a perder altitude?

Harry olhou para baixo e viu montanhas e lagos verde-escuros, acobreados ao pr-do-sol. Quando espreitou pelo flanco do drago, pareceu-lhe que a paisagem estava 
a ficar mais ntida e mais pormenorizada e sentiu curiosidade em saber se o animal teria pressentido a existncia de gua potvel nos reflexos da luz do sol.

O drago foi descendo, descendo, em grandes crculos espiralados, direito ao que parecia um dos lagos mais pequenos.

- Proponho que saltemos quando ele estiver suficientemente baixo! - gritou Harry aos outros. - Directamente para a gua, antes que ele se aperceba de que estamos 
aqui!

Concordaram, Hermione de uma forma um pouco menos decidida; Harry viu ento a imensa barriga amarelada do drago a rasar a superfcie da gua.

- AGORA!

Deslizou pelo flanco do drago e atirou-se, de ps, em direco  superfcie do lago; a queda foi maior do que calculara e o embate na gua deu-se com toda a fora, 
mergulhando como uma pedra num mundo glido, verde e cheio de juncos. Bateu os ps em direco  superfcie e emergiu, arquejante, vendo ondas enormes surgirem em 
crculos nos locais onde Ron e Hermione tinham

439

cado. O drago no pareceu ter-se apercebido de nada: ia j cerca de quinze metros mais  frente, voando a rasar o lago para aspirar gua com o focinho marcado 
de cicatrizes Quando Ron e Hermione emergiram, cuspindo e arfando, das profundezas do lago, o drago continuou a voar, batendo as asas com fora, acabando por pousar 
numa margem distante.

Harry, Ron e Hermione nadaram at  margem oposta. O lago no dava a impresso de ser muito fundo e em breve deixavam de nadar para abrirem caminho por entre os 
canaviais e a lama. Caram por fim na erva escorregadia, ensopados, arquejantes e exaustos.

Hermione estirou-se, tossindo e tremendo de frio. Conquanto de bom grado Harry se tivesse deitado a dormir, levantou-se cambaleante, puxou da sua varinha e comeou 
a lanar os habituais feitios de proteco  volta deles.

Quando terminou, reuniu-se aos outros. Era a primeira vez que os via bem desde que haviam iniciado a fuga do cofre. Apresentavam ambos graves queimaduras no rosto 
e nos braos, e tinham as roupas chamuscadas em alguns stios. Aplicaram essncia de ditana nos inmeros ferimentos por entre muitos esgares. Hermione entregou 
o frasco a Harry, depois exibiu trs garrafas de sumo de abbora que trouxera da Casa das Conchas e roupas limpas e secas para todos. Mudaram-se e depois beberam 
avidamente

o sumo.

- Bem, vendo pelo lado positivo - pronunciou-se finalmente Ron, que estava sentado a ver a pele das suas mos voltar a crescer -, conseguimos o Horcrux Pelo lado 
negativo. .

- ...a espada foi-se - concluiu Harry, por entre os dentes cerrados, ao deitar dltana atravs do buraco chamuscado das suas calas de ganga sobre a queimadura que 
se via por baixo.

- A espada foi-se - repetiu Ron - Aquele traidor velhaco .. Harry retirou o Horcrux do bolso do casaco molhado que

acabara de despir e pousou-o na erva  frente deles. Reluzia ao sol, atraindo-lhes o olhar, enquanto bebiam goladas de sumo

- Pelo menos desta vez no o podemos usar, ficaria um bocado estranho pendurado ao pescoo - comentou Ron, limpando a boca com as costas da mo.

Hermione olhou para a outra margem do lago, onde o drago continuava a beber.

- O que acham que lhe acontecer? - indagou. - Ficar bem'

440

- J pareces o Hagrid a falar - disse Ron. -  um drago, Hermione, sabe olhar por si. E connosco que temos de nos preocupar

- O que queres dizer?

- Bem, no sei como dar-te a notcia - afirmou Ron -, mas acho que eles j devem ter-se apercebido de que assaltmos Gringotts.

Desataram os trs s gargalhadas e, tendo comeado, foi difcil pararem. As costelas de Harry doam-lhe, sentia a cabea a andar  roda da fome, mas deitou-se de 
costas na erva sob o cu avermelhado e riu-se at ficar com a garganta inflamada.

- O que vamos, ento, fazer? - perguntou finalmente Hermione, recuperando a seriedade por entre soluos - Ele vai saber, no vai? O Quem-Ns-Sabemos vai ficar a 
saber que ns temos conhecimento dos seus Horcruxes!

- Talvez tenham pavor de lhe contar' - avanou Ron, esperanado. - Pode ser que resolvam encobrir...

O cu, o cheiro da gua do lago, o som da voz de Ron desapareceram: a dor atravessou a cabea de Harry como um golpe de espada Encontrava-se de p numa sala pouco 
iluminada, rodeado por um semicrculo de feiticeiros, e no cho, a seus ps, ajoelhava-se uma pequena figura trmula

- Que foi que me disseste? - A sua voz era estridente e fria, mas a fria e o medo ardiam dentro de si. A nica coisa que temera... mas no podia ser verdade, no 
via como...

O goblin tremia, incapaz de encarar os olhos vermelhos bem acima dos seus.

- Repete l! - murmurou Voldemort. - Repete l!

- M... meu Senhor - - balbuciou o goblin, os olhos pretos arregalados de terror-, m... meu Senhor. . ns t... ten-tmos im-im . impedi-los... os im- impostores, 
meu Senhor... assaltaram... a-ssaltaram o... o c-cofre.. dos Lestrange...

- Impostores? Quais impostores? Julgava que Gringotts tinha formas de desmascarar os impostores! Quem foram?

- Foi... foi... o r-rapaz... o P-Potter e d-dois cmplices. .

- E levaram o qu? - perguntou, a sua voz subindo de tom, apoderando-se dele um receio terrvel. - Diz-me! O que foi que eles levaram?

- U-uma p-pequena t-taa de ouro m... meu Senhor Brotou dele um grito de raiva, de negao, como se de um

desconhecido se tratasse; ficou louco, desvairado, no podia ser

441

verdade, era impossvel, nunca ningum soubera. Como era possvel que o rapaz tivesse descoberto o seu segredo?

A Varinha de Sabugueiro cortou o ar e uma luz verde encheu a sala: o goblin ajoelhado tombou, morto, e os feiticeiros presentes dispersaram diante dele, aterrorizados: 
Bellatrix e Lucius Malfoy derrubaram outros na sua fuga em direco  porta, e a varinha desceu sucessivamente, e aqueles que ficaram foram mortos, todos eles, por 
lhe trazerem aquelas novas, por ficarem a saber da existncia da taa de ouro...

Andou de um lado para o outro, sozinho no meio dos mortos, vociferando, e passou tudo diante de si numa viso: os seus tesouros, as suas salvaguardas, as suas ncoras 
 imortalidade... o dirio fora destrudo e a taa roubada; e se, e se o rapaz soubesse dos outros? Seria possvel, teria agido entretanto, teria localizado os restantes? 
Estaria Dumbledore na origem de tudo aquilo? Dumbledore, que sempre desconfiara dele, Dumbledore, cuja morte ordenara, Dumbledore, cuja varinha era agora sua e que, 
no entanto, o atingia de longe, da ignomnia da morte, atravs do rapaz, do rapaz...

Mas, por certo, se o rapaz tivesse destrudo algum dos seus Horcruxes ele, Lord Voldemort, teria sabido, teria sentido? Ele, o maior de todos os feiticeiros, ele, 
o mais poderoso, ele, o assassino de Dumbledore e de muitos mais homens sem prstimo e sem nome! Como era possvel Lord Voldemort no saber, se ele prprio, to 
importante e precioso, tivesse sido atacado, mutilado?

Era verdade que nada sentira quando o dirio fora destrudo, mas julgara que tivesse ficado a dever-se ao facto de no ter corpo, sendo menos que um fantasma... 
no, certamente os restantes estavam seguros... os outros Horcruxes deviam estar intactos...

S que precisava de saber, precisava de ter a certeza... Andou de um lado para o outro pela sala, afastando aos pontaps o corpo do goblin, e as imagens tornaram-se 
difusas e queimaram o seu crebro fervilhante: o lago, a cabana e Hogwarts...

Um tudo-nada de calma arrefeceu, ento, a sua raiva: como podia o rapaz saber que ele escondera o anel na cabana dos Gaunt? Nunca ningum tivera conhecimento do 
seu parentesco com os Gaunt, escondera bem a ligao, as mortes nunca lhe haviam sido imputadas. O anel estava, com toda a certeza, seguro.

E como era possvel que o rapaz, ou algum mais, soubesse da caverna ou conseguisse penetrar a sua proteco? A ideia de o medalho ter sido roubado era absurda.

Quanto  escola, s ele sabia em que stio de Hogwarts guardara o Horcrux, porque s ele desvendara os segredos mais profundos daquele lugar.

E havia ainda Nagini, que devia manter agora por perto, em vez de a enviar no cumprimento das suas ordens, sob a sua proteco... Mas, para ter a certeza, para ter 
a certeza absoluta, precisava de regressar a cada um dos seus esconderijos, precisava de redobrar a proteco em torno de cada um dos seus Horcruxes... uma tarefa 
que, tal como a demanda da Varinha de Sabugueiro, devia ser empreendida a ss.

Onde dirigir-se primeiro, qual o que corria maior perigo? Reacendeu-se nele uma antiga apreenso. Dumbledore tivera conhecimento do seu segundo nome... Dumbledore 
podia ter estabelecido a ligao com os Gaunt... a cabana abandonada era, talvez, o menos seguro dos seus esconderijos, era para l que deveria dirigir-se primeiro.

O lago, com toda a certeza, seria impossvel... conquanto houvesse uma ligeira possibilidade de Dumbledore ter tido conhecimento de alguns dos seus crimes do passado, 
atravs do orfanato. E Hogwarts... mas sabia que l o seu Horcrux estava seguro, que seria impossvel o Potter entrar em Hogsmeade sem ser detectado, quanto mais 
na escola. Mesmo assim, a prudncia aconselhava-o a alertar Snape para o facto de o rapaz poder tentar entrar novamente no castelo... Contar a Snape a razo pela 
qual o rapaz poderia regressar seria absurdo, como  lgico; cometera um grave erro ao confiar em Bellatrix e em Malfoy: a estupidez e o desleixo de ambos no provava 
quo insensato era confiar em quem quer que fosse? Portanto, dirigir-se-ia primeiro  cabana dos Gaunt e levaria Nagini consigo: recusava-se a separar-se novamente 
da cobra... Abandonando a sala em grandes passadas, atravessou o trio e saiu para o jardim escuro onde a fonte jorrava gua; chamou a cobra em serpents e ela deslizou 
sinuosamente at junto de si como uma longa sombra.

Os olhos de Harry abriram-se com o esforo de regressar ao presente: estava deitado na margem do lago ao pr-do-sol, e Ron e Hermione olhavam-no. A avaliar pelos 
seus semblantes preocupados, e pelo constante latejar da sua cicatriz, a incurso sbita  mente de Voldemort no passara despercebida. Levantou-se com esforo, 
trmulo, vagamente surpreendido por continuar encharcado at aos ossos, e viu a taa inocentemente pousada na erva diante de si e o lago, azul escuro com laivos 
de ouro ao sol poente.

442

443

- Ele sabe. - A sua prpria voz soou estranha e baixa depois dos gritos estridentes de Voldemort. - Ele sabe, e vai verificar onde esto os outros, e o ltimo - 
pusera-se entretanto em p - encontra-se em Hogwarts. Eu sabia. Eu sabia.

- O qu?

Ron olhava-o, embasbacado; Hermione pusera-se de joelhos, com ar preocupado.

- Mas o que foi que viste? Como  que sabes?

- Vi-o descobrir o que sucedeu  taa, eu... eu estava dentro da cabea dele, ele... - Harry recordou as mortes -, ele est deveras enfurecido, e assustado tambm, 
no consegue perceber como soubemos, e agora vai verificar se os outros esto seguros, comeando pelo anel. Acha que o de Hogwarts est mais seguro, porque o Snape 
se encontra l, porque nos ser extremamente difcil entrar sem sermos vistos. Acho que vai verificar esse em ltimo lugar, mas pode muito bem chegar l dentro de 
algumas horas...

- Viste em que stio de Hogwarts se encontra? - perguntou Ron, pondo-se tambm em p.

- No, ele concentrou-se em avisar o Snape, no pensou exactamente na sua localizao.

- Esperem, esperem! - exclamou Hermione, quando Ron apanhou o Horcrux e Harry foi novamente buscar o Manto da Invisibilidade. - No podemos simplesmente ir, temos 
de conceber um plano, precisamos de...

- Precisamos de ir andando - anunciou Harry, com firmeza. Tivera esperana de poder dormir, estava desejoso de se enfiar na tenda nova, mas isso agora era impossvel. 
- Conseguem imaginar o que ele far mal se aperceba de que o anel e o medalho desapareceram? E se ele tirar o Horcrux de Hogwarts, se decidir que deixou de estar 
suficientemente seguro l?

- Mas como vamos conseguir entrar?

- Vamos at Hogsmeade - sugeriu Harry -, e tentamos traar um plano assim que virmos qual a proteco em torno da escola. Mete-te debaixo do Manto, Hermione, desta 
vez quero que fiquemos todos juntos.

- Mas ns no cabemos to...

- Estar escuro, ningum vai reparar se ficarmos com os ps de fora.

Um bater de asas enormes ecoou do outro lado da gua negra: o drago bebera at  saciedade e elevara-se no ar. Interromperam os preparativos para ficarem a v-lo 
subir cada vez mais alto, uma

444

mancha negra no cu que escurecia rapidamente, at desaparecer por cima de uma montanha prxima. Depois Hermione avanou e ocupou o seu lugar entre os outros dois. 
Harry deixou que o Manto os cobrisse at onde chegava, e juntos giraram ali mesmo, mergulhando na escurido opressiva.

445

XXVIII

O ESPELHO DESAPARECIDO

Os ps de Harry assentaram na rua e viu a High Street de Hogsmeade, to dolorosamente familiar: fachadas de lojas escuras e o contorno de montanhas negras por detrs 
da aldeia, a curva da estrada que seguia at Hogwarts, a luz nas janelas do Trs Vassouras e, sentindo um sobressalto, recordou vividamente a forma como descera 
ali, cerca de um ano antes, amparando Dumbledore, j tremendamente fraco; tudo aquilo num segundo, ao descer... e depois, no momento em que aliviava a presso nos 
braos de Ron e Hermione, aconteceu.

O ar foi cortado por um grito que se assemelhou ao de Voldemort quando se apercebera de que a taa fora roubada: buliu com todos os nervos do seu corpo, e ele soube 
de imediato que fora causado pelo aparecimento deles. No preciso momento em que olhava para os outros dois debaixo do Manto, a porta do Trs Vassouras escancarou-se 
e uma dzia de Devoradores da Morte de capa e capuz precipitou-se para a rua, de varinhas erguidas.

Harry travou o pulso de Ron quando ele levantou a varinha. Eram simplesmente demasiados para Atordoar; s a tentativa bastaria para denunciar a posio deles. Um 
dos Devoradores da Morte brandiu a varinha e o grito cessou, continuando a ecoar nas montanhas distantes.

- Aedo Manto! - gritou um dos Devoradores da Morte. Harry agarrou as pregas, mas ele no fez meno de desaparecer; o Feitio de Convocao no resultara.

- Ento no ests debaixo do teu invlucro, Potter? - gritou o Devorador da Morte que tentara lanar o feitio, e depois, aos seus companheiros: - Dispersem. Ele 
est aqui.

Seis Devoradores da Morte correram na direco deles: Harry, Ron e Hermione recuaram, to rapidamente quanto possvel, para a rua transversal mais prxima e por 
uma unha negra os Devoradores da Morte no os descobriram. Ficaram a aguardar no escuro, escutando os passos a subir e descer em corrida, os feixes de luz das varinhas 
dos Devoradores da Morte pela rua,  procura deles.

- Vamos mas  embora - murmurou Hermione. - Desaparecer j!

- Excelente ideia - disse Ron, mas antes que Harry pudesse responder, um Devorador da Morte gritou:

- Sabemos que ests aqui, Potter, e no tens sada! Havemos de te encontrar!

- Eles estavam  nossa espera - segredou Harry. - Lanaram aquele feitio para os avisar da nossa chegada. Calculo que tenham feito algo para nos manter aqui, nos 
aprisionar ...

- E ento os Dementors? - ouviu-se outro Devorador da Morte gritar. - Deixem-nos  solta, que o encontram num instante!

- O Senhor das Trevas quer que o Potter seja morto unicamente s suas mos...

- ...e os Dementors no o mataro! O Senhor das Trevas quer a vida do Potter, no a sua alma. Ser mais fcil mat-lo se tiver sido beijado primeiro!

Chegaram-lhes sons de concordncia. O medo invadiu Harry: para repelir os Dementors teriam de produzir um Patronus, o que os denunciaria imediatamente.

- Vamos ter de tentar Desaparecer, Harry! - murmurou Hermione.

No momento em que ela falou, Harry sentiu o frio artificial comear a espalhar-se pela rua. A luz foi absorvida at s estrelas, que desapareceram. Na mais completa 
negrura, sentiu Hermione agarrar-lhe o brao e, juntos, rodaram ali mesmo.

O ar atravs do qual necessitavam de se deslocar pareceu ter-se solidificado: no conseguiam Desaparecer; os Devoradores da Morte haviam lanado bem os seus encantamentos. 
O frio ia-se entranhando cada vez mais na carne de Harry. Ele, Ron e Hermione recuaram pela rua transversal, tacteando a parede, tentando no fazer barulho nenhum. 
Ento, ao virar da esquina, deslizando silenciosamente, apareceram dez ou mais Dementors, visveis apenas porque apresentavam uma escurido mais densa que a que 
os envolvia, com as capas pretas e as mos sarnentas e putrefactas. Conseguiriam sentir o medo nas proximidades? Harry tinha a certeza que sim: davam a impresso 
de avanar agora mais rapidamente, respirando daquela forma arrastada e ruidosa que tanto detestava, saboreando o desespero no ar, aproximando-se cada vez mais...

Ergueu a varinha: no podia, no queria, receber o beijo do Dementor, independentemente do que acontecesse depois. Foi em Ron e Hermione que pensou ao murmurar "Expecto 
patronum!"

446

447

O veado prateado brotou da sua varinha e atacou: os Dementors dispersaram e ouviu-se um grito vitorioso vindo de algures na noite.

- E ele, ali em baixo, eu vi o Patronus dele, era um veado! Os Dementors haviam recuado, as estrelas iam reaparecendo e

os passos dos Devoradores da Morte soavam mais alto; mas antes que Harry, no seu pnico, pudesse decidir o que fazer, ouviu-se o ranger de um ferrolho ali perto, 
uma porta abriu-se do lado esquerdo e uma voz spera disse: - Potter, por aqui, rpido!

Obedeceu sem hesitar: os trs entraram de roldo pela porta aberta.

- Vo l para cima, conservem o Manto, no faam barulho!

- segredou uma figura alta, passando por eles a caminho da rua e batendo com a porta.

Harry no fazia ideia de onde estavam, mas viu naquele momento,  luz trmula de uma nica vela, o bar sujo e coberto de serradura do Cabea de Javali. Correram 
para trs do balco e transpuseram uma segunda porta, que dava acesso a uma escada de madeira pouco firme, e subiram-na o mais depressa que puderam. As escadas desembocaram 
numa sala de estar com uma carpete puda e uma pequena lareira, por cima da qual se via um nico quadro grande a leo de uma rapariga loura que olhava a sala com 
uma espcie de doura ausente.

Chegaram-lhes gritos l de baixo, da rua. Conservando ainda o Manto da Invisibilidade, aproximaram-se cuidadosamente da janela e espreitaram a cena. O seu salvador, 
que Harry reconhecia agora como o empregado do bar do Cabea de Javali, era a nica pessoa que no usava manto.

- E depois? - barafustava com um dos rostos encapuzados.

- E depois? Se enviam os Dementors  minha rua, eu respondo enviando-lhes um Patronus! No os quero perto de mim, j lhes disse, no o permitirei!

- Aquilo no era o teu Patronus! - insurgiu-se um Devorador da Morte. - Aquilo era um veado, era do Potter!

- Veado! - bradou o empregado do bar, e puxou de uma varinha. - Veado! Seu idiota... expecto patronum!

Irrompeu da varinha algo enorme e com chifres que baixou a cabea e correu na direco da High Street, desaparecendo de vista.

- No foi aquilo que eu vi... - protestou o Devorador da Morte, conquanto a sua certeza fosse menor.

448

- O recolher obrigatrio foi violado, tu ouviste o barulho - respondeu um dos seus companheiros ao empregado do bar. - Andava algum na rua, a violar as regras...

- Se eu quiser deixar sair o meu gato, f-lo-ei, e quero l saber do teu recolher obrigatrio!

- Foste tu que activaste o Feitio do Miado?

- E se o tiver feito? Vais mandar-me para Azkaban? Matar-me por pr o nariz de fora da minha porta? Podes faz-lo, se quiseres! Mas espero, para vosso bem, que no 
tenham premido as pequenas Marcas Negras, convocando-o. Ele no vai gostar de ser chamado aqui por causa de mim e do meu gato, pois no, hein?

- No te preocupes connosco - respondeu um dos Devoradores da Morte -, preocupa-te mas  contigo por estares a violar o recolher obrigatrio!

- E onde traficaro poes e venenos quando o meu bar for encerrado? O que acontecer ento s vossas negociatas escuras?

- Ests a ameaar...?

- Eu no abro a boca,  por isso que c vm, no ?

- Continuo a afirmar que vi um veado Patronus! - exclamou o primeiro Devorador da Morte.

- Veado? - atroou o empregado do bar. -  uma cabra, meu idiota!

- Est bem, enganmo-nos - disse o segundo Devorador da Morte. - Violas outra vez o recolher obrigatrio e no seremos to tolerantes!

Os Devoradores da Morte regressaram ento a High Street. Hermione gemeu de alvio debaixo do Manto e sentou-se numa cadeira bamba. Harry correu completamente os 
cortinados, depois retirou o Manto de cima de si e de Ron. Ouviram l em baixo o empregado do bar voltar a trancar a porta e depois subir as escadas.

Algo em cima da comija da lareira despertou a ateno de Harry: havia um pequeno espelho rectangular, colocado mesmo por debaixo do retrato da rapariga.

O empregado do bar entrou na sala.

- Seus grandes tolos - disse rudemente, olhando-os um por um. - Mas afinal, que ideia foi a vossa, virem aqui?

- Obrigado - disse Harry -, no temos palavras para lhe agradecer. O senhor salvou as nossas vidas.

O empregado do bar resmungou. Harry aproximou-se dele, olhando-lhe para o rosto, tentando ver para l do cabelo e da barba

449



grisalhos compridos e sebosos. Usava culos. Por detrs das lentes sujas, os olhos eram de um azul penetrante, intenso

-  o seu olho que tenho visto no espelho.

Fez-se silncio na sala, e o empregado do bar observou cada um deles

- Foi o senhor quem enviou o Dobby.

O empregado do bar anuiu e olhou  sua volta, procurando o elfo.

- Julguei que estivesse convosco. Onde  que o deixaram?

- Ele morreu - informou-o Harry. - A Bellatrix Lestrange matou-o.

O rosto do empregado do bar manteve-se impassvel. Passados alguns momentos, falou: - Lamento sab-lo. Gostava daquele elfo.

Afastou-se, acendendo os candeeiros com gestos da sua varinha, sem olhar para nenhum deles.

- O senhor  o Aberforth - afirmou Harry, nas costas do homem.

Ele no o confirmou nem desmentiu, curvando-se para acender a lareira.

- Como arranjou isto? - indagou Harry, aproximando-se do espelho de Sirius, o par do que ele partira quase dois anos antes

- Comprei-o ao Dung h coisa de um ano - respondeu Aberforth. - O Albus explicou-me o que era. Tenho procurado ficar de olho em vocs.

Ron lanou uma exclamao de espanto.

- A cora prateada! - exclamou, todo entusiasmado. - Tambm foi o senhor?

- Do que ests a falar? - perguntou Aberforth

- Algum nos enviou uma cora Patronus!

- com essa inteligncia, bem que podias ser um Devorador da Morte, filho. No acabei de provar que o meu Patronus  uma cabra?

- Oh - disse Ron - Pois... bem, estou cheio de fome! - acrescentou, na defensiva, quando o seu estmago emitiu um valente ronco.

- Tenho comida - referiu Aberforth, e saiu a correr da sala, reaparecendo momentos depois com um po grande, queijo e um jarro de mead, que colocou em cima de uma 
mesinha diante da lareira. Esfaimados, comeram e beberam e, durante um bocado, o silncio reinou,  excepo do crepitar do fogo, do tinir dos copos e dos rudos 
de mastigao.

450

- Ora bem - disse Aberforth, depois de eles terem saciado a fome, e Harry e Ron se deixarem cair, ensonados, nas cadeiras. - Precisamos de pensar na melhor maneira 
de vos tirar daqui. No pode ser feito de noite, vocs ouviram o que acontece a quem pe um p fora de portas depois de escurecer. O Feitio do Miado  activado, 
e eles cairo sobre vocs como bodigaios sobre ovos de Doxy. No me parece que consiga fazer passar um veado por uma cabra uma segunda vez. Esperem pelo raiar do 
dia, quando o recolher obrigatrio  levantado, voltem ento a colocar o vosso Manto e sigam a p. Saiam logo de Hogsmeade, dirijam-se s montanhas, e podero Desaparecer 
ali. Talvez encontrem o Hagrid. Ele tem estado escondido l numa caverna com o Grawp desde que tentaram prend-lo.

- Ns no vamos partir - explicou Harry. - Precisamos de ir a Hogwarts.

- No sejas estpido, rapaz - retrucou Aberforth.

- Temos mesmo de ir - insistiu Harry.

- Aquilo que tens de fazer - frisou Aberforth, mchnando-se -,  afastares-te o mais que puderes daqui.

- O senhor no entende. No resta muito tempo. Temos de conseguir chegar ao castelo. O Dumbledore... isto , o seu irmo... queria que ns...

O claro da lareira fez com que as lentes sujas dos culos de Aberforth ficassem momentaneamente opacas, de um branco intenso e uniforme, fazendo lembrar a Harry 
os olhos cegos da aranha gigante, Aragog.

- O meu irmo Albus queria muitas coisas - disse Aberforth -, e por norma as pessoas saam magoadas, enquanto ele punha em prtica os seus planos grandiosos. Sai-me 
mas  desta escola, Potter, e do pas, se puderes Esquece o meu irmo e os seus esquemas inteligentes. Para onde ele foi j nada disto o pode afectar, e tu no lhe 
deves nada.

- O senhor no entende - repetiu Harry.

- Achas que no? - inquiriu Aberforth calmamente. - Cuidas que no compreendia o meu prprio irmo? Pensas que conhecias o Albus melhor que eu?

- No foi isso que eu quis dizer - protestou Harry, que sentia o crebro indolente da exausto e do excesso de comida e vinho. -  que., ele deixou-me uma tarefa.

- Ai deixou, foi? - comentou Aberforth. - Uma tarefa simptica, espero? Agradvel' Fcil? O tipo de coisa que se esper

451

aria que um jovem feiticeiro pouco qualificado fizesse sem ultrapassar as suas limitaes'

Ron soltou uma gargalhada bastante forada e Hermione parecia tensa. - Eu no  fcil, no - confirmou Harry. - Mas tenho de..

- "Tens de"? Por que  que "tens de"? Ele morreu, no morreu? - perguntou Aberforth, com rudeza. - Esquece, rapaz, antes que tenhas o mesmo destino que ele! Salva-te!

- No posso.

- E por que no?

- Eu... - Harry sentiu-se abatido; no conseguia explicar, de modo que passou ao ataque. - Mas o senhor tambm est a lutar, pertence  Ordem da Fnix...

- Pertenci - disse Aberforth. - A Ordem da Fnix acabou. O Quem-Ns-Sabemos venceu, acabou-se, e quem afirmar o contrrio est a iludir-se. Isto aqui nunca ser 
seguro para ti, Potter, ele quer muito apanhar-te. Por isso vai para o estrangeiro, esconde-te, salva-te. E  melhor levares tambm estes dois contigo. - Apontou 
um dedo trmulo a Ron e Hermione. - Correro perigo de vida agora que toda a gente sabe que tm estado a trabalhar contigo.

- No posso partir - redarguiu Harry. - Tenho uma tarefa.

- Encarrega outro dela!

- No posso. Tenho de ser eu. O Dumbledore explicou tudo ..

- Ah, explicou, foi' E contou-te mesmo tudo, foi honesto contigo?

Do fundo do seu corao, Harry queria responder "sim", mas de certa fornia aquela simples palavra no conseguiu aflorar-lhe aos lbios. Aberforth parecia saber o 
que lhe ia no pensamento.

- Eu conhecia o meu irmo, Potter Ele aprendeu o secretismo no colo da nossa me. com segredos e mentiras, foi assim que crescemos, e o Albus... bem, ele tinha uma 
queda especial.

Os olhos do velho deslocaram-se at ao quadro da rapariga por cima da comija da lareira. Agora que Harry reparava com ateno, era o nico quadro da sala. No existia 
uma fotografia de Albus Dumbledore, nem de mais ningum.

- Mr. Dumbledore? - perguntou Hermione, bastante timidamente. - Aquela  a sua irm, Ariana?

-  - respondeu Aberforth concisamente. - Andaste a ler a Rita Skeeter, foi, minha menina?

452

At  luz rosada da lareira foi notrio que Hermione ficara ruborizada.

- O Elphias Doge falou-nos dela - explicou Harry, procurando poupar Hermione.

- Aquele velho palerma - murmurou Aberforth, bebendo outro gole de mead. - Coitado, julgava que o sol irradiava de cada poro do meu irmo bom, muita gente tambm 
julgava, incluindo vocs os trs, pelos vistos.

Harry permaneceu em silncio. No queria expressar as dvidas e incertezas em relao a Dumbledore que de h meses para c o vinham deixando intrigado. Fizera a 
sua escolha enquanto cavava a sepultura de Dobby; decidira prosseguir o caminho sinuoso e perigoso que Albus Dumbledore lhe indicara, aceitar que ele no lhe contara 
tudo o que queria saber, limitando-se a confiar No desejava voltar a sentir dvidas, no queria ouvir nada que o pudesse desviar do seu propsito. Suportou o olhar 
de Aberforth, que era extraordinariamente parecido com o do irmo: os olhos azuis intensos causavam a mesma impresso de estarem a passar ao raio X o objecto do 
seu exame, e Harry julgou que Aberforth soubesse o que ele estava a pensar e desprezou-o por isso

- O Professor Dumbledore preocupava-se com o Harry, mesmo muito - afirmou Hermione, em voz baixa.

- Ah sim, no me digas? - comentou Aberforth. - Curiosamente, todas as pessoas com quem o meu irmo se preocupava muito acabaram bem pior do que se ele as tivesse 
deixado em paz.

- O que quer dizer com isso? - indagou Hermione, ansiosa.

- Esquece - respondeu Aberforth.

- Mas isso  uma afirmao extremamente grave! - protestou Hermione. - O senhor est... est a falar da sua irm?

Aberforth fuzilou-a com o olhar: os seus lbios moveram-se como se mastigasse as palavras que estava a conter. Depois comeou a falar.

- Quando a minha irm tinha seis anos, foi atacada, maltratada, por trs rapazes Muggles. Tinham-na visto fazer magia, espiando pela sebe do quintal nas traseiras; 
ela era uma criana, no a conseguia controlar, nenhum feiticeiro ou feiticeira o consegue com aquela idade. O que viram deixou-os assustados, calculo. Enfiaram-se 
pela sebe, e como ela no lhes conseguisse mostrar a habilidade, eles foram um pouco longe demais na tentativa de a impedir de repetir.

453

Os olhos de Hermione arregalaram-se no claro da lareira e Ron parecia ligeiramente nauseado. Aberforth levantou-se, to alto quanto Albus, e subitamente terrvel 
na sua raiva e na intensidade do seu sofrimento.

- O que eles fizeram foi destru-la! Ela nunca mais voltou a ficar boa. Recusava-se a usar magia, mas no conseguia livrar-se dela. Interiorizou-se e f-la enlouquecer, 
explodia dela quando no a conseguia controlar, e s vezes a Ariana ficava estranha e perigosa. Mas a maior parte das vezes era amorosa, uma menina assustada e inofensiva.

"E o meu pai foi atrs dos patifes que fizeram aquilo - prosseguiu Aberforth -, e atacou-os. E meteram-no em Azkaban por causa disso. Ele nunca explicou a razo 
por que o fizera, precisamente porque, se o Ministrio tem sabido no que a Ariana se tornara, ela ficaria fechada em S. Mungo para sempre. T-la-iam considerado 
uma sria ameaa ao Estatuto Internacional de Secretismo, desequilibrada como estava, com a magia a explodir nos momentos em que no a conseguia conservar mais tempo 
l dentro.

"Tnhamos de a manter segura e sossegada. Mudmos de casa, fizemos constar que ela estava doente, e a minha me cuidou dela e tentou mant-la calma e feliz.

"Eu era o seu preferido - referiu e, ao diz-lo, um rapazinho da escola encardido pareceu espreitar por entre as rugas e a barba emaranhada. - No era o Albus, ele 
enfiava-se sempre no quarto quando estava em casa, a ler os seus livros e a contar os seus prmios, a pr a correspondncia em dia com "os nomes mais famosos da 
poca ligados  magia" - escarneceu Aberforth -, ele no queria preocupar-se com ela. Era de mim que ela gostava mais. Eu conseguia que ela comesse quando se recusava 
com a minha me, conseguia acalm-la quando tinha uma das suas frias e, quando estava calma, costumava ajudar-me a dar de comer s cabras.

"Depois, quando tinha catorze anos... sabem, eu no estava l - referiu Aberforth. - Se estivesse, teria conseguido acalm-la. Ela teve uma das suas frias, e a 
minha me j no era to nova, e... foi um acidente. A Ariana no conseguiu controlar-se e a minha me morreu.

Harry sentiu um misto horrvel de pena e repulsa; no queria ouvir mais, mas Aberforth prosseguia e Harry perguntou-se h quanto tempo ele no falava do assunto, 
se  que alguma vez o fizera.

- Ento, isso obrigou o Albus a interromper a sua viagem  volta do mundo com o pequeno Doge. Regressaram os dois para

o funeral da minha me e depois o Doge partiu sozinho, e o Albus assentou como chefe de famlia. Ah! Aberforth cuspiu para o fogo.

- Eu disse-lhe que cuidaria dela, que no me interessavam os estudos, que preferia ficar em casa a tomar conta da Ariana. Ele frisou que eu tinha de terminar a minha 
educao, e que ele se encarregaria de substituir a minha me. Uma descida de estatuto para o Sr. Brilhante, pois no havia prmios para quem olhava pela irm meia 
louca, impedindo-a de fazer a casa explodir a qualquer momento, dia sim, dia no. Mas o Albus aguentou-se algumas semanas... at que ele apareceu.

E depois foi-se estampando uma expresso verdadeiramente ameaadora no rosto de Aberforth.

- O Grindelwald. O meu irmo tinha finalmente um igual com quem conversar, algum to inteligente e talentoso como ele. E cuidar da Ariana passou ento para segundo 
lugar, enquanto eles congeminavam os seus grandiosos planos para uma nova ordem no mundo da feitiaria, e a busca dos Talisms, e tudo o mais que tanto os interessava. 
Planos grandiosos para beneficio da classe dos feiticeiros e, se uma rapariguita fosse negligenciada, que importncia tinha, quando o Albus estava a trabalhar para 
o bem maior?

"Mas, decorridas algumas semanas, fartei-me, acreditem. Estava quase a chegar o momento de eu voltar para Hogwarts, de modo que falei com ambos, cara a cara, tal 
como estou agora a falar convosco - e Aberforth olhou para Harry, e no foi precisa muita imaginao para o ver em adolescente, seco e azedo, a enfrentar o irmo 
mais velho. - Disse-lhe,  melhor desistires, agora. No podes mud-la, ela no est em condies, no podes lev-la contigo para onde quer que planeias ir, quando 
estiveres a fazer os teus discursos inteligentes, a tentar arranjar seguidores. Ele no pareceu nada satisfeito - referiu Aberforth, e os seus olhos ficaram brevemente 
toldados pelo reflexo da lareira nas lentes dos seus culos, que mais uma vez brilharam, brancas e cegas. - O Grindelwald tambm no gostou nada mesmo. Zangou-se. 
Disse-me que eu no passava de um rapazola estpido, que estava a tentar impedi-lo e ao meu brilhante irmo... seria que eu no compreendia que, mal eles mudassem 
o mundo, a minha pobre irm no teria de ficar escondida? Eles iam revelar a existncia dos feiticeiros e meter os Muggles no seu devido lugar.

"E houve uma discusso... puxei da minha varinha, ele puxou da sua e o melhor amigo do meu irmo aplicou-me a Maldio

454

455

Cruciatus... e o Albus a tentar impedi-lo e depois ns os trs batemo-nos, e o brilho dos raios luminosos e os estrondos enervaram-na e ela no aguentou...

A cor escoava-se do rosto de Aberforth como se tivesse sido mortalmente ferido.

- ...e penso que ela queria ajudar, mas na realidade no sabia o que fazia, e no sei qual de ns foi, podia ter sido qualquer um de ns... e ela morreu.

Falhou-lhe a voz na ltima palavra e deixou-se cair na cadeira mais prxima. O rosto de Hermione estava lavado em lgrimas e Ron parecia quase to plido quanto 
Aberforth. Harry no sentiu seno repulsa: desejava no ter sabido aquilo, desejava poder varr-lo por completo da sua mente.

- La-lamento imenso - murmurou Hermione.

- Foi-se - gemeu Aberforth. - Foi-se para sempre. Limpou o nariz ao punho e pigarreou.

- Claro que o Grindelwald desapareceu. J tinha um certo cadastro, l no seu pas, e no queria a Ariana a juntar-se ao rol. E o Albus ficou livre, no foi? Livre 
do fardo da irm, livre para se tornar o maior feiticeiro do...

- Ele nunca foi livre - contraps Harry.

- Como  que ? - insurgiu-se Aberforth.

- Nunca - frisou Harry. - Na noite em que o seu irmo morreu, ele bebeu uma poo que o deixou delirante. Comeou a gritar, a suplicar a algum que no estava l. 
"No lhes faas mal, por favor... faz antes a mim."

Ron e Hermione fitavam Harry. Ele nunca entrara em pormenores sobre o que sucedera na ilha no lago, pois os acontecimentos ocorridos depois de ele e Dumbledore terem 
regressado a Hogwarts eclipsaram-no por completo.

- Ele julgou que estava l, consigo e com o Grindelwald, eu sei que julgou - contou Harry, recordando as lamrias de Dumbledore, as splicas. - Ele pensou que estava 
a ver o Grindelwald fazer-lhe mal a si e  Ariana... foi uma tortura, se o tivesse visto ento, no afirmaria que ele era livre.

Aberforth pareceu perdido na contemplao das suas mos deformadas e de veias salientes. Aps uma longa pausa, perguntou: - Como podes ter a certeza, Potter, de 
que o meu irmo no estava mais interessado no bem maior que em ti? Como podes ter a certeza de que no s dispensvel, tal como a minha irmzita?

Pareceu ter-se cravado uma lasca de gelo no corao de Harry.

- No acredito. O Dumbledore adorava o Harry! - insurgiu-se Hermione.

- Por que no o aconselhou ento a esconder-se? - ripostou Aberforth. - Por que no lhe disse, cuida de ti, eis como podes sobreviver?

- Porque - respondeu Harry, antes que Hermione pudesse falar -, s vezes  preciso pensar em mais do que na nossa prpria segurana! s vezes  preciso pensar no 
bem maior! Isto  uma guerra!

- Tu tens dezassete anos, rapaz!

- Sou maior, e vou continuar a lutar mesmo que o senhor tenha desistido!

- E quem diz que eu desisti?

- "A Ordem da Fnix acabou" - repetiu Harry. - "O Quem-Ns-Sabemos venceu, acabou-se, e quem afirmar o contrrio est a iludir-se."

- No digo que me agrade, mas  a verdade!

- No , no - retorquiu Harry. - O seu irmo sabia como destruir o Quem-Ns-Sabemos e transmitiu-me esse conhecimento. vou continuar a lutar at triunfar... ou 
morrer. No julgue que no sei como isto pode terminar. H anos que o sei.

Ficou  espera de que Aberforth escarnecesse ou contra-argumentasse, mas ele no o fez. Limitou-se a franzir o sobrolho.

- Precisamos de entrar em Hogwarts - repetiu Harry. - Se no nos pode ajudar, esperaremos at ao raiar do dia, deixamo-lo em paz e tentamos descobrir uma maneira 
de entrar. Se nos puder ajudar... bem, agora seria o momento de o dizer.

Aberforth permaneceu pregado  cadeira, fitando Harry com os olhos que eram to espantosamente iguais aos do irmo. Finalmente pigarreou, levantou-se, contornou 
a mesinha e aproximou-se do retrato de Ariana.

- Tu sabes o que fazer - disse-lhe.

Ela sorriu, virou-se e*afastou-se, no como as pessoas nos retratos normalmente faziam, pelos cantos das molduras, mas ao longo do que parecia ser um comprido tnel 
pintado por detrs dela. Viram a sua figura magra recuar at acabar por ser engolida pelo escuro.

- Ha... o qu...? - comeou Ron.

- Neste momento, s existe uma entrada - explicou Aberforth. - Vocs j devem saber que todas as outras passagens secre

456

457

tas esto tapadas em ambas as extremidades, h Dementors  volta dos muros e patrulhas regulares dentro da escola, segundo as minhas fontes me informaram. O local 
nunca esteve to fortemente guardado. Como esperam fazer alguma coisa uma vez l dentro, com o Snape a controlar e os Carrow como seus Adjuntos... bem, isso  da 
tua responsabilidade, no ? Dizes que ests preparado para morrer.

- Mas o que...? - perguntou Hermione, franzindo as sobrancelhas para o retrato de Ariana.

Um minsculo ponto branco reapareceu ao fundo do tnel pintado, e Ariana regressava agora na direco deles, tornando-se cada vez maior. Todavia, vinha acompanhada 
de algum mais alto que ela, que avanava a coxear, parecendo entusiasmado. O cabelo estava mais comprido do que Harry alguma vez lhe vira, parecia ter sofrido diversos 
golpes no rosto e tinha as roupas rasgadas. As duas figuras iam ficando cada vez maiores, at s as cabeas e os ombros encherem o retrato. Depois, a moldura girou 
para a frente como se fosse uma pequena porta, e ficou  vista a entrada de um tnel verdadeiro. E de l, com o cabelo crescido, o rosto golpeado e o manto em farrapos, 
saiu o verdadeiro Neville Longbottom, que soltou um grito de satisfao, pulou da comija da lareira e exclamou: - Eu sabia que vinhas! Eu sabia, Harry!

XXIX

O DIADEMA PERDIDO

Neville... o que... como...? Mas Neville avistara Ron e Hermione e abraava-os tambm por entre gritos de satisfao. Quanto mais Harry olhava para Neville, pior 
ele lhe parecia: um dos olhos estava inchado, amarelo e roxo, havia marcas de golpes no seu rosto e o ar geral de desmazelo sugeria que estivera a viver em condies 
duras. No obstante, o seu rosto maltratado irradiava felicidade quando largou Hermione e disse de novo: - Eu sabia que vinhas! Dizia constantemente ao Seamus que 
era uma questo de tempo!

- Neville, o que te aconteceu?

- O qu? Isto? - Neville desvalorizou os seus ferimentos abanando a cabea. - Isto no  nada. O Seamus est pior. Vo ver. Vamos andando, est bem? Oh - virou-se 
para Aberforth.

- Ab, devem vir a caminho mais umas pessoas.

- Mais umas? - repetiu Aberforth com ar sinistro. - O que queres dizer com mais umas, Longbottom? H recolher obrigatrio e o Feitio do Miado sobre toda a aldeia!

- Eu sei,  por isso que elas iro Aparecer directamente no bar - referiu Neville. - Manda-as s pela passagem quando l chegarem, pode ser? Obrigadinho.

Neville estendeu a mo a Hermione e ajudou-a a subir para a comija da lareira e a entrar no tnel; seguiu-se Ron, depois Neville. Harry dirigiu-se a Aberforth.

- No sei como agradecer-lhe. Salvou as nossas vidas duas vezes.

- Olha por eles, ento - disse Aberforth com impacincia.

- Posso no os conseguir salvar uma terceira.

Harry trepou para a comija da lareira e atravessou o buraco por detrs do retrato de Ariana. Havia uns degraus de pedra lisa do outro lado e dava a impresso de 
que a passagem existia h anos. Viam-se candeeiros de lato pendurados nas paredes e o cho de terra estava pisado e macio; ao caminharem, as suas sombras agitavam-se, 
em forma de leque, pela parede.

458

459

- H quanto tempo  que isto existe? - perguntou Ron, quando partiram. - No vem no Mapa do Salteador, pois no, Harry? Julguei que s existiam na escola sete passagens 
de entrada e sada?

- Eles fecharam-nas todas antes do incio do ano - explicou Neville. -  impossvel usar qualquer delas, tm maldies  entrada e Devoradores da Morte e Dementors 
 espera na sada. - Comeou a andar virado para trs, sorrindo, bebendo a presena dos amigos. - Esqueam essa treta...  verdade? Vocs assaltaram Gringotts? Fugiram 
num drago? Vem em todo o lado, todos falam disso, o Terry Boot foi espancado pelo Carrow por o apregoar no Salo Nobre ao jantar!

- Sim,  verdade - confirmou Harry.

Neville soltou uma gargalhada de satisfao. i>

- E o que fizeram ao drago? i

- Libertmo-lo num lugar ermo - explicou Ron. - A Hermione queria ficar com ele como animal de estimao...

- No exageres, Ron...

- Mas conta l, o que tens feito? As pessoas dizem que tens andado fugido, Harry, mas no me parece. C para mini andas para a a tramar alguma.

- Tens razo - afirmou Harry -, mas fala-nos de Hogwarts, Neville, no temos sabido nada.

- A escola est... bem, Hogwarts j nem parece a mesma - comentou Neville, o sorriso desaparecendo-lhe do rosto. - J sabes dos Carrow?

- Aqueles dois Devoradores da Morte que do aulas aqui?

- Eles fazem mais que dar aulas - referiu Neville. - Esto encarregados de toda a disciplina. Adoram castigos, os Carrow.

- Como a Umbridge?

- Na, ao p deles, ela  um cordeirinho. Os outros professores so obrigados a apresentar queixa de ns aos Carrow, se pisarmos o risco. No entanto, eles no o fazem, 
se o puderem evitar. V-se mesmo que os odeiam tanto quanto ns.

"Aquele tipo, o Amycus, d o que costumava ser Defesa Contra a Magia Negra, s que agora se chama apenas Magia Negra. E suposto treinarmos a Maldio Cruciatus nas 
pessoas que foram postas de castigo...

- O qu?

As vozes de Harry, Ron e Hermione ecoaram pela passagem em unssono.

460

- Pois - explicou Neville. - Foi assim que arranjei este - apontou para um golpe particularmente fundo na face. - Recusei-me a faz-lo. Mas alguns alinham; o Crabbe 
e o Goyle adoram. Calculo que  a primeira vez que so os melhores em alguma

coisa.

- A Alecto, a irm do Amycus, d Estudos Sobre Muggles, que  obrigatria para toda a gente. Temos de ouvi-la explicar que os Muggles so como animais, estpidos 
e imundos, e que obrigaram os feiticeiros a esconder-se devido  sua crueldade, e que a ordem natural est a ser restabelecida. Arranjei este - indicou outro golpe 
na face -, por perguntar que proporo de sangue Muggle ela e o irmo tinham.

- Caramba, Neville - disse Ron -, tens de aprender a ficar calado.

- Tu no a ouviste - prosseguiu Neville. - Tambm no terias aguentado. S que, quando as pessoas lhes fazem frente, isso enche os outros de esperana. Eu costumava 
reparar quando tu o fazias, Harry.

- Mas eles usaram-te como amolador de facas - protestou Ron, esboando um ligeiro esgar quando passaram por debaixo de um candeeiro e os ferimentos de Neville ganharam 
ainda maior relevo.

Neville encolheu os ombros.

- No tem importncia. Eles no querem derramar demasiado sangue puro, por isso torturam-nos um pouco se formos desbocados, mas sem nos chegarem realmente a matar.

Harry no sabia o que era pior, se as coisas que Neville dizia se o tom indiferente com que as dizia.

- As nicas pessoas verdadeiramente em perigo so aquelas cujos amigos e familiares no exterior esto a levantar problemas. So feitas refns. O velho Xeno Lovegood 
estava a ser demasiado directo n'A Voz Delirante, e eles arrancaram a Luna do comboio quando regressava a casa para o Natal.

- Neville, ela est bem, ns vimo-la...

- Pois, eu sei, ela tambm conseguiu enviar-me uma mensagem.

Retirou do bolso uma moeda de ouro, e Harry reconheceu-a como um dos falsos Galees que o Exrcito de Dumbledore usara para enviar mensagens entre si.

- Isto tem sido fantstico - afirmou Neville, sorrindo a Hermione. - Os Carrow nunca adivinharam como conseguamos

461

comunicar, o que os deixou loucos. Costumvamos escapulir-nos  noite e escrever graffitt nas paredes: Exrcito de Dumbledore, Continua a Recrutar, e coisas do gnero, 
que o Snape abominava.

- Disseste costumvamos? - inquiriu Harry, que reparara no imperfeito.

- Bem, com o passar do tempo foi-se tornando mais difcil

- referiu Neville. - Perdemos a Luna no Natal e a Ginny nunca mais voltou depois da Pscoa, e ns os trs ramos os lderes, por assim dizer. Parecia que os Carrow 
sabiam que eu estava por detrs de tudo, por isso comearam a castigar-me duramente, e quando o Michael Comer foi apanhado a libertar um aluno do primeiro ano que 
eles tinham acorrentado, torturaram-no a valer. Isso assustou um pouco a malta.

- Pudera - murmurou Ron, quando a passagem comeou a subir.

- Pois, bem, eu no podia pedir s pessoas que passassem pelo mesmo que o Michael, de modo que nos deixmos desse tipo de avarias. Mas continuvamos a lutar, a fazer 
coisas clandestinas, at h cerca de duas semanas. Foi ento que decidiram que a nica maneira de me pararem, acho, era irem atrs da av.

- Eles fizeram o qu? - insurgiram-se Harry, Ron e Hermione ao mesmo tempo.

- Isso mesmo - retorquiu Neville, agora um pouco arquejante, porque a passagem se tornara muito ngreme -, bem,  para vocs verem o raciocnio deles. Resultava 
s mil maravilhas, raptar crianas para obrigar os familiares a portarem-se bem, acho que foi apenas uma questo de tempo at inverterem o processo. S que -, virou-se 
para eles e Harry ficou espantado ao ver que ele sorria -, a av saiu-lhes um osso um pouco mais duro de roer. Como a velhota vivia sozinha, provavelmente julgaram 
que no precisavam de mandar ningum particularmente poderoso. Seja como for

- Neville soltou uma gargalhada -, o Dawlish ainda est em S. Mungo e a av anda fugida. Enviou-me uma carta - levou uma mo ao bolso de cima do manto -, a contar-me 
que se orgulhava de mim, que eu tinha a quem sair, e que no desistisse.

- Fixe - disse Ron.

- Sim, fixe - redarguiu Neville, satisfeito. -S que, mal se aperceberam de que no me podiam controlar, decidiram que Hogwarts podia passar muito bem sem mim. No 
sei se tencionam matar-me ou enviar-me para Azkaban, para todos os efeitos, eu percebi que tinha chegado a hora de desaparecer.

462

- Mas - interveio Ron, parecendo completamente baralhado -, ns .. ns no vamos direitos a Hogwarts?

- Claro que vamos - retorquiu Neville. - Vais ver. Chegmos.

Viraram uma esquina e l  frente a passagem terminava Outro curto lano de escadas conduzia a uma porta semelhante  escondida por detrs do retrato de Ariana. 
Neville empurrou-a e passou. Quando Harry o seguiu, ouviu Neville gritar a pessoas invisveis: - Vejam quem est aqui! Eu no lhes disse?

Quando Harry apareceu na sala do outro lado da passagem, ouviram-se vrios gritos e berros...

- HARRY!

-  o Potter,  o POTTER!

- Ron!

- Hermione!

Teve uma viso confusa de tapearias coloridas, candeeiros e muitos rostos. Logo a seguir, ele, Ron e Hermione viram-se engolidos e abraados, levaram palmadas nas 
costas, despentearam-lhes o cabelo e receberam apertos de mo da parte de mais de vinte pessoas, ou assim parecia. Era como se tivessem acabado de ganhar a final 
de Quidditch.

- Pronto, pronto, acalmem-se! - gritou Neville, e quando a multido recuou, Harry conseguiu apreciar o que o rodeava.

Nem sequer reconheceu a sala. Era enorme e assemelhava-se ao interior de uma casa na rvore particularmente sumptuosa, ou talvez uma cabina de navio gigantesca. 
Viam-se camas de rede multicolondas suspensas do tecto e de uma galeria que se estendia a toda a volta das paredes sem janelas, revestidas por painis de madeira 
escura, de onde pendiam tapearias garridas; Harry viu o leo dourado dos Gryffindor, sobre um fundo escarlate, o texugo preto dos Hufflepuff, num fundo amarelo 
e a guia de bronze dos Ravenclaw, sobre azul. S faltava o verde e prata dos Slytherin. Havia estantes carregadas de livros, algumas vassouras encostadas s paredes 
e, no canto, um enorme aparelho de rdio com caixa de madeira.

- Onde estamos?

- Na Sala das Necessidades, claro! - exclamou Neville. - Excedeu as expectativas, no foi? Os Carrow andavam a perseguir-me, e eu sabia que s tinha uma hiptese 
de esconderijo. Consegui passar a porta e foi isto que encontrei! Bem, no estava exactamente assim quando cheguei, era muito mais pequena, havia

463

apenas uma cama de rede e somente a tapearia dos Gryffindor. Mas tem vindo a expandir-se  medida que chegam mais e mais elementos do ED.

- E os Carrow no conseguem entrar? - inquiriu Harry, procurando a porta

- No - afirmou Seamus Finmgan, que Harry s reconheceu depois de ele falar: o seu rosto estava inchado e coberto de equimoses - E um esconderijo perfeito, desde 
que pelo menos um de ns c fique, eles no nos conseguem apanhar, a porta no se abre. Tudo obra do Neville. Ele compreende esta Sala. Tens de lhe dizer exactamente 
aquilo de que necessitas... como por exemplo, "No quero que nenhuns apoiantes dos Carrow consigam entrar". . e ela far-te- a vontade. S precisas de te certificar 
de que no h falhas! O Neville  quem controla tudo!

- Na realidade,  bastante simples - referiu Neville, com modstia. - Eu estava aqui h dia e meio, chennho de fome e a pensar como seria bom comer qualquer coisa, 
quando a passagem para o Cabea de Javali se abriu. Enfiei-me por ela e encontrei o Aberforth. Ele tem estado a fornecer-nos comida, pois, por alguma razo,  a 
nica coisa que a Sala realmente no faz.

- Pois, de facto, a comida  uma das cinco excepes  Lei da Transfigurao dos Elementos, de Gamp - referiu Ron, para espanto geral.

- Portanto, estamos escondidos aqui h quase duas semanas - prosseguiu Seamus -, e ela limita-se a criar mais camas de rede sempre que necessitamos delas, e at 
fez aparecer uma casa de banho muito jeitosa quando comearam a chegar raparigas. .

- ...e achou que elas gostariam bastante de se lavar - interveio Lavender Brown, em quem Harry s reparou naquele momento. Olhando ento  sua volta com ateno, 
reconheceu muitos rostos familiares: as duas gmeas Patil, assim como Terry Boot, Erme Macmillan, Anthony Goldstem e Michael Comer.

- Mas conta-nos o que tens andado a fazer - pediu Erme -, so tantos os boatos, temos tentado manter-nos actualizados a teu respeito no Ultimas do Potter. - Apontou 
para o rdio - Vocs no assaltaram Gringotts, pois no?

- Assaltaram, pois! - exclamou Neville. - E o drago tambm  verdade!

Ouviram-se estrondosos aplausos e alguns vivas e Ron fez uma vnia.

464

- O que procuravam' - indagou Seamus avidamente. Antes que algum deles conseguisse fugir  pergunta, Harry

sentiu uma dor terrvel e escaldante na cicatriz. Quando virou apressadamente as costas aos rostos curiosos e fascinados, a Sala das Necessidades desapareceu, e 
encontrou-se de p dentro de uma cabana de pedra em runas. As tbuas do soalho podre haviam sido arrancadas, revelando um buraco ao lado qual se via uma caixa de 
ouro aberta, acabada de desenterrar O grito de fria de Voldemort vibrou dentro da sua cabea.

com um esforo tremendo, voltou a abandonar a mente de Voldemort, regressando, vacilante,  Sala das Necessidades, com o suor a correr-lhe pelo rosto e Ron a ampar-lo

- Ests bem, Harry? - perguntava Neville. - Queres sentar-te? Calculo que estejas cansado, no es.. ?

- No - afirmou Harry. Olhou para Ron e Hermione, tentando dizer-lhes sem palavras que Voldemort acabara de descobrir a perda de um dos outros Horcruxes O tempo 
esgotava-se rapidamente: se Voldemort decidisse ir em seguida at Hogwarts perderiam a sua oportunidade

- Precisamos de ir andando - disse, e as expresses deles indicaram-lhe que haviam compreendido.

- O que vamos ento fazer, Harry? - inquiriu Seamus. - Qual  o plano?

- O plano? - repetiu Harry. Exercia toda a sua fora de vontade para no sucumbir novamente  fria de Voldemort, pois a cicatriz continuava a arder - Bem, h algo 
que ns... o Ron, a Hermione e eu... precisamos de fazer, e depois vamo-nos embora daqui.

J ningum se riu nem soltou vivas. Neville pareceu confuso.

- O que queres dizer com "vamo-nos embora daqui"?

- Ns no viemos para ficar - explicou Harry, esfregando a cicatriz, tentando aliviar a dor. - H algo importante que temos de fazer...

- O que ?

- Eu... eu no posso contar.

Gerou-se uma onda de murmrios ante aquelas palavras e Neville franziu os sobrolhos.

- Por que no nos podes contar? Tem a ver com a luta contra o Quem-Ns-Sabemos, no tem?

- Bem, sim...

- Nesse caso, vamos ajudar-vos.

465

Os outros membros do Exrcito de Dumbledore anuram, alguns entusiasticamente, outros solenemente. Alguns levantaram-se das cadeiras para mostrar que estavam prontos 
a entrar em aco.

- Vocs no entendem. - Parecia que Harry dissera aquilo demasiadas vezes nas ltimas horas. - Ns... ns no vos podemos contar. Temos de ser ns a faz-lo... sozinhos.

- Porqu' - quis saber Neville.

- Porque .. - Ansioso por comear a procurar o Horcrux que faltava, ou pelo menos por ter uma conversa em particular com Ron e Hermione sobre o ponto por onde comear 
a busca, Harry sentia dificuldade em concentrar-se. A cicatriz continuava a queim-lo. - O Dumbledore deixou-nos uma tarefa aos trs - comeou cautelosamente -, 
e no podemos revel-la... quero dizer, ele queria que fossemos ns a faz-lo, os trs sozinhos.

- Ns somos o seu Exrcito - frisou Neville. - O Exrcito de Dumbledore. ramos todos membros, temo-lo mantido activo, enquanto vocs os trs andaram a agir por 
conta prpria...

- Olha que no foi propriamente um piquenique, p - insurgiu-se Ron.

- Eu nunca disse isso, mas no percebo por que motivo no podem confiar em ns. Toda a gente nesta sala tem lutado e foi obrigada a refugiar-se aqui porque os Carrow 
andavam atrs deles. Toda a gente aqui deu provas de ser leal ao Dumbledore. . de te ser leal.

- Olha - comeou Harry, sem saber o que ia dizer, mas no importava, a porta do tnel acabara de se abrir atrs dele.

- Recebemos a tua mensagem, Neville! Ol aos trs, calculei que estivessem aqui! - Eram Luna e Dean. Seamus soltou um enorme grito de satisfao e correu a abraar 
o seu melhor amigo.

- Ol a todos! - exclamou Luna, contente. - Oh, que bom estar de volta!

- Luna! - exclamou Harry, confuso -, o que fazes aqui? Como foi que... ?

- Eu mandei-a vir-justificou-se Neville, mostrando o falso Galeo. - Prometi-lhe, a ela e  Ginny que, se tu aparecesses, as avisaria Todos calculmos que, se voltasses, 
isso significaria uma revoluo. Que amos derrubar o Snape e os Carrow.

- Claro que  isso mesmo - afirmou Luna, animada. - No , Harry? Vamos expuls-los de Hogwarts?

- Oiam - Harry falou com uma crescente sensao de pnico -, lamento, mas no foi para isso que viemos. H algo que temos de fazer, e depois...

466

- Vais deixar-nos nesta trapalhada? - demandou Michael Comer.

- No! - exclamou Ron. - Aquilo que viemos fazer acabar por beneficiar todos, pois  para nos livrarmos do Quem-Ns-Sabemos ..

- Ento deixem-nos ajudar! - insistiu Neville, furioso. - Ns queremos participar!

Ouviu-se outro rudo atrs deles, e Harry virou-se. Pareceu-lhe que o seu corao parara: Ginny transpunha o buraco na parede, seguida de Fred, George e Lee Jordan. 
Ela lanou-lhe um sorriso to radioso que Harry percebeu que se esquecera, ou nunca compreendera devidamente como ela era bela. Todavia, nunca lhe desagradou tanto 
v-la.

- O Aberforth est a ficar um bocado chateado - queixou-se Fred, levantando a mo em resposta aos diversos gritos de saudao. - Quer passar pelas brasas e o bar 
dele est a transformar-se numa estao dos caminhos-de-ferro.

Harry ficou boquiaberto. Mesmo por detrs de Lee Jordan, apareceu Cho Chang, a antiga namorada de Harry. Ela sorriu-lhe.

- Recebi a mensagem - disse, exibindo o seu falso Galeo e veio sentar-se ao lado de Michael Comer.

- Portanto, qual  o plano, Harry? - quis saber George.

- No existe nenhum - explicou Harry, ainda desorientado com o aparecimento sbito de toda aquela gente, incapaz de compreender o que quer que fosse, enquanto a 
cicatriz continuava a arder intensamente.

- Vamos improvisando  medida que for necessrio, no ?  o meu estilo preferido - referiu Fred.

- Tens de parar com isto! - disse Harry a Neville. - Para que os chamaste a todos? Isto  uma loucura...

- Vamos lutar, no vamos? - perguntou Dean, mostrando o seu falso Galeo. - A mensagem dizia que o Harry estava de volta, e que amos lutar. Mas vou precisar de 
uma varinha...

- Tu no tens varinha. . ? - comeou Seamus. Ron virou-se bruscamente para Harry.

- Por que  que eles no podem ajudar?

- O qu?

- Eles podem ajudar.  - Baixou a voz e disse, para que ningum pudesse escutar seno Hermione, que estava no meio deles. - Ns no sabemos onde  que ele est. Temos 
de o encontrar rapidamente. No precisamos de lhes dizer que  um Horcrux.

467

Harry olhou de Ron para Hermione, que murmurou: - Acho que o Ron tem razo. Ns nem sequer sabemos o que procuramos, precisamos deles. - E como Harry no parecesse 
l muito convencido: - No precisas de fazer tudo sozinho, Harry.

Harry pensou rapidamente, a cicatriz ainda a picar, a cabea ameaando voltar a estoirar-lhe de dor. Dumbledore avisara-o para no falar a ningum dos Horcruxes, 
excepto a Ron e a Hermione. Segredos e mentiras, foi assim que crescemos, e o Albus ... bem, ele tinha uma queda especial ... Estaria a ficar igual a Dumbledore, 
a guardar os segredos s para si, receando confiar nos outros? Mas Dumbledore confiara em Snape, e onde  que isso o levara?  morte no cimo da torre mais alta...

- Est bem - afirmou em voz baixa aos outros dois. - Pronto - anunciou  Sala em geral, e todo o barulho cessou; Fred e George, que tinham estado a contar anedotas 
aos mais prximos, calaram-se, e todos ficaram atentos, entusiasmados.

- Temos de descobrir uma coisa - comunicou Harry. - Uma coisa... que nos ajudar a derrubar o Quem-Ns-Sabemos. Encontra-se aqui em Hogwarts, mas no sabemos onde. 
Pode ter pertencido a Ravenclaw. Algum ouviu falar de um objecto assim? Algum alguma vez encontrou algo com a guia dela, por exemplo?

Olhou esperanado para o pequeno grupo de Ravenclaw, para Padma, Michael, Terry e Cho, mas foi Luna, empoleirada no brao da cadeira de Ginny, quem respondeu.

- Bem, h o diadema perdido. Eu contei-te, lembras-te, Harry? O diadema perdido de Ravenclaw? O pap est a tentar reproduzi-lo.

- Pois , mas o diadema perdido - referiu Michael Comer, revirando os olhos -, perdeu-se, Luna. No h nada a fazer.

- E quando foi que se perdeu? - inquiriu Harry.

- Dizem que foi h sculos - interveio Cho, e o corao de Harry caiu-lhe aos ps. - O Professor Flitwick diz que o diadema desapareceu com a prpria Ravenclaw. 
Muita gente andou  procura, mas - apelou aos seus colegas dos Ravenclaw -, nunca ningum encontrou vestgios dele, pois no?

Todos abanaram a cabea.

- Desculpem l, mas o que  um diadema? - perguntou Ron.

-  uma espcie de coroa - explicou Terry Boot. - Supostamente, o de Ravenclaw continha propriedades mgicas, aumentava a sabedoria de quem o usava.

468

- Sim, os sifes Wrackspurt do pap... Mas Harry interrompeu Luna.

- E nenhum de vocs alguma vez chegou a ver qual o seu aspecto?

Voltaram todos a abanar a cabea. Harry olhou para Ron e Hermione, cujo desapontamento era um reflexo do seu. Um objecto que estivera perdido tanto tempo, aparentemente 
sem rasto, no se afigurava uma boa hiptese para o Horcrux escondido no castelo... porm, antes que pudesse formular uma nova pergunta, Cho voltou a falar.

- Se estiveres interessado em ver qual o aspecto do diadema, posso levar-te at  nossa sala comum e mostrar-to, Harry. V-se na esttua de Ravenclaw.

A cicatriz de Harry tornou a arder intensamente; por um instante, a Sala das Necessidades danou diante dos seus olhos, e viu a terra escura deslizar por debaixo 
de si e sentiu a enorme serpente enrolada nos ombros. Voldemort voava de novo, no sabia se em direco ao lago subterrneo se ao castelo; de qualquer das formas, 
no lhes restava praticamente tempo nenhum.

- Ele est em aco - disse entre dentes a Ron e Hermione. Olhou para Cho e depois novamente para eles. - Ouam, sei que no  uma grande pista, mas vou ter de ir 
ver a esttua, pelo menos sempre fico a saber qual o aspecto do diadema. Esperem por mim aqui e mantenham... vocs sabem... o outro... a salvo.

Cho pusera-se em p, mas Ginny disse, em tom bastante veemente. - No, a Luna leva o Harry, no levas, Luna?

- Oooh, sim, com muito prazer - respondeu Luna, toda satisfeita, e Cho tornou a sentar-se com ar esmorecido.

- Como  que samos? - inquiriu Harry a Neville.

- Por aqui.

Levou Harry e Luna at um canto, onde um pequeno armrio se abriu, revelando umas escadas ngremes.

- Vai dar a um stio diferente todos os dias, para que nunca o consigam descobrir - avisou. - O nico problema  que nunca sabemos ao certo onde vamos ter quando 
samos. Tem cuidado, Harry,  noite eles andam sempre a patrulhar os corredores.

- Na boa - disse Harry*- Vemo-nos daqui a pouco.

Ele e Luna subiram apressados a escada, que era longa, iluminada por archotes e mudava de direco em locais inesperados. Finalmente chegaram ao que parecia ser 
parede slida.

469

- Enfia-te aqui debaixo - disse Harry a Luna, retirando o Manto da Invisibilidade e colocando-o sobre ambos. Deu um pequeno empurro na parede.

Esta dissipou-se ao seu toque e eles esgueiraram-se l para fora; Harry olhou para trs e viu que ela se fechara de imediato. Encontravam-se num corredor escuro. 
Harry puxou Luna para as sombras, remexeu na bolsa que usava ao pescoo e retirou o Mapa do Salteador. Aproximando-o do nariz, procurou e localizou por fim o seu 
ponto e o de Luna.

- Estamos no quinto andar - murmurou, vendo Filch afastar-se a num corredor mais  frente. - Vamos, por aqui.

Avanaram sorrateiramente.

Harry vagueara j muitas vezes  noite pelo castelo, mas nunca o seu corao batera to acelerado, nunca dependera tanto de conseguir deslocar-se em segurana. Caminhando 
pelo cho iluminado pelo luar, passaram por armaduras cujos elmos chiavam ao som dos seus passos suaves, viraram esquinas para alm das quais tudo podia acontecer 
e foram avanando, consultando o Mapa do Salteador sempre que a luz o permitia, estacando duas vezes para deixarem passar um fantasma sem fazerem recair a ateno 
sobre si prprios. Harry estava  espera de encontrar um obstculo a qualquer momento e o seu pior temor era Peeves. Apurou os ouvidos a cada passo para escutar 
os primeiros indcios reveladores da aproximao do poltergeist.

- Por aqui, Harry - disse Luna entre dentes, puxando-lhe a manga e encaminhando-o na direco de uma escada em caracol.

Subiram em crculos apertados e vertiginosos; Harry nunca ali viera. Chegaram finalmente a uma porta sem puxador nem buraco de fechadura; no se via nada a no ser 
a madeira envelhecida e uma aldraba de bronze com a fornia de uma guia.

Luna estendeu uma mo plida, que pareceu fantasmagrica ali no ar, desligada do brao ou do corpo. Bateu uma vez e, no silncio, a pancada soou aos ouvidos de Harry 
como um disparo de canho. Imediatamente o bico da guia se abriu, mas em vez de um grito de ave, uma voz suave e melodiosa perguntou: - O que apareceu primeiro, 
a fnix ou a chama?

- Ha... o que te parece, Harry? - indagou Luna, com ar pensativo.

- O qu? No existe apenas uma senha?

- Oh, no, tens de responder a uma pergunta - explicou Luna.

470

- E se errarmos?

- bom, ters de esperar que algum acerte - disse Luna. -  uma forma de aprenderes, entendes?

- Pois... o problema  que ns no nos podemos permitir esperar por mais ningum, Luna.

- Pois , estou a perceber-te - respondeu Luna, com ar muito srio. - bom, nesse caso, acho que a resposta  que um crculo no tem princpio.

- Bem pensado - falou a voz e a porta escancarou-se.

A sala comum dos Ravenclaw, deserta, era um espao amplo e circular, mais arejado do que qualquer outro que Harry alguma vez vira em Hogwarts. Elegantes janelas 
em arco abriam-se nas paredes, de onde pendiam sedas azul e bronze; de dia, os Ravenclaw deviam ter uma vista espectacular das montanhas circundantes. O tecto era 
abobadado e pintado com estrelas, que se repetiam na carpete azul escura. Havia mesas, cadeiras e estantes e, num nicho em frente da porta, encontrava-se uma esttua 
alta de mrmore branco.

Harry reconheceu Rowena Ravenclaw do busto que vira em casa de Luna. A esttua estava ao lado de uma porta que dava acesso, segundo calculou, aos dormitrios. Dirigiu-se 
 mulher de mrmore e ela deu a impresso de olh-lo com um meio sorriso enigmtico no rosto, bela e no entanto, intimidadora. Um pequeno aro de aspecto delicado 
fora reproduzido em mrmore no cimo da sua cabea. No era muito diferente da tiara que Fleur usara no seu casamento e ostentava palavras gravadas em letras minsculas. 
Harry tirou o Manto e subiu para o plinto de Ravenclaw a fim de as ler.

- "Uma inteligncia extraordinria  o maior tesouro da Humanidade. "

- O que faz com que estejas falido, meu imbecil - cacarejou uma voz.

Harry virou-se num pice, escorregou do plinto e estatelou-se no cho. A figura de ombros tortos de Alecto Carrow encontrava-se diante de si e, no momento em que 
Harry ergueu a sua varinha, a mulher carregou com um dedo gordo na caveira e na serpente marcadas a fogo no seu antebrao.

471

XXX

A FUGA DE SEVERUS SNAPE

Assim que o dedo dela tocou na Marca, a cicatriz de Harry ardeu-lhe intensamente, a sala estrelada desapareceu, e deu consigo numa salincia rochosa debaixo de um 
penhasco, o mar a bater  sua volta e o corao a transbordar de triunfo - eles tm o rapaz.

Um sonoro estalo trouxe Harry de volta ao local onde estava: desorientado, ergueu a varinha, mas a feiticeira tombava j para a frente; embateu no cho com tanta 
fora que o vidro nas estantes retiniu.

- Nunca Atordoei ningum a no ser nas nossas aulas do ED - disse Luna, mostrando-se ligeiramente surpreendida. - Fez mais barulho do que eu pensava.

E, de facto, o tecto comeara a tremer. Do outro lado da porta que conduzia aos dormitrios, aumentava o som de passos em corrida: o feitio de Luna acordara os 
Ravenclaw que dormiam l em cima.

- Luna, onde ests? Preciso de me cobrir com o Manto! Os ps de Luna apareceram de repente; Harry correu para

junto dela e deixou o Manto envolv-los no momento em que a porta se abriu e uma torrente de Ravenclaw, todos com roupas de dormir, invadiu a sala comum Ouviram-se 
arquejos e gritos de surpresa ao verem Alecto ali estendida, sem sentidos. Lentamente, foram-na rodeando, um animal selvagem que poderia acordar a qualquer instante 
e atac-los. Ento, um aluno mais corajoso do primeiro ano correu para ela e tocou-lhe no traseiro com o dedo grande do p.

- Acho que talvez esteja morta! - gritou, todo contente.

- Olha s - murmurou Luna, animada, enquanto os Ravenclaw se amontoavam  volta de Alecto. - Ficaram satisfeitos!

- Sim  fantstico...

Harry fechou os olhos, e com a cicatriz ainda a latejar, decidiu voltar a mergulhar na mente de Voldemort... ele avanava pelo

472

tnel de acesso  primeira caverna, decidira ir verificar o medalho antes de vir. . mas isso no lhe tomaria muito tempo .

Houve uma pancada na porta da sala comum e os Ravenclaw imobilizaram-se. Do outro lado, Harry ouviu a voz suave e melodiosa emitida pela aldraba em forma de guia: 
- Para onde vo os objectos desaparecidos?

- No sei, ou achas que sei? Cala-te! - resmungou uma voz rude que Harry identificou como pertencente ao irmo Carrow, Amycus. - Alecto? Alecto? Ests a? Conseguiste 
apanh-lo? Abre a porta!

Os Ravenclaw cochichavam entre si, aterrados. Depois, sem aviso, ouviu-se uma srie de sonoros estrondos, como se estivessem a disparar uma arma contra a porta.

- ALECTO! Se ele chegar, e no tivermos o Potter... queres sofrer o mesmo destino que os Malfoy? RESPONDE-ME! - berrou Amycus, sacudindo a porta com todas as suas 
foras, mas nem mesmo assim ela se abriu. Os Ravenclaw iam recuando todos, e alguns dos mais assustados iam subindo a escada para voltarem para as suas camas. Ento, 
precisamente quando Harry se perguntava se no deveria rebentar a porta e Atordoar Amycus antes que o Devorador da Morte conseguisse fazer algo mais, ouviu uma segunda 
voz bem sua conhecida do lado de l

- Posso saber o que est a fazer, Professor Carrow?

- A tentar... abrir... esta maldita. . porta! - gritou Amycus. - V chamar o Flitwick! Obrigue-o a abri-la, imediatamente!

- Mas no  a sua irm que est l dentro? - inquiriu a Professora McGonagall. - No foi o Professor Flitwick que a deixou entrar, mais ao incio da noite, por urgente 
pedido do senhor! Assim sendo, no precisa de acordar meio castelo.

- Ela no responde, sua vassoura velha. - Abra-a voc! Raios! Faa-o imediatamente!

- com certeza, se o deseja - respondeu a Professora McGonagall, com extrema frieza. Ouviu-se uma delicada pancada na aldraba e a voz melodiosa perguntou de novo: 
- Para onde vo os objectos desaparecidos?

- Para a no-existncia, o que equivale a dizer tudo - replicou a Professora McGonagall

- Magnificamente formulado - retorquiu a aldraba em fornia de guia, e a porta escancarou-se.

Os poucos Ravenclaw que tinham ficado para trs correram para as escadas mal Amycus avanou por ali adentro, brandindo a

473

varinha. Curvado como a irm, tinha um rosto plido e flcido e olhos minsculos que incidiram logo em Alecto, imvel e estendida no cho. Soltou um grito de fria 
e medo.

- O que  que aquelas pestes lhe fizeram? - gritou. - vou tortur-los a todos at confessarem quem foi... e o que vai dizer o Senhor das Trevas? - esganiou-se, 
debruando-se sobre a irm e dando socos na testa com o punho - Ns no o temos, e eles acabaram de mat-la!

- Ela s est Atordoada - replicou a Professora McGonagall, com impacincia, tendo-se debruado para examinar Alecto. - Vai ficar ptima.

- No,  claro que no vai! - berrou Amycus. - Depois de o Senhor das Trevas lhe deitar a mo, no fica! E ela que foi cham-lo. Senti a minha Marca arder, e ele 
pensa qu' a gente temos o Potter!

- "A gente temos o Potter"? - msurgiu-se a Professora McGonagall rispidamente. - O que quer dizer, "A gente temos o Potter"?

- Ele avisou-nos qu' o Potter podia tentar entrar na Torre dos Ravenclaw, e qu' o mandssemos chamar se o apanhssemos!

- E por que haveria o Harry Potter de tentar entrar na Torre dos Ravenclaw? O Potter pertence  minha equipa'

Sob a incredulidade e a raiva, Harry notou um certo orgulho na voz dela, e sentiu uma onda de afecto por Minerva McGonagall

- Disseram  gente qu' ele podia vir aqui! - respondeu Carrow. - Na' sei porqu, ou sei?

A Professora McGonagall levantou-se e os seus olhos miudinhos percorreram a sala. Passaram duas vezes pelo local onde Harry e Luna se encontravam.

- Podemos culpar os midos - decidiu Amycus, a astcia espalhando-se no seu rosto porcino. - Sim,  o que vamos fazer. Dizemos qu' a Alecto foi emboscada pelos midos, 
os de l de cima - olhou para o tecto estrelado na direco dos dormitrios -, e dizemos qu' eles a obrigaram a carregar na Marca, e foi por isso qu' ele recebeu 
um falso alarme... ele . pode castig-los. Uns midos a mais ou a menos, que diferena faz?

-  apenas a diferena entre a verdade e a mentira, a coragem e a cobardia - redarguiu a Professora McGonagall, que empalidecera -, uma diferena, em suma, a que 
voc e a sua irm so incapazes de dar valor. Mas quero esclarecer desde j uma coisa. Voc no vai deitar a culpa da sua incompetncia em cima dos alunos de Hogwarts. 
No o permitirei.

474

- Desculpe?

Amycus avanou at ficar provocadoramente em cima da Professora McGonagall, o rosto a centmetros do dela. A professora recusou-se a recuar, olhando-o com desprezo 
como se fosse algo repugnante que encontrara colado a uma tampa de samta.

- No se trata de voc permitir ou no, Minerva McGonagall. O seu tempo acabou. Agora somos ns que mandamos aqui, e vai apoiar-me, seno pode sair-lhe muito caro.

E cuspiu-lhe no rosto.

Harry libertou-se do Manto, ergueu a varinha e disse: - No devia ter feito isso.

Quando Amycus se virou, Harry gritou: - Crucio!

O Devorador da Morte foi levantado do cho Contorceu-se no ar como um homem a afogar-se, debatendo-se e uivando de dor, e depois, no meio do rudo de vidros a partirem-se, 
foi de encontro  parte da frente de uma estante e caiu, sem sentidos, no cho

- Agora percebo o que a Bellatrix queria dizer - comentou Harry, com o sangue a latejar-lhe no crebro -,  preciso senti-lo.

- Potter! - murmurou a Professora McGonagall, levando a mo ao peito. - Potter... ests aqui! O que.. ? Como...? - Fez um esforo para se recompor. - Potter, isto 
foi uma loucura!

- Ele cuspiu-lhe - protestou Harry

- Potter, eu... aquilo foi muito . muito nobre da tua parte... mas no percebes.. ?

- Percebo, sim - asseverou-lhe Harry. De certa forma, o pnico dela conseguiu acalm-lo. - Professora McGonagall, o Voldemort vem a

- Ento, agora j podemos dizer o nome dele? - perguntou Luna, mostrando-se interessada e retirando o Manto da Invisibilidade. Esta apario de uma segunda foragida 
foi demais para a Professora McGonagall, que recuou e caiu numa cadeira ali perto, agarrando a gola do seu roupo de xadrez.

- Acho que  indiferente como o designamos - explicou Harry a Luna -, ele j sabe que eu estou aqui.

Uma parte distante do crebro de Harry, aquela parte associada  cicatriz inflamada e ardente, conseguia ver Voldemort a cruzar rapidamente o lago escuro no barco 
verde e espectral... estava quase a alcanar a ilha onde se encontrava a bacia de pedra...

- Tens de fugir - murmurou a Professora McGonagall. - Imediatamente, Potter, o mais depressa possvel!

475

- No posso - respondeu Harry. - Tenho de fazer uma coisa. Professora, sabe onde est o diadema perdido de Ravenclaw?

- O d... diadema de Ravenclaw? Claro que no... ento no se perdeu h sculos? - Endireitou-se ligeiramente. - Potter, foi uma insensatez entrares neste castelo...

- Teve de ser - disse Harry. - Professora, h uma coisa escondida aqui que tenho de encontrar, e poderia ser o diadema... se ao menos eu conseguisse falar com o 
Professor Flitwick...

Ouviu-se um movimento e o som de vidro a tinir: Amycus voltava a si. Antes que Harry ou Luna tivessem tempo de agir, a Professora McGonagall ps-se em p, apontou 
a varinha ao estonteado Devorador da Morte e disse: - Imprio!

Amycus levantou-se, aproximou-se da irm, pegou na varinha dela, depois arrastou-se obedientemente at junto da Professora McGonagall e entregou-lha juntamente com 
a sua. De seguida, deitou-se no cho ao lado de Alecto. A Professora McGonagall brandiu de novo a varinha, e apareceu do nada uma poro de corda prateada que serpenteou 
 volta dos Carrow, deixando-os bem amarrados.

- Potter - disse a Professora McGonagall, virando-se novamente para ele e revelando uma magnfica indiferena pela situao dos Carrow -, se Aquele Cujo Nome No 
Deve Ser Pronunciado sabe, de facto, que ests aqui...

No momento em que a professora falava, Harry sentiu-se percorrido por uma ira semelhante a uma dor fsica, que lhe deixou a cicatriz em brasa e, por um segundo, 
olhou para uma bacia cuja poo se tornara cristalina, e viu que no havia nenhum medalho debaixo da superfcie...

- Potter, ests bem? - perguntou uma voz, e Harry, que se agarrara ao ombro de Luna para se firmar, regressou.

- O tempo est a esgotar-se, o Voldemort aproxima-se cada vez mais. Professora, estou a agir sob as ordens do Dumbledore. Tenho de descobrir aquilo que ele queria 
que eu descobrisse! Mas precisamos de tirar daqui os alunos, enquanto passo busca ao castelo...  a mim que o Voldemort quer, mas no hesitar em matar mais uns 
quantos, muito menos agora... - Muito menos agora que sabe que estou a atacar os Horcruxes, Harry concluiu mentalmente a frase.

- Tu ests a agir sob as ordens do Dumbledore? - repetiu ela, com uma expresso maravilhada ao fazer-se luz no seu esprito. De seguida, ergueu-se em toda a sua 
altura.

476

- Vamos proteger a escola contra Aquele Cujo Nome No Deve Ser Pronunciado enquanto tu procuras esse... esse objecto.

-  possvel?

- Creio que sim - redarguiu a Professora McGonagall, com secura -, ns, os professores, somos bastante bons em magia, como tu sabes. Tenho a certeza de que conseguiremos 
empat-lo algum tempo se envidarmos os nossos melhores esforos.  claro que ter de se neutralizar o Professor Snape...

- Deixe-me...

- ...e se Hogwarts se prepara, de facto, para entrar em estado de stio, com o Senhor das Trevas aos portes, seria na verdade aconselhvel tirar do caminho o maior 
nmero possvel de inocentes. com a Rede de P de Floo vigiada e sendo a Apario impossvel dentro dos terrenos...

- Existe uma maneira - afirmou Harry rapidamente, e falou-lhe do tnel de ligao ao Cabea de Javali.

- Potter, estamos a falar de centenas de alunos...

- Eu sei, Professora, mas se o Voldemort e os Devoradores da Morte se esto a concentrar nos limites da escola, no se preocuparo se algum Desaparecer pelo Cabea 
de Javali.

- No deixas de ter uma certa razo - concordou ela. Apontou a varinha aos Carrow, e uma rede prateada caiu sobre os seus corpos amarrados, envolvendo-os e iando-os 
no ar, onde ficaram suspensos sob o tecto azul e ouro, como duas criaturas marinhas, enormes e feias. - Vamos. Precisamos de alertar os outros Chefes de Equipa. 
 melhor voltares a colocar esse Manto.

Avanou pomposamente para a porta e, nesse entretanto, levantou a varinha. Irromperam da ponta trs gatos prateados com marcas de culos  volta dos olhos. Os Patronus 
avanaram rpida e sinuosamente, enchendo a escada em caracol de luzes prateadas, enquanto a Professora McGonagall, Harry e Luna se apressavam a descer.

Percorreram velozmente os corredores e, um por um, os Patronus deixaram-nos; o roupo de xadrez da Professora McGonagall arrastava pelo cho e Harry e Luna corriam 
atrs dela, debaixo do Manto.

Tinham descido mais dois andares quando outros passos se juntaram aos deles. Harry, cuja cicatriz continuava a picar, ouviu-os primeiro: remexeu na bolsa que usava 
ao pescoo, procurando o Mapa do Salteador, mas antes que o conseguisse tirar, tambm McGonagall pareceu aperceber-se de que tinham companhia.

477

Estacou, ergueu a varinha, a postos para travar um duelo e perguntou' - Quem est a?

- Sou eu - respondeu uma voz grave. Severus Snape saiu de detrs de uma armadura.

Ao v-lo, Harry sentiu o dio ferver dentro de si: esquecera os pormenores da sua aparncia devido  magnitude dos seus crimes, esquecera o seu cabelo preto seboso 
que pendia em cortinas  volta do rosto magro, esquecera que os seus olhos pretos tinham um aspecto frio, mortio. No vestia roupa de dormir, mas sim o seu habitual 
manto negro, e tambm ele empunhava a varinha, a postos para lutar.

- Onde esto os Carrow? - inquiriu tranquilamente.

- Onde quer que os tenha mandado estar, espero, Severus - retorquiu a Professora McGonagall.

Snape aproximou-se mais, e os seus olhos passaram rapidamente pela Professora McGonagall e perscrutaram o ar  volta dela, como se soubesse que Harry estava ali. 
Este erguera igualmente a sua varinha, pronto para o ataque

- Tive a impresso - afirmou Snape -, de que a Alecto apanhara um intruso

- A srio? - indagou a Professora McGonagall. - E o que lhe causou essa impresso?

Snape esboou um ligeiro movimento de flexo com o brao esquerdo, onde a Marca Negra fora gravada na sua pele.

- Oh, mas com certeza - disse a Professora McGonagall. - Tinha-me esquecido de que vocs, Devoradores da Morte, tm os vossos meios particulares de comunicao.

Snape ignorou as palavras dela. Os seus olhos continuavam a sondar o ar a toda a sua volta e ia-se aproximando a pouco e pouco sub-repticiamente.

- No sabia que era a sua noite de patrulhar os corredores, Minerva.

- Tem alguma objeco?

- Gostaria de saber o que a teria feito sair da cama a esta hora to tardia.

- Julguei ouvir agitao - respondeu a Professora McGonagall.

- A srio? Pois a mini parece-me tudo calmo Snape olhou-a nos olhos.

- Viu o Harry Potter, Minerva? Porque se viu, tenho de insistir. ..

478

l

A Professora McGonagall foi mais clere do que Harry alguma vez imaginaria: a varinha dela golpeou o ar e, por uma fraco de segundo Harry julgou que Snape fosse 
cair, inconsciente, mas foi tal a rapidez do seu Feitio do Escudo Invisvel que McGonagall se desequilibrou. Brandiu a varinha na direco de um archote que saltou 
do suporte e Harry, prestes a amaldioar Snape, viu-se obrigado a tirar Luna do caminho das chamas, que se transformaram num crculo que encheu o corredor e voaram 
como um lao direitas a Snape.

Depois o fogo transformou-se numa enorme serpente preta que McGonagall desfez em fumo; este solidificou-se quase imediatamente, ostentando a forma de punhais que 
perseguiram Snape em massa: este s lhes conseguiu escapar porque puxou a armadura para diante de si e, com pancadas ressonantes, os punhais cravaram-se, um aps 
outro, no peito de metal.

- Minerva! - guinchou uma voz e, olhando para trs, protegendo ainda Luna dos feitios voadores, Harry viu os Professores Flitwick e Sprout, galgando o corredor 
em direco a eles com as suas roupas de dormir, o Professor Slughorn esbaforido na retaguarda.

- No! - chiou Flitwick, levantando a sua varinha - No causar mais mortes em Hogwarts'

O feitio de Flitwick atingiu a armadura por detrs da qual Snape se refugiara, a qual ganhou vida com um estrondo. Snape libertou-se dos braos esmagadores e arremessou-a 
para trs, na direco dos seus atacantes: Harry e Luna tiveram de se atirar para o lado a fim de a evitarem, fazendo com que embatesse na parede e se despedaasse. 
Quando Harry levantou de novo a cabea, Snape estava j em plena fuga, McGonagall, Flitwick e Sprout vociferando todos atrs dele; Snape entrou a correr por uma 
sala de aula e, momentos depois, Harry ouviu McGonagall exclamar- Cobarde! COBARDE'

- O que  que aconteceu? O que  que aconteceu? - perguntou Luna.

Harry ajudou-a a pr-se em p e precipitaram-se pelo corredor, arrastando atrs deles o Manto da Invisibihdade, at uma sala de aula deserta onde os Professores 
McGonagall, Flitwick e Sprout se encontravam junto a uma janela com o vidro partido.

- Ele saltou - disse a Professora McGonagall, quando Harry e Luna entraram a correr na sala

479

- Quer dizer que est morto? - Harry precipitou-se para a janela, ignorando os gritos de choque de Flitwick e Sprout ante o seu sbito aparecimento.

- No, ele no est morto - referiu McGonagall, com azedume. - Ao contrrio do Dumbledore, ainda tinha varinha... e parece ter aprendido alguns truques com o seu 
mestre.

com uma sensao de horror, Harry viu ao longe um vulto enorme, parecido com um morcego, a voar no escuro em direco aos muros da escola.

Ouviram-se passos pesados atrs deles, e uma srie de assopradelas: Slughorn alcanara-os.

- Harry! - exclamou, arquejante, massajando o peito imenso por baixo do seu pijama de seda verde-esmeralda. - Menino... mas que surpresa... Minerva, explique-me, 
por favor... o Severus... o que...?

- O nosso Director resolveu tirar umas frias - referiu a Professora McGonagall, apontando para o buraco na janela onde se via a forma de Snape.

- Professora! - gritou Harry, levando as mos  testa. Via o lago cheio de Inferi a deslizar por debaixo dele e sentiu o barco verde espectral embater na margem 
subterrnea; Voldemort saltou dele com a vontade de matar no corao...

- Professora, temos de barricar a escola, ele vem a no tarda!

- Muito bem. Aquele Cujo Nome no Deve Ser Pronunciado est a chegar - explicou aos outros professores. Sprout e Flitwick ficaram boquiabertos e Slughorn soltou 
um gemido baixo. - O Potter tem que fazer no castelo, segundo ordens deixadas pelo Dumbledore. Precisamos de colocar a escola sob toda a proteco possvel, enquanto 
o Potter faz o que precisa de fazer.

- Tem conscincia, claro, de que nada que faamos conseguir manter o Quem-Ns-Sabemos indefinidamente afastado? - esganiou-se Flitwick.

- Mas podemos empat-lo - interveio a Professora Sprout.

- Obrigada, Pomona - agradeceu a Professora McGonagall, e as duas feiticeiras trocaram um olhar de sombria cumplicidade. - Sugiro que estabeleamos uma proteco 
bsica em torno da escola, depois vamos buscar os nossos alunos e reunimo-nos no Salo Nobre.  necessrio evacuar a maior parte, muito embora, se alguns daqueles 
que forem maiores desejarem ficar e lutar, acho que lhes devia ser dada essa oportunidade.

480

- Concordo - pronunciou-se a Professora Sprout, correndo j para a porta. - Encontrar-me-ei convosco no Salo Nobre dentro de vinte minutos com a minha equipa.

E, enquanto desaparecia rapidamente, ouviram-na murmurar. - Tentacula, Armadilha do Diabo. E vagens de Snargaluff... sim, gostaria de ver os Devoradores da Morte 
enfrent-las.

- Posso trabalhar a partir daqui - alvitrou Flitwick e, apesar de mal conseguir ver l para fora, apontou a varinha atravs do vidro partido e comeou a murmurar 
encantamentos de extrema complexidade. Harry ouviu um estranho rudo que fez lembrar uma rajada, como se Flitwick tivesse libertado a fora dos ventos nos campos.

- Professor - disse Harry, aproximando-se do pequeno mestre de Encantamentos -, Professor, desculpe interromp-lo, mas  muito importante. Tem alguma ideia de onde 
possa estar o diadema de Ravenclaw?

- ...Protego horribilis... o diadema de Ravenclaw? - guinchou Flitwick. - Um pouco mais de sabedoria nunca  demais, Potter, mas acho difcil o diadema ter alguma 
utilidade nesta situao!

- Eu s queria... o senhor sabe onde ele est? Alguma vez o viu?

- Se o vi? No h ningum vivo que tenha memria dele! H muito que se perdeu, rapaz!

Harry sentiu um misto de desapontamento, desespero e pnico. Afinal, o que seria o Horcrux?

- Encontrar-nos-emos com os seus Ravenclaw no Salo Nobre, Filius! - disse a Professora McGonagall, fazendo sinal a Harry e Luna para que a seguissem.

Tinham acabado de chegar  porta quando Slughorn falou na sua voz retumbante.

- Ora esta - arquejou, plido e suado, o seu bigode de morsa a tremelicar. - Que rebulio! No sei se isto ser sensato, Minerva.  mais que certo ele conseguir 
entrar, como sabe, e quem tentar retard-lo correr enorme perigo...

- Espero tambm por si e pelos Slytherin no Salo Nobre dentro de vinte minutos - disse a Professora McGonagall. - Se desejar partir com os seus alunos, no o impedirei. 
No entanto, se algum de vs tentar sabotar a nossa resistncia, ou pegar em armas contra ns dentro deste castelo, ento, Horace, lutaremos at  morte.

481



- Minerva! - insurgiu-se ele, horrorizado.

- Chegou o momento de a Equipa de Slytheinn decidir de que lado est - interrompeu a Professora McGonagall. - V acordar os seus alunos, Horace.

Harry no ficou para ver Slughorn tartamudear. Ele e Luna correram atrs da Professora McGonagall, que tomara posio no meio do corredor e erguera a varinha.

- Piertotum... oh, francamente, Filch, agora no.

O idoso encarregado acabara de aparecer a manquejar, gritando: - Alunos fora da cama1 Alunos nos corredores!

-  mesmo para estarem, seu idiota chapado! - gritou McGonagall! - V mas  fazer algo de til. Procure o Peeves!

- O P. Peeves? - balbuciou Filch, como se nunca tivesse ouvido o nome antes.

- Sim, o Peeves, seu tolo, o Peeves! No anda a queixar-se dele h vinte e cinco anos? V busc-lo, imediatamente'

Filch deve ter julgado que a Professora McGonagall perdera o juzo, mas afastou-se a manquejar, todo curvado, resmungando entre dentes.

- E agora... piertotum locomotor1 - exclamou a Professora McGonagall.

E, pelo corredor fora, as esttuas e as armaduras pularam dos seus plintos e, pelos estrondos que ecoavam nos soalhos dos outros andares, Harry percebeu que as suas 
companheiras em todo o castelo haviam feito o mesmo

- Hogwarts est ameaado! - gritava a Professora McGonagall. - Patrulhem os limites, protejam-nos, cumpram o vosso dever para com a nossa escola!

No meio de grande algazarra e gritaria, a horda de esttuas em movimento passou por Harry numa correria, umas mais pequenas, outras enormes. Havia igualmente animais, 
e as barulhentas armaduras brandiam espadas e clavas de ferro.

- bom, Potter - disse McGonagall -,  melhor tu e Miss Lovegood voltarem para junto dos vossos amigos e lev-los ao Salo Nobre... eu vou acordar os restantes Gryffindor.

Separaram-se no cimo da escadaria seguinte: Harry e Luna voltaram a correr em direco  entrada disfarada da Sala das Necessidades. Pelo caminho, encontraram grupos 
de alunos, a maior parte dos quais havia colocado as capas de viagem por cima dos pijamas, enquanto eram conduzidos ao Salo Nobre por professores e prefeitos.

482

- Aquele era o Potter!

- Harry Potter!

- Era ele, juro, acabei de v-lo!

Mas Harry nem olhou para trs, e chegaram finalmente  entrada da Sala das Necessidades. Harry encostou-se  parede encantada, que se abriu para os deixar passar, 
e ele e Luna desceram a correr as escadas ngremes.

- O qu...?

Quando apareceu a sala, o choque fez com que Harry falhasse alguns degraus. Estava a transbordar, muito mais apinhada do que da ltima vez que ali estivera. Kingsley 
e Lupin olhavam-no, assim como Oliver Wood, Katie Bell, Angelina Johnson e Alicia Spinnet, Bill e Fleur e Mr. e Mrs Weasley.

- Harry, que se passa? - indagou Lupin, indo ao seu encontro ao fundo das escadas.

- O Voldemort vem a, esto a barricar a escola .. o Snape pirou-se. o que fazes aqui? Como foi que soubeste?

- Envimos mensagens ao resto do Exrcito de Dumbledore - explicou Fred. - No estavas  espera de que o pessoal fosse perder o espectculo, Harry, e o ED avisou 
a Ordem da Fnix, e foi assim como o efeito de uma bola de neve.

- Como , Harry? - gritou George. - O que se passa?

- Esto a evacuar os midos mais novos e vamo-nos encontrar todos no Salo Nobre para nos organizarmos - anunciou Harry. - Vamos lutar.

Ouviu-se um urro e um movimento geral em direco s escadas e Harry foi encostado  parede, enquanto os amigos passavam por ele a correr, membros da Ordem da Fnix, 
do Exrcito de Dumbledore e da antiga equipa de Quidditch de Harry, todos misturados, cada um munido da sua varinha, dirigindo-se  parte principal do castelo.

- Anda, Luna - chamou Dean, ao passar, estendendo a mo que tinha livre; ela agarrou-a e seguiu-o pelas escadas.

A multido ia diminuindo - permanecia apenas um pequeno grupo de pessoas l em baixo, na Sala das Necessidades, e Harry reuniu-se-lhes. Mrs. Weasley discutia com 
Ginny. A rode-los encontravam-se Lupin, Fred, George, Bill e Fleur.

- Tu s menor! - gritava Mrs. Weasley  filha quando Harry se aproximou. - No te vou deixar! Os rapazes, sim, mas tu, tu tens de ir para casa!

- No vou!

483

O cabelo de Ginny esvoaou, quanto tentou libertar-se da mo da me.

- Eu perteno ao Exrcito de Dumbledore ...

- ...um bando de adolescentes!

- Um bando de adolescentes que se prepara para o apanhar, algo que mais ningum ousou fazer! - insurgiu-se Fred.

- Ela tem dezasseis anos! - exclamou Mrs. Weasley. - Ainda no tem idade! Mas que ideia veio a ser esta de a trazerem convosco...

Fred e George sentiram-se ligeiramente envergonhados.

- A me tem razo, Ginny - afirmou Bill delicadamente. - Tu no podes participar. Todos os menores tero de partir,  o mais acertado.

- Eu no posso ir para casa! - protestou Ginny, com lgrimas de raiva a brilharem-lhe nos olhos. - Toda a minha famlia est aqui, no suporto ficar l sozinha  
espera, sem saber e...

Pela primeira vez, os olhos dela cruzaram-se com os de Harry. Lanou-lhe uma splica, mas ele abanou a cabea e Ginny virou costas, amuada.

- Muito bem - disse, olhando para a entrada do tnel de acesso ao Cabea de Javali. - Vou-me despedir, e depois...

Ouviram-se passos a correr e, de seguida, uma pancada enorme: sara mais algum do tnel, que se desequilibrou ligeiramente e caiu. Agarrou-se  cadeira mais prxima, 
olhou  sua volta atravs dos culos com aros de tartaruga s trs pancadas e disse: - Cheguei tarde de mais? J comeou? S soube mesmo agora, por isso eu... eu...

Percy reduziu-se ao silncio. Era evidente que no contara dar de caras com a maior parte da famlia. Houve um longo momento de espanto, interrompido por Fleur, 
que se dirigiu a Lupin dizendo, numa manifesta tentativa de aliviar a tenso: - Ento... como ezt o piqueno Teddy?

Lupin olhou para ela, sobressaltado. Entre os Weasley, o silncio parecia solidificar-se, como gelo.

- Eu... oh, sim... ele est ptimo! - anunciou Lupin em voz alta. - Sim, a Tonks est com ele... em casa da me.

Percy e os outros Weasley continuavam a entreolhar-se, estticos.

- Olhem, tenho uma foto! - gritou Lupin, retirando uma fotografia de dentro do casaco e mostrando-a a Fleur e a Harry, que viram um beb minsculo com um tufo de 
cabelo turquesa vivo, a agitar os punhos gordos para a cmara.

484

- Fui um palerma! - bradou Percy, to alto que Lupin quase deixou cair a fotografia. - Fui um idiota, um imbecil arrogante,

um... um...

- Um dbil mental, um lambe-botas do Ministrio, um traidor  famlia, um parvalho sedento de poder - acrescentou Fred.

Percy engoliu em seco.

- Pois fui!

- Bem, no podias ter sido mais sincero - comentou Fred, estendendo a mo a Percy.

Mrs. Weasley desatou a chorar. Avanou de repente, afastou Fred do seu caminho e estreitou Percy num abrao muito apertado, enquanto lhe dava palmadas nas costas, 
sem que ele tirasse os olhos do pai.

- Desculpe, pai - pediu Percy.

Mr. Weasley pestanejou muito rapidamente, depois tambm ele correu a abraar o filho.

- O que te fez ver a razo, Percy? - inquiriu George.

- J no  de agora - retorquiu Percy, limpando os olhos por debaixo das lentes com uma ponta da capa de viagem. - Mas tinha de encontrar uma sada e no foi nada 
fcil no Ministrio, eles esto constantemente a prender traidores. Consegui estabelecer contacto com o Aberforth e ele avisou-me h dez minutos que Hogwarts ia 
travar uma batalha, por isso aqui estou.

- Bem, esperamos que os nossos prefeitos dem o exemplo em momentos como estes - disse George, numa boa imitao dos modos mais enfatuados de Percy. - Agora, vamos 
l para cima lutar, antes que todos os Devoradores da Morte bons sejam apanhados.

- Ento, agora s minha cunhada? - perguntou Percy, apertando a mo a Fleur, enquanto se apressavam em direco s escadas com Bill, Fred e George.

- Ginny! - atroou Mrs. Weasley.

A coberto da reconciliao, Ginny estava a tentar esgueirar-se tambm pelas escadas.

- Posso fazer uma proposta, Molly? - perguntou Lupin. - Por que no fica a Ginny aqui, assim sempre estar no terreno e saber o que se vai passando, mas no participar 
na luta?

- Eu...

- Que excelente ideia - comentou Mr. Weasley, com veemncia. - Ginny, tu no sais desta Sala, ests a ouvir?

485

Ginny no pareceu l muito satisfeita com a ideia, mas, ante o olhar invulgarmente austero do pai, anuiu. Mr. e Mrs. Weasley e Lupin encaminharam-se tambm para 
as escadas.

- Onde se meteu o Ron? - indagou Harry. - Onde se meteu a Hermione?

- Devem ter ido j para o Salo Nobre - gritou Mr. Weasley por cima do ombro.

- No os vi passar - disse Harry.

- Eles disseram qualquer coisa sobre uma casa de banho - referiu Ginny -, pouco depois de tu sares.

- Uma casa de banho?

Harry avanou em grandes passadas at uma porta aberta que havia na Sala das Necessidades e espreitou para a casa de banho. Estava vazia.

- Tens a certeza de que eles disseram casa de...

Porm, nessa altura a sua cicatriz ardeu atrozmente e a Sala das Necessidades desapareceu: ele olhava atravs dos altos portes de ferro forjado, com os javalis 
alados que encimavam os pilares laterais, olhava pelos terrenos escuros na direco do castelo, todo iluminado. Nagini enroscara-se-lhe nos ombros. Possua-o aquele 
propsito frio e cruel que precedia o crime.

XXXI

A BATALHA DE HOGWARTS

486

O tecto encantado do Salo Nobre estava escuro e salpicado de estrelas, e por baixo, as quatro mesas corridas das equipas enchiam-se de alunos desarranjados, alguns 
j com os mantos de viagem, outros de roupo. Aqui e ali brilhavam as figuras branco-prola dos fantasmas da escola. Todos os olhos, de vivos ou de mortos, estavam 
cravados na Professora McGonagall, que falava do estrado no cimo do Salo. Por detrs dela encontravam-se os restantes professores, incluindo o centauro palomino, 
Firenze, e os membros da Ordem da Fnix, que haviam chegado entretanto para lutar.

- ...a evacuao ser orientada por Mr. Filch e Madame Pomfrey. Prefeitos, quando eu disser, organizam a vossa equipa e levam os respectivos alunos, de forma ordeira, 
para o ponto de evacuao.

Muitos dos alunos ficaram estupefactos. Todavia, enquanto Harry contornava as paredes,  procura de Ron e Hermione na mesa dos Gryffindor, Ernie McMillan levantou-se 
na mesa dos HufflepufT e gritou: - E se quisermos ficar e lutar?

Ouviram-se estrondosos aplausos.

- Se forem maiores, podem ficar - respondeu a Professora McGonagall.

- E as nossas coisas? - inquiriu uma rapariga na mesa dos Ravenclaw. - Os nossos males, as nossas corujas?

- No temos tempo para recolher os objectos pessoais - referiu a Professora McGonagall. - O mais importante  vocs sarem daqui em segurana.

- Onde est o Professor Snape? - bradou uma rapariga da mesa dos Slytherin.

- Bem, para usar a expresso na moda, ele bazou - replicou a Professora McGonagall, e um enorme viva explodiu na mesa dos Gryffindor, dos Hufflepuff e dos Ravenclaw.

Harry ia-se deslocando pelo Salo, ao longo da mesa dos Gryffindor, continuando  procura de Ron e Hermione. Quando pas

487

sou, alguns rostos viraram-se na direco dele, e ouviu cochichar nas suas costas.

- J colocmos proteces em torno do castelo - dizia a Professora McGonagall -, mas  pouco provvel que resistam muito tempo a menos que sejam reforadas. Por 
conseguinte, quero pedir-lhes que se retirem rpida e calmamente e faam o que os vossos prefeitos...

Mas as suas ltimas palavras foram abafadas por uma voz diferente que ecoou pelo Salo. Forte, fria e cristalina, era impossvel afirmar de onde vinha, pois parecia 
sair das prprias paredes Tal como o monstro que em tempos comandara, podia ter estado sculos adormecida.

- Sei que se esto a preparar para lutar. - Ouviram-se gritos entre os alunos, alguns dos quais se agarraram aos colegas, aterrorizados, procurando determinar a 
origem do som. - Os vossos esforos so inteis. No podem lutar contra mim. No quero matar-vos. Tenho o maior respeito pelos professores de Hogwarts. No quero 
derramar sangue mgico.

O silncio reinou ento no Salo, aquele tipo de silncio que faz presso nos tmpanos, to desmesurado que as paredes no o podem conter.

- Entreguem-me o Harry Potter - disse a voz de Voldemort -, e ningum ficar ferido. Entreguem-me o Harry Potter, e deixarei a escola intacta. Entreguem-me o Harry 
Potter, e sero recompensados.

"Tm at  meia-noite

O silncio voltou a submergi-los. Todas as cabeas se viraram e cravaram o olhar em Harry, como se quisessem mantelo preso sob o brilho de mil raios invisveis. 
Ento, uma figura, que ele reconheceu como sendo Pansy Parkmson, ergueu-se da mesa dos Slytherin, levantou um brao trmulo e gritou: - Mas ele est ali! O Potter 
est ali! Agarrem-no!

Antes que Harry conseguisse falar, gerou-se um movimento global  sua frente, os Gryffindor tinham-se posto em p e virado, no para Harry, mas para os Slytherin. 
De seguida, os Hufflepuff levantaram-se e, quase em simultneo, os Ravenclaw, todos de costas para Harry, todos eles olhando para Pansy. Harry, aterrado e ansioso, 
viu aparecer varinhas por todo o lado, tiradas de debaixo dos mantos e de dentro das mangas.

- Obrigada, Miss Parkmson - disse a Professora McGonagall, em voz sincopada. - Vai ser a primeira a abandonar

488

o Salo com Mr. Filch. E o resto da sua equipa pode fazer o mesmo.

Harry ouviu o arrastar de bancos no outro lado do Salo, seguido do som dos Slytherin a marchar dali para fora

- Ravenclaw, sigam! - bradou a Professora McGonagall. Lentamente, as quatro mesas foram-se esvaziando. A dos

Slytherin ficou completamente deserta, mas uns quantos Ravenclaw mais velhos permaneceram sentados, enquanto os seus companheiros saam em fila: ainda mais HufHepuff 
se deixaram ficar, e metade dos Gryffindor mantiveram-se nos seus lugares, sendo necessrio a Professora McGonagall descer do estrado dos professores a fim de obrigar 
os menores a sair.

- Mas  que nem penses, Creevey, vamos! E tu, Peakes! Harry correu para junto dos Weasley, todos sentados uns ao p

dos outros  mesa dos Gryffindor

- Onde esto o Ron e a Hermione?

- No os encontras...? - comeou Mr. Weasley, com ar preocupado

Mas calou-se, pois Kinsley subira ao estrado para se dirigir queles que tinham ficado

- S temos trinta minutos at  meia-noite, por isso precisamos de agir rapidamente! Os professores de Hogwarts e a Ordem da Fnix traaram um plano de batalha. 
Os professores Flitwick, Sprout e McGonagall vo levar grupos de combatentes at s trs Torres mais altas - Ravenclaw, de Astronomia e Gryffindor - de onde tero 
uma boa perspectiva, excelentes posies para poderem lanar feitios. Entretanto, o Remus - indicou Lupin -, o Arthur - apontou na direco de Mr. Weasley, sentado 
 mesa dos Gryffindor -, e eu levaremos grupos at aos campos. Vamos precisar de algum para organizar a defesa das entradas dos tneis de acesso  escola ..

- .. isso parece trabalho para ns - gritou Fred, referindo-se a si e a George, ao que Kinsley anuiu em sinal de aprovao.

- Muito bem, quero os lderes aqui em cima e vamos dividir as tropas!

- Potter - interpelou-o a Professora McGonagall, indo ter com ele, enquanto os alunos invadiam o estrado, acotovelando-se, recebendo instrues -, no devias estar 
 procura de uma coisa qualquer?

- O qu? Oh - disse Harry -, claro que sim!

489

Quase se esquecera do Horcrux, quase se esquecera de que a batalha se travava para que ele pudesse procur-lo: a ausncia inexplicvel de Ron e Hermione tinham-no, 
momentaneamente, feito esquecer tudo o resto.

- Ento vai, Potter, vai!

- Claro - pois...

Sentiu muitos olhares a segui-lo enquanto voltava a sair rapidamente do Salo Nobre, regressando ao Hall de Entrada ainda cheio de alunos a serem evacuados. Deixou-se 
levar com eles pela escadaria de mrmore, no entanto, chegado ao cimo, seguiu, apressado, por um corredor deserto. O medo e o pnico turvavam-lhe as ideias. Procurou 
acalmar-se, concentrar-se na busca do Horcrux, mas os seus pensamentos zumbiam frentica e infrutiferamente, como vespas aprisionadas debaixo de um copo. Sem Ron 
e Hermione para o ajudarem, parecia que no conseguia coordenar as ideias. Abrandou, acabando por parar a meio de um corredor vazio, onde se sentou no plinto de 
uma esttua que desaparecera e retirou o Mapa do Salteador da bolsa que usava ao pescoo. No conseguiu ver os nomes de Ron e Hermione em lado nenhum, muito embora 
a densidade da imensido de pontos que se encaminhava naquele momento para a Sala das Necessidades pudesse, a seu ver, estar a ocult-los. Pousou o mapa, cobriu 
o rosto com as mos e fechou os olhos, procurando concentrar-se...

Voldemort pensou que eu iria  Torre dos Ravenclaw.

Era isso: um facto concreto, o lugar por onde comear. Voldemort instalara Alecto Carrow na sala comum dos Ravenclaw, e a nica explicao podia residir a: Voldemort 
receava que Harry j soubesse que o seu Horcrux estava associado quela casa.

No entanto, o nico objecto ligado a Ravenclaw era o diadema perdido... e, como podia o Horcrux ser o diadema? Como era possvel que Voldemort, os Slytherin, tivessem 
encontrado o diadema que escapara a geraes de Ravenclaw? Quem poderia ter-lhe dito onde procurar, quando no havia ningum, entre os vivos, que se recordasse do 
diadema?

Entre os vivos...

Por baixo dos dedos, os olhos de Harry tornaram a abrir-se. Saltou do plinto e voltou rapidamente pelo caminho que trouxera, agora em busca da sua ltima esperana. 
Ao chegar  escadaria de mrmore, o som de centenas de pessoas a marcharem em direco  Sala das Necessidades era cada vez mais alto. Os prefeitos gritavam instrues, 
procurando no perder de vista os alunos das suas

490



equipas; empurres e encontres era o que no faltava; Harry viu Zacharias Smith atropelar os alunos do primeiro ano para passar  frente na fila; aqui e ali, alunos 
mais novos choravam, enquanto os mais velhos gritavam desesperadamente por amigos ou irmos... Harry avistou uma figura branco-prola a vogar l em baixo no Hall 
de Entrada e gritou o mais alto que pde acima do clamor.

- Nick! NICK! Preciso de falar contigo!

Voltou a abrir caminho por entre a mar de alunos, chegando finalmente ao fundo das escadas onde Nick Quase-Sem-Cabea, o fantasma da Torre dos GryfEndor, ficara 
a aguard-lo.

- Harry! Meu caro amigo!

Nick fez meno de tomar ambas as mos de Harry nas suas, o que lhe causou a sensao de as ter mergulhado em gua glida.

- Nick, preciso mesmo de ajuda. Quem  o fantasma da Torre dos Ravenclaw?

Nick Quase-Sem-Cabea mostrou-se surpreendido e ligeiramente ofendido.

- A Dama Cinzenta, claro, mas se necessitas de servios fantasmagricos...?

- Tem de ser ela... sabes onde  que ela est?

- Ora deixa-me c ver...

A cabea de Nick oscilou um pouco na gola de tufos enquanto se virava ora para um lado, ora para o outro, espreitando por cima das cabeas do magote de alunos.

-  aquela alm, Harry, a jovem de cabelo comprido. Harry olhou na direco para onde o dedo transparente de

Nick apontava e viu um fantasma alto que entretanto, apercebendo-se do seu olhar, arqueou os sobrolhos e atravessou uma parede slida.

Harry correu atrs dela. Uma vez transposta a porta do corredor por onde ela desaparecera, Harry avistou-a mesmo l ao fundo, continuando a deslizar, afastando-se 
suavemente dele.

- Hei... espere... volte!

Ela assentiu em estacar, ficando a pairar a alguns centmetros do solo. Harry calculou que fosse bela, com o cabelo pela cintura e o manto a arrastar pelo cho, 
mas pareceu-lhe tambm altiva e orgulhosa. Mais de perto, reconheceu-a como o fantasma por quem passara diversas vezes no corredor, mas a quem nunca dirigira a palavra.

-  a Dama Cinzenta?

491

Ela anuiu mas no falou.

- O fantasma da Torre dos Ravenclaw?

- Est correcto.

O tom dela no era encorajador.

- Por favor, preciso de ajuda; preciso de saber tudo o que me possa contar sobre o diadema perdido.

Um sorriso frio percorreu-lhe os lbios.

- Receio - afirmou ela, virando-se para se ir embora -, no poder ajud-lo.

- ESPERE!

No fora sua inteno gritar, s que a raiva e o pnico ameaavam venc-lo. Viu as horas enquanto ela pairava  sua frente: era um quarto para a meia-noite.

-  muito urgente - insistiu impetuosamente. - Se aquele diadema estiver em Hogwarts, preciso de encontr-lo, rapidamente.

- J no s o primeiro aluno a cobiar o diadema - referiu ela num tom desdenhoso. - Fui atormentada por geraes de alunos...

- O meu objectivo no  obter melhores notas! - gritou-lhe Harry. - Tem a ver com o Voldemort... com derrotar o Voldemort... ou no est interessada nisso?

No lhe era possvel corar, mas as suas faces ficaram mais opacas, e a voz dela animou-se ao responder: - Claro que sim... como te atreves a sugerir...?

- Bem, nesse caso, ajude-me!

Ela comeava a perder a compostura.

- No... no se trata de uma questo de... - gaguejou. - O diadema da minha me...

- Da sua me?

Ela deu a impresso de ter ficado zangada consigo mesma.

- Quando eu estava viva - afirmou, um pouco constrangida -, era Helena Ravenclaw.

- E afilha dela? Mas, nesse caso, deve saber o que foi feito dele!

- Apesar de o diadema conferir sabedoria - proferiu, num ntido esforo para se controlar -, duvido que pudesse aumentar consideravelmente as tuas probabilidades 
de derrotar o feiticeiro que se intitula Lord...

- Mas se acabei de lhe afirmar que no estou interessado em us-lo! - Harry foi impetuoso. - No h tempo para explicaes... mas se se preocupa com Hogwarts, se 
quer ver o Voldemort arrumado, vai ter de me contar tudo o que sabe a respeito

do diadema!

Ela permaneceu imvel, a pairar no ar, olhando para ele, e Harry foi tomado de uma sensao de desespero.  claro que se ela soubesse algo j o teria contado a Flitwick 
ou a Dumbledore, que certamente a haviam inquirido sobre o mesmo. Abanou a cabea, fazendo meno de se afastar, quando ela falou em voz

baixa.

- Eu roubei o diadema  minha me.

- A senhora... fez o qu?

- Eu roubei o diadema -, repetiu Helena Ravenclaw num murmrio. - Queria provar que era mais inteligente, mais importante que a minha me. Fugi com ele.

No soube, nem quis saber, o que fizera para merecer a confiana dela: limitou-se a escut-la com toda a ateno, quando prosseguiu: - Dizem que a minha me nunca 
confirmou o desaparecimento do diadema, preferindo fingir que ainda o conservava. Ocultou esse facto, a minha terrvel traio, mesmo dos outros fundadores de Hogwarts.

"Depois a minha me adoeceu... gravemente. Apesar da minha perfdia, estava desesperada por ver-me mais uma vez. Enviou  minha procura um homem que h muito me 
amava, apesar de eu rejeitar os seus avanos. Sabia que ele no descansaria enquanto no o conseguisse.

Harry ficou  espera. Ela respirou fundo e inclinou a cabea

para trs.

- Ele seguiu o meu rasto at  floresta onde eu me escondera. Como me recusasse a regressar com ele, tornou-se violento. O Baro era, por norma, um homem muito exaltado. 
Furioso ante a minha recusa, cheio de cimes da minha liberdade, apunhalou-me.

- O B(?ro? Est a referir-se...?

- Ao Baro Sangrento, sim - afirmou a Dama Cinzenta, e afastou um pouco o manto que usava para mostrar um ferimento escuro no seu peito branco. - Quando se apercebeu 
do que fizera, foi vencido pelo remorso. Arrancou a arma com que me ceifara a vida e serviu-se dela para tirar a sua. Passados todos estes sculos, usa ainda as 
correntes como forma de se penitenciar... e s lhe fica bem - acrescentou, com azedume.

- E... e o diadema?

492

493

- Ficou onde eu o escondera, quando ouvi o Baro vir clamorosamente pela floresta direito a mmi. Escondi-o numa rvore oca.

- Numa rvore oca? - repetiu Harry - Qual rvore? Onde foi isso?

- Numa floresta na Albnia. Um local ermo que julguei estar suficientemente longe do alcance da minha me.

- Na Albnia - repetiu Harry. Da confuso brotava milagrosamente a luz, e compreendeu, ento, por que motivo ela lhe estava a relatar o que negara a Dumbledore e 
Flitwick. - J contou esta histria a algum, no contou? A outro aluno?

A Dama Cinzenta fechou os olhos e anuiu.

- Eu no... fazia ideia. . de que ele... me adulava. Mostrou-se... to . compreensivo., to compadecido ..

Pois, pensou Harry, tom Riddle teria sem dvida compreendido o quanto Helena Ravenclaw ambicionava possuir aquele objecto fabuloso a que tinha muito pouco direito.

- Bem, no foi a primeira a quem o tom Riddle conseguiu arrancar segredos - murmurou Harry. - Ele conseguia ser encantador quando lhe convinha. .

Portanto, Voldemort levara a Dama Cinzenta a revelar-lhe o paradeiro do diadema perdido Viajara at quela floresta remota e recuperara-o do seu esconderijo, talvez 
assim que abandonara Hogwarts, antes mesmo de comear a trabalhar no Borgin & Burkes.

E no teria aquela floresta albanesa constitudo um excelente refgio quando, muito mais tarde, Voldemort necessitara de um local onde se esconder, sem dar nas vistas, 
durante dez longos anos?

Mas, quando o diadema se transformou no seu precioso Horcrux, no ficara naquela humilde rvore... no, o diadema fora trazido em segredo para o seu verdadeiro lar, 
e Voldemort devia t-lo guardado ali..

- ..na noite em que veio pedir emprego' - exclamou Harry, concluindo o seu raciocnio.

- Desculpa?

- Ele escondeu o diadema no castelo, na noite em que pediu ao Dumbledore que o deixasse dar aulas! - explicou Harry. Ao falar em voz alta, tudo passou a fazer sentido 
- Ele deve ter escondido o diadema quando se dirigia ao gabinete do Dumbledore, ou ento quando saiu. Mas continuava a valer a pena ten

494

tar obter o emprego, talvez tivesse oportunidade de roubar tambm a espada de Gryffindor... obrigado, muito obrigado!

Harry deixou-a ali a pairar, com um ar completamente desorientado. Ao virar a esquina para regressar ao Hall de Entrada, viu as horas. Faltavam cinco minutos para 
a meia-noite e, apesar de saber o que era o ltimo Horcrux, nem por isso se sentia mais prximo de descobrir onde se encontrava...

Geraes de alunos no tinham conseguido encontrar o diadema; tudo apontava para que no estivesse na Torre dos Ravenclaw mas se no l, onde  que poderia estar? 
Que esconderijo descobrira tom Riddle dentro do Castelo de Hogwarts que pudesse manter-se eternamente secreto?

Perdido em especulaes desesperadas, Harry virou uma esquina, mas dera apenas alguns passos pelo corredor quando a janela  sua esquerda se estilhaou com um estrondo 
ensurdecedor. Desviou-se rapidamente e, nesse preciso instante, um corpo gigantesco entrou a voar pela janela e embateu na parede em frente. Algo grande e peludo 
despegou-se, por entre lamrias, do recm-chegado e atirou-se a Harry.

- Hagrid! - Harry soltou um berro, repelindo as atenes de Fang, o co caador de javalis, quando a enorme figura barbuda se ps em p. - Mas o que.. ?

- Harry, 'ts aqui! 'Ts aqui!

Hagrid debruou-se, deu a Harry um abrao apressado de partir as costelas, depois aproximou-se rapidamente da janela com os vidros partidos.

- Lindo menino, Grawpy! - gritou pelo buraco na janela - Eu j volto, s um moo bonito!

Na noite escura, Harry viu ao longe, por detrs de Hagrid, exploses de luz e ouviu um estranho grito penetrante. Olhou para o relgio: era meia-noite. A batalha 
comeara.

- Caramba, Harry - arfou Hagrid -, agora  qu' , hem? Chegou a hora de lutar!

- De onde  que vieste, Hagrid?

- Ouvi o Quem-Ns-Sabemos na nossa caverna - referiu Hagrid, com ar ameaador. - A voz chegou l, 'ts a ver? "Tm at  meia-noite pra m' entregar o Potter." Eu 
sabia que devias 'tar aqui, sabia o qu' devia 'tar 'acontecer. Pra baixo, Fang. Anto viemos te' contigo, eu, o Grawpy e o Fang. Abrimos caminho  fora junt'  
floresta, o Grawpy carregava-nos, a num e ao Fang Eu disse-lhe qu' me deixasse no castelo, de modos qu' ele

495

m' empurrou p'la janela, 'tadinho. N' era bem o qu' eu qu'ria, mas... adonde 'to o Ron e a Hermione?

- Isso - respondeu Harry -,  realmente uma boa pergunta. Vamos l.

Avanaram ambos rapidamente pelo corredor, Fang caminhando indolentemente ao lado deles. Harry ouvia movimento nos corredores a toda a volta: passos em corrida, 
gritos; pelas janelas, conseguia ver clares luminosos nos campos escuros.

- Pra onde vamos? - perguntou Hagrid em voz arquejante, seguindo pesadamente atrs de Harry e fazendo estremecer o soalho de madeira.

- No sei muito bem - respondeu Harry, virando de novo aleatoriamente -, mas o Ron e a Hermione devem estar algures por aqui.

Viam-se as primeiras baixas da batalha j estendidas l adiante no corredor: as duas grgulas de pedra que costumavam guardar a entrada da sala dos professores tinham 
sido esmigalhadas por um feitio que entrara por outra janela com o vidro partido. Os seus restos agitavam-se debilmente no cho e, quando Harry saltou por cima 
de uma das cabeas sem corpo, esta gemeu levemente: - Oh, no se preocupem comigo... estou s para aqui a esboroar-me...

O seu feio rosto de pedra lembrou de imediato a Harry o busto de mrmore de Rowena Ravenclaw em casa de Xenophilius, usando aquele toucado louco... e depois a esttua 
na Torre dos Ravenclaw, com o diadema de pedra sobre os caracis brancos...

Quando chegou ao fundo do corredor, voltou-lhe a lembrana de uma terceira efgie de pedra: de um feiticeiro feio e velho em cuja cabea uma vez Harry colocara uma 
peruca e uma velha tiara maltratada. O choque percorreu Harry com o calor de um Usque de Fogo, e por pouco no tropeou.

Sabia, finalmente, onde o aguardava o Horcrux...

tom Riddle, que no confiava em ningum e agia sozinho, podia ter sido suficientemente arrogante para presumir que ele, e s ele, conseguira desvendar os mistrios 
mais insondveis do Castelo de Hogwarts. Claro que Dumbledore e Flitwick, como alunos exemplares que eram, nunca tinham posto os ps naquele lugar em concreto, mas 
ele, Harry, pisara muitas vezes os limites durante o tempo que estivera na escola. Eis finalmente um segredo que ele e Voldemort conheciam, um segredo que Dumbledore 
nunca descobrira...

Sobressaltou-se quando a Professora Sprout passou como um trovo, seguida de Neville e meia dzia de outros, usando todos

496

protectores de ouvidos e transportando o que pareciam ser plantas grandes em vasos.

- Mandrgoras! - gritou Neville a Harry por cima do ombro. - Vamos arremess-las s muralhas... eles no vo gostar nada!

Agora Harry j sabia onde dirigir-se: acelerou, com Hagrid e Fang a galoparem atrs de si. Foram passando por inmeros retratos, e as figuras pintadas correram ao 
lado deles, feiticeiros e feiticeiras de rufos e cales tufados, de armaduras e mantos, sobrepondo-se nas telas uns dos outros, apregoando as novas pelo castelo. 
Ao chegarem ao fundo do corredor, todo o castelo estremeceu e, quando uma gigantesca jarra tombou do plinto com uma fora explosiva, Harry soube que estavam sob 
o efeito de encantamentos mais sinistros que os dos professores e da Ordem.

- Tudo bem, Fang ... tudo bem! - gritou Hagrid, mas o enorme co fugira quando tinham comeado a cair do ar fragmentos de porcelana que mais pareciam estilhaos 
de granada, e Hagrid partiu atrs do co assustado, deixando Harry sozinho.

Continuou a avanar clere pelos corredores que tremiam, de varinha a postos; ao longo de um deles, a figura do pequeno cavaleiro, Sir Cadogan, acompanhava-o de 
quadro em quadro com a armadura a chocalhar, enquanto soltava gritos de incitamento, o pequeno pnei gordo a galopar atrs dele.

- Fanfarres e malandros, ces e canalhas, corre com eles, Harry Potter, expulsa-os daqui!

Harry virou outra esquina e encontrou Fred e um pequeno grupo de alunos, que inclua Lee Jordan e Hannah Abbott, ao lado de outro plinto vazio, cuja esttua ocultara 
uma passagem secreta. Tinham as varinhas a postos e escutavam por um buraco camuflado.

- Mas que rica noite! - exclamou Fred, quando o castelo voltou a estremecer, e Harry continuou a correr, dividido entre a satisfao e o pavor. Seguiu disparado 
por mais outro corredor, deparando-se, ento, com corujas por todo o lado e Mrs. Norris a bufar e a tentar bater-lhes com as patas, sem dvida para as obrigar a 
regressar ao seu devido lugar.

- Potter!

Aberforth Dumbledore barrava o corredor l  frente, com a varinha a postos.

- Tenho centos de midos a passar disparados pelo meu pub, Potter!

497

- Eu sei, estamos a evacuar - referiu Harry. - O Voldemort est...

- ...a atacar porque eles no te entregaram, sim - afirmou Aberforth. - No sou surdo, Hogsmeade inteira ouviu-o. E nunca ocorreu a nenhum de vocs tomar alguns 
Slytherin como refns? Acabaste de pr em segurana uns quantos filhos de Devoradores da Morte. No seria muito mais inteligente conserv-los aqui?

- Isso no deteria o Voldemort - afirmou Harry -, e o seu irmo nunca teria tomado semelhante atitude.

Aberforth resmungou e afastou-se na direco oposta.

O seu irmo nunca teria tomado semelhante atitude... bem, era verdade, pensou Harry, recomeando a correr; Dumbledore, que durante tanto tempo defendera Snape, nunca 
teria conservado alunos como refns...

E depois derrapou numa ltima esquina e, soltando um grito de receio  mistura com fria, viu-os: Ron e Hermione, ambos carregando braadas de objectos amarelos, 
sujos e arqueados. Ron trazia uma vassoura debaixo do brao.

- Mas onde raio se meteram vocs? - barafustou Harry.

- Na Cmara dos Segredos - explicou Ron.

- Na Cmara... o qu? - indagou Harry, estacando hesitante diante deles.

- Foi o Ron, a ideia foi toda do Ron! - explicou Hermione, sem flego. - No foi absolutamente brilhante? Estvamos ali, depois de te ires embora, e perguntei ao 
Ron, como  que, supondo que encontrvamos o outro, nos amos livrar dele? E ainda no nos tnhamos livrado da taa! E foi ento que lhe ocorreu! O Basilisco!

- Mas o que...?

- Para nos livrarmos dos Horcruxes - limitou-se Ron a dizer.

O olhar de Harry caiu sobre os objectos que Ron e Hermione seguravam nos braos: enormes presas curvas arrancadas, apercebeu-se naquele momento, do crnio de um 
Basilisco morto.

- Mas como  que conseguiram l entrar? - inquiriu, olhando das presas para Ron. -  preciso falar serpents!

- E ele falou! - murmurou Hermione. - Mostra-lhe, Ron. Ron emitiu um horrvel rudo sibilante e estrangulado.

- Foi o que tu disseste para abrir o medalho - respondeu a Harry, atrapalhado. - Precisei de fazer algumas tentativas

498

primeiro, para sair bem, mas - encolheu os ombros com modstia -, acabmos por conseguir entrar.

- Ele foi espantoso! - gabou-o Hermione. - Simplesmente espantoso!

- Bem... - Harry fazia um esforo para acompanhar. - Bem...

- Bem, conseguimos destruir outro Horcrux - concluiu Ron, e retirou debaixo do casaco os restos estropiados da taa de Hufflepuff. - Foi a Hermione quem a espetou. 
Achei que merecia faz-lo. Ainda no tivera esse prazer.

- Genial! - exclamou Harry.

- No foi nada - afirmou Ron, apesar de parecer no caber em si de contente. - Bem, que novidades nos contas?

Nesse preciso momento ouviu-se uma exploso l em cima: olharam todos para o alto quando comeou a cair p do tecto e ouviram um grito distante.

- J sei qual o aspecto do diadema, e sei onde se encontra - anunciou Harry, falando rapidamente. - Ele escondeu-o precisamente no mesmo stio em que eu escondi 
o meu velho livro de Poes, onde toda a gente tem levado sculos a esconder coisas. Ele julgou que fora o nico a descobri-lo. Venham da.

Enquanto as paredes tornavam a tremer, conduziu os outros dois pela entrada escondida e desceram as escadas at  Sala das Necessidades. Encontrava-se vazia  excepo 
de trs mulheres: Ginny, Tonks e uma feiticeira idosa com um chapu rodo pelas traas, que Harry reconheceu imediatamente como a av de Neville.

- Finalmente, Potter - falou-lhe com secura, como se tivesse estado  espera dele. - Agora vais contar-nos o que se passa.

- Esto todos bem? - perguntaram Ginny e Tonks em simultneo.

- Tanto quanto sabemos - respondeu Harry. - Ainda h pessoas no tnel para o Cabea de Javali?

Sabia que a Sala no se conseguiria transformar enquanto estivessem ocupantes l dentro.

- Eu fui a ltima a chegar - referiu Mrs. Longbottom. - Selei-o, por no me parecer sensato deix-lo aberto, agora que o Aberforth abandonou o pub. Viste o meu neto?

- Est a lutar - esclareceu Harry.

- Naturalmente - redarguiu a velha senhora, toda orgulhosa. - Desculpa, mas tenho de ir ajud-lo.

499

com uma rapidez surpreendente, apressou-se em direco s escadas de pedra.

Harry olhou para Tonks.

- Julguei que estivesses com o Teddy em casa da tua me?

- No aguentei ficar sem saber nada... - Tonks pareceu angustiada. - Ela cuidar dele por mim... no viste o Remus?

- Estava a planear levar um grupo de combatentes para os campos...

Sem mais uma palavra, Tonks partiu rapidamente.

- Ginny - disse Harry. - Desculpa, mas precisamos que saias tambm. S por um bocadinho. Depois podes regressar.

Ginny ficou simplesmente encantada por poder abandonar o seu refgio.

- E depois podes regressar! - gritou-lhe, enquanto ela corria pelas escadas atrs de Tonks. - Olha que tens de regressar!

- Esperem l! - exclamou Ron de repente. - Esquecemo-nos de algum!

- De quem? - inquiriu Hermione.

- Dos elfos domsticos, eles devem estar l em baixo na cozinha, no  verdade?

- Ests a dizer que devamos p-los a lutar? - inquiriu Harry.

- No - retorquiu Ron -, estou a dizer que devamos mand-los embora. No queremos mais Dobbys, pois no? No podemos ordenar-lhes que morram por ns...

Ouviu-se um estrpito quando as presas de basilisco escorregaram dos braos de Hermione. Precipitando-se para Ron, lanou-lhos ao pescoo e beijou-o intensamente 
na boca. Ron largou as presas e a vassoura que segurava e correspondeu com tamanho entusiasmo que levantou Hermione do cho.

- Isso no podia ficar para outra altura? - perguntou Harry, embaraado e, como no acontecesse nada a no ser Ron e Hermione agarrarem-se ainda com maior intensidade 
um ao outro e baloiarem-se ali mesmo, levantou a voz. - OI! Est a travar-se aqui uma guerra!

Ron e Hermione descolaram-se, mantendo-se, no entanto, ainda abraados.

- Tens razo, meu - anuiu Ron, que tinha o ar de quem acabara de ser atingido na nuca por uma Bludger -, portanto,  agora ou nunca, certo?

- Esquece, e ento o Horcrux? - gritou-lhe Harry. - Achas que conseguias aguentar... aguentar at termos o diadema?

500

- Sim... claro... desculpa l -, balbuciou Ron, e ele e Hermione puseram-se a apanhar as presas, ambos um bocado corados.

Voltavam os trs ao corredor. No havia dvidas de que a situao no castelo se deteriorara consideravelmente durante os minutos que tinham estado na Sala das Necessidades: 
as paredes e o tecto eram sacudidos com intensidade; o ar enchia-se de p e Harry viu, pela janela mais prxima, exploses de luz verde e vermelha, to prximas 
da base do castelo que os Devoradores da Morte s podiam estar a preparar-se para invadir. Olhando l para baixo, Harry viu o gigante Grawp circular por ali, brandindo 
o que parecia ser uma grgula de pedra arrancada do telhado e soltando urros de desagrado.

- Espero que tenha espezinhado uns quantos! - comentou Ron, quando se ouviram mais gritos ali perto.

- Desde que no sejam dos nossos! - afirmou uma voz: Harry virou-se e viu Ginny e Tonks, ambas com as varinhas apontadas  janela mais prxima, onde faltavam j 
diversas vidraas. No mesmo momento, Ginny lanou um feitio sobre um grupo de combatentes l em baixo.

- Linda menina! - gritou uma figura que corria direita a eles por entre o p, e Harry viu novamente Aberforth, passando com o cabelo grisalho a esvoaar, enquanto 
conduzia um pequeno grupo de alunos. - Desconfio que esto a abrir brechas nas Ameias do Norte, tambm trouxeram gigantes!

- Viu o Remus? - gritou-lhe Tonks, j ele se afastava.

- Estava a lutar contra o Dolohov - respondeu Aberforth no mesmo tom -, no o vejo desde ento!

- Tonks - chamou Ginny -, Tonks, de certeza que ele est bem...

Mas ela j se embrenhara no p, indo atrs de Aberforth. Ginny virou-se para Harry, Ron e Hermione, atrapalhada.

- Eles vo ficar bem - sossegou-a Harry, muito embora soubesse que eram palavras ocas. - Ginny, ns voltamos j, no te metas, pe-te a salvo... venham da! - dirigiu-se 
ento a Ron e Hermione, e correram at ao pedao de parede onde a Sala das Necessidades aguardava do outro lado o momento de poder satisfazer a vontade do prximo 
que entrasse.

Necessito do local onde tudo est escondido, pediu-lhe Harry mentalmente, e a porta materializou-se pela terceira vez.

O furor da batalha cessou mal transpuseram o limiar e fecharam a porta atrs de si: reinava o silncio. Encontraram-se num local

501



do tamanho de uma catedral, com o aspecto de uma cidade, as paredes altaneiras feitas de objectos escondidos por milhares de alunos que h muito haviam partido.

- E ele nunca se apercebeu de que qualquer um podia entrar? - comentou Ron, a sua voz ecoando no silncio.

- Julgou que era o nico - referiu Harry. - O azar dele foi eu precisar de esconder aqui coisas... venham - acrescentou -, acho que  por aqui...

Passou pelo troll embalsamado e pelo Armrio de Desapario que Draco Malfoy consertara no ano anterior com consequncias to desastrosas, depois hesitou, olhando 
para um lado e para o outro dos corredores de tralha; no se conseguia lembrar do prximo passo a dar...

- Accio diadema - gritou Hermione, em desespero, mas no veio nada a voar direito a eles. Tudo indicava que, tal como sucedera no cofre de Gringotts, a sala no 
fosse entregar assim to facilmente os objectos nela escondidos.

- Vamos separar-nos - alvitrou Harry aos outros dois. - Procurem um busto de pedra de um velho com uma cabeleira postia e uma tiara! Est em cima de um armrio 
e  algures por aqui. .

Avanaram cleres pelos corredores adjacentes; Harry ouvia os passos dos outros a ecoar por entre as pilhas descomunais de tralha, garrafas, chapus, caixotes, cadeiras, 
livros, vassouras, bastes...

- Algures por aqui... - murmurava Harry para com os seus botes. - Algures... algures. .

Embrenhando-se cada vez mais no labirinto, procurou por entre os objectos que reconheceu de uma das suas anteriores deslocaes  sala. O som da sua respirao ecoava-lhe 
nos ouvidos, e at a prpria alma pareceu estremecer: l estava, mesmo em frente, o velho armrio cheio de p onde escondera o seu velho livro de Poes e, mesmo 
no cimo, o feiticeiro de pedra de aspecto bexigoso, com a velha peruca empoeirada e o que se assemelhava a uma velha tiara baa.

Estendia j a mo, apesar de estar  distncia de trs metros, quando uma voz atrs de si disse: - Alto l, Potter

Estacou e virou-se. Viu ento Crabbe e Goyle, ombro com ombro, apontando-lhe directamente as varinhas. E, no pequeno intervalo entre os seus rostos zombeteiros, 
estava Draco Malfoy.

- Essa a  a minha varinha, Potter - disse Malfoy, apontando uma outra pelo intervalo entre Crabbe e Goyle.

502

- Deixou de o ser - respondeu Harry, arquejante, segurando com mais fora a varinha de espinheiro. - Quem perdeu foi ao ar, Malfoy. Quem te emprestou a tua?

- A minha me - respondeu Draco.

Harry soltou uma gargalhada, apesar de a situao no ter graa nenhuma. Deixara de ouvir Ron ou Hermione. Naturalmente estavam mais distantes,  procura do diadema.

- Como  que vocs no esto com o Voldemort' - perguntou Harry.

- Vamos ser recompensados - retorquiu Crabbe: a sua voz era surpreendentemente suave para aquele corpanzil; Harry quase nunca o ouvira abrir a boca. Crabbe sorria 
como uma criana pequena a quem prometeram guloseimas. - Resolvemos ficar, Potter. Decidimos no partir. Decidimos levar-te at ele.

- Que plano magnfico - comentou Harry, fmgmdo-se admirado. No queria acreditar que estivesse to prximo e, para cmulo, logo fossem Malfoy, Crabbe e Goyle a frustrar-lhe 
as expectativas. Comeou a recuar lentamente em direco ao stio onde estava o Horcrux, assente de esguelha no busto. Se ao menos conseguisse deitar-lhe a mo antes 
de a luta comear...

- Como  que entraram aqui? - perguntou-lhes, na tentativa de os distrair.

- Eu vivi praticamente todo o ltimo ano na Sala dos Objectos Escondidos - referiu Malfoy, a sua voz cortante. - Sei como entrar.

- A gente estava escondidos l fora no corredor - resmungou Goyle. - J sabemos lanar Feitios de Camuflar! E depois - o rosto dele rasgou-se num sorriso idiota 
-, tu apareceste  nossa frente e disseste que andavas  procura de um diga-d-ma. O que  um diga-d-ma?

- Harry? - A voz de Ron ecoou do outro lado da parede mesmo  direita de Harry - Ests a falar com algum?

com um movimento de chicote, Crabbe apontou a sua varinha  montanha de quinze metros de moblia velha, bas partidos, livros velhos, roupas e cangalhada diversa 
e gritou: - Descendo*

A parede comeou a oscilar, depois abateu-se no corredor do lado, onde estava Ron

- Ron! - berrou Harry enquanto, num local no visvel, Hermione soltou um grito, e Harry ouviu inmeros objectos a carem ao cho do outro lado da parede penchtante: 
apontou a sua varinha  muralha e exclamou, "Fimte!" e tudo parou.

503

- No! - bradou Malfoy, sustendo o brao de Crabbe no momento em que este fazia meno de repetir o feitio. - Se destrures a sala, podes vir a soterrar esse tal 
diadema!

- Que importncia tem? - perguntou Crabbe, soltando-se com uma sacudidela. - E o Potter que o Senhor das Trevas quer, qual o interesse de um diga-d-ma?

- O Potter veio aqui busc-lo - fez-lhe ver Malfoy, mal escondendo a sua impacincia ante a burrice dos colegas -, portanto isso quer dizer...

- "Isso quer dizer"? - Crabbe virou-se para Malfoy com indisfarada ferocidade - E algum liga ao que tu dizes? Eu j no recebo ordens tuas, Draco. Tu e o teu pai 
esto tramados.

- Harry? - voltou a chamar Ron, do outro lado da parede de tralha. - O que se passa?

- Harry? - imitou Crabbe. - O que se., no, Potter! Crucio!

Harry lanara-se  tiara; a maldio de Crabbe no lhe acertou, atingindo antes o busto de pedra, que voou pelo ar; o diadema foi projectado e depois desapareceu 
de vista na massa de objectos onde o busto assentara.

- PRA! - gritou Malfoy a Crabbe, a sua voz ecoando na sala enorme. - O Senhor das Trevas quere-o vivo .

- E da7 Eu no o estou a matar, pois no? - barafustou Crabbe, sacudindo com fora o brao de Malfoy -, mas se conseguir,  o que fao, j que o Senhor das Trevas 
o quer ver morto, que dife '

Um raio de luz vermelha passou a escassos centmetros de Harry: Hermione dera a volta por detrs dele e lanara um Feitio de Atordoar directamente sobre a cabea 
de Crabbe. S falhou porque Malfoy o tirou do caminho

-  aquela Sangue de Lama! Avada Kedavm'

Harry viu Hermione desviar-se rapidamente e a sua fria por Crabbe ter atirado a matar fez com que se lhe varresse tudo o resto da mente. Disparou um Feitio de 
Atordoar a Crabbe, que deu uma guinada sbita, fazendo saltar a varinha da mo de Malfoy; ela rolou, desaparecendo de vista debaixo de uma montanha de caixas e moblia 
partida

- No o matem! NO O MATEM! - gritou Malfoy a Crabbe e Goyle, que tinham ambos Harry na sua mira. aquela fraco de segundo de hesitao foi o bastante para Harry.

- Expelharmus!

504

A varinha de Goyle voou-lhe da mo e desapareceu no emaranhado de objectos a seu lado; em vo Goyle pulava como um idiota, tentando recuper-la; Malfoy desviou-se 
do segundo Feitio de Atordoar de Hermione e Ron, que apareceu de repente ao fundo do corredor e lanou com toda a fora uma Maldio da Ligadura Total do Corpo 
sobre Crabbe, que escapou por um triz.

Crabbe virou-se bruscamente e gritou de novo, "Avada Kedavra!" Ron desapareceu de vista num pulo, a fim de evitar o jacto de luz verde. Sem varinha, Malfoy encolheu-se 
todo atrs de um guarda-fato com trs ps, enquanto Hermione avanava sobre eles, atingindo, nesse entretanto, Goyle com um Feitio de Atordoar

- Est algures aqui! - gritou-lhe Harry, apontando para a tralha empilhada onde a tiara cara. - Procura-a enquanto eu vou ajudar o Ron. .

- HARRY! - gritou ela

Um rudo atroador atrs dele, propagando-se por ondas, avisou-o com um momento de antecedncia. Virou-se e viu Ron e Crabbe fugirem a sete ps pelo corredor, na 
direco deles.

- Gostam de churrasco, escumalha? - berrou Crabbe enquanto corria.

Mas ele parecia no ter controlo sobre o que fizera. Eram perseguidos por chamas gigantescas, lambendo os lados das torres de cangalhada, que se esboroavam a um 
toque.

- Aguamenti1 - gritou Harry, mas o jacto de gua que se ergueu da ponta da sua varinha evaporou-se no ar

- FUJAM!

Malfoy agarrou em Goyle, que estava Atordoado, e arrastou-o consigo; Crabbe passou  frente deles todos, parecendo apavorado; Harry, Ron e Hermione corriam desalmadamente 
atrs, perseguidos pelo fogo S que no era um fogo normal; Crabbe usara uma maldio que Harry desconhecia e, ao virarem uma esquina, as chamas perseguiram-nos 
como se estivessem vivas, dotadas de sensibilidade, decididas a mat-los. O fogo sofria naquele momento uma mutao, formando-se uma matilha gigante de criaturas 
gneas - serpentes, Quimeras e drages flamejantes elevavam-se, desciam e voltavam a elevar-se, e os sculos de detritos de que se alimentavam eram arremessados 
ao ar pelas enormes garras, voltando a cair nas bocas de presas enormes, antes de serem consumidos pelo inferno.

Malfoy, Crabbe e Goyle tinham desaparecido; Harry, Ron e Hermione estacaram subitamente; os monstros gneos rodeavam

505

- nos, cada vez mais perto, garras, chifres e caudas a fustigar, e o calor era uma parede slida a cerc-los.

- Que havemos de fazer? - gritava Hermione a fim de ser ouvida no meio do clamor das chamas. - Que havemos de fazer'

- Tomem!

Harry pegou em duas vassouras de aspecto slido que estavam no monte de tralha mais prximo e atirou uma a Ron, que puxou Hermione para trs de si. Harry passou 
a perna por cima da segunda vassoura e, batendo com os calcanhares no cho, elevaram-se no ar, falhando por pouco o bico acerado de uma ave de rapina flamejante 
que tentava ferr-los. O fumo e o calor tornavam-se insuportveis: por debaixo deles, o fogo malfico consumia o contrabando de geraes de alunos perseguidos, os 
resultados ilcitos de mil experincias proibidas, os segredos de um sem-fim de almas que haviam procurado refgio naquela sala. Harry no via Malfoy, Crabbe ou 
Goyle em lado nenhum, sobrevoou o mais baixo possvel os perigosos monstros chamejantes na tentativa de os encontrar, mas s se via fogo: que forma horrvel de morrer... 
nunca tal quisera...

- Harry, vamos embora, vamos embora daqui! - gritou-lhe Ron, apesar de ser impossvel verem, atravs do fumo negro, onde ficava a porta.

E, ento, Harry ouviu um grito humano, fraco e suplicante, vindo do meio da tremenda agitao, do estrpito das chamas devoradoras.

-  demasiado perigoso...! - gritou-lhe Ron, mas Harry deu meia-volta no ar. com a fraca proteco que os culos lhe conferiam contra o fumo, os seus olhos esquadrinharam 
o mar de chamas, procurando um sinal de vida, um membro ou um rosto que ainda no estivesse calcinado...

E viu-os ento: Malfoy com os braos em volta de Goyle, desmaiado, os dois empoleirados numa frgil torre de carteiras calcinadas, e Harry desceu subitamente. Malfoy 
viu-o aproximar-se e levantou um brao, mas no momento em que Harry o agarrou, percebeu logo que era escusado. Goyle pesava imenso e a mo de Malfoy, coberta de 
suor, deslizou imediatamente da de Harry...

- SE NS MORRERMOS POR CAUSA DELES, JURO QUE TE MATO, HARRY! - ouviu-se a voz de Ron, atroadora, e, quando uma Quimera flamejante se aproximou, ele e Hermione arrastaram 
Goyle para a sua vassoura, voltando a subir, girando e oscilando no ar, enquanto Malfoy trepava para trs de Harry.

506

- A porta, alcana a porta! - guinchou Malfoy ao ouvido de Harry, seguindo Ron, Hermione e Goyle atravs da nuvem negra de fumo, quase sem conseguirem respirar: 
e, a toda a volta deles, os ltimos objectos que as chamas devoradoras ainda no haviam queimado foram arremessados ao ar, enquanto as criaturas do fogo malfico 
os lanavam alto em comemorao - taas e escudos, uma gargantilha cintilante e uma velha tiara baa.

- O que ests a fazer, o que ests a fazer? A porta  naquela direco! - gritou-lhe Malfoy, mas Harry descreveu uma curva apertada e desceu a pique. O diadema parecia 
cair ao retardador, rodando e cintilando em direco  boca escancarada de uma serpente, e depois tinha-o na mo, enfiado no pulso...

Harry virou de novo quando a serpente o atacou, elevou-se e foi direito ao local onde, esperava sinceramente, estivesse a porta aberta - Ron, Hermione e Goyle tinham 
desaparecido, Malfoy gritava ainda e agarrava Harry com tanta fora que o magoava. Ento, atravs do fumo, Harry descortinou uma mancha rectangular na parede, conduziu 
a vassoura para l e, momentos depois, o ar puro voltou a encher-lhe os pulmes e colidiram com a parede em frente.

Malfoy caiu da vassoura e permaneceu de bruos, a arquejar, a tossir e com vmitos. Harry virou-se de costas e sentou-se- a porta da Sala das Necessidades desaparecera 
e Ron e Hermione encontravam-se sentados no cho ao lado de Goyle, ainda desmaiado.

- O C-Crabbe - articulou Malfoy, assim que conseguiu falar. - O C-Crabbe...

- Morreu - anunciou Ron, com voz cava. Predominava o silncio,  excepo do arquejar e tossir. De seguida, o castelo foi sacudido por uma srie de estrondos, e 
uma cavalgada enorme de figuras transparentes passou a galope em montadas, as cabeas gritando debaixo dos braos, clamando por sangue. Harry levantou-se a cambalear 
depois de os Caadores Sem Cabea passarem e olhou  sua volta: a batalha continuava a travar-se a todo o redor. Ouviu mais gritos para alm dos dos fantasmas em 
retirada e foi invadido pelo pnico.

- Onde est a Ginny? - perguntou bruscamente. - Ela estava aqui. Ela devia voltar para a Sala das Necessidades.

- Caramba, achas qu' ainda funcionar depois de todo aquele fogo? - indagou Ron, mas tambm ele se levantou, esfregando o peito e olhando para a esquerda e para 
a direita. - Vamos separar-nos e procurar.

507

- No - ops-se Hermione, levantando-se igualmente. Malfoy e Goyle mantiveram-se prostrados no cho do corredor; nenhum deles tinha varinha. - Vamos ficar juntos, 
sugiro que... Harry, o que  isso no teu brao?

- O qu? Oh, pois...

Retirou o diadema do pulso e ergueu-o. Ainda estava quente, enegrecido pela fuligem, mas quando o observou bem, conseguiu ler as palavras minsculas que tinha gravadas: 
Uma inteligncia extraordinria  o maior tesouro da Humanidade.

Parecia escoar-se do diadema uma substncia que fazia lembrar sangue, escura e espessa como alcatro. De sbito, Harry sentiu o objecto vibrar violentamente, depois 
partir-se-lhe nas mos e, quando isso sucedeu, julgou ouvir um grito de dor, muito tnue e distante, vindo no dos campos ou do castelo, mas do objecto que acabara 
de se fragmentar nos seus dedos.

- Devia ser Fogo Maligno! - choramingou Hermione, de olhos postos nos pedaos partidos.

- Desculpa?

- Fogo Maligno... um fogo maldito...  uma das substncias que destri os Horcruxes, mas eu nunca, mesmo nunca, teria ousado us-lo,  perigosssimo. Como conseguiu 
o Crabbe...?

- Deve ter aprendido com os Carrow - respondeu Harry em tom sinistro.

- Na realidade, foi uma pena no ter prestado ateno quando eles explicaram como pr-lhe cobro - comentou Ron, que, tal como Hermione, tinha o cabelo chamuscado 
e o rosto enegrecido. - Se ele no tem tentado matar-nos a todos, lamentaria de veras a sua morte.

- Mas tu no ests a perceber? - murmurou Hermione. - Isto significa que se conseguirmos apanhar a serpente...

Calou-se quando os gritos, berros e o rudo inconfundvel de luta encheram o corredor. Harry olhou  sua volta e sentiu um baque no corao. Os Devoradores da Morte 
tinham entrado em Hogwarts. Fred e Percy haviam acabado de aparecer, lutando ambos com homens de mscara e capuz.

Harry, Ron e Hermione foram imediatamente em seu socorro. Voaram jactos de luz em todas as direces e o homem que lutava com Percy recuou rapidamente: depois, deixou 
cair o capuz e viram uma testa alta e cabelo matizado...

- Ol, Senhor Ministro! - gritou Percy, lanando um feitio perfeito a Thicknesse, que largou a varinha e se agarrou ao

508

manto, aparentemente aflito. - J lhe comuniquei que me vou demitir?

- Ests a gozar, Percy! - bradou Fred, quando o Devorador da Morte com quem lutava cedeu sob o peso de trs Feitios de Atordoar diferentes. Thicknesse tombara entretanto, 
comeando a brotar-lhe minsculos espinhos de todo o corpo; dava a impresso de estar a transformar-se numa espcie de ourio-do-mar. Fred trocou um olhar de jbilo 
com Percy.

- Ests mesmo a gozar, Percy ... acho que no te ouvia a gozar desde que tinhas...

O ar explodiu. Estavam todos juntos, Harry, Ron, Hermione, Fred e Percy, os dois Devoradores da Morte aos seus ps, um Atordoado, o outro Transfigurado: e, naquela 
fraco de segundo, em que o perigo parecia temporariamente afastado, o mundo dilacerou-se. Harry sentiu que voava pelo ar, e pde apenas agarrar com toda a fora 
possvel o fino pedao de madeira que era a sua nica arma, e proteger a cabea com os braos: ouviu os gritos e berros dos seus companheiros sem qualquer esperana 
de saber o que lhes acontecera.

E depois tudo se resumiu a dor e semi-escurido: ficou meio soterrado nos destroos de um corredor que fora sujeito a um ataque terrvel: o ar frio f-lo perceber 
que a parte lateral do castelo fora pelos ares e algo pegajoso e quente na face disse-lhe que sangrava abundantemente. Ouviu ento um grito terrvel que lhe atacou 
as entranhas, uma expresso de agonia que nem as chamas nem uma maldio eram capazes de causar, e levantou-se, a cambalear, sentindo-se mais assustado que em todo 
aquele longo dia, mais assustado, talvez, do que alguma vez estivera em toda a sua vida.

E Hermione tentava erguer-se no meio dos destroos, e trs homens de cabelos ruivos estavam reunidos no solo onde a muralha desaparecera. Harry deu a mo a Hermione 
ao passarem por cima das pedras e dos pedaos de madeira, cambaleantes e aos tropees.

- No... no... no! - gritava algum. - No! Fred! No! E Percy sacudia o irmo. Ron ajoelhara-se entretanto ao lado

deles, e os olhos de Fred fitavam sem ver, a sua ltima gargalhada ainda estampada no rosto.

509

XXXII

A VARINHA DE SABUGUEIRO

Se o mundo tinha acabado, por que no terminara a batalha? O horror devia ter silenciado o castelo e todos os combatentes deviam ter pousado as armas. A mente de 
Harry estava num turbilho, fora de controlo, incapaz de aceitar o impossvel, pois Fred Weasley no podia ter morrido, os sinais que os seus sentidos lhe transmitiam 
s podiam estar errados...

At que um corpo foi projectado pelo buraco aberto na parede da escola, caindo no cho, e as maldies voaram sobre eles, vindas da escurido e atingindo a parede 
por trs das suas cabeas.

- Baixem-se! - gritou Harry,  medida que mais maldies iam voando atravs da noite: ele e Ron tinham agarrado Hermione e tinham-na empurrado para o cho, mas Percy 
estava deitado sobre o corpo de Fred para o proteger de mais danos e, quando Harry insistiu "Anda, Percy, temos de sair daqui!", ele abanou a cabea

- Percy! - Harry viu o rasto deixado pelas lgrimas na sujidade que cobria o rosto de Ron ao agarrar o irmo mais velho pelos ombros para o puxar, mas Percy continuava 
sem se mexer. - No podes fazer nada por ele, Percy. Vamos...

Hermione soltou um grito e, quando se voltou, Harry no precisou de perguntar porqu. Uma aranha monstruosa, do tamanho de um pequeno carro, tentava trepar pelo 
enorme buraco aberto na parede: uma das descendentes de Aragog acabava de entrar na guerra.

Ron e Harry gritaram em unssono; os seus feitios colidiram, e o monstro foi empurrado para trs, com as pernas a agitarem-se horrivelmente, e desapareceu na escurido.

- Trouxe as amigas! - gritou Harry para os outros, ao olhar de relance para a ponta do castelo atravs do buraco que as maldies tinham aberto na parede: de um 
dos lados viam-se mais aranhas gigantescas, libertadas da Floresta Proibida onde os Devoradores da Morte deviam ter entrado, a treparem pelas paredes. Harry disparou 
uns quantos Feitios de Atordoar sobre elas,

510

fazendo o monstro maior cair sobre as companheiras e todas elas rebolarem at ao cho e desaparecerem. Mas, nesse momento, mais maldies voaram sobre a cabea de 
Harry, to perto que ele sentiu o cabelo em torvelinho sob o seu poder.

- Vamos embora, J!

Harry empurrou Hermione e Ron para a sua frente e inclinou-se para pegar no corpo inerte de Fred por debaixo dos braos a fim de o transportar. Ao perceber o que 
Harry estava a tentar fazer, Percy deixou de o prender e ajudou-o; juntos, agachando-se para escapar s maldies que voavam em seu redor, levaram Fred dali.

- Vamos p-lo aqui - disse Harry, e deixaram-no num nicho onde antes estava uma armadura. No aguentava olhar para Fred nem mais um minuto e, depois de se certificar 
de que o corpo estava bem escondido, correu para se juntar a Ron e Hermione. Malfoy e Goyle tinham desaparecido, mas viu ao fundo do corredor, agora cheio de p, 
bocados de alvenaria cados, vidros h muito estilhaados, muitas pessoas a correrem de um lado para o outro, mas sem conseguir perceber se eram amigos ou inimigos. 
Ao contornar uma esquina, Percy soltou um verdadeiro rugido "ROOKWOOD!" e desatou a correr em direco a um homem alto que perseguia alguns alunos.

- Harry, aqui! - gritou Hermione.

Tinha empurrado Ron para trs de uma tapearia. Pareciam estar engalfinhados e, por um segundo louco, pensou que estavam outra vez a beijar-se, depois percebeu que 
Hermione estava a tentar impedir que Ron fosse a correr atrs de Percy.

- Ouve... OUVE, RON!

- Quero ajud-lo. . Quero matar Devoradores da Morte... Tinha o rosto contorcido, coberto de p e fumo, e tremia de

raiva e dor

- Ron, s ns  que podemos pr fim a isto! Por favor, Ron, precisamos da serpente, temos de matar a serpente! - exclamou Hermione.

Mas Harry sabia o que Ron estava a sentir: perseguir outro Horcrux, s por si, no bastava para sentir o sabor da vingana; queria lutar, castig-los, castigar as 
pessoas que tinham matado Fred, queria encontrar os outros Weasley e, acima de tudo, ter a certeza, ter a certeza absoluta, de que Ginny no estava... mas no podia 
sequer permitir que essa ideia se formasse na sua mente...

511

- Vamos lutar! - garantiu-lhe Hermione. - Vamos ter de lutar para chegarmos  serpente. Mas no vamos perder de vista o que temos de fazer. Somos os nicos que podem 
pr fim a isto!

Tambm ela chorava. Limpou a cara com a manga rasgada e chamuscada enquanto falava, respirou fundo algumas vezes para se acalmar e, sem largar Ron, voltou-se para 
Harry.

- Tens de descobrir onde est o Voldemort, pois  ele quem tem a serpente, no ? Tem de ser, Harry... procura a mente dele!

Por que seria to fcil faz-lo? Porque a sua cicatriz estava a arder h horas, ansiosa por lhe mostrar os pensamentos de Voldemort? Hermione disse-lhe que fechasse 
os olhos; ele assim fez e, de imediato, os gritos, os estrondos, todos os sons dissonantes da batalha dissiparam-se, tornando-se distantes, como se ele estivesse 
longe, muito longe deles...

Encontrava-se no meio de uma sala vazia, mas que lhe era estranhamente familiar, com o papel a saltar das paredes e as janelas todas entaipadas  excepo de uma. 
Os sons do ataque ao castelo chegavam-lhe abafados e distantes. Pela nica janela desobstruda viam-se exploses de luz ao longe, no stio onde ficava o castelo, 
mas naquela sala a nica luz provinha de uma lamparina solitria.

Estava a rodar a varinha entre os dedos, observando-a, mas com o pensamento na Sala do castelo, a Sala secreta que s ele tinha descoberto, a Sala que, tal como 
a Cmara, s algum inteligente, perspicaz e curioso poderia descobrir... tinha esperana de que o rapaz no encontrasse o diadema... embora o fantoche de Dumbledore 
tivesse ido muito mais longe do que ele alguma vez esperara... demasiado longe.

- Meu Senhor - disse uma voz desesperada e estridente. Voltou-se e viu Lucius Malfoy sentado no canto mais escuro, com a roupa em farrapos e ainda com as marcas 
do castigo que sofrera depois da ltima fuga do rapaz. Tinha um dos olhos fechado e inchado. - Meu Senhor... por favor... o meu filho...

- Se o teu filho morreu, Lucius, a culpa no  minha. No se juntou a mim como todos os outros Slytherin. Talvez tenha decidido tornar-se amigo do Harry Potter?

- No... nunca - murmurou Malfoy.

-  bom que tenhas essa esperana.

- No temeis... no temeis, Senhor, que o Harry possa ter morrido s mos de outro que no vs? - perguntou Malfoy, com a voz a tremer. - No seria... perdoai-me... 
mais prudente acabar com esta guerra, entrar no castelo e irdes... vs mesmo procur-lo?

- No estejas a fingir, Lucius. Queres que a guerra acabe para poderes descobrir o que aconteceu ao teu filho. E eu no preciso de ir  procura do Potter. Antes 
de a noite cair, ele vir  minha procura.

Voldemort tornou a baixar os olhos para a varinha que tinha entre os dedos. Estava preocupado... e as coisas que preocupavam Lord Voldemort tinham de ser resolvidas.

- Vai procurar o Snape.

- O Snape, m-meu Senhor?

- O Snape. J. Preciso dele. Preciso que me faa um... servio. Vai.

Assustado, aos tropees por entre a escurido, Lucius saiu da sala. Voldemort continuou parado, a rodar a varinha entre os dedos, olhando fixamente para ela.

-  a nica maneira, Nagini - murmurou e olhou  sua volta. L estava ela, a enorme e grossa serpente, agora suspensa no ar, ondulando graciosamente no espao protegido 
que ele lhe arranjara, uma esfera cintilante e transparente, um misto de gaiola e tanque.

Sobressaltado, Harry afastou-se e abriu os olhos; nesse preciso momento, os seus ouvidos voltaram a ser inundados pelos gritos, guinchos, estrondos e exploses da 
batalha.

- Est na Cabana dos Gritos. A serpente est l com ele, com uma espcie de proteco mgica  sua volta. Acabou de mandar o Lucius Malfoy ir  procura do Snape.

- O Voldemort est na Cabana dos Gritos? - perguntou Hermione, escandalizada. - Nem sequer... nem sequer est a combater?

- Acha que no  preciso envolver-se na batalha - respondeu Harry. - Est convencido de que eu irei ao encontro dele.

- Mas porqu?

- Porque sabe que ando atrs dos Horcruxes... tem a Nagini ao p dele...  bvio que vou ter de ir ao encontro dele para me aproximar daquela coisa...

- Pois  - disse Ron, endireitando os ombros. - Por isso  que no podes ir.  o que ele quer, o que est  espera que faas. Ficas aqui, cuidas da Hermione, e eu 
vou l...

Harry no deixou Ron continuar.

- Vocs os dois ficam aqui, e eu vou tapado com o Manto. Voltarei assim que...

- No - disse Hermione. - Faz muito mais sentido ser eu a levar o Manto e...

513

- Nem penses nisso - contraps Ron com rispidez.

Antes de Hermione poder dizer mais que "Ron, sou perfeitamente capaz de...", a tapearia que estava ao cimo da escada onde se encontravam rasgou-se de alto a baixo.

- POTTER!

Eram dois Devoradores da Morte mas, antes de terem conseguido erguer as suas varinhas, j Hermione gritara "Glisseo!"

Por baixo dos seus ps, as escadas transformaram-se numa rampa, pela qual ela, Harry e Ron se precipitaram sem conseguirem controlar a velocidade, mas to depressa 
que os Feitios de Atordoar lanados pelos Devoradores da Morte voaram por cima das suas cabeas para muito longe. Enfiaram-se pela tapearia que estava ao fundo 
da escada e atiraram-se para o cho, indo chocar na parede do outro lado.

- Duro! - gritou Hermione, apontando a varinha para a tapearia e, nesse momento, ouviram-se duas pancadas surdas, pois a tapearia transformara-se em pedra, e os 
Devoradores da Morte que os perseguiam tinham esbarrado nela.

- Para trs! - gritou Ron que, juntamente com Harry e Hermione, teve de se encostar a uma porta para deixar passar uma manada de secretrias a galope, comandadas 
pela Professora McGonagall, aos saltos. Aparentemente nem deu por eles: tinha os cabelos cados e um golpe numa face. Ao dobrar a esquina, ouviram-na gritar "AO 
ATAQUE!"

- Harry, pe o Manto - disse Hermione. - No te importes connosco...

Mas ele p-lo por cima dos trs; apesar do seu tamanho, duvidava de que algum reparasse naqueles ps sem corpo por entre o p que inundava o ar, as pedras que caam, 
a cintilao dos feitios.

Correram pela escada que encontraram a seguir e foram dar a um corredor cheio de gente a lutar. Os retratos que ladeavam os diversos combatentes estavam apinhados 
de figuras que gritavam conselhos e palavras de coragem, enquanto vrios Devoradores da Morte, quer com capuz, quer sem ele, lutavam contra alunos e professores. 
Dean tinha conseguido arranjar uma varinha, pois estava frente a frente com Dolohov, e Parvati com Travers. Harry, Ron e Hermione empunharam imediatamente as suas 
varinhas, prontos a atacar, mas o emaranhado de combatentes era to grande que seria altamente provvel atingir um dos seus, se lanassem alguma maldio. Quando 
ainda estavam os trs juntos,  espera de uma oportunidade de agir, ouviu-se um longo "MI-II" e, ao olhar para cima,

514

Harry viu Peeves zumbindo por cima deles, a lanar casulos de Snargaluffs sobre os Devoradores da Morte, cujas cabeas ficaram subitamente envolvidas por tubrculos 
verdes, a contorcer-se, fazendo lembrar lagartas gordas.

- Ai!

Um punhado desses tubrculos cara sobre o Manto por cima da cabea de Ron e as razes verdes e viscosas ficaram estranhamente suspensas no ar, enquanto Ron tentava 
sacudi-las.

- Est ali algum invisvel! - gritou um Devorador da Morte encapuzado, apontando na direco dele.

Dean tentou aproveitar a distraco momentnea do Devorador da Morte e atingiu-o com um Feitio de Atordoar.; Dolohov tentou retaliar, e Parvati lanou-lhe uma Maldio 
da Ligadura Total do Corpo.

- VAMOS! - gritou Harry, e ele, Ron e Hermione prenderam bem o manto  sua volta e dispararam, de cabea para baixo, por entre os combatentes, escorregando aqui 
e ali nas poas de suco de Snargaluff, em direco ao cimo da escadaria de mrmore do Hall de Entrada.

- Sou o Draco Malfoy, sou o Draco, estou do vosso lado! Draco estava no ltimo patamar, a argumentar com mais um

Devorador da Morte encapuzado. Harry Atordoou o Devorador da Morte quando passou por ele: Malfoy olhou em redor  procura do seu salvador, radiante, e Ron deu-lhe 
um soco por baixo do Manto. Malfoy caiu para trs, por cima do Devorador da Morte com a boca a sangrar e terrivelmente confuso.

- E a segunda vez que te salvamos a vida esta noite, meu hipcrita de um raio! - gritou Ron.

As escadas e o Hall estavam repletos de mais pessoas envolvidas em duelos e, para onde quer que olhasse, Harry s via Devoradores da Morte: Yaxley, junto s portas 
da frente, a combater com Flitwick e, mesmo ao lado deles, um Devorador da Morte a combater com Kingsley. Havia alunos a correr por todo o lado, alguns a transportarem 
ou a arrastarem colegas feridos. Harry lanou um Feitio de Atordoar ao Devorador da Morte encapuzado, mas falhou e quase atingiu Neville, que tinha aparecido sabe-se 
l de onde, com braadas de Tentaculos Venenosos que, muito satisfeitos, se enrolaram  volta do Devorador da Morte mais prximo, comeando a faz-lo desaparecer.

Harry, Ron e Hermione desceram a escadaria de mrmore a toda a velocidade:  sua esquerda havia vidros estilhaados, e a

515

ampulheta dos Slytherin que registara os pontos da equipa espalhara as suas esmeraldas por toda a parte, o que fazia com que as pessoas escorregassem e cambaleassem 
enquanto corriam Quando chegaram ao fundo da escada, dois corpos caram da galeria l do alto, e uma mancha cinzenta, que Harry julgou ser um animal, atravessou 
rapidamente o Hall a quatro patas para poder espetar os dentes num dos corpos

- NO' - gritou Hermione e, com uma exploso ensurdecedora da sua varinha, Fenrir Greyback foi afastado do corpo de Lavender Brown, cujos movimentos eram j muito 
dbeis. Foi embater nos corrimos de mrmore e tentou voltar a levantar-se, mas, nesse momento, caiu-lhe em cima da cabea uma bola de cristal, acompanhada de um 
claro branco e de um estalido. Contorceu-se e j no se mexeu mais

- Tenho mais! - gritou a Professora Trelawney por cima do corrimo - Muito mais para quem as quiser! Aqui vai .

E, como se estivesse a servir num jogo de tnis, tirou outra enorme esfera de cristal da mala, agitou a varinha mgica no ar, fazendo com que a bola se precipitasse 
atravs do Hall e se estilhaasse contra uma janela. Nesse preciso momento, as pesadas portas de madeira da frente escancararam-se, e um novo grupo de aranhas gigantescas 
entrou de rompante no Hall.

O ar foi entrecortado por gritos de terror: os combatentes dispersaram, tanto os Devoradores da Morte como os de Hogwarts, e jactos de luz vermelha e verde voaram 
por entre os monstros que vinham a entrar, fazendo-os estremecer e recuar, mais aterrorizadores do que nunca.

- Como  que samos daqui? - gritou Ron por cima de toda a vozearia mas, antes de Harry ou Hermione poderem responder, foram afastados para o lado. Hagrid tinha 
descido a escada, a vociferar e a brandir o seu guarda-chuva cor-de-rosa s flores

- No lhes faam mal! No lhes faam mal! - gritava.

- NO, HAGRID!

Harry esqueceu tudo o mais; soltou-se do Manto e correu, meio dobrado, para escapar s maldies que dardejavam por todo o Hall.

- VOLTA PARA TRS, HAGRID!

Porm, ainda no tinha percorrido sequer metade da distncia que o separava de Hagrid, quando o viu desaparecer no meio das aranhas que, com uma grande correria 
e um sinistro movimento ondulante, recuaram sob a chuva de maldies, com Hagrid enterrado no meio delas.

516

- HAGRID!

Harry ouviu algum a chamar pelo seu nome, sem querer saber se se tratava de um amigo ou de um inimigo, correu pelos degraus da entrada, penetrou na escurido que 
reinava l fora, vendo as aranhas a afastarem-se com a sua presa, mas sem avistar qualquer sinal de Hagrid.

- HAGRID'

Pareceu-lhe entrever um enorme brao a acenar por entre as aranhas mas, quando se preparava para as perseguir, foi impedido por um p monumental que saiu da escurido 
e, ao pousar no cho, o fez tremer. Olhou para cima:  sua frente estava um gigante, com mais de seis metros de altura, a cabea escondida na sombra e apenas as 
canelas peludas iluminadas pela luz que vinha das portas do castelo. com um movimento brutal, mas fluido, espetou um punho enorme por uma janela de um dos andares 
superiores, fazendo com que uma chuva de estilhaos casse sobre Harry e obrigando-o a abrigar-se de novo na ombreira da porta.

- Que horror! - gritou Hermione quando, acompanhada por Ron, chegou junto de Harry e olhou para cima, vendo o gigante que agora tentava agarrar as pessoas com o 
brao enfiado pela janela.

- NO' - gritou Ron, agarrando a mo de Hermione, quando esta se preparava para erguer a sua varinha. - Se o Atordoares, ele deita abaixo metade do castelo...

- HAGGER?

Grawp apareceu aos solavancos a uma das esquinas do castelo; s nesse momento  que Harry percebeu que Grawp era, afinal, um gigante pequeno. O enorme monstro que 
tentava esmagar as pessoas nos andares superiores olhou  sua volta, lanando um terrvel bramido. Os degraus de pedra estremeceram quando ele se encaminhou para 
o seu parente mais pequeno, e a boca retorcida de Grawp abriu-se, revelando uns dentes amarelos, do tamanho de meio tijolo. Lanaram-se ento um ao outro com a selvajaria 
de dois lees.

- CORRAM! - gritou Harry; a noite encheu-se de urros e golpes tremendos com a luta dos dois gigantes. Agarrou a mo de Hermione e precipitou-se pelos degraus, com 
Ron na retaguarda.

O ar tinha gelado  sua volta, a respirao de Harry ficou presa no seu peito. No escuro moviam-se sombras, figuras de um negrume denso que ondulavam e se deslocavam 
como uma vaga

517

enorme em direco ao castelo, com o rosto tapado por capuzes e uma respirao ruidosa...

Ron e Hermione juntaram-se mais a ele - os sons das lutas que estavam a ser travadas atrs deles deixaram de se ouvir repentinamente, abafados por um silncio espesso 
que estava a abater-se por entre a noite e que s os Dementors poderiam trazer...

- V, Harry! - disse a voz de Hermione, muito ao longe. - O Patronus, Harry, despacha-te!

Harry ergueu a varinha, mas sentiu-se invadido por uma lgubre sensao de desespero: Fred tinha morrido, e de certeza que Hagrid estava a morrer ou j morto; quantos 
mais teriam morrido sem que ele ainda o soubesse; parecia-lhe que a sua alma comeara j a abandonar o seu corpo...

- DESPACHA-TE, HARRY! - gritava Hermione.

Cem Dementors avanavam sobre eles, deslizando, sugando o desespero de Harry, que, em certa medida, era o prenncio de um festim...

Viu o temer prateado de Ron voar pelos ares, estremecer ligeiramente e morrer; viu a lontra de Hermione contorcer-se em pleno ar e desaparecer, e a sua prpria varinha 
tremer-lhe na mo. Quase deu por bem-vindo o esquecimento que se aproximava, a promessa do nada, a ausncia de sentimentos...

Todavia, nesse momento, uma lebre prateada, um javali e uma raposa passaram a toda a velocidade sobre as cabeas de Harry, Ron e Hermione, e os Dementors recuaram 
ao verem esses seres a aproximarem-se. Trs outras pessoas vindas da escurido tinham-se juntado a eles, empunhando as suas varinhas e continuando a lanar Patronus: 
Luna, Erme e Seamus.

- Isso - exclamou Luna em tom de encorajamento, como se estivessem outra vez na Sala das Necessidades a treinar feitios para o Exrcito de Dumbledore. - V l, 
Harry. . pensa numa coisa feliz...

- Uma coisa feliz? - repetiu ele com a voz entrecortada.

- Ainda estamos aqui - murmurou Luna. - Ainda estamos a combater. V l ..

Viram uma centelha prateada, depois uma luz titubeante e a seguir, com o maior dos esforos que alguma vez tivera de fazer, Harry conseguiu que o veado irrompesse 
da ponta da sua varinha, galopando ao de leve; os Dementors dispersaram, e a noite voltou a ficar amena, mas os estrondos do combate ribombaram de novo nos seus 
ouvidos

518

- No sei como hei-de agradecer-vos - disse Ron, com a voz a tremer, voltando-se para Luna, Erme e Seamus. - Acabaram de nos salvar...

com um estrondo enorme e uma sacudidela igual  de um tremor de terra, um outro gigante surgiu da escurido, vindo do lado da Floresta, a brandir um pau maior que 
qualquer um deles.

- CORRAM! - gritou Harry mais uma vez, mas os outros no precisaram de o ouvir: fugiram em todas as direces, e mesmo a tempo, pois nem um segundo depois o gigante 
pousou o seu enorme p no stio onde eles tinham estado. Harry olhou  sua volta: Ron e Hermione vinham atrs dele, mas os outros trs tinham desaparecido de novo 
para o tumulto da batalha.

- Vamos sair do alcance dele! - gritou Ron ao ver o gigante balanar o pau que trazia na mo e ouvir o eco dos seus urros a perpassar a noite, atravs dos campos, 
onde a escurido continuava a ser entrecortada por exploses de luz verde e vermelha.

- O Salgueiro Zurzidor - disse Harry. - Vamos!

Sem saber bem como, conseguiu fechar tudo na sua mente, num pequeno espao para onde no podia olhar agora: recordaes de Fred e Hagrid e o seu terror por todas 
as pessoas que amava e que estavam espalhadas dentro e fora do castelo, tudo isso tinha de esperar, porque eles precisavam de correr, precisavam de chegar  serpente 
e a Voldemort porque, como Hermione dissera, era essa a nica maneira de acabar com tudo aquilo..

Correu mais depressa, em parte convencido de que conseguia escapar  morte, ignorando os jactos de luz que voavam na escurido em redor dele, o som das guas do 
lago que fazia lembrar o mar e o ranger da Floresta Proibida apesar de no haver vento; correu mais depressa do que alguma vez correra na vida atravs dos campos 
que pareciam, tambm eles, ter-se revoltado, e foi ele o primeiro a ver a grande rvore, o Salgueiro que protegia o segredo oculto nas suas razes com ramos que 
brandia como chicotes.

A arfar, quase sem conseguir respirar, Harry abrandou, contornou os ramos ondulantes do Salgueiro, tentou entrever o seu espesso tronco no meio da escurido, na 
esperana de descobrir o nico n da casca da rvore que conseguiria paralis-la. Ron e Hermione apanharam-no, mas Hermione arquejava de tal forma que nem conseguia 
falar.

- Como... como  que vamos entrar? - perguntou Ron, tambm a arfar. - Estou... estou a ver o stio... se ao menos tivssemos... outra vez o Crookshanks...

519

- - O Crookshank? - perguntou Hermione a chiar, curvada e a agarrar o peito. - s feiticeiro ou qu'''

- Ah... pois..  verdade...

Ron olhou  sua volta, depois apontou a varinha para um ramo seco que estava no cho e disse, "Ivingardium Leviosa!". O ramo ergueu-se do cho, rodopiou no ar como 
se estivesse a ser empurrado por uma rajada de vento e depois disparou em direco ao tronco do Salgueiro, por entre os ramos que se agitavam de forma ameaadora. 
Embateu num ponto perto das razes da rvore, que imediatamente se imobilizou.

- Perfeito! - exclamou Hermione, ainda ofegante.

- Esperem.

Harry hesitou um segundo, enquanto os estrondos e exploses da batalha preenchiam o ar. Era exactamente aquilo que Voldemort queria que ele fizesse, que fosse., 
estaria a arrastar Ron e Hermione para uma armadilha?

Nesse momento, porm, a realidade pareceu abater-se sobre ele, uma realidade simples e cruel: o nico caminho que havia a seguir era matar a serpente, e a serpente 
estava junto de Voldemort, e Voldemort estava no fim daquele tnel...

- Ns tambm vamos, Harry, despacha-te a entrar! - disse Ron, empurrando-o para frente.

Harry contorceu-se pela passagem de terra escondida entre as razes da rvore. Era muito mais estreita que da ltima vez que ali tinham entrado. O tnel era baixo 
- h quatro anos bastara-lhes dobrarem-se para conseguirem andar e agora no tinham outra hiptese seno rastejar. Harry foi o primeiro a entrar, com a varinha iluminada, 
 espera de a qualquer momento encontrar uma barreira, mas nada.

Avanaram em silncio, Harry com o olhar fixo no feixe de luz oscilante que saa da varinha que empunhava.

At que finalmente o tnel comeou a subir, e Harry viu uma nesga de luz l ao fundo. Hermione agarrou-o pelo tornozelo.

- O Manto! - sussurrou. - Pe o Manto!

Harry procurou atrs de si, e Hermione empurrou o tecido escorregadio para a mo que ele tinha livre. com dificuldade, puxou o Manto para cima de si, murmurou "Nox", 
apagou a luz da varinha e continuou a andar de gatas, o mais silenciosamente possvel, com todos os sentidos alerta,  espera de ser descoberto a qualquer momento, 
de ouvir uma voz fria e clara, de ver um claro de luz verde

Nesse momento, ouviu vozes vindas da sala que ficava directamente  sua frente, apenas ligeiramente abafadas pelo facto de a abertura ao fundo estar bloqueada por 
algo que parecia ser um velho caixote. Quase sem se atrever a respirar, Harry dirigiu-se para a abertura e espreitou por um pequeno espao que havia entre o caixote 
e a parede.

A sala estava pouco iluminada, mas conseguiu ver Nagini, a contorcer-se e a enrolar-se como uma serpente debaixo de gua, na segurana da sua esfera encantada e 
cintilante, que flutuava no ar sem nada a segur-la. Viu a ponta de uma mesa e uma mo branca de dedos compridos a brincar com uma varinha. Nessa altura, Snape falou, 
e o corao de Harry disparou: Snape estava a poucos metros do stio onde ele se encontrava acocorado, escondido.

- ...meu Senhor, a resistncia deles est a cair por terra...

- ...e sem a tua ajuda - disse Voldemort, com a sua voz aguda e clara. - Apesar de seres um feiticeiro muito talentoso, Severus, no creio que agora faas grande 
diferena. Estamos quase a conseguir... quase.

- Deixai-me ir  procura do mido. Deixai-me trazer-vos o Potter Tenho a certeza de que vou conseguir encontr-lo, Senhor. Por favor.

Snape passou junto da abertura, e Harry chegou-se um pouco para trs, mantendo os olhos fixos em Nagini, enquanto pensava se haveria algum feitio capaz de penetrar 
na proteco que a rodeava. Mas no conseguia lembrar-se de nenhum. Bastava uma tentativa falhada para denunciar o stio onde se encontrava.

Voldemort levantou-se. Harry conseguia v-lo, conseguia ver os olhos vermelhos, o rosto achatado, sinuoso, a pele plida a brilhar ligeiramente na semi-obscuridade.

- Tenho um problema, Severus - disse Voldemort em voz baixa.

- Um problema? - perguntou Snape

Voldemort ergueu a Varinha de Sabugueiro, com a delicadeza e preciso de um maestro.

- Por que  que a varinha no funciona comigo, Severus? No silncio que se seguiu, Harry imaginou ouvir a serpente a

silvar enquanto se enrolava e desenrolava, ou seria um suspiro sibilante de Voldemort a entrecortar o ar?

- Meu... meu Senhor? - balbuciou Snape, sem perceber. - Como assim? Fizestes... fizestes magias extraordinrias com essa varinha.

520

521

- No - contraps Voldemort. - Fiz as magias habituais. Eu sou extraordinrio, mas esta varinha... no. No revelou os poderes mgicos que prometia. No senti qualquer 
diferena entre esta e a que h tantos anos obtive do Ollivander.

O tom de Voldemort era pensativo, calmo, mas a cicatriz de Harry tinha comeado a latejar e a pulsar; a testa doa-lhe cada vez mais, e sentiu a fria controlada 
que estava a acumular-se dentro de Voldemort.

- No h nenhuma diferena - repetiu Voldemort. Snape no disse nada. Harry no conseguia ver a cara dele, mas

pensou que ele talvez tivesse pressentido o perigo e estivesse  procura das palavras certas para tranquilizar o seu amo.

Voldemort comeou a andar pela sala. Harry deixou de o ver por alguns segundos, enquanto ele deambulava, sempre a falar com a mesma voz controlada, ao mesmo tempo 
que a dor e a fria de Harry aumentavam.

- Pensei muito, Severus... sabes por que te chamei da batalha? Por um momento, Harry viu o perfil de Snape: os seus olhos

estavam fixos na serpente enrolada dentro da gaiola encantada.

- No, meu Senhor, mas imploro-vos que me deixeis voltar. Deixai-me ir procurar o Potter.

- Pareces o Lucius. Nenhum de vocs percebe o Potter to bem como eu. No  preciso ir  procura dele. O Potter vir ao meu encontro. Sei qual  o ponto fraco dele, 
o seu nico e grande defeito. Ir odiar ver todos os outros a serem atingidos  sua volta, sabendo que  por causa dele que tudo aquilo est a acontecer. Vai querer 
pr fim quilo a qualquer custo. Ele vir.

- Mas, meu Senhor, ele pode ser morto acidentalmente por outra pessoa que no vs...

- As instrues que dei aos Devoradores da Morte foram perfeitamente claras. Capturar o Potter. Matar os amigos dele - quantos mais, melhor - mas ele no. Mas  
sobre ti que quero falar, Severus, no sobre o Harry Potter. Tens sido muito valioso para mim. Muito valioso.

- Meu Senhor, sabeis bem que o meu nico desejo  servir-vos. Mas... deixai-me ir procurar o mido, Senhor. Deixai-me traz-lo at vs. Sei que vou conseguir...

- J disse que no! - exclamou Voldemort, e Harry viu o brilho vermelho dos seus olhos quando ele tornou a voltar-se e ouviu o seu manto roagar como uma cobra a 
sibilar. Sentiu a impacincia de Voldemort no calor da sua cicatriz. - O que me

522

preocupa neste momento, Severus,  o que ir acontecer quando finalmente estiver frente a frente com esse mido!

- Certamente que no h qualquer dvida, meu Senhor...

- H uma dvida, sim, Severus. H sim.

Voldemort parou, e Harry conseguiu v-lo outra vez, a fazer deslizar a Varinha de Sabugueiro pelos dedos brancos e a olhar fixamente para Snape.

- Por que  que as duas varinhas que utilizei falharam contra o Potter?

- No... no sei responder, meu Senhor.

- No sabes?

O acesso de raiva de Voldemort foi como uma faca espetada na cabea de Harry. Teve de enfiar o punho na prpria boca para no gritar de dor. Fechou os olhos e, de 
repente, era Voldemort a olhar para o rosto plido de Snape.

- A minha varinha de teixo fez tudo o que lhe pedi, Severus, excepto matar o Harry Potter. Falhou duas vezes. Sob tortura, o Ollivander contou-me sobre os ncleos 
gmeos e aconselhou-me a usar outra varinha. Eu assim fiz, mas a varinha do Lucius desfez-se ao enfrentar a do Potter.

- Eu... no tenho qualquer explicao para isso, meu Senhor. Snape no estava a olhar para Voldemort. Os seus olhos negros

continuavam fixos na serpente enrolada dentro da sua esfera protectora.

- Arranjei uma terceira varinha, Severus. A Varinha de Sabugueiro, a Varinha do Destino, o Pau da Morte. Tirei-a ao seu antigo dono. Tirei-a do tmulo do Albus Dumbledore.

Nesse momento, Snape olhou para Voldemort, e o seu rosto parecia uma mscara da morte. Estava branco como o mrmore e to imvel que, quando falou, foi quase um 
choque ver que havia algum vivo por detrs daqueles olhos sem expresso.

- Meu Senhor, deixai-me ir buscar o mido...

- Toda esta longa noite, quando estou a um passo da vitria, tenho estado aqui a pensar - disse Voldemort com uma voz que quase no passava de um sussurro -, por 
que razo se recusa a Varinha de Sabugueiro a ser o que devia ser, a desempenhar as funes que, segundo a lenda, deveria desempenhar para o seu verdadeiro dono... 
e acho que j tenho a resposta.

Snape no disse nada.

- Talvez j saibas? Afinal, s um homem esperto, Severus. Tens sido um servo bom e leal, e lamento que isto tenha de acontecer.

523

- Meu Senhor...

- A Varinha de Sabugueiro no me serve como deveria servir, Severus, porque no sou o seu verdadeiro dono. A Varinha de Sabugueiro pertence ao feiticeiro que matou 
o seu ltimo dono. Mataste o Albus Dumbledore. Enquanto estiveres vivo, Severus, a Varinha de Sabugueiro no poder ser verdadeiramente minha.

- Meu Senhor! - Snape protestou, erguendo a sua varinha.

- No h outra soluo - concluiu Voldemort. - Tenho de dominar a varinha, Severus. Se dominar esta varinha, dominarei finalmente o Potter.

E, nesse momento, Voldemort varreu o ar com a Varinha. No aconteceu nada a Snape, que por um momento fugaz pensou ter sido poupado; mas a inteno de Voldemort 
tornou-se clara. A gaiola rolava no ar e, antes que Snape pudesse fazer mais qualquer coisa para alm de gritar, abateu-se sobre ele, prendendo-lhe a cabea e os 
braos, e Voldemort disse em serpents:

- Mata!

Ouviu-se um grito terrvel. Harry viu o rosto de Snape perder a pouca cor que ainda tinha, ficando cada vez mais branco  medida que os seus olhos negros iam ficando 
maiores, quando a serpente cravou as presas no seu pescoo. No conseguiu libertar-se da gaiola, os seus joelhos acabaram por ceder e caiu no cho.

- Lamento - disse Voldemort friamente.

Voltou-se. No seu rosto no havia tristeza nem remorsos. Estava na hora de sair daquele buraco e ir ao ataque, com uma varinha que agora faria tudo o que ele lhe 
ordenasse. Apontou-a  gaiola cintilante onde se encontrava a serpente, que tornou a subir ao ar, largando Snape, que ficou cado de lado, com o sangue a jorrar 
das feridas no pescoo. Voldemort saiu da sala sem olhar para trs, e a enorme serpente flutuou atrs dele, envolta na sua esfera protectora.

No tnel, de volta  sua prpria mente, Harry abriu os olhos; tinha os ns dos dedos a sangrar, tamanha fora a fora com que lhes mordera para no gritar. Espreitou 
pelo pequeno espao entre o caixote e a parede e viu um p dentro de uma bota preta a tremer no cho.

- Harry! - murmurou Hermione atrs dele, mas ele j tinha apontado a varinha para o caixote que lhe bloqueava a viso. O caixote elevou-se alguns centmetros e afastou-se 
para o lado, em silncio. Harry entrou na sala, com todo o cuidado.

No sabia por que fazia aquilo, por que se aproximava do homem moribundo; no soube interpretar o que sentiu quando viu

524

o rosto branco de Snape e os dedos que tentavam estancar o sangue do pescoo. Harry tirou o Manto da Invisibilidade e olhou para o homem que odiava. Viu os seus 
olhos negros, cada vez maiores, fixarem-se nos seus, ao mesmo tempo que parecia querer falar. Harry debruou-se sobre ele, e Snape agarrou-o pela roupa e puxou-o 
para junto de si.

Da garganta de Snape saiu um som terrvel, rouco, gorgolejante.

- Apanha-a... Apanha-a...

Havia algo mais para alm de sangue a sair de Snape. Uma coisa de um azul prateado, que no era nem gasosa nem lquida, jorrava da sua boca, dos seus ouvidos e dos 
seus olhos e, embora soubesse o que era, Harry no sabia o que havia de fazer...

Um frasco, misteriosamente surgido do ar, foi lanado para as suas mos trementes por Hermione. Harry colocou a substncia prateada dentro do frasco com a varinha. 
Quando o frasco j estava completamente cheio e Snape parecia no ter nem mais um pingo de sangue dentro de si, as suas mos comearam a soltar-se do manto de Harry.

- Olha... para... mim - sussurrou.

Os olhos verdes encontraram os olhos negros, mas passado um segundo houve algo que desapareceu nas profundezas dos dois olhos escuros, deixando-os fixos, vazios, 
sem expresso. A mo que agarrava Harry caiu no cho com um baque, e Snape no se mexeu mais.

525

XXXIII

A HISTRIA DO PRNCIPE


Harry ficou ajoelhado ao lado de Snape, a olhar para ele, at que, de repente, uma voz fria e aguda falou to perto que Harry se ps de p com um salto, com o frasco 
muito apertado na mo, a pensar que Voldemort tinha entrado outra vez na sala. A voz de Voldemort ressoou pelas paredes e pelo cho, e Harry percebeu que ele estava 
a falar para Hogwarts e para toda a rea circundante e que os residentes de Hogsmeade e todos os que ainda estavam a lutar no castelo iriam ouvi-lo com tanta clareza 
como se estivesse ao lado deles, com a respirao a roar-lhes o pescoo, a uma curta distncia da morte.

- Tm lutado com grande coragem- disse a voz aguda e fria. --  Lord Voldemort sabe dar valor  coragem, no intanto tm sofrido pesadas baixas.

"Se continuarem a resistir-me, morrero todos, um por um. No quero que isso acontea. Cada gota de sangue mgico derramado  uma perda e um desperdcio.

"Lord Voldemort  misericordioso. Ordeno s minhas foras que se retirem imediatamente.

"Tm uma hora. Tratem dos vossos mortos condignamente. Cuidem dos feridos.

"Agora vou falar directamente para ti, Harry Potter. Deixaste que os teus amigos morressem por ti em vez de me enfrentares pessoalmente. vou esperar uma hora na 
Floresta Proibida. Se no vieres ao meu encontro, se no te renderes at ao fim desse tempo, a batalha recomear. Mas, desta vez, eu prprio entrarei na luta, Harry 
Potter, encontrar-te-ei e punirei todos os homens, mulheres ou crianas que tenham tentado esconder-te de mim. Uma hora.

Ron e Hermione olharam para Harry e abanaram freneticamente a cabea.

- No lhe ds ouvidos - disse Ron.

- Vai correr tudo bem - apressou-se a garantir Hermione. - Vamos... vamos voltar para o castelo. Se ele foi para a Floresta, temos de pensar noutro plano...

526

Hermione olhou para o corpo de Snape e voltou a correr para a entrada do tnel, seguida de Ron. Harry pegou no Manto da Invisibilidade e depois olhou para Snape. 
No sabia o que sentir, a no ser choque pela forma como Snape tinha sido morto e pelas razes por que tal tinha acontecido.

Tornaram a rastejar pelo tnel, sem dizer nada, e Harry perguntou a si prprio se a voz de Voldemort continuaria a ecoar na cabea de Ron e de Hermione tal como 
ecoava na sua.

Deixaste que os teus amigos morressem por ti em vez de me enfrentares pessoalmente. vou esperar uma hora na Floresta Proibida... uma hora.

O relvado na frente do castelo parecia pejado de pequenas trouxas. Devia faltar mais ou menos uma hora para o dia nascer, mas reinava uma escurido total. Precipitaram-se 
os trs pelos degraus de pedra. Viram, abandonado  sua frente, um tamanco do tamanho de um pequeno barco. No se viam sinais de Grawp nem do seu agressor.

O castelo encontrava-se estranhamente silencioso. No havia clares de luz, nem estrondos, nem gritos. As lajes do Hall de Entrada, agora deserto, estavam manchadas 
de sangue. Havia esmeraldas espalhadas por todo o lado, bem como fragmentos de mrmore e madeira. Pedaos dos corrimos tinham sido arrancados.

- Onde se meteram todos? - sussurrou Hermione.

Ron encaminhou-se para o Salo Nobre, seguido pelos outros dois. Harry parou  porta.

As mesas tinham desaparecido, e o Salo estava apinhado de gente. Os sobreviventes mantinham-se em grupos, a abraarem-se uns aos outros. Os feridos estavam a ser 
tratados no estrado por Madame Pomfrey e um grupo de ajudantes. Firenze contava-se entre os feridos; sangrava de um dos lados do corpo e tremia, sem conseguir levantar-se.

Os mortos jaziam em fila no meio do Salo. Harry no conseguia ver o corpo de Fred, porque estava rodeado pelos familiares. George ajoelhava-se junto da cabea e 
Mrs. Weasley estava cada sobre o peito do filho com o corpo a tremer, enquanto Mr. Weasley acariciava os cabelos da mulher, com as lgrimas a correrem-lhe pela 
cara abaixo.

Sem dizerem nada a Harry, Ron e Hermione afastaram-se. Harry viu Hermione aproximar-se de Ginny, cujo rosto estava inchado e manchado, e abra-la. Ron juntou-se 
a Bill, Fleur e Percy, que ps um brao sobre os ombros do irmo. Quando

527

Ginny e Hermione se aproximaram mais do resto da famlia, Harry conseguiu ver os corpos que jaziam ao lado do de Fred- Remus e Tonks, plidos, imveis, com uma expresso 
de paz, dando a sensao de estarem a dormir sob o tecto escuro e encantado.

O Salo pareceu desaparecer, encolher, quando Harry saiu, meio a cambalear. No conseguia respirar. No aguentava olhar para os outros corpos, ver quem mais tinha 
morrido por ele. No conseguia juntar-se aos Weasley, no tinha coragem de enfrentar o seu olhar, pois se se tivesse entregado, Fred talvez no tivesse morrido...

Virou-se e correu pela escadaria de mrmore. Lupin, Tonks.. quem lhe dera no sentir... quem lhe dera arrancar o corao do peito, arrancar as entranhas, tudo o 
que gritava dentro de si ..

O castelo estava completamente vazio; at os fantasmas pareciam ter-se juntado s pessoas que choravam os mortos no Salo Nobre. Harry correu sem parar, com o frasco 
de cristal com os ltimos pensamentos de Snape bem apertado na mo, e s abrandou quando chegou  grgula que guardava o gabinete do Director.

- Senha?

- Dumbledore! - disse Harry sem pensar, porque era ele quem Harry ansiava por ver e, para sua surpresa, a grgula afastou-se para o lado, deixando ver a escada em 
caracol que ficava por trs

Mas quando entrou na sala circular, descobriu que algo tinha mudado. Os quadros pendurados nas paredes estavam vazios, no restava um nico director ou directora 
para o receber; parecia que todos tinham partido, a fim de percorrer os quadros que revestiam as paredes do castelo para poderem ver o que estava a acontecer.

Harry olhou com desespero para a moldura vazia do retrato de Dumbledore, pendurada por trs da cadeira do Director, e depois voltou-se de costas para ela. O Pensatrio 
encontrava-se no armrio onde sempre tinha estado: Harry p-lo em cima da secretria e despejou as recordaes de Snape para a ampla bacia cuja berma ostentava runas 
gravadas. Fugir para dentro da cabea de outra pessoa seria um alvio extraordinrio... nada que o prprio Snape lhe tivesse deixado poderia ser pior que os seus 
prprios pensamentos. As estranhas recordaes, de um branco prateado, rodopiaram e, sem hesitar, com um sentimento de entrega total, como se isso diminusse a tristeza 
que o atormentava, Harry mergulhou.

Caiu de cabea num stio cheio de sol, e os seus ps bateram num cho quente. Quando se endireitou, viu que estava num parque infantil quase deserto. Uma nica chamin 
enorme dominava o horizonte, ao longe Duas meninas andavam de baloio para trs e para a frente sob o olhar de um rapaz magricela que as observava, escondido atrs 
de uns arbustos. Tinha uns cabelos negros muito compridos e a roupa ficava-lhe to mal que parecia ser de propsito: umas calas de ganga demasiado curtas, um casaco 
coado demasiado grande, que deveria ter pertencido a um adulto, e uma camisa esquisita que parecia uma bata.

Harry aproximou-se do rapaz. Snape parecia no ter mais que nove ou dez anos, era magro, nervoso e tinha uma cor doentia. O seu rosto fino no disfarava a avidez 
com que olhava para a mais nova das meninas, que fazia o seu baloio subir muito mais alto que o da irm.

- No faas isso, Lily! - gritou a mais velha.

Mas a menina tinha-se soltado do baloio quando ele estava no ponto mais alto do arco que descrevia e voou pelo ar, voou literalmente, lanando-se em direco ao 
cu com uma sonora gargalhada e, em vez de se estatelar no asfalto do parque, subiu pelo ar como uma trapezista, planou demoradamente e aterrou com toda a leveza.

- A mam disse -te para no fazeres isso!

Petunia imobilizou o seu baloio, arrastando os saltos das sandlias no cho com um barulho insuportvel, e depois saltou com as mos nas ancas.

- A mam disse que no podias fazer isso, Lily!

- Mas est tudo bem - retorquiu Lily, ainda a rir-se - Olha para aqui, Tuney. V o que eu consigo fazer.

Petunia olhou  sua volta No havia mais ningum no parque infantil a no ser elas as duas e Snape, embora elas no o soubessem. Lily tinha apanhado uma flor que 
cara do arbusto atrs do qual Snape estava escondido. Petunia aproximou-se, evidentemente dividida entre a curiosidade e a desaprovao. Lily esperou at Petunia 
estar suficientemente perto para ver bem e depois estendeu a palma da mo, revelando a flor que abria e fechava as suas ptalas como uma estranha ostra, cheia de 
lbios.

- Pra com isso! - gritou Petunia.

- No est a fazer-te nada de mal - respondeu Lily, mas fechou a mo sobre a flor e deitou-a fora.

- No est certo fazeres isso - insistiu Petunia, cujos olhos acompanharam o movimento da flor at ao cho, demorando-se

528

529

sobre ela - Como  que consegues? - acrescentou, num tom cheio de inveja.

-  bvio, no ? - Snape no conseguira aguentar por mais tempo e saltara de trs dos arbustos. Petunia soltou um grito e correu para junto dos baloios, mas Lily, 
embora com um ar bastante assustado, ficou onde estava. O rapaz parecia estar arrependido de ter aparecido. Um tnue rubor aflorou s suas faces plidas ao olhar 
para Lily.

- O que  que  bvio? - perguntou-lhe Lily

Snape parecia nervoso e excitado. Olhando de soslaio para Petunia, que se encontrava l ao longe, baixou a voz e disse:

- Sei o que tu s.

- Como assim?

- s... s feiticeira - sussurrou Snape. Lily mostrou-se muito ofendida.

- No  uma coisa muito bonita de se dizer a uma pessoa! Voltou-se, de nariz empinado, e afastou-se em direco  irm.

- No! - gritou Snape, agora j visivelmente corado. Harry pensou por que no tiraria ele aquele casaco ridiculamente grande. Talvez fosse para no mostrar a bata 
que trazia por baixo. Correu desajeitadamente atrs das raparigas, fazendo lembrar um morcego, tal como a sua verso mais velha.

As irms observaram-no, ambas com um ar desaprovador, agarradas a um dos postes do baloio, como se fosse o stio mais seguro das redondezas.

- s - repetiu Snape para Lily. -uma   feiticeira. Ando a observar-te h algum tempo. Mas no tem nada de mal. A minha me tambm , e eu sou feiticeiro.

A gargalhada de Petunia foi um balde de gua fria.

- Feiticeiro! - gritou, tendo recuperado a coragem depois de refeita do choque causado pelo inesperado aparecimento dele. E eu sei quem tu s. s o Snape! Moras 
no Beco do Urdidor, junto ao rio - disse, voltando-se para Lily, com um tom de voz a deixar bem claro que considerava o local pouco recomendvel. - Por que  que 
tens estado a espiar-nos?

- No tenho estado a espiar - retorquiu Snape, cheio de calor, incomodado e com o cabelo sujo sob a luz do sol. - A ti  que eu nunca espiaria de certeza absoluta 
- acrescentou, com desdm. - Tu s uma Muggle.

Embora Petunia no percebesse o significado da palavra, o tom em que foi dita no deixava dvidas.

- Anda, Lily, vamos embora! - ordenou com uma voz esganiada. Lily obedeceu imediatamente  irm, lanando um olhar furioso a Snape, enquanto se afastava. Ele ficou 
a v-las at sarem pelo porto do parque, e Harry, a nica pessoa que restava para o observar, viu que Snape estava profundamente desapontado, que devia andar a 
planear aquele momento h algum tempo e que tinha corrido tudo mal...

Aquela cena desapareceu, e, sem Harry dar por isso, surgiu sob uma forma diferente  sua volta. Encontrava-se agora num pequeno bosque. Viu as guas de um riu a 
brilhar por entre os troncos. Havia um espao fresco, verde, formado pela sombra das rvores. Estavam duas crianas sentadas no cho, de pernas cruzadas, de frente 
uma para a outra. Snape tinha tirado o casaco. A sua estranha bata parecia menos bizarra na semi-obscuridade.

- ... e o Ministrio pode castigar-te, se fizeres magias fora da escola. Recebes uma carta.

- Mas eu j fiz magia fora da escola!

- No faz mal. Ainda no temos varinhas. Enquanto somos pequenos e no conseguimos controlar-nos, no nos fazem nada. Mas quando fazemos onze anos - acenou com um 
ar muito importante -, e comeam a ensinar-nos, temos de passar a ter cuidado.

Seguiu-se um curto silncio. Lily tinha pegado num ramo cado e fizera-o rodopiar no ar. e Harry percebeu que ela imaginava que dele saam fascas. Depois deixou 
cair o ramo, mclinou-se para o rapaz e perguntou-lhe:

-  a srio, no ? No ests a brincar, pois no? A Petunia diz que andas a mentir-me. Diz que no h nenhum stio chamado Hogwarts. Mas existe, no existe?

- Para ns, existe - respondeu Snape. - Para ela no. Mas ns vamos receber a carta, tu e eu.

- A srio? - murmurou Lily.

- De certeza absoluta - disse Snape que, mesmo com o cabelo mal cortado, aquelas roupas estranhas e esparramado  frente dela, causava uma sensao impressionante 
pela confiana que depositava no seu destino.

- E  verdade que vai ser uma coruja a traz-la? - perguntou Lily em surdina

- Normalmente  - respondeu Snape. - Mas como nasceste numa famlia de Muggles, tem de vir algum da escola explicar aos teus pais.

530

531

- Faz diferena ter nascido numa famlia de Muggles? Snape hesitou. Os seus olhos negros, cuja avidez era visvel na

semi-obscuridade esverdeada, percorrem o rosto plido e o cabelo ruivo de Lily.

- No. No faz diferena.

- Ainda bem - disse Lily, mais descansada; era bvio que tinha ficado preocupada.

- Tu sabes fazer montes de magias - continuou Snape. - Eu bem vi. Tenho andado a observar-te...

A voz dele tornou-se indistinta. Lily no estava a ouvir; tinha-se deitado sobre as folhas que cobriam o cho e olhava as copas das rvores l no alto. Snape observou-a 
com a mesma avidez que revelara no parque infantil.

- Como esto as coisas em tua casa? - perguntou Lily. com uma sbita ruga entre os olhos, Snape respondeu:

- Esto bem.

- No tm discutido?

- Ah, tm - disse Snape. Pegou num punhado de folhas e comeou a rasg-las, aparentemente sem dar pelo que estava a fazer. - Mas j no falta muito para me ir embora.

- O teu pai no gosta de magia?

- A bem dizer, o meu pai no gosta de nada - respondeu Snape.

- Severus?

A boca de Snape esboou um pequeno sorriso, ao ouvi-la proferir o seu nome.

- Sim?

- Fala-me outra vez dos Dementors.

- Para que  que queres saber?

- Se eu fizer magia fora da escola...

- No te entregam aos Dementors por causa disso! Os Dementors so para as pessoas que fazem coisas muito graves. So os guardas da priso dos feiticeiros, Azkaban. 
Mas tu no vais para Azkaban, s demasiado...

Tornou a corar e comeou outra vez a rasgar folhas. Um pequeno restolhar atrs de Harry f-lo voltar-se: Petunia, escondida atrs de uma rvore, tinha-se desequilibrado.

- Tuney! - exclamou Lily, com um misto de surpresa e de alegria na voz, mas Snape ps-se de p de um salto.

- Afinal, quem  que est a espiar agora? - gritou. - O que  que queres?

532

Petunia estava ofegante e alarmada por ter sido apanhada. Harry percebeu que ela estava  procura de algo ofensivo para dizer.

- O que  isso que tens vestido? - perguntou, a apontar para o peito de Snape. - A blusa da tua me?

Ouviu-se um estalido: um ramo por cima da cabea de Petunia tinha cado. Lily deu um grito: o ramo acertara no ombro de Petunia, que cambaleou para trs e desatou 
a chorar.

- Tuney!

Mas Petunia tinha-se afastado a correr. Lily voltou-se para Snape.

- Foste tu que fizeste aquilo acontecer?

- No! - A expresso de Snape era ao mesmo tempo de desafio e de medo.

- Foste! - disse Lily, afastando-se dele. - Foste tu! Aleijaste-a!

- No... no fui nada!

Mas Lily no se deixou convencer pela mentira dele; com mais um olhar de ira, desatou a correr para ir ter com a irm, deixando Snape infeliz e confuso...

A cena mudou de novo. Harry olhou  sua volta: estava na plataforma nove e trs quartos, e Snape encontrava-se a seu lado, ligeiramente curvado, perto de uma mulher 
magra, com um rosto amarelado e amargo, muito parecida com ele. Snape olhava para uma famlia de quatro pessoas a pouca distncia dele. As duas raparigas estavam 
ligeiramente afastadas dos pais. Lily parecia pedir insistentemente qualquer coisa  irm; Harry aproximou-se mais para ouvir.

- ... desculpa, Tuney, desculpa! Ouve... - Pegou na mo da irm e apertou-a com fora, apesar de Petunia tentar retir-la. - Pode ser que, quando eu l estiver... 
no, ouve, Tuney! Pode ser que quando eu l estiver, consiga falar com o Professor Dumbledore e convenc-lo a mudar de ideias!

- No... quero... ir! - disse Petunia, libertando a mo. - Achas que vou querer ir para um estpido de um castelo aprender a ser... a ser...

Os seus olhos plidos deambularam pela plataforma, pelos gatos que miavam ao colo dos donos, pelas corujas que batiam as asas e piavam dentro das gaiolas, pelos 
alunos, alguns dos quais envergavam j os longos mantos negros, a carregarem as malas para dentro do comboio a vapor vermelho ou a cumprimentarem-se uns aos outros 
com gritos de alegria, depois de um Vero de

ausncia.

533

- ...achas que quero ser... uma aberrao?

Os olhos de Lily encheram-se de lgrimas, quando Petunia conseguiu libertar a mo.

- No sou nenhuma aberrao - insurgiu-se Lily. -  horrvel estares a dizer isso.

-  para onde vais - insistiu Petunia, com um ar de satisfao. - Para uma escola especial para aberraes. Tu e esse Snape... dois tarados,  o que vocs so. Ainda 
bem que vais separar-te das pessoas normais.  para teu prprio bem.

Lily lanou um olhar rpido aos pais, que estavam a admirar o movimento da plataforma, tentando absorver tudo o que viam. Depois tornou a olhar para a irm e disse-lhe 
em voz baixa, mas num tom irado:

- No achavas que era uma escola para aberraes quando escreveste ao director a pedir que te aceitasse.

Petunia ficou muito corada.

- A pedir? No pedi nada!

- Vi a resposta dele. Foi muito amvel

- No devias ter lido... - murmurou Petunia. - Era correspondncia privada... como  que te atreveste...?

Lily denunciou-se ao olhar furtivamente para Snape e Petunia abriu a boca, incrdula.

- Foi ele quem descobriu! Tu e ele andaram a espiolhar o meu quarto!

- No... no andmos a espiolhar... - disse Lily, agora na defensiva. - O Severus viu o envelope e no queria acreditar que um Muggle pudesse ter contactado Hogwarts, 
s isso! Diz que deve haver feiticeiros que andam a trabalhar disfarados nos Correios e se encarregam de...

- Pelos vistos, os feiticeiros metem o nariz em todo o lado! - comentou Petunia, que ficara to plida como anteriormente ficara corada. - Tarada! - disse com rispidez 
para a irm e afastou-se para junto dos pais...

A cena tornou a dissolver-se. Snape ia a correr pelo corredor do Expresso de Hogwarts, que se deslocava com grande estrpito atravs dos campos. J tinha vestido 
o uniforme da escola - devia ter aproveitado a primeira oportunidade para se desfazer da sua horrvel roupa de Muggle. Parou junto a um compartimento onde um grupo 
de rapazes falava ruidosamente. Encolhida a um canto, junto  janela, estava Lily, com o rosto encostado ao vidro.

534

Snape abriu a porta do compartimento e sentou-se  frente de Lily. Ela olhou para ele e depois voltou-se outra vez para a janela. Tinha estado a chorar.

- No quero falar contigo - disse com a voz embargada.

- Porqu?

- A Tuney... odeia-me, por termos visto a carta do Dumbledore.

- E da?

Lily lanou-lhe um olhar de profunda animosidade.

-  minha irm!

- No passa de uma... - Snape calou-se a tempo; Lily, demasiado ocupada a tentar limpar os olhos sem que ningum desse por isso, no o ouviu. - Mas ns vamos! - 
disse Snape, incapaz de disfarar o entusiasmo da voz. -Vamos mesmo! Vamos a caminho de Hogwarts!

Ela acenou com a cabea, limpou os olhos e, mesmo sem querer, esboou um sorriso.

- Era melhor se ficasses nos Slytherin - continuou Snape, encorajado por ela se ter animado um pouco.

- Nos Slytherin?

Um dos rapazes que se encontrava no compartimento e que at ao momento no tinha demonstrado qualquer interesse em Lily ou Snape voltou-se ao ouvir aquela palavra, 
e Harry, que at ento tinha concentrado a sua ateno nos dois jovens junto  janela, viu o pai: franzino, de cabelos negros como Snape, mas com aquele ar indefinvel 
de ter sido acarinhado, at adorado, que faltava a Snape de forma to bvia.

- Quem  que quer ir para os Slytherin? Acho que me vou embora, no achas? - perguntou James ao rapaz estiraado nos lugares em frente. Sobressaltado, Harry percebeu 
que era Sirius. Este no sorriu.

- Toda a minha famlia esteve nos Slytherin - respondeu.

- Bolas! - exclamou James. - E eu que achava que eras boa pessoa!

Sirius fez um sorriso irnico.

- Talvez seja eu o primeiro a quebrar a tradio. Para onde  que vais, se  que podes escolher?

James ergueu uma espada invisvel.

- "Gryffindor, onde reina a ousadia!" O meu pai era ousado. Snape fez um som depreciativo, quase inaudvel, e James

voltou-se para ele.

535

- Tens algum problema?

- No - respondeu Snape, embora o seu ligeiro sorriso de escrnio indicasse o contrrio. - Se preferes ser ousado a ser inteligente...

- Para onde  que ests a pensar ir, j que no s uma coisa nem outra? - interrompeu Sirius.

James ria-se a bandeiras despregadas. Lily sentou-se muito direita, muito corada, olhando com antipatia ora para James, ora para Sirius.

- Anda, Severus, vamos procurar outro compartimento.

- Oooooo...

James e Sirius imitaram a voz altiva de Lily; James tentou pregar uma rasteira a Snape, quando este ia a passar.

- Adeus, Snivellus! - bradou uma voz, quando a porta do compartimento se fechou...

A cena dissolveu-se mais uma vez...

Harry estava de p, atrs de Snape, ambos voltados para as mesas das equipas iluminadas por velas, cheias de rostos extasiados. A certa altura, a Professora McGonagall 
disse: "Evans, Lily!"

Viu a sua me a avanar com as pernas a tremer e sentar-se no banco pouco seguro. A Professora McGonagall ps-lhe o Chapu Seleccionador na cabea e este mal lhe 
tocara nos cabelos ruivos quando gritou: "Gryffindor!"

Harry ouviu Snape soltar um pequeno gemido. Lily tirou o chapu, entregou-o  Professora McGonagall e depois correu para junto dos Gryffindor, que davam vivas de 
alegria, mas olhou de relance para Snape com um sorrisinho triste. Harry viu Sirius encolher-se no banco para arranjar espao para ela se sentar. Lily olhou para 
ele e pareceu reconhec-lo do comboio; cruzou os braos e voltou-lhe ostensivamente as costas.

A chamada continuou. Harry viu Lupin, Pettigrew e o seu pai juntarem-se a Lily e a Sirius na mesa dos Gryffindor. Por fim, quando j s faltava escolher uns dez 
estudantes, a Professora McGonagall chamou Snape.

Harry acompanhou-o at ao banco, viu-o pr o chapu na cabea e ouviu o Chapu Seleccionador gritar: "Slytherin!"

E Severus Snape afastou-se para o outro lado do Salo, para longe de Lily, para o stio onde os alunos dos Slytherin o aguardavam com vivas e onde Lucius Malfoy 
com o crach de prefeito a reluzir no peito o saudou com uma palmadinha nas costas, quando Snape se sentou ao lado dele.

536

A cena voltou a mudar...

Lily e Snape iam a atravessar o ptio do castelo, claramente a discutir. Harry correu para se juntar a eles, a fim de ouvir o que diziam. Nesse momento, apercebeu-se 
de como estavam ambos muito mais altos: pareciam ter passado alguns anos desde a Seleco.

- ...pensei que ramos amigos - dizia Snape. -Amigos a

srio!

- E somos, Sev, mas no gosto de algumas das pessoas com quem andas! Desculpa, mas detesto o Avery e o Mulciber! O Muldber! O que  que vs nele, Sev?  horroroso! 
Sabes o que tentou fazer  Mary Macdonald noutro dia?

Lily tinha chegado a uma coluna  qual se encostou, a olhar para o rosto magro e plido de Snape.

- No foi nada de mal - disse Snape. - Foi s uma brincadeira...

- Foi Magia Negra. Se achas que isso tem graa...

- E as coisas que o Potter e os amigos dele fazem? - perguntou Snape. A cor aflorou-lhe ao rosto ao proferir estas palavras, aparentemente sem conseguir conter o 
seu ressentimento.

- O que  que o Potter tem a ver com isto? - perguntou Lily.

- Saem s escondidas do castelo durante a noite. O Lupin tem qualquer coisa de estranho. Onde  que ele passa a vida a ir?

- Est doente - retorquiu Lily. - Dizem que est doente...

- Todos os meses na lua cheia? - insistiu Snape.

- Sei qual  a tua teoria - disse Lily com uma voz fria. - Por que ests to obcecado com eles? Que te interessa o que eles fazem durante a noite?

- S estou a tentar mostrar-te que no so to maravilhosos como toda a gente acha.

A intensidade do seu olhar f-la corar.

- Mas no usam Magia Negra. - Baixando a voz, acrescentou - Ests a ser ingrato. Contaram-me o que aconteceu na outra noite. Foste meter o nariz naquele tnel que 
passa ao p do Salgueiro Zurzidor, e foi o James Potter quem te salvou do que est l por baixo...

O rosto de Snape contorceu-se e disse com raiva:

- Salvou-me? Salvou-me? Pensas que se armou em heri? Quis mas foi salvar a pele dele e a dos amigos! No vais... no permito que...

537

- No permites'? No permites'?

Lily semicerrou os seus brilhantes olhos verdes e Snape voltou imediatamente atrs

- No queria dizer isso .. s no quero que gozem contigo... ele gosta de ti, o James Potter gosta de ti! - Estas palavras pareceram ser arrancadas de dentro dele 
contra a sua vontade. - E ele no ... Toda a gente acha... O grande heri do Quidditch... - O azedume e a averso de Snape por James estavam a torn-lo incoerente, 
ao mesmo tempo que as sobrancelhas de Lily se erguiam cada vez mais alto na sua testa.

- Sei que o James Potter  um presunoso - disse, interrompendo Snape. - No preciso que mo digas. Mas o Mulciber e o Avery s sabem divertir-se a fazer mal. Mal, 
Sev. No percebo como podes ser amigo deles.

Harry duvidou que Snape tivesse ouvido as crticas dela a Mulciber e Avery pois, no momento em que Lily insultou James Potter, a tenso desapareceu do corpo dele 
e, quando se afastaram, havia uma nova leveza nos passos de Snape.

E, mais uma vez, a cena dissolveu-se...

Harry tornou a ver Snape mas, desta vez, a sair do Salo Nobre depois de ter feito o NPF de Defesa Contra a Magia Negra. Foi-se afastando do castelo, indo parar 
inadvertidamente ao local onde James, Sirius, Lupin e Pettigrew estavam sentados por baixo da faia. Mas, desta vez, Harry manteve-se ao longe, pois sabia o que tinha 
acontecido quando James pendurara Severus no ar e o atormentara, sabia o que tinha sido feito e dito e no tinha qualquer prazer em ouvir tudo outra vez. Viu Lilyjuntar-se 
ao grupo e sair em defesa de Snape Ao longe, ouviu Snape gritar-lhe, no meio da sua humilhao e fria, as imperdoveis palavras ".Sangue de Lama".

A cena mudou...

- Desculpa.

- No me interessa.

- Desculpa.

- No te canses

Era de noite. Lily, de roupo, estava  frente do retrato da Dama Gorda,  entrada da Torre dos Gryffindor.

- S vim porque a Mary me disse que ameaaste que ias dormir aqui.

- Pois foi. E era o que teria feito, se no viesses. No queria chamar-te Sangue de Lama Foi uma coisa que...

538

- Saiu? - No havia qualquer comiserao na voz de Lily. -  tarde de mais. H anos que ando a desculpar-te tudo. Nenhum dos meus amigos consegue perceber por que 
 que ainda falo contigo. Tu e os teus queridos Devoradores da Morte... e nem sequer o negas! Nem sequer negas que  isso que vocs todos querem ser! Esto ansiosos 
por se juntarem ao Quem-Ns-Sabemos, no ?

Snape abriu a boca, mas tornou a fech-la sem dizer nada.

- No consigo fingir mais. Escolheste o teu caminho, e eu escolhi o meu.

- No., ouve, eu no queria...

- ...chamar-me Sangue de Lama? Mas tu chamas a todas as pessoas como eu Sangue de Lama, Severus. Por que  que eu havia de ser diferente?

Ele esforou-se por dizer qualquer coisa, mas com um olhar de desdm, ela voltou-se e tornou a entrar pelo buraco do retrato.

O corredor dissolveu-se, e a cena demorou um pouco mais a ganhar novamente forma; Harry tinha a sensao de estar a voar por entre formas e cores em constante mudana 
at que as coisas  sua volta se solidificaram de novo. Estava agora no alto de uma colina, sozinho, enregelado, no meio da escurido, com o vento a uivar por entre 
os ramos de umas quantas rvores despidas. Snape, agora adulto, ofegava, a rodopiar, com a mo a agarrar firmemente a varinha,  espera de qualquer coisa ou de algum... 
o medo dele contagiou Harry, apesar de saber que nada lhe podia acontecer. Olhou por cima do ombro, sem saber do que estaria Snape  espera.

Nesse momento, um jacto de luz branca, to forte que quase cegava, ziguezagueou pelo ar; Harry pensou que fosse um relmpago, mas Snape tinha cado no cho de joelhos, 
e a varinha tinha-lhe voado da mo.

- No me mate!

- No foi essa a minha inteno.

O som de Dumbledore a Aparecer tinha sido abafado pelo vento a uivar nos ramos. Dumbledore estava  frente de Snape, com o manto a ondular  sua volta e o rosto 
iluminado por baixo, pela luz que saa da sua varinha.

- Ento, Severus? Que mensagem tem Lord Voldemort para mim?

- No... no tenho nenhuma mensagem... Estou aqui por minha iniciativa!

539

Snape contorcia as mos, com um ar semilouco, os cabelos negros desgrenhados esvoaando  sua volta.

- Tenho... tenho uma advertncia a fazer... no, um pedido... por favor...

Dumbledore agitou a varinha. Embora as folhas e os ramos continuassem a agitar-se no ar nocturno que os rodeava, fez-se silncio no local onde Dumbledore e Snape 
se encontravam frente a frente.

- Que pedido pode um Devorador da Morte querer fazer-me?

- A... a profecia... o orculo... a Trelawney...

- Ah, pois - disse Dumbledore. - O que  que transmitiste a Lord Voldemort?

- Tudo... tudo o que ouvi! - confessou Snape. -  por isso...  por essa razo... ele acha que se refere  Lily Evans!

- A profecia no se referia a uma mulher - retorquiu Dumbledore. - Falava de um rapaz nascido no fim de Julho...

- Sabe bem o que eu quero dizer! Ele acha que se refere ao filho dela, vai persegui-la... mat-los a todos...

- Se ela  assim to importante para ti - disse Dumbledore -, certamente que Lord Voldemort ir poup-la. No podes pedir-lhe que poupe a me em troca do filho?

- J... j lhe pedi...

- Metes-me nojo - exclamou Dumbledore. Harry nunca tinha ouvido tanta repulsa na sua voz. Snape parecia ter encolhido. - No te interessa que o marido e o filho 
dela morram? Podem morrer, desde que tenhas o que queres?

Snape no disse nada, limitando-se a erguer o olhar para Dumbledore.

- Ento, esconda-os a todos - pediu, com um gemido. - Ponha-a ... e a ele e a todos... em segurana. Por favor.

- E o que me dars em troca, Severus?

- Em... em troca? - Snape olhou para Dumbledore de boca escancarada, e Harry ficou  espera de o ouvir protestar mas, aps um longo momento, acedeu.

- O que quiser.

A colina desapareceu, e Harry estava agora no gabinete de Dumbledore. Havia qualquer coisa que fazia um barulho horrvel, como um animal ferido. Snape estava debruado 
para a frente numa cadeira, e Dumbledore encontrava-se de p, junto dele, com uma expresso carregada. Passado um momento, Snape ergueu o

540

rosto: parecia que tinha vivido cem anos na maior das infelicidades desde que abandonara o cimo da colina.

- Pensava... que ia... mante-la... em segurana...

- Ela e o James confiaram na pessoa errada - disse Dumbledore. - Tal como tu, Severus. Estavas  espera que Lord Voldemort a poupasse?

A respirao de Snape era ofegante.

- O filho dela sobreviveu - continuou Dumbledore. com um pequeno aceno de cabea, Snape pareceu espantar

uma mosca importuna.

- O filho dela sobreviveu. Tem os olhos dela, precisamente iguais aos dela. Tenho a certeza de que te lembras da forma e cor dos olhos da Lily Evans?

- CALE-SE! - gritou Snape. - Ela morreu... morreu...

- Isso so remorsos, Severus?

- Quem me dera... quem me dera que tivesse sido eu a mor i

- De que serviria isso? - perguntou Dumbledore com frieza.

- Se amavas a Lily Evans, se a amavas verdadeiramente,  muito claro qual o caminho que tens a seguir de agora em diante.

Snape parecia olh-lo por entre uma nvoa de sofrimento, e as palavras de Dumbledore demoraram muito tempo a atingi-lo.

- O que... o que quer dizer com isso?

- Sabes como e por que razo ela morreu. Faz com que a morte dela no tenha sido em vo. Ajuda-me a proteger o filho da Lily.

- Ele no precisa de proteco. O Senhor das Trevas foi-se...

- ... O Senhor das Trevas voltar e, quando isso acontecer, o Harry Potter correr perigo de morte.

Seguiu-se uma longa pausa e, pouco a pouco, Snape foi recuperando o controlo e dominou a sua respirao. Por fim disse:

- Est bem. Est bem. Mas nunca... nunca conte a ningum, Dumbledore! Isto tem de ficar entre ns! Jure! No consigo suportar a ideia... sobretudo o filho do Potter... 
D-me a sua palavra!

- Queres que te d a minha palavra, Severus, de que nunca revelarei o melhor que h em ti? - perguntou Dumbledore com um suspiro, olhando para o rosto feroz e angustiado 
de Snape.

- Se insistes...

O gabinete de Dumbledore dissolveu-se, mas tornou a aparecer instantaneamente. Snape andava de um lado para o outro,  frente de Dumbledore.

541

- ...medocre, arrogante como o pai, decidido a violar as regras, deliciado por saber que  famoso, sempre a chamar a ateno, impertinente...

- Vs o que ests  espera de ver, Severus - disse Dumbledore, sem levantar os olhos de um exemplar do Transfigurao Hoje. Os outros professores dizem que ele  
modesto, agradvel e razoavelmente talentoso. Eu, pessoalmente, acho-o uma criana encantadora.

Voltando uma pgina, Dumbledore acrescentou, sem levantar os olhos:

- Fica de olho no Quirrel, est bem?

Um redemoinho de cores e depois tudo ficou s escuras. Snape e Dumbledore estavam no Hall de Entrada, ligeiramente afastados, enquanto os ltimos retardatrios do 
Baile de Natal passavam por eles a caminho dos dormitrios.

- Ento? - murmurou Dumbledore.

- A Marca do Karkaroff tambm est a ficar mais escura. Est em pnico, com medo de represlias; sabe bem a ajuda que ele deu ao Ministrio depois da queda do Senhor 
das Trevas. - Snape olhou de lado para o nariz adunco de Dumbledore. - O Karkaroff tenciona fugir, se a Marca arder.

- A srio? - perguntou Dumbledore em voz baixa, ao mesmo tempo que Fleur Delacour e Roger Davies entravam s risadinhas. - E tencionas juntar-te a ele?

- No - respondeu Snape, seguindo com o olhar o par que se afastava. - No sou assim to cobarde.

- Pois no - concordou Dumbledore. - s de longe muito mais corajoso que o Igor Karkaroff. Sabes, s vezes acho que Seleccionamos cedo de mais...

Afastou-se, deixando Snape com um ar abalado.

Harry encontrava-se de novo no gabinete do Director. Era de noite, e Dumbledore estava tombado na cadeira que parecia um trono atrs da secretria, parecendo semi-inconsciente. 
Tinha a mo direita pendurada, enegrecida e queimada. Snape proferia encantamentos em voz baixa, apontando a varinha ao pulso de Dumbledore, enquanto com a mo esquerda 
segurava um clice com uma espessa poo dourada que lhe ia despejando pela garganta. Passado um momento, os olhos de Dumbledore pestanejaram e abriram-se. Sem prembulos, 
Snape perguntou-lhe:

- Por que  que ps esse anel? Porqu? Est amaldioado. De certeza que percebeu isso. No devia nem sequer ter tocado nele.

542

Em cima da mesa,  frente de Dumbledore, via-se o anel de Marvolo Gaunt. Estava estalado e a seu lado repousava a espada de Gryffindor.

Dumbledore fez um esgar.

- Fui... um tolo. Deixei-me tentar...

- Tentar por qu? Dumbledore no respondeu.

-  um milagre ter conseguido regressar! - Snape parecia furioso. - Aquele anel tem uma maldio com um poder extraordinrio. O mximo que podemos fazer  tentar 
cont-la. Por agora, consegui circunscrev-la a uma mo.

Dumbledore ergueu a mo enegrecida e intil e examinou-a com a expresso de algum a quem estavam a mostrar uma curiosidade interessante.

- Fizeste muito bem, Severus. Quanto tempo achas que tenho?

Dumbledore falava num tom conversador, de quem pergunta a previso do tempo. Snape hesitou e depois disse:

- No sei. Talvez um ano.  impossvel sust-la para sempre. Acabar por se espalhar.  o tipo de maldio que se vai tornando mais forte com o tempo.

Dumbledore sorriu. A notcia de que tinha menos de um ano de vida parecia ter pouca ou nenhuma importncia para ele.

- Sou um homem afortunado, extremamente afortunado, por te ter, Severus.

- Se me tivesse chamado um pouco mais cedo, talvez tivesse conseguido fazer melhor, conseguir-lhe mais tempo de vida! - disse Snape, furioso. Olhou para o anel partido 
e para a espada. - Achava que partir o anel quebrava a maldio?

- Talvez... De certeza que estava a delirar... - respondeu Dumbledore. com esforo, endireitou-se na cadeira. - Bem, na verdade, isto deixa tudo muito mais claro.

Snape parecia terrivelmente confuso, mas Dumbledore sorriu.

- Estou a falar do plano que Lord Voldemort est a urdir em relao a mim. O plano dele  que seja o pobre do Draco Malfoy a matar-me.

Snape sentou-se na cadeira que tantas vezes tinha ocupado  frente da secretria de Dumbledore. Harry percebeu que ele queria falar mais sobre a mo amaldioada 
de Dumbledore, que educadamente o impediu de continuar a discutir esse assunto. De sobrolho franzido, Snape disse:

543

- O Senhor das Trevas no espera que o Draco o consiga. E apenas um castigo para os recentes fracassos do Lucius. Uma lenta tortura para os pais do Draco, que assistem 
 sua queda e o vem pagar o preo.

- Resumindo, o mido tem uma sentena de morte assinada contra ele, tal como eu - disse Dumbledore. - Acho que, quando o Draco falhar, o sucessor natural para essa 
misso vais ser tu, no  verdade?

Seguiu-se uma curta pausa.

- Acho que  esse o plano do Senhor das Trevas.

- Lord Voldemort prev que, num futuro prximo, no ir precisar de ter um espio em Hogwarts?

- Sim,  verdade. Ele acha que em breve a escola estar sob o seu domnio.

- E, se isso acontecer - disse Dumbledore, quase como se fosse um aparte -, ds-me a tua palavra de que irs fazer tudo o que estiver ao teu alcance para proteger 
os alunos de Hogwarts?

Snape acenou firmemente com a cabea.

- ptimo. Ento, a tua primeira prioridade ser descobrir o que anda o Draco a fazer. Um adolescente assustado  um perigo tanto para os outros como para si prprio. 
Se te ofereceres para o ajudar e orientar, ir aceitar. Ele gosta de ti...

- ... muito menos desde que o pai dele caiu em desgraa. O Draco acha que a culpa  minha. Est convencido de que usurpei a posio do Lucius.

- Mesma assim, vale a pena tentares. Estou menos preocupado comigo do que com as vtimas acidentais dos esquemas que lhe venham  cabea. Claro que, em ltima anlise, 
s h uma coisa a fazer, se quisermos salv-lo da ira de Lord Voldemort.

Snape ergueu as sobrancelhas, e foi com um tom sarcstico que perguntou:

- Tenciona permitir que ele o mate?

- Claro que no. Ters de ser tu a matar-me.

Seguiu-se um longo silncio, entrecortado apenas por uns estalidos estranhos. Fawkes, a fnix, roa uma cartilagem de choco.

- Quer que o faa agora? - perguntou Snape, com a voz carregada de ironia -, ou quer ter uns momentos para escrever um epitfio?

- Ainda no - respondeu Dumbledore a sorrir. - Acho que o momento chegar a seu tempo. Tendo em ateno o que acon

544

teceu esta noite - e apontou para a sua mo mirrada -, podemos ter a certeza de que falta menos de um ano.

- Se no se importa de morrer - disse Snape com brusquido -, por que no deixar que seja o Draco a faz-lo?

- A alma dele ainda no est assim to perdida - respondeu Dumbledore. - No gostava de que ficasse destruda por minha causa.

- E a minha alma, Dumbledore? E a minha?

- S tu  que sabes o dano que ir causar  tua alma ajudares um velho a evitar o sofrimento e a humilhao - disse Dumbledore. - Peo-te que me faas esse grande 
favor, Severus, porque  to certo eu morrer como os Chudley Cannons ficarem este ano em ltimo lugar na Liga. Confesso que prefiro uma partida rpida e indolor 
 confuso que seria se, por exemplo, o Greyback estivesse envolvido... Ouvi dizer que o Voldemort o recrutou. Ou a querida Bellatrix, que gosta de brincar com a 
comida antes de a engolir.

Falava num tom ligeiro, mas o seu olhar parecia perfurar Snape, da mesma forma que tantas vezes tinha perfurado Harry, como se a alma em discusso fosse visvel 
para ele. Por fim, Snape fez um ligeiro aceno de cabea.

Dumbledore pareceu satisfeito.

- Obrigado, Severus.

O gabinete desapareceu, e agora Snape e Dumbledore passeavam juntos pelos terrenos do castelo ao anoitecer.

- O que  que anda a fazer com o Potter, todas estas noites que passam os dois fechados? - perguntou Snape abruptamente.

Dumbledore parecia cansado.

- Porqu? No ests a tentar dar-lhe mais castigos, pois no, Severus? Falta pouco para o mido passar mais tempo detido do que em liberdade.

-  igualzinho ao pai...

- De cara, talvez, mas l no fundo  muito mais parecido com a me. Tenho passado algum tempo com o Harry porque tenho assuntos a discutir com ele, informaes que 
tenho de lhe transmitir antes que seja tarde de mais.

- Informaes - repetiu Snape. - Confia nele... e no confia em mim.

- No  uma questo de confiana. Como ambos sabemos, resta-me pouco tempo.  fundamental que lhe d informaes suficientes para que ele faa o que tem de fazer.

545

- E por que  que eu no posso ter as mesmas informaes?

- Prefiro no pr todos os meus segredos no mesmo cesto, sobretudo um cesto que passa tanto tempo pendurado no brao de Lord Voldemort.

- Fao isso por ordem sua!

- E com extrema competncia. No penses que subestimo o perigo constante em que te colocas, Severus. Dar a Voldemort informaes aparentemente valiosas e, ao mesmo 
tempo, esconder o essencial  uma tarefa que no confiaria a ningum a no ser a ti.

- No entanto, confia mais num mido que no domina a Oclumancia, cuja magia  medocre, e que tem uma ligao directa com a mente do Senhor das Trevas!

- O Voldemort teme essa ligao - disse Dumbledore. - H no muito tempo, teve uma pequena prova do que realmente significa para ele partilhar a mente do Harry. 
Foi uma dor como ele nunca tinha sentido. Tenho a certeza de que no voltar a tentar possuir o Harry. Pelo menos, daquela forma.

- No estou a perceber.

- A alma de Lord Voldemort est to estropiada que no suporta um contacto directo com uma alma como a do Harry.  como tocar com a lngua em ao gelado, ou como 
sentir a carne em chamas...

- Almas? Estvamos a falar de mentes!

- No caso do Harry e de Lord Voldemort, falar de uma coisa  o mesmo que falar da outra.

Dumbledore olhou  sua volta para se certificar de que estavam sozinhos. Entretanto, tmham-se aproximado da Floresta Proibida, mas no havia sinais de que estivesse 
algum nas redondezas.

- Depois de me matares, Severus...

- Recusa-se a contar-me tudo, mas espera que lhe preste esse pequeno servio! - vociferou Snape, com uma raiva genuna a afoguear-lhe o rosto magro. - Talvez no 
me conhea bem, Dumbledore! Talvez eu tenha mudado de ideias!

- Deste-me a tua palavra, Severus. E j que estamos a falar de servios que me deves, pensava que tinhas concordado em ficar de olho no teu amigo dos Slytherin?

Snape parecia zangado, revoltado, e Dumbledore suspirou.

- Vem ao meu gabinete hoje  noite, Severus, s onze horas, e no irs queixar-te de que no tenho confiana em ti...

Voltaram ao gabinete de Dumbledore, as janelas agora obscurecidas. Fawkes estava em silncio, Snape sentado e Dumbledore andava  volta dele, a falar.

546

- O Harry no pode saber, no pode saber at ao ltimo momento, at que seja absolutamente necessrio. Seno, como ter a fora necessria para fazer o que tem de 
ser feito?

- Mas o que  que ele tem de fazer'

- Isso  entre o Harry e eu. Agora, ouve bem, Severus. Haver um momento - depois da minha morte - no discutas, no me interrompas! Haver um momento em que Lord 
Voldemort parecer temer pela vida da sua serpente

- Da Nagini? - Snape parecia surpreendido.

- Exactamente. Se chegar um momento em que Lord Voldemort deixar de enviar a serpente para cumprir as suas ordens e a guardar junto de si, protegida, acho que nessa 
altura ser mais seguro contar ao Harry.

- Contar o qu?

Dumbledore respirou fundo e fechou os olhos.

- Contar-lhe que na noite em que Lord Voldemort tentou mat-lo, quando a Lily se interps entre eles como escudo, com risco da prpria vida, a Maldio de Morte 
fez ncochete em Lord Voldemort, e um fragmento da sua alma separou-se do resto e foi prender-se  nica alma viva que restava naquela casa destruda. Dentro do Harry 
vive uma parte de Lord Voldemort, e  isso que lhe d o poder de falar com serpentes e aquela ligao  mente de Lord Voldemort que ele nunca entendeu. E, enquanto 
esse fragmento de alma, cuja existncia Voldemort desconhece, continuar preso ao Harry e protegido por ele, Lord Voldemort no poder morrer.

Harry parecia estar a ver os dois homens do fundo de um longo tnel: estavam to longe dele e as suas vozes ecoavam de forma to estranha nos seus ouvidos...

- Quer dizer que o mido. . que o mido tem de morrer? - perguntou Snape, com bastante calma.

- E ter de ser o prprio Voldemort a faz-lo, Severus.  fundamental.

Houve outro longo silncio. Por fim, Snape disse:

- Pensava... sempre pensei durante todos estes anos... que o protegamos por causa dela... Por causa da Lily.

- Protegemo-lo porque foi essencial ensin-lo, faz-lo crescer, deix-lo testar a sua fora - disse Dumbledore, com os olhos ainda fechados. - Entretanto, a ligao 
entre eles ser cada vez mais forte, crescer como um parasita. s vezes acho que ele prprio suspeita disso. Se bem o conheo, ele ter preparado as

547

coisas de maneira a que, quando partir ao encontro da morte, isso signifique o fim de Voldemort.

Dumbledore abriu os olhos. Snape parecia horrorizado.

- O senhor manteve-o vivo para ele poder morrer no momento certo?

- No fiques chocado, Severus. Quantos homens e mulheres viste morrer?

- Ultimamente, s aqueles que no consegui salvar - respondeu Snape. Levantou-se. - O senhor usou-me.

- O que queres dizer com isso?

- Tenho andado a fazer de espio, a mentir, a pr a minha vida em risco por si. Fiz tudo isso convencido de que a inteno era proteger o filho da Lily Potter. Agora 
diz-me que tem estado a cri-lo como um porco para o matadouro ..

- Isso  comovente, Severus - disse Dumbledore, com uma expresso grave. - Acabaste por te afeioar a ele?

- A e/e? Expecto Patronum!

Da ponta de sua varinha irrompeu uma cora prateada: aterrou no cho, deu um salto para o outro lado do gabinete e voou pela janela fora. Dumbledore ficou a v-la 
afastar-se e, quando o seu brilho prateado se desvaneceu, tornou a voltar-se para Snape. Tinha os olhos cheios de lgrimas.

- Ao fim de todo este tempo?

- Sempre - disse Snape.

E a cena mudou, e Harry viu Snape a conversar com o retrato de Dumbledore atrs da sua secretria.

- Ters de revelar ao Voldemort a data exacta da partida do Harry da casa dos tios - disse Dumbledore. - Se no o fizeres, irs levantar suspeitas, j que o Voldemort 
acha que ests to bem informado. Entretanto, tens de criar a ideia de que h alguns chamarizes... acho que isso ir garantir a segurana do Harry. Tenta Confundir 
o Mundungus Fletcher. E, Severus, se fores obrigado a participar na perseguio, faz o teu papel de forma convincente... Estou a contar contigo para ficares o mais 
tempo possvel nas boas graas de Lord Voldemort. Seno, Hogwarts ficar  merc dos Carrow.

Snape encontrava-se agora frente a frente com Mundungus numa taberna desconhecida O rosto de Mundungus parecia curiosamente vazio, e Snape franzia a testa de concentrao.

- Vais sugerir  Ordem da Fnix - sussurrou Snape - que utilizem chamarizes. Poo Polissuco Potters iguais.  a nica

coisa que pode funcionar. Vais esquecer-te de que sugeri isto. Vais apresentar a ideia como se fosse tua. Percebeste?

- Percebi - murmurou Mundungus, sem focar o olhar. Harry voava agora numa vassoura ao lado de Snape numa noite

muito escura; estava acompanhado por outros Devoradores da Morte encapuzados e,  sua frente, iam Lupin e um Harry que na realidade era George... Um Devorador da 
Morte passou  frente de Snape e ergueu a sua varinha, apontando-a directamente s costas de Lupin...

- Sectutnsempra' - gritou Snape.

Mas o feitio, que se destinava  mo do Devorador da Morte que segurava a varinha, falhou o alvo e atingiu George

A seguir, Snape estava ajoelhado no antigo quarto de Sirius, com as lgrimas a pingar do seu nariz adunco, enquanto lia a velha carta de Lily. A segunda pgina tinha 
apenas algumas palavras:

nunca podia ter sido amigo do Gellert Gnndelwald. C para mim, ela no est boa da cabea!

com muito amor,

Lily

Snape pegou na pgina onde Lily escrevera a palavra amor e o seu nome e guardou-a dentro do manto. Depois, rasgou ao meio a fotografia que tambm tinha na mo, ficando 
com a parte que mostrava Lily a rir-se e tornando a deitar para o cho, para debaixo da cmoda, a parte onde estavam James e Harry.

Snape encontrava-se mais uma vez no gabinete do director, e eis que chega Phmeas Nigellus, muito apressado, ao seu retrato.

- Senhor Director' Eles esto a acampar na Floresta de Dean! A Sangue de Lama...

- No utilizes essa palavra!

- ... a Granger falou do stio quando abriu a mala, e eu ouvi-a'

- Muito bem! Muito bem! - gritou o retrato de Dumbledore atrs da cadeira do Director. - V, Severus, a espada! No te esqueas de que tem de ser obtida em situao 
de necessidade e bravura... e ele no pode saber que foste tu quem lha deu! Se o Voldemort lesse a mente do Harry e visse que estavas a agir por ele...

- Eu sei - disse Snape com rispidez. Aproximou-se do retrato de Dumbledore e puxou-o pela parte lateral. O quadro girou para a frente, revelando uma cavidade escondida, 
de onde Snape tirou a espada de Gryffindor.

548

549

- E, mesmo assim, no vai contar-me por que razo  to importante dar a espada ao Potter? - perguntou Snape, enquanto colocava uma capa de viagem sobre o manto.

- No, acho que no - disse o retrato de Dumbledore. - Ele saber o que fazer com ela. E, Severus, tern muito cuidado, podem no reagir bem ao teu aparecimento depois 
do que aconteceu ao George Weasley.

Snape voltou-se junto  porta.

- No se preocupe, Dumbledore - disse com frieza. - Tenho um plano...

E, com estas palavras, Snape saiu da sala. Harry emergiu do Pensatrio e, passados alguns instantes, estava deitado sobre a carpete que cobria o cho daquele mesmo 
local: era como se Snape tivesse acabado de fechar a porta.

550

XXXIV

OUTRA VEZ A FLORESTA

Finalmente, a verdade. Cado com o rosto encostado  carpete L empoeirada do gabinete onde outrora pensara estar a aprender os segredos da vitria, Harry compreendeu 
por fim que no iria sobreviver. A sua funo era encaminhar-se calmamente para a Morte que o esperava de braos abertos. No caminho, teria de ir destruindo as coisas 
que ainda prendiam Voldemort  vida, para que, quando finalmente se atravessasse  frente dele, sem nunca levantar a varinha para se defender, o fim fosse fcil, 
e o trabalho que deveria ter sido feito em Godric's Hollow pudesse finalmente ser terminado: nenhum deles iria nem poderia sobreviver.

Sentiu o corao bater fortemente no peito. Como era estranho que, perante o terror da morte, batesse ainda mais depressa, mantendo-o corajosamente vivo. Mas teria 
de parar, e em breve. As vezes que ainda bateria estavam determinadas. Quanto tempo teria para se levantar, percorrer o castelo pela ltima vez, sair para os terrenos 
circundantes e dirigir-se  Floresta?

Foi percorrido por uma onda de terror ali deitado no cho, com aquele tambor fnebre a troar dentro de si. Morrer seria doloroso? De todas as vezes que achara que 
estava prestes a morrer e conseguira escapar, nunca tinha pensado na morte propriamente dita: a sua vontade de viver fora sempre muito mais forte que o seu medo 
da morte. No entanto, naquele momento, no lhe passava pela cabea tentar fugir, ser mais rpido que Voldemort. Acabara - sabia-o. A nica coisa que lhe restava 
era a prpria morte.

Se, ao menos, pudesse ter morrido naquela noite de Vero em que sara pela ltima vez do nmero quatro de Privet Drive, quando fora salvo pela nobre varinha com 
a pena da fnix! Se, ao menos, tivesse podido morrer como Hedwig, to depressa que nem teria dado pelo que tinha acontecido! Ou, se pudesse ter-se lanado para a 
frente de uma varinha para salvar algum que amasse... naquele momento, chegou a invejar a morte dos seus

551

pais. Para ter o sangue-frio necessrio para caminhar em direco  sua prpria destruio precisava de um tipo diferente de coragem. Sentiu os dedos tremerem ligeiramente 
e fez um esforo para os controlar, embora ningum pudesse v-lo; os retratos que se encontravam na parede estavam todos vazios.

Sentou-se lentamente, muito lentamente e, quando o fez, sentiu-se mais vivo e mais consciente que nunca do seu corpo vivo. Por que razo nunca soubera apreciar o 
milagre que era - crebro, nervos, corao? Tudo isso iria acabar... ou, pelo menos, ele deixaria tudo isso. A sua respirao tornou-se mais lenta e profunda. Tinha 
a boca e a garganta completamente secas, e os olhos tambm.

A traio de Dumbledore no significava quase nada. Claro que havia um plano mais vasto, e Harry tinha sido demasiado ingnuo para o perceber. Nunca tinha sequer 
posto em causa a sua convico de que Dumbledore o queria vivo. Percebia agora que a sua esperana de vida sempre fora determinada pelo tempo necessrio para eliminar 
todos os Horcruxes. Dumbledore tinha-lhe passado a misso de os destruir, e ele continuara obedientemente a cortar todos os laos que ligavam no s Voldemort, mas 
tambm ele prprio,  vida! Que bonito, que elegante no desperdiar mais vidas e confiar a perigosa tarefa ao rapaz marcado para morrer, e cuja morte no seria 
uma calamidade, mas apenas mais um golpe contra Voldemort

E Dumbledore sabia que Harry no desistiria, que continuaria at ao fim, mesmo consciente de que seria o seu fim, porque se tinha dado ao trabalho de o conhecer, 
no tinha? Dumbledore sabia, tal como Voldemort tambm sabia, que Harry no deixaria mais ningum morrer por ele, agora que descobrira que estava na sua mo impedir 
que isso acontecesse. As imagens de Fred, Lupin e Tonks, mortos no Salo Nobre, voltaram a entrar na sua mente e, por momentos, quase nem conseguiu respirar: a morte 
era impaciente...

Mas Dumbledore tinha-o sobrestimado. Tinha falhado - a serpente sobrevivera. Haveria um Horcrux a prender Voldemort  vida, mesmo depois de Harry morrer. Na verdade 
isso tornaria o trabalho mais fcil para quem o fizesse. Quem seria? Claro que Ron e Hermione saberiam o que seria preciso fazer.. Por isso  que Dumbledore quisera 
que ele confiasse em duas outras pessoas... para que, se o destino se cumprisse cedo de mais, os outros dois pudessem...

552
 
Como chuva a bater numa janela fria, estes pensamentos fustigavam a dura superfcie da incontestvel verdade: tinha de morrer. Tenho de morrer. Aquilo tinha de terminar.

Ron e Hermione pareciam estar muito longe, num pas distante; teve a sensao de se ter separado deles h muito tempo. Estava decidido a que no houvesse despedidas 
nem explicaes. Era uma viagem que no poderiam fazer juntos, e as tentativas que fariam para o impedir seriam uma perda de valioso tempo. Olhou para o relgio 
de ouro, agora to maltratado, que tinha recebido quando fizera dezassete anos. J tinha passado quase metade da hora que Voldemort tinha dado para a sua rendio.

Levantou-se O seu corao batia contra as costelas como um pssaro enlouquecido. Talvez soubesse que lhe restava pouco tempo, talvez quisesse cumprir todos os batimentos 
de uma vida antes de parar. No olhou para trs quando fechou a porta do gabinete.

O castelo estava vazio. Sentiu-se uma espcie de fantasma a percorr-lo sozinho, como se j tivesse morrido. As molduras dos retratos continuavam vazias; reinava 
um silncio espectral, como se a vida que ainda restava no castelo estivesse concentrada no Salo Nobre, onde estavam os mortos e as pessoas que os choravam.

Harry tapou-se com o Manto da Invisibihdade e desceu os vrios andares, percorrendo a escadaria de mrmore at ao Hall de Entrada. Talvez uma pequena parte de si 
desejasse que algum o pressentisse, o visse, o fizesse parar mas, como sempre, o Manto era impenetrvel, perfeito, e chegou facilmente s portas da frente.

Nesse momento, Neville quase chocou com ele. Estava a trazer do exterior mais um corpo, ajudado por um colega. Harry olhou de relance e sentiu mais uma pancada no 
estmago: era Colin Creevey que, embora ainda no tivesse idade para isso, devia ter-se escapulido, tal como Malfoy, Crabbe e Goyle. Parecia ainda mais pequeno depois 
de morto.

- Sabes que mais? Consigo lev-lo sozinho, Neville - disse Oliver Wood e levantou Colin para cima do ombro, como se fosse um bombeiro, transportando-o para o Salo 
Nobre.

Neville encostou-se por momentos  ombreira da porta e limpou a testa com as costas da mo. Parecia um velho. Depois, desceu os degraus para ir procurar mais corpos 
na escurido.

Harry olhou mais uma vez para a entrada do Salo Nobre. As pessoas andavam de um lado para outro, a tentarem consolar-se

553

umas s outras, bebiam, ajoelhavam-se junto dos mortos, mas no conseguiu ver nenhuma das pessoas que amava - no havia sinais de Hermione, Ron, Ginny ou qualquer 
dos outros Weasley, nem de Luna. Sentiu que teria dado todo o tempo que lhe restava para poder olhar para eles uma ltima vez; mas, se isso acontecesse, teria coragem 
para deixar de olhar? Era melhor assim.

Desceu os degraus e penetrou na escurido. Eram quase quatro da manh, e a calma mortal que emanava dos campos deu-lhe a sensao de que estavam a suster a respirao, 
 espera de verem se ele conseguiria fazer o que tinha de fazer.

Harry avanou em direco a Neville, que estava debruado sobre mais um corpo

- Neville.

- Caramba, Harry, quase me mataste de susto!

Harry tinha tirado o Manto. A ideia surgira-lhe de repente, motivada pelo desejo de ter absoluta certeza.

- Onde  que vais sozinho? - perguntou Neville, desconfiado.

- Faz parte do plano - disse Harry. - Tenho de fazer uma coisa. Ouve... Neville...

- Harry! - Neville pareceu repentinamente assustado. - Harry, no ests a pensar entregar-te, pois no?

- No - mentiu Harry facilmente. - Claro que no...  outra coisa. Mas talvez desaparea por uns tempos. Sabes daquela serpente que o Voldemort tem, Neville? Aquela 
serpente enorme... chamada Nagini...

- Sim, j ouvi falar dela. . O que  que tem?

- Tem de ser morta. O Ron e a Hernuone sabem disso, mas caso eles...

O horror daquela possibilidade quase o asfixiou por momentos, impossibilitando-o de continuar a falar. Mas recuperou as foras: era crucial, tinha de ser como Dumbledore, 
tinha de manter a cabea fria, ter a certeza de que haveria reforos, outras pessoas que pudessem continuar a tarefa. Dumbledore tinha morrido com a certeza de que 
havia trs pessoas que sabiam dos Horcruxes. Agora Neville tomaria o lugar de Harry - continuava a haver trs pessoas a saberem do segredo.

- S para o caso de eles estarem... ocupados... e tu teres oportunidade de ..

- Matar a serpente?

- Matar a serpente - repetiu Harry.

554

- Est bem, Harry. Est tudo bem contigo?

- Sim, est tudo bem Obrigado, Neville.

Mas Neville agarrou-o pelo pulso, quando Harry se preparava para se ir embora.

- Vamos continuar a lutar, Harry. Sabes isso, no sabes?

- Sim, eu.

A sensao de asfixia no lhe permitiu acabar a frase; no conseguia continuar. Neville pareceu no achar isso estranho. Deu uma palmadinha no ombro de Harry, libertou-o 
e foi procurar mais corpos.

Harry tornou a pr o Manto e recomeou a andar. Havia algum no muito longe dele a debruar-se sobre outro corpo cado no cho, no muito longe de onde ele se encontrava. 
Estava a pouca distncia dela quando percebeu que era Ginny.

Estacou. Ginny estava inclinada sobre uma menina que, com uma voz dbil, chamava pela me.

- Pronto - dizia Ginny. - Est tudo bem. Vamos levar-te para dentro.

- Mas eu quero ir para casa - sussurrou a menina. - No

quero lutar mais!

- Eu sei - disse Ginny, e sua voz soobrou. - Vai correr

tudo bem.

A pele de Harry foi percorrida por arrepios de frio. Apetecia-lhe gritar, queria que Ginny soubesse que ele estava ali, queria que soubesse para onde ele ia. Queria 
que o impedissem, que o arrastassem de volta, que o mandassem para casa.

Mas ele estava em casa. Hogwarts fora a primeira e a melhor casa que conhecera. Ele, Voldemort e Snape, os rapazes abandonados - todos tinham encontrado ali uma 
casa...

Ginny estava ajoelhada junto da menina ferida, segurando-lhe a mo. com um esforo enorme, Harry obrigou-se a seguir em frente. Pareceu-lhe ter visto Ginny olhar 
 sua volta quando passou por ela e pensou se ela teria pressentido a presena de algum, mas no disse nada e no olhou para trs.

A cabana de Hagrid surgiu na escurido. No havia luzes, nem se ouvia Fang a arranhar a porta nem a ladrar em sinal de boas-vindas. Tantas visitas a Hagrid, o brilho 
da chaleira de cobre no fogo, os bolos de pedra, as larvas gigantescas, a sua cara enorme coberta de barba, Ron a vomitar lesmas, Hermione a ajud-lo a salvar Norbert...

Continuou, chegou  entrada da Floresta e parou.

555

Um grupo de Dementors pairava por entre as rvores; sentia o calafrio que eles provocavam e no tinha a certeza se conseguia passar em segurana. No lhe restavam 
foras suficientes para um Patronus. J nem sequer conseguia parar de tremer. Afinal, no era assim to fcil morrer. Cada segundo que respirava, o cheiro das ervas, 
o ar fresco no seu rosto - era tudo precioso. Pensar que as pessoas tinham anos e anos de vida, que podiam dar-se ao luxo de perder tempo, que tinham tanto tempo 
que parecia arrastar-se, ao passo que ele se agarrava a cada segundo que passava. Ao mesmo tempo que pensava que no conseguiria continuar, sabia que tinha de o 
fazer. O longo jogo tinha terminado, a Snitch tinha sido agarrada, estava na hora de descer...

A Snitch. Os seus dedos entorpecidos tactearam por momentos a bolsa que tinha ao pescoo e tirou-a de l. Eu abro-me no fim...

Respirou mais depressa e olhou para ela. Agora que queria que o tempo passasse o mais lentamente possvel, ele parecia ter acelerado, e compreendeu tudo to depressa 
que parecia que tinha ultrapassado a velocidade do pensamento. Era o fim. Era o momento.

Encostou o metal dourado aos lbios e sussurrou: - Estou prestes a morrer.

A casca de metal abriu-se. Baixou a mo trmula, ergueu a varinha de Draco por baixo do Manto e murmurou: "Lumos."

No centro das duas metades da Snitch via-se a pedra negra fendida. A Pedra da Ressurreio tinha-se rachado pela linha vertical que representava a Varinha de Sabugueiro. 
O tringulo e o crculo que representavam o Manto e a Pedra eram ainda visveis. Mais uma vez, Harry percebeu sem ter de pensar. No valia a pena traz-los de volta, 
pois estava prestes a juntar-se a eles. No era ele que ia busc-los: eram eles que vinham busc-lo. Fechou os olhos e voltou trs vezes a Pedra na mo. Sabia que 
tinha acontecido, porque ouviu ligeiros movimentos  sua volta que pareciam vir de frgeis corpos que mudavam a posio dos ps no cho de terra, coberto de ramos 
secos que marcava o fim da Floresta. Abriu os olhos e olhou  sua volta.

Viu que no eram fantasmas nem seres vivos. Eram parecidos com o Riddle que sara do dirio, h tanto tempo, e que fora uma memria que quase ganhara forma. Menos 
substanciais que seres vivos, mas muito mais que fantasmas, avanaram para ele e, em cada um dos rostos, havia um sorriso terno.

556

James era exactamente da mesma altura que Harry. Estava vestido com as roupas com que morrera, com o cabelo desgrenhado e os culos ligeiramente de lado, como os 
de Mr. Weasley.

Sirius era alto e bonito, e muito mais novo que Harry o conhecera em vida. Andava com graciosidade, com as mos nos bolsos e um sorriso irnico no rosto.

Lupin tambm era mais novo e muito menos andrajoso. Tinha uma cabeleira mais espessa e mais escura. Parecia feliz por voltar quele local familiar que fora cenrio 
de tantos devaneios de adolescentes.

O sorriso de Lily era o mais aberto de todos. Alisou os seus longos cabelos para trs quando se aproximou dele, e os seus olhos verdes, iguais aos dele, perscrutavam 
avidamente o seu rosto, como se jamais pudesse olhar para ele o suficiente.

- Tens sido to corajoso.

Harry no conseguia falar. Fixou os olhos nela e pensou que gostaria de ficar ali a olhar para a me para sempre e que isso bastaria.

- Ests quase a conseguir - disse James. - Quase. Temos... tanto orgulho em ti.

- Di?

A pergunta infantil sara dos lbios de Harry sem que ele pudesse sust-la.

- Morrer? No - disse Sirius. -  mais rpido e mais fcil que adormecer.

- E ele vai querer que seja rpido. Quer acabar com isto - acrescentou Lupin.

- No queria que vocs morressem - disse Harry. Estas palavras saram por vontade prpria. - Nenhum de vocs. Desculpem...

Dirigiu-se a Lupin, mais do que a qualquer um dos outros, perscrutando o seu rosto.

- ... logo depois de o seu filho... Remus, lamento muito...

- Tambm lamento - disse Lupin. - Lamento no poder conhec-lo... mas ele saber por que morri e espero que compreenda. Estava a tentar construir um mundo em que 
ele pudesse ser mais feliz.

Uma brisa gelada que parecia vir do corao da Floresta levantou os cabelos da testa de Harry. Sabia que eles no lhe diriam para se ir embora, que a deciso teria 
de ser dele.

- Vo ficar comigo?

557

- At ao fim - disse James.

- - Eles no conseguiro ver-vos? - perguntou Harry.

- Fazemos parte de ti - disse Sirius. - Somos invisveis para todas as outras pessoas.

Harry olhou para a sua me.

- - Fique ao p de mim - pediu em voz baixa.

E comeou a andar. O frio dos Dementors no o dominou; atravessou-o juntamente com os seus companheiros, que funcionaram como Patronus, e avanaram todos juntos 
por entre as velhas rvores que cada vez se cerravam mais, com os ramos a entrelaarem-se e as razes a rangerem e a torcerem-se sob os seus ps. Harry ajustou melhor 
o Manto  sua volta na escurido, penetrando cada vez mais na Floresta, sem ter a mnima ideia de onde estaria Voldemort, mas com a certeza de que o encontraria. 
A seu lado, quase sem fazerem o mnimo rudo, iam James, Sirius, Lupin e Lily, e a presena deles dava-lhe coragem e alento para pr um p  frente do outro.

Sentia o corpo e a mente estranhamente desconexos; os seus membros funcionavam sem qualquer instruo consciente, como se fosse um passageiro e no o motorista do 
corpo que estava prestes a deixar. Os mortos que o acompanhavam pareciam-lhe agora muito mais reais que os vivos que deixara no castelo: sentia Ron, Hermione, Ginny 
e todos os outros como fantasmas, enquanto avanava a tropear e a escorregar em direco ao fim da sua vida, em direco a Voldemort

Um baque e um sussurro: certamente outro ser vivo que se agitava por perto. Harry parou, envolto pelo Manto, olhou  sua volta, ps-se  escuta, e a sua me, o seu 
pai, Lupin e Sirius pararam tambm.

- Est ali algum - disse um sussurro spero perto dele - Tem um Manto da Invisibilidade. Ser...?

Apareceram duas figuras por detrs de uma rvore perto dele. As suas varinhas faiscaram, e Harry viu Yaxley e Dolohov a espreitarem na escurido, exactamente para 
o stio onde Harry, a me, o pai, Sinus e Lupin se encontravam. Aparentemente, no conseguiam ver nada.

- Tenho a certeza de que ouvi qualquer coisa - disse Yaxley. - Achas que ser um animal?

- Aquele cabeudo do Hagrid tinha aqui uma data de bichos -- disse Dolohov, olhando por cima do ombro.

Yaxley olhou para o relgio

O tempo est a esgotar-se. O Potter teve uma hora e no

veio.

- E ele tinha a certeza de que o Potter viria. No vai ficar nada satisfeito.

-  melhor regressarmos - disse Yaxley. - Vamos ver qual

 o plano agora.

Ele e Dolohov deram meia-volta e embrenharam-se na Floresta. Harry seguiu-os, sabendo que eles o levariam exactamente para onde queria ir. Olhou para o lado e viu 
a me a sorrir para ele e o pai a fazer-lhe um aceno de encorajamento.

Tinham andado apenas alguns minutos quando Harry viu uma luz  sua frente. Yaxley e Dolohov entraram numa clareira que Harry sabia ter sido o local onde a monstruosa 
Aragog tinha vivido. Os restos da sua enorme teia ainda l estavam, mas os descendentes que tinha espalhado tinham sido expulsos pelos Devoradores da Morte para 
lutarem pela sua causa.

No centro da clareira havia uma fogueira, cuja luz trmula iluminava uma multido de Devoradores da Morte, em silncio e vigilantes. Alguns continuavam com mscaras 
e capuzes, e outros tinham a cara destapada. Na periferia do grupo estavam dois gigantes, lanando uma sombra enorme sobre toda a cena, com uma expresso cruel e 
dura como pedras no rosto. Harry viu Ferinr escondido, a roer as suas longas unhas. O grande e loiro Rowle apalpava o lbio que sangrava. Viu Lucius Malfoy, que 
parecia derrotado e aterrorizado, e Narcissa, com um olhar abatido, cheio de apreenso

Todos os olhos estavam postos em Voldemort, que se encontrava de p, com a cabea curvada e as mos brancas cruzadas sobre a Varinha de Sabugueiro  sua frente. 
Podia estar a rezar ou a contar mentalmente, em silncio. Harry, imvel no limiar da clareira, teve o pensamento absurdo de uma criana a contar no jogo das escondidas. 
Atrs da cabea de Voldemort, continuava a enorme serpente Nagini, a girar e a enrolar-se, pairando na sua gaiola reluzente e enfeitiada, como uma aurola monstruosa.

Quando Dolohov e Yaxley se juntaram ao crculo, Voldemort olhou para cima.

- Nenhum sinal dele, meu Senhor - disse Dolohov.

A expresso de Voldemort no se alterou. Os olhos vermelhos pareciam arder sob a luz da fogueira. Retirou lentamente a Varinha de Sabugueiro de entre os seus longos 
dedos.

- Meu Senhor...

558

559

Era Bellatrix que tinha falado; era a que estava mais perto de Voldemort, desgrenhada, com o rosto um pouco ensanguentado, mas sem outros ferimentos.

Voldemort ergueu a mo para a silenciar, e ela no disse nem mais uma palavra, limitando-se a olhar para ele com um misto de fascnio e venerao.

- Pensava que ele viria - disse Voldemort com a sua voz aguda e clara, de olhos postos nas chamas que ondulavam. - Estava  espera de que ele viesse.

Ningum disse nada. Pareciam to assustados como Harry, cujo corao batia agora com tanta fora contra as costelas que parecia querer sair do corpo que Harry estava 
prestes a abandonar. Tinha as mos a suar quando tirou o Manto da Invisibilidade e o meteu debaixo da roupa juntamente com a varinha. No queria ser tentado a lutar

- Pelos vistos. . estava enganado - disse Voldemort

- No, no estava

Harry disse estas palavras o mais alto que pde, com todas as foras que conseguiu reunir: no queria parecer que estava com medo. A Pedra da Ressurreio escapou-lhe 
por entre os dedos dormentes e, pelo canto dos olhos, viu os pais, Sinus e Lupin desaparecerem  medida que se aproximava da fogueira. Sentiu que naquele momento 
a nica pessoa que interessava era Voldemort. Seriam apenas os dois.

Esta iluso desapareceu to depressa como surgira. Os gigantes rugiram, e os Devoradores da Morte levantaram-se todos ao mesmo tempo. Ouviram-se gritos, arquejos 
e at risos. Voldemort tinha ficado onde estava, mas os seus olhos vermelhos haviam descoberto Harry. Viu-o avanar para ele, sem que houvesse mais nada a separ-los 
a no ser a fogueira.

Mas, nesse momento, uma voz gritou:

- HARRY! NO!

Voltou-se- Hagrid estava amarrado a uma rvore ali perto. O seu corpo enorme fazia balanar os ramos ao debater-se, desesperado.

- NO! NO! HARRY O QU'  QUE 'TS ..?

- SILNCIO! - gritou Rowle, que acenou a sua varinha e silenciou Hagrid

Bellatrix, que tambm se tinha levantado, olhava ansiosamente ora para Voldemort, ora para Harry, com o peito a arfar. As nicas coisas que se moviam eram as chamas 
e a serpente, que con

560

tinuava a enrolar-se e a desenrolar-se na gaiola reluzente atrs da cabea de Voldemort.

Harry sentia a varinha encostada ao peito, mas no fez qualquer tentativa de a retirar. Sabia que a serpente estava demasiado bem protegida, sabia que, se apontasse 
a varinha a Nagini, seria atingido ele prprio por cinquenta maldies. Voldemort e Harry continuaram imveis, a olhar um para o outro. Voldemort inclinou ligeiramente 
a cabea para o lado, perscrutando o rapaz que se encontrava  sua frente. Um sorriso estranhamente triste fez contorcer a sua boca sem lbios.

- Harry Potter - disse, muito suavemente. A sua voz poderia fazer parte do fogo crepitante. - O rapaz que sobreviveu

Nenhum dos Devoradores da Morte se mexeu. Estavam  espera. Tudo estava  espera. Hagrid debatia-se, e Bellatrix arfava. Inexplicavelmente, Harry s conseguia pensar 
em Ginny, na sensao dos lbios dela sobre os seus...

Voldemort tinha erguido a varinha. Continuava com a cabea inclinada de lado, como uma criana curiosa, a pensar no que aconteceria se continuasse. Harry tornou 
a olhar para os olhos vermelhos e desejou que acontecesse j, depressa, enquanto ainda conseguia aguentar-se de p, antes de perder o controlo, antes de ser trado 
pelo medo.

Viu a boca mexer-se, viu um claro de luz verde, e depois tudo desapareceu.

561


XXXV

KING'S CROSS

Ficou deitado de barriga para baixo, a ouvir o silncio, completamente sozinho. Ningum olhava para ele. No estava ali mais ningum e nem ele tinha a certeza absoluta 
de ele prprio se encontrar ali.

Passado muito tempo, ou talvez no mesmo instante, percebeu que devia existir, tinha de ser mais que um pensamento sem corpo, pois estava deitado, estava definitivamente 
deitado sobre uma superfcie qualquer. Portanto, pelo menos ainda tinha o sentido do tacto, e a superfcie sobre a qual se encontrava tambm existia.

Quase no mesmo instante em que chegou a esta concluso, Harry apercebeu-se tambm de que se encontrava nu. Como se convencera de que estava absolutamente sozinho, 
isso no o incomodou, mas deixou-o ligeiramente intrigado. Pensou se, tal como tinha o sentido do tacto, tambm teria o da viso. Ao abri-los, descobriu que tinha 
olhos.

Envolvia-o uma neblina luminosa, muito diferente da que era normal. As coisas  sua volta no estavam encobertas pelo vapor; pelo contrrio, era esse vapor que ainda 
no tinha ganho a forma das coisas. O cho parecia ser branco; no era quente nem frio, apenas existia, uma coisa branca, plana sobre a qual jazia.

Sentou-se. O seu corpo parecia ileso. Tocou na cara No tinha culos.

Nesse momento, chegou at ele um rudo vindo do nada informe que o rodeava: pequenas pancadas suaves de qualquer coisa que se agitava, caa, se debatia. Era um som 
penoso, mas tambm, e ainda assim, ligeiramente obsceno. Tinha a sensao desconfortvel de estar a escutar algo de furtivo e vergonhoso

Desejou, pela primeira vez, estar vestido.

Mal este desejo se formou na sua mente, logo roupas apareceram a pouca distncia. Pegou-lhes e vestiu-as: estavam macias, limpas e quentes. Era extraordinrio como 
tinham aparecido, assim sem mais nem menos, no preciso momento em que desejara t-las...

562

Levantou-se e olhou  sua volta. Estaria numa grande Sala das Necessidades? Quanto mais olhava, mais coisas havia para ver. Um tecto de vidro grande, em abbada, 
reluzia por cima dele, iluminado pelo sol. Talvez fosse um palcio. Tudo estava em silncio e imvel, excepto aqueles estranhos sons de algo que batia e se lamuriava, 
vindos de no muito longe por entre a nvoa que o rodeava...

Rodou lentamente, e as coisas que se encontravam  sua volta pareceram inventar-se perante os seus olhos. Um espao aberto e amplo, limpo e inundado de luz, muito 
maior do que o Salo Nobre, com um tecto de vidro em abbada. Estava vazio. Era ele a nica pessoa que ali se encontrava para alm de...

Retraiu-se. Tinha visto a coisa que estava a fazer os rudos. Pela forma, era uma criana pequena, nua, enrolada no cho, com a pele esfolada, spera, que tremia 
sob um banco onde tinha sido abandonada, mdesejada, escondida fora de vista, a respirar a custo.

Harry sentiu medo. Embora fosse pequena, frgil e parecesse ferida, no queria aproximar-se. Contudo foi-se chegando mais perto, a pouco e pouco, pronto a recuar 
a qualquer momento. Passado pouco tempo, j estava suficientemente perto dela para lhe tocar, mas no conseguia faz-lo. Sentiu-se um cobarde. Devia reconfort-la, 
mas s sentia repulsa.

- No podes ajudar.

Deu meia-volta. Albus Dumbledore dirigia-se para ele com passos firmes e enrgicos, com um longo manto azul-escuro

- Harry! - Abriu os braos, e ambas as mos estavam inteiras, brancas e intactas. - s um rapaz maravilhoso, Corajoso, muito corajoso. Vamos dar uma volta.

Sem perceber o que estava a acontecer, Harry seguiu-o, enquanto Dumbledore se afastava do local onde a criana choramingava, encaminhando-o para duas cadeiras em 
que Harry ainda no reparara e que se encontravam a alguma distncia, sob o tecto alto e cintilante. Dumbledore sentou-se numa delas, e Harry deixou-se cair sobre 
a outra, olhando fixamente para o rosto do seu velho Director. Os cabelos e a barba, longos e prateados, os olhos de um azul intenso, atrs dos culos em meia-lua, 
o nariz adunco - tudo tal e qual como se lembrava. No entanto...

- Mas o senhor est morto - disse Harry.

- Ah, pois estou - retorquiu Dumbledore, num tom prosaico.

- Ento... E eu tambm estou morto?

563

- Ah - disse Dumbledore, com um sorriso ainda mais aberto -  essa a questo, no ? Pensando bem, rapaz, acho que no.

Entreolharam-se; Dumbledore continuava a sorrir, radiante

- No? - repetiu Harry.

- No - disse Dumbledore.

- Mas... - Harry levou instintivamente a mo  cicatriz em forma de raio. Parecia no estar l. - Mas eu devia ter morrido, no me defendi! Quis que ele me matasse!

- Creio... - retorquiu Dumbledore - que ter sido exactamente isso a fazer toda a diferena.

A felicidade parecia irradiar de Dumbledore como luz, como fogo: Harry nunca tinha visto ningum com uma felicidade to intensa, to palpvel.

- Explique-se - pediu Harry.

- Mas tu j sabes - disse Dumbledore, girando os polegares.

- Deixei que ele me matasse, no deixei? - perguntou Harry.

- Deixaste - disse Dumbledore, acenando com a cabea. - Continua!

- Ento, a parte da alma dele que estava em mim...

Dumbledore acenou com a cabea ainda mais entusiasticamente, encorajando Harry a continuar, com um enorme sorriso no rosto.

- ...desapareceu?

- Ah, claro que sim! - disse Dumbledore. - Ele destruiu-a. A tua alma agora est inteira e  s tua, Harry.

- Mas ento. .

Harry olhou por cima do ombro para o stio onde se encontrava a pequena criatura estropiada, a tremer debaixo da cadeira

- O que  aquilo, Professor?

- Algo que est para alm da nossa capacidade de ajudar - respondeu Dumbledore.

- Mas, se Voldemort usou a Maldio de Morte - recomeou Harry -, e ningum morreu por mim desta vez, como  que eu posso estar vivo?

- Acho que tu sabes - disse Dumbledore - Pensa. Lembra-te do que ele fez, com a sua ignorncia, avidez e crueldade.

Harry pensou, deixando o olhar vaguear pelo cenrio que o rodeava. Se era, de facto, um palcio o stio onde se encontravam, era estranho, com cadeiras arrumadas 
em pequenas filas e pedaos

564

de balaustradas aqui e ali. Dumbledore, ele e o ser definhado que se encontrava sob o banco eram as nicas presenas. A resposta aflorou ento aos seus lbios facilmente, 
sem esforo.

- Ele tirou-me o meu sangue - disse Harry.

- Exactamente! - exclamou Dumbledore. - Utilizou o teu sangue para reconstruir o seu corpo! O teu sangue corre nas veias dele, Harry. Esto ambos sob a proteco 
da Lily. Enquanto ele viver, estars preso  vida!

- Viverei... enquanto ele viver? Mas pensava... pensava que era ao contrrio! Pensava que tnhamos de morrer ambos? Ou  a mesma coisa?

As lamrias e as pancadas da criatura que agonizava atrs de si distraram-no, e tornou a olhar de relance para ela.

- Tem a certeza de que no podemos fazer nada?

- No h ajuda possvel.

- Ento explique-me... melhor - pediu Harry, e Dumbledore sorriu.

- Eras o stimo Horcrux, Harry, o Horcrux que ele nunca teve inteno de criar. Tinha tornado a sua alma to instvel que ela se quebrou quando cometeu aqueles actos 
de uma maldade inqualificvel, a morte dos teus pais, a tentativa de matar uma criana. Mas o que fugiu daquela sala era ainda menos do que ele sabia. No deixou 
apenas o corpo. Deixou uma parte de si prprio presa a ti, a vtima que sobreviveu.

"E o conhecimento dele continuou a ser calamitosamente incompleto, Harry! Voldemort no se d ao trabalho de compreender aquilo a que no d valor. No sabe nada 
e no percebe nada de elfos, histrias infantis, amor, lealdade e inocncia. Nada. H uma verdade que nunca conseguiu apreender: que eles tm um poder superior ao 
seu, um poder que est para alm do alcance de qualquer magia.

"Utilizou o teu sangue, convencido de que isso o iria fortalecer. Absorveu uma pequena parte do encantamento que a tua me te lanou quando deu a vida por ti. O 
corpo dele mantm o sacrifcio dela vivo e, enquanto esse encantamento sobreviver, tambm tu sobrevivers assim como a ltima esperana que resta a Voldemort.

Dumbledore sorriu-lhe, e Harry olhou fixamente para ele.

- E o senhor sabia disso? Desde sempre?

- Adivinhei. Mas os meus palpites so geralmente bons - respondeu Dumbledore, com um ar de grande felicidade, e ficaram

565

em silncio, aparentemente durante muito tempo, enquanto a criatura atrs deles continuava a choramingar e a tremer.

- Mas h mais - disse Harry, por fim. - No  s isso. Por que  que a minha varinha partiu a que ele tinha usurpado'

- Quanto a isso, no tenho a certeza.

- Ento, tente adivinhar - disse Harry, e Dumbledore riu-se.

- O que tens de perceber, Harry,  que tu e Lord Voldemort penetraram juntos em dimenses da magia at agora desconhecidas e nunca testadas. Mas vou dizer-te o que 
acho que aconteceu, que  uma coisa sem precedentes e que nenhum fabricante de varinhas poderia, na minha opinio, alguma vez ter previsto ou explicado a Voldemort.

"Agora j sabes que, sem que fosse essa a sua inteno, Lord Voldemort duplicou o lao que existia entre vocs os dois quando retomou a forma humana. Uma parte da 
alma dele continuava presa  tua e, convencido de que estava a fortalecer-se, absorveu uma parte do sacrifcio da tua me Se, ao menos, ele pudesse ter compreendido 
o poder exacto e terrvel desse sacrifcio, talvez no tivesse ousado tocar no teu sangue... mas a verdade  que, se ele tivesse sido capaz de entender, era porque 
no seria Lord Voldemort e poderia nunca ter cometido nenhum crime.

"Depois de garantir essa ligao, de unir os vossos destinos como nunca na histria dois feiticeiros estiveram unidos, Voldemort atacou-te com uma varinha, cujo 
ncleo estava ligado ao da tua. E, como sabemos, nesse momento algo de muito estranho aconteceu. Os ncleos reagiram de uma forma que Lord Voldemort, que nunca soube 
que a tua varinha era idntica  dele, nunca esperou.

"Naquela noite, ele teve mais medo que tu, Harry. Tu tinhas aceite, at mesmo abraado, a possibilidade de morrer, algo que Lord Voldemort nunca foi capaz de fazer. 
A tua coragem venceu, a tua varinha dominou a dele. E, com esse teu gesto, aconteceu algo entre essas duas varinhas que reflectiu a relao entre os respectivos 
donos.

Estou convencido de que naquela noite a tua varinha absorveu algum do poder e das qualidades da varinha de Voldemort, ou seja, do prprio Voldemort. E, portanto, 
a tua varinha reconheceu-o quando te perseguiu, reconheceu um homem que era simultaneamente do teu sangue e teu inimigo mortal, e regurgitou parte da sua magia contra 
ele, uma magia muito mais poderosa que tudo o que a varinha de Lucius tinha alguma vez conseguido. A tua

566

varinha continha, agora, o poder da tua enorme coragem e da mestria mortfera do prprio Voldemort: que hipteses tinha aquele msero pauzinho do Lucius Malfoy?

- Mas, se a minha varinha era to poderosa, como  que a Hermione conseguiu quebr-la? - perguntou Harry.

- Meu caro, os notveis efeitos da tua varinha s eram direccionados para o Voldemort, que tinha interferido imprudentemente com as mais profundas leis da magia. 
S contra ele  que a varinha se tornava anormalmente poderosa. De resto, era uma varinha como qualquer outra... mas muito boa, tenho a certeza - concluiu Dumbledore 
carinhosamente.

Harry ficou muito tempo a pensar, ou talvez apenas alguns segundos. Era muito difcil ter a certeza de coisas como o tempo naquelas circunstncias.

- Ele matou-me com a sua varinha.

- Ele no conseguiu matar-te com a minha varinha - corrigiu Dumbledore. - Acho que podemos concordar que no ests morto... - E acrescentou, como se temesse estar 
a ser indelicado: - Embora, obviamente, no subestime o teu sofrimento que foi certamente muito grande.

- Mas agora estou a sentir-me muito bem - disse Harry, olhando para as suas mos limpas, sem cicatrizes. - Onde  que acha que estamos?

- Ia perguntar-te o mesmo - retorquiu Dumbledore, olhando  sua volta. - Onde  que achas que estamos?

At Dumbledore ter feito aquela pergunta, Harry no sabia. No entanto, naquele momento descobriu que tinha a resposta na ponta da lngua.

- Este stio  parecido - disse devagar - com a estao de King's Cross. S que mais limpa e vazia e, aparentemente, sem comboios.

- A estao de Kings Cross! - Dumbledore ria-se a bandeiras despregadas - A srio?

- Ento, onde  que acha que estamos? - perguntou Harry, na defensiva.

- No fao a menor ideia, meu caro. Como se costuma dizer,  festa  tua.

Harry no tinha a mnima ideia do significado daquela expresso; Dumbledore estava a ser to irritante! Lanou-lhe um olhar furibundo e lembrou-se de uma pergunta 
muito mais urgente do que o stio onde se encontravam.

567

- Os Talisms da Morte - proferiu, e ficou feliz por ver que aquelas palavras tinham feito desaparecer o sorriso do rosto de Dumbledore.

- Ah, pois - exclamou. Tinha at um ar ligeiramente preocupado

- E ento?

Pela primeira vez, desde que Harry conhecia Dumbledore, ele pareceu-lhe muito menos velho, muito menos. Por momentos, pareceu-lhe um menino apanhado a fazer uma 
maldade.

- Consegues perdoar-me? - perguntou. - Consegues perdoar-me por no ter confiado em ti' Por no te ter contado? Harry, o meu grande temor era que tu falhasses tal 
como eu falhei. S receava que cometesses os meus erros. Imploro-te que me perdoes, Harry. J sei, h algum tempo, que s o melhor de ns os dois.

- De que est a falar? - perguntou Harry, sobressaltado pelo tom de Dumbledore, pelas lgrimas que subitamente lhe inundaram os olhos

- Dos Talisms, dos Talisms - murmurou Dumbledore. - O sonho de um homem desesperado!

- Mas eles so reais!

- Reais e perigosos, e uma armadilha para os tolos - disse Dumbledore. - E eu fui um tolo. Mas tu sabe-lo, no sabes? No pode haver mais segredos entre ns. Tu 
sabes.

- O que  que eu sei?

Dumbledore virou-se at ficar de frente para Harry, que viu que as lgrimas continuavam a bailar nos seus brilhantes olhos azuis.

- Mestre da Morte, Harry, mestre da Morte! Ser que, em ltima anlise, fui melhor que o Voldemort?

- Claro que foi - disse Harry. - Claro. Como pode estar a perguntar uma coisa dessas?! Nunca matou a no ser quando no pde evit-lo!

-  verdade,  verdade - anuiu Dumbledore, como se fosse uma criana em busca de conforto. - No entanto, tambm eu procurei uma forma de dominar a morte, Harry.

- Mas no da mesma forma que ele - disse Harry. Depois de toda a raiva que sentira por Dumbledore como era estranho estar agora ali sentado, sob a enorme abbada 
daquele tecto alto, a defend-lo. - Talisms, no Horcruxes.

- Talisms - murmurou Dumbledore -, no Horcruxes. Exactamente

568

Seguiu-se uma pausa. A criatura que se encontrava atrs deles choramingou, mas Harry j no se voltou.

- O Grmdelwald tambm andava  procura deles' - perguntou.

Dumbledore fechou os olhos por um momento e acenou com a cabea.

- Foi aquilo que mais nos aproximou - confessou em voz baixa. - Dois rapazes inteligentes, arrogantes, com uma obsesso em comum. Ele queria ir a Godrics Hollow, 
como certamente adivinhaste, por causa do tmulo de Ignotus Peverell. Queria explorar o lugar onde o terceiro irmo morrera.

- Ento,  verdade? - perguntou Harry. - Tudo' Os irmos Peverell .

- . eram os trs irmos do conto - disse Dumbledore, com um aceno de cabea. - Ah, sim, acho que sim. Se encontraram ou no a Morte numa estrada solitria... acho 
mais provvel que os irmos Peverell fossem apenas feiticeiros cheios de talento e perigosos que conseguiram criar aqueles objectos poderosos A histria de serem 
os Talisms da prpria Morte parece-me o tipo de lenda que pode desenvolver-se em torno daquele tipo de criaes.

"Como agora j sabes, o Manto viajou atravs dos tempos, passando de pai para filho, de me para filha, at chegar ao descendente vivo de Ignotus, que nasceu, tal 
como Ignotus, na aldeia de Godric's Hollow.

Dumbledore sorriu para Harry,

- Eu'

- Tu. Sei que adivinhaste a razo pela qual o Manto se encontrava na minha posse na noite em que os teus pais morreram. O James tinha-mo mostrado poucos dias antes. 
Estavam assim explicadas muitas das diabruras que tinha feito na escola e que ningum descobrira! No conseguia acreditar no que tinha  frente dos meus olhos. Pedi-lhe 
que mo emprestasse para o examinar. H muito tempo que tinha desistido do meu sonho de juntar os Talisms, mas no consegui resistir, no pude deixar de o ver mais 
de perto .. Nunca tinha visto um Manto como aquele, to antigo, to perfeito sob todos os aspectos... e depois o teu pai morreu, e eu tinha finalmente dois Talisms, 
dois Talisms s para mim!

O seu tom de voz era de uma amargura insuportvel.

- Mas o Manto no os teria ajudado a sobreviver - constatou Harry rapidamente. - O Voldemort conhecia o paradeiro

569

da minha me e do meu pai. O Manto no lhes teria dado proteco contra maldies.

- E verdade - suspirou Dumbledore. -  verdade. Harry esperou mas, como Dumbledore no disse nada, insti gou-o a continuar.

- Quer dizer que j tinha desistido de procurar os Talisms quando viu o Manto?

- J - disse Dumbledore numa voz dbil. Parecia que se obrigara a olhar directamente para os olhos de Harry. - Tu sabes o que aconteceu. Tu sabes. No podes desprezar-me 
mais do que eu me desprezo a mim prprio...

- Mas eu no o desprezo...

- Mas devias - disse Dumbledore. Encheu o peito de ar. - Sabes o segredo da doena da minha irm, sabes o que aqueles Muggles fizeram, sabes no que ela se transformou. 
Sabes que o meu pobre pai procurou vingar-se e pagou por isso, morrendo em Azkaban. Sabes que a minha me abdicou da sua prpria vida para cuidar da Ariana. Sentia-me 
muito ressentido por tudo isso, Harry.

Dumbledore disse-o num tom seco, frio. Olhava agora para um ponto ao longe, por cima da cabea de Harry.

- Eu era talentoso, brilhante. Queria fugir. Queria brilhar Queria ter glria.

"No me interpretes mal - continuou e um esgar de dor perpassou pelo seu rosto, fazendo-o parecer outra vez velho - Eu amava-os. Amava os meus pais, amava os meus 
irmos, mas era egosta, Harry, mais egosta que tu, uma pessoa de um altrusmo notvel, poderias imaginar

"Tanto que, quando a minha me morreu, e fiquei responsvel por uma irm incapacitada e um irmo caprichoso, regressei  minha aldeia com uma raiva e um azedume 
enormes dentro de mim. Sentia-me encurralado e desperdiado! E, claro, foi ento que ele apareceu...

Dumbledore tornou a olhar directamente para os olhos de Harry.

- O Gnndelwald. No podes imaginar como as ideias dele me cativaram, me entusiasmaram. Os Muggles forados  submisso. Ns, os feiticeiros, a triunfarmos. Eu e 
Gnndelwald, os gloriosos jovens lderes da revoluo.

"Ah, eu tinha alguns escrpulos, mas tentei aplacar a minha conscincia com palavras vazias. Seria tudo em nome de um bem superior, e qualquer mal que fosse feito 
seria recompensado com

570

centenas de benefcios para os feiticeiros. Ser que sabia, l bem no fundo do meu corao, quem era Gellert Gnndelwald? Acho que sabia, mas fechei os olhos. Se 
os planos que estvamos a fazer se concretizassem, todos os meus sonhos se realizariam.

E no centro de todos os nossos planos estavam os Talisms da Morte! Como eles o fascinavam, como nos fascinavam a ambos! A varinha imbatvel, a arma que nos levaria 
ao poder! A Pedra da Ressurreio... para ele, embora eu fingisse no saber, significava um exrcito de Inferi! Confesso que para mim significava o regresso dos 
meus pais. Significava que ficaria liberto de todas as minhas responsabihdades.

- E o Manto... a verdade  que nunca falmos muito do Manto, Harry. Conseguamos ambos esconder-nos suficientemente bem sem o Manto, cuja verdadeira magia consiste, 
claro, no facto de poder ser utilizado para encobrir e proteger outras pessoas para alm do seu proprietrio. Achei que, se um dia consegussemos encontr-lo, seria 
bom para esconder a Ariana, mas o nosso interesse pelo Manto advinha sobretudo do facto de completar o trio pois, segundo a lenda, o homem que unisse os trs objectos 
seria o verdadeiro senhor da morte, o que para ns significava sermos invencveis.

"Os invencveis senhores da morte, Gnndelwald e Dumbledore! Dois meses de insanidade, de sonhos cruis e de negligncia em relao aos dois nicos membros da minha 
famlia deixados a meu cargo.

"E, ento... sabes o que aconteceu. A realidade voltou sob a forma do meu irmo, grosseiro, iletrado, mas digno de uma admirao infinitamente maior do que eu. No 
quis ouvir as verdades que me gritou. No quis ouvir que no podia partir em busca dos Talisms, arrastando comigo uma irm frgil e instvel.

"A discusso transformou-se numa luta. O Gnndelwald descontrolou-se. O que eu sempre tinha pressentido nele, embora fingisse que no, materializou-se sob uma forma 
terrvel. E a Ariana... depois de todos os cuidados e advertncias da minha me... jasia morta no cho.

Dumbledore comeou a chorar copiosamente. Harry estendeu a mo e ficou feliz ao ver que conseguia tocar-lhe. Apertou-lhe o brao com firmeza e, pouco a pouco, Dumbledore 
recuperou o controlo

- Bem, o Gnndelwald fugiu, como qualquer pessoa poderia ter previsto, excepto eu. Desapareceu, com os seus planos para

571

tomar o poder, os seus esquemas para torturar os Muggles e os seus sonhos sobre os Talisms da Morte, sonhos em que eu o encorajara e ajudara. Fugiu, e eu fiquei 
entregue  tarefa de sepultar a minha irm e aprender a viver com a minha culpa e o meu terrvel desgosto: o preo da minha vergonha.

"Passaram-se alguns anos. Havia alguns rumores a respeito dele. Diziam que tinha obtido uma varinha com um poder imenso. Entretanto, tinham-me oferecido o lugar 
de Ministro da Magia, no uma mas vrias vezes. Naturalmente que recusei. Sabia que no era uma pessoa em quem se pudesse confiar quando tinha poder.

- Mas teria sido melhor, muito melhor, do que o Fudge ou o Scnmgeour! - contraps Harry de rompante

- Achas que sim? - perguntou Dumbledore com um ar pensativo. - No estou to certo disso. Tinha demonstrado, quando ainda era muito novo, que o poder era a minha 
fraqueza e a minha tentao.  uma coisa curiosa, Harry, mas talvez aqueles que so mais aptos a deter o poder sejam os que nunca procuraram t-lo. Pessoas como 
tu, a quem  confiada a liderana, que a exercem apenas porque tm de a exercer e acabam por descobrir, para surpresa prpria, que tm jeito para isso.

"Sentia-me muito mais seguro em Hogwarts. Acho que era um bom professor...

- Era o melhor de todos...

- s muito gentil, Harry. Mas enquanto eu me entretinha a ensinar novos feiticeiros, o Grmdelwald andava a formar um exrcito. H quem diga que ele me receava, e 
talvez fosse verdade, mas de certeza que me receava menos do que eu o receava a ele.

"Oh, no era a morte - disse Dumbledore, em resposta  expresso inquiridora de Harry. - Nem as magias que podia fazer contra mim. Sabia que estvamos mais ou menos 
 mesma altura, talvez eu fosse um tudo-nada mais habilidoso. O que eu receava era a verdade. Nunca soube qual de ns, naquele derradeiro e terrvel combate, tinha 
lanado a maldio que matou a minha irm. Podes chamar-me cobarde: estarias a dizer a verdade. O que eu mais temia, Harry, era descobrir que tinha sido eu a causar 
a morte dela, no s com a minha arrogncia e estupidez, mas por ter sido eu mesmo a executar o golpe que a arrancou  vida.

"Acho que ele sabia, acho que ele sabia o que eu verdadeiramente temia. Continuei sempre a protelar um eventual encontro com ele at que, a certa altura, se tornou 
demasiado vergonhoso

572

continuar a resistir. Havia gente a morrer, e ele parecia imparvel. Tinha de fazer tudo o que estivesse ao meu alcance.

"Bem, sabes o que aconteceu a seguir. Venci o duelo. Ganhei a varinha.

Seguiu-se novo silncio. Harry no perguntou a Dumbledore se tinha chegado a descobrir quem matara Ariana. No queria saber nem obrigar Dumbledore a dizer-lhe. Percebeu 
finalmente o que Dumbledore via ao olhar para o Espelho dos Invisveis e a razo por que compreendera to bem o fascnio que o espelho exercera sobre Harry.

Ficaram sentados em silncio por muito tempo, e os gemidos da criatura que se encontrava atrs deles j quase no perturbavam Harry.

Por fim, disse:

- O Grmdelwald tentou impedir o Voldemort de ir atrs da varinha. Mentiu, fingiu que nunca a tinha tido.

Dumbledore acenou com a cabea, olhando para o colo, com as lgrimas ainda a reluzirem sobre o seu nariz adunco.

- Dizem que mais tarde se mostrou arrependido, sozinho na sua cela em Nurmengard. Gostaria de pensar que sentiu verdadeiramente o horror e a vergonha do que tinha 
feito. Talvez essa mentira que disse a Voldemort fosse uma tentativa de reparar o mal que tinha feito... de impedir que o Voldemort ficasse com o Talism. .

- ...ou talvez que violasse o seu tmulo? - sugeriu Harry. Dumbledore enxugou os olhos.

Depois de uma pequena pausa, Harry afirmou'

- O senhor tentou utilizar a Pedra da Ressurreio. Dumbledore confirmou com um aceno de cabea.

- Quando a descobri, ao fim de tantos anos, enterrada na casa abandonada dos Gaunt, o Talism que mais desejara - embora quando era jovem o tivesse desejado por 
outras razes - perdi a cabea, Harry. Esqueci-me de que agora era um Horcrux, e de que o anel encerrava de certeza uma maldio. Peguei nele, pu-lo e, por um segundo, 
imaginei que estaria prestes a ver Ariana, a minha me e o meu pai, e que iria poder dizer-lhes como estava arrependido...

"Fui to tolo, Harry. Tinham passado tantos anos, e no tinha aprendido nada. J tinha provado muitas vezes que no era digno de unir os Talisms da Morte, e a prova 
final surgia agora.

- Porqu? - perguntou Harry. - Era natural! Queria tornar a v-los. O que  que isso tinha de mal?

573

- Talvez houvesse um homem num milho que pudesse reunir os Talisms, Harry. Eu s estava apto a possuir o pior deles, o menos extraordinrio. S podia ter a Varinha 
de Sabugueiro, mas no podia gabar-me disso nem utiliz-la para matar. Podia dom-la e us-la, porque a conquistara, no para ganho pessoal, mas apenas para salvar 
outros do seu poder.

"Quanto ao Manto, tinha-o apenas por mera curiosidade e, por isso, nunca podia ter funcionado comigo como funciona contigo, o seu verdadeiro dono. Em relao  Pedra, 
t-la-ia usado apenas na tentativa de fazer regressar os que se encontravam em paz e no para possibilitar a minha redeno, como tu fizeste. s o digno possuidor 
dos Talisms da Morte.

Dumbledore deu uma palmadinha na mo de Harry, que ergueu os olhos para o ancio e sorriu; no conseguia deixar de o fazer. Como poderia continuar zangado com Dumbledore 
depois de tudo aquilo?

- Por que  que teve de tornar as coisas to difceis? Dumbledore esboou um sorriso trmulo.

- Receio ter contado com Miss Granger para te refrear, Harry. Temia que a tua cabea quente pudesse dominar o teu bom corao. Temia que, se fosses directamente 
confrontado com a verdade sobre aqueles objectos tentadores, te apoderasses dos Talisms, como eu fiz, na altura errada e pelas razes erradas. Se viessem parar 
s tuas mos, queria que os possusses sem perigo. Tu s o verdadeiro senhor da morte, porque o verdadeiro senhor no procura fugir da Morte. Aceita o facto de que 
tem de morrer e compreende que h coisas muito, muito piores na vida que a morte.

- E o Voldemort nunca soube dos Talisms da Morte?

- Acho que no, porque no reconheceu a Pedra da Ressurreio que transformou num Horcrux. Mas, mesmo que soubesse da existncia deles, duvido que se interessasse 
por qualquer um deles, a no ser pelo primeiro. De certeza que acharia que no precisava do Manto e, quanto  Pedra, quem  que ele quereria fazer regressar do mundo 
dos mortos? Ele teme os mortos. Ele no ama.

- Mas contava que ele fosse atrs da Varinha?

- Tinha a certeza de que iria tentar, desde o momento em que a tua varinha venceu a dele no cemitrio de Little Hangleton. A princpio, receou que o tivesses vencido 
por seres mais talentoso. Mas, depois de raptar o Ollivander, descobriu a existncia

574



dos dois ncleos gmeos. Pensou que isso explicava tudo. Todavia, a varinha de que se apoderou no funcionou melhor ao enfrentar a tua! E, ento, Voldemort, em vez 
de perguntar a si prprio o que teria a tua varinha para ser to forte, qual seria o dom que possuas e ele no, resolveu procurar a nica varinha que, segundo se 
dizia, venceria todas as outras. A Varinha de Sabugueiro tornou-se uma obsesso para ele - a nica obsesso que rivalizava com a obsesso que tinha por ti. Est 
convencido de que a Varinha de Sabugueiro afastar as suas ltimas fraquezas e torn-lo- verdadeiramente invencvel. Pobre Severus...

- Se planeou a sua morte com o Snape, queria que fosse ele a ficar com a Varinha de Sabugueiro, no era?

- Admito que era essa a minha inteno - disse Dumbledore -, mas as coisas no correram como eu queria, pois no?

- No - disse Harry. - Nesse aspecto, no bateram certo.

A criatura atrs deles agitou-se e gemeu, e Harry e Dumbledore fizeram o silncio mais prolongado desde que se haviam encontrado. Durante esse tempo, a compreenso 
do que iria acontecer a seguir foi-se abatendo a pouco e pouco sobre Harry, como flocos de neve a carem lentamente.

- Tenho de voltar, no tenho?

- s tu quem tem de decidir.

- Tenho alguma alternativa?

- Claro que tens - disse Dumbledore, sorrindo para ele. - Estamos em King's Cross, no foi o que disseste? Acho que, se decidires no voltar, podes... por exemplo... 
apanhar um comboio.

- E onde me levaria esse comboio?

- Em frente - disse Dumbledore, simplesmente. Tornou a fazer-se silncio.

- O Voldemort tem a Varinha de Sabugueiro.

-  verdade. O Voldemort tem a Varinha de Sabugueiro.

- Mas quer que eu volte?

- Acho que, se decidires voltar - respondeu Dumbledore -,  possvel que ele acabe de uma vez por todas, mas no posso prometer-to. O que sei, Harry,  que tens 
menos a temer se regressares do que ele.

Harry olhou mais uma vez de relance para aquela coisa avermelhada que tremia e arfava sob a cadeira ao longe.

- No tenhas pena dos mortos, Harry. Tem pena dos vivos e, sobretudo, dos que vivem sem amor. Se voltares, poders garan
- 575

tir que menos almas sero estropiadas, menos famlias sero separadas. Se achares que isso  um objectivo que vale a pena, despedir-nos-emos por agora.

Harry acenou com a cabea e suspirou. Deixar aquele lugar no seria nem de perto to difcil como tinha sido entrar na Floresta, mas estava num stio acolhedor, 
pacfico, com luz e sabia que iria regressar ao sofrimento e ao medo de sofrer mais perdas. Levantou-se, Dumbledore fez o mesmo, e durante muito tempo olharam para 
o rosto um do outro.

- Diga-me s mais uma coisa - pediu Harry. - Isto  real? Ou tudo tem estado a acontecer na minha mente?

Dumbledore sorriu-lhe, e a sua voz pareceu forte e audvel, apesar da nvoa intensa que estava de novo a abater-se, obscurecendo a sua figura.

- Claro que est a acontecer na tua mente, Harry. Mas por que razo h-de isso significar que no  real?

576

XXXVI

A FALHA NO PLANO

Estava outra vez deitado no cho, de barriga para baixo. O cheiro da floresta inundava-lhe as narinas. Sentia o solo duro e frio sob a face, e a articulao dos 
culos, que tinham ficado de banda com a queda, a cortar-lhe a tmpora. No havia nada que no lhe doesse e, no stio onde a Maldio de Morte o atingira, parecia 
que tinha levado um soco com um punho de ferro. No se mexeu - ficou exactamente no stio onde caiu, com o brao esquerdo num ngulo estranho e a boca aberta.

Estava  espera de ouvir gritos de triunfo e jbilo pela sua morte, mas, em vez disso, pelo ar perpassavam sons de passos apressados, sussurros e murmrios ansiosos.

- Meu Senhor... meu Senhor...

Era a voz de Bellatrix, que falava como se estivesse a dirigir-se a um amante. Harry no se atreveu a abrir os olhos, deixando que fossem os seus outros sentidos 
a explorarem a difcil situao em que se encontrava. Sabia que a varinha continuava sob o manto, pois sentia-a comprimida entre o peito e o cho. Sentia tambm 
uma espcie de almofada na zona do estmago, o que lhe indicava que o Manto da Invisibilidade ainda l estava escondido.

- Meu Senhor...

- Chega - disse a voz de Voldemort.

Mais passos: havia vrias pessoas a afastarem-se do mesmo local. Ansioso por ver o que estava a acontecer e porqu, Harry abriu os olhos um milmetro.

Voldemort parecia estar a pr-se de p. Vrios Devoradores da Morte desviavam-se apressadamente dele, juntando-se  multido que se encontrava em torno da clareira. 
S Bellatrix ficou para trs, ajoelhada ao lado de Voldemort.

Harry fechou outra vez os olhos e ficou a pensar no que tinha visto. Os Devoradores da Morte tinham-se apinhado em torno de Voldemort, que parecia ter cado no cho. 
Tinha acontecido qualquer coisa no momento em que atingira Harry com a Maldio

577

de Morte. Teria Voldemort sucumbido tambm? Assim parecia. Ambos tinham ficado momentaneamente inconscientes e ambos tinham recuperado a conscincia...

- Meu Senhor, deixai-me...

- No necessito de ajuda - retorquiu Voldemort com frieza e, embora no pudesse ver, Harry imaginou Bellatrix a retirar a mo que teria estendido para o ajudar. 
- O rapaz... est morto?

Na clareira reinava o mais absoluto silncio. Ningum se aproximou de Harry, mas sentia todos os olhares concentrados em si, o que parecia esmag-lo ainda mais contra 
o solo. Estava aterrorizado com a possibilidade de mexer inadvertidamente um dedo ou uma plpebra

- Tu - disse Voldemort, e ouviu-se um estalo e um pequeno grito de dor. - Examina-o! Diz-me se est morto.

Harry no sabia a quem tinha sido ordenado que fosse confirmar a sua morte. A nica coisa que podia fazer era continuar ali deitado, com o corao a bater descompassada 
e traioeiramente,  espera de ser examinado. Todavia, reparou, embora isso no o reconfortasse muito, que Voldemort estava relutante em aproximar-se dele, que suspeitava 
de que nem tudo tinha corrido conforme planeado.

Umas mos, mais suaves do que esperara, tocaram-lhe no rosto, puxaram-lhe uma plpebra, penetraram por baixo da camisa, deslizaram-lhe pelo peito e pousaram sobre 
o seu corao. Ouviu a respirao acelerada de uma mulher e sentiu os seus longos cabelos a tocarem-lhe no rosto Sabia que ela iria sentir os batimentos regulares 
da vida contra as suas costelas

- O Draco est vivo? Est no castelo?

A pergunta foi feita num sussurro quase inaudvel; os lbios dela estavam a poucos centmetros do ouvido de Harry; tinha inclinado tanto a cabea que os seus longos 
cabelos escondiam o rosto de Harry dos olhares dos presentes.

- Est - respondeu Harry, tambm num sussurro.

Sentiu a mo contrair-se sobre o seu peito e as unhas cravarem-se na sua pele. Depois, a mulher retirou a mo e endireitou-se.

- Est morto! - gritou Narcissa Malfoy aos presentes. Eles bradaram, soltaram gritos de triunfo, bateram com os ps

no cho e, pelas plpebras, Harry viu clares de luz vermelha e prateada a iluminarem o ar em comemorao

Continuando deitado no cho a fingir-se morto, Harry compreendeu. Narcissa sabia que a nica maneira de poder entrar em

578

Hogwarts e encontrar o filho era integrar o exrcito conquistador. Era-lhe indiferente que Voldemort tivesse vencido.

- Esto a ver' - gritou Voldemort, fazendo ouvir a sua voz por cima do clamor que o rodeava. - O Harry Potter morreu s minhas mos e agora j no h ningum que 
possa ameaar-me! Vejam! Crucio!

Harry contara com aquilo: sabia que no iriam deixar o seu corpo jazer inclume na Floresta; teria de ser sujeito a alguma humilhao para provar a vitria de Voldemort. 
Foi lanado ao ar, e teve de usar toda a sua fora de vontade para manter o corpo flcido, mas a dor que esperava no veio Foi atirado ao ar uma, duas, trs vezes. 
Os culos voaram, e sentiu a varinha deslizar um pouco sob o manto, mas manteve-se mole, sem vida e, quando caiu no cho pela ltima vez, a clareira ecoou com risos 
de escrnio e satisfao.

- Agora - disse Voldemort - vamos ao castelo mostrar-lhes o que aconteceu ao seu heri. Quem h-de levar o corpo' No... Esperem...

Houve uma nova onda de risadas e, aps alguns momentos, Harry sentiu o solo tremer

- Leva-o tu - ordenou Voldemort. - Vai ser agradvel ir nos teus braos, para alm de que ficar bem visvel, no achas? Pega no teu amiguinho, Hagrid E os culos... 
pe-lhe os culos .  preciso que o reconheam.

Algum colocou os culos de Harry outra vez no seu rosto com gestos bruscos, mas as enormes mos que o ergueram no ar foram de uma extrema gentileza. Harry sentiu 
os braos de Hagrid a tremer devido aos seus soluos mcontrolveis, e as lgrimas a carem sobre ele quando Hagrid o aninhou junto a si. No se atreveu a dizer qualquer 
palavra ou a fazer qualquer gesto que lhe desse a entender que ainda no estava tudo perdido.

- Despacha-te - ordenou Voldemort, e Hagrid avanou aos tropees, abrindo caminho por entre as rvores emaranhadas da Floresta. Os ramos ficavam presos no cabelo 
e no manto de Harry, que se mantinha imvel, de boca aberta e olhos fechados Na escurido, rodeados de Devoradores da Morte e por entre os soluos indisfarveis 
de Hagrid, ningum se deu ao trabalho de ver se havia sinais de um corao a pulsar no pescoo desnudado de Harry Potter...

Os dois gigantes caminhavam pesadamente atrs dos Devoradores da Morte; Harry ouvia as rvores a estalarem e a tombarem

579

 passagem deles; faziam tanto barulho que os pssaros esvoaavam, aos guinchos, e at os insultos dos Devoradores da Morte eram abafados. O desfile vitorioso continuava 
a avanar e, passado algum tempo, Harry conseguiu perceber, pela luminosidade que perpassava pelas suas plpebras fechadas, que as rvores comeavam a rarear.

- BANE!

O inesperado grito de Hagrid quase forou Harry a abrir os olhos.

- 'To felizes agora, no 'to? No tiveram de lutar, sua manada de mulas cobardes! 'To felizes por ver o Harry Potter... m... morto ..?

No conseguiu continuar e as lgrimas irromperam mais uma vez dos seus olhos. Harry tentou imaginar quantos centauros estariam a ver o desfile passar, pois no se 
atrevia a abrir os olhos. Alguns Devoradores da Morte gritavam insultos aos centauros que iam deixando para trs. Pouco depois o ar refrescou, e Harry percebeu que 
tinham chegando  berma da Floresta.

- Pra!

Harry pensou que Hagrid tinha sido obrigado a obedecer  ordem de Voldemort, pois sentiu-o cambalear ligeiramente. Abateu-se sobre eles um ar frio, e Harry ouviu 
a respirao ruidosa dos Dementors que patrulhavam a orla da Floresta. J no conseguiam afect-lo. Sentia dentro de si o fogo da sua prpria sobrevivncia, um talism 
que o protegia deles, como se o veado do pai estivesse de guarda ao seu corao.

Algum passou perto de Harry. Percebeu que tinha sido o prprio Voldemort, porque o ouviu falar pouco depois, com uma voz amplificada como que por magia, troando 
 sua volta e quase lhe rebentando os tmpanos.

- O Harry Potter morreu. Foi morto quando ia a fugir, tentando salvar-se, enquanto vocs davam a vida por ele. Trazemo-vos o seu corpo como prova de que o vosso 
heri morreu

"A batalha est ganha. Perderam metade dos vossos combatentes. Os meus Devoradores da Morte so em muito maior nmero que vocs, e o Rapaz Que Sobreviveu j no 
existe. A guerra tem de acabar. Quem continuar a resistir, seja homem, mulher ou criana, ser morto, assim como todos os membros da sua famlia. Por isso, saiam 
agora do castelo, ajoelhem-se perante num e sero poupados. Os vossos pais, os vossos filhos, os vossos irmos sobrevivero, sero perdoados, e todos se juntaro 
a mim no novo mundo que iremos construir em conjunto.

580

Reinava o mais absoluto silncio tanto no exterior como no interior do castelo. Voldemort estava to perto de si que Harry no se atrevia a abrir de novo os olhos

- Anda - ordenou Voldemort. Harry ouviu-o recomear a andar, e Hagrid foi obrigado a segui-lo. Abriu ligeiramente os olhos e viu Voldemort a caminhar  sua frente, 
com grandes passadas, e com a enorme serpente Nagini, agora liberta da sua gaiola encantada,  volta dos ombros. Mas, com a luz que aos poucos ia aclarando a noite, 
era completamente impossvel a Harry tirar a varinha escondida por baixo do manto sem que os Devoradores da Morte, que seguiam de ambos os lados, dessem por isso...

- Harry -- soluou Hagrid. - Oh, Harry... Harry... Tornou a fechar os olhos com fora. Sabia que estavam a aproximar-se do castelo e tentou distinguir, por sobre 
as vozes satisfeitas e os passos pesados dos Devoradores da Morte, qualquer sinal de vida dos ocupantes

- Parem!

Os Devoradores da Morte imobilizaram-se e Harry ouviu-os disporem-se em linha frente s portas abertas da escola. Mesmo com as plpebras fechadas, viu o claro vermelho 
da luz vindo do Hall de Entrada. Aguardou. A qualquer momento, as pessoas por quem tinha tentado morrer v-lo-iam nos braos de Hagrid, aparentemente morto

- NO!

O grito foi tanto mais terrvel porque jamais esperara ou sonhara que da boca da Professora McGonagall pudesse sair tal som. Ouviu uma outra mulher a rir-se perto 
de si e percebeu que era Bellatrix a rejubilar com o desespero de McGonagall. Tornou a entreabrir os olhos, por uma fraco de segundo, e viu as portas abertas a 
encherem-se de pessoas,  medida que os sobreviventes da batalha se juntavam nos degraus da frente para enfrentar os seus vencedores e verem com os seus prprios 
olhos que era verdade que Harry morrera. Voldemort estava ligeiramente  sua frente, a acariciar com um dedo branco a cabea de Nagini. Tornou a fechar os olhos.

- No!

- No!

- Harry! HARRY!

As vozes de Ron, Hermione e Ginny eram mais angustiadas que a de McGonagall. A coisa que Harry mais desejava era poder responder-lhes, mas manteve-se em silncio. 
Os gritos dos amigos

581

funcionaram como um detonador, e a multido de sobreviventes fez eco da sua dor, bradando e vociferando contra os Devoradores da Morte, at que..

- SILENCIO! - gritou Voldemort, e ouviu-se uma exploso seguida por um claro intenso, que imps o silncio a todos os presentes. - Acabou-se! Pousa-o aos meus ps, 
Hagrid, que  o stio onde ele merece estar.

Harry sentiu o seu corpo ser depositado sobre a relva.

- Esto a ver? - disse Voldemort, e Harry percebeu que ele estava a andar para trs e para a frente muito perto do stio onde se encontrava. - O Harry Potter est 
morto! Esto a perceber agora como foram ludibriados? No era nada, nunca foi nada, a no ser um rapaz que contava que os outros se sacrificassem por ele!

- Ele venceu-te! - gritou Ron. O feitio quebrou-se, e os defensores de Hogwarts recomearam a gritar at que uma segunda exploso, mais forte que a primeira, extinguiu 
de novo as

suas vozes.

- Ele foi morto quando tentava escapulir-se dos terrenos do castelo - insistiu Voldemort, e a mentira emprestava-lhe  voz um tom de satisfao; depois acrescentou: 
- Foi morto quando tentava salvar a sua prpria pele...

Nesse momento, Voldemort interrompeu o seu discurso; Harry ouviu um tumulto, um grito, depois outra exploso, um claro de luz e um gemido de dor; abriu uma nesga 
infinitesimal dos olhos. Algum se tinha separado da multido e avanava sobre Voldemort. Harry viu o vulto cair no cho e Voldemort Desarm-lo, lanar para longe 
a varinha do atacante e dar uma gargalhada.

- Quem  este? - perguntou com a sua voz sibilante. - Quem  que se ofereceu para demonstrar o que acontece aos que quiserem continuar a travar uma batalha perdida?

Bellatrix deu uma gargalhada deliciada.

-  o Neville Longbottom, Senhor. O rapaz que tem dado tanto trabalho aos Carrow! O filho dos Aurors, estais lembrado?

- Ah, sim, j me lembro - disse Voldemort, olhando para Neville que estava a tentar pr-se de p, desarmado e desprotegido, na terra de ningum entre os sobreviventes 
e os Devoradores da Morte. - Mas tu s um puro-sangue, no s, meu rapaz? - perguntou a Neville, que entretanto se tinha levantado e estava voltado para ele, de 
punhos cerrados.

- E se for? - desafiou Neville em voz alta.

582

- Mostras coragem, bravura e que vens de uma linhagem nobre. Sers um Devorador da Morte valioso. Precisamos de gente como tu, Neville Longbottom.

- Juntar-me-ei a vocs quando o inferno congelar - respondeu Neville. - Exrcito de Dumbledore! - gritou, e as suas palavras suscitaram gritos de apoio que os feitios 
silenciadores de Voldemort pareciam incapazes de reprimir.

- Muito bem - disse Voldemort, e Harry pressentiu mais perigo no tom melfluo da sua voz que na mais poderosa das suas maldies. - Se  essa a tua escolha, Longbottom, 
voltamos ao plano original Que seja! - acrescentou calmamente.

Ainda a espreitar por entre as pestanas, Harry viu Voldemort agitar a varinha. Segundos depois, algo que parecia um pssaro disforme voou de uma das janelas estilhaadas 
do castelo para a semi-obscuridade onde se encontravam e aterrou na mo de Voldemort. Depois de o sacudir pelo bico bolorento, o objecto ficou ali a balanar, vazio 
e esfarrapado: era o Chapu Seleccionador.

- No haver mais Seleces em Hogwarts, - disse Voldemort. - No haver mais equipas. O emblema, o escudo e as cores do meu nobre antepassado, Salazar Slytherin, 
serviro para todos, no achas, Neville Longbottom?

Apontou a varinha a Neville, que ficou rgido e imvel, e depois enterrou o Chapu  fora na cabea dele, o qual lhe deslizou at aos olhos. As pessoas que estavam 
a presenciar a cena junto ao castelo mexeram-se, e os Devoradores da Morte levantaram todos ao mesmo tempo as suas varinhas, mantendo os combatentes de Hogwarts 
ao longe.

- Aqui o Neville vai demonstrar o que acontece a quem comete o disparate de continuar a fazer-me frente - disse Voldemort e, com um movimento da varinha, fez o Chapu 
Seleccionador romper em chamas.

A madrugada foi rasgada por gritos. Neville estava a arder, sem conseguir mexer-se, e Harry no aguentou mais: tinha de agir .

E, ento, aconteceram vrias coisas ao mesmo tempo.

Ouviram um clamor vindo dos limites da escola que dava a sensao de que centenas de pessoas ultrapassavam as muralhas distantes e corriam em tropel para o castelo, 
lanando gritos de guerra. Ao mesmo tempo, Grawp surgiu no seu passo pesado de um dos lados do castelo e gritou "HAGGER!" Ao seu grito responderam os rugidos dos 
gigantes de Voldemort, que correram para Grawp como elefantes enraivecidos, fazendo o cho tremer.

583

A seguir, ouviu-se o som de cascos, de arcos a retesarem-se e, repentinamente, comearam a chover setas sobre os Devoradores da Morte, que dispersaram, a gritar 
de surpresa. Harry puxou o Manto da Invisibilidade de debaixo da roupa, atirou-o para cima de si e ps-se de p com um salto, no momento em que Neville se movia 
igualmente.

com um movimento rpido e fluido, Neville libertou-se do feitio da Ligadura Total do Corpo; o Chapu em chamas caiu-lhe da cabea e ele retirou das suas profundezas 
uma coisa prateada, com um punho cintilante cravejado de rubis.

Foi impossvel ouvir o som da lmina prateada acima do alarido da multido que se aproximava, do clamor dos gigantes em luta, ou da cavalgada dos centauros, mas, 
apesar disso, todos os olhares convergiram sobre ela. com um nico golpe, Neville cortou a cabea da enorme serpente, que rodopiou no ar, brilhando sob a luz que 
jorrava do Hall de Entrada. A boca de Voldemort abriu-se num grito de fria que ningum conseguiu ouvir, ao mesmo tempo que o corpo da serpente embatia no cho, 
junto aos seus ps.

Escondido sob o Manto da Invisibilidade, Harry lanou um Feitio do Escudo Invisvel entre Neville e Voldemort, antes que este pudesse erguer a varinha. Depois, 
sobrepondo-se aos gritos, aos rugidos e ao som ameaador dos gigantes em luta, ouviu-se a voz de Hagrid.

- HARRY! HARRY! ONDE EST O HARRY?

Reinava o caos mais absoluto. Os centauros, ao ataque, dispersavam os Devoradores da Morte, todos fugiam dos ps dos gigantes, e cada vez se aproximava mais o clamor 
dos reforos vindos ningum sabia de onde; Harry viu enormes criaturas aladas voando em redor das cabeas dos gigantes de Voldemort, e Thestrals e o Hipognfo Buckbeak 
arranhando-lhes os olhos, enquanto Grawp os esmurrava; e, ao mesmo tempo, tanto os feiticeiros, defensores de Hogwarts, como os Devoradores da Morte de Voldemort 
eram forados a voltar para o castelo. Harry ia lanando feitios e maldies a todos os Devoradores da Morte que via, que imediatamente soobravam, sem se darem 
conta de quem ou do que os tinha atingido, sendo pisados pela multido em debandada.

Ainda escondido sob o Manto da Invisibihdade, Harry foi empurrado para o Hall de Entrada, andava  procura de Voldemort e viu-o do outro lado da sala, a disparar 
feitios com a varinha ao

584

mesmo tempo que recuava em direco ao Salo Nobre, sempre a gritar ordens aos seus seguidores e a lanar maldies em todas as direces; Harry desferiu mais alguns 
Feitios do Escudo Invisvel, e duas das potenciais vtimas de Voldemort, Seamus Finmgan e Hannah Abbott, passaram por ele a toda a velocidade, indo juntar-se  
batalha que j estava a ser travada no Salo Nobre

Havia cada vez mais pessoas a subirem os degraus da entrada. Harry viu Charlie Weasley a ultrapassar Horace Slughorn, que ainda envergava o seu pijama verde-esmeralda. 
Pareciam encabear todos os familiares e amigos dos alunos de Hogwarts que tinham ficado no castelo para combater, juntamente com os comerciantes e habitantes de 
Hogsmeade. Os centauros Bane, Ronan e Magonan irromperam no Hall, provocando grande estrpito com os cascos, no momento em que, atrs de Harry, a porta que ia dar 
 cozinha foi pelos ares.

Os elfos domsticos de Hogwarts encheram o Hall de Entrada, aos gritos, empunhando facas e cutelos.  frente deles, com o medalho de Regulus Black a balanar sobre 
o peito, vinha Kreacher, fazendo ouvir a sua voz de sapo por sobre o imenso barulho que os rodeava, a exortar os companheiros: "Lutem! Lutem! Lutem pelo meu senhor, 
defensor dos elfos! Combatam o Senhor das Trevas, em nome do corajoso Regulus! Lutem!

Atacavam e golpeavam os tornozelos e as canelas dos Devoradores da Morte, com os seus pequenos rostos muito vivos, cheios de malcia. Para onde quer que olhasse, 
Harry via Devoradores da Morte a soobrarem, vencidos por feitios, a arrancarem setas das feridas, a serem esfaqueados pelos elfos ou simplesmente a tentar fugir, 
sendo, porm, engolidos pela horda que se aproximava.

Mas a luta ainda no tinha acabado; Harry correu por entre os combatentes e os prisioneiros que se digladiavam e entrou no Salo Nobre.

Voldemort ocupava o centro da batalha, atacando e matando tudo o que se encontrava ao seu alcance. Harry no conseguia atingi-lo de longe, mas foi abrindo caminho 
at junto dele, ainda invisvel. O Salo Nobre ia ficando cada vez mais apinhado,  medida que todos os que ainda conseguiam andar tentavam entrar.

Viu Yaxley ser derrubado por George e Lee Jordan, viu Dolohov cair com um grito s mos de Flitwick, viu Walden Macnair ser atirado dum lado ao outro do Salo por 
Hagrid, embater na parede de pedra e cair no cho, inconsciente Viu Ron e Neville derrubarem Fenrir Greyback. Aberforth Atordoou

585

Rookwood, Arthur e Percy derrotaram Thicknesse, e Lucius e Narcissa Malfoy corriam pelo Salo, sem tentarem sequer combater, limitando-se a gritar pelo filho.

Voldemort estava agora a lutar com McGonagall, Slughorn e Kinsley, todos ao mesmo tempo, e havia uma expresso fria, de dio, no seu rosto, enquanto eles se desviavam 
e se baixavam, sem conseguirem derrot-lo.

Bellatrix continuava tambm a lutar a uns cinquenta metros de Voldemort e,  semelhana do seu amo, tambm ela enfrentava trs opositores simultaneamente: Hermione, 
Ginny e Luna, todas a darem tudo por tudo, mas incapazes de se sobrepor a Bellatrix. A ateno de Harry foi desviada por momentos, quando uma Maldio de Morte passou 
to perto de Ginny que esta escapou por um triz.

Mudou de direco, correndo para Bellatrix em vez de Voldemort, mas foi subitamente empurrado para o lado.

- A MINHA FILHA NO, SUA CABRA!

A correr, Mrs. Weasley despiu o manto para libertar os braos. Bellatrix deu meia-volta e soltou uma estridente gargalhada ao ver a sua nova opositora.

- SAIAM DA FRENTE! - gritou Mrs. Weasley para as trs raparigas e comeou a lutar, empunhando a varinha. Harry observou com um misto de terror e entusiasmo a varinha 
de Molly Weasley a cortar o ar, a rodopiar, e o sorriso de Bellatrix Lestrange a esmorecer, transformando-se num esgar. De ambas as varinhas surgiram jactos de luz, 
e o cho comeou a aquecer e a estalar sob os ps das duas feiticeiras: ambas travavam um combate de morte.

- No! - gritou Mrs. Weasley quando viu alguns alunos correrem na sua direco para a ajudar. - Afastem-se! Afastem-se! Deixem-na por minha conta!

Havia agora centenas de pessoas encostadas s paredes a assistirem aos dois combates: o de Voldemort com os seus trs opositores e o de Bellatrix e Molly. Harry 
continuava invisvel, dividido entre ambos, desejando simultaneamente atacar e defender, mas sem ter a certeza de que no acabaria por atingir algum inocente.

- O que acontecer aos teus filhos quando eu te matar? - provocou Bellatrix, to enlouquecida como o seu amo, saltando para se desviar das maldies lanadas por 
Molly, que choviam em seu redor. - Quando acontecer  mam o mesmo que aconteceu ao Freddie?

586

- No. . tornars... a tocar... nos meus filhos! - gritou Mrs. Weasley.

Bellatrix soltou uma gargalhada, a mesma gargalhada de jbilo que o seu primo Sinus soltara ao cair para trs atravs do Vu e, de repente, Harry viu claramente 
o que estava para acontecer.

A maldio de Molly passou por baixo do brao estendido de Bellatrix e acertou-lhe em cheio no peito, mesmo em cima do corao.

O sorriso de troa de Bellatrix imobilizou-se e os seus olhos pareceram sair das rbitas: por um instante fugaz teve conscincia do que tinha acontecido e, logo 
a seguir, caiu para a frente. Levantou-se um enorme clamor entre a multido que assistia ao combate, e Voldemort soltou um grito.

Harry teve a sensao de estar a voltar-se em cmara lenta. Viu McGonagall, Kinsley e Slughorn serem projectados para trs, contorcendo-se no ar, no momento em que 
a fria de Voldemort perante a morte da sua ltima e melhor combatente irrompeu com a potncia de uma bomba. Ergueu a varinha e apontou-a a Molly Weasley.

- Protego! - gritou Harry, e o Feitio do Escudo Invisvel projectou-se no meio do Salo. Voldemort olhou  sua volta, para tentar descobrir de onde ele tinha partido 
e, nesse momento, Harry tirou finalmente o Manto da Invisibihdade.

Os gritos de choque ou de alegria vindos de todos os lados, repetindo "Harry! EST VIVO!", foram rapidamente abafados pelo medo. Abateu-se um silncio abrupto e 
total sobre o Salo. Voldemort e Harry entreolharam-se e comearam a andar em torno um do outro.

- No quero que ningum tente ajudar-me! - gritou Harry bem alto. No meio do silncio, a sua voz soou como um toque de trombeta. - Tem de ser assim. Tenho de ser 
eu.

- Ele no est a dizer o que pensa - sibilou Voldemort, com os olhos vermelhos muito abertos - No  assim que ele age, pois no? Quem  que vais utilizar hoje como 
escudo, Potter?

- Ningum - respondeu Harry - No h mais Horcruxes. Agora  s entre ns. Nenhum pode viver enquanto o outro sobreviver. Um de ns est prestes a acabar para sempre.

- Um de ns' - repetiu Voldemort num tom de escrnio, com o corpo retesado e os olhos muito vermelhos, qual serpente pronta a atacar. - Achas que vais ser tu, no 
achas, o mido que sobreviveu por acaso e porque o Dumbledore puxou uns cordelinhos?

587

- Por acaso, quando a minha me morreu para me salvar? - contraps Harry. Continuavam a andar de lado, descrevendo um crculo perfeito e mantendo sempre a mesma 
distncia um do outro. Para Harry no existia mais nenhum rosto alm do de Voldemort - Foi por acaso que eu decidi lutar naquele cemitrio? Foi por acaso que no 
me defendi esta noite e, mesmo assim, sobrevivi e voltei para tornar a combater?

- Sim, foi por acaso! - gritou Voldemort, que continuava a no atacar. A multido que os rodeava estava como que petrificada Parecia que, das centenas de pessoas 
que se encontravam no Salo, apenas eles os dois respiravam. - Acasos! Rasgos de sorte! E tambm o facto de te teres escondido a choramingar sob as saias de homens 
e mulheres superiores a ti, deixando que eu os matasse por ti!

- Mas no matars mais ningum esta noite! - garantiu Harry Continuavam a movimentar-se em crculos, de olhos fixos um no outro, verde contra vermelho. - No conseguirs 
matar mais ningum, nunca mais! No percebes? Eu estava disposto a morrer para te impedir de fazer mal a estas pessoas...

- Mas no morreste!

- .. mas foi essa a minha inteno e foi por isso que o desfecho foi este. Fiz o mesmo que a minha me. Esto protegidos contra ti. Ainda no reparaste que nenhum 
dos feitios que lanaste sobre eles funcionou? No consegues tortur-los. No consegues atingi-los. s incapaz de aprender com os teus erros, no s, Riddle?

- Como te atreves...?

- Sim, atrevo-me - retorquiu Harry. - Sei coisas que tu no sabes, tom Riddle. Sei muitas coisas importantes que tu desconheces. Queres saber algumas delas antes 
de cometeres mais algum erro?

Voldemort no disse nada. Continuou a andar em crculo, e Harry percebeu que, por momentos, tinha conseguido det-lo, suspenso da possibilidade de Harry ter realmente 
um segredo final

-  outra vez o amor? - perguntou Voldemort com um sorriso de escrnio no seu rosto de serpente. - A soluo preferida do Dumbledore, o amor, que para ele podia 
vencer a morte, apesar de no o ter impedido de cair da Torre e se ter despedaado como uma esttua de cera? O amor, que no me impediu de esmagar a tua me Sangue 
de Lama como se fosse uma barata, Potter...

588

Mas parece que desta vez ningum vai amar-te o suficiente para se pr  tua frente e interceptar a minha maldio. O que ir impedir-te de morreres quando eu atacar?

- Uma coisa apenas - respondeu Harry. Continuavam a andar s voltas, presos um ao outro, separados apenas pelo ltimo segredo.

- Se no  o amor que te vai salvar desta vez - acrescentou Voldemort -, deves estar convencido de que tens poderes mgicos que eu no tenho ou que possuis uma arma 
mais poderosa que a minha?

- Estou convencido de ambas as coisas - retorquiu Harry, e viu um breve esgar de choque no rosto prfido do seu opositor, que imediatamente o repeliu; Voldemort 
comeou a rir-se, e o som das suas gargalhadas, ainda mais assustador que o dos seus gritos, desprovidas de humor e perpassadas de loucura, ecoou pelo Salo silencioso.

- Achas que percebes mais de magia que eu? - perguntou.

- Que eu, Lord Voldemort, capaz de actos de magia com que o prprio Dumbledore nem sequer sonhava?

- Sonhava, sim - exclamou Harry -, mas sabia mais que tu, sabia o suficiente para no fazer o que tu fizeste.

- O que tu queres dizer  que ele era um fraco! - gritou Voldemort. - Demasiado fraco para ousar, demasiado fraco para se apoderar do que poderia ter sido dele e 
que ser meu!

- No, era mais inteligente que tu - respondeu Harry.

- Era melhor que tu, como feiticeiro e como homem.

- Fui eu quem causou a morte do Albus Dumbledore!

- Pensas que foste, mas ests enganado!

Pela primeira vez, a multido que assistia  cena agitou-se ao suspender, em unssono, a respirao.

- O Dumbledore morreu! - Voldemort arremessou estas palavras a Harry, como se pudessem causar-lhe uma dor insuportvel. - O seu corpo est a decompor-se no tmulo 
de mrmore nos jardins do castelo. Vi-o com os meus prprios olhos, Harry. No voltar ao mundo dos vivos!

-  verdade, o Dumbledore morreu - disse Harry calmamente -, mas no foste tu quem o matou. Foi ele que escolheu a sua prpria morte, escolheu-a meses antes de morrer, 
combinou tudo com o homem que pensavas ser teu criado.

- Que sonho infantil  esse? - perguntou Voldemort, ainda sem atacar, mas tambm sem desviar os seus olhos vermelhos dos de Harry.

589

- O Severus Snape no te pertencia - continuou Harry. - O Snape pertencia ao Dumbledore. Servia-o desde o momento em que comeaste a perseguir a minha me. E tu 
nunca te apercebeste disso, precisamente por causa daquilo que no consegues entender. Nunca viste o Snape lanar um Patronus, pois no, Riddle?

Voldemort no respondeu. Continuavam a andar  volta como dois lobos prestes a despedaarem-se.

- O Patronus do Snape era uma cora como o da minha me, porque ele sempre a amou, desde o tempo em que eram crianas. Devias ter percebido isso quando ele te pediu 
que a poupasses.

Harry viu as narinas de Voldemort dilatarem-se, estremecerem.

- Ele desejava-a, mais nada - respondeu, com um riso de escrnio. - Mas quando ela morreu, percebeu que havia outras mulheres, de sangue mais puro e mais merecedoras 
dele...

- Claro. Foi o que ele te disse - aquiesceu Harry -, mas tornou-se espio do Dumbledore a partir do momento em que a ameaaste e nunca mais deixou de agir contra 
ti! O Dumbledore j estava a morrer quando o Snape acabou com ele!

- Isso no interessa! - gritou Voldemort, que tinha ouvido cada uma das palavras de Harry com a mais profunda ateno, mas irrompeu numa risada louca. - No interessa 
se o Snape estava ao meu servio ou ao do Dumbledore, nem quais os obstculos mesquinhos que tentaram interpor no meu caminho! Porque a verdade  que os esmaguei 
a todos como esmaguei a tua me, esse grande amor do Snape! Nem imaginas como tudo isso faz sentido, Potter!

"O Dumbledore queria impedir que me apoderasse da Varinha de Sabugueiro! Queria que fosse o Snape o verdadeiro dono da Varinha! Mas eu antecipei-me, meu rapaz... 
Deitei mo  Varinha antes de ti. Percebi a verdade antes de ti. Matei o Severus Snape h trs horas, e a Varinha de Sabugueiro, o Pau da Morte, a Varinha do Destino, 
 minha. Minha! O ltimo plano do Dumbledore correu mal, Harry Potter!

- Pois correu '"- disse Harry. - Tens razo. Mas antes de tentares matar-me, aconselho-te a pensares no que fizeste... pensa e tenta sentir alguns remorsos, Riddle...

- Que ests para a a dizer?

De todas as coisas que Harry lhe tinha dito, incluindo as revelaes e os insultos, nada chocara tanto Voldemort como aquelas palavras. Harry viu as suas pupilas 
contrarem-se em duas pequenas fendas e a pele em torno dos seus olhos embranquecer.

590

-  a tua ltima hiptese - disse Harry. -  tudo o que te resta... J vi o que te acontecer, se no o fizeres... s um homem... tenta... tenta arrepender-te...

- Atreves-te a...? - repetiu Voldemort.

- Sim, atrevo-me - respondeu Harry -, porque o ltimo plano do Dumbledore no se voltou contra mim. Voltou-se foi contra ti, Riddle.

A Varinha de Sabugueiro tremia nas mos de Voldemort, e Harry segurou com fora a varinha de Draco. Sabia que faltavam poucos segundos.

- Essa varinha no funciona como deve ser contigo porque mataste a pessoa errada. O Severus Snape nunca foi o verdadeiro dono da Varinha de Sabugueiro, porque nunca 
derrotou o Dumbledore.

- Ele matou...

- No ests a ouvir-me? O Snape nunca venceu o Dumbledore!

"A morte do Dumbledore foi planeada pelos dois. O Dumbledore queria morrer sem ser derrotado para ser o ltimo dono da Varinha! Se as coisas tivessem corrido conforme 
o planeado, o poder da Varinha teria acabado com a morte dele, porque ningum lha conquistara!

- Mas ento, Potter, na prtica foi como se o Dumbledore me tivesse dado a Varinha! - A voz de Voldemort tremeu com verdadeiro prazer. - Roubei-a do caixo do seu 
ltimo dono! Tirei-a de l contra os desejos dele! Portanto, o poder da Varinha  meu!

- Ainda no percebeste, Riddle, pois no? No basta possuir a Varinha. T-la, us-la, no faz com que seja realmente tua. No ouviste o que o Ollivander te disse? 
A varinha  que escolhe o feiticeiro... A Varinha de Sabugueiro reconheceu o seu novo dono antes de o Dumbledore morrer, algum que nem sequer lhe chegou a tocar. 
Esse novo dono tirou a Varinha ao Dumbledore contra a sua vontade, sem perceber o que estava a fazer, sem se dar conta de que a varinha mais poderosa do mundo lhe 
dera a sua fidelidade. ..

O peito de Voldemort subia e descia rapidamente, e Harry sentiu a maldio prestes a partir, a ganhar fora na Varinha apontada

ao seu rosto.

- O verdadeiro dono da Varinha de Sabugueiro era o Draco Malfoy.

591

Por um momento houve uma expresso de profundo choque no rosto de Voldemort.

- O que  que isso interessa? - perguntou calmamente - Mesmo que tenhas razo, Potter, isso  indiferente para ti e para mim. J no tens a varinha da fnix o nosso 
duelo depender apenas da nossa habilidade... e, depois de acabar contigo, posso ir tratar do Draco Malfoy...

-  tarde de mais - disse Harry. - Perdeste a tua oportunidade. Eu cheguei l primeiro. Venci o Draco h vrias semanas e tirei-lhe a varinha.

Harry agitou a varinha de espinheiro e sentiu os olhos de todos os ocupantes do Salo cravados nela.

- Portanto, resume-se tudo a isto, no ? - sussurrou Harry. - A varinha que est na tua mo saber que o seu ltimo dono foi Desarmado?  que, se souber... Sou 
eu o verdadeiro dono da Varinha de Sabugueiro.

De repente, viu-se um claro vermelho-dourado no cu encantado sobre as suas cabeas, no momento em que um deslumbrante raio de sol surgiu sobre o peitoril da janela 
mais prxima. A luz atingiu o rosto de ambos ao mesmo tempo, o que fez com que, por instantes, o de Voldemort parecesse apenas uma mancha flamejante. Harry ouviu 
a voz aguda do seu adversrio gritar e tambm ele dirigiu aos cus a sua maior esperana, apontando a varinha de Draco:

- Avada Kedavra!

- Expelharmus!

A coliso assemelhou-se a um tiro de canho, e as chamas douradas que irromperam entre ambos, no centro do crculo que tinham descrito, marcaram o ponto onde os 
feitios se entrechocaram. Harry viu o jacto de luz verde de Voldemort embater no feitio que ele prprio lanara, viu a Varinha de Sabugueiro voar pelos ares, a 
sua silhueta escura contrastando com o sol que se erguia. Girou atravs do tecto encantado como a cabea de Nagini e rodopiou pelo ar em direco ao dono que no 
mataria e que finalmente se tinha apoderado dela E Harry, com a infalvel pontaria de um Seeker, apanhou a Varinha com a mo livre, ao mesmo tempo que Voldemort 
caa para trs, de braos abertos, revirando as pupilas fendidas dos seus olhos escarlates. tom Riddle embateu no cho como qualquer ser mortal, o corpo dbil e 
encolhido, as mos brancas vazias e o seu rosto de serpente sem expresso. Voldemort morrera devido ao efeito de ricochete da sua

592

prpria maldio, e Harry, com duas varinhas na mo, ficou a contemplar o corpo do seu inimigo.

Por um segundo, reinou um silncio assustado, deixando em suspenso o choque provocado por aquela cena; depois um enorme tumulto irrompeu em torno de Harry, os gritos, 
vivas e urros dos presentes rasgando o ar. O sol intenso penetrava pelas janelas, ao mesmo tempo que as pessoas convergiram sobre Harry. Os primeiros a chegar foram 
Ron e Hermione, e foram os seus braos que o envolveram e os seus gritos incompreensveis que no o deixaram ouvir mais nada. A seguir vieram Ginny, Neville, Luna, 
todos os Weasley, Hagrid, Kinsley, McGonagall, Flitwick e Sprout, e Harry no conseguia ouvir uma nica palavra do que diziam, nem percebia de quem eram as mos 
que o agarravam, puxavam, tentavam abra-lo, centenas de mos, todas a quererem tocar no Rapaz que Sobreviveu, a razo que fizera com que tudo tivesse, por fim, 
terminado.

O sol erguia-se, intenso, sobre Hogwarts, e o Salo Nobre brilhava de vida e luz. Harry era o centro de uma mistura de sentimentos de alegria e luto, dor e celebrao 
que ali coexistiam. Queriam que estivesse junto deles, era o seu lder, o seu smbolo, o seu salvador e o seu guia. Aparentemente ningum se lembrava de que no 
tinha dormido e que ansiava pela companhia de apenas alguns deles. Tinha de falar com os que tinham perdido os seus entes queridos, apertar-lhes as mos, ver as 
suas lgrimas, receber os seus agradecimentos, ouvir as notcias que,  medida que a manh passava, chegavam de todos os lados, anunciando que as vtimas da Maldio 
Imperius voltavam a si por todo o pas, que os Devoradores da Morte fugiam ou eram capturados, que os inocentes presos em Azkaban estavam a ser libertados, e que 
Kinsley Shacklebolt fora temporariamente nomeado Ministro da Magia.

Retiraram o corpo de Voldemort e depuseram-no numa cmara ao lado do Salo, longe dos corpos de Fred, Tonks, Lupin, Colin Creevey e mais cinquenta que tinham morrido 
a combat-lo. McGonagall tinha voltado a colocar as mesas das equipas, mas j ningum se sentava pela respectiva ordem, estavam todos misturados, professores e alunos, 
fantasmas e pais, centauros e elfos. Firenze recuperava a um canto, e Grawp espreitava por uma janela partida e as pessoas atiravam-lhe comida para a bocarra escancarada. 
Passado algum tempo, esgotado, Harry deu consigo sentado num banco ao lado de Luna.

593

- Se estivesse no teu lugar, precisava de um bocado de paz e sossego - disse Luna.

- Era mesmo o que eu queria - confirmou Harry.

- Eu distraio-os. Usa o Manto

E, antes que ele pudesse dizer o que quer que fosse, Luna gritou:

- Olhem, um Blibbermg Humdmger! - e apontou para a janela. Voltaram-se todos, e Harry cobriu-se com o Manto e levantou-se.

Assim, podia atravessar o Salo sem ningum dar por nada. Viu Ginny duas mesas adiante. Estava sentada com a cabea no ombro da me; teriam tempo para falar mais 
tarde, horas, dias e at, anos talvez. Viu Neville, com a espada de Gryffindor pousada ao lado do prato enquanto comia, rodeado por um grupo de fervorosos admiradores. 
Foi percorrendo a coxia entre as mesas e avistou os trs Malfoy, abraados, como se no soubessem se deviam estar ali ou no, mas a verdade  que ningum lhes prestava 
a mnima ateno. Para onde quer que olhasse, via famlias reunidas e, por fim, descobriu as pessoas por cuja companhia mais ansiava.

- Sou eu - murmurou, agachando-se entre eles. - Vm comigo?

Levantaram-se imediatamente e juntos, ele, Ron e Hermione deixaram o Salo Nobre. Faltavam grandes pedaos da escadaria de mrmore, uma parte do corrimo tinha desaparecido 
e havia manchas de sangue e destroos em muitos degraus.

Ouviram algures, ao longe, a voz de Peeves a ecoar por entre os corredores, entoando um cntico de vitria composto por ele prprio:

Conseguimos, acabmos com eles, o Potter  o maior. E o Voldy est a apodrecer. Agora vai ser sempre a abrir!

- D uma ideia da dimenso da tragdia, no acham? -perguntou Ron, empurrando uma porta para deixar passar Harry e Hermione.

A felicidade viria, pensou Harry, mas por agora o cansao eclipsava-a. A dor de ter perdido Fred, Lupin e Tonks dilacerava-o como se de uma fenda fsica se tratasse. 
Mas, acima de tudo, sentia um alvio inenarrvel e um forte desejo de dormir. Primeiro, porm, tinha de dar uma explicao a Ron e Hermione que tinham per

594

manecido tanto tempo a seu lado e mereciam a verdade com enorme esforo, contou-lhes tudo, o que tinha visto no Pensatrio, o que tinha acontecido na Floresta e, 
ainda eles no tinham sequer comeado a exprimir todo o choque e espanto que as revelaes de Harry provocavam, quando chegaram ao stio para onde se dirigiam, apesar 
de nenhum deles ter mencionado que local era esse.

Desde a ltima vez que a tinha visto, a grgula que guardava a entrada do gabinete do Director tinha sido derrubada. Jazia de lado, como se tivesse levado um soco, 
e Harry pensou se, naquele estado, ainda conseguiria distinguir as senhas.

- Podemos subir? - perguntou  grgula.

-  vontade - gemeu a esttua

Passaram por cima dela e dirigiram-se  escada em espiral que ascendia lentamente como se fosse uma escada rolante. Chegados ao cimo, Harry empurrou a porta.

Viu de relance o Pensatrio no local onde o tinha deixado, sobre a mesa, e depois um barulho ensurdecedor f-lo exclamar alto e pensar em maldies, no retorno dos 
Devoradores da Morte e no renascimento de Voldemort.

Mas, afinal, eram aplausos Nas paredes, os directores e directoras de Hogwarts aplaudiam-no de p, acenando com os chapus e nalguns casos com as cabeleiras; debruavam-se 
das molduras para apertar as mos uns aos outros; danavam nas cadeiras onde tinham sido retratados; Dily Derwent soluava abertamente, Dexter Fortescue acenava 
com a cometa acstica, e Phineus Niggelus gritou, com a sua voz aguda e esganiada, "E note-se que a equipa de Slytherin deu o seu contributo! Ningum deve esquecer 
o nosso contributo!"

Harry, porm, s tinha olhos para o homem que estava no maior dos quadros, atrs da cadeira do Director. Viam-se lgrimas a carem por detrs dos culos em meia-lua, 
a escorrerem sobre as longas barbas brancas, e o orgulho e gratido que a sua expresso revelava provocaram em Harry o mesmo efeito balsmico da cano da fnix.

Por fim, Harry levantou as mos, e os retratos ficaram respeitosamente em silncio, sorrindo e enxugando os olhos,  espera de o ouvirem falar. No entanto, foi a 
Dumbledore que dirigiu as suas palavras, escolhidas com grande cuidado Apesar de exausto e com os olhos turvos, tinha de fazer um ltimo esforo, pedir um ltimo 
conselho

595

- Aquilo que estava escondido na Snitch - comeou Harry - ficou cado no cho da Floresta. Sei exactamente onde est, mas no vou voltar l para a ir buscar. Concorda?

- Concordo, meu querido amigo - disse Dumbledore, perante a confuso e curiosidade dos outros retratos. -  uma deciso sbia e corajosa, mas tambm no esperava 
menos de ti. H mais algum que saiba onde caiu?

- Ningum - respondeu Harry, e Dumbledore assentiu com a cabea com um ar satisfeito.

- Mas vou ficar com o presente do Ignotus - disse Harry, e Dumbledore sorriu, radiante.

-  claro, Harry,  teu para sempre, at que o ds a algum.

- E ainda h isto.

Harry ergueu a Varinha de Sabugueiro, e Ron e Hermione olharam para ela com uma reverncia que, mesmo confuso e sem dormir, Harry no gostou de ver.

- No a quero - afirmou.

- O qu - disse Ron muito alto. - Ests doido?

- Eu sei que  poderosa - prosseguiu Harry, cansado. - Mas gostava mais da minha. Por isso...

Procurou na bolsa que tinha ao pescoo e tirou as duas metades da varinha de azevinho ainda ligadas por uma finssima pena de fnix. Hermione tinha dito que no 
podia ser reparada, que os estragos haviam sido demasiado graves, mas Harry sabia apenas que, se aquilo no funcionasse, nada mais funcionaria.

Pousou a varinha quebrada sobre a secretria do Director, tocou-lhe com a ponta da Varinha de Sabugueiro e disse "Reparo!".

Nesse momento, a sua varinha tornou a unir-se, soltando fascas vermelhas da extremidade, e Harry soube que tinha conseguido. Pegou na varinha de azevinho e fnix 
e sentiu um sbito calor nos dedos, como se a varinha e a mo rejubilassem com o seu reencontro.

- vou devolver a Varinha de Sabugueiro ao stio de onde veio - disse a Dumbledore, que olhava para ele com grande afecto e admirao. - Pode l ficar. Se eu morrer 
de morte natural como o Ignotus, o seu poder quebrar-se-, no ? O seu dono no ter sido derrotado. E assim acaba-se o seu poder.

Dumbledore acenou com a cabea e sorriram um para o outro.

- Tens a certeza? -insistiu Ron. Havia um ligeiro trao de ansiedade na sua voz ao olhar para a Varinha de Sabugueiro.

- Acho que o Harry tem razo - disse Hermione em voz baixa.

- Essa varinha no vale os danos que causou - rematou Harry. - E, para dizer a verdade -, acrescentou, voltando as costas aos retratos pintados e pensando na cama 
que tinha  sua espera na Torre dos Gryffindor e na possibilidade de Kreacher lhe levar uma sande -, j tive problemas que chegassem para uma vida inteira.

596

597

DEZANOVE ANOS DEPOIS

Naquele ano, o Outono pareceu chegar repentinamente. A manh do primeiro dia de Setembro estava fresca e dourada como uma ma e, enquanto a pequena famlia percorria 
a rua barulhenta em direco  grande estao, enegrecida pela fuligem, os escapes dos automveis e a respirao dos pees condensavam-se no ar frio como teias de 
aranha. Duas grandes gaiolas chocalhavam sobre as malas empilhadas nos carrinhos que os pais empurravam e as corujas que iam dentro delas piavam de indignao. Uma 
menina de cabelos ruivos seguia, a chorar, atrs dos irmos, agarrada com fora ao brao do pai

- No falta muito para tambm ires - sossegou-a Harry.

- Dois anos - choramingou Lily. - Quero ir j!

Os transeuntes olhavam com curiosidade para as corujas, enquanto a famlia abria caminho at  barreira que separava as plataformas nove e dez. A voz de Albus chegou 
aos ouvidos de Harry por sobre o clamor que os rodeava; os seus filhos haviam retomado a discusso que tinham iniciado no carro.

- No voul No vou para os Slytherin!

- Pra com isso, James! - exclamou Ginny.

- S disse que ele podia ir para l - defendeu-se James, dirigindo um sorriso sarcstico ao seu irmo mais novo. - No tem mal nenhum. Ele pode ir para os Slyth...

Mas James viu a me a olhar para si e calou-se. Os cinco membros da famlia Potter chegaram  barreira Olhando por cima do ombro com alguma arrogncia para o irmo 
mais novo, James tirou o carrinho das mos da me e comeou a empurr-lo a correr. Pouco depois j tinha desaparecido.

- Vo escrever-me, no vo? - perguntou imediatamente Albus aos pais, tirando partido da ausncia momentnea do irmo.

- Se quiseres, escrevemos-te todos os dias - respondeu Ginny.

- Todos os dias no - retorquiu Albus rapidamente. - O James diz que a maior parte das pessoas s recebe cartas de casa mais ou menos uma vez por ms.

598

- No ano passado escrevemos ao James trs vezes por semana

- afirmou Ginny.

- No acredites em tudo o que ele te disser sobre Hogwarts

- acrescentou Harry. - O teu irmo  danado para a brincadeira. Lado a lado, empurraram o segundo carrinho, ganhando velocidade. Quando chegaram  barreira, Albus 
estremeceu, mas no se registou qualquer choque. Em vez disso, a famlia surgiu na plataforma nove e trs quartos, obscurecida pelo espesso vapor branco que saa 
do Expresso de Hogwarts. Por entre o fumo moviam-se figuras indistintas, no meio das quais James j tinha desaparecido.

- Onde  que eles esto? - perguntou Albus, ansioso, observando os vultos das pessoas que passavam por eles na plataforma.

- J vamos encontr-los - garantiu Ginny, para o tranquilizar.

Mas o vapor era denso, o que tornava difcil distinguir o rosto das pessoas. As vozes soavam num tom estranhamente alto, separadas das pessoas que as emitiam. Harry 
teve a sensao de ter ouvido Percy a discursar em voz alta sobre os regulamentos das vassouras e ficou contente por ter uma desculpa para no parar a cumpriment-lo.

- Acho que esto ali, Al - disse Ginny de repente.

Um grupo de quatro pessoas apareceu por entre a neblina, junto  ltima carruagem. Os seus rostos s se tornaram visveis quando Harry, Ginny, Albus e Lily se aproximaram.

- Ol - cumprimentou Albus, num tom de grande alvio. Rose, que j envergava o uniforme de Hogwarts, novinho em

folha, sorriu-lhe.

- Ests bem estacionado? - perguntou Ron a Harry - Eu estou. A Hermione no acreditava que eu conseguisse passar num exame de conduo para Muggles, pois no? Achava 
que eu ia ter de Confundir o examinador.

- No, no  verdade - disse Hermione - Sempre acreditei em ti!

- Por acaso, Confundi-o um pouco - segredou Ron a Harry, enquanto iavam em conjunto a mala e a gaiola de Albus para dentro do comboio. - S me esqueci de olhar 
pelo espelho retrovisor, mas a verdade  que posso recorrer a um Feitio Supersensonal para isso.

De regresso  plataforma, deram com Lily e Hugo, o irmo mais novo de Rose, numa animada discusso sobre qual a equipa em que ficariam quando finalmente fossem para 
Hogwarts.

599

- Se no fores para os Gryffindor, deserdo-te - brincou Ron. - Mas no quero pressionar-te.

- Ron!

Lily e Hugo deram uma gargalhada, mas uma expresso grave espalhou-se nos rostos de Albus e Rose.

- Ele no est a falar a srio - garantiram Hermione e Ginny, mas Ron j no estava a prestar-lhes ateno. Olhando para Harry, acenou dissimuladamente com a cabea 
para um local a cerca de cinquenta metros. O vapor tinha diminudo um pouco, permitindo ver distintamente trs pessoas por entre a nvoa.

- Olha quem ele !

Draco Malfoy encontrava-se de p, junto  mulher e ao filho, com um casaco escuro abotoado at o pescoo. Estava a ficar com o cabelo um pouco ralo, o que fazia 
salientar o queixo pontiagudo. O filho era to parecido com Draco como Albus com Harry. Draco viu Harry, Ron, Hermione e Ginny a olharem para ele, fez um ligeiro 
aceno com a cabea e tornou a voltar-se de costas.

- Ento aquele  o pequeno Scorpius - disse Ron entre dentes. - Tens de ter melhores notas que ele em todos os testes, Rose. Felizmente herdaste a inteligncia da 
tua me.

- Por amor de Deus, Ron - protestou Hermione, com um ar meio austero, meio divertido. - No tentes p-los uns contra os outros ainda antes de as aulas comearem!

- Tens razo, desculpa. - No entanto, sem conseguir controlar-se, Ron acrescentou: - Mas no te faas demasiado amiga dele, Rosie. O av Weasley nunca te perdoaria 
se casasses com um puro-sangue

- Ol!

Era James que tinha reaparecido. J se tinha desembaraado da mala, da coruja e do carrinho, e era bvio que tinha montes de novidades para contar.

- Est ali o Teddy - disse, ofegante, apontando por cima do ombro para as nuvens de vapor cada vez mais espessas. - Acabei de o ver! E sabem o que  que ele estava 
a fazer? Aos beijos  Victoire!

Olhou para os adultos, visivelmente desapontado com a falta de reaco deles.

- O nosso Teddy! O Teddy Lupin Aos beijos  Victoire! A nossa prima! Perguntei ao Teddy o que  que estava a fazer .

- Interrompeste-os? - perguntou Ginny. - s tal e qual o Ron...

600

- ... e ele disse que tinha vindo despedir-se dela! E depois mandou-me ir dar uma volta! Est aos beijos com ela - repetiu James, como se receasse que as suas palavras 
no tivessem sido bem claras.

- Era to bonito se se casassem - murmurou Lily, extasiada.

- Assim, o Teddy passaria a ser realmente da famlia.

- Ele j janta em nossa casa umas quatro vezes por semana - disse Harry. - Por que  que no o convidamos para ir viver connosco e assim arrumamos o assunto de uma 
vez por todas?

- Boa! - gritou James, entusiasmado - No me importo de dividir o quarto com o Al... O Teddy podia ficar no meu quarto!

- No - disse Harry com firmeza. - Tu e o Al s ficam no mesmo quarto quando eu quiser que a casa venha abaixo.

Olhou para o velho relgio que noutros tempos pertencera a Fabian Prewett.

- J so quase onze horas.  melhor irem para o comboio.

- No te esqueas de dar um abrao nosso ao Neville! - disse Ginny a James enquanto se despedia dele

- Me! No posso dar um abrao a um professor]

- Mas tu conheces o Neville... James revirou os olhos.

- Conheo-o fora da escola. Mas l  o Professor Longbottom, no ? No posso entrar na aula de Herbologia e dar-lhe um abrao!

Abanando a cabea para as patetices da me, demonstrou os seus sentimentos para com Albus, dando-lhe um pontap.

- Adeus, Al. Cuidado com os Thestrals!

- Pensava que eram invisveis? Disseste-me que eram invisveis! Mas James limitou-se a sorrir, deixou que a me lhe desse um

beijo, deu um abrao rpido ao pai e entrou no comboio que se enchia rapidamente. Viram-no acenar e depois correr pelo corredor  procura dos amigos.

- No te preocupes com os Thestrals - disse Harry a Albus.

- So seres dceis, no tens de ter medo deles. Alm disso, no vais para a escola nas carruagens. Vais nos barcos.

Ginny deu um beijo de despedida a Albus.

- At ao Natal

- Adeus, Al - disse Harry, quando o filho o abraou. - No te esqueas de que o Hagrid te convidou para lanchar na prxima sexta-feira. No te metas com o Peeves. 
No quero que entres em duelos enquanto no aprenderes como . E no deixes o James chatear-te.

601

- E se eu for para os Slytherin?

A pergunta foi feita s ao pai, em surdina, e Harry percebeu que s a aproximao da partida podia ter obrigado Albus a revelar o profundo e sincero terror que essa 
ideia representava para ele.

Harry baixou-se, para que o rosto de Albus ficasse ligeiramente acima do seu. Era o nico dos seus trs filhos que tinha herdado os olhos de Lily.

- Albus Severus - disse Harry em voz baixa, para que ningum pudesse ouvir a no ser Ginny, que teve o cuidado de fingir que estava a dizer adeus a Rose, entretanto 
j dentro do comboio -, tens o nome de dois directores de Hogwarts. Um deles era dos Slytherin e foi provavelmente o homem mais corajoso que alguma vez conheci.

- Mas imagina que...

- Se isso acontecer, a equipa dos Slytherin ganhar um aluno excelente, no ? Para ns,  indiferente, Al. Mas, se for importante para ti, vais conseguir escolher 
os Gryfiindor em vez dos Slytherin. O Chapu Seleccionador tem em conta a escolha dos alunos.

- A srio?

- Comigo foi assim - garantiu-lhe Harry.

Nunca tinha dito aquilo a nenhum dos seus filhos e viu no rosto de Albus o espanto que aquelas palavras provocaram. Mas as portas do comboio vermelho estavam a fechar-se, 
e os vultos indistintos dos pais chegavam-se  frente para um ltimo beijo, um recado de ltima hora. Albus saltou para dentro da carruagem, e Ginny fechou a porta. 
Os alunos debruavam-se nas janelas. Muitos rostos, tanto dentro como fora do comboio, pareciam estar voltados para Harry.

- Por que  que esto todos a olhar? - perguntou Albus, quando ele e Rose se voltaram para olhar para os outros alunos.

- No te preocupes com isso - disse Ron. -  por minha causa. Sou famosssimo.

Albus, Rose, Hugo e Lily deram uma gargalhada. O comboio ps-se em movimento, e Harry caminhou ao seu lado, olhando para o rosto magro do filho, j corado de excitao. 
Harry continuou a sorrir e a acenar, apesar da ligeira sensao de perda que o invadiu ao ver o filho afastar-se...

O ltimo vestgio de vapor evaporou-se no ar outonal. O comboio deu uma curva, quando a mo de Harry ainda estava erguida, a dizer adeus.

602

- Vai correr tudo bem - murmurou Ginny.

Ao olhar para ela, Harry baixou a mo e tocou na cicatriz em forma de raio que tinha na testa.

- Eu sei que vai.

H dezanove anos que a cicatriz no o incomodava. Estava tudo bem.

603

NDICE

I A Ascenso do Senhor das Trevas 11

II Em Memria de Dumbledore 21

in A Partida dos Dursley 32

IV Os Sete Potters 43

V A Queda do Guerreiro 59

VI O Vampiro de Pijama 78

VII O Testamento de Albus Dumbledore 99

VIII O Casamento 120

IX Um Esconderijo 140

X A Histria de Kreacher 153

XI O Subomo 173

XII Magia  Poder 191

XIII A Comisso de Registo dos Feiticeiros de Origem Muggle 210

XIV O Ladro 227

XV A Vingana do Goblin 239

XVI Godric's Hollow 260

XVII O Segredo de Bathilda 274

XVIII A Vida e as Mentiras de Albus Dumbledore ... 290

XIX A Cora Prateada 300

XX Xenophilius Lovegood 319

XXI O Conto dos Trs Irmos 332

XXII Os Talisms da Morte 346

XXIII A Manso dos Malfoy 363

XXIV O Fabricante de Varinhas 386

XXV A Casa das Conchas 406

XXVI Gringotts 419

XXVII O Esconderijo Final 438

XXVIII O Espelho Desaparecido 446

XXIX O Diadema Perdido 459

XXX A Fuga de Severus Snape 472


XXXI A Batalha de Hogwarts ... 487

XXXII A Varinha de Sabugueiro 510

XXXIII A Histria do Prncipe ... 526

XXXIV Outra Vez a Floresta 551

XXXV King's Cross 562

XXXVI A Falha no Plano 577

Dezanove Anos Depois ... 598


604

605

Estrela Mar

1. Sexta-Feira ou a Vida Selvagem, Mithel Tourmer

2. Ol! Est a algum?, Jostem Gaarder

3. O Livro de Alice, Alice Stunale

4. Um Lugar Mgico, Susanna Tamaro

5. Senhor Deus, Esta  a Ana, Fynn

6. O Cavaleiro Lua Cheia, Susanna Tamaro

7. Uma Mo Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma, Iam Lisboa

8. Tobias e o Anjo, Susanna Tamaro

9. Harry Potter e a Pedra Filosofal, J K Rowhng

10. O Palcio do Prncipe Sapo, Jostem Gaarder

11. Harry Potter e a Cmara dos Segredos, J K Rowling

12. O Rapaz do Rio, Tini Bowler

13. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, J K Rowhng

14. O Segredo do Senhor Ningum, David AJmond

15. No Reino do Sonho, Nataha Bebiano

16. O Polegar de Deus, Louis Sachar

17. Viagem a Um Mundo Fantstico, Jostem Gaarder

18. Jackpot - Um Rapaz Cheio de Sorte, Peter Carev

19. Harry Potter e o Clice de Fogo, j K Rowhng

20. Novo Mundo, Gilhan Gross

21. O Crisntemo, o Golfinho e a Estrela, Jac queime Wilson

22. O Cantor do Vento, Willtam Nicholson

23. O Reino de Kensuke, Mnhael Morpurgo

24. O Rio das Framboesas, Karen Wallate

25. A Fuga de Xangri-La, Michael Morpurgo

26. A Escola de Feitiaria, Debra Doyle e James I) Mudoruld

27 O Pssaro da Neve, Sue Welford

28 O Segredo da Torre, Debra Doyle e James D Mudonald

29. Os 5 Moklins - A Herana Moklin, Bruno Matos

30. Os Reinos do Norte, Philip Pullman

31. O Feiticeiro e a Sombra, Ursula K L Gum

32. Os Mutantes, Kate Thompson

33. O Grande Mago do Norte, Eva Ibbotson

34. Os 5 Moklins - O Herdeiro Perdido, Bruno Matos

35. A Estatueta Mgica, Debra Dovlc e James D Macdonald

36. Teodora e o Segredo da Esfinge, Luisa Fortes da Cunha

37. Os Tmulos de Atuan, Ursula K L Gmn

38. A Torre dos Anjos, Philip Pullman

39. Conspirao no Palcio, Debra Doyle e James D Macdonald

40. A Praia mais Longnqua, Ursula K L Gum

41 Molly Moon - O Fantstico Livro do Hipnotismo, Georgii B\ng

42. Teodora e a Poo Secreta, Luisa Fortes da Cunha

43. O Telescpio de mbar, Philip Pullman

44. Tehanu - O Nome da Estrela, Ursula K L Gum

45. Os 5 Moklins - O Legado Final, Bruno Matos

46. A Minha Famlia e Outros Animais, Gerald Durrell

47. O Castelo do Feiticeiro, Debra Doyle e James D Macdonald

48. A Biblioteca Mgica, Jostem Gaarder e Klaus Hagerup

49. O Pequeno Cavalo Branco, Elizabeth Goudge

50. A Menina das Estrelas, Jerr^ Spmelli

51. A Fonte Misteriosa, Natalie Babbitt

52. Teodora e os Trs Potes Mgicos, Luisa Fortes da Cunha

53. Coraline e a Porta Secreta, Neil Gaiman

54. A Filha do Rei, Debri Doyle e James D Macdonald

55 O Pssaro de Fogo, Nicky Singer

56. O Tempo no Pra, Michael Hoeye

57. Os Mistrios da Meia-noite, Kate Thompson

58 O Segredo da Plataforma 13, Eva Ibbotson

59. Harry Potter e a Ordem da Fnix, J K Rowhng

60. O Mistrio do Tempo Proibido, Michaei Hoeye

61. Teodora e o Livro dos Feitios, Lutsa Fortes da Cunha

62. Otto e a Cidade Mgica, Charlotte Haptie

63. O Peixe Azul, Margarida Fonseca Santos

64. A Ilha do Tempo Perdido, Silvana Gandolfi

65. Viagem ao Paraso Verde, Eva Ibbotson

66. Teodora e o Caldeiro Sagrado, Luisa Fortes da Cunha

67. A Lista dos Desejos, Eom Colter

68. O Castelo Encantado - Os Mundos de Chrestomanci, Diana Wvnnejones

69 O Grande Jogo, David Almond

70. Os Magos de Caprona - Os Mundos de Chrestomanci, Diana Wvnnejones

71. A Semana das Bruxas - Os Mundos de Chrestomanci, Diana Wynne Jones

72. Milhes, Frank Cottrell Boyce

73. Teodora e as Esttuas Misteriosas, Luisa Fortes da Cunha

74. As Vidas de Christopher Chant - Os Mundos de Chrestomanci, Diana Wynne Jones

75. O Mistrio do Quadro Desaparecido, Blue Balhett

76. O Ceptro de Fogo - O Portal dos Sonhos, Catarina Arajo

77. O Livro Misterioso, Margarida Fonseca Santos

78. Teodora e a Dha Invisvel, Luisa Fortes da Cunha

79. Lionboy - O Rapaz Leo, Zizou Corder

80. O Feiticeiro do Palcio Azul, Alan Temperley

81. O Esconderijo Subterrneo, Patrick Wood

82 Charlie Bon e a Escola de Magia, Jenny Nimmo

83. Harry Potter e o Prncipe Misterioso, J K Rowhng

84. As Duas Feiticeiras, Eva Ibbotson

85. Um Amigo Invulgar, L S Matthews

86. O Herdeiro Desconhecido - O Portal dos Sonhos, Catarina Arajo

87. A Maldio do Relgio, John Bellairs

88. Enigma na Escola de Feitiaria, Debra Doyle e James D Micdonald

89. Encruzilhada no Tempo, Margarida Fonseca Santos

90. Teodora e o Relgio Mgico, Luisa Fortes da Cunha

91. Voa Comigo', Mana Teresa Maia Gonzalez

92. O Grito do Lobo, Susan Gates

93. Boas Frias, Miguel!, Maria Teresa Maia Gonzalez

94. A Feiticeira da Luz, Andrew Matthews

95. As Fadas do Vento, Anna Dale

96. O Mistrio do Talism de Jade, Blue Balliett

97 Peter Pan e o Feitio Vermelho, Geraldine McCaughrean

98. Um Cantinho no Paraso, David Almond

99. O Espantalho e o Seu Criado, Philip Pullman

100. Teodora e os Anis Lendrios, Luisa Fortes da Cunha

101. O Segredo do Aprendiz, Paul Bajoria

102. A Aliana Secreta - O Portal dos Sonhos, C atarma Arajo

103. A Cidade das Sombras, Jeanne DuPrau

104. O Aprendiz de Guerreiro, Margarida Fonseca Santos

105. As Montanhas Misteriosas - As Terras de Elyon Livro I, Patruk ( arman

106. Teodora e o Mistrio do Vulco, Lusa Fortes da Cunha

107. Harry Potter e os Talisms da Morte, J K Rowling
